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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28473: Humor de caserna (300): O plano de vacinação da tropa: a nossa "dose de cavalo" (Carlos Vinhal, José Câmara, António Murta, Luís Graça, José Teixeira)









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Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Carlos Vinhal | José Câmara | António Murta | Luís Graça | José Teixeira  (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)



1. Comentários aos poste P28470 (*):

1.1. José Câmara (EUA):

Mano Carlos,

Em Tavira eramos mais sotisficados. A referida vacina, se bem me lembro, foi dada na nádega e na parada do CISMI.

Abraço atlântico fraterno.

José Câmara
quarta-feira, 28 de outubro de 2026 às 22:45:21 WET


1.2. António Murta (Figueira da Foz):

Olá, Carlos Vinhal.

Eu também passei por uma cena caricata no dia das vacinas, mas não desmaiei. A bicha para receber a vacina foi formada na rua e, como a vacina era dada no braço, mandaram-nos descer o blusão para as costas e deixá-lo preso nos braços. 

O ritual da vacinação foi exactamente como descreves. Ora, quando o enfermeiro (que eu pensava que era o último) enfiou a seringa na agulha e a despejou, seguiu para o "cliente" seguinte sem uma palavra. Eu, sem mais aquelas, julgando ter-me já safado, puxei o blusão para os ombros e fiquei a aguardar. 

Uns minutos depois aparece outro enfermeiro e, fitando-me nos olhos, perguntou-me onde é que eu tinha posto a agulha. Perguntei-lhe "qual agulha?" e ele mandou descer o blusão e abriu muito os olhos quando viu a agulha ainda no braço. Olhei de esguelha e nem quiz acreditar... Não desmaiei mas nunca mais me esqueci do incidente.

António Murta.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026 às 23:38:48 WET

1..3. Tabanca Grande Luís Graça:

Carlos e António: Não me lembro de ter desmaiado na vida...

Mas nessa "cena da vacinação" na tropa, na recruta, nas Caldas da Rainha (julgo eu), comecei a ver as cores do arco-íris a desaparecer...Já estava entre o verde e o amarelo desmaiado, o céu cada vez mais a desbotar-se, quando, cheio de orgulho machão, arrebitei, endireitei o corpo, ergui a cabeça ao alto... Mas foi por um triz, senão tinha caído ao chão, e não seria o primeiro, naquela enorme fila de espera onde estava os bravos filhos do povo...

Sei que estive em tronco nu, ao sol, de manhã (?), com pouca coisa no estômago... Estávamos em bicha de pirilau, e o ritual está muito bem descrito pelo Vinhal...

Aquilo parecia uma linha de montagem automóvel, e cada enfermeiro (da tropa!) tinha uma função "especializada": um homem, uma tarefa, um posto de trabalho... O "taylorismo" também tinha chegado à tropa...

Ainda não descobri foi o raio da vacina que apanhámos !... Tétano, febre tifóide... ? A da  febre amarela apanhava-se mais tarde era só para os felizes contemplados com um cruzeiro (de borla) até ao Ultramar.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026 às 09:39:20 WET


1.4. Tabanca Grande Luís Graça:

Numa pesquisa rápida na IA / Google, apurei o seguinte:

(i) Durante os anos 60 e 70, no contexto da Guerra Colonial / Guerra do Ultramar, os militares mobilizados na Metrópole (Portugal Continental) para servir na Guiné eram sujeitos a um protocolo de vacinação militar obrigatório bastante rigoroso antes de embarcarem;

(ii) A administração das vacinas ocorria habitualmente na reta final da recruta ou durante a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO), nas unidades mobilizadoras, para garantir que as reações secundárias não perturbassem os treinos iniciais;

(iii) As principais vacinas obrigatórias administradas na Metrópole incluíam:

  • Vacina contra a Febre Amarela: era a imunização mais crítica e exigida pelo Regulamento Sanitário Internacional para quem viajava para a África Ocidental; o registo era feito no célebre Certificado Internacional de Vacinação (a famosa caderneta amarela) que todos os militares tinham de transportar;
  • Vacina contra a Varíola: ainda uma ameaça global na época, a vacinação (ou revacinação) antivariólica era aplicada a todo o contingente (através do método de escarificação no braço);
  • Vacina contra a Febre Tifóide (frequentemente combinada com a vacina TAB, hoje em descontinuada): protegia contra a febre tifoide e paratifoides A e B, doenças comuns em teatros de operações com condições de saneamento, água e alimentos precários;
  • Vacina contra o Tétano: essencial para militares expostos a ferimentos de combate, picadas e cortes no terreno;
  • Vacina contra a Cólera: administrada consoante os surtos ativos e as exigências sanitárias do período da mobilização (já existia em 1971)....

Ainda não havia, nem ainda há, vacina contra o paludismo... Mas há havia a vacina contra a Pólio (Poliomielite): durante as décadas de 1960 e 1970, na sequência da introdução global da vacina oral Sabin, a vacinação contra a poliomielite passou também a fazer parte do protocolo sanitário e da caderneta de vacinação das Forças Armadas. Não sei se já fomos abrangidos...

(iv) Outras medidas profiláticas:

Para além das vacinas injetáveis aplicadas nos quartéis, os militares iniciavam ainda na Metrópole (ou imediatamente antes do desembarque) a toma diária ou semanal de comprimidos de quimioprofilaxia contra o paludismo (malária ou "sezonismo"), habitualmente à base de quinino ou cloroquina, que continuavam a tomar rigorosamente durante toda a comissão na Guiné. (Se hoje estamos surdos, agradeçam ao quinino que era  ototóxico...)

