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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27777: Documento (61): A retirada de Madina do Boé (e de Béli), segundo Gustavo Pimenta, autor de "A Sorte de Ter Medo" (2017), e com recensão de Beja Santos


Gustavo Pimenta


Capa do livro "A sorte de Ter Medo", de Gustavo Pimenta (Coimbra, Palimage, 2017, 198 pp., SBN 978-989-703-170-0, preço de capa, 17,00 euros (Indisponível)


Um impressionante relato sobre a retirada de Béli e Madina de Boé: recensão do livro "A sorte de ter medo", de Gustavo Pimenta (2017)

por Beja Santos 

1. Preâmbulo

Há anos atrás, aqui se saudou "sairòmeM - Guerra Colonial", de Gustavo Pimenta (*). É deplorável a ausência do registo desta obra em quem estuda a literatura da guerra, deplorável e injusto. Adiante.

Foi publicado recentemente este livro que impressiona pela singeleza, o discurso próximo e distante, a impressionante capacidade retentiva daquele mais de um ano que ele viveu em Madina do Boé, não conheço outro romance em que se fale com tanto pormenor da retirada dos dois quartéis, Beli e Madina (**), e que foram determinantes para o evoluir da guerra, quando o Boé se transformou em abandono por falta de presença portuguesa, o que deu ocasião para as grandes mudanças que o PAIGC operou no Norte e no Leste. É indispensável ler Gustavo Pimenta

De facto, desconheço que exista descrição tão minuciosa como a que Gustavo Pimenta faz do período de 1968 até à retirada de Madina de Boé, no início de fevereiro do ano seguinte. Quando chegam, ao fim da primeira semana, até duvidavam do que lhes tinham dito sobre aquele tão temível local.

Iremos viver uma escalada de flagelações, haverá compassos de espera, até tudo deflagrar em fogo em qualquer hora, o comandante de companhia ainda irá tentar uma série de expedientes para fazer regressar à normalidade a existência daqueles homens permanentemente acossados. 

Spínola decide ainda em 1968 a retirada de Béli e em fevereiro retira-se de Madina de Boé.

Iremos seguidamente falar de uma tragédia que marcou indelevelmente quem a ela sobreviveu.

Nestas coisas da escrita entre guerreiros, não vale a pena ter ilusões sobre a densidade autobiográfica. Gustavo Pimenta volta à Guiné e desvela o que foi a vida da sua companhia naquele período em que ali viveram entre 1968 e 1969.

Admito que haja outros relatos tão circunstanciados, só conheço este, e impressiona-me muito. Dirá talvez coisas que serão alvo de polémica, quanto às razões pelas quais aquela jangada tremeu, e quem deu ordens. Não quero estar na pele de quem perdeu 16 homens.

Recomendo sem qualquer hesitação a leitura urgente desta narrativa que ressuscita os fantasmas de Béli e Madina de Boé.


2. Nota de leitura (**):

Em 1999 Gustavo Pimenta publicou na Palimage “sairòmeM – Guerra Colonial”, aqui foi saudado com entusiasmo a obra, injustamente pouco referenciada (*).

Gustavo Pimenta está de volta com “A sorte de ter medo”, romance, Palimage, 2017. A urdidura não anda muito longe da sua anterior incursão pelas terras guineenses. No caso presente, há um avô que é interpelado do seguinte modo: “Avô, como sobreviveste à guerra?” e começa uma longa viagem de um limiano magricela que recebeu guia de marcha para as Caldas da Rainha, completou a recruta com elevada média e aceitou ir para o curso de oficiais  [COM], como atirador.

 Ainda passou uns dias pela Escola Prática de Administração Militar [EPAM],  depois mandaram-no para Mafra, aplicou-se, já aspirante foi colocado em Penafiel, seguiu depois para Tancos, onde tirou o curso de minas e armadilhas, segue para Tomar, irá combater na Guiné. 

Em 3 de outubro de 1967 o navio Timor acostou em Bissau.

Uma pausa para refletir com o leitor sobre a diferença abissal entre o escrever fácil e o escrever simples. Gustavo Pimenta discorre, é como se aquelas memórias que lhe apetecessem romancear, fossem contadas para que houvesse um entendimento absoluto, nunca desce ao facilitismo, à fluência deixada à toa, é uma simplicidade com calibração, em dois tempos, o que se exprime na conversa e uma súmula que volteia em pensamento. 

É esta construção que torna a leitura credível, sincera, memória que fica para as próximas gerações. Sem fugir aos diálogos brutais, ao enfrentamento, como nos conta de uma ida aos correios, estavam em Fá, foi com o capitão  [inf José Aparício], a Bambadinca, e é interpelado pelo comandante do batalhão :

- Que merda é essa que tens na cara? 

Ele passou a mão pela cara, olhou-a, e disse: 

- Não vejo merda nenhuma. Onde a tenho? 

O capitão interveio de imediato: 

- Meu coronel, o nosso alferes está devidamente autorizado a usar barba. 

- Autorizado? Isso são manias dos marinheiros, que no Exército dispensamos bem. 

Antes que a coisa azedasse, o capitão mandou o alferes para junto do jipe em que tinham vindo e ficou a conversar com o  coronel. Quando se lhe juntou, disse: 

- Assunto resolvido, mas veja lá se responde noutros termos a um oficial superior.


Estão a adaptar-se ao terreno, colaboram em operações, vão ao Xitole, depois Sinchã Jobel, tudo sem contacto mas com muita canseira. Em novembro seguem para o Poindom, é o batismo de fogo, morre um cabo atingido no pescoço, no regresso ao Xime são várias vezes flagelados por disparos de inimigo, voltam à base, Fá Mandinga. 

Há, em toda esta singela narrativa, alguém que é permanentemente considerado e respeitado: o comandante de companhia, homem prudente, sempre empenhado em manter a tropa em atividade, ninguém estava autorizado a andar de chanatas, firme e dotado de autoridade natural. 

Nova operação, desta feita na região de Caresse, o objetivo era uma total ruína, não havia um menor sinal de por ali alguém ter estado nos tempos mais recentes. 

De Fajonquito regressaram a Fá. Ainda estão nos previstos três meses em regime de intervenção, são levados até Bolama e sem razões a operação é cancelada e mandados regressar. 

Em 8 de dezembro chega a notícia: a companhia irá entrar em quadrícula em Madina de Boé. Entrementes, saem de Bissau para uma nova investida ao refúgio na mata de Poindom, referência de má memória. Tudo volta a correr mal, são emboscados, as munições escasseiam, voltam ao Xime para se remuniciar, nem novas nem mandados, não se avistou nenhum inimigo. 

Na véspera de Natal, estão em Porto Gole, em plena confraternização, o PAIGC flagela com armas ligeiras. Saem nesse mesmo dia para uma operação cujo objetivo é Sarauol e Sara, não encontram resistência, regressam a Porto Gole e depois andam a fazer patrulhamentos no rio Mansoa.

 Até que em 8 de janeiro voltam a Bambadinca, seguem para Nova Lamego, aqui começam os preparativos para se deslocarem para Madina. 

Saem manhã cedo, até Canjadude as viaturas seguem a boa velocidade, a partir daí a viagem é a pé, tudo picado; pela mesma hora uma outra equipa de picadores sai do Ché-Ché em sentido contrário ao da coluna. O desconcerto da guerra vai mesmo agora começar:  

“Estabelece-se o contacto: quatro nativos, com Mauser a tiracolo e uma pica na mão, aguardam a coluna sentados na berma à sombra de uma árvore. Escassa e débil força para tão delicada missão. A tropa retoma o seu lugar nas viaturas, a coluna avança pela estrada esburacada de terra batida.

Escassos quilómetros percorridos a viatura que segue na frente – uma GMC, sem capota para evitar traumatismos ao condutor em caso de rebentar alguma mina e com os guarda-lamas cobertos de sacos de areia para amortecer o impacto – é violentamente sacudida pelo rebentamento de uma anticarro.

O major de engenharia, que exigira ir ao lado do condutor na viatura da frente para não apanhar a nuvem de pó que a coluna levanta, fica gravemente ferido.

Parada a coluna, procura-se socorrer o major. O furriel que, a dias do fim da comissão o quis acompanhar, ao precipitar-se para ele pisa uma antipessoal e morre minutos depois.

O enfermeiro fica ferido pelos dois rebentamentos.


Monta-se segurança em volta do local. Picam-se os arredores à procura de mais minas, rebentam duas, uma delas fere mortalmente um soldado do grupo de nativos”.

O contacto rádio falha, surgem dois helicópteros, consegue-se contacto com um deles e pede-se-lhe apoio para a evacuação. Responde que estão a evacuar feridos graves da tropa de Ché-Ché, o melhor é ir até lá.

Já com o Ché-Ché à vista, outra mina anticarro que os picadores não detectaram.  é ativada pela viatura que segue na frente, o condutor sai inexplicavelmente ileso. 

