sábado, 19 de abril de 2014

Guiné 63/74 - P13009: Estórias e memórias de Silvério Dias, radialista, PFA, 1969/74 (2): Relembrando outras Páscoas bem mais amargas...







Fotos: © Silvério Dias (2014). Todos os direitos reservados.

1. Mensagem do Silvério Dias, enviando-nos uma divertida sequência com o PIFAS lá de casa, mais este pequeno texto, que se segue e nos vem relembrar outras Páscoas, bem mais amargas do que as de hoje para muitos portugueses, ex-combatentes ou não...


Nesta Quadra e relembrando, "Páscoas do Passado", veio-me à memória uma iniciativa levada a cabo pela já falada "Senhora Tenente do P.F.A." [, foto à esquerda,] ao tempo, "madrinha" de um sem número de "afilhados", dispersos por aquela Guiné.

Batendo às portas do comércio local de Bissau, como. por exemplo, "Casa Gouveia", "Pintosinho", "Mussá Soda", "Taufik Saad" e outras, angariou uns quilos de amêndoas.  Com paciência de "madre", embrulhou-as em pequenos pacotes e através do S.P.M., enviou-os aos "castiços" espalhados pelo "mato".

Calculem, quantos "bate estradas" de agradecimento! E foi tão simples, adoçar a boca, cumprindo a tradição!...

Fica o registo e uns singelos versos, dedicados a tantos que, como nós, tiveram várias Páscoas de Solidão:

Páscoa, celebra-se agora.
E as outras, de outrora?
Quando, em distante missão,
Se sofria de saudade,
Naquela amarga verdade
Do viver em solidão?

Tantas Páscoas se perderam.
Tantos sonhos feneceram,
Porque não foram vividos?
E o que foi, já não regressou.
A vida depressa passou,
Com mágoas nos cinco sentidos.

Silvério Dias
"Poeta Todos os Dias" - Abril 2014.
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Nota do editor:

Guiné 63/74 - P13008: O nosso livro de visitas (176): Sou descendente orgulhoso de um camarada que passou por Bambadinca e procuro os organizadores do convívio anual do pessoal de 1968/71 (A. Martins, filho do fur mil Fernando Martins, já falecido)

1. Mensagem do nsso leitor A. Martins


Data: 18 de Abril de 2014 às 04:31

Assunto: Descendente orgulhoso de uma Camarada da Guiné

Caro Sr. Luis Graça:

O meu nome é António Martins, tenho 40 anos (sou também um filho da Revolução...), de incomensurável orgulho de existência enquanto filho de um dos vossos camaradas, Ferdinando Martins, de Gondomar, Furriel Miliciano que prestou serviço na Guiné, entre 1968 e 1970, tendo estado em Bissau, Bambadinca e S.Domingos, e que infelizmente já não se encontra entre nós.

Não obstante essa perda física do meu Pai, tenho tentado honrar a sua memória, partilhando com os seus camaradas aqueles momentos únicos que são os convívios da malta. Nesse sentido, e dado que perdi o contacto dos organizadores do convívio deste ano, solicitava a sua ajuda com o intuito de voltar a marcar presença no convívio dos veteranos do Ultramar, que cumpriram comissões em Bambadinca - Guiné, entre 1968 e 1971.

Com os melhores cumprimentos.

A.Martins

Contacto: 913 236 852

2. Resposta de L.G., que já segiu pelo correio:

Martins: Os filhos dos nossos camaradas nossos filhos são. Contacta o nosso camarada José Almeida que está a organizar o convívio deste ano... Diz-me, por outro lado,  a que unidade pertencia o teu pai (Pelotão de Morteiros ? Pel Caç Nat. ? Pelotão de Intendência ? CCS/BCAÇ 2852 ?)... Tens fotos dele, desse tempo ? Gostava de saber mais.
Um abraço. Luis Graça

PS - Como podes ver a seguir, o convívio anual do pessoal que passou por Bambadinca entre 1968 e 1971 é em Óbidos e Caldas da Raínha, a 24 de maio próximo. Também ficas a saber que o pessoal do blogue realiza um encontro anual, em Monte Real. Este ano será o IX Encontro Nacional da Tabanca Grande, em data ainda a definir, em junho (talvez 14) ou setembro (talvez 13). Serás bem vindo.