(Pesquisa: LG + IA / Google) (Condensação, revisão / fixação de texto: LG)

quinta-feira, 29 de outubro de 2026 às 09:45:32 WET

1.5. José Teixeira (Matosinhos):

Eu, como todos nós, passei pelo "castigo" das vacinas. Numa segunda fase já como pronto e colocado no Ral 2 em Santa Clara, Coimbra, fui um dos que participei em duas ou três séries de aplicações da vacina, antes de ir para a Guiné.

Devia estar presente o médico da unidade e acolher cada recruta antes de ser dada a vacina. Porém, o médico da unidade trabalhava no Hospital Civil de Coimbra e ia ao quartel quando o rei fazia anos.
Para o substituir e preencher o questionário clínico, fui o felizardo escolhido, talvez por usar óculos. Recebidas as orientações, vesti uma bata branca, esteto ao ombro, sentado numa cadeira no fundo da sala. Cada recruta entrava e era direcionado para mim para o questionar.

Depois de preenchido o inquérito e antes de o mandar sentar na cadeira do martírio seguinte, fazia-lhe uma pergunta sacramental.

− Então não te queixas de nada?... Nem da carteira?

 − Sr. Dr., dinheiro não tenho.

− Então senta-te a seguir ao último.

E o outro, a seguir;

− Sr. Dr.,  não me posso queixar muito.

− Ótimo. Então, estás a ver aquelas seringas partidas,  ali à porta.? Os pobres rapazes enfermeiros têm de as pagar. Deixa lá cinco coroas para os ajudar.

Houve um ou outro que reagiu:

− E se eu der vinte paus e o Sr. Dr. diz para serem meiguinhos comigo?!...

− Ó nosso cabo, tome nota. Este que vai sentar-se agora,  deve ser tratado com cuidado.

No fim, seguíamos todos para a cantina, comprávamos umas latas de atum, casqueiro e umas cervejitas e petiscávamos, à custa dos mancebos que foram vacinados, logo na sexta-feira seguinte à sua entrada para a especialidade de condutores no Cica de Coimbra.

José Teixeira
quinta-feira, 29 de outubro de 2026 às 14:44:31 WET


(Seleção, revisão / fixação de título: LG)


2. Comentário do editor LG:

Camaradas, a final qual era a famosa "dose de cavalo" ou "a de cavalo", na nossa  gíria militar ?

A que deixou  marcas e memórias dolorosas na rapazida  era a vacina TAB,  a vacina contra a Febre Tifóide e Paratifoides A e B (frequentemente administrada em fórmula tripla ou associada ao Tétano, a TAB-T).

Mas eu não sei qual era exatamente o plano de vacinação obrigatório da tropa que era mobilizada... Temos que admitir que não todos apanhávamos as mesmas vacinas... Falta aqui o testemunho dos nossos médicos e dos nossos enfermeiros. Além disso, náo eram tomadas todas de uma só vez. Quem não era mobilizado para o Ultramar, não tomava a vacina contra a febre amarela... Havia vacinas que se tomavam na recruta e outras antes do embarque para o Ultramar. Temos de ter em conta essas particularidades...

Na documentação sobre o plano de vacinação dos militares portugueses destinados aos teatros de operações, encontramos, por exemplo, em 1963, a vacinação contra:

  • Varíola;
  • Febre tifoide;
  • Febre amarela;
  • Tétano;
  • Poliomielite.

No início da décadaa de1970, aparece também a vacina contra a cólera.

Mas eis algumas das razões por que a TAB, que podia ser ou não combinada com a  vacina contra o Tétano, deixou em muitos de nós marcas traumáticas:

(i) Volume e agulhas eeutilizáveis:

Na época, ainda hão havia as seringas de plástico descartáveis, pelo menos não chegavam às nossas "cavalariças"...  As vacinas eram administradas em massa com seringas de vidro e agulhas grossas de metal, fervidas e reutilizadas dezenas e dezenas de vezes, até "partirem"... A densidade da dose e o calibre da agulha tornavam a penetração muscular e a injeção extremamente dolorosas.

(ii) Administração dolorosa (subcutânea / muscular profunda): muitas vezes era administrada no braço, mas também era frequente ser inoculada na região subscapular (nas costas/omoplata) ou no peitoral; a sensação no momento da aplicação era descrita como "um ferro em brasa" ou um "soco de chumbo".

(iii) Reações secundárias violentas (Efeito pós-vacinal): sendo composta por bactérias inativadas (Salmonella enterica de vários serotipos), a TAB era extremamente reatogénica; poucas horas após a administração, a malta desenvolvia uma série de sintomas : febre muito alta (frequentemente acima dos 39 °C) e calafrios intensos; dores musculares e articulares generalizadas (mialgias e artralgias); dor local incapacitante: o braço ou a zona das costas onde fora dada a injeção ficava inchado, vermelho e tão dorido que o militar mal conseguia mover o membro ou apoiar-se; cefaleias (dores de cabeça) fortes, náuseas e prostração total...

Era habitual companhias inteiras ficarem "de baixa" no dia seguinte à aplicação da TAB. Nos quartéis, o dia da vacinação resultava em camaratas cheias de homens prostrados na cama, com febres altas e a queixarem-se do "braço dorido" ou da "picada nas costas". (Aqui não havia "heróis" !)

Embora a varíola deixasse a característica marca de escarificação (a cicatriz circular no braço) e a febre amarela fosse a mais exigida internacionalmente, no imaginário e na memória, dorida (!),  da tropa que embarcou para a Guiné, Angola e Moçambique, a TAB foi indiscutivelmente a rainha do "terror sanitário" .