Atinge-se o aquartelamento ao fim do dia. Estão junto ao rio Corubal, avista-se a jangada que permite a travessia até Madina. Aqui vai começar a operação para chegar ao mais temido aquartelamento de toda a Guiné.


3. E“A sorte de ter medo”, romance de Gustavo Pimenta, Palimage, 2017, temos a rara oportunidade de conhecer o sofrimento de quem combateu no Boé, o autor lá viveu no ano 1968, estará de férias em fevereiro de 1969, quando ocorrerá o desastre da jangada em direção a Ché-Ché, no rio Corubal, que vitimou 47 militares.

Acompanhámos os antecedentes de um percurso que começa no alto Minho até imprevistamente chegar ao mais temível dos locais, Madina do Boé.

Três grupos de combate vão para Madina, um outro seguirá para Béli. De Ché-Ché faz-se a cambança para a outra margem, sobrevoam os bombardeiros T6, a transferência de toda a coluna demora o dia inteiro, pica-se pormenorizadamente o terreno, a proteção aérea é constante, nas bermas há carcaças de viaturas destroçadas em operações anteriores, ao fim da tarde, sem incidentes, chega-se ao local, no dia seguinte a coluna volta para Nova Lamego, começa a adaptação de Gustavo Pimenta e seus camaradas. 

Apresenta-nos Madina:

  “Está num vale, entre pequenas elevações montanhosas, únicas na Guiné. A população é maioritariamente Fula, distribui-se por uma meia centena de habitações tradicionais. 

"No início da atividade de guerrilha fora para lá deslocada uma secção de tropa. Com o evoluir da guerra, passa a ser defendida por um grupo de combate e por um grupo de milícia local. 

"À medida que a situação piora, o efetivo passa para uma companhia, que vem a ficar instalada em abrigos semi-subterrâneos, construído ao redor de todo o perímetro da aldeia. No interior são construídos abrigos idênticos para refúgio da população durante os ataques, população que cultiva pequenas porções de terreno em volta das suas habitações. 

"Com o decorrer do tempo, acaba por se formar um aquartelamento fortificado no vale, em forma de tosco quadrado com cerca de 400 metros de largo, sem nenhuma defesa nas elevações em volta”.

É cuidadoso no detalhe, na apresentação do quartel. Nos primeiros dias, tudo decorre com serenidade, fazem patrulhamentos, não há a menor novidade nem sinais do inimigo. Passada uma semana, ao anoitecer há três disparos de armas pesadas, o PAIGC apresenta-se, mas tudo parece que irá decorrer normalmente, chega-se mesmo a pôr em dúvida a apregoada perigosidade do local. 

Os sonhos esmorecem rapidamente, começam os ataques a qualquer hora do dia, os guerrilheiros estão nos montes, gozam de muita impunidade. A tensão vai crescendo, durante 12 dias o inimigo não dá sinal de si, o pessoal já joga à malha e sai descontraído dos abrigos. Depois recomeçam os ataques.

Novo período de calma, durante mais de um mês e meio não há flagelações com armas pesadas, passam-se 15 dias sem se estabelecer com qualquer contacto. A 13 de março, recomeçam as flagelações com canhão sem recuo, não há baixas nem ferimentos. 

Béli parece viver em amena tranquilidade mas subitamente a situação muda, os ataques sucedem-se às horas mais desencontradas e inesperadas.

 O mês de abril de 1968 introduz uma novidade: um ataque a Béli ao nascer do dia e a Madina ao anoitecer, será um mês de enlouquecer, qualquer coluna de reabastecimento é uma terrível operação. 

A alimentação é diretamente proporcional ao isolamento: massa, arroz e conservas, quando chega Spínola à Guiné, Madina irá receber de vez em quando frutas e legumes. 

“Seguindo a determinação do capitão, quando acontece a vinda de frescos, é feito o rateio: primeiro para os soldados, depois para os sargentos e só no fim, se der, para os oficiais. Assim se come meia maçã ou um pouco de grelos cozidos”.

Deixou de haver equívocos: Madina, tal como Béli em menor escala, está transformada numa carreira de tiro, as flagelações com armas pesadas passam a ser diárias, menos quando se sai nas proximidades para recolher lenha, o inimigo não dá tréguas. 

Em junho, Spínola começa a tomar decisões para o abandono de Béli, que decorre sob a proteção de dois T6 que acompanham um longo comboio de viaturas, um dos aviões acidenta-se, estala o pandemónio, depois de uma áspera discussão a coluna retoma a sua missão e chega a Béli ao cair da noite, sendo recebida pelo fogo inimigo de armas ligeiras. 

O regresso faz-se sem novidades, com a chegada do grupo de combate e da milícia acantonados em Béli, reorganiza-se a distribuição do efetivo.

Não há descanso em Madina, o pessoal que circula pelo aquartelamento é alvo de tiros isolados e de roquetadas. 

Chega um grupo de paraquedistas sob o comando de um tenente e com a missão específica de tentar neutralizar os atiradores de armas ligeiras que tornam infernal o quotidiano no quartel. Os Páras travam combate, o tenente é ferido com uma rajada nas coxas. As flagelações com armas pesadas não abrandam, os Páras vão-se embora. 

Tudo vai perdendo normalidade, o comandante de companhia procura animar as suas tropas, fazem fotografias de todo o pessoal, executam postais de boas festas, a energia elétrica é levada a todos os cantos do quartel, o correio não falta, o aniversário de cada militar é sempre ensejo para festejo. 

O ano de 1969 anuncia-se com a retirada de Madina de Boé, a retirada acontecerá num só dia, até lá é necessário manter as condições de defesa e a operacionalidade da companhia, o narrador está de férias, tudo quanto irá descrever é contado por outros. 

Quem comanda a operação é o comandante de agrupamento de Bafatá [cor inf Hélio Felgas],   a 4 de fevereiro, uma enorme coluna sai de Nova Lamego enquadrada por duas companhias e assim se chega ao Ché-Ché, faz-se a travessia, há uma nova jangada sustentada em barcaças da engenharia militar.

Em 5 de fevereiro os militares abandonam Madina, a estrada é cuidadosamente picada, chega-se à margem do rio Corubal a meio da tarde. Em cada viagem é levada uma ou duas viaturas, começou-se pela população civil. 

Na margem do destino, em Ché-Ché, são montados os morteiros 81 retirados de Madina, ficam apontados para as imediações da concentração das tropas e viaturas na outra margem. 

Com morosidade, a travessia concretiza-se, de vez em quando é necessário despejar a água que com o peso do movimento da jangada se vai acumulando nas barcaças de suporte. Cai a noite, a operação continua. Ao amanhecer são poucas as viaturas e tropa que ainda falta transportar.


4. E“a sorte de ter medo”, uma poderosa narrativa que Gustavo Pimenta transmuta em romance (Palimage, 2017), temos uma descrição dos acontecimentos trágicos que ocorreram em 6 de fevereiro, frente a Ché-Ché. 

Na véspera, o grosso das tropas, das viaturas, equipamentos e armamento, já atravessou o Corubal. São nove horas da manhã, entram na jangada de uma só vez as viaturas e os militares, quase todos de Madina de Boé  [CCAÇ 1790], e de uma das companhias que fazia segurança à alteração [CCAÇ 2405].

Segue-se a descrição:

“O peso é enorme, há algumas horas que as barcaças não são esvaziadas, a jangada move-se lentamente.

O pessoal faz manguitos na direção da margem abandonada e grita impropérios dirigidos a inimigos imaginários.

Percorrido cerca do primeiro terço da travessia, o tenente-coronel
 [?],   comandante da operação,  ordena, sem qualquer prévio aviso ao pessoal, que os morteiros façam fogo para as imediações do local de embarque acabado de abandonar.

Na jangada é o sobressalto: nela vêm militares que, de há longos meses, estão habituados a correr para os abrigos ou fugir para a vala mais próxima quando se escuta o som de uma granada a sair à boca do morteiro.

A jangada oscila perigosamente, não se volta, mas fica meio submersa. Alguns militares atiram-se ao caudaloso rio, muitos outros caem à água.

O pessoal está subalimentado, sem dormir há longuíssimas horas, estafado, na água as armas e cartucheiras repletas de munições pesam insuportavelmente.

Largado tudo que os empece, a começar pela arma e as cartucheiras, uns poucos retrocedem a nado para a margem de origem, que está mais perto. Outros conseguem nadar para a margem do destino. A maioria, até porque há quem não saiba nadar ou nade mal, consegue equilibrar-se e manter-se na jangada com água pelo meio do peito.

Deita-se mão da jangada antiga para onde os militares sobem. A que fazia a travessia é puxada, a muito custo, para a margem. Imenso material cai ao rio, mas as viaturas, milagrosamente, não. Há a sensação de que nem todos os homens conseguiram salvar-se.