16 de março de 2014 > Guiné 63/74 - P12843: Convívios (569): 20º Convívio dos camaradas de Bambadinca (1968/71): 24 de maio de 2014, Óbidos e Caldas da Rainha (José Fernando Almeida, ex-fur mil, trms, CCAÇ 2500/CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

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Nota do editor:

Último poste da série > 11 de janeiro de 2014 > Guiné 63/74 - P12573: O nosso livro de visitas (175): Era amigo do malogrado Carlos Alberto Graça Gonçalves, em Alfama, o "Manjerico" e, na Ponte Caium, o "Charlot", do 3º Gr Comb / CCAÇ 3546 (Piche, 1972/74) (Artur Barata)

Guiné 63/74 - P13007: Parabéns a você (722): Augusto Vilaça, ex-Fur Mil Art da CART 1692 (Guiné, 1967/69) e Victor Barata, ex-Cabo Especialista da FAP/DO 27/BA 12 (Guiné, 1971/73)


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Nota do editor

Último poste da série > 18 de abril de 2014 > Guiné 63/74 - P13002: Parabéns a você (721): Raul Brás, ex-Soldado Condutor Auto da CCAÇ 2381 (Guiné, 1968/70)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Guiné 63/74 - P13006: 10º aniversário do nosso blogue (12): Faz hoje 2 meses que o Pepito nos deixou... Em sua memória reproduzimos aqui um vídeo de 2012, em que ele relata, com humor e boa disposição, uma das cenas de violência de que foi vítima, na sua casa do Quelelé, ao tempo de Kumba Ialá (c. 2000)...



Vídeo: 12' 18''... Alojado no You Tube > Nhabijões


Alcobaça > São Martinho do Porto >  Casa do Cruzeiro > 11 de agosto de 2012 >  3ª edição do convívio anual da Tabanca de São Martinho do Porto

Pepito (1949-2014) o anfitrião, depois do almoço, conta-nos,  com grande sentido de humor e boa disposição, uma das várias péripécias por que passou na sua terra, a Guiné-Bissau, ao tempo do Kumba Ialá, c. 2000, quando 3 ninjas, fardados e armados de Kalash,  cercam a sua casa, no bairro do Quelelé,  às 3 horas da madrugada, amarram o guarda noturno, dando  assim início à concretização de uma ameaça de morte que tinha chegado uns dias antes, sob a forma de uma carta anónimo (*)..

Valeu.-lhe na ocasião a pronta ajuda do vizinho e amigo Nelson Dias bem como um  ou mais elementos do GOE [Grupo de Operações Especiais] (?) da cooperação portuguesa, alertados por um desesperado telefonema da mulher do Pepito... Em voz off, ouve-se o Luís Graça que fez a gravação bem a Isabel Levy Ribeiro, mulher do Pepito, e cidadã portuguesa, e ainda o Zé Teixeira, da Tabanca Pequena de Matosinhos, que está à direita do Pepito.

Faz hoje 2 meses que o Pepito nos deixou, enquanto cresce a nossa saudade e a admiração que sertimos pela sua grandeza como ser humano. 'Nino' Vieira e Kumba Ialá eram dois políticos que o nosso Pepito detestava (*)...  Mas nós nunca ouvimos ou lemos palavras suas  de ódio para com os seus inimigos políticos... Até nisso, o Pepito era um homem dos nossos dias que nos inspirava e nos dava constantes exemplos de coragem (física e moral), de cidadania e de humanidade... A sua associação, póstuma, às comemorações dos 10 anos do nosso blogue, é mais que justa:  ele foi um grã-tabanqueiro da primeira hora, e tínhamos por nós, ex-comnbatentes, um especial carinho... Nunca foi combatente nem tinha armas em casa... Dois meses depois, ele está bem presente na nossa memóriaL Foi um privilégio, para alguns de nós, conhecê-lo e tê-lo como amigo. G
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Pepito. Foto de Luís Graça (2007)
(*) Excerto do notável escrito do Pepito, de cunho aubiográfico, e que é para todos os efeitos o seu testamento vital, "A sombra do pau torto",  de julho de 2008, e já aqui publicado duas vezes:

(...) Com o Golpe de 14 de Novembro de 1980 reintroduziu-se na história da Guiné a divisão étnica: no início a divisão era entre caboverdianos, apelidados de cavaleiros, e guineenses, chamados de cavalos. Esquecendo-se os seus promotores que. uma vez estabelecida a primeira divisão étnica, outras se lhe seguiriam, surge a estigmatização dos balantas, tanto mística com o fenómeno iang-iang, como política com o caso Paulo Correia, prosseguindo com a divisão entre muçulmanos e animistas, e mais recentemente entre os naturais da cidade e os da tabanca. Tudo isto em função da conveniência e interesse da estratégia do líder político da ocasião.

