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terça-feira, 17 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27830 Humor de caserna (247): O anedotário da Spinolândia (XIX): Quem conta um conto, acrescenta-lhe quase sempre um ponto...

Guiné > Região de Tombali > s/l (algures) > Maio de 1973 > Costa Gomes, Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, dá início, a 25 de maio de 1973, a uma visita ao Comando Territorial Independente da Guiné (CTIG), para se inteirar do agravamento da situação militar e analisar medidas a tomar com vista a garantir o espaço  de manobra, cada vez mais apertado, do poder político em Lisboa.

Na foto, vê-se o gen Costa Gomes à direita de Spínola, falando com milícias guineenses. Foto do francês Pierre Fargeas (técnico que fazia a manutenção dos helis AL III, na BA 12, Bissalanca), gentilmente enviada pelo nosso camarada Jorge Félix (ex-alf mil pil AL Iii,  BA12, Bissalanca, 1968/70).

Foto (e legenda): © Pierre Fargeas / Jorge Félix (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


I.  A propósito das anedotas (e não propriamente piadas) de Spínola e da Spinolância... É um manancial que aparentemente nunca mais acaba... Vamos continuar com o tema já  que estamos com a mão na massa.... 

Já parecem as anedotas (neste caso, mais piadas do que anedotas) do Samora Machel, que, no verão quente, estavam sempre a sair,  "quentes e boas", da "fábrica dos retornados do Rossio"... 

"By the way"... Recorda-se que a malta que veio de Moçambique,  tinha um pó danado ao Samora Machel, que obrigava o "tuga" a ir para a machamba para se "reeducar".  

Eram histórias  que me contava, na Praça do Comércio,  onde trabalhávamos juntos, no Núcleo de Informática do Ministério das Finanças, a minha colega e amiga Domitília, "retornada de Moçambique"... (O que é feito, de ti, rapariga ? Deves ter voltado à berças em Moncorvo; ainda me lembro dos quilinhos de amêndoa que te comprei, para te ajudar a compor o orçamento.)

Mas voltando á Spinolândia....Há algumas anedotas muito saborosas, ligadas à vida quotidiana da tropa na Guiné... São memórias orais da guerra colonial,  relatos de antigos  furriéis e alferes milicianos, mas também de praças e de capitães, comandantes de companhia que, em geral, se sentiam honrados com a visita do general, quando ele aparecia por "boas razões" (melhorar o moral da tropa, trazer soluções para problemas que chegavam ao seu conhecimento, inteirar-se da situação humana e operacional, etc.). 

Também a malta do QG (ou dos QG/CTIG e QG/CCFAG)   sabe muitas histórias do governador e comandante-chefe:   goste-se ou não era uma figura "impagável". Tal como o Gasparinho e outros "cromos" do CTIG.

São frequentemente atribuídas, estas anedotas, a episódios reais, mas raramente ou nunca aparecem documentadas em fontes oficiais  ou oficiosas, o que é típico da tradição do humor de caserna (que é essencialmente oral e informal).

II. De um modo geral, o nome de António de Spínola, ainda hoje circula na Internet,  quase sempre rodeado de pequenas histórias que misturam respeito, ironia, bravata, culto da personalidade, glorificação da guerra...  e o típico humor da tropa. 

Claro que não são verificáveis como “factos históricos”,  como de resto todas as anedotas que envolvem figuras gradas (e carismáticas) de um país, como Portugal, e de uma época tão rica de acontecimentos político-militares como foi a das décadas de 1960/70. 

Por outro lado,  circulam há mais de meio século entre veteranos que conheceram o tenente-coronel  e depois coronel de cavalaria António Spínola em Angola (1961/64) ou então na Guiné (1968/73), como brigadeiro e general, no dul cargo de governador e comandante-chefe... 

Claro que quem conta um conto, acrescenta-lhe (quase sempre um ponto). Neste caso, os "retoques" ou os pontos São da responsabilidade do editor de serviço.

São anedotas, enfim, que aparecem em memórias,  ora publicadas em livros ou reproduzidas nas redes sociais, "em tertúlias como a  do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné" (sic).

  Aqui vão mais umas tantas, com a ajuda das ferramentas de IA e os "retoques" do editor LG



1. A barba mal feita em Bafatá, 

Conta-se que, numa visita, em Bafatá,  a um  quartel (talvez o EREC, o esquadrão de cavalaria, arma donde ele era oriundo), Spínola passou revista à companhia formada à pressa, como era normal, em visitas-surpresa.

Parou diante de um soldado que tinha a barba claramente de  três dias.

— Então, meu rapaz, a guerra não te dá tempo para te barbeares ?

— Barbeio-me, sim, senhor, meu general.

—  Não me parece. Deixa-me cá ver melhor...

E aproximou-se do desgraçado, que começou a ver o caso mal parado... E lembrou-se de uma desculpa.

— É que não tem havido água na torneira, meu general.

Spínola ficou em silêncio um segundo e respondeu:

— Pois então vais-te barbear hoje … que eu trato da água.

Segundo quem conta ou história, nessa mesma manhã o administrador da circunscrição e o comandante do batalhão levaram uma "valente piçada".


2. O mapa ao contrário em Bissorã

Num briefing em Bissorã, um jovem alferes estava a explicar uma operação apontando para um mapa grande pendurado na parede.

Spínola interrompeu:

— Ó nosso alferes… o senhor já deu conta que o mapa está de pernas para o ar?

O alferes ficou branco como a cal da parede, ajeitou os óculos e virou o mapa.

Spínola acrescentou então, fleugmaticamente:

— Ó homem, não se preocupe… o inimigo também se engana e, para mais, não sabe ler.

A sala inteira rebentou a rir, o que aliviou a  tensão do briefing.


3. A pista de Teixeira Pinto

Em Teixeira Pinto (hoje,  Canchungo), a pista de aviação era famosa por ficar frequentemente em mau estado.

Numa visita, o piloto de DO-27 avisou:

— Meu general, a pista está curta e com buracos.

Ao que o Spínola respondeu:

— Não faz mal. A pista é curta, mas a coragem não tem limites.

Diz quem estava a bordo que o piloto balbuciou, entre dentes:

— Bem, a coragem é de V. Excia, meu general… mas eu é que sou o piloto desta coisa...


4. O telefonema no QG de Bissau

No quartel-general em Bissau, um capitão pediu audiência para relatar um problema grave de abastecimentos no mato. 

Expôs tudo com grande seriedade: a companhia estava de tanga.

Spínola ouviu, com muita atenção, e perguntou:

— Capitão, quantos homens tem na companhia?

— Cento e cinquenta, fora as baixas, meu general.

— E quantos se queixam?

— Todos, e até os que estão na enfermaria.

Spínola pegou no telefone e disse para o ajudante de campo:

— Ó Bruno, manda já víveres e  munições para estes homens… porque uma companhia que se queixa toda,  é uma companhia que ainda está viva!

 
5. O relatório demasiado otimista

Num briefing operacional, o major de operações terminou dizendo:

— A situação no nosso setor está completamente controlada.

Spínola perguntou:

— Completamente?

— Sim, meu general.

Resposta seca:

— Então o senhor está na guerra errada.

O major não se atreveu a replicar, com medo de levar com um "par de patins".