Todos já no quartel do Ché-Ché, mandam-se formar as forças envolvidas, confere-se o efetivo: 47 militares não respondem à chamada.

É o espanto, o desalento, o choro convulsivo, a raiva a custo controlado pelos comandantes: ninguém entende a razão de se ter feito o fogo de morteiro que precipitou o desastre”.

O narrador estava de férias quando se desenrola esta tragédia, quer prontamente regressar à Guiné, onde só chega a 15 de fevereiro. 

“Na pista, o capitão espera-me. Abraça-me e chora. Convulsivamente, sem palavras, choramos”. 

O narrador perdera 16 homens do seu grupo de combate.

Duas semanas depois do desastre, um grupo de fuzileiros foi destacado para recuperar corpos. Dos 47 desaparecidos apenas foram detetados 7. 

“Em adiantado estado de decomposição, irreconhecíveis e sem quaisquer elementos que os possam identificar, são enterrados numa elevação da margem direita do rio”.

Vai começar a via-sacra dos últimos meses: Nova Lamego, Cabuca, S. Domingos, já levam 19 meses de comissão. Neste último quartel, compete a esta companhia o controlo das povoações ao longo da estrada num raio de 25 quilómetros para Oeste e outros tantos para Leste. Por ali andam a fazer inventário das armas, a ver minas e armadilhas. 

Em maio [de 1969], o inimigo tenta bombardear o quartel com fogo de morteiro, não passou de um susto, retalia-se como bombardeamento a povoação senegalesa de MPack, encostada à fronteira. 

É nessa operação que um furriel fica com o pé direito destroçado por ter pisado uma mina antipessoal, segue-se um confronto com um grupo inimigo.

A exaustão vai tomando conta daquele contingente tão afetado por Madina do Boé. Segue-se uma operação para verificar se a povoação de Barraca Batata, junto à fronteira, está habitada. Desta vez, numa linha de água, é o enfermeiro que pisou uma mina antipessoal, chegará ao hospital já cadáver. Para além do desgaste, chegou a maldita hora da debilidade psicológica. 

Um cabo que tinha no pénis protuberâncias esponjosas entra em depressão, escreve uma carta à mulher e suicida-se, deixara a mala aberta e sobre a roupa meticulosamente dobrada uma carta fechada endereçada à mulher. 

Tenta-se animar a tropa, desdobram-se as iniciativas para preencher os tempos de repouso dos soldados, há muitas cantorias. No fim de Julho, caía a noite quando meia dúzia de morteiros desassossegaram o quartel.

 É nisto que irá processar-se a rendição da companhia, o regresso é no Uíge. E ouve-se, no final deste poderoso relato, a última confissão:

“Havia jurado a mim mesmo que só mataria para não morrer, não disparei um tiro contra qualquer adversário, mas não sei os efeitos das armadilhas que montei e das minas que implantei. 

"Na hora do embarque em Lisboa, prometi à irmã de um dos meus putos que lho devolveria inteiro e a mexer: morreu-me nas águas do Corubal (…).

"Este território não acolhe uma nação, há tantas etnias e tão distintas entre si como entre cada uma delas e os portugueses aqui despejados para fazer a guerra. Com culturas tão diversas e sem, ao menos, uma língua comum, poderá algum dia construir-se aqui um país confortável? 

"Levo comigo África, o que de África me foi dado conhecer e me dizem ser dos piores bocados. Mas não esquecerei a hospitalidade das suas gentes, o sabor das suas comidas, o fascínio das suas inclemências. E o seu cheiro, a sua cor. Que me de mim aqui terei deixado?”.

E, curioso, o neto pergunta-lhe:  

“Avô, como sobreviveste à guerra?”
.

Gustavo Pimenta fez bem em voltar, é um grande acontecimento nesta literatura de retornos, e cumpre agradecer-lhe o belo título escolhido para este labirinto de memórias a que ele chama romance: “a sorte de ter medo”.
____________

(Conjunto de três notas de leitura, do Mário Beja Santos, publicadas separadamente no nosso blogue em 11, 15 e 18 de setembro de 2017. Na altura comentámos: 

"Obrigado, Mário, pela tua extensa nota de leitura... O Gustavo Pimenta tem de ser conhecido e lido por nós!... Madina do Boé é um dossiê que nunca estará 'encerrado'... Como as nossas memórias doridas"...

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Notas do editor LG:

(*) Vd poste de 17 de março de 2010 > Guiné 63/74 - P6009: Notas de leitura (79): sairòmeM Guerra Colonial, de Gustavo Pimenta (Beja Santos)

(**) Último poste da série > 26 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27772: Documentos (60): A retirada de Madina do Boé (Gustavo Pimenta, ex-alf mil, CCAÇ 1790, 1967/69), autor do livro saieòmeM (Palimage, Coimbra, 1999, 120 pp.), apresentação do jornalista e escritor José Manuel Saraiva (Porto, 1999)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27772: Documentos (60): A retirada de Madina do Boé (Gustavo Pimenta, ex-alf mil, CCAÇ 1790, 1967/69), autor do livro saieòmeM (Palimage, Coimbra, 1999, 120 pp.), apresentação do jornalista e escritor José Manuel Saraiva (Porto, 1999)


Gustavo Pimenta: 

(i) nasceu em Ponte de Lima; (ii) fez o ensino básico e secundário em Viana do Castelo: (iii) licenciou-se em Direito na Universidade do Porto: (iv) fez o serviço militar, que incluiu a passagem pela guerra colonial na Guiné-Bissau (CCAÇ 1790, 1967/69); (v) foi deputado à Assembleia da República e membro da Assembleia Municipal do Porto; (vi) foi docente no ISMAI – Instituto Universitário da Maia, no IPMAIA – Instituto Politécnico da Maia e na ISMAI – Universidade da Maia; (vii) em 2018, foi agraciado pela Câmara Municipal do Porto com a “Medalha de Mérito, Grau Ouro”, com imposição em cerimónia pública de 9 de julho de 2018.

Obras publicadas (em poesia e prosa, excluindo livros técnicos):

• siaròmeM - Guerra Colonial (Palimage, 1999 - crónica)
• Retratos de um país encantador (Palimage, 2001 - contos)
Em nome da Grei (Palimage, 2003 - romance)
• O chão perfeito (Palimage, 2004 - poesia)
• Triângulo escaleno (Palimage, 2016 - poesia)
A sorte de ter medo (Palimage, 2017 - romance)
• O lugar do vazio (Palimage, 2021 - poesia)
• Íntimo labirinto (Palimage, 2023 - poesia)

Fonte: Palimage, Coimbra


Capa de siaròmeM - Guerra Colonial (Palimage, 1999, crónica)


Colecção Imagens de Hoje
Género: Crónica de guerra (colonial)
ISBN: 972-8575-04-1
Ano: 1999
Páginas: 120
Dimensões: 14.8x21.0cm
P.V.P.: € 11.00

Descrição:
A realidade, sublimemente contada, ultrapassa sempre a ficção. Da leitura paralisante, este relato da vida prende-nos à sua conclusão, afinal já conhecida, transportando-nos para uma Guiné de quotidiano infernal, onde se emprestam à memória do leitor as pequenas alegrias do dia seguinte e as marcas mais indeléveis que só a guerra consegue deixar. Memórias – sirómeM – de uma geração que se revê inevitavelmente na dor que delas transpira.


Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Setor de Boé > Madina do Boé > 1966 > Vista aérea do aquartelamento. Imagem reproduzida, sem menção da fonte, no Blogue do Fernando Gil Moçambique para todos

Presume-se que a sua autoria seja de Jorge Monteiro (ex-cap mil, CCAÇ 1416, Madina do Boé, 1965/67) ou de Manuel Domingues, membro da nossa Tabanca Grande, ex-alf mil da CCS/BCAÇ 1856, Nova Lamego, 1965/66 (autor do livro: "Uma campanha na Guiné, 1965/67").

Antes da retirada da CCAÇ 1790, em 6/2/1969, e ao lomgo de 13 meses, o aquartelamento e a tabanca terá sido objeto de 243 ataques e flagelações.

Arquivo do  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2006).


Documentos 

Apresentação (José Manuel Saraiva - Jornalista; Director da "Revista" do Expresso)

Livro: sairòmeM - Guerra Colonial de Gustavo Pimenta

Devo dizer, em primeiro lugar, que estou muito sensibilizado pelo convite de Gustavo Pimenta para fazer a apresentação do seu primeiro livro. Suponho, aliás, que o convite tem sobretudo a ver, para além da sólida amizade que nos liga, com o facto de o autor saber do meu interesse pelo tema que trata o livro – a guerra colonial – e da minha relação com o período mais penoso da geração a que ambos pertencemos.