Kumba Ialá, que viria a ser mais tarde Presidente, revelou-se neste domínio, o maior, indo buscar os piores traços comuns dos balantas, unificou-os à volta de conceitos demagógicos e populistas, em contraponto aos tempos idos de 'Nino' Vieira em que os membros do governo pouco variavam, limitando-se os seus titulares a mudarem de cadeira. Nessa ocasião, lembro-me de um Ministro que, com três pastas num só ano, bateu o recorde olímpico nacional.

Já o antigo animista Kumba Ialá, travestido agora de muçulmano com a designação de Mohamed Ialá Embaló, introduziu pela primeira vez o conceito de acesso universal ao governo, isto é, passou a promover a entrada para o governo de todos os cidadãos que se julgassem capazes e predispostos a serem ministros. Analfabetos houve que aproveitaram a ocasião…A partir dos anos 2000 assistiu-se à mais louca gestão de um Estado, de que há memória. No fundo até durou pouco tempo…porque, entretanto, o Estado desapareceu!

Foi nesse período em que tudo valia, que um dia, deixaram “cair” perto do meu local de trabalho um bilhete anónimo que dizia: ”neste fim de semana vais sofrer um atentado para te matarem”. Entendi isso apenas como uma tentativa de intimidação. Todavia, às 3 horas da madrugada desse dia, três ninjas (polícia especial armada), acorrentavam o velho guarda da casa e iniciam a tentativa de demolição das janelas. Só a intervenção determinante do nosso vizinho, Nelson Dias, nos salvou, a mim e à Isabel, perante o completo desinteresse da polícia que se escusara a prestar socorro. Os assaltantes, esses, nunca foram punidos, embora saiba que a polícia os identificou. (...)

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Nota do editor:

Último poste da série > 18 de abril de 2014 > Guiné 63/74 - P13004: 10º aniversário do nosso blogue (11): 40 anos depois do 25 de abril: "Que inveja eu tive daqueles soldados, a maioria muito jovens sem qualquer experiência de combate, a quem tinha calhado a sorte de ajudar a derrubar a brigada do reumático, abrir as prisões e este país ao Mundo" (Juvenal Amado)

Guiné 63/74 - P13005: Histórias da CCAÇ 2533 (Canjambari e Farim, 1969/71) (Luís Nascimento / Joaquim Lessa): Parte II: Embarque e as primeiras impressões do aquartelamento e tabanca (Sidónio Ribeiro da Silva, hoje cor inf ref)


Capa da brochura "Histórias da CCAÇ 2533, elaborada sob a coordenação de Joaquim Lessa, e impressa na tipografia Lessa (Maia)

1. Histórias da CCAÇ 2533 > Parte II (Cap Inf Silvino R. Silva, hoje cor ref)


Continuamos a publicar as "histórias da CCAÇ 2533", a partir do livro editado pelo 1º ex-cabo quarteleirio, Joaquim Lessa, e impresso na Tipografia Lessa, na Maia. Esta publicação é feita com participação de diversos ex-militares da companhia (oficiais, sargentos e praças). As primeras 25 páginas são do cap Sidónio Ribeiro da Silva, hoje cor ref.

A brochura chegou-nos digitalizada através do Luís Nascimento. Temos autorização do editor e autores para finalmente dar a conhecer, a um público mais vasto de amigos e camaradas da Guiné, as andanças do pessoal da CCAÇ 2533.

Recorde-se, por outro lado, que as nossas duas companhais, a minha CCÇ 2590 (mais tarde CCAÇ 12), e a CCAÇ 2533, do Nascimento e do Lessa, viajaram, juntas no mesmo T/T, o Niassa, em 24 de maio de 1969, e regressámos juntas, a 17 de março de 1971, no T/T Uíge!... Ah! uma fantástica coincidência!...