(Seleção, condensação, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)
 ______________

Notas do editor LG;

Último poste da série > 15 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27822: Humor de caserna (246): O anedotário da Spinolândia (XVIII): Ó nosso furriel, a Guarda não destroça, recolha!.... (Domingos Robalo, ex-fur mil art, BAC 1 / GAC 7 / GA 7, Bissau, 1969/71; foi também cmdt do 22º Pel Art, em Fulacunda, 1969/70)

domingo, 15 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27822: Humor de caserna (246): O anedotário da Spinolândia (XVIII): Ó nosso furriel, a Guarda não destroça, recolha!.... (Domingos Robalo, ex-fur mil art, BAC 1 / GAC 7 / GA 7, Bissau, 1969/71; foi também cmdt do 22º Pel Art, em Fulacunda, 1969/70);


Domingos Robalo, ex-fur mil art,
BAC 1 / GAC 7 / GA 7, Bissau, 1969/71;
foi comandante do 22º Pel Art, em Fulacunda
(1969/70); nasceu em Castelo Branco,
trabalhou na Lisnave,
vive em Almada; tem cerca de
 3 dezenas de referências no nosso blogue.

I. Mais algumas algumas anedotas de caserna da Spinolândia (1968/73), quando o general Spínola foi Comandante-Chefe e Governador da então Guiné Portuguesa (hoje Guiné-Bissau) (*). 

A primeira é do Domingos Robalo, as restantes foram selecionadas por nós, de uma recolha feita pela IA (ChatGPT / Open AI)


1. Ó nosso furriel, a Guarda não destroça, recolhe

Esta é do Domingos Robalo, merece honras de montra principal (isto é, ser editada em poste):

A minha comissão na Guiné foi de maio/69 a maio/71. A única alcunha que conheci do General era a do “Caco Baldé”. Devido ao uso do monóculo.

A minha unidade ficava nas traseiras do QG: era a BAC1, que mais tarde passou a GAC7 e por fim em GA7, com a chegada do reforço da antiaérea na sequência da operação "Mar Verde”.

Em um sábado fui nomeado “sargento da Guarda” ao QG e áreas envolventes. A meio da manhã fui informado da entrada do General pela porta de armas onde eu estava Tinha o pessoal da Guarda formado e pronto para as honras devidas.

O General chegou na viatura e saiu desta para passar a porta de armas, a pé. Foi prestada a guarda de honra mas eu, como miliciano, não conhecia algumas regras e normas devidas para estas honrarias. Assim, quando o general se afastou, mandei “destroçar” o pelotão.

De imediato, o general vira-se para trás e diz-me:


— Ó nosso Furriel, não sabe que a Guarda não destroça, mas recolhe ?!

Encavacado, respondi, com as formalidades exigidas no momento, que não sabia.

A última palavra do general:

— Então não esqueça.

Nunca mais esqueci e fui passando palavra aos camaradas.

sábado, 14 de março de 2026 às 10:26:00 WET


2. O mapa sempre otimista

Num dos famosos briefings do QG/CCFAG em Bissau, um oficial de operações apresentava o mapa cheio de alfinetes vermelhos (zonas de controlo e/ou atividade do PAIGC).

Spínola olhou e comentou:

— Se continuarmos a pôr alfinetes vermelhos, qualquer dia não sobra mapa.

O oficial respondeu:

— Mas, meu general, também temos os azuis (posições das NT)

Ao que Spínola comentou, sarcástico:

— Pois… mas os azuis não se mexem.

A sala ficou em silêncio.


3. A barba regulamentar


Spínola introduziu uma certa tolerância com barbas e bigodes, sobretudo nas tropas africanas e em algumas unidades especiais. Não era habitual ele preocupar-se com esses detalhes. Os oficiais superiores da sua entourage faziam-no discretamente, mandando cortar barbas e cabelos.

Numa inspeção a um quartel, um alferes muito jovem apareceu com uma barba enorme. O general dessa vez não gostou e perguntou:

— Então, nosso alferes, isso é barba de guerrilheiro ou de revolucionário?

Resposta nervosa:

— É barba de operacional, meu general.

Diz-se que Spínola respondeu:

— Muito bem… desde que também seja um bom operacional no mato.

4. Soldado africano, "manga de contente"

Numa visita a tropas africanas, o general perguntou a um jovem soldado:

— Então, "djubi", gostas de combater sob a nossa bandeira ?

O soldado respondeu prontamente:

— Sim, meu general.

Spínola insistiu:

— E porquê?

Resposta:

— Porque o meu primeiro sargento paga sempre patacão a  tempo e horas.

A história correu pelos quartéis como exemplo da sabedoria pragmática dos soldados do recrutamento local.


5. O relatório demasiado optimista

Um comandante de companhia enviou um relatório dizendo que a sua zona estava “totalmente controlada”.

Poucos dias depois houve um ataque do PAIGC nessa área. Spínola comentou ironicamente:

— Se isto é totalmente controlado, então eu não quero imaginar o que seja meio descontrolado.


6. A definição de “Spinolândia”

Entre os militares do CTIG  começou a circular o termo “Spinolândia” para designar a Guiné durante o comando de Spínola.

Um capitão terá dito numa messe:

— Isto agora é a Spinolândia.

Perguntaram:

— Então, porquê?

Resposta:

— Porque aqui tudo funciona à maneira do nosso general: administração civil, política, guerra, propaganda, psico, reordenamentos,  cerimónias, idas a Meca,  louvores e porradas.


(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT / Open Ai) | Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
_____________

Nota do editor LG:


(*) Último poste da série > 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27820: Humor de caserna (245): O anedotário da Spinolândia (XVII): A Anedota e a Piada...

sexta-feira, 13 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27820: Humor de caserna (245): O anedotário da Spinolândia (XVII): A Anedota e a Piada...




O general e o monóculo... A anedota foi recolhida pelo António Ramalho. 

Ilustração: IA generativa (ChatGPT / Open AI),
composição orientada pelo editor LG



1. Por que é que, ainda hoje, passados quase 60 anos (!), nós, antigos combatentes, gostamos de contar "anedotas e "piadas" do general Spínola ? Aliás, mais "anedotas" do que "piadas"... E mais sobre o  Spínola do "antes" do que o Spínola do "depois"...


Para nós, "antigos combatentes da Guiné", será sempre o "Caco Baldé", o "nosso general", o "Homem Grande de Bissau", o "Aponta Bruno", o "gajo que os tinha no sítio"... 

Para outros, o Spínola do pós-25 de Abril e do PREC, será o coveiro do Estado Novo e do Império, o conspirador, o "bombista",  etc.,  amado e odiado à esquerda e à direita, mas que chegará a marechal, com Mário Soares (teias que a política e a história tecem).

De facto, fazemos uma distinção do Spínola antes e depois do 25 de Abril... Como se fossem duas figuras completamente distintas... O Spínola carismático, prussiano, populista, reformista, federalista,  luso-tropicalista,  "pai dos guinéus", que esteve à beira de ganhar a guerra da Guiné (!), e o Spínola desastrado, falhado, impopular, sinistro, do PREC e do exílio...

Por outro lado, há uma diferença entre "anedota" e "piada"...

Facto curioso: já não contamos anedotas do Salazar nem do Marcelo Caetano,  quando muito ainda contamos piadas requentadas (como aquela do Salazar que andava sempre com mão esquerda no bolso  das calças para manter a dita...dura!). 

Mas contávamos muito mais do último presidente da República do Estado Novo, o Américo Tomás, tanto anedotas como piadas.

É certo, também já se passaram mais de 50 anos, o Estado Novo está enterrado (e bem enterrado) mas nem por isso as anedotas do final do regime salazarista  deixam de ser fascinantes, davam para fazer uma tese de doutoramento (se a nossa Academia tivesse sentido de humor, que é coisa que não tem)...  

Para quem não sabe (os nossos filhos e netos não sabem...), havia a censura, a que só a anedota ou a piada de café, de rua ou de tasca escapava, enquanto formas (orais) do sarcasmo popular...

Também dizem muito, essas anedotas,  sobre as personalidades caricaturadas do regime de então:
  • a "astúcia distante, provinciana, beata" de Salazar, o "Botas";
  • a "eterna indecisão" de Marcelo Caetano, o professor;
  • e, claro, a proverbial falta de perspicácia (real ou inventada pela sátira popular) do Américo Tomás, contra-almiranhte e depois almirante, o "Cabeça de Abóbora", o "Corta-Fitas"...
Pelo menos enquanto Salazar foi "vivo", não terá tido qualquer iniciativa política, era um chefe de Estado meramente cerimonial ou protocolar, um contra-almirante (vai a almirante em 1970), que ganhara o lugar em eleições fraudulentas contra o carismático general da FAP Humberto Delgado...

Aos olhos do Zé Povinho (e na televisão de então, a preto e branco) só aparecia em "inaugurações", a cortar fitas. 

 Daí ter ficado conhecido como o "corta-fitas". Era alvo de chacota popular pela sua falta de jeito para o discurso em público, e pelas suas  muitas "gafes", que ficaram gravadas no imaginário popular, com destaque para frases hilariantes como "É a primeira vez que cá estou desde a última vez que cá estive".

Curiosamente, o Marcelo Caetano nunca teve propriamente uma alcunha popular, de traço feio e cru, caricatural: era o senhor professor, o delfim, o continuador, o sorridente... e outros epítetos, mais ou menos  neutros.. Mas não sabemos qual o seu cognome que ficará para a História.

Já o "venerando Chefe de Estado" Américo Tomás, o Almirante, tem  uma série de anedotas, curtas, mas com pilhéria, muito focadas na sua obsessão em inaugurar tudo o que fosse obra pública ou privado para a qual fosse convidado a cortar a fita.... Daí o cognome "corta-fitas".

Contava-se que o Almirante foi visitar uma escola primária, cujo edifício tinha sido remodelado. A professora, excitadissima,  nervosa, apresenta-lhe o melhor aluno da turma, o "Sabe-Tudo". Tomás olha para o menino, faz-lhe uma festa na cabeça e diz:

— Então, meu rapaz, já sabes ler e escrever?

— Saiba V. Excia que sim, senhor, senhor Presidente! — responde a criança, orgulhosa e devidamente industriada pela professora.

O Almirante, tirando uma tesoura do bolso, comenta:

— Muito bem, então vamos lá inaugurar esse caderno escolar que ainda está em branco!


2. Com a  ajuda das ferramentas de IA ( que por enquanto ainda são de borla), vamos explorar alguns pontos de vista sobre as anedotas e as piadas que envolvem figuras históricas como o "nosso" general Spínola.

Mas comecemos pela distinção entre a "anedota" e a "piada".

A anedota, em geral:
  • é uma pquena história real ou apresentada como real (tem uma base factual ou verosímil);
  • é um episódio narrativo;
  • é centrada em (ou ligada a) uma pessoa concreta (um general, como o Spínola, ou um político, como o Salazar, ou um escritor como António Lobo Antunes, que é fértil em cenas de cariz sexual);
  • pode (ou tende a) ser humorística, visar ou não uma crítica social ou política;
  • mas não precisa de "punchline" (em inglês) (final ou  clímax engraçado)

Exemplo: “Uma vez o general disse isto… e aconteceu aquilo…”


Já a piada, normalmente;

  • é mais curta e direta, é rápida;
  • joga muitas vezes com trocadilhos ou situações engraçadas;
  • é uma construção deliberadamente humorística (inventada para provocar riso);
  • tem um estrutura de surpresa final ("punchline")

Exemplo típico: “Sabem qual é a diferença entre…?”


Muitas anedotas de caserna, militares, acabam por  funcionar como piadas, mas a sua origem costuma ser um episódio real ou verosímil  (de tropa ou de guerra).

Em termos latos, uma anedota é um relato breve de um acontecimento curioso, invulgar ou engraçado. No entanto, o seu sentido varia conforme o contexto:

  • sentido popular: uma narrativa curta com um final inesperado (o "punchline"), cujo objetivo principal é provocar o riso; é  sinónimo de "piada";
  • sentido histórico e literário: um episódio particular ou pouco conhecido da vida de uma figura pública que ilustra um traço do seu caráter; aqui, a anedota não tem de ser necessariamente cómica, mas sim reveladora.

3. Origem da palavra anedota

A palavra vem do grego antigo: ἀνέκδοτα (anékdota). Componentes: an- = “não” + ekdotos / ekdidonai = “publicar, dar a público”

Significado literal: “coisas não publicadas” ou “factos inéditos” (que por isso não constam da biografia das figuras públicas...).

O termo ficou famoso no século VI com o historiador bizantino, Procópio de Cesareia, que escreveu um livro chamado Anekdota (que ficou conhecido em latim como "Historia Arcana"ou  história secreta, em português).

Nesse livro reuniu episódios íntimos, secretos e escandalosos,  sobre o imperador Justiniano I, a imperatriz Teodora e a corte bizantina que obviamente não podiam constar de uma publicação oficial...

Daí o termo "anedota" (facto escondido ou episódio revelador sobre alguém), distinto de "piada" (mecanismo humorístico para provocar o riso).

Quando nós, antigos combatentes, contamos histórias do general Spínola, na verdade estamos a fazer o uso clássico da anedota: pequenos episódios que revelam o carácter dessa figura (que foi nosso comandante-chefe e governador da Guiné)  e que descrevem a atmosfera desse tempo.

Talvez valha a pena perguntarmo-nos por que é que a nossa cultura militar (ou castrense) (e muitos nós estiveram lá três ou quatro anos!), produz tantas anedotas sobre os nossos generais (Spínola) e demais oficiais (o Gasparinho, o Onze, o Metro e Meio), mas também sobre camaradas nossos (o Marcelino da Mata, o Piça, básicos, vagomestres, enfermeiros, médicos, capelães...) e até sobre o inimigo (a "Maria Turra", o 'Nino' Vieira). (São alguns exemplos que me ocorrem, e com referências no blogue.)

É material  interessante para uma antropossociologia do humor de caserna!


4. E acabamos por hoje com uma anedota pícara do general Spínola, contada pelo António Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71), alentejano de Vila de Fernando, Elvas, membro da Tabanca Grande, com o nº 757, desde 20/10/2017:


O nosso General teve um pequeno acidente com o seu monóculo, enviou o seu impedido a um oculista da cidade, cuja empregada era familiar do proprietário, natural duma aldeia perto da minha.



Avisado depois de reparado o monóculo, foi ele mesmo levantá-lo com aquele seu ar austero, de camuflado engomado, sempre simpático para com as populações.

No a,to da entrega pergunta-lhe a empregada:

— Senhor Governador, quer que embrulhe ou leva no olho?

— Oh!, menina, dê-me cá o monóculo, que no olho levam vocês!...

A rapariga desmanchou-se a rir quando nos contou!


Comentário do editor LG:

Esta é uma das melhores anedotas, seguramente a mais brejeira,  que eu já li do "nosso general"... É de antologia, valendo a pena repeti-la aqui,  para quem não a leu na altura, ainda na pandemia (**)

Nunca conhecemos na intimidade, o general Spínola, mas tudo indica que era perito em usar, pelo menos no CTIG,  tanto a  ironia seca, ríspida, como o timing que é apanágio de um  general, sabendo  jogar  tanto com a estratégia (que é a arte de comandar tropas) como com as palavras... 

A cena é quase cinematográfica: a loja do oculista (não devia haver muitas em Bissau),  o monóculo, o ar austero (e intimidatório) do ilustre cliente,  a empregada com a pergunta inocente (ou não tão inocente quanto isso...) e a resposta que só um homem daqueles, de cavalaria,  poderia dar, entre a autoridade e a malícia.

E um privilégio para nós poder publicar esta anedota que vem de um alentejano,  um grão-tabanqueiro, que sabe como é que se conta uma história com sabor a terra e a guerra. Até parece que o Spínola, mesmo no meio daqueles anos todos de conflito, nunca perdeu o jeito para um gracejo que deixava todos a  sorrir com o devido respeito  (coisa que é diferente de rir até partir... o coco!)

Quem esteve na Guiné  sabe que havia, em geral,  uma certa cumplicidade entre quem mandava e quem obedecia. Pelo menos ao nível de companhia, 160 homens que eram obrigados a viver, a sobreviver, a lutar, a suportar-se uns aos outros, em condições duras, difíceis,  num espaço delimitado por duas fiadas de arame farpado... 

E é essa cumplicidade, mesmo que dúbia, que continuamos a celebrar (e cultivar) aqui. Sem qualquer preocupação (muito menos obrigação) com o "politicamente correto". É  que o riso também ajudava a humanizar a situação de isolamento, de risco, de guerra, de abandono, em que vivíamos.

quinta-feira, 12 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27817: Humor de caserna (244): O anedotário da Spinolândia (XVI): o horror à "guerra do ar condicionado"... "Senhores, se têm calor é porque estão vivos, os mortos não transpiram"


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante. 

Foto (e legenda): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Quando António Spínola assumiu o comando da Guiné, em meados de 1968, ainda brigadeiro, com "carta branca" de Salazar para inverter o curso das coisas, ter-se-á criado entre os militares um ambiente muito próprio a volta da sua figura: uma auréola de heroísmo (alimentada pela sua atuação em Angola, como lendário comandante do BCAV 345, 1961/64; um mistura de disciplina rígida (que alguns temiam que descambasse para o militarismo típico da arma de cavalaria); a par da teatralidade política e da multiplicação de episódios quase caricatos. 

Nas nossas casernas, entre oficiais, sargentos e praças começaram então a circular muito rapidamente muitas anedotas sobre Spínola e a Spinolândia.

O termo tem um sentido tanto negativo (de crítica, ironia e sarcasmo) como positivo, associado a um estilo completamente novo de fazer a guerra e governar um território ultramarino, à beira do colapso em termos económicos, sociais, militares e políticos.  

Spinolândia é, antes de mais, uma expressão de cunho satírico e político que surgiu para descrever o estilo de governação e a intensa campanha de propaganda levada a cabo pelo general António de Spínola enquanto Governador e Comandante-Chefe da Guiné Portuguesa, o "consulado"  (1968-1973), como diziam alguns de nós.
 
A expressão era utilizada, frequentemente, com ironia por opositores ou observadores críticos, para designar o território da Guiné como um "laboratório" psicossocial e político-militar muito próprio do Spínola e dos spinolistas (um conjunto brilhante de oficiais que ele congregou à sua volta). O termo pode remeter para ideias como:

  • personalismo / populismo/ culto da personalidade: a ideia de que a Guiné se havia tornado um feudo pessoal onde a imagem do general (com o seu icónico monóculo e pingalim) era omnipresente, para mais reunindo os dois papéis de liderança, o de político (como governador) e o de militar (como comandante-chefe);
  • "Guiné Melhor": o slogan do General que prometia desenvolvimento social e económico para conquistar as populações ("conquistar corações e mentes"), tentando contrariar a influência do PAIGC e, decididamente, subtraí-las ao seu controlo;
  • a africanização do exército (criando a "nova força africana", incluindo companhias de base étnica, o batalhão de comandos, os destacamentos de fuzileiros especiais);
  • propaganda intensiva / mediatização do conflito: uma gestão de imagem sem precedentes na história do Estado Novo, que transformou a Guiné na montra de uma "nova política" ultramarina, completamente distinta do imobilismo da elite caquética do regime.
É difícil de dizer quando surgiu o termo Spinolândia,  mas tudo indica que se consolidou no início da década de 1970, coincidindo com o auge da visibilidade mediática de Spínola.

No início do seu "consulado", entre meados de 1968 e a Op Mar Verde (22 de novembro de 1970), o general apostou fortemente na comunicação social, nacional e estrangeira. O termo começou a circular nos corredores políticos de Lisboa e entre os militares para descrever a autonomia quase absoluta com que ele governava, à margem das diretrizes rígidas do ministro do ultramar, Silva Cunha, que ele de resto desprezava por ser um "paisano", "provinciano", que não percebia nada de tropa, de guerra e de África.

A consagração crítica vai de 1971 até meados de 1973: foi nesta fase que a expressão ganhou mais força, especialmente entre os setores que criticavam o custo astronómico das reformas de Spínola e o seu crescente protagonismo político, que muitos viam como uma ameaça ao regime de Marcello Caetano. (Aliás, no final do seu mandato acabou mesmo em ruptura com o chefe do Governo, o qual,  para salvar as jóias da coroa do império, Angola e Moçambique,  estava disposto a aceitar o sacrifício da Guiné.)

Curiosamente, enquanto que, para os seus detratores, a o termo Spinolândia era uma crítica ao egocentrismo do general, para os seus apoiantes, os spinolistas, representava a esperança de uma solução reformista, federalista, com uma dupla componente política e militar, para o beco sem saída da guerra do ultramar, que culminaria mais tarde, já em 1974, na publicação de "Portugal e o Futuro".

Deste tempo há muitas anedotas sobre Spínola e a Spinolândia, algumas recolhidas em memórias, outras transmitidas oralmente.

Seria uma pena perderem-se. Temos feito um esforço, no blogue, para as recolher e partilhar. Como em todo o anedotário associado a figuras lendárias, carismáticas e controversas como o general Spínola, torna-se difícil, senão impossível, identificar a sua autoria, origem, contexto, e muito menos ainda a sua veracidade factual. 

Temos feito uma recolha das anedotas que circulam na Net, através das ferramentas de IA. Estamos a selecionar algumas das melhores e das mais verosímeis. Algumas das versões que lemos, podem ser variantes de anedotas já conhecidas, contadas e recontadas.

Infelizmente esta é uma faceta do nosso Com-chefe (não falamos dele como político no pós-25 de Abril, mas apenas como protagonista maior da guerra em que também participámos), menos bem tratada (para não dizer mal tratada) pelo seu biógrafo, o historiador Luís Nuno Rodrigues. ( Que, de resto, não deve ter posto sequer os pés na Guiné.)

Era conhecido por diversas alcunhas, o "Velho" (já desde Angola), o "Caco",  o "Caco Baldé",  o  "Aponta Bruno",  o "Bispo",  o "Homem Grande de Bissau", o "Com-Chefe", o Governador", o "Maior deste",  o "Nosso General"

O estilo pessoal de Spínola - monóculo, luvas, farda impecável, ar teatral e presença muito física e viril nas visitas ao terreno, na cidade ou no mato - marcou profundamente quem serviu no CTIG. Isso gerou um verdadeiro folclore de anedotas de caserna,  muitas nascidas no próprio QG ou em messes de oficiais em Bissau, em Bissalanca e no mato...


2. Há anedotas para todos os gostos e oriundas das mais diversas fontes (desde os simples soldados até aos pilotos e mecânicos da FAP e aos colaboradores mais próximos do general  e do governador).

 Era sabido, por exemplo, que ele não suportava o  ar condicionado, o que era um suplício para quem tinha que participar nos briefings, no QG/CCFAG ou no palácio do governador. (Isso tem-me sido testemunhado pelo cor inf ref Mário Arada Pinheiro, que foi colaborador íntimo do nosso Com-chefe, em 1972/73.)

As ferramentas de IA, que temos consultado, confirmam que "essa história do ar condicionado aparece muitas vezes nas memórias de quem trabalhou perto de António de Spínola no quartel-general de Bissau"... 

Na realidade, "ele tinha fama de não suportar ar condicionado, o que na Guiné era quase uma forma de tortura para quem ficava horas nos briefings"...

Entre oficiais do estado-maior e pessoal da Força Aérea circulavam várias anedotas “mais picantes” ou "pícaras" (no sentido militar do termo: mais atrevidas e sarcásticas). Aqui vão algumas:

(i) O suplício do briefing tropical

Num briefing longo no QG, com o calor e a humidade típicos de Bissau, um major (que não sabia da aversão do general) aproximou-se discretamente do aparelho de ar condicionado e ligou-o.

Spínola interrompeu a exposição, levantou a cabeça e interpelou a assistência:

- Quem foi o criminoso que ligou isso?

O  pobre do major confessou a ousadia. Resposta de Spínola:

- Nosso major, na Guiné há duas coisas que matam oficiais: o ar condicionado… e o inimigo. O segundo ao menos é mais honesto.

Claro que o aparelho voltou a ficar desligado e a reunião continuou com os oficiais a suar em bica.

(ii) O mapa colado à mesa

Outra que corria no estado-maior: num briefing, em dia particularmente de calor de estufa, o suor de um capitão começou literalmente a pingar sobre o mapa operacional.

Spínola observou a cena e comentou:

- Capitão, não molhe o mapa… que depois a guerra escorre.

O capitão respondeu:

- Meu general, isto não é água… é a estratégia a evaporar-se.

A sala rebentou a rir.

(iii) A toalha no pescoço

Há quem conte que num outro briefing, em pleno mês de maio,  um oficial apareceu com uma pequena toalha branca ao pescoço.

Spínola perguntou-lhe:

- Isso é parte do novo uniforme?

Resposta:

- Não, meu general… é equipamento de sobrevivência.

(iv) A vingança da Força Aérea

Entre pilotos e mecânicos da Força Aérea havia outra pequena maldade humorística.

Dizia-se que,  quando Spínola visitava uma unidade no mato, e depois regressava ao QG, os pilotos comentavam:

— O nosso general não gosta de ar condicionado… por isso voamos sempre com as portas abertas.

E os mecânicos respondiam:

— Assim ele tem sempre  ar.... natural!.

(v) A frase mais repetida

A frase que muitos veteranos dizem ter ouvido (ou ouvido contar) em reuniões longas no QG era:

— Senhores, se têm calor é porque estão vivos. Os mortos não transpiram.

(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT / OpenAI, Le Chat /Mistral AI) | Condensação,  introdução, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

___________________

Nota do editor LG:

segunda-feira, 9 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27806: Humor de caserna (243): uma história de partir o coco a rir, a de uma "amizade improvável": o piloto de AL III, Jorge Félix, e o prisioneiro Malan Mané (Rui Felício, 1944-2026)


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > Algures sob os céus da Guiné, aos comandos de um AL III, o nosso camarada Jorge Félix (ex-alf mil pil, AL III, Esq 122, BA 12, Bissalanca, 1968/70; frequentou o 1º curso de pilotos de helicóptero, em Tancos, em 1967, aberto a milicianos... Entre os colegas de curso,  estava o Duarte Nuno de Bragança.


Guiné > s/l > s/d (c. 1968/70) > O Com-chefe António Spínola, numa das viagens a bordo do helicóptero do Jorge Félix. Dizia-se que este era um dos pilotos preferidos do nosso comandante.


A caderneta de voo do Jorge Félix, onde consta a operação em que foi capturado o prisioneiro a que se refere esta história (Op Nada Consta, 18 de agosto de 1969)

Fotos (e legendas): © Jorge Félix (2008). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá  > Carta de Duas Fontes (Bengacia)  (1959) / Escala 1/50 mil > Posição relativa de  Galomaro, onde ocorreu a história  do  Malan Mané, capturado pelos páras (BCP 12)  (Op Nada Consta, 18 de agosto de 1969)... O PAIGC tinha uma "barraca" na mata próxima da bolanha do Rio Biesse (a vermelho).  O Jorge Félix sinalizou duas povoações,  a azul: Dulo Gengéle e Sinchã Lomá, a sudoeste de Galomaro.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 > Mansambo > 
CART 2339 (1968/69) > "Interrogatório" (que mais parece um exame oral da 3ª classe no Posto Escolar Militar...)  ao prisioneiro, Malan Mané (sentado, à esquerda). Quem preside ao ato é o nosso saudoso alf mil at art Torcato Mendonça (1944-2021) (à direita), visivelmente bem disposto tal como o militar guineense que faz de intérprete (de pé, ao centro). 

Assistem à cena 3 "viriatos" da CART 2339... O seu olhar é de espanto,  curiosidade e desconfiança... A  foto foi tirada pelo alf mil Cardoso, e chegou-nos à mão através do ex-fur mil Carlos Marques dos Santos, de Coimbra (1943-2019). "Pela disposição dos presentes é fácil imaginar a brutalidade do interrogatório. O militar das patilhas sou eu, na escrita, Torcato Mendonça"

Foto (e legenda): © Carlos Marques dos Santos (2006) 
Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Recuperamos e reeditamos uma mensagem e uma história do Rui Felício (1944-2026) (*), ex- alf mil at inf,  CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), autor da série "Estórias de Dulombi", e recentemente falecido:

Data - 12 de março de 2008:

Meu Caro Amigo Luís Graça,

Depois de vários anos sem notícias do Jorge Félix (**), tive a felicidade de o reencontrar há dias através de e-mail que ele me enviou.

Soube do meu endereço, por meio do nosso blogue,  que ele  tem lido...

Relembrou-me uma história curiosa que se passou em Galomaro numa operação militar em que ele esteve envolvido e da qual resultou um prisioneiro do PAIGC que pernoitou na sede da CCAÇ 2405.

É essa história que, no seguimento de outras anteriores te tenho enviado, que agora te peço que tenhas o incómodo de ler e decidir se lhe achas interesse para publicação no blogue.

Além da história propriamente dita, juntei-lhe algumas fotos cedidas pelo Jorge Felix, cuja publicação autorizou, bem como do endereço de um filme do YouTube.

Aceita os meus melhores cumprimentos, depois de tão longa ausência e os parabéns renovados pelo esforço que tens dedicado ao blogue que de muita utilidade tem sido para tantos de nós.


2. Série Humor de Caserna


O Piloto de Al III, Jorge Félix, e o prisioneiro Malan Mané  

por Rui Felício (1944-2026)

(i) Preâmbulo

Durante cerca de 3 semanas estacionou na sede da nossa CCAÇ 2405, em Galomaro / COP 7, uma companhia de paraquedistas (aliás, duas, CCP 122 e 123 / BCP 12), para fazer limpeza de alguns objectivos do PAIGC, que as informações militares detectaram nas imediações da zona operacional da CCAÇ 2405.

No apoio a essa Companhia de paraquedistas, incluía-se o helicóptero pilotado pelo meu grande amigo alferes mil piloto Jorge Félix.

O episódio que vou contar poderia ter resultado em catástrofe, como mais adiante se compreenderá, mas o que permanece na memória, é de facto a situação picaresca que, passado o perigo, a seguir se desenvolveu.

Antes do relato dos factos, é importante dar a conhecer a personalidade do Jorge Félix. Sem ela, esta história não teria o sal e a pimenta que a maneira de ser dele lhe conferem.

(ii) A personalidade do Jorge Félix

O Jorge Félix, a quem ainda hoje me ligam laços de grande amizade, foi piloto de helicópteros da Força Aérea em Bissalanca, BA 12,  nos anos de 1968 a 1970.

Para além do seu elevado profissionalismo, capacidade técnica e conhecimento do território, que o tornaram, na opinião generalizada, como um dos melhores, senão o melhor piloto de helicópteros que terão passado pela guerra da Guiné, reunia e ainda reúne, invulgares qualidades difíceis de encontrar todas concentradas numa mesma pessoa.

Aquelas que mais apreciei foram e ainda são, apesar dos anos passados;
  • um apurado sentido de humor;
  • uma jovial e permanente boa disposição que alastrava a quantos o rodeavam;
  • um permanente lenço de seda colorido em volta do pescoço que era a sua imagem de marca;
  • e uma aptidão especial para rapidamente aprender a dominar as técnicas das mais variadas especialidades.
Refiro-me ao domínio da fotografia e da imagem, da música e, sobretudo, dos corações femininos! Dizem que destroçou vários na sua passagem por Bissau, Bafatá, Galomaro e sei lá quantas mais terras da Guiné...

(iii) A Op Nada Consta (18 de agosto de 1969: destruir um acampamento nas matas do Rio Biesse)

Mas vamos à história de cuja parte final fui testemunha.

A parte inicial foi-me descrita pelo próprio Jorge Felix e confirmada pelos paraquedistas intervenientes.

Em 18 de agosto de 1969, às 09h30, o Jorge Félix transportou no seu helicóptero um grupo de paraquedistas que iam fazer um assalto, a uma base do PAIGC, identificada pelos serviços de informações militares da Guiné, como estando localizada na região de Galomaro.

Ao procurar local para a aterragem perto do objectivo, em plena mata, o Jorge Felix foi descendo o helicóptero e, a uns 5 metros do chão, a deslocação de ar provocada pelo movimento das pás do aparelho, afastou uma série de ramos de arbustos deixando a descoberto um guerrilheiro do PAIGC que ali se havia emboscado.

O homem estava armado com um RPG7, e a granada colocada, apontando para o helicóptero, o que naturalmente deixou em pânico o piloto e os tripulantes.

Na verdade, se o gatilho tivesse sido premido, era o destruição do helicóptero e de algumas vidas, senão todas, daqueles que o tripulavam.

O Jorge Félix que foi quem primeiro avistou o guerrilheiro, gritou aos paraquedistas que de imediato saltaram do heli e aprisionaram o homem sem necessidade de dispararem um único tiro, desarmando-o acto contínuo.

Pelos vistos, o susto e a surpresa dele foram tão grandes, ao avistar inesperadamente o helicóptero sobre a sua cabeça, que lhe devem ter paralisado os movimentos e o raciocínio... para sorte dos militares que enchiam o aparelho...

(iv) O regresso a Galomaro

E a partir daqui já fui testemunha ocular...

Regressados a Galomaro, o prisioneiro (4) foi fechado numa sala da casa onde funcionava a secretaria da CCAÇ 2405, aguardando ali que lhe fosse dado o destino que os altos comandos de Bissau lhe determinassem.

Como nunca antes na CCAÇ 2405 tivéssemos feito prisioneiros, aquele homem mais parecia uma ave rara enjaulada em jardim zoológico em dia de grande afluência de visitantes.

Todos queriam vê-lo e o seu aspecto era o de um animal acossado e aterrorizado, certamente porque a propaganda que lhe tinham enfiado no cérebro, lhe fixara a ideia de que os soldados colonialistas haviam de o torturar até à morte...

A verdade é que ninguém lhe fez mal... Pelo contrário, vendo-o assim aterrorizado, procurámos tranquilizá-lo e dar-lhe de comer, o que foi sempre recusando, possivelmente porque pensava que a comida estaria envenenada.

Assisti a dada altura, a um diálogo que jamais esquecerei e que não resisto a tentar reproduzir tanto quanto a memória mo permita, passados já tantos anos.

(v) A conversa do Jorge Félix com o prisioneiro

O Jorge Felix entrou na sala, onde eu me encontrava com o prisioneiro e com mais um ou dois soldados, com o lenço de seda esvoaçando, o habitual ar sorridente e descontraído, e dirigiu-se cordatamente ao prisioneiro:

 Então como vai, meu amigo? Está tudo bem consigo?

O prisioneiro, consciente de que aquele piloto tinha todas as razões do mundo para se sentir revoltado pelo sucedido uma ou duas horas antes, encolheu-se receoso e ficou, tenso e em silêncio, esperando a vingança...

O Jorge Félix, insistiu:

− O senhor é casado?

O homem fez um sinal de assentimento com a cabeça, e o Jorge Felix prosseguiu:

− Pois é, a sua esposa lá em casa a remendar-lhe as peúgas, coitada, e o senhor anda para aqui a brincar às guerras... E tem filhos?

Mais um movimento afirmativo do prisioneiro incentivou o Jorge Felix a prosseguir:

− Sabe, o senhor parece ser uma pessoa de bem, por isso devia estar em casa a ajudar a sua esposa, a acompanhar os estudos dos seus filhos... Em lugar disso, anda por aí com uma arma daquelas nas mãos, sujeito a que ela se dispare sem querer e ainda vir a magoar alguém, ou magoar-se a si próprio... Já viu em que situação a sua família ficaria se o senhor viesse a sofrer algum acidente? Quem iria depois cuidar deles? Já pensou nisso?

O homem cada vez entendia menos daquela conversa mansa, daqueles conselhos simpáticos vindos de um oficial português que se habituara a considerar como seres desumanos e cruéis.

Quanto mais o Félix falava, mais ele se encolhia, sentado a um canto contra a parede, se calhar a pensar em que momento lhe iriam fazer mal...

O Félix não desistia da sua prelecção, tentando que o prisioneiro se descontraísse e estabelecesse com ele algum diálogo.

− Ora diga-me lá, o senhor estava com aquela perigosa arma nas mãos, para quê? Se era para disparar uma bazucada contra nós, porque não o fez?

Finalmente o prisioneiro sentiu-se na obrigação de responder:

− Porqui tem medo! Helicóptero é suma mosca... quando olha a gente nunca mais despega di nós...

O Jorge Felix ripostou de imediato:

− Isso é verdade! Mas nunca faríamos mal a uma pessoa como o senhor, que tem família constituída, que aparenta ser uma pessoa de bem... E porque é que não quer comer?... Sabe que tem que se alimentar para poder dar assistência aos seus filhos... A menos que não lhe agrade a comida... Realmente esse esparquete que lhe deram, não tem grande aspecto... E os olhos também comem, não é? Quer vir jantar fora comigo? Um frango de churrasco e umas cervejolas? Eu pago!

Brincando ou não, a verdade é que com toda esta conversa o Félix conseguiu que a tensão do prisioneiro se distendesse e, inacreditavelmente, este aceitou o convite!

O Felix, saiu para pedir autorização aos paraquedistas para levar o homem a comer um franguinho no restaurante do Regala, o único aliás que existia em Galomaro. Estes autorizaram desde que o prisioneiro fosse acompanhado por um soldado, para se garantir que não fugiria...

E foi assim que o Jorge Felix, à falta de melhor companhia, saiu para a night de Galomaro com o novo amigo conquistado às hostes do PAIGC que poucas horas antes podia tê-lo mandado para os anjinhos...

E jantaram juntos... E trocaram confidências que só o Felix poderá revelar...

O Jorge Félix pagou o jantar, como prometera! Com exclusivo recurso aos seus capitais próprios.

É uma divida que, segundo me disse, gostaria de lhe cobrar se o homem ainda estiver vivo e se lhe for possível reencontrá-lo.

Anexo três fotos que o Félix me enviou.

Rui Felício
Ex-alf mil inf, CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70)

Lisboa, 11 de Março de 2008

(Revisão / fixação de texto, título: LG)

3. Comentário do editor LG:

Meus amigos e camaradas:

É uma história a ler e reler. Uma daquelas de partir o coco a rir... Não me canso de a revisitar (***). E o mérito é tanto do narrador como do Jorge Félix e, de algum modo, do pobre Malan Mané que, três semanas depois, ia morrendo ao meu lado, um jovem a quem deram uma bandeira, um hino, um RPG 2, enfim, uma causa para lutar, viver e morrer. (Era biafada, da região de Quínara, tal como o seu comandante, o Mamadu Indjai, futuro carrasco de Amílcar Cabral, e que morrerá a seguir, em 1973, fuzilado sem honra nem glória, no ajuste de contas entre "cavalos" e "cavaleiros" do PAIGC).

O Malan Mané era apontador de RPG 2 (e não 7), se bem me lembro. Foi, de facto, capturado pelos paraquedistas do BCP 12, em operação conjunta do Sector L1 (BCAÇ 28252, Bambadinca, 1968/70) e COP 7 (Bafatá) (Op Nada Consta, 18 de Agoso de 1969) (em que também participei, tal como o Torcato Mendonça e o Carlos Marques dos Santos) (****) ...

As forças paraquedistas eram a CCP 123, a 2 Gr Comb, e a CCP 122, a 1 Gr Comb. Ambas as unidades estavam aquarteladas temporariamente em Galomaro. O Malan Mané, depois de Galomaro, foi levado para Bambadinca, para interrogatórios. Também esteve em Mansambo. Estava ao meu lado, no 2º Gr Comb, CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, que gravemente ferido (Op Pato Rufia, no Xime, a 7 de Setembro de 1969, o "meu batismo de fogo").

Esta história, "escrita" a quatro mãos" (Rui Felício e Jorge Félix), é um tesouro de humanidade, sensibilidade, inteligência emocional e humor pícaro no meio daquela merda de guerra. Bem merecia mais comentários dos nossos leitores, cada vez mais cansados e distraídos. 

É uma história que nos honra e nos delicia, e que diz muito sobre a nossa maneira de ser e de estar, como portugueses, mesmo em situações-limite como a guerra... Voltaremos a ela num próximo poste da série "Nomadizações de um marginal-secante".
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Notas do editor LG:

(*) O Rui Felício (1944-2026), juntamente com o Paulo Raposo, o Victor David (1944-2024) e o Jorge Rijo (de quem não sabemos nada há muito), fazia parte dos famosos baixinhos de Dulombi, os quatro alferes milicianos da CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Galomaro e Dulombi, 1968/70), reunidos sob o poilão da Tabanca Grande...

Vd. poste de 8 de Dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1352: Estórias de Dulombi (7): Perigos vários, a divisa dos Baixinhos de Dulombi (Rui Felício)

(**) Vd. postes de:

28 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2592: Voando sob os céus de Bambadinca, na Op Lança Afiada, em Março de 1969 (Jorge Félix, ex-Alf Pil Av Al III)

12 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2627: Vídeos da Guerra (8): Nha Bolanha (Jorge Félix, ex-Alf Mil Piloto Aviador, 1968/70)

18 de Março de 2008 > Guiné 63/74 - P2660: Notas de leitura (10): Jorge Félix, o nosso piloto aviador, fala do livro do Beja Santos e evoca o Alf Mil Brandão (CCAÇ 2403)

(***) Último poste da série : 4 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27793: Humor de caserna (242): "Está a ver, meu alferes ? Era melhor ter limpado o sebo ao gajo" (Alberto Branquinho, "Cambança Final, 2013, pp. 77-79)

(****) Vd. postes de:

25 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P906: CART 2339 e Malan Mané, duas estórias para duas fotos (Torcato Mendonça)
23 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16519: Manuscrito(s) (Luís Graça) (97): O 'prisioneiro' Malan Mané... a quem cedo, talvez demasiado cedo, deram um arma e uma bandeira e um hino

quarta-feira, 4 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27793: Humor de caserna (242): "Está a ver, meu alferes ? Era melhor ter limpado o sebo ao gajo" (Alberto Branquinho, "Cambança Final, 2013, pp. 77-79)



(i)  ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; 

(ii) advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, outrora capital de um império macrocéfalo;

(iii) depois de ter passado por Coimbra como estudante;

(iv) é um dos grandes contistas da guerra da Guiné, a da nossa guerra (que não foi pior nem melhor do que as guerras dos outras, foi a "nossa guerra", e bastou, esperemos);

(v) é autor, entre outros,  dos livros de contos "Cambança"; "Cambança Final" e "Deixem a Guerra em Paz",  

(v) tem mais de 160 referências no nosso blogue.

(vi) faz parte da Tabanca Grande desde 26/8/2008, altura em que venceu a relutância de se associar ao nosso blogue,  ao ler o nosso apelo, "Não deixemos que sejam os outros a contar a nossa história por nós".
 

1. O escritor (que continua a ser nosso camarada) Alberto Branquinho tem aceite, com pundonor & pudor, ser "pirateado" e metido, avulso, nesta série, "humor de caserna". 

Há dias comentou: "Obrigado por apreciares o que venho escrevendo. Estou a acabar mais um livro (que, talvez, seja o último)". (...) quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026 às 16:43:00 WET). 

Eu interpretei o cumprimento e a (in)confidência como sendo "luz amarela" para, de vez em quando, eu poder lá ir, aos seus livros, roubar-lhev mais um "contito" (não, não é uma nota de mil escudos,  uma fortuna no nosso tempo de meninos e moços), um história do nosso quotidiano de guerra, para a malta  ler com tempo e vagar... 

É, afinal,  como os ovos da avó, a quem a gente assaltava o "galinheiro" (que era o seu "mealheiro"), e ela fingia que não via nada nem sabia de nada...

Hoje escolhi este microconto: há tempos tinha-lhe dado 4 estrelas (apontamento, a lápis, ao alto na página 77)...Hoje acrescento-lhe mais meia estrela, ao relê-lo. 

Lembrei-me, assim de repente,  do "bico-de-obra" que era, para uma companhia de intervenção (como a minha CCAÇ 12, composta por praças do recrutamento local, e meia dúzia de graduados "tugas) ir para o "mato" e "fazer prisioneiros"... Não era nenhum "ronco", era uma "manga de chatice"...

Sabíamos, no regresso ao quartel, que um prisioneira era sempre o "cabo dos trabalhos"... Passados dois ou três dias, o prisioneiro passava à condição de prisioneiro-guia... E lá continuava o nosso calvário...

A partir daí, ele deixava de nos pertencer. E sabíamos que, depois de "cumprida a missão", tínhamos que o entregar, "vivo e inteiro", aos "donos da Spinolândia"... 

Os nossos soldados, fulas, estavam sempre desejantes que ele, mesmo preso por uma corda, tentasse a fuga, para ter um bom pretexto  para lhe "dar cabo do canastro" ( já não me lembro como se diz em fula)...

Eles acreditavam piamente que "um balanta a menos era um turra a menos"... E não eram capazes de se  imaginar  em situação semelhante, "presos dos turras",  em que aí, o Zé Turra, balanta, também rosnaria, entre dentes,  que "um fula a menos era um cão dos colonialistas a menos"!...

O autor faz, como convém, para evitar qualquer suscetibidade, a sua declaração de interesse (e eu corroboro): "“Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”.


Capa do livro de Alberto Branquinho  - Cambança final: Guiné, guerra colonial:  contos.  Lisboa,Vírgula,  2013, 224 pp. 







Fonte: Excerto de Alberto Branquinho  - Cambança final: Guiné, guerra colonial:  contos.  Lisboa, Vírgula,  2013, pp. 77-79  

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 21 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27756: Humor de caserna (241): O mistério do peixe mole, capturado num afluente do rio Mansoa, perto da Ponta Augusto Barros (Vargas Cardoso, 1935-2023, ex-cap inf, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

terça-feira, 3 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27788: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (39): A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar, nos bailes do Greco, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)


Fonte: Imagens e texto: Página do Facebook do nosso saudoso camarada Rui Felício (1944-2026)  > 5 de dezembro de 2025



Ilustração de Rui Borges (com a devida vénia...), um dos antigos condiscípulos e amigos do Rui Felício, da Turma A do 6.º Ano (1960/ 61), do Liceu D. João III, Coimbra. Também ele seguiu direito e, se não erramos, é magistrado aposentado, vivendo em Lisboa (tem página no Facebook, aqui). Também ele é um antigo combatente, tendo estado em Angola, BCAÇ 1875 (1966/68). Além de poeta e ilustrador de talento (tardio?).


1. Mais um microconto nostálgico do nosso Rui Felício (1944-2026). Uma  pequena obra-prima. Título: "Nos Bailes do Greco"... 

Por uma rápida pesquisa na Net, descobri que o "Greco", em Coimbra, era uma associação ou um grupo de amigos, da geração dos "baby-boomers", que adorava dançar e tinha o culto do Elvis Presley... 

Foi lá que o nosso  Rui Felício terá conhecida a rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar... Dou esse título a esta pequena história.  É uma pequena homenagem ao Rui e à sua/nossa geração que fez a guerra e a paz.


A rapariga "Singer Plano Inclinado" com quem a malta gostava de dançar,
no bailes do Greco

por Rui Felício (1944-2026)

Ela colava o corpo ao par com quem dançava mas o rosto e o pescoço encaixavam no pescoço do parceiro, desviando a cara, quase torcendo o resto do corpo para obviar tal postura.

Havia naquela altura um reclame a uma máquina de costura que inventara uma revolucionária forma de costurar e que consistia em alinhavar o tecido de forma inclinada sem necessidade de o retirar para esse efeito.

Era a famosa Singer Plano Inclinado!

A tal moça com quem a malta gostava de dançar, tomou tal “slogan” como alcunha. E a malta avisava:

 Na próxima música sou eu quem vai dançar com a “Singer Plano Inclinado”, ouviram ?!

Rui Felício


(Revisão / fixação de texto, título: LG)

2. Comentário do editor LG

Quando parte alguém da nossa Tabanca Grande, como o Rui Felício, que carregava memórias tão densas do leste da Guiné, a começar pelo desastre do Cheche de que ele foi um dos sobreviventes (mas em que perdeu mais de 1/3 dos seus homens),  deixa sempre um vazio que só as histórias conseguem, em parte, preencher.

Este "microconto" do Rui Felício não são mais do que meia dúzia de linhas,  é verdade, mas é uma pequena joia de observação social e humor de época. Quando o li, na sua página do Facebook, o que me cativou logo  foi  a capacidade  do Rui em transformar um detalhe (digamos técnico ou comercial,  da sua época da adolescência, a publicidade à máquina de costura Singer) numa metáfora comportamental.

Ele não descreve um passo de dança, reconstitui um atitude. Que delícia este contraste, que ironia (sem ser sarcasmo!), na descrição da rapariga, sem nome, que "colava o corpo" mas "desviava o rosto"... nos bailes do Greco!...  (Noutras terra, como a minha,  seria o baile dos Bombeiros.)

É o esboço do retrato dos tabus da nossa sociedade, ainda muito conservadora, a dos finais dos anos 50 / princípios dos ano 60, em que à proximidade física permitida pela dança, num baile público, se contrapunha  a reserva (o tal "plano inclinado") que ajudava a manter  o conveniente decoro e a distância emocional dos dançarinos.

O texto funciona como uma espécie de  "cápsula do tempo". O uso da alcunha "Singer Plano Inclinado" revela muito sobre o espírito daquela juventude coimbrã, nada e criada na cidade dos lentes, a querer romper as "muralhas" dos usos e costumes impostos pela moral vigente em matérias de relações homem (atrevido) - mulher (recatada).

Por um lado, é de destacar a criatividade da "malta" daquele tempo, a forma como se transformavam marcas e slogans em gíria grupal,  demonstra uma cumplicidade geracional muito forte. 

A "Singer Plano Inclinado" é, pois,  um portento de  humor pícaro: é uma observação brejeira,  malandra, mas ao mesmo tempo respeitosa e nostálgica. O Rui consegue, mais uma vez, ser visual sem ser vulgar, muito menos cruel.

E, por fim, é fascinante pensar que um homem que viveu o trauma da guerra colonial e da perda de um filho, em plena idade adulta (o Nuno Felício tinha 38 anos e trabalhava na Antena 1, em 2013, como jornalista)  tenha conseguido preservar esta leveza para contar histórias do ainda seu tempo de "menino & moço". Para o Rui foi talvez a forma, que ele encontrou,  de celebrar a vida que continuava, apesar de tudo.
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27780: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (38): O Fígaro, um dos cromos do Liceu D. João III, em Coimbra (Rui Felício, 1944-2026)

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27756: Humor de caserna (241): O mistério do peixe mole, capturado num afluente do rio Mansoa, perto da Ponta Augusto Barros (Vargas Cardoso, 1935-2023, ex-cap inf, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)



Fonte: Governo da Guiné-Bissau > Ministério das Pescas > Potencialidades (com a devida vénia)


Guiné > Região do Cacheu > Carta de Pelundo (1953) (Escala 1/50 mil) > Posição relativa de Có, Rio Mansoa, Rio de Co (afluente do Rio Mansoa) e Ponta Augusto Barros...

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)


Humor de caserna (241): O mistério do peixe mole, capturado num afluente do rio Mansoa, perto da Ponta Augusto Barros

por cor inf  ref Viegas Cardoso (1935-2023)

1. O nosso saudoso Raul Albino (1944-2020), alf mil at inf, CCAÇ2402/BCAÇ 2851 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) 1968/70,  deixou-nos duas notáveis brochuras com a história da unidade e as "memórias de campanha" da sua companhia. Tem 64 referências no blogue. É dos veteranos da Tabanca Grande, para a qual entrou em 17/9/2006, pela mão do Beja Santos (que também fez parte da CCAÇ 2402, acabando por ir comandar, em rendição individual, o Pel Caç Nat 52).

Temos muito boas recordações dele. O Carlos Vinhal e eu.  Era informático na IBM, Portugal. Sempre amável e prestável. Trocávamos ideias sobre o futuro do blogue, e sobre a sua sobrevivência,  depois da nossa morte física. Infelizmente, ele partiu mais cedo, em plena pandemia de covid-19. Temos a obrigação de o recordar. 

Publicamos um excerto, bem humorado, das memórias do ex-cap inf, Vargas Cardoso, cmdt da CCAÇ 2402, "Lynces de Có", também ele já falecido, em 2023.  Para este Volume II ele contribui com 20 textos (não participou no volume I). As suas histórias, em geral, são bem humoradas. Estão numeradas de 1 a 18 (**). Preocupava-se, para além da segurança e do desempenho operacional, com a alimentação e o bem-estar do seu pessoal.

Desta companhia, temos ainda como membros da Tabanca Grande






Fonte: Vargas Cardoso, cor inf ref (1935-2023) - "8. Como se pescava na Ponta Augusto Barros: o mistério do peixe mole". In: Memórias de campanha: Companhia de Caçadotres 2402 (Guiné, 1968/70),  inumeradas. (coordenação: Raul Albino), vol. II, s/l, 2008, inumeradas.

(Seleção, digitalização, título: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 20 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27752: Humor de caserna (240): Olha a Maria Turra, Sardeira!... (Juvenal Amado, ex-1º cabo cond auto, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, 1972/74)

(**) Vd. poste de 6 de junho de 2023 > Guiné 61/74 - P24372: História da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70) (Coordenação: Raul Albino, 1945-2020) - Textos avulsos - Parte II: A imaginação que era preciso ter para se comer "atacadores da PM com estilhaços"!... Trocando carne do restaurante "Solar dos 10", em Bissau, por produtos locais de Có (camarão, ostras, tomate...) (Mário Vargas Cardoso, 1935-2023)