No final dos anos 60, na Guiné, eu e ele cruzámo-nos sem nos cruzarmos, percorremos trilhos da mesma aventura, navegámos os mesmos rios, pisámos a mesma terra, vivemos os mesmos perigos, suportámos os mesmos sacrifícios, socorremos os nossos feridos, chorámos os nossos mortos, colhemos experiências comuns, e chegámos até a frequentar os mesmos quartéis. Quando – já não sei em que data – a companhia de Gustavo Pimenta esteve em trânsito pela sede do meu batalhão, embora por muito pouco tempo, certamente chegámos a estar tão próximos um do outro quanto estamos agora aqui, nesta sala, a celebrar um acontecimento extremamente importante: a celebração de um novo livro. Quer-se dizer: a celebração do seu primeiro livro. Mas ainda que tenhamos estado na mesma unidade, nunca porém nos encontrámos.

Só mais tarde, devido a uma circunstância feliz, viemos a conhecer-nos em Lisboa, para – já então reconciliados com o nosso passado de guerreiros transitórios – voltarmos à Guiné como homens livres, na companhia de um amigo comum, o tenente-coronel José Aparício, seu antigo comandante. Foi nessa viagem de trabalho e depois dela que nasceu e se desenvolveu a nossa amizade. Uma amizade que ficou para a vida inteira.

Para a maioria dos presentes, senão mesmo para todos, Gustavo Pimenta dispensaria apresentações. Mas, se me permitem, gostaria ainda assim de fazer algumas considerações acerca do autor de sairòmeM. Além de amigo exemplar, Gustavo Pimenta é também um homem de fino trato na relação com os outros, senhor de uma extraordinária verticalidade no confronto com a vida e o mundo que o rodeia.

Durante quase vinte anos fui, na qualidade de jornalista, regularmente à Assembleia da República. E posso dizer, sem qualquer favor prestado, que Gustavo Pimenta foi um dos deputados mais discretos que algum dia conheci nas sucessivas legislaturas que acompanhei. E ser-se discreto não significa, neste caso, ao contrário de muitos outros, infelizmente, um menor empenhamento nos trabalhos do plenário ou nas comissões parlamentares. Esteve sempre onde devia estar, com o mesmo espírito de missão e sentido de dever com que no passado lutou por uma causa em que ele próprio não acreditava.
No seu livro, o autor escreve, a propósito. Passo a citar:

 "Mais do que não sentirmos nosso o que defendíamos, o dilema estava em não sabermos, não entendermos, o que estávamos a defender. Aquela terra, aquelas gentes, por mais hospitaleiras que se nos oferecessem, nada nos diziam. Não éramos dali. Fôramos parar à Guiné como, na roleta das mobilizações, poderíamos ter ido parar a qualquer outra colónia. Coubera-nos em rifa o cu do mundo, dizíamos. Porque o cu do mundo, se existe, é sempre o sítio da nossa perplexa angústia".

Mas regressando ao tempo em que exerceu o cargo de deputado na Assembleia da República, importa sublinhar que foi pela natureza modesta do seu carácter, que decerto lhe vem de uma formação de base muito sólida, que Gustavo Pimenta passou pelo Parlamento sem que se tivesse dado muito pela eficácia do seu trabalho. E, contudo, deixou marcas. Marcas de rigor e respeitabilidade, conforme alguns deputados ainda hoje reconhecem.

A presença na política de Gustavo Pimenta faz-me lembrar uma história singular que teve como protagonista Napoleão Bonaparte e o grande pintor Louis David. Eu conto a história que, porventura, muitos presentes conhecerão.

Um dia, Napoleão chamou David ao seu gabinete de trabalho e pediu-lhe que o pintasse, lhe fizesse o retrato numa gigantesca tela em ordem a perpetuar-lhe a imagem. Honrado com o convite, David perguntou-lhe: "Como quereis que vos pinte?" E Napoleão respondeu: "Quero que me pintes sereno sobre um cavalo branco enfurecido".

Ora, sem querer fazer qualquer analogia entre Napoleão e Gustavo, isto é, entre o imperador francês e o deputado português, e tendo em conta que o autor que nos trouxe aqui nunca pediu nada a ninguém, gostaria de dizer que foi deste modo que sempre vi Gustavo Pimenta, na Assembleia da República: tranquilo, sereno, muito sereno, sobre o cavalo enfurecido do poder.

Além da atitude simples e discreta deste homem perante a vida, dos sentimentos de solidariedade que o habitam, das qualidades humanas a que já fiz referência, e só não me alonguei por respeito à modéstia que o caracteriza, Gustavo Pimenta é também um herói. E não sou eu a dizê-lo.

Há cerca de três anos, a SIC passou um documentário sobre a guerra colonial. Nesse documentário, que relata um dos episódios mais tristes e violentos da guerra em África, participaram, entre outros antigos combatentes, Gustavo Pimenta, o tenente-coronel José Aparício, seu antigo comandante, e vários oficiais dos exércitos português e guineense.

O filme conta a história da operação militar da retirada da Companhia 1790 do aquartelamento de Madina do Boé, durante a qual morreram 46 militares, 15 dos quais pertencentes ao pelotão comandado pelo ex-alferes miliciano Gustavo Pimenta. 

A tragédia, de incomensuráveis proporções, ocorreu quando a jangada que ligava as duas margens do rio Corubal, para o transporte dos homens e das viaturas, se virou inexplicavelmente. Muitos salvaram-se, muitos morreram. Vinham de Madina – essa região vasta e despovoada no leste do território, junto à fronteira com a República da Guiné-Conacri – onde a companhia de caçadores, de que fazia parte Gustavo Pimenta, estivera estacionada durante treze meses. E em treze meses, não contando com o número de ataques da forças do PAIGC de duração inferior a dez minutos, que em muitos casos só serviam para causar desestabilização e afectar psicologicamente os militares, o quartel foi bombardeado por 243 vezes.

Sobre a vida tormentosa dos homens que pertenceram à Companhia de Caçadores 1790, desses soldados anónimos que viveram no confronto permanente com a morte, pronunciaram-se no documentário que atrás citei quatro antigos combatentes: dois oficiais portugueses e outros dois guineenses.

Num depoimento emocionado, o brigadeiro Hélio Felgas, que era o comandante da operação e comandante do sector, diz o seguinte: 

"Quando o general Spínola deixou o helicóptero e foi ter comigo, eu estava a chorar. Porque realmente pareceu-me injusto que homens que tanto tinham sofrido, que militarmente haviam sido uns heróis, acabassem por morrer afogados".

Também o general Almeida Bruno se refere aos militares da Companhia 1790 em termos que não deixam margem para dúvidas. Passo a citá-lo: 

"Quero aqui prestar uma homenagem – a minha homenagem pessoal, como comandante que fui – a todos os militares, oficiais sargentos e praças, que viveram e combateram em Madina, que, com uma coragem notável, resistiram não só ao adversário, ao inimigo, como às condições adversas em que viveram. E julgo que um dia a história vai fazer dos militares que viveram em Madina o exemplo típico do soldado português, que é verdadeiramente de excepção".

Sobre a capacidade de resistência e heroísmo dos militares que, como Gustavo Pimenta, viveram e combateram em Madina do Boé, Ierro Camará, antigo guerrilheiro e actual tenente-coronel do exército guineense afirma também. E cito-o:

 "Todos aqueles que combateram em Madina do Boé, tanto da parte portuguesa como da parte do PAIGC, podem ser considerados heróis. São heróis mesmo!".

Ainda no mesmo documentário, o coronel Aliú Camará, ex-comandante da unidade de artilharia que regularmente bombardeava o quartel, falando por si e pelos seus antigos camaradas, diz. Passo a citar:

"Nós rendemos homenagem aos ocupantes de Madina, porque era muito difícil viver naquelas circunstâncias. Sempre à espera dos bombardeamentos, em horas alternadas, às vezes à meia-noite, às vezes ao meio-dia, às vezes no período da tarde, tantas vezes que ninguém pode imaginar aquele sacrifício".

Como disse atrás, não sou eu, mas outros com mais propriedade e conhecimento da realidade do que eu, que se referem ao heroísmo de Gustavo Pimenta e dos seus antigos camaradas, quer dos que morreram em circunstâncias trágicas depois do tormento de Madina, quer dos que tiveram a sorte de sobreviver aos acontecimentos do Corubal.

No seu livro, Gustavo Pimenta lembra o episódio mas, como noutros que relata, fá-lo com a serenidade e o distanciamento de quem acha haver cumprido uma simples missão, sem aclarar, no entanto, que essa e outras tarefas exigiram dele e dos restantes camaradas sacrifícios impensáveis. É do autor s seguinte frase. Cito-o:

"Em cima da jangada vinham dezenas de homens que, durante cerca de treze meses se haviam habituado a mergulhar para a vala mais próxima ou a correr para o abrigo mais à mão, sempre que o som cavo das granadas à saída da boca dos morteiros ou dos canhões sem recuo anunciavam mais um ataque com armas pesadas".