 Publicamos agora a parte correspondente às pp. 4 a 11. Conforme aqui conta, o cap inf Sidónio R Silva teve de ir avião pro causa de um problema administrativo com as suas vacinas, que não estaríam em dia. Dá-nos a seguir as suas primeiras de Canjambari, e da situação herdada.



















(Continua)
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Guiné 63/74 - P13004: 10º aniversário do nosso blogue (11): 40 anos depois do 25 de abril: "Que inveja eu tive daqueles soldados, a maioria muito jovens sem qualquer experiência de combate, a quem tinha calhado a sorte de ajudar a derrubar a brigada do reumático, abrir as prisões e este país ao Mundo" (Juvenal Amado)



Fotografia do francês Gérald Bloncourt [n. 1926] reproduzida com a devida vénia, escolhida por Juvenal Amado para ilustrar o seu texto. Legenda: GB fez o caminho a salto com um grupo de clandestinos e tirou algumas fotos. Esta é de março de 1965 e tem a seguinte legenda: 'Passagem clandestina de emigrantes portugueses nos Pirenéus.'  

Uma exposição temporária deste conhecido fotógrafo (que acompanhou a imigração clandestina portuguesa dos anos 60/70 e cobtri também a "revolução dos cravos") esteve no Museu Colecção Berardo, CCB, Lisboa, de 18/2 a 18/5/2008, sob o título "Gérald Bloncourt: pir uma vida melhor".


1. Texto do Juvenal Amado, enviado para comemorar os 10 anos de existência do nosso blogue e os 40 anos do 25 de abril, dia que ele viveu em Alcobaça, sua terra natal, acabado de chegar, há 20 dias, da Guiné


Vivemos tempos filho de outros tempos.

Somos ex-soldados, que de uma maneira ou de outra embarcamos para combater naquelas terras quentes, de Sol inclemente, de chuvas torrenciais e trovoadas que nos deixavam calados e tementes do poder dos elementos. A quando de essas trovoadas, lembrava-me da minha avó Maria na sua casa na serra dos Candeeiros, metida na cama com as minhas tias a rezar a St Bárbara

Mas nós fomos combater em nome do passado e nunca em nome do futuro, porque nessas terras Portugal como potência administradora, tinha há muito os dias contados.

Num país sem liberdade de escolha nem de opinião, ou aceitávamos ir combater, ou tínhamos como destino certo, a prisão ou a fuga a salto para onde não chegasse o braço da polícia política.

A maioria de nós foi combater enchendo os navios transporte de tropas, com a esperança de uma vez regressados às nossas terras nos deixariam em paz. Não eramos convictos das razões porque íamos, grande parte não acreditávamos no que íamos fazer, embora com alguma curiosidade e espirito de aventura, contaríamos os dias que nos faltavam para regressar.

Encaramos a situação como um compasso de espera na nossa vida.

Valentia houve muita, coragem, abnegação, espirito de sacrifício, nunca poderemos pôr em causa, porque é possível ser valente mesmo sem uma razão válida para além de defender a própria vida e dos seus camaradas.

Paralelamente muitos também deixaram as suas terras, a sua vida de miséria, mal sabendo ler e escrever, largaram a enxada, o gado, ou um balde de massa, as suas mulheres, namoradas e a salto rumaram a outras terras. Esses de forma consciente, tiveram a coragem de afrontar a incerteza, os perigos da jornada e de serem presos para terem uma vida melhor. Esses procuraram o Futuro.

Sem talvez terem consciência disso, ajudaram com o seu esforço e as suas remessas de moeda forte, a prolongar a guerra e o regime que tão mal os tratara, a ponto de se irem embora procurar sustento e vida melhor.

Na verdade o que é que esses homens deviam  à Pátria?

O que é que a Pátria tinha feito por eles para lhes exigir a vida? Eram por acaso as nossas famílias que estavam em perigo? Eram as nossas aldeias e cidades a serem invadidas? Eram as riquezas dessas províncias ultramarinas, que lhes iam trazer o bem estar que até aí lhes tinha sido negado?

Mesmo assim, houve quem voltasse para fazer a tropa e ir combater pelo direito de poder voltar à sua terra. Outros, findas que foram as comissões, tiveram que emigrar, pois não tinham cá condições para viverem condignamente. Hoje há mais descendentes portugueses espalhados pelo Mundo dos que cá vivem.

