Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
O capelão também ajudava à festa...na receção ao "periquito"... Também ele um dia fora "praxado", também ele um dia fora "periquito"...
Terão sido as bajudas fulas quando chegaram ao cais para oferecer ao novo contingente os seus préstimos de lavandeiras e se depararam com uma formatura de soldados todos vestidos de verde, que os batizaram: "Iiih!, jubi ! Agora cá tem maçarico, só manga de periquito".
(Conta o Zé Botelho Colaço, um VCC, da batalha do Como, jan-mar de 1964)
Duas coisas em que o burro do "artista gráfico" da IA nunca acerta: a p*ta da G3 e a m*rda do quico!
Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Guiné > Região Oeste > Sector O4 > Mansoa > CCS / BCAÇ 2885 (1969/71) > c. 1970 > O alferes graduado capelão José Torres Neves brincando com um periquito... Foto da legenda: "Salta, periquito, salta!"... Que é como quem diz: "Periquito, assim começa a tua comissão de serviço, leia-se a tua guerra”
1. O termo "periquito" (ou "Pira") é um dos termos mais divertidos e amplamente reconhecidos da gíria militar portuguesa, que nos ficaram do tempo da guerra colonial na Guiné (1961-1974). (Em Angola, era "maçarico", em Moçambique, "checa"!.) Só o nosso blogue tem já cerca de 40 referências com o descritor "periquitos".
A transição e a passagem de testemunho entre quem chegava, vindo da metrópole, e quem partia, geraram um tipo de humor de caserna (*), riquíssimo, picaro, brejeiro, amplamente documentado nas memórias dos antigos combatentes, como no caso do nosso blogue.
O recém-chegado a Guiné recebia o nome de "periquito" (leia-se: "piriquito", sic, ou "pira"), contrastando em tudo com os "velhinhos", a começar pela farda e o comportamento verbal e não-verbal:
farda novinha em folha 'versus' farda desbotada, puída, roída pelo suor, pelo sol, pela chuva, pela água e pelas pedras do rio, pelas operações no mato, etc., dos "velhinhos" (se tivessem mais de 24 meses, eram "VCC", "velhinhos como o car*lho");
o "periquito" ,imberbe, andava de cabeça erguida, a girar como um radar, assustado, atento a todos os ruídos e sinais;
a pele branca de quem vinha da metrópole;
enquanto o "velhinho" já tinha o olhar "vazio", o andar arrastado, o cigarro ao canto da boca, a pele tisnada do sol tropical, "completamente apanhado do clima"...
A chegada dos "periquitos" desencadeava um ritual ruidoso, um clima festivo, um ambiente eufórico nos aquartelamentos que contagiava tudo e todos (incluindo a população ao lado, e em especial, as mulheres, bajudas e crianças).
As cantorias serviam para saudar mas também "humilhar" ritualmente o novato e, simultaneamente, aliviar a tensão de quem ia finalmente regressar a casa.
"Periquito vai no mato..." era a cantilena mais famosa entoada pelos "velhinhos" , e que dizia algo como: "Periquito vai no mato, / Ó lé, lé, lé!, / Velhice vai no Bissau ,/ Ó lé-lé – lé-l!" (**)...
Uma cantilena que ficou na memória da própria população que conviveu com a tropa portuguesa (vd. video acima gravado em Gadamael)....
No fundo, era também um aviso implacável de que a guerra real começava ali e que a inocência ia desaparecer no primeiro embate com os "turras", o "batismo de fogo"... Misturava bravata, bazófia, rivalidade piscológica, humor, praxe...
Outro ritual era a contagem dos dias: enquanto o "periquito" contava os meses em falta para o regresso a casa e a "peluda" (22/24 longos meses), os "velhinhos" cantavam vitória, arremessavam os quicos ao ar, gritando os dias que lhes restavam para partir para Bissau e embarcar nos navios Niassa ou Uíge ou nos aviões da TAM (Transportes Aéreos Militares, a partir de finais de 1972).