O livro de Gustavo Pimenta não é um romance. É um livro de memórias. Um livro que exclui a existência de heróis – ainda que o tenham sido todos quantos viveram e combateram em Madina do Boé –, um livro que reflecte sobre a existência do sacrifício na sua expressão mais brutal e nos ajuda a reflectir, à distância de 30 anos, acerca da dimensão de uma das maiores tragédias do nosso tempo, à escala nacional. 

Gustavo Pimenta escreve sobre o império do delírio da guerra com um sentimento que nos emociona. Está ali uma parte da sua vida, a partida e o regresso a casa; o relato dos anos perdidos da juventude num país longe, a mais de quatro mil quilómetros de sua casa. É dele a seguinte frase. Passo a citar: 

"Não desejávamos a morte, nossa ou deles, mas ninguém abdica do direito à valentia. Cada combate era sempre uma questão pessoal onde não se prescindia do melhor desempenho. É por isso que os portugueses serão sempre bons soldados".

Sinceramente, nunca li, nas dezenas de livros até hoje publicados em Portugal sobre a guerra colonial, todos ou quase todos ficcionados, uma reflexão desta natureza. Gustavo Pimenta odiava a guerra, combatia contra a sua própria guerra, não queria morrer nem desejava a morte dos outros, dos que lutavam do lado de lá, mas ainda assim não deixa de reconhecer que nem ele nem ninguém abdicaria do direito à vitória de um combate – nem que para isso fosse preciso pôr em causa a própria vida. Escrever isto, no registo em que o faz, constitui uma atitude de coragem digna de louvor. 

Li o primeiro esboço do sairòmeM em Julho passado, quando Gustavo Pimenta me consentiu esse privilégio. É um livro comovente, escrito num registo elegante e poético. E só um homem como Gustavo Pimenta, despretensioso, simples, naturalmente simples, poderia escrever um livro destes.
Não sou crítico literário e por isso não me atreverei a tecer quaisquer considerações técnicas à boa maneira dos críticos literários. 

No entanto, como leitor atento, permitam-me que aconselhe a leitura desta obra, não apenas às pessoas particularmente sensíveis ao tema, mas a todas em geral. Porque além das emoções que se revelam em cada página, há também a beleza da linguagem que nos prende e nos seduz. Felicitemos pois o autor e marquemos desde já com ele um novo encontro para a apresentação do seu segundo título.

Porto, Cooperativa Árvore,
1999.Dezembro.10

Nota do editor LG: Reprodução com a devida vénia. O link original foi desconectado. Recuperado aqui pelo Arquivo.pt.

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27762: Documentos (59): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte II

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17778: Notas de leitura (996): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (3) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Setembro de 2017:

Queridos amigos,
Nestas coisas da escrita entre guerreiros, não vale a pena ter ilusões sobre a densidade autobiográfica. Gustavo Pimenta volta à Guiné e desvela o que foi a vida da sua companhia naquele período em que ali viveram entre 1968 e 1969.
Admito que haja outros relatos tão circunstanciados, só conheço este, e impressiona-me muito. Dirá talvez coisas que serão alvo de polémica, quanto às razões pelas quais aquela jangada tremeu, e quem deu ordens. Não quero estar na pele de quem perdeu 16 homens.
Recomendo sem qualquer hesitação a leitura urgente desta narrativa que ressuscita os fantasmas de Béli e Madina de Boé.

Um abraço do
Mário


Um impressionante relato sobre a retirada de Béli e Madina de Boé (3)

Beja Santos

Em “a sorte de ter medo”, uma poderosa narrativa que Gustavo Pimenta transmuta em romance, Palimage, 2017, temos uma descrição dos acontecimentos trágicos que ocorreram em 6 de Fevereiro, frente a Ché-Ché. Na véspera, o grosso das tropas, das viaturas, equipamentos e armamento, já atravessou o Corubal. São nove horas da manhã, entram na jangada de uma só vez as viaturas e os militares, quase todos de Madina de Boé e de uma das companhias que fazia segurança à alteração. Segue-se a descrição:

“O peso é enorme, há algumas horas que as barcaças não são esvaziadas, a jangada move-se lentamente.

O pessoal faz manguitos na direção da margem abandonada e grita impropérios dirigidos a inimigos imaginários.

Percorrido cerca do primeiro terço da travessia, o tenente-coronel comandante da operação ordena, sem qualquer prévio aviso ao pessoal, que os morteiros façam fogo para as imediações do local de embarque acabado de abandonar.

Na jangada é o sobressalto: nela vêm militares que, de há longos meses, estão habituados a correr para os abrigos ou fugir para a vala mais próxima quando se escuta o som de uma granada a sair à boca do morteiro.

A jangada oscila perigosamente, não se volta, mas fica meio submersa. Alguns militares atiram-se ao caudaloso rio, muitos outros caem à água.

O pessoal está subalimentado, sem dormir há longuíssimas horas, estafado, na água as armas e cartucheiras repletas de munições pesam insuportavelmente.

Largado tudo que os empece, a começar pela arma e as cartucheiras, uns poucos retrocedem a nado para a margem de origem, que está mais perto. Outros conseguem nadar para a margem do destino. A maioria, até porque há quem não saiba nadar ou nade mal, consegue equilibrar-se e manter-se na jangada com água pelo meio do peito.

Deita-se mão da jangada antiga para onde os militares sobem. A que fazia a travessia é puxada, a muito custo, para a margem. Imenso material cai ao rio, mas as viaturas, milagrosamente, não. Há a sensação de que nem todos os homens conseguiram salvar-se.

Todos já no quartel do Ché-Ché, mandam-se formar as forças envolvidas, confere-se o efetivo: 47 militares não respondem à chamada.

É o espanto, o desalento, o choro convulsivo, a raiva a custo controlado pelos comandantes: ninguém entende a razão de se ter feito o fogo de morteiro que precipitou o desastre”.

O narrador estava de férias quando se desenrola esta tragédia, quer prontamente regressar à Guiné, onde só chega a 15 de Fevereiro. 

“Na pista, o capitão espera-me. Abraça-me e chora. Convulsivamente, sem palavras, choramos”. 

O narrador perdera 16 homens do seu grupo de combate.

Duas semanas depois do desastre, um grupo de fuzileiros foi destacado para recuperar corpos. Dos 47 desaparecidos apenas foram detetados 7. “Em adiantado estado de decomposição, irreconhecíveis e sem quaisquer elementos que os possam identificar, são enterrados numa elevação da margem direita do rio”.

Vai começar a via-sacra dos últimos meses: Nova Lamego, Cabuca, S. Domingos, já levam 19 meses de comissão. Neste último quartel, compete a esta companhia o controlo das povoações ao longo da estrada num raio de 25 quilómetros para Oeste e outros tantos para Leste. Por ali andam a fazer inventário das armas, a ver minas e armadilhas. 

Em Maio, o inimigo tenta bombardear o quartel com fogo de morteiro, não passou de um susto, retalia-se como bombardeamento a povoação senegalesa de MPack, encostada à fronteira. É nessa operação que um furriel fica com o pé direito destroçado por ter pisado uma mina antipessoal, segue-se um confronto com um grupo inimigo.

A exaustão vai tomando conta daquele contingente tão afetado por Madina do Boé. Segue-se uma operação para verificar se a povoação de Barraca Batata, junto à fronteira, está habitada. Desta vez, numa linha de água, é o enfermeiro que pisou uma mina antipessoal, chegará ao hospital já cadáver. Para além do desgaste, chegou a maldita hora da debilidade psicológica. 

Um cabo que tinha no pénis protuberâncias esponjosas entra em depressão, escreve uma carta à mulher e suicida-se, deixara a mala aberta e sobre a roupa meticulosamente dobrada uma carta fechada endereçada à mulher. Tenta-se animar a tropa, desdobram-se as iniciativas para preencher os tempos de repouso dos soldados, há muitas cantorias. No fim de Julho, caía a noite quando meia dúzia de morteiradas desassossegaram o quartel. É nisto que irá processar-se a rendição da companhia, o regresso é no Uíge. E ouve-se, no final deste poderoso relato, a última confissão:

“Havia jurado a mim mesmo que só mataria para não morrer, não disparei um tiro contra qualquer adversário, mas não sei os efeitos das armadilhas que montei e das minas que implantei. Na hora do embarque em Lisboa, prometi à irmã de um dos meus putos que lho devolveria inteiro e a mexer: morreu-me nas águas do Corubal (…).

"Este território não acolhe uma nação, há tantas etnias e tão distintas entre si como entre cada uma delas e os portugueses aqui despejados para fazer a guerra. Com culturas tão diversas e sem, ao menos, uma língua comum, poderá algum dia construir-se aqui um país confortável? Levo comigo África, o que de África me foi dado conhecer e me dizem ser dos piores bocados. Mas não esquecerei a hospitalidade das suas gentes, o sabor das suas comidas, o fascínio das suas inclemências. E o seu cheiro, a sua cor. Que me de mim aqui terei deixado?”.

E curioso, o neto pergunta-lhe:  
“Avô, como sobreviveste à guerra?”.

Gustavo Pimenta fez bem em voltar, é um grande acontecimento nesta literatura de retornos, e cumpre agradecer-lhe o belo título escolhido para este labirinto de memórias a que ele chama romance: “a sorte de ter medo”.
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Nota do editor

Postes anteriores de:

11 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17756: Notas de leitura (994): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (1) (Mário Beja Santos)
e
15 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17768: Notas de leitura (995): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (2) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17768: Notas de leitura (995): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Setembro de 2017:

Queridos amigos,
Desconheço que exista descrição tão minuciosa como a que Gustavo Pimenta faz do período de 1968 até à retirada de Madina de Boé, no início de Fevereiro do ano seguinte. Quando chegam, ao fim da primeira semana, até duvidavam do que lhes tinham dito sobre aquele tão temível local.

Iremos viver uma escalada de flagelações, haverá compassos de espera, até tudo deflagrar em fogo em qualquer hora, o comandante de companhia ainda irá tentar uma série de expedientes para fazer regressar à normalidade a existência daqueles homens permanentemente acossados. Spínola decide ainda em 1968 a retirada de Béli e em Fevereiro retira-se de Madina de Boé.

Iremos seguidamente falar de uma tragédia que marcou indelevelmente quem a ela sobreviveu.

Um abraço do
Mário


Um impressionante relato sobre a retirada de Béli e Madina de Boé (2)

Beja Santos

Em “a sorte de ter medo”, romance de Gustavo Pimenta, Palimage, 2017, temos a rara oportunidade de conhecer o sofrimento de quem combateu no Boé, o autor lá viveu no ano 1968, estará de férias em Fevereiro de 1969, quando ocorrerá o desastre da jangada em direção a Ché-Ché, no rio Corubal, que vitimou 47 militares.

Acompanhámos os antecedentes de um percurso que começa no alto Minho até imprevistamente chegar ao mais temível dos locais, Madina do Boé.

Três grupos de combate vão para Madina, um outro seguirá para Béli. De Ché-Ché faz-se a cambança para a outra margem, sobrevoam os bombardeiros T6, a transferência de toda a coluna demora o dia inteiro, pica-se pormenorizadamente o terreno, a proteção aérea é constante, nas bermas há carcaças de viaturas destroçadas em operações anteriores, ao fim da tarde, sem incidentes, chega-se ao local, no dia seguinte a coluna volta para Nova Lamego, começa a adaptação de Gustavo Pimenta e seus camaradas. Apresenta-nos Madina:

  “Está num vale, entre pequenas elevações montanhosas, únicas na Guiné. A população é maioritariamente Fula, distribui-se por uma meia centena de habitações tradicionais. No início da atividade de guerrilha fora para lá deslocada uma secção de tropa. Com o evoluir da guerra, passa a ser defendida por um grupo de combate e por um grupo de milícia local. À medida que a situação piora, o efetivo passa para uma companhia, que vem a ficar instalada em abrigos semi-subterrâneos, construído ao redor de todo o perímetro da aldeia. No interior são construídos abrigos idênticos para refúgio da população durante os ataques, população que cultiva pequenas porções de terreno em volta das suas habitações. Com o decorrer do tempo, acaba por se formar um aquartelamento fortificado no vale, em forma de tosco quadrado com cerca de 400 metros de largo, sem nenhuma defensa nas elevações em volta”.

É cuidadoso no detalhe, na apresentação do quartel. Nos primeiros dias, tudo decorre com serenidade, fazem patrulhamentos, não há a menor novidade nem sinais do inimigo. Passada uma semana, ao anoitecer há três disparos de armas pesadas, o PAIGC apresenta-se, mas tudo parece que irá decorrer normalmente, chega-se mesmo a pôr em dúvida a apregoada perigosidade do local. 

Os sonhos esmorecem rapidamente, começam os ataques a qualquer hora do dia, os guerrilheiros estão nos montes, gozam de muita impunidade. A tensão vai crescendo, durante 12 dias o inimigo não dá sinal de si, o pessoal já joga à malha e sai descontraído dos abrigos. Depois recomeçam os ataques. Novo período de calma, durante mais de um mês e meio não há flagelações com armas pesadas, passam-se 15 dias sem se estabelecer com qualquer contacto. A 13 de Março, recomeçam as flagelações com canhão sem recuo, não há baixas nem ferimentos. 

Béli parece viver em amena tranquilidade mas subitamente a situação muda, os ataques sucedem-se às horas mais desencontradas e inesperadas. O mês de Abril de 1968 introduz uma novidade: um ataque a Béli ao nascer do dia e a Madina ao anoitecer, será um mês de enlouquecer, qualquer coluna de reabastecimento é uma terrível operação. A alimentação é diretamente proporcional ao isolamento: massa, arroz e conservas, quando chega Spínola à Guiné, Madina irá receber de vez em quando frutas e legumes. 

“Seguindo a determinação do capitão, quando acontece a vinda de frescos, é feito o rateio: primeiro para os soldados, depois para os sargentos e só no fim, se der, para os oficiais. Assim se come meia maçã ou um pouco de grelos cozidos”.

Deixou de haver equívocos: Madina, tal como Béli em menor escala, está transformada numa carreia de tiro, as flagelações com armas pesadas passam a ser diárias, menos quando se sai nas proximidades para recolher lenha, o inimigo não dá tréguas. 

Em Junho, Spínola começa a tomar decisões para o abandono de Béli, que decorre sob a proteção de dois T6 que acompanham um longo comboio de viaturas, um dos aviões acidenta-se, estala o pandemónio, depois de uma áspera discussão a coluna retoma a sua missão e chega a Béli ao cair da noite, sendo recebida pelo fogo inimigo de armas ligeiras. O regresso faz-se sem novidades, com a chegada do grupo de combate e da milícia acantonados em Béli, reorganiza-se a distribuição do efetivo.

Não há descanso em Madina, o pessoal que circula pelo aquartelamento é alvo de tiros isolados e de roquetadas. Chega um grupo de paraquedistas sob o comando de um tenente e com a missão específica de tentar neutralizar os atiradores de armas ligeiras que tornam infernal o quotidiano no quartel. Os Páras travam combate, o tenente é ferido com uma rajada nas coxas. As flagelações com armas pesadas não abrandam, os Páras vão-se embora. 

Tudo vai perdendo normalidade, o comandante de companhia procura animar as suas tropas, fazem fotografias de todo o pessoal, executam postais de boas festas, a energia elétrica é levada a todos os cantos do quartel, o correio não falta, o aniversário de cada militar é sempre ensejo para festejo. 

O ano de 1969 anuncia-se com a retirada de Madina de Boé, a retirada acontecerá num só dia, até lá é necessário manter as condições de defesa e a operacionalidade da companhia, o narrador está de férias, tudo quanto irá descrever é contado por outros. 

Quem comanda a operação é o comandante de agrupamento de Bafatá, a 4 de Fevereiro, uma enorme coluna sai de Nova Lamego enquadrada por duas companhias e assim se chega ao Ché-Ché, faz-se a travessia, há uma nova jangada sustentada em barcaças de engenharia militar.

 Em 5 de Fevereiro os militares abandonam Madina, a estrada é cuidadosamente picada, chega-se à margem do rio Corubal a meio da tarde. Em cada viagem é levada uma ou duas viaturas, começou-se pela população civil. Na margem do destino, em Ché-Ché, são montados os morteiros 81 retirados de Madina, ficam apontados para as imediações da concentração das tropas e viaturas na outra margem. 

Com morosidade, a travessia concretiza-se, de vez em quando é necessário despejar a água que com o peso do movimento da jangada se vai acumulando nas barcaças de suporte. Cai a noite, a operação continua. Ao amanhecer são poucas as viaturas e tropa que ainda falta transportar.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 11 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17756: Notas de leitura (994): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (1) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Guiné 61/74 - P17756: Notas de leitura (994): “a sorte de ter medo”, por Gustavo Pimenta, Palimage, 2017 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Setembro de 2017:

Queridos amigos,
Há anos atrás, aqui se saldou "sairòmeM - Guerra Colonial"[1], de Gustavo Pimenta. É deplorável a ausência do registo desta obra em quem estuda a literatura da guerra, deplorável e injusto. Adiante.

Foi publicado recentemente este livro que impressiona pela singeleza, o discurso próximo e distante, a impressionante capacidade retentiva daquele mais de um ano que ele viveu em Madina do Boé, não conheço outro romance em que se fale com tanto pormenor da retirada dos dois quartéis, Beli e Madina, e que foram determinantes para o evoluir da guerra, quando o Boé se transformou em abandono por falta de presença portuguesa, o que deu ocasião para as grandes mudanças que o PAIGC operou no Norte e no Leste. É indispensável ler Gustavo Pimenta

Um abraço do
Mário


Um impressionante relato sobre a retirada de Béli e Madina de Boé (1)

Beja Santos

Em 1999 Gustavo Pimenta publicou na Palimage “sairòmeM – Guerra Colonial”, aqui foi saudado com entusiasmo a obra, injustamente pouco referenciada. 

Gustavo Pimenta está de volta com “a sorte de ter medo”, romance, Palimage, 2017. A urdidura não anda muito longe da sua anterior incursão pelas terras guineenses. No caso presente, há um avô que é interpelado do seguinte modo: “Avô, como sobreviveste à guerra?” e começa uma longa viagem de um limiano magricela que recebeu guia de marcha para as Caldas da Rainha, completou a recruta com elevada média e aceitou ir para o curso de oficiais, como atirador.

 Ainda passou uns dias pela Escola Prática de Administração Militar, depois mandaram-no para Mafra, aplicou-se, já aspirante foi colocado em Penafiel, seguiu depois para Tancos, onde tirou o curso de minas e armadilhas, segue para Tomar, irá combater na Guiné. Em 3 de Outubro de 1967 o navio Timor acostou em Bissau.

Uma pausa para refletir com o leitor sobre a diferença abissal entre o escrever fácil e o escrever simples. Gustavo Pimenta discorre, é como se aquelas memórias que lhe apetecessem romancear, fossem contadas para que houvesse um entendimento absoluto, nunca desce ao facilitismo, à fluência deixada à toa, é uma simplicidade com calibração, em dois tempos, o que se exprime na conversa e uma súmula que volteia em pensamento. 

É esta construção que torna a leitura credível, sincera, memória que fica para as próximas gerações. Sem fugir aos diálogos brutais, ao enfrentamento, como nos conta de uma ida aos correios, estavam em Fá, foi com o capitão a Bambadinca, e é interpelado pelo comandante do batalhão:

“- Que merda é essa que tens na cara? 
Ele passou a mão pela cara, olhou-a, e disse: 
- Não vejo merda nenhuma. Onde a tenho? 
O capitão interveio de imediato: 
- Meu coronel, o nosso alferes está devidamente autorizado a usar barba. 
- Autorizado? Isso são manias dos marinheiros, que no Exército dispensamos bem. 
Antes que a coisa azedasse, o capitão mandou o alferes para junto do jipe em que tinham vindo e ficou a conversar com o coronel. Quando se lhe juntou, disse: 
- Assunto resolvido, mas veja lá se responde noutros termos a um oficial superior”.

Estão a adaptar-se ao terreno, colaboram em operações, vão ao Xitole, depois Sinchã Jobel, tudo sem contacto mas com muita canseira. Em Novembro seguem para o Poindon, é o batismo de fogo, morre um cabo atingido no pescoço, no regresso ao Xime são várias vezes flagelados por disparos de inimigo, voltam à base, Fá Mandinga. 

Há, em toda esta singela narrativa, alguém que é permanentemente considerado e respeitado: o comandante de companhia, homem prudente, sempre empenhado em manter a tropa em atividade, ninguém estava autorizado a andar de chanatos, firme e dotado de autoridade natural. 

Nova operação, desta feita na região de Caresse, o objetivo era uma total ruína, não havia um menor sinal de por ali alguém ter estado nos tempos mais recentes. De Fajonquito regressaram a Fá. Ainda estão nos previstos três meses em regime de intervenção, são levados até Bolama e sem razões a operação é cancelada e mandados regressar. 

Em 8 de Dezembro chega a notícia: a companhia irá entrar em quadrícula em Madina de Boé. Entrementes, saem de Bissau para uma nova investida ao refúgio na mata de Poidon, referência de má memória. Tudo volta a correr mal, são emboscados, as munições escasseiam, voltam ao Xime para se remuniciar, nem novas nem mandados, não se avistou nenhum inimigo. 

Na véspera de Natal, estão em Porto Gole, em plena confraternização, o PAIGC flagela com armas ligeiras. Saem nesse mesmo dia para uma operação cujo objetivo é Sarauol e Sara, não encontram resistência, regressam a Porto Gole e depois andam a fazer patrulhamentos no rio Mansoa.

 Até que em 8 de Janeiro voltam a Bambadinca, seguem para Nova Lamego, aqui começam os preparativos para se deslocarem para Madina. Saem manhã cedo, até Canjadude as viaturas seguem a boa velocidade, a partir daí a viagem é a pé, tudo picado; pela mesma hora uma outra equipa de picadores sai do Ché-Ché em sentido contrário ao da coluna. O desconcerto da guerra vai mesmo agora começar:  

“Estabelece-se o contacto: quatro nativos, com Mauser a tiracolo e uma pica na mão, aguardam a coluna sentados na berma à sombra de uma árvore. Escassa e débil força para tão delicada missão. A tropa retoma o seu lugar nas viaturas, a coluna avança pela estrada esburacada de terra batida.
Escassos quilómetros percorridos a viatura que segue na frente – uma GMC, sem capota para evitar traumatismos ao condutor em caso de rebentar alguma mina e com os guarda-lamas cobertos de sacos de areia para amortecer o impacto – é violentamente sacudida pelo rebentamento de uma anticarro.

O major de engenharia, que exigira ir ao lado do condutor na viatura da frente para não apanhar a nuvem de pó que a coluna levanta, fica gravemente ferido.

Parada a coluna, procura-se socorrer o major. O furriel que, a dias do fim da comissão o quis acompanhar, ao precipitar-se para ele pisa uma antipessoal e morre minutos depois.
O enfermeiro fica ferido pelos dois rebentamentos.

Monta-se segurança em volta do local. Picam-se os arredores à procura de mais minas, rebentam duas, uma delas fere mortalmente um soldado do grupo de nativos”.

O contacto rádio falha, surgem dois helicópteros, consegue-se contacto com um deles e pede-se-lhe apoio para a evacuação. Responde que estão a evacuar feridos graves da tropa de Ché-Ché, o melhor é ir até lá.

Já com o Ché-Ché à vista, outra mina anticarro que os picadores não detetaram.  é ativada pela viatura que segue na frente, o condutor sai inexplicavelmente ileso. Atinge-se o aquartelamento ao fim do dia. Estão junto ao rio Corubal, avista-se a jangada que permite a travessia até Madina. Aqui vai começar a operação para chegar ao mais temido aquartelamento de toda a Guiné.

(Continua)
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Notas do editor

[1] - Vd poste de 17 de março de 2010 > Guiné 63/74 - P6009: Notas de leitura (79): sairòmeM Guerra Colonial, de Gustavo Pimenta (Beja Santos)

Último poste da série de 8 de setembro de 2017 > Guiné 61/74 - P17743: Notas de leitura (993): “A verdadeira morte de Amílcar Cabral”, por Tomás Medeiros, althum.com, segunda edição revista, 2014 (2) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Guiné 63/74 - P11719: Notas de leitura (492): em nome da Grei, por Gustavo Pimenta (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Março de 2013:

Queridos amigos,
Foi graças à Teresa Almeida, da Biblioteca da Liga dos Combatentes, que tive conhecimento deste livro que é uma imprevista descoberta.
Se as suas memórias da Guiné já nos tinham surpreendido, este relato dos meses de recruta, especialidade, colocação numa unidade a aguardar mobilização e, por fim, a formação de batalhão com destino à Guiné, é surpreendente pelo didatismo comedido, a sinceridade das situações, os desabafos de alma, o desvelamento da intimidade.
Um livro magnifico e tocante que não devia andar escondido ou despercebido.

Um abraço do
Mário


Em nome da Grei

Beja Santos

Se me pedissem alguns títulos de obras sugestivas que explicassem com rigor e probidade o que eram as nossas recrutas e especialidades, não hesitaria em propor o diário do soldado Inácio Maria Góis, o livro “O Pé na Paisagem”, de Filipe Leandro Martins e “Em nome da Grei”, de Gustavo Pimenta, Palimage Editores, 2003.

Falou-se de Gustavo Pimenta a propósito de um livro de grande interesse: "sairòmeM Guerra Colonial", Palimage Editores, 1999, dedicado à sua comissão na Guiné. Obra singular, com estrutura em flashback, ou seja ou acontecimentos vão sendo rebobinados. 

Escrevia ao tempo que esta boa prosa convincente e afetuosa precisava de três leituras: a primeira, para nos aproximarmos dos factos; a segunda, para nos fixarmos numa cronologia de uma comissão que ocorreu entre 1967 e 1969; a terceira, para incorporar nos cinco sentidos um depoimento sensível e delicado sobre quem viveu quase um ano em Madina de Boé e perdeu soldados naquela trágica travessia da jangada, em Fevereiro de 1969.

Agora temos um funcionário camarário, tem 22 anos, é educado em meio provinciano, Viana do Castelo, recebeu uma guia de marcha para se apresentar nas Caldas da Rainha, lá vai de Viana para Campanhã, daqui à Pampilhosa, Figueira da Foz, Caldas da Rainha, a recruta será no RI5. Descreve a chegada ao pormenor, a caserna, a arrecadação, as primeiras brutalidades no tratamento, o fardamento, a péssima comida. Quando abre espaço ao diálogo, são frases incisivas, telegramáticas. Como se o leitor tivesse todo o direito a saber o ABC da mobilização militar, esmiúça quem frequentava o CSM ou COM, onde ocorriam tais cursos, como se processava a ordem unida, qual a sua linguagem automatizada, abreviada: 

“Começávamos logo pela manhã, obedecendo às ordens que faziam de nós um grupo marionetas, mantendo o ritmo e o passo acertado ao som de – esquerda, direita, um, dois!, que depressa se transformaram em – erda, eita, um, dois!, assim como – direita volver! e esquerda volver! passaram a – eita er! e erda er!”

A aprendizagem dos postos da tropa, a docilidade dada pela ordem unida, a proibição de não tratar ninguém por colega, as continências, instrução física e a aplicação militar, a limpeza da Mauser, os crosses, a revista à caserna, os testes escritos feitos às sextas-feiras de manhã, sentados na parada com uma prancheta de platex sobre os joelhos e apostando nas opções de escolha múltipla, as excursões de fim de semana até casa, o ambiente das Caldas, o recebimento do pré, as formaturas para sair do quartel, não há pormenor que escape a Gustavo Pimenta: 

“Botas de cabedal, que se prolongavam em polainas, afiveladas ao lado, até meio da canela; calças de terylene, camisa de popelina; blusão com as insígnias da arma a que pertencíamos, em metal amarelo, espetados nos virados e boina, com o distintivo da unidade no mesmo metal”

Mas também a barba escanhoada, as apresentações na porta de armas e, mais à frente, parece que o leitor entra num pinhal e vai fazer instrução, ensarilha a arma, monta e desmonta a arma, segue para a carreira de tiro, ali ocorrem sempre peripécias, como a do Pires: 

“Na primeira sessão de tiro que fizemos, o Pires, que integrara comigo a equipa de futebol júnior do Vianense, possuidor de um corpanzil impressionante, não conseguiu ajeitar a posição da Mauser de forma a acomodar o impacto de recuo. Sucessivamente obrigado a fazer os disparos previstos, a dor e o escárnio do oficial da carreira fizeram-no descontrolar até ao choro. Foi humilhado e, com ele, todos nós. No fim da sessão o hematoma que ele tinha na clavícula era do tamanho da nossa revolta e do desprezo, ainda que inútil, que passámos a dedicar ao alferes que a orientou”

E os exercícios noturnos, a malta a trepar por montes e vales, a tiritar de frio, a emboscar o inimigo. Finda a recruta, vai até à EPAM, foi sol de pouca dura, tinha tido alta classificação, seguiu para Mafra. Põem-se problema de consciência: devia recorrer ao Batateiro para passar a salto, ir para França? Sente-se impelido pelo dever, vai desenganado, aquela guerra não lhe diz nada.

Em Mafra, sai-lhe na rifa dormir na capela, o seu instrutor é o alferes Rocha: “no seu porte atlético, bíceps salientes, atarracado, pernas demasiado pequenas para o tronco que tinha, ar de anão – ou de símio, como preferiam os sussurros a meu lado”

Quem vinha do CSM era visto com desconfiança: 

“Estes gajos acham que nós, o que viemos do curso de sargentos, somos menos do que eles. A mim, em todos estes dias quase não me falaram”

O alferes puxa-lhes pelo físico, andam constantemente suados, enlameados, a jogar boxe, a sofrer todas as agruras do Vale Escuro. As marchas finais foram inesquecíveis, golpes de mão a aldeias encravadas na montanha, não teve alta classificação porque o Rocha considerou que ele não tinha físico para oficial do Exército, ainda por cima usava óculos.

Aspirante, é colocado em Penafiel, um oásis. Foi praxado e não gostou. Escreve a vida em Penafiel, levou uma vida santa até ter sido responsabilizado pela decoração de um túnel, lá encontrou papelada muito ao gosto do comandante. A espera pela mobilização não foi longa, muito menos inesperada. Foi até Tancos tirar o curso de minas e armadilhas, seguiu para Tomar, faz parte da CCAÇ 1790. Ficamos a saber o que lê os filmes que vê, a música que ouve. Volta-se a pôr a questão da deserção, volta repudiar tal atitude. Agora tem que formar soldados, sente-se confuso: 

“Como fazer deles os melhores soldados do mundo, que são os únicos que vão para além da morte em todas as impérvias lutas e, perante as mais nobres das causas, chegam até à suprema dádiva da vida? Que causas lhes incutir? Antes, que causa a minha?”

A maioria do contingente era gente minhota. Tinham um soldado envelhecido, com 32 anos. Vivia lá nos ermos, metido na aldeia natal, jamais descera à cidade. Até que lhe nasceu um filho e teve que o ir registar. Aí deram por ele, descobriram que era refratário, não aparecera na inspeção militar:

  “Introvertido, obedecia a tudo sem resmungo, como se obedecer fosse sina com que nascera. Numa das primeiras sessões de aplicação militar, quando se ensaiavam cambalhotas sucessivas, o Jesus, logo à segunda ou terceira, deu um berro e ficou no chão agarrado ao ombro. Tinha fraturado uma clavícula em dois sítios e a recuperação seria problemática e prolongada. No dizer dos médicos, tinha a estrutura óssea de um velho e não era claro que voltasse a ser o mesmo”.

E um dia vem a notícia: a Guiné espera-os. Ele ama profundamente Joana, não sabe o que dizer à namorada, nem aos pais. Continua a insustentável indecisão entre partir ou fugir. O BCAÇ 1933 está pronto para partir para a Guiné, goza as últimas férias, recebe a bênção dos familiares, escreve cartas ainda em Santa Margarida para Joana, julga e pede-lhe que o esqueça. Já embarcaram no navio Timor, começa uma viagem de vários dias até chegarem ao palco da guerra. Tira a carta destinada à Joana do bolso e lança-a ao rio, tem os olhos marejados de lágrimas. 

“Invadiu-me uma inexplicável alegria. Senti uma convicção absoluta, uma certeza indestrutível: regressaria, no fim da comissão, inteiro e salvo, para a Joana”.

Um livro comovente, continuo a não perceber como é que estas obras andam despercebidas.
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Nota do editor:

Último poste da série de 14 DE JUNHO DE 2013 > Guiné 63/74 - P11705: Notas de leitura (491): Atlas dos Instrumentos Tradicionais da Guiné-Bissau (Mário Beja Santos)

domingo, 5 de outubro de 2008

Guiné 63/74 - P3272: A novíssima literatura da Guerra Colonial (Leopoldo Amado)

1. Texto que foi enviado pelo nosso amigo Leopoldo Amado, lusoguineense, membro da nossa Tabanca Grande, doutor em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa:


DIAPASÃO E PERSISTÊNCIAS TEMÁTICAS NA NOVISSÍMA LITERATURA DE GUERRA COLONIAL: O CASO DA GUINÉ-BISSAU

Por Leopoldo Amado
(*)


(Fixação do texto e subtítulos do editor, vb)

Apesar de a literatura da guerra colonial sobre a Guiné ter sido forjada ainda na decorrência da guerra colonial e a sua evolução ter sido altamente condicionada pela censura e a PIDE, o seu boom só ocorre após o 25 de Abril.


Armor Pires Mota

Antes disso, as duas origens remontam a 1965 quando Armor Pires Mota [1], ex-alferes do Exército português começou a publicar as suas obras. Tendo seguido para a Guiné em 1963 na qualidade de operacional, Armor chegou mesmo a participou pessoalmente em vários recontros entre o Exército português e guerrilheiros do PAIGC, incluindo a grande batalha de Como, além de ter igualmente combatido no Norte da Guiné. Regressado da comissão militar em 1965, dedicou-se à escrita de suas memórias da guerra, tendo dado a estampa inúmeras obras, entre poemas e narrativas, das quais se destacam Baga-baga[2] (1968), livro de poesia galardoado com o prémio Camilo Pessanha; Guiné: Sol e Sangue (1968); Tarrafo [3] (1970); Mau país de si inimigo (1974) e, mais recentemente, Amado Chão Vermelho [4] (a aguardar publicação).

Na verdade, Armor é, de longe, o autor que mais livros literários produziu sobre a guerra colonial da Guiné, o que certamente não é alheio ao facto de nele existir uma indefectível ligação com a Guiné e suas gentes, como de resto o próprio m confessