terça-feira, 15 de abril de 2014

Guiné 63/74 - P12991: Tabanca Grande (433): Lucinda Aranha, filha de Manuel Joaquim dos Prazeres que viveu em Cabo Verde e na Guiné entre os anos 30 e 1972, e que era empresário de cinema ambulante

1. Vamos receber hoje na Tabanca Grande a nossa nova amiga tertuliana Lucinda Aranha, filha de Manuel Joaquim dos Prazeres que viveu na Guiné e em Cabo Verde desde os anos 30 até 1972 e se dedicava à projecção de cinema ambulante, assim como à caça grossa. Como era conhecido por toda a Guiné, ajudava a resolver muitos dos problemas com que se deparavam os Administradores e Chefes de Posto locais.

Lucinda Aranha publicou um livro com o título No Reino das Orelhas de Burro*, recheado de histórias e memórias dos tempos em que o seu pai viveu naqueles ex-territórios portugueses. 

É com um trecho desse livro que se vai apresentar à tertúlia.


2. A mensagem que se segue é sequência de uma troca de correspondência a propósito de um pedido que a nossa nova amiga fez ao Blogue para tentar encontrar alguém que se lembre de seu pai na Guiné.

Por que Lucinda Aranha está ligada àquele território tão nosso conhecido, fiz-lhe o convite para se juntar à nossa tertúlia, ao que anuiu.

Caro Carlos Vinhal,

Escolhi para me registar um capítulo de "No Reino das Orelhas de Burro", da minha autoria, que conta estórias do tempo dos meus pais em Cabo Verde e na Guiné.

Seguem em anexo os 2 ficheiros, a foto e o texto.

Envio num próximo mail, as fotos de meu pai e o texto em que solicito a quem o possa ter conhecido eventuais informações e imagens.

Cumprimentos
Lucinda Aranha


No que diz propriamente respeito à Animalia, vulgo seres irracionais, confesso que o meu interesse por eles só despertou pelos meus vinte e picos. E isto apesar dos constantes bate bocas (quando o meu pai vinha da Guiné durante a época das chuvas, de férias para Lisboa) entre os meus pais, o Nequinhas e a Julinha petit-noms com que se mimoseavam mutuamente, para grande gozo nosso – os numerosos filhos, numa escala de sete, três de um primeiro casamento falhado do Nequinhas, mas que a Julinha criava como se suas crias fossem, que foram gradualmente desaparecendo à medida que se iam casando, ficando o grosso reduzido a quatro donzelas. 

Pruridos dos anos 50/60 levavam o pai, moralista ferrenho e seguidor dos preceitos de António Ferro, a acautelar constantemente a sua Julinha para os malefícios da literatura, cinema, teatro, bailes, enfim de todos os lazeres e, de uma forma mais abrangente, de toda a cultura na corrupção dos princípios Deus, Pátria, Família, pondo sempre a sua amada e muito recatada Julinha num estado de grande ansiedade com a expectativa das terríveis desgraças que poderiam ocorrer, na ausência do seu mais que tudo, tipo histórias da machadinha – não aconteceu, mas pode vir a acontecer.

Numa coisa, no entanto, eles não estavam de acordo e isso metia sempre imbróglios ligados ao bestial. Entenda-se, nada que tivesse a ver com o bué de bom actual, mas sim com os ditos irracionais. O Nequinhas, desde que se conhecia como adulto responsável, sempre apreciara cães e gatos, enquanto a Julinha os via como empecilhos que só traziam trabalhos, aborrecimentos, perda de tempo livre, prisão. Não me venha com coisas que para trabalhos já bastam esses seus amigos vindos das Guinés que, a toda a hora, entram, saem, comem, dormem, fazem da nossa casa pensão, dizia. As suas diatribes deixavam sempre de fora os compadres Branco Vicente com os quais tinham compadrio mútuo, tendo a Juju júnior e o Manuel, rebentos dos respectivos casais, nascido na Praia, Cabo Verde (como gostava de acrescentar) com o intervalo de um dia, e o compadre Esteves, transmontano que vira a sua vida medrar em Bissau e apadrinhara os casamentos de três das donzelas que ela pastoreava e das quais era pegureira zelosa não fossem uma raposa matreira ou um lobo faminto atreverem-se a assaltar-lhe o redil. Para eles e suas respectivas proles guardava um canto à parte nos seus afectos. Entenda, Julinha, retorquia-lhe, nesses momentos o marido, eles são importantes para o meu ganha-pão; não se esqueça que corro toda a Guiné levando a civilização a brancos e indígenas.

É preciso dizer que numa contradição, em que aliás ele era fértil, tinha um cinema ambulante com o qual correu desde os anos 40 aos anos 70 do século passado a Guiné e, quando a guerra colonial começou, entreteve civis, militares e guerrilheiros, oficialmente terroristas para o Estado português, convivendo com todos eles, admirando por igual Salazar e Amílcar Cabral com quem chegou a privar e de quem a Julinha se orgulhava de dizer que conhecera ainda rapazinho de calções. 

O próprio Zezinho Araújo, ministro de Luís Cabral e um dos assinantes do Acordo de Argel, foi durante os seus tempos de estudante em Lisboa visita assídua, com a irmã Noémia, de nossa casa. Até uma vez por lá apareceu o Agostinho Neto, quem sabe se levado pelo Manelito, angolano embarcadiço casado com a Maninha, afilhada de casamento do Nequinhas e da Juju, que apadrinharam também o casamento da Cecília e do Fidelis, célebre por ter vivido nos EUA, onde quase dera o nó com uma americana. Só a Nené escapou a esta onda de enlaces que es cusa di relaxo não era com ela, como dizia numa misturangada de português e crioulo da Praia, exemplo acabado de aculturação.

Nestas suas andanças lá ia com a sua velha Ford, gerador, projector, ecrã, filmes os mais inócuos possíveis (capa e espada, cowboys, musicais, comédias, dramas), os seus ajudantes nativos, os seus acompanhantes de quatro patas, os amigos cães que alimentava, afagava, acudia na doença, com quem convivia tu cá tu lá, que era médico e veterinário autodidacta. Veja bem, insistia o Nequinhas, que esses amigos são compadres, grandes comerciantes, sírios e libaneses, chefes de posto, administradores, governador, até um deputado e que seria do meu cinema – o cinco pesos e leva cadeira – sem o apoio deles? Era a pergunta com que sempre punha fim ao arrazoado da sua Julinha, farta de aturar gente que só dava trabalho. Já agora não se esqueça daqueles régulos que trouxe cá a casa, em 63, aquando da comemoração do dia da raça, acrescentava minuciosa, lembrando os “homens grandes” que arrebanhavam à força o grosso dos espectadores, que pateavam e ululavam quando o Nequinhas censurava os beijos dos actores tapando-os com a mão.

Coitada da Nené, ama e posteriormente cozinheira, que estava sempre ao fogão nas cachupas, no feijão pedra, na galinha à cafreal, na caldeirada de cabrito, nos pudins de pão, de queijo e de chá, no café leve e aromático que combinava o Fogo com S. Tomé; da Cecília, criada de dentro acolitada pela Maninha engomadeira e pela Belmira mulher a dias, todas elas caboverdianas, à excepção da última. Porque o Nequinhas começara a sua saga pelas Áfricas nos anos 30, em Cabo Verde, donde partira para a Guiné, seguindo o movimento migratório habitual, gerador de sentimentos de inferioridade que envenenaram as relações entre a Guiné e Cabo Verde, originando conflitos tempestuosos e sangrentos de que todos conservamos memória.

Sempre que vinha à baila Cabo Verde, a Julinha desvairava, lembrando-se da célebre gata parideira que roubava, para desespero da Nené e da senhora e grande orgulho do patrão, bicudas, pedações de atum e bons lombos, muitas vezes ainda ao lume para dar de comer às suas ninhadas que ciclicamente se sucediam. Então com o Totó, o rafeiro, ia ao rubro. Sempre a escagaçar por todo o lado, fazendo gato sapato das mulheres da casa, só obedecendo ao dono. Nem queria lembrar a vergonha que a fizera passar com o Toneca, visita de todos os dias, que adorava a Juju júnior, então uma boneca de palmo e meio. Abre a boca, abre e fecha os olhos, que eu dou-te um bombom, disse-lhe a boneca, e enfiou na boca do lambareiro um cocó do porqueiro. O Toneca ia tendo um semidesmilinguamento; por mais que lavasse a boca, só lhe sabia a merdimbuca. Trastes, levasse-os a todos o demónio, à parideira, ao Totó e a todos os que o seu Nequinhas apadrinhava.

Então só defende cães e gatos? - Atirava-lhe em momentos de maior fúria, quando a teimosia do marido excedia toda a razoabilidade. Mas que grande advogado têm os animais. Que me diz aos belos sapatos e malas de crocodilo e de cobra que tenho feito com as peles que caça? Às peles que vende para o David Kit? À sua basófia de caçador de tiro certeiro a que não escapavam até os búfalos, as pobres das galinholas e os javalis, se é que não eram porcos selvagens abandonados pelos colonos quando regressavam de Cabo Verde? Ora, ora, não me venha com falsas moralidades sobre os amigos de quatro patas desprotegidos. Era o golpe de morte com que emudecia o Nequinhas.

Quando nos finais da Segunda Guerra Mundial assentou arraiais em Lisboa, uma coisa tornou-se clara: a Julinha não toleraria mais seres bestiais em sua casa. Não, que viviam em Lisboa, cidade capital, e animais eram para o campo, a província, áfricas e vivendas. Se bem que a Juju júnior ao casar tratou logo de arranjar um gato, o Zé Trinca, que a mãe despachou a grande velocidade, quando a filha se mudou de armas e bagagens para Angola.

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3. Comentário do editor

Cara amiga Lucinda, muito obrigado por se juntar a esta família de ex-combatentes da Guiné, onde como lhe disse antes, são bem-vindos todos aqueles que de algum modo se sentem ligados àquela terra com chão vermelho e paisagens fabulosas de longas bolanhas, palmeirais e capim a perder de vista.

Muito obrigado pelo seu texto de apresentação que nos leva a quase ver o que descreve.
Acho que jogou muito alto pois deixou-nos expectantes quanto à sua colaboração futura neste blogue.
Se a nós cabe deixar aqui as memórias de guerra, aos civis que, como a Lucinda, conhecem histórias dos tempos maravilhosos de não-guerra, de um país quase virgem, do ponto de vista europeu, pelo menos no chamado "mato", onde existia uma civilização ancestral muito estranha para o comum dos militares que para lá iam em missão de combate, o que desviava a atenção do que de mais belo havia.

Não se esqueça de nos mandar fotos que eventualmente tenha que irão certamente enriquecer o nosso espólio fotográfico, já que a esmagadora maioria das publicadas retrata a época da guerra.

Gostaríamos que pormenorizasse se e quanto tempo viveu com os pais na Guiné, eventualmente também em Cabo Verde, nomeadamente se fez a instrução primária e secundária por lá ou se a fez na metrópole onde supostamente teria melhores condições. Percebi que foi professora, suponho que só em Portugal.

Não me alongo mais porque acho que já está sensibilizada para a importância que poderá ter ao partilhar connosco as vivências do senhor seu pai. Isto sem prejuízo do livro que está a escrever sobre as suas memórias.

É da praxe deixar aqui um abraço de boas-vindas em nome da tertúlia e dos editores Luís Graça, Eduardo Magalhães e eu próprio.

Carlos Vinhal
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Notas do editor

No Reino das Orelhas de Burro
Autoria: Lucinda Aranha Antunes
Temas: Literatura Portuguesa e Ficção
Colecção: Tribuna Livre - Poesia e Prosa
Preço: 7,50 €

Detalhes:
Ano: 2012
Capa: capa mole
Tipo: Livro
N. páginas: 106
Formato: 21x15
ISBN: 987-989-689-260-9

(*) Sinopse

Glosando as histórias que preencheram o imaginário da sua infância, a narradora de No Reino dos Orelhas de Burro entrelaça e vai cerzindo, num estilo enxuto e directo, as suas memórias com as de familiares, de amigos ou simples conhecidos, dos velhos tempos de Cabo Verde e da Guiné, da sua vivência como professora do ensino secundário.
Uma após outra, as histórias que nos conta surpreendem e deixam-nos perplexos pela ténue diferença que separa humanos e animais. E, nesse sentido, constitui um vigoroso manifesto em defesa dos animais que, numa forma algo ingénua mas certeira, questiona a suposta superioridade desse predador que é o Homem.

Com a devida vénia a Edições Colibri

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Último poste da série de 2 DE ABRIL DE 2014 > Guiné 63/74 - P12924: Tabanca Grande (432): João Alberto Coelho (Alf Mil Op Esp/RANGER da 1.ª CART do BART 6522 – S. Domingos -, 1972/74), grã-tabanqueiro nº 653

7 comentários:

Valdemar Silva disse...

Cara Lucinda Aranha
Li com muito interesse o seu texto no nosso bloge.
Julgo ter conhecido o sr. Manuel Joaquim Prazeres, pois vi alguns filmes em Contuboel e Nova Lamego que deviam ter sido exibidos por ele. Não devia de haver outra pessoa, em 1969/70, a exibir os filmes e até falei com ele. Falámos do critério do preço dos bilhetes: um soldado pagava um valor, o cabo outro valor e assim diferia conforme a patente. Ele dizia-me que havia alguns sargentos e oficiais que tiravam os galões para pagarem menos pelo bilhete. Também falámos da maneira despreocupada como ele se deslocava, de terra em terra, na sua carrinha, com um criado e, apenas, uma pequena espingarda para matar alguma lebre como ele dizia.
Agora, lendo o seu texto, percebemos a razão da facilidade com que o Sr. Manuel Prazeres se movimentava naquelas paragens.
No meu álbum fotográfico e nas fotos de Contuboel aparece na foto da rua Principal, no lado direito, a carrinha que o Sr. Prazeres se deslocava e noutra foto os cartazes do filme 'Rififi em Paris' por ele exibido.

Com os meus cumprimentos
Valdemar Queiroz

Luís Graça disse...

Que vidas!... Que histórias de vida!...

Manuel Joaquim dos Prazeres só pode ser um descendente direto dos "lançados", doa grandes aventureiros de quinhentos, do tuga que ama a Áfria e os grandes espaços, e as suas gentes... E que sabe fazer a ponte entre a natureza e a cultura, a gepgrafia e a história, o real e o imaginário, os bichos e os homens...

Vi,por certo, algum filme dele, projetado na parede ddas instalações do comando ou no refeitório das praças, em Bambadinca e, antes, em Contuboel, entre junho de 1969 e março de 1971...

Que belo texto, Lucinda!... Fico com ganas de ler o livro, era bom que o Carlos Vinhal pusesse a ficha técnica completa, do livro, incluindo a editora e o preço de capa.,..

Lucinda, mesmo não sendo tu filha de um combatente (em termos técnicos), és filha de alguém, que amou muito aquela terra, bem como Cabo Verde, e que foi uma testemunha privilegiada de uma época privilegiada... Até pelas figuras que ocnheceu!...

És bem vinda à nossa Tabanca Grande, onde nos tratamos por tu, os canmaradas... Mão me levas a mal que o faça, contigo, amiga, isso ajuda a encurtar distâncias... e a seguir a picada a direito...

Bom sucesso para o livro!

Anónimo disse...

Olá, Lucinda!

Gostei muito texto de apresentação (extracto do livro?).
Como agora se usa dizer, principalmente entre mulheres (com pedido de desculpas...), é um texto muito "giro". Se alguém disser isto do seu texto, considere um insulto. É mais!
Pois aqui estou para lhe dizer, enquanto este post está "vivo", que tive oportunidade de conhecer o seu pai em Bambadinca. Só podia ser ele, pois não havia outro, concerteza, calcorreando a Guiné naqueles tempos arriscados, deslocando-se de barco ou nas colunas militares. A Bambadinca chegou de barco (vindo de Bissau?). Montou a tenda de lona e esteve dois ou três dias. Num extremo o projector e no outro extremo a tela/écran. Os espectadores acomodados sobre a direita e a esquerda da projecção. Havia uns quantos bancos no espaço central, onde ele acomodava oficiais e sargentos.
O problema não era cobrar os bilhetes na porta/abertura que a lona tinha para esse efeito, era controlar/impedir as "entradas" da garotada entre a lona e o chão, a toda a volta. Ele tinha um ou dois ajudantes, se bem me lembro para esse efeito (e, concerteza, para a montagem da estrutura).
Lembro-me de estar a projectar um filme francês ( que não era muito antigo e a cópia tinha uma boa imagem) e`... (continua)

Anónimo disse...

(continuação)
...de repente: pló! Ficámos às escuras. O seu pai, que estava mesmo por baixo do projector, desatou aos berros contra a garotada, que ria às gargalhadas e fugia. Retirou a manga (extremamente madura) da lente, fez uma limpeza sumária, enquanto emitia uns desabafos, e a projecção continuou até final.

Gostei que tivesse feito recordar o que atrás escrevo, desejo-lhe felicidades e sucesso para o livro.
Alberto Branquinho

Unknown disse...

Caro valdemar, procurei as fotos que refere mas só encontrei a da rua principal de Nova Lamego e não vislumbrei nenhuma carrinha. Pareceu-me mais um autocarro. Como posso ter acesso às 2 fotos? Achei muita piada ao critério dos preços.Obrigada, Lucinda Aranha

Unknown disse...

Luís e Alberto, agradeço-vos os elogios e os vossas recordações que me vão ajudar a escrever sobre o Manuel Joaquim.Lucinda

vsauane disse...

Caro Lucinda Aranha, é com grande satisfação que encontro este Blog, hoje é o dia em que regressei a minha terra Natal por vários motivos, em primeiro lugar recordei da minha querida mãe que me deu tudo e mais alguma coisa, mas de repente veio a mente um senhor que fazia filmes na época Colonial chamado Manuel Joaquim ( Manel Djoquim ) para todos os Guineenses, venho por este meio agradecer ao seu pai, porque eu adorava cinema era muito novo, estava perto de completar os 5 anos aproximadamente, lembro me sempre de pedir dinheiro a minha mãe para ir ver os filmes, na maioria das vezes não pagava porque os guardas da Casa Gouveia conheciam me porque levava leite de vaca para os donos da Casa Gouveia, os filmes eram projectados no quintal da Casa Gouveia, eu não queria ir a escola porque não era tradição na minha família alguém ir para escola, mas estava sempre a perguntar o que se passava nos filmes e como as pessoas estavam muito concentrados para ler a legenda não dava para me explicarem sempre o que se passava, um dia disse para a minha mãe que gostaria de perceber o que se passava nos filmes porque ninguém me explicava nada, ela disse me então chegou altura de pensares seriamente em ir para a Escola, aceitei de imediato porque percebi de que sem a escola não poderia interpretar os filmes, comecei a ter explicação numa senhora portuguesa que era professora primaria morava ao pé da minha casa, nunca mais abandonei a escola, não sou ninguém mas pelo menos sou aquilo sou graças ao seu pai, talvez se o senhor Manel Djoquim nunca tivesse chegado a Nova Lamego eu seria uma outra pessoa, até poderia ido a escola mas não seria da forma que aceitei e gostei da escola, hoje passado todo este tempo recordo me dos bons tempos da minha cidade, e como o seu pai nos ajudou a ver o mundo, nem radio tínhamos em casa, de repente a começar a ver filmes, Tarzan, Sandokan o Tigre da Malasia, Pierre Brice & Les Barker, como nos ensinou a ver outro lado do mundo através dos filmes, o seu pai era um homem bom, nunca ralhava com as crianças, sempre que notava que as crianças estava a furar a barreira fazia de conta que não estava a ver, ele amava a sua profissão, gostava do povo, sentia o povo, com os seus calções que ficaram eternizados mesmo depois da sua partida, calções de Manel Djoquim. Ficamos órfãos de tudo, a Guiné tem hoje mais Tarzan´s do que a própria selva, em cada esquina encontra-se Far West, o país está em autentico declínio, Salteadores da Arca Perdida dentro do próprio Estado, a guerra dentro da cidade destruiu a capital por completo, fome e miséria por toda a parte, se há coisa que tenho saudades é dos bons tempos dos filmes de nhu Manel Djoquim, que a sua alma descanse em paz, mais uma vez muito obrigado por partilharem estes momentos, obrigado aos donos do Blog, quem sabe um dia venho com mais historias de Nova Lamego onde tenho orgulho de ter nascido. Vital Sauane