Sabemos, hoje, que muitas organizações clandestinas defendiam a resistência ao regime. Enquanto umas defendiam que não se devia desertar a não ser que estivesse em risco a própria vida, outras que defendiam abertamente a deserção.

Pelo que entendo, umas pretendiam a implosão do Estado, utilizando as instituições vigentes, enquanto outras pretendiam que o fim do regime fosse atingido pela luta de fora para dentro.

Como se viu o objectivo foi atingido de dentro para fora, utilizando os militares que operavam nos três ramos das forças armadas, muitos ao nível de comando com larga experiência em combate, o que me faz parecer justíssima a primeira opção, não quero com isto tirar o valor a quem acreditava noutras vias.

Naquela madrugada, já os militares revoltosos estavam a caminho dos objectivos, bebia eu umas imperiais no café do Omar, um galego há muito radicado em Portugal (Ele brincando com o seu nome transformou-o em Roma). Era ali mesmo frente ao Mosteiro de Alcobaça, eu mais um amigo que cavaqueávamos sem nos apercebermos de nada. Tinha chegado há 20 dias da Guiné no Niassa e ir para a cama, era a última coisa que me apetecia tal era a ânsia de absorver o regresso. Três horas mais tarde a minha mãe entrava no meu quarto acordando-me com um misto de alegria e medo, “há uma revolução em Lisboa” disse ela.

O meu pai exultava e não tardaram a passar colunas militares a caminho das Caldas da Rainha, pois que, vencida a revolta de 16 de Março, esse quartel estava sem ligação.

Que inveja eu tive daqueles soldados, a maioria muito jovens sem qualquer experiência de combate, a quem tinha calhado a sorte de ajudar a derrubar a brigada do reumático, abrir as prisões e este país ao Mundo.

Depois regressaram muitos que de cá tinham fugido. Vieram de avião, de comboio e até de automóvel. Uns talvez filhos de “papás”, mas a grande maioria tinha hipotecado o seu futuro académico, os seus empregos, as suas famílias, a liberdade em nome de um ideal de justiça e bem estar, que se vivia nos países livres da guerra e repressão.

Todos ajudaram à formação de uma consciência colectiva para derrubar nesse dia o governo que subjugou este país 48 anos. Para trás ficaram perseguições, dezenas de anos de luta, centenas de anos de prisões, mortes, torturas e degredo.

Por causa desse dia os nossos filhos conheceram outra realidade que não a nossa, nem têm possivelmente consciência do que é não ter o que têm e que nós não tivemos:

(i) Assistência médica para todos, a quase erradicação da mortalidade infantil;

(ii) Só 13% dos alunos ultrapassavam a 4ª classe e havia milhares a não passar da 2ª e 3ª;

(iii) Liberdade dos presos políticos, fim do delito de opinião e eleições livres.

(iv) Democratizar, Desenvolver, Descolonizar.

Muito se fez, muito ficou por fazer mas 40 anos passados, apesar dos avanços e recuos nada se compara ao que tínhamos antes.

Muito se escreveu sobre o 25 de Abril, uns contra, outros a favor, mas a verdade é que todos podemos expressar a opinião e pela parte que me toca, é com muito orgulho que recordo e festejo esse dia luminoso, em que o verde azeitona das fardas ocupou Lisboa e a espingardas G3, se encheram de cravos vermelhos.

Um abraço a todos

Juvenal Amado
[ex-1.º Cabo Condutor Auto,
CCS/BCAÇ 3872,
Galomaro,
1971/74;
ex-empresário]

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Nota do editor:

Último poste da série > 17 de abril de 2014 > Guiné 63/74 - P13001: 10º aniversário do nosso blogue (10): O baú das memórias já está muito rapado... mas ainda consegui uma foto, que diz muito: um abrigo no K3 (Ernesto Duarte, ex-fur mil, CCAÇ 1421, Mansabá, 1965/67)

Guiné 63/74 - P13003: Mafra, EPI, COM: Instruções para os instruendos (Mário Vasconcelos): Parte I: Finalidade, Funcionamento, Provas de aptidão, classificação e Faltas


















Reprodução da primeira parte do guia do instruendo do COM (Curso de Oficiais Milicianos), usado na EPI - Escola Prática de Infantaria, em  Mafra: I. Finalidade dos C. O. M.; II Funcionamento; III - Provas de aptidão, classificaçaõ e exclusões; e IV - Faltas.

Imagens: © Mário Vasconcelos (2014). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]

1. O documento original, sem data, chegou-nos, devidamente digitalizado, por mão do nosso camarada Mário Vasconcelos [ex-alf mil trms, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, COT 9 e CCS/BCAÇ 4612/72. Mansoa, e Cumeré, 1973/74].

Recorde-se que já publicámos o guia do instruendo do CSM - Curso de Sargentos Milicianos,  documento que nos chegou por mão  da parelha Fermando Hipólito / César Dias, e que é claramente mais "ideológico" do que o guia que começamos agora a publicar.

Não encontro este documento na Biblioteca do Exército nem sei de que data será.

Estas "indicações" ( e não "instruções") dadas aos instruendos dos COM remetem, por sua vez, para o Regulamento Geral de Instrução do Exército (RGIE).

Guiné 63/74 - P13002: Parabéns a você (721): Raul Brás, ex-Soldado Condutor Auto da CCAÇ 2381 (Guiné, 1968/70)

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Nota do editor

Último poste da série de 15 DE ABRIL DE 2014 > Guiné 63/74 - P12987: Parabéns a você (720): António Pimentel, ex-Alf Mil Rec Inf do BCAÇ 2851 (Guiné, 1968/70)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Guiné 63/74 - P13001: 10º aniversário do nosso blogue (10): O baú das memórias já está muito rapado... mas ainda consegui uma foto, que diz muito: um abrigo no K3 (Ernesto Duarte, ex-fur mil, CCAÇ 1421, Mansabá, 1965/67)



Foto nº 1


Foto nº 2 


Foto nº 3


Foto nº 4

Fotos (sem legendas): © Ernesto Duarte (2014). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]


1. Duas mensagens, com data de 15 do corrente, do Ernesto Duarte [ex-fr mil.  CCAÇ 1421/BCAÇ 1857, Mansabá, 1965/67], respondendo ao nosso pedido para "rapar o baú" das recordações:


(i)  Assunto - O baú rapado


Primeiro o meu desejo que essa saúde continue
a ser reposta com a rapidez desejada ! Segundo desejo, uma boa Páscoa para ti e para os teus familiares !

Terceiro, os meus parabéns ao imortal blogue ! Sim, o blogue já é e continuará a ser imortal ! Viva o grande blogue, que deu voz a todos os silenciados !

Sim, o baú está mais do que rapado, tanto o caixote como a cabeça que caminha a passos largos para lá também e como a confusão é grande não juro que ainda não tenha mandado estas fotos !

Mas, aproveitando o assunto, vou tentar dizer quanto a mim uma das razões que muito contribuíram para que eles estejam muito rapados, muito por baixo !

Quando se pensa mais em pormenor na nossa história de vida de há quarenta e tantos anos, baila nas nossas mentes um milhão de coisas, e hoje que somos uns especialistas em trabalhar com computadores, com botões e sem gatilhos, nós temos que lembrar a dificuldade, ou falta de máquinas fotográficas, com rolo nessa altura, não como aquelas fitas que aquelas metralhadoras usavam, com as de hoje seria facílimo.

E depois o cenário, parava de disparar a G3 , para disparar a máquina, parar a guerra no cenário ideal, não era muito viável !

Agora outra grande verdade: nós normalmente saíamos ao anoitecer sem hora de regresso ! Levávamos umaa sandes. um cantil de água, muitos dois !

O bornal não era prático, principalmente quando se tinha que correr, ou passar cursos de água, com água até ao pescoço, a farda passava a ter poucos bolsos, porque havia coisas que tinham que ir: no cinto o cantil e seis carregadores, para a maioria, depois mais umas granadas; mais umas facas, às vezes mais uma pistola; eu costumava levar o casaco para a carga ser maior e ir mais bem dividida.
Não havia digamos assim, muito espaço para uma máquina [fotográfica] !

Aí pelo inicio de 1965 quando dei uma recruta em Beja, mais de metade daquela gente maravilhosa não sabia ler, grande parte da companhia também não, até me surpreende, como mesmo assim dos mais veteranos ainda chegaram cá tantas fotografias !

Na minha casa falou-se sempre de isso, mas eu já disse, e volto a dizer, convencer alguém que nunca viu nada daquilo, o convencer que não estamos a divagar, nós por vezes já perguntamos a nós próprios se não foi tudo um sonho mau !

Uma Boa Páscoa
Um grande abraço para vocês todos do blogue.
Um grande abraço a todos os ex-camaradas.



(ii) Assunto: Uma que estava no fundo do caixote


Luís: Esta [, foto nº 1,] tem mesmo muito valor !

É artesanal e significa tudo o que se possa dizer sobre condições más.... Era assim o abrigo para cada secção, abrigo e sala de estar !foi atacada tanta vez !


K3 – Farim

Um abraço


Ernesto Duarte
Furriel miliciano
CC 1421 BC 1857
Mansabá – Oio – Morés
1965 / 1967

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Nota do editor:

Último poste da série > 17 de abril de 2014 > Guiné 63/74 - P13000: 10º aniversário do nosso blogue (9): Sondagem: resultados finais (n=129); mais de um terço dos respondentes nunca falou da guerra, ou só muito raramente, aos seus filhos... Comentário da jornalista e escritora Catarina Gomes: "não esperem por perguntas, digam filho, anda cá que eu quero contar-te uma coisa"

Guiné 63/74 - P13000: 10º aniversário do nosso blogue (9): Sondagem: resultados finais (n=129): mais de um terço dos respondentes nunca falou da guerra, ou só muito raramente, aos seus filhos... Comentário da jornalista e escritora Catarina Gomes: "não esperem por perguntas, digam filho, anda cá que eu quero contar-te uma coisa"


Resultados da sondagem que decorreu no blogue, entre 9 e 15 de abril de 2014, e que tem 143 respostas, das quais 129 válidas.

Infografia:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2014)



Cartaz dos 10 anos da nossa Tabanca Grande. Conceção do nosso "designer" 
© Miguel Pessoa (2014)


1. Comentário de L,G.:

Embora tratando-se de uma sondagem "instantânea",  "on line", aberta a todos os visitantes, de autorresposta, não se podendo controlar a sua antiga situação de combatentes, não deixam de ser interessantes os resultados apurados, sobretudo pelas tendências que revelam (*)....

No final, houve 143 respostas, das quais só 129 válidas, já que em 14 situações o respondente não tinha filhos ou não tinha vivido situações de guerra.

È sobretudo preocupante saber que dos nossos leitores, em princípio comnbatentes da guerra colonial (e maioritariamente, que passaram pelo TO da Guiné), mais de um terço admite que nunca falou da guerra, aos seus filhos, ou se o fez, foi uma ou duas vezes, em toda a vida...

Estamos a falar de um universo, restrito, cuja  caraterização desconhecemos, de indivíduos que, apedar de tudo, têm ao seu alcance um blogue, que vai fazer dez anos de existências, e que lhes faculta a possibilidade de desabafar, contar, publicar, divulgar, partilhar, comentar, ler relatos de outros... Mas escrever no blogue ou ler o blogue, não quer dizer que se fale com os filhos, ou com a esposa, enfim, com as pessoas do círculo íntimo da família...

O ex-combatente sente-me mais confortável a falar da guerra com outro ex-combatente do que con os filhos. Por cumnplicidade, por soliadariedade, por pudor... Os convívios anuais das unidades têm também essa função de catarse, de grupo autoajuda, de socialização, de fusão emocional....  Mas voltaremos, num outro poste. aos resultados desta sondagem. (**)

2. Comentário de Catarina Gomes, jornalista e escritora
[autora do livro "Pai, tiveste medo?", Lisboa, Matéria-Prima
Edições, 2014]

Professor, eu não sou tão rápida. Mas aqui segue o texto, a propósito da sondagem. Bjs e obrigada

Anda cá que eu quero contar-te uma coisa

Talvez o mais interessante que me tem acontecido desde o lançamento do meu livro “Pai, tiveste medo?” é a descoberta de que tanta gente partilha comigo esta experiência, a de serem filhos de ex-combatentes. A participação dos nossos pais na guerra começou a ser falada entre nós a pretexto deste meu livro. Desde de uma editora do Público, com quem falo todos os dias de trabalho, que me contou, pela primeira vez, que o seu pai tinha um ferimento sobre o qual nunca tinha querido falar, por mais que ela perguntasse, disse-me que ia voltar a tentar; a um colega com quem trabalho todos os dias que acredita que o motivo porque não consegue manter uma relação com o pai remonta a esse tempo.