Pesquisa: LG + IA (Gemini / Google | ChatGPT / Open AI) (Condensação, revisão / fixação  de texto: LG)

__________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. posgte de 28 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28470: (Ex)citações (450): Quando o "115" precisou de emergência médica (Carlos Vinhal, ex-Fur Mil da CART 2732)

(**) Último poste da série > 25 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28463: Humor de caserna (299): Só foi pena os lagostins, após o "incidente" com o Unimog, na estrada Enxudé-Tite, terem conseguido voltar, a nado... à bolanha

domingo, 25 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28463: Humor de caserna (299): Só foi pena os lagostins, após o "incidente" com o Unimog, na estrada Enxudé-Tite, terem conseguido voltar, a nado... à bolanha
















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Carlos Barros (2021)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)



1. Mais uma "pequena história" do Carlos Barros: 

(i) ex-fur mil, 2ª C/BART 6520/72 (Bolama, Bissau, Tite, Nova Sintra, Gampará, 1972/74), "Os Mais de Nova Sintra", os últimos a ocupar o aquartelamento de Nova Sintra antes da sua transferência para o PAIGC em 17/7/1974; 

(ii) membro da Tabanca Grande nº 815;

(iii) autor da série "Pequenas histórias de Nova Sintra"; 

(iv) tem c. de 4  dezenas de referências no nosso blogue; 

(v) vive em Esposende; 

(v) é professor reformado. 

Republicamos uma essas pequenas histórias, desta vez  passada na estrada Enxudé-Tite (*). Uma delícia. Afinal, na guerra, não havia só tragédias, mortes em combate,  acidentes mortais, doenças tropicais, tornados, naufrágios... 

Claro havia acidentes de viação, quase-acidentes, incidentes... As estradas eram más,   as bajudas bonitas e os lagostins...uma tentação!



Guiné > Região de Quínara > Carta de Tite (1955) > Escala 1/50 mil > Posição relativa da estrada Enxudé-Tite

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)

 

Só foi pena os lagostins,  após o "incidente" com o Unimog,  na estrada Enxudé-Tite, terem conseguido voltar, a nado... à bolanha

por Carlos Barros



O 3º grupo de combate do 2ª CART / BART 6520, com quartel em Nova Sintra, esteve de serviço de segurança à estrada de Tite -Enxudé. 

Como habitualmente, os soldados foram transportados em viaturas Berliet, ocupando cada grupo de dois soldados as suas posições ao longo da estrada, ladeada por extensas bolanhas onde abundavam muitos lagostins e camarões, por sinal saborosos.

Num desses dia, um condutor ia buscar o almoço à cozinha de Tite. Na viagem deu boleia, o que era proibido, a uma jovem africana que andava na apanha desse marisco e já tinha um enorme cesto cheio de lagostins.

Aconteceu então algo de inesperado, que poderia ter trágicas consequências. O condutor, com a jovem ao lado, despistou-se com o Unimog. E foi tombar na bolanha, tendo-se virado o cesto com os lagostins que rapidamente ficaram no seu “habitat”... aquático. 

O furrielda "ferrugem"  soube do sucedido e, depois de ouvir o condutor, refletiu sobre a situação e “branqueou” o acidente, não chegando este ao conhecimento do capitão. O que, a acontecer, teria consequências, com castigo grave para o soldado. 

Neste acidente, milagrosamente, não se registaram feridos. Foi apenas um grande susto!


Carlos Barros
Foi um momento infeliz do condutor que pediu imensa desculpa pelo sucedido, assumindo plenamente a culpa e livrando-se de um processo que lhe traria vários dissabores  (por sinal, já não me recordo do seu nome…). Prometeu futuramente não transportar mais civis na sua viatura.

O furriel Barros, que se encontrava de serviço com este seu grupo, deu uma “ajudazinha ao condutor”: afinal,  a guerra propiciava estas aventuras, por vezes pouco refletidas, e que eram fruto da irreverência da juventude.

Naturalmente, após estes longos anos,  afastado da guerra, o ex-furriel Barros, agora professor, pode  descrever, em liberdade, esta história, com um cunho muito real...

Só teve pena dos lagostins que se perderam nas águas da bolanha... 

Mas podem acreditar que, no fundo do cesto, ainda ficaram alguns que tiveram o destino que os leitores estão a pensar…


Tite, 1972 | Nova Sintra, 1974.

Esposende 1 de fevereiro de 2021

Carlos M. de Lima Barros
Ex.fur mil Barros, 2ª C/BART 6520/72 (Nova Sintra, 1972/74)

(Revisão/fixação de texto, negritos, título: LG)

2. Comentário do editor LG: 

Carlos, a tua história tem um final feliz...Se houvesse mortos ou feridos, a tua margem de manobra era nula ou muito mais reduzida... Felizmente soubeste resolver, tu (e o furriel da "ferrugem"), com inteligência, bom senso, responsabilidade... e camaradagem, este "incidente" ou "quase-acidente"... Seria acidente se houvesse "baixas"...

Alguns dirão: ah!, o nosso desenrascanço, o nosso nacional-porreirismo, o corporativismo "tuga".  que nos leva a proteger uns aos outros, etc. Acidentes com viaturas foram "mato", isto é, houve muitos e alguns graves... Acidentes com armas de fogo, "fogo amigo", etc., houve de tudo ao longo da guerra...É preciso "contextualizar" tudo isto...

"Proibido dar boleia às bajudas ?!"...

No meu tempo, não, fazia parte da "psico"...Era também a nossa boa ação de escuteiros...que tínhamos de fazer todos os dias...E então, Carlos, as 14 obras de misericórdfia que tínhamos de praticar ao longo da comissão ? Sete espirituais, sete materiais ? Dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, enterrar os mortos, ajudar as crianças, as mulheres e os velhos a  atravessar a picada e voltar para casa... 