As praxes, à chegada, eram uma forma, se quisermos, de "batismo de fogo artificial", simbólico, para integrar o pobre do "periquito" na dura realidade da Guiné Algumas das partidas mais comuns podiam incluir:
o batismo do balde ou agarrafa de água fria: despejar água sobre o novato enquanto este dormia;
falsos alarmes: (i) os "velhinhos" simulavam ataques com rebentamentos de petardos ou tiros para o ar a meio da noite para ver os "periquitos" a saltar, aterrorizados, para as valas ou abrigos, ainda de pijama ou descalços; (ii) fazê-los acordar com a ponta da pistola Walther ou da G3 na nuca;
as missões inventadas: (i) mandar o periquito procurar a "chave do teto do jipe"; (ii) buscar a garrafa de "óleo de pirilampo"; (iii) retirar as estrias do morteiro 81 ( que é de alma lisa...); ou (iv) ser chamado a um oficial fictício.
Apesar da aparente crueza e estupidez de algumas praxes, a rendição da comissão tinha um papel prático fundamental. Nos dias em que a subunidade que ia ser rendida ("velhinhos") e a subunidade que vinha render ("periquitos") coexistiam no mesmo aquartelamento (a chamada "sobreposição", dormindo muitos ao relento), os velhinhos passavam o conhecimento de sobrevivência aos periquitos:
ensinavam os trilhos mais perigosos e onde o PAIGC costumava montar emboscadas;
mostravam como detetar minas e armadilhas no mato;
ajudavam na habituação ao clima hostil, à humidade extrema e às doenças tropicais (como a malária);
davam instruções úteis para lidar com as lavadeiras, a população, as milícias, etc.
2. Em relação à legenda da foto acima, do capelão militar de Mansoa (“Salta, salta, periquito!”), há uma distinção particularmente interessante: “periquito” não era apenas uma alcunha depreciativa para o recém-chegado, era também uma categoria transitória dentro da vida militar.
Na Guiné, começámos a "comissão de serviço", com a alcunha de "periquito", do soldado básico ao general... (O general Spínola, que veio "render" o "velhinho" Schulz, foi tão "periquito" como todos nós...)
Cada homem chegava como "periquito"; depois, com a experiência, tornava-se “velhinho”; e, finalmente, regressava a Portugal, deixando atrás de si outros "periquitos".
A comissão tinha, assim, uma espécie de ciclo geracional próprio.
De facto, quando os "velhinhos" finalmente embarcavam de regresso a Portugal, os "periquitos" deixavam instantaneamente de ser os "alvos das piadas" para passaarem a ser os "donos do chão" (o subsector) que lhes fora destinado e para assumirem a responsabilidade total pelas suas vidas e pelas vidas das populações à sua guarda..
Passados 6 meses já começavam a comportar-se como ' velhinhos" (e a cometer os mesmos erros), preparando-se para dali a ano e meio saudar (e receber com praxes) cantar para a próxima geração de "periquitos".
E há um pormenor que é importante voltar a sublinhar, e que está subentendido na foto do nosso padre José Torres Neves: o “periquito” podia ser simultaneamente alvo da brincadeira e objeto de proteção/ensino.
A praxe marcava a diferença entre os dois grupos, mas a passagem de informação (como se comportar no mato, conhecer o terreno, os perigos, os hábitos da população local) fazia parte da transmissão da experiência.
António Murta
A cena não é a de uma simples “praxe”, ou de um refrão de uma cantilena para "humilhar". O capelão está a brincar com um recém-chegado, aparentemente num momento descontraído. A frase “Salta, salta, periquito!” tem precisamente aquela ambiguidade muito própria da guerra: brincadeira, iniciação, gozo com o novato e, ao mesmo tempo, uma forma de camaradagem.
2. Já aqui publicámos um excerto do diário (***) do nosso camarada António Murta, ex-alf mil inf MA, 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba (**), 1973/74): merece ser recordado, agora na série "Humor de caserna" (*):
(...) À chegada da coluna a Nhala, e ainda antes de termos descido das viaturas, num ápice, formou-se uma pequena multidão vinda da tabanca, sobretudo mulheres e crianças, que nos receberam com palmas, cânticos, enfim..., se não em apoteose, pelo menos com grande euforia.
Fiquei entre contente e surpreso, a achar tudo um bocado exagerado. Seria sempre assim? Não foi preciso passarem muitos dias para ter uma explicação, plausível, para aquele acolhimento tão efusivo.
E cantavam acompanhando com palmas:
Periquito vai pró mato,
Ó lé, lé, lé!,
Velhice vai no Bissau ,
Ó lé-lé – lé-lé!.
Esta cantilena, soube depois, era conhecida em quase todo o território da Guiné (**). E eram-lhe acrescentados outros versos, que só aprendi mais tarde, muito brejeiros e, pareceu-me, ao sabor da inspiração do momento:
"Mulher grande cá tem cabaço,
Ó lé, lé, lé!,
Bajuda tem manga dele,
Ó lé-lé – lé-lé"
"Mulher grande cá tem catota,
Ó lé, lé, lé!,
Bajuda tem manga dela,
Ó lé-lé – lé-lé"
E voltavam ao princípio com o Periquito vai pró mato, etc. etc. (...)
A população de Nhala é Fula. Os adultos parecem muito indiferentes em relação a nós, ou mesmo frios. Dependem muito da tropa, mas estão fartos de tropa. As mulheres e as bajudas atravessam o aquartelamento para se deslocarem à fonte que fica a pequena distância, num baixio. Está sempre alguém a passar para um lado e para o outro com bacias à cabeça e com a roupa que nos lavam. (...)
As bajudas, algumas bonitas, e toda a criançada são uma simpatia. É contagiante a alegria delas e um bálsamo para a nossa saúde mental. Ainda assim, como já disse, os “velhinhos” de Nhala parece que já não beneficiam desse bálsamo. Aproveitando as recomendações deles, vamos escolhendo as nossas lavadeiras. A oferta é grande, de modo que se fazem “contratações” despreocupadamente.
E em matéria de sexo, como é? Já em Bolama aprendemos que há lavadeiras “que lavam tudo” por pouco mais que a mensalidade da roupa lavada. «Desiludam-se!». As fulas são muito reservadas e pouco permissivas.
Contam-nos um caso ou outro de envolvimento com militares, mas excepcionais e por questões de afecto. A tropa em geral vai brincando, mais ou menos inocentemente, com as bajudas mais velhitas, mas sem consequências nem gravidade. De vez em quando, por ocasião da entrega da roupa lavada aos soldados, lá vem uma delas fazer queixa:
- Alfero, o soldado Manel do teu pelotão apalpou minha mama!
Por vezes alguém se lembra de um episódio, ou anedota, passada na Guiné e que, pela sua graça, aqui deixo alguns registos.
Um Comandante de uma Unidade de Artilharia, o major Gaspar [maj art José Joaquim Vilares Gaspar, mais conhecido na tropa por Gasparinho, na altura 2ª cmdt do GA7 - Grupo de Artilharianº 7 ] (*) enviou a seguinte mensagem Imediato para o Comando-Chefe:
– Info impossível cumprir missão por falta de mat rádio. Solicito envio urgente de meios rádio.
Resposta do Com-Chefe:
– Ref v/ msg info não haver rádios disponíveis; Mais info Teixeira Pinto pacificou Guiné sem rádios.
Réplica do major Gaspar com mensagem Relâmpago:
– Ref v/ msg solicito envio urgente de Teixeira Pinto.
Há quem atribua o protagonismo deste episódio ao ten-coronel Sanches da Gama, comandante das trms, e ao major Gaspar, de artilharia, ambos muito conhecidos pelo seu bom humor.
O major Gaspar, aliás, viria a tornar-se num mito, pelas deliciosas histórias que se contam da sua autoria. Relatarei apenas mais duas: quando um dia ao aproximar-se um heli com o general Spínola a caminho da sede do CAOP (**) ele enviou mensagem ao escalão superior dizendo: "Info Vexa que Sexa passou na mexa!"
Conta-se que a partir daqui foi proibido o uso destes termos em mensagens.
Era proverbial a aversão do major Gaspar aos papéis e à burocracia. Dizia-se que dependurava todas as notas vindas do QG/CTIG em cordões por cima da sua mesa de trabalho. E, quando vinha alguém de Bissau e indagava sobre um processo qualquer, ele, passando a mão pela nota dependurada e abanando-a, respondia:
– Está pendente!
À medida que o tempo ia passando, as pessoas iam ficando “apanhadas do clima”. Era o efeito do cacimbo em terra de extremos!
A propósito do passar do tempo, era prática corrente encher o calendário de cruzes à medida que os dias iam passando, e os que não confessavam esta prática eram traídos quando sabiam sempre os dias certos que estavam em falta para o regresso.
Mas, a partir de certa altura, quando se constatou que na messe se comia sempre uma banana de sobremesa (durante o ano de 1973 foi sempre assim), então começaram a aparecer os que mediam o tempo de comissão pelos km de bananas que tinham comido, ou o tempo em falta pelos km de bananas que faltava comer!
Coisas de apanhados! Ficou célebre o dito dos que iam acabando a sua comissão:
– Está na mala!
Apanhados e não, depois das refeições, nomeadamente à noite, saboreavamos um bom velho uísque, Martins20, Swing, Old Parr, com água “Perrier” ou um bom brandy Napoleón ou Curvoisier ou uma boa aguardente Carvalho Ribeiro & Ferreira.
Não fazíamos a coisa por menos porque estas excelentes bebidas eram baratas. Os mais modernaços iam para a coca-cola, bebida proibida em Portugal antes da revolução! E assim se descobriu a "Cuba-Livre" (***) que, na Guiné, era a mistura da coca-cola com uísque.
(Revisão / fixação de texto, negritos, títulos, notas de rodapé: LG) (****) _______________________
Notas do editor LG:
(*) Mas antes, foi cap art, o primeiro de 3 comandantes da CART 3330 (Nhamate e Bula, dez 1970/dez 1972); Comandente do COP 6 (Mansabá) e 2º cmdt do GA7.
(**) Mais provavelmente COP6
(***) Variante do cocktail "Cuba-libre" (que junta rum, coca-cola e sumo de lima, simbolizando historicamente a transição da independência cubana e a influência dos Estados Unidos no Caribe da viragem do séc. XIX para o séc. XX); a criação do cocktail remonta ao contexto da Guerra Hispano-Americana (1898) e aos primeiros anos da ocupação militar norte-americana em Cuba; o brado de guerra das forças libertadoras cubanas contra o domínio colonial espanhol era "¡Cuba Libre!" (Cuba Livre).
Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
1. Betacismo...Ouvi há dias o palavrão / palabrão da boca de um especialista da língua portuguesa, o popular Marco Neves/Nebes (por sinal meu vizinho, nasceu em Peniche, e autor e apresentador do programa da RTP1, "Esta Língua Que Nos Une"), num vídeo/bídeo sobre "Os bês e os vês do Norte", que passou na sua página do Facebook (Marco Neves, 24 de novembro de 2024).
Confesso que não conhecia o termo...É "jargão académico"... Daí ter recorrido também às meninas da IA...
O betacismo é, muito simplesmente, quando o som que normalmente associamos ao V(ê) passa a ser pronunciado como B(ê). Ou então quando a distinção entre os dois sons se dilui ou se perde.
Por exemplo, em vez de: vaca → /vaca/, a pessoa pode dizer algo mais próximo de: baca → /baca/.
Afinal, para quê e porquê dois sons diferentes na mesma língua ? E por que é que isto dá tanta discussão em Portugal? E até "guerras do carago", entre sulistas e nort...enhos ?
Porque não é simplesmente uma questão de "falar mal". É uma característica histórica e regional de certas variedades do português (e não apenas do português, mas também de outras línguas, a começar pelas latinas).
Sem entrar em explicações professorais, muito eruditas e maçudas, o termo deriva do nome da letra beta (o "B" do alfabeto grego), indicando o processo em que diferentes sons passam a ser pronunciados com o som bilabial aproximado de beta.
O betacismo remonta ao próprio latim vulgar (, de "vulgus", povo) da época do Império Romano. No latim clássico havia a distinção, mas na fala popular o som da semivogal correspondente aoU(que soava como um W inglês) e o B intervocálico fundiram-se num som intermediário.
Com a evolução do latim para as línguas modernas (como o espanhol, o galaico-portugues), muitas regiões mantiveram essa pronúncia fundida onde não se fecham totalmente os lábios para distinguir o V do B.
Em Portugal, o fenómeno é muito característico dos dialetos do norte do país e do galego, onde os falantes continuam a preservar esta fase fonética antiga da mesma forma que ocorre noutras línguas latinas.
No português europeu, a pronúncia-padrão distingue claramente:
B(ê) → uma consoante produzida fechando os lábios: bala, beber, cabo;
V(ê) → uma consoante produzida com os dentes de cima contra o lábio inferior: vala, viver, cavalo, vinho.
Ou seja: bala ≠ vala | bela ≠ vela | basta ≠ vasta.
Mas há regiões do país e variedades do português, incluindo tradicionalmente algumas áreas do Norte, onde essa oposição pode ser neutralizada, fazendo B e V soarem iguais ou muito semelhantes.
Mas, atenção, não há uma fronteira do betacismo, muito menos a fronteira "Norte/Sul".
De facto, há uma história dialetal bastante mais interessante por trás disso, como explica o prof Marco Neves, no vídeo supracitado. A realização de B/V varia regionalmente e socialmente, e os mapas linguísticos portugueses mostram que a fronteira não coincide simplesmente com uma linha com "nortenhos", de um lado, e "sulistas" do outro".
Além disso, betacismo pode significar coisas ligeiramente diferentes conforme estamos a falar de história da língua, de fonética ou da descrição de um dialeto.
A piada é que, para quem faz a distinção, ouvir: "Bou à bila lebar a baca ao beterinário para tomar a bacina", pode ser uma pequena agressão linguística e sobretudo levar à incomunicação, total ou parcial.
Fiz o teste: até a IA, que é "inteligente" e poliglota, não entendeu metade da frase. Eis a tradução que ela fez a meu pedido:
(...) " Esta frase é uma forma muito popular e informal (com alguns erros propositados de pronúncia e calão) de dizer: "Vou à pressa levar a boca (provavelmente uma forma carinhosa de chamar o cão ou gato, ou referindo-se à 'boca' do animal) ao veterinário para tomar a vacina". (...).
Outra "menina", traduziu "baca" por "cadela"...
Como "veem / beem", camaradas, a IA não é menina de se fiar inteiramente, tem que se lhe dado desconto, também delira as vezes...
2, E para quem não faz a distinção entre o Bê e o Vê, a resposta perfeitamente legítima é: "Mas qual é o problema, ó meu? Eu cá sei exatamente o que estou a dizer."
Em resumo:
Betacismo = B e V deixam de ser distinguidos na pronúncia (ou aproximam-se muito), de modo que palavras como "baca/vaca" podem soar iguais;
é um fenómeno dialetal/fonético, não simplesmente um erro de português;
em Portugal tem uma dimensão regional e social que ajuda a explicar por que razão o assunto desperta paixões (e discussões, às vezes acaloradas);
na tropa, na recruta, no sul, os instrutores (sulistas) gozavam com os recrutas (nortenhos, não se dizia, nem ainda hoje se diz, nortista, só no Brasil...) que trocavam os "vês" pelos "bês";
ora, ninguém gosta(va) de ser gozado por causa da língua que aprendeu com o leite materno, ou do sítio onde nasceu, e muito menos de ser chamado por nomes ofensivos, depreciativas, gozões, seja "nortenho", "galego", "tripeiro" (referindo-se aos do Norte, incluindo o Porto), seja "beiroco (os das Beiras), seja "mouro", "marroquino", "alfacinha", "saloio", "marafado" (os de Lisboa, e do Sul);
felizmente que nesse tempo hão havia o termo "betacista" (adjetivo e nome).
Pesquisa: LG + Facebook de Mário Neves + Wikipedia + IA (ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)
Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Alberto Branquinho (2010)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
1. Era para sair, anteontem, com o poste P28327 (*). Mas a "gaija" (a menina da IA) sabotou-me o trabalho. Trocou-me os nomes todos, depois de muitas horas a "partir pedra". Deitei a toalha ao chão, chamei-lhe uma data de nomes feios e depois fui fotografar as uvas que vão ser colhidas no próximo sábado, e que irão vão fazer o melhor vinho verde branco, Nita, DOC, de 2026.
Retomei hoje o trabalho. Tive de sacrificar alguns nomes que não cabem nesta BD. Ficam para a próxima: Artur Conceição, Fernando Gouveia, José Câmara, José Casimiro de Carvalho, José Ferreira da Silva, José Marcelino Martins, Vitor Junqueira... Do Carlos Nabeiro não tenh0 foto, e dos anónimos não posso adivinhar quem são (ou eram). Tirando o Zé Belo, que esse tem "visto Gold"...
Com este poste damos por encerrada esta brincadeira de caserna, até por que o Alberto Branquinho, o criador da personagem (o tal "básico" que tratava das coisas dos oficiais da companhia, e que trocava os "vês" pelos "bês", sendo uma espécie de "ordenança adhoc"),
também acha que já tem protagonismo a mais no nosso blogue.
Mas antes de "partirmos para outra" (que o blogue é um carrossel de empções e memórias), convém que fique claro o seguinte: A reprodução fonética da troca do "vê" pelo "bê" ("bocemessê", "inbenções", "labadeira", "cerbeijas", ") e o uso de termos típicos da linguagem popular e do Norte ("gaija", "bossemessê", "prái") não servem aqui para gozar com a iliteracia, ou o sotque nortenho-. Pelo contrário: conferem uma autenticidade humana e geográfica imediata.
A Guerra Colonial colocou lado a lado no mesmo espaço físico e na mesma ansiedade rapazes de Viana do Castelo, de Ovar, do Porto, de Aveiro, da Nazaré, de Bragança, da Covilhã, de Beja, de Faro, de Lisboa, das ilhas..., mas também do ultramar (de Cabo Verde a Macau).
Ao "ler" aquele sotaque, cada comentador "ouviu" instantaneamente na sua cabeça o seu próprio camarada de armas, o ordenança do seu capitão, o ajudante da cozinha que era básico... Não se está, pois, a acincalhar ninguém, nem muito menos reabrir guerras sociolinguísticas entre nortistas e sulistas... Afinal, trocar os "bês" pelos "vês", é natural e foneticamemnte correto, acontece em diversas línguas latinas (e outras) e chama-se... betacismo.
Quanto ao protagonismo, ele é de todos nós, os que todos os dias fazemos pacientemente o blogue, autores, editores, leitores, comentadores, e todos os demais colaboradores permanentes, uns mais ativos do que outros nesta fase do campeonato, e todos já muito cansados de palmilhar quilómetros e quilómetros, pela picada da vida fora, e de resto minada e armadilhada, desde muito cedo, para a maior parte de nós, que não nascemos em berço de ouro...
Aos que já partiram e aos que ainda resistem, tiro o meu quico!... É em honra de todos eles, e não apenas dos que aqui estão "representados", que dedico esta BD.
(...) " Eu era o soldado básico que tratava das cóisas dos ufissiais da nossa Cumpanhia. Bossemessê num creia em tudo o qum ufissial da nossa Cumpanhia escrébe prái [leia-se: no blogue, LG]
"Ele num é de cunfiar de todo. Não era má pessua mas aí faz muntas inbenções. (...)
" Mas olhe cus outros ufissiais tamém não eram milhores. Eram cuase todos das ilhas. Esses nunca os bi aí do seu computador.
"Um [deles] um dia disse que cando chegasse da operação queria
um copo de leite cum milho. Sabe lá bossemessê o queu passei prá arranjar o milho no quartel e quêle ficasse molinho pra pôr dentro do leite. Despois chateou-se comigo cu quêle queria era o leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada MILO." (...) (*)
A fala,"nortenha", do "ordenança" dos oficiais de uma companhia no mato (ou seja, a do Alberto Branquinho ou de um seu "alter ego", da CART 1689 / BART 1913, 1967/69; a mesma subunidade do José Ferreira da Silva, mas esse não devia ter "ordenança", proque era furriel de operações especiais , é um "tratado" de humor de caserna.
Esse trocadilho "Milho / Milo", como recurso literário, é de antologia, para não dizer mesmo... "genial". Nunca me ocorreria, a mim, porque há séculos que não lia ou não via uma referência a esta bebida. Nem eu gosto sequer deste tipo de bebidas.
Milo ® era (e ainda é) uma marca de leite achocolatado que, no nosso tempo, fazia as delícias da pequenada ao pequeno-almoço. Falamos, naturalmente, daqueles que se podiam dar ao luxo de tomar um saudável pequeno-almoço, com direito a leite e derivados do leite.
O Milo ® é uma marca registada da Nestlé, o gigante da indústria de alimentos e bebidas, de origem suíça. Lançado em 1934, na Austrália, o Milo ® surgiu em Portugal no final dos anos 50, saiu do mercado no início dos anos 90, e foi de novo relançado, em 2013, segundo leio na página da empresa.
(...) Após vinte anos de ausência e muitas centenas de pedidos de consumidores, Milo ® está de volta! Em Portugal, Milo ® saiu de comercialização no início dos anos 90, deixando uma geração de consumidores saudosos por voltar a provar o característico sabor de Milo®. Milo ® tem um sabor único e alto valor nutricional, graças à sua composição de malte, cacau e leite. É igualmente fonte de Cálcio e Fósforo e Vitaminas C e do complexo B, sendo assim a bebida ideal para fornecer energia logo ao acordar e preparar os jovens atletas para a prática de uma atividade física mais intensa. (...)
Quando chegou à mesa dos portugueses ainda não era para todos. Estamos a falar dos anos 50/60/70 do século passado: beber "Milo" (ou outros produtos da Nestlé) ainda era um pequeno luxo...
Essa pequena confusão entre o (i) "milho" (o cereal com que se fazia, no Norte, o pão de milho, misturado com o centeio; mas tambémcom que se faziam as "papas de milho", muitas vezes sob a forma de"carolo", produto obtido pela moagem grossa ou incompleta do grão de milho, e que era, com as batatas e as couves, a comida de sustento do meio rural de onde vinha o soldado básico); e (ii) o "Milo" (o produto sofisticado da Nestlé, que ia à mesa urbana do oficial do exército português, miliciano ou do quadro permanente) condensa, numa pequena palavra, as profundas diferenças da época, no plano económico, social e cultural.
(i) Uma "radiografia social" do Portugal dos anos 60 numa lata, de rótulo verde
O "Milo" nos anos 60/70 do século passado não era, de facto, para todos. Era símbolo de uma certa modernidade e de um certo estatuto social, associado à emergente classe média /média-alta, urbana, que já podia dar aos filhos um produto industrializado da Nestlé ao pequeno-almoço. Mesmo assim, com peso, conta e medida.
Quando o oficial (miliciano, um jovem com frequência universitário ou com o liceu concluído ou equivalente, de origem em geral citadina) ordena ao seu "ordenança" que lhe sirva um copo de "Milo", ao chegar do mato, está a projetar no duro cenário da Guiné um hábito de conforto da sua vida civil.
Para o soldado básico (geralmente de origem rural, analfabeto ou com a instrução primária incompleta), a palavra "Milo" pura e simplesmente não existia no seu limitado léxico rural ou suburbano. Não era coisa que chegasse à "venda" na aldeia ou da vilória do interior, que também funcionava como tasca... A única coisa que foneticamente fazia sentido na sua cabeça era o milho, o milho do pão, com mistura de centeio, cozido no forno a lenha ou as papas de farinha de milho, feitas com água e um niquinho de azeite.
Estamos a imaginar a cena do pobre soldado a andar, no quartel, feito doido, à procura de farinha de milho e depois pô-la "molinha" (sic) dentro do copo de leite quente... quando afinal o oficial o que queria era um copo de "leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada Milo" (!)...
(ii) Os pequenos luxos da manutenção militar
Nos quartéis do mato, nas cantinas militares, nas messes de oficiais e sargentos, as latas de Milo ® não eram sequer um artigo corrente... Eu não me lembro dessas latas com rótulo verde. Quando muito havia leite esterilizado, leite condensado, leite achocolatado de marca branca, em lata ou em garrafa de vidro... Não creio que a Manutenção Militar disponibilizasse, no ultramar, latas de Milo ®.
Mas poderiam eventualmente ser mandadas pelas famílias, pelo SPM, a par dos chouriços, salpicões, postas de bacalhau, etc., pequenas "guloseimas" que ajudavam a criar uma ligação afetiva à metrópole, e a matar saudades de casa e que funcionavam como um verdadeiro "miminho", para a alma e para o estômago dos "expedicionários".
O mal-entendido ("Milo / milho") mostra bem como o stresse do quotidiano no mato se podia manifestar no "upstairs" e no "downstairs" de um quartel: (i) o oficial, saudoso do seu conforto de casa para espairecer a cabeça e aconchegar o estômago, depois de uma operação no mato; e (ii) o "ordenança", empenhado em fazer as vontadinhas ou caprichos do "seu" oficial, mas completamente perdido na tradução de dois mundos sociolinguísticos que a tropa e a guerra tinha juntado à força...na "colónia de desterro" da Guiné.
(iii) Mitologia & publicidade
O nome da leite achocolatado da Nestlé, da marca Milo ®, deriva, ao que parece, do lendário Milo de Crotona (séc. VI a. C.), o mais célebre atleta da antiguidade clássica, famoso pela sua força sobre-humana (e que teve um fim trágico).
A ironia histórica da origem do nome do produto contrapõe-se deliciosamente à soçlidão e à fragilidade, psicológica, dos oficiais do exército português na guerra de África / guerra colonial, que não podiam dispensar o seu bom uísque, a sua água de Perrier, o seu gin tónico, à tarde e à noite, ou o seu energético Milo ® pela manhã.
O "pó" tónico e vitamínico que devia dar a "força de Milo" ao oficial acabava apenas por gerar uma birra de caserna por causa de uma tigela de papas de milho (ou de "carolo") com leite!
É por coisas como esta que o texto do Alberto Branquinho é tão divertido (e tão rico, literariamente falando): sob o aparente humor fácil da paródia ao sotaque nortenho do soldado básico que trocava os "vês" pelos "bês", há também uma subtil atenção à história social, ao consumo da época e à linguajar dos homens que combateram no TO da Guiné. E nisso o Branquinho é mestre, sem ser panfletário. (**)