Catarina Gomes
E até o mergulho nesta que é para mim uma experiência nova, a de ser jornalista e estar do outro lado a ser entrevistada, me apresentou a outras pessoas a quem o tema também toca. Na Sic Notícias, a jornalista que me entrevistou contou-me que o pai casou com a madrinha de guerra, mal se desligaram as câmaras os dois operadores de câmara vieram conversar comigo sobre o facto de os pais terem sido, ao mesmo tempo, “retornados” e ex-combatentes, um deles tinha feito uma entrevista ao pai sobre a guerra quando ele estava já muito doente, pouco antes de morrer, também lhe perguntou “tiveste medo?”.

A Cristina Ferreira, a partner do Goucha na TVI, é filha de ex-combatente, uma figurante sussurrava atrás de mim no programa Você na TVI “eu também sou”; houve uma maquilhadora da RTP que me disse tem um colega que viveu marcado por fotografias do horrível na guerra trazidas pelo pai. D

estas conversas tiro o facto de a participação destes pais na guerra não ter sido sido indiferente aos filhos. Já o disse, gostaria que este livro fosse um convite a perguntas que nunca se fizeram aos pais, enquanto é tempo.

Neste blogue, deixo-vos o convite ao contrário, não esperem por perguntas, digam “filho, anda cá que eu quero contar-te uma coisa”. Por estes dias, alguém me relembrou uma letra de canção de que me tinha esquecido, é do Sérgio Godinho:

Capa do álbum de fotografias do nosso camarada
José Casimiro Carvalho
Chega-te a mim,
mais perto da lareira,
vou-te contar
a história verdadeira

A guerra deu na tv,
foi na retrospectiva,
corpo dormente em carne viva,
revi p'ra mim o cheiro aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos,
olha o meu corpo ileso.

Olha esta foto, eu aqui,
era novo e inocente,
"às suas ordens, meu tenente!"
E assim me vi no breu do mato,
altivo e folgazão,
ou para ser mais exacto,
saudoso de outro chão,
não se vê no retrato,

Chega-te a mim,
mais perto da lareira,
vou-te contar
a história verdadeira.

Nesta outra foto, é manhã,
olha o nosso sorriso,
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas,
estás são e salvo e logo
"viver é bom", proclamas,

Eu nesta, não fiquei bem,
estou a olhar para o lado,
tinham-me dito: "eh soldado!
É dia de incendiar aldeias,
baralha e volta a dar,
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar!"
No fogo assim te estreias,

Chega-te a mim,
mais perto da lareira,
vou-te contar
a história verdadeira.

Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos,
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue.
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila

O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos,
tudo tremeu e os terramotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, ah, mas
será que não violamos
as ordens e as normas?

Chega-te a mim,
mais perto da lareira,
vou-te contar
a história verdadeira

Álbum das fotos fechado,
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas,
num livro as amassamos,
logo após cortadas,
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas,

Chega-te a mim,
mais perto da lareira,
vou-te contar
a história verdadeira,
quando a recordo
sei que quase logo acordo,
a morte dorme parada
nessa morada .

Sérgio Godinho, Fotos do Fogo

3. Comentário de L G., ao texto anterior;:

Catarina:  é um texto lindo. você é uma pessoa de grande sensibilidade e talento... E por tudo o que já fez pelo seu pai, pela geração do seu pai, por todos nós, antigos combatentes, que não queremos morrer... "sem deixar rasto" (leia-se: sem partilhar as nossas memórias e afetos, da Guiné, de Angola, de Moçambique, de Portugal, etc.) , eu acho que merece sentar-se aqui ao nosso lado, sob o poilão da Tabanca Grande... Tenho aqui um lugar, reservado para si, o nº 655. Não me vai dizer que o seu estatuto de jornalista a impede de pertencer ao blogue Luís Graça 6 Camaradas da Guiné...Arranje  uma foto atual.. Só tenho a do Facebook,,,

Boas festas, da Páscoa cristã ou pagã. Um xicoração. Tirei ontem os pontos, estou a recuperar bem da minha artroplastia da anca... Luis

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