Enfim, pagar amor com amor!... Não foi isso que aprendemos na cataquese ?...

Bem, mas gostei da história... E fiz questão de a reproduzir, com alguns retoques e direito a BD, na série "Humor de caserna" (**)... E concordas comigo: os lagostins do Geba eram de chorar por mais... Mas as bajudas que os apanhavam, também eram lindas de morrer... e os nossos jovens condutores julgavam que "fazer pisco" também passava por dar boleia às bajudas lindas de morrer...Bolas, do Enxudé a Tite ainda 12 km a penantes...E, ainda, por cima, com um balaio carregado de lagostins!...

E quanto às questões de saúde... pública: naquele tempo não havia poluição, nunca tive problemas com as ostras em Bissau, com os lagostins em Bambadinca...O único problema era a conservação em frio... Por isso é que os guineenses defumavam ou secavam o peixe... Como se fazia na minha terra há 70 anos, até chegar a electricidade e o frigorífico... Salgava-se e secava-se ao sol o peixe, que sobrava, a pensar no inverno quando o pescador não ia ao mar... Guardavva-se nas palhas de trigo ou centeio...Batatada raíz-de-cana, e peixe seco (arraia, safio, sapata, cação...), etc., não ficam atrás dos nossos "lagostins" do Geba, que em Bambadinca me custavam 50 pesos o quilo...na tasca do Zé Maria "turra"...
 
________________________


(**) Último poste da série > 18 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28446: Humor de caserna (298): O inconfundível traço do nosso MigSilva, o grande cartunista e ilustrador Mário Miguéis da Silva, de Esposende, que foi a alma de "O Saltitão", o jornal de caserna da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72), comandada pelo então cap inf Carlos Trindade Clemente (I)

domingo, 18 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28446: Humor de caserna (298): O inconfundível traço do nosso MigSilva, o grande cartunista e ilustrador Mário Miguéis da Silva, de Esposende, que foi a alma de "O Saltitão", o jornal de caserna da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72), comandada pelo então cap inf Carlos Trindade Clemente (I)



Capa e excertos do primeiro número de "O Saltitão", jornal da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72). O diretor era o cap inf Carlos Trindade Clemente, que assinava os editoriais. O redator-chefe, que fazia também a  ilustração gráfica,  era  o nosso camarado Mário Miguéis  da Silva (que vive hoje em Esposende e nos mandou uma preciosa cópia desta primeira edição e de outras)

Foto (e legenda): © Mário Migueis da Silva (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1.  "A criação e organização do 'Jornal da Unidade', além de aumentar o espírito de corpo da mesma, é uma iniciativa muito útil e que interessa simultaneamente à maioria dos campos mencionados nas alíneas anteriores [falando-se da 'acção psicossocial sobre as NT' e dos  campos que deve abarcar: literário e cultural; técnico; recreativo e desportivo; e assistencial].

"Estes jornais devem focar temas educativos, instrutivos, psicológicos e recreativos de preferência a temas especulativos." (*)
 
Alguns dos capitães mais novos, sobretudo do QP, perceberam a importância que tinha a feitura e a leitura do "Jornal da unidade". Até como "ocupação dos tempos livres", para além das futeboladas, dos jogos de cartas, das patuscadas, da "psícola" na tabanca, do "dia das lavadeiras" (quando as havia...), do dia da chegada do "bate-estradas" (correio), dos relatos radiofónicos dos jogos de futebol da 1ª divisão na metrópole, etc.

Estima-se que não sejam mais do que uma meia centena os títulos de "j0rnais de caserna" que terão exitido no CTIG, entre 1963 e 1974.  Muitos de periodicidade irregular e de vida efémera.

Citem-se alguns títulos de "jornais de caserna", a nível de companhia,  que tinham como diretores um capitão do quadro, e de que haverá exemplares no Arquivo Histórico-Militar (**):

  • "Dragões de Jabadá" | José Guilherme Paixáo Ferreira Durão (cap Cav, cmdt CCAV 2484, Jabadá, 1969/70);
  • "O Boina Negra" | Henrique de Carvalho Morais (cap cav, cmd CCAV 2472, Fulacunda, 1960/70);
  • "O Alvo" | António J. Pereira da Costa (cap art, cmdt BAA 3434, Cumeré, 1971);
  • "O Falcão" | Manuel José Marques Ribeiro Faria (cap inf, cmdt CCAÇ 3414, Sare Bacar, 1971/73):
  • "O Jagudi" | Rui Manuel Paninho Souto (cap inf, cmdt CCAÇ 2679, Bajocunda, 1970/71);
  • "O Saltitão" | Carlos Trindade Clemente (cap inf, cmdt CCAC 2701, Saltinho, 1970/72);
  • "O Santo" | Hernâni Anjos Moas (cap caqv, cmdt CMP 2537, Bissau, 1969/71);
  • "O 6 do Cantanhâs" | Gastão Silva (cap inf, cmdt CCAC 6, Bedanda, 1973);
  • "Os Capicuas" | João Carlos Rodrigues de Oliveira (cap art, CART 2772, Fulacunda, 1970/72);
  • "Os Progressistas" | Salgueiro Maia (capt inf, cmdt CCAV 3420, Bula, 1971/73);
  • "Põe-te a Pau" |   Comandante, Alf Mil Art José Carlos da Rocha ou Cap Art Manuel Alves Serra, CART 2773, Jabadá, 1970/72);
  • "Tabanca" | Mário Tomé (cap cav, cmdt CCAV 2721, Olossato, 1970);
  • "Zoe" | Jorge Golias (cap trns, cmdt Agr Trms da Guiné, Bissau, 1973).
Noutros casos, havia um ou outro capitão  miliciano,  alferes miliciano ou até alferes graduado capelão, como diretor do jornal da unidade. Excluímos os jornais de batalhão: por norma, o diretor só podia ser o comandante, que era um tenente-coronel.

2. Cite-se, como exemplo, "O Saltitão" que teve a sorte de ter um colaborador com o talento excecional do MigSilva,  Mário Miguéis da Silva, o fur mil rec info, da CCS/QG/CTIG, que esteve destacado em Bambadinca, ainda no meu tempo (CCS/BART 2917) e depois no Saltinho, adido à CCAÇ 2701 (1971/72). Foi convidado pelo capitão.  

Tinha (e tem) um grande talento como cartunista e ilustrador. Vive em Esposende, tendo sido bancário,  E julgamos que foi a alma de "O Saltitão", a par do cap inf Clemente. 

Iremos repescar alguns números que o Migueis nos mandou.  Fica aqui uma amostra do humor  (***) que era cultivado no Saltinho, ao tempo da CCAÇ 2701, comandada pelo então cap inf, hoje coronel, Carlos Trindade Clemente (hoje coronel).

A "anedota" do 1º cabo Lourenço, que acima se reproduz, é absolutamente genial... E merece os comentários dos nossos leitores. Vamos dedicar-lhe um poste! É uma obra-prima de humor de caserna!...

3. Já na altura, em 2019, comentámos, a propósito dos jornais de unidade  (**):


Pelo CTIG, de 1961 a 1974, passaram cerca de mil unidades e subunidades.  Por esta amostra (n=47), pode inferir-se que apenas cinco em cada cem, teria um "jornal de caserna", feito a stencil...

Pode perguntar-se porquê : falta de interesse, motivação, competência(s) dos seus comandantes e graduados, a começar pelos capitães e alferes milicianos que, em princípio,  tinham mais habilitações literárias do que os  demais  elementos de cada companhia? 

Era pressuposto que o "jornal de caserna" ajudasse a melhorar o "moral da tropa" e cumprisse as instruções superiormente dadas no que respeitava à "acção psicossocial sobre as NT" (*)...

Em todas as secretarias havia um duplicador a stencil... e claro um máquina de dactilografia... E papel!

Eu fiz a história da minha unidade, a CCAÇ 12, a stencil... Dactilografei todas as páginas (meia centena). E tirei umas largas dezenas de exemplares pela malta que regressava a casa,  todos em rendição individual (antigos graduados e especialistas da CCAÇ 2590). 

 Mas, lamentavelmente,  nunca tivemos "jornal de caserna", nem nós nem os batalhões em que estivemos "a(r)didos": o BCAC 2852 (1968/70) e o BART 2917 (1970/72), sedeados em Bambadinca.

Louvo os comandantes dos batalhões e companhias do CTIG que tiveram a iniciativa de criar e apoiar os "jornais de caserna", a começar pelo nosso António J. Pereira da Costa, hoje cor art ref, e outros como o Salgueiro Maia, o Carlos  Trindade Coelho, o Gastão Silva, o Mário Tomé, o Ribeiro Faria, etc.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28432: Humor de caserna (297) : O anedotário da Spinolândia - Parte XL: Retrato satírico do brigadeiro António Spínola: oito sextilhas em redondilha maior, recolhidas pelo ex-alf mil médico Alberto Lema Santos (BCAÇ 1933, 1967/69)




Foto nº 1


Foto nº 2

Foto nº 1 > Foto histórica de Spínola (e do seu ajudante de campo) > Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada do IN, o general Spínola (1910-1996) (acabado de ser promovido em julho desse ano de 1969, já com um ano no TO da Guiné), com o seu ajudante de campo, o cap cav cmd João Almeida Bruno (1935-2022), mais tarde general (e que deu origem a uma das diversas alcunhas do governador e comandante-chefe, "Aponta, Bruno").

Na foto, o então cap Almeida Bruno está de luvas e óculos Ray-Ban, empunhando a sua G3. O com-chefe, por sua vez, está também de luvas, e com o seu aristocrático monóculo. Estavam ambos em pleno local, onde se deu a emboscada, de que resultaram 2 mortos entre as NT (CCAV 2487 / BCAV 2868). Estão camuflado e quico na cabeça.

A foto original, a preto e branco, é do "Paris-Match" nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...). Resconstituição, melhoria técnica e colorização: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI).  O rosto dos dois oficiais foi reconstituído pela geração de imagem (foto nº1), pelo que não podemos garantir uma reprodução facial fiel à fotografia documental original. Para efeitos do nosso arquivo histórico, convém sempre preservar essa distinção entre "restauro" e "reconstituição".




"Retrato satírico do brigadeiro António Spínola"
(recolha de Alberto Lema Santos / Manuel Lema Santos)


1. Por um feliz acaso, deparei-me com estes versos, no blogue Reserva Naval, do nosso saudoso Manuel Lema Santos (1943- 2025). Mas já antes tinham sido publicados por ele  no blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > 13 de novembro de 2011 > Voo 2574: Uma Visão Satírica do Brigadeiro António de Spínola. 


São oito estrofes, em sextilha (seis versos) e em redondilha maior (=sete sílabas poéticas),  muito usada pela poesia popular mas também pelos nossos maiores poetas do séc. XVI, como Camões.
Nas tradicionais cantigas à desgarrada, ao som da concertina, tão típicas do nosso Minho, a sextilha em redondilha é muio utilizada. O esquema métrico usado é geralmente este: AAB CCB (o 1º verso rima com o 2º, o 4º com o 5º, e o 3º com o 6º).
Estas 8 sextilhas em redondilha maior, que passamos a reproduzir, são de autor desconhecido, mas feitos por alguém que "sabia da poda"... Seria provavelmente algum oficial miliciano, eventualmente oriundo de Coimbra.  E devem datar de 1968/69~.

Lembra o nosso camarada da Marinha que o BCaç 1933 embarcou para a Guiné em 27Set67 e regressou em 20Ago69. Esteve em Nova Lamego em São Domingos.

(...) "Integrado neste batalhão, seguiu também para aquele território o alf mil médico Alberto Lema Santos". 

Desempenhou funções de clínico em quase todos os subsectores  do setor de Nova Lamego, "vindo a ser destacado mais tarde, em final de abril de 1968, para a CCaç 1801 (Cap Inf José Daniel Barros Adão/Cap Inf António Manuel Pacheco Rosa) responsável pelo subsector do Ingoré, com um pelotão no Sedengal e outras forças igualmente destacadas nos reordenamentos de Antotinha e Apilho, ainda que mantendo-se integrada no BCaç 1933". /...) 

E ainda sobre o seu irmão, mais velho (de que ele me chegou a falar: em 2003  era chefe do serviço de cardiologia do Hospital de São Francisco Xavier), diz o Manel:

(...) Num percurso de muitas localidades, consultas, tratamentos, conselhos e confidências, ficou também o insubstituível humor militar de caserna na forma de missivas, descrições, relatos e poesias.

 Neste caso particular, estes versos satíricos, policopiados no papel da época, já envelhecido pelo tempo, visando o “Homem Grande de Bissau” ou “Caco Baldé”, como ficou conhecido o então Brigadeiro António de Spínola." (...)

Faremos proximamente uma análise literária deste documento que pode ser descrito como um retrato satírico do brigadeiro António Spínola, acabado de chegar ao CTIG em meados de 1968.  São uma obra-prima de "humor de caserna" (*)  que vai enriquecer também o "Cancioneiro da Nossa Guerra". Quem os quiser cantarolar, pode encaixá-los no conhecido fado "Canoas do Tejo", imortalizado pelo Carlos do Carmo, com música de Frederico Brito.

A letra foi revista e fixada por nós. Tinha pequeno erros  (de datilografia) que corrigi. Tal como melhorei a pontuação. O maior é "arreiro": deve ler-se "arrieiro". 

 Aproveito para saudar o dr. Alberto Lema Santos, e agradecer-lhe a preservação desta relíquia, de grande valor documental para a historiografia da guerra da Guiné e para a socioantropologia do nosso quotidiano.  Faço votos para que se encontre bem e de boa saúde, e convido-o simultanemante a sentar-se aqui, connosco,  à sombra do nosso poilão.  (LG)


1
Caco de olho vidrado,
Perfil de gato assanhado
Com ferraduras no pé,
Mais do que bom cavaleiro,
Eu sou o maior arrieiro
Cá das terras da Guiné.

2

Trago tudo apavorado,
Dou barraca em todo o lado,
Volto tudo do avesso,
Mal ou bem há que mudar!
O que eu pretendo é roncar
Por qualquer que seja o preço.

3

Digo mal do que está feito,
Condeno todos a eito,
Com fúria de paranóico.
Mesmo quando faço asneiras,
Nunca perco as peneiras
Nem quebro o meu ar heróico.


4

Entre os chefes mundiais,
Como eu, há poucos mais,
Capazes de fazer obra,
Meto galgas colossais,
Faço charlas passionais
Com muita banha da cobra.


5

Irmãos d'armas, meus rapazes,
Vós de tudo sois capazes,
Vós dais lições aos que mandam!
Se a missão não é cumprida,
A falta só é devida
Àqueles que vos comandam

6

Vós não procurais favores,
Nem medalhas, nem louvores,
Por nada vos dais por quites.
É o porte valoroso
Do bom povo generoso
Qu' afronta as falsas elites.

7

Eu conheço-vos a todos;
Convosco lutei a rodos,
Lá p'lo Norte de Angola;
Andei convosco no mato,
Continuo o mesmo chato
Quando meto o pé n'argola,

8

Sou, como vós, um soldado;
Estou sempre do vosso lado
P'ra punir oficiais.
Faço heróis dos cavaleiros,
Fabrico chefes guerreiros,
Só eu mando, ninguém mais!






Texto e arranjo gráfico do autor do blogue Reserva Naval, o Manuel Lema Santos (. O documento original foi cedido por Alberto Lema Santos, ex-alf mil médico, BCaç 1933, 1967/69, e irmão do autor do blogue).


Font: Adapt de blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > 13 de novembro de 2011 > Voo 2574: Uma Visão Satírica do Brigadeiro António de Spínola, por Manuel Lema Santos, oficial da Reserva Naval, Algueirão, Sintra.

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Guiné 61/74 - P28431: Humor de caserna (296) : O anedotário da Spinolândia - Parte XXXIX: "O Grande Spínola" (Vitor Oliveira, ex-1º cabo melec, BA 12, Bissalanca, 1967/69)


Mensagem do Vitor Oliveira, ex-1º cabo melec
(BA 12, Bissalanca, 1967/69); membro da nossa Tabanca Grande desde 13/5/2009; vive em Caneças:



Data -terça, 29/10/2013, 09:58 (*)

Assunto: O grande Spínola

Estávamos em Nova Lamego, e eis que um dia, perto da hora de almoço, aparecem dois helis em que vinha o general Spínola e o piloto era o falecido cap Rodrigues, que nos pediu para abastecermos os helis enquanto eles almoçavam porque o iam voar novamente e que ligássemos para a messe de sargentos do exército para nos trazerem o almoço.

Assim foi, tínhamos um telefone no posto de rádio em que o radiotelegrafista da Força Aérea era o Pires. Resposta:

─ Os doutores, se quiserem, venham cá abaixo comer!

Eu disse logo:

─ Não vamos lá, isto vai dar caldeirada.

Isto porque a maioria dos sargentos do exército não aceitava que fossemos os primeiros a ser servidos e, mais, ao jantar nós íamos comer à civil e eles não.

Assim foi, não fomos almoçar. Eis que chega o cap Rodrigues, juntamente com cap Almeida Bruno, ajudante de campo do general Spínola e atrás vinha este com um major e o tenente coronel. Um era o 2º comandante e o outro o 1º do quartel.

Fui logo falar com o cap Rodrigues e disse-lhe que não tínhamos almoçado. Eis que o Spinola apercebeu-se que havia merda, como se costuma dizer, e vai daí chama o Almeida Bruno e ele diz-lhe o que se passou. Ele vira-se então para o major e o tenente-coronel e diz-lhes para mandar o oficial e o sargento da messe para São Domingos, que era onde havia mais combates.

O major e o tenente coronel só diziam:

─ Ó Sr. Governador, pedimos desculpa!..

E o Spínola dizia:

─ Isto não pode acontecer, os rapazes estão fartos de trabalhar!

O abastecimento era feito com bombas manuais, a tirar de bidões de 200 litros. Depois mandaram buscar sandes e cervejas, e assim foi o nosso almoço.

A partir desta cena, quando entrávamos na messe, o sargento punha logo os faxinas a servir-nos-

Vitor Oliveira ("Pichas")

1º Cabo Melec
(BA 12, Bissalanca.1967/69)

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

Não pomos em causa a veracidade do relato do Vitor. De qualquer modo, não há "contraditório", como na maior das vezes...  Nem  sabemos em que data se passou esta "cena" que também tem o seu lado pícaro (**)... E que por isso merece ser de novo aqui reproduzida, mas agora na série "Humor de caserna"... 

Anedota não é necessaraimente "piada". Vem do grego anekdoton, que significa "não publicado", "inédito". É o relato de situações situações curiosas que aconteceram com alguém, e que são não necessariamente engraçadas. Por exemplo, um comandante de batalhão tratar o general Spínola por "senhor governador"... É credível ?... Ou os sargentos do exército tratarem os "camaradas da FAP", os "mecânicos" como "senhores doutores"...

Não sabemos em que mês e ano o Vitor esteve destacado em Nova Lamego, que era, então, o maior aeródromo do CTIG, fora de Bissalanca.  Os 1ºs cabos especialistas (bem com os pilotos) da BA 12, Bissalanca, podiam ser destacados para Nova Lamego por períodos relativamente curtos.

No ano de 1968 o Vitor Oliveira voava muito com o sargento Honório, em missões de proteção de colunas de Lamego para Beli (destacamento cuja guarnição é mandada retirar por Spínola, em 15/7/1968), e para Madina do Boé (retirado em 6/2/1969). 

Nem sabemos exatamente em que data o Vitor terminou a sua comissão; só sabemos que foi em 1969. Em meados desse ano (julho) Spínola é promovido a general.

Que batalhão é que estava em Nova Lamego nessa altura ? Sabemos que o BCAÇ 2825 em 21Fev68 assumiu a responsabilidade do Sector L3, com sede em Nova Lamego e abrangendo os subsectores de
Canquelifá, Piche, Pirada, Buruntuma, Bajocunda, Madina do Boé e Nova Lamego, onde rendeu o BCaç 1933. 

Em 14Ju168, com a atribuição de novas subunidades, foram criados os subsectores de Canjadude e Cabuca. 

Em 24Nov68, por criação do Sector L4, a sua zona de acção foi reduzida dos subsectores de Piche, Canquelifá, Buruntuma e Bajocunda. 

Em 04Fev69, o sector foi ainda reduzido do subsector de Madina do Boé, após evacuação da área pelas NT, sendo em 250ut69 criado o subsector de Madina Mandinga.

De 15Mar69 a 110ut69, integrou, com as suas forças, o dispositivo do COP 5, então criado.

Em 29Nov69, foi rendido no sector L3 pelo BCaç 2893, recolhendo a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Comando do BCAÇ 2825: 

Cmdt: TCor Inf Joaquim Esteves Correia | Maj Inf Cristiano Henrique da Silveira e Lorena | TCor Inf Manuel Maria Pimentel Bastos;
2.° Cmdt: Maj Inf Cristiano Henrique da Silveira e Lorena | Maj Inf Fernando Luís Guimarães da Costa | Maj Inf Cristiano Henrique da Silveira e Lorena;
OInfOp/Adj: Maj Inf Fernando Luís Guimarães da Costa.
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Notas do editor LG:

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28407: In memoriam (591): António Dâmaso (ex-srg-mor pqdt) (1940-2026): Textos publicados no blogue dos Especialistas da BA12 - Parte VI: Recordações amargas de Gadamael (3)







Foto nº 1, 1A, 1B, 1C

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Maio / junho de 1973 > BCP 12 > Aquartelamento > O estado em que ficou uma "morança",  após mais um ataque do PAIGC, cuja base de fogos se situava para lá da fronteira, já na Guiné-Conacri. As estruras edificadas eram, em geral, frágeis, construídad com tigolos de adobe e cobertura de chapa de zinco.
 








Doto bto nº 2, 2A, 2B

Guiné > s/l  (Bissalanca, BA 12 ?) > Gadamael > 1973 > BCP 12 >  Rampa de lançamento de foguetões de 122mm, capturada pela CCP 122 / BCP 12  em 1 de janeiro de 1973 durante a acção “Tumarú” (Foto:  História do BCP12).

 Fotos originais, a preto e branco, publicados pelo António Dâmaso, a nº 1, do seu arquivo pessoal, a 2ª oriundas da Hstória do BCP 12.

Restauro, melhoria técnica e coloerização: LG + IA (ChaGPT / Opem AI) (2026)

1. Em 1973, o 1º srgt paraquedista António Dâmaso, natural de Odemira, a exercer a função de 2º cmdt do seu 3º Gr Comb / CCAÇ 121 / BCP 12, depois de ter perdido 3 dos seus  homens no Cufeu, a caminho de Guidaje (Op Mamute Doido, 23 de maio de 1973) , é enviado para reforçar a defesa de Gadamael, no sul da Guiné, região de Tombali, junto à fronteira (Op Dinossauro Preto, Gadamael, 2 jun - 17 jul 1973). 

Ele escreveu , na primeira pessoa, como viveu e sobreviveu à batalha de Gadamael, sempre operacional, e mesmo doente.   

Este texto, que se segue, foi inicialmente publicado no Blogue Especialistas da Base Aérea 12,
Guiné 65/74 > segunda-feira, 11 de abril de 2011 > Voo 2244: Gadamael Porto (3).
Subtítulo: Pontualidade.

Nesses 45 dias que durou a batalha de Gadamael, também houve lugar a momentos de descontração e de bom humor...Afinal, a morte coabita sempre com a vida. E a vida, afinal, é um jogo de sorte e azar. Como o loto. (A CCP 121 foi a última a chegar, a12 de junho,  depois da CCP 122, a 2, e a CCP 123, a 5 de junho; regressaram a Bissau, a  7 de julho,  as CCP 121 e CCO 122, e a 17, a CCP 123, do cap  pqdt João Costa Cordeiro (1952-1974).

 É agora republicado o texto, com melhoria das imagens (que o acompanhavam, a preto e branco), em homenagem a este camarada do BCP 12 que há dias se depediu da Terra da Alegria e que em vida nos honrou com a sua presença, ativa e produtiva, na Tabanca Grande.  É também a nossa forma de mostrar o respeito e o apreço  que  nos merecem todos os nossos camaradas que participaram na Batalha dos 3 G (Guidaje, Guileje e Gadamael) (maio-julho de 1973).



1º srgt pqdt António Dâmaso
Recordações amargas de Gadamael (3)

por António Dâmaso 

(1940-2026)


Ao longo da minha vida sempre tenho procurado ser pontual. Estávamos no “inferno” de Gadamael Porto onde diariamente éramos brindados com várias flagelações de armas pesadas diversas. Os ataques eram tantos que já estava habituado aos seus horários. No entanto,  em virtude da sua precisão, todas as granadas caiam dentro do aquartelamento, se não queríamos lá ficar, tínhamos de ter muito cuidado.

O meu amigo e camarada Jota tinha chegado à Província quando eu estava no outro inferno chamado Guidage, tinha feito uma comissão em Moçambique em 1966/68, pelo que não estava familiarizado com o chamado ”Vietname Português”. O  Jota tinha sido Condutor Auto 
tal como eu, era do meu Curso de Primeiros Socorros, de Cabos, de Furriel, lançamento de Pessoal e Material, de Mecânica, de Técnicas de Instrução e foi parar ao meu Pelotão (3º / CCAÇ 121 / BCP 12.

Estava no seu primeiro destacamento, não tinha ainda avaliado a dimensão daquela guerra. Um dia à tarde eram perto das 17 horas, ele entre a morança de adobo com telhado de zinco que nos abrigava da chuva e a vala, tinha o pano de tenda estendido e chamou-me:

 
− Tóino, anda para aqui jogar ao loto.

Nós,  nos intervalos quando não estávamos no mato, procuravámos passar o tempo jogando às cartas, loto ou qualquer outro entretenimento. Ele naquele dia queria loto, eu olhei para a altura do Sol e depois para o relógio, disse-lhe que não porque estava na hora do ”lanche”. Uns chamavam-lhe "lanche",  outros chamavam-lhe “o chá das 5”. 

Fui buscar o capacete e a arma e dirigi-me à vala, o pessoal do Pelotão lá estava.

Ele ainda insistiu mas eu disse-lhe que não porque elas (as granadas) tinham olhos. O bom do Jota, contrariado,  acabou por seguir o meu exemplo mas não tão depressa como devia. Foi buscar o capacete e, quando se dirigia para a vala,  foi projectado para a mesma, ajudado pelo sopro provocado pelo rebentamento de uma granada de foguetão 122mm que caiu pouco mais de um metro à frente do pano de tenda,

.
Quando acabou o ataque o Jota foi ver os estragos, não me recordo se o pano de tenda estava estendido no enfiamento da morança, se esta sofreu danos, mas duma coisa tenho a certeza, do pano de tenda e do equipamento pouco restou. 

O Jota,  a chorar de raiva,  começou aos pontapés ao que restava do seu equipamento, dizendo:

− Olha o que eles me fizeram ao equipamento!

Eu, a gozar com ele,  disse-lhe:

−  Com que então querias loto?!

Afinal às vezes respeitar a pontualidade pode salvar vidas. Se tivesse ido na conversa dele tínhamos lá ficado os dois. Mais uma vez não tinha de ser. A partir dali o camarada Jota passou a respeitar o horário imposto pelos guerrilheiros do PAIGC e teve de se mentalizar que aquela guerra era a sério.

Quando encontro o Jota pergunto-lhe se vai um joguinho de loto... Ele responde:

− Tás parvo, ou quê ?!

Saudações Aeronáuticas
A. Dâmaso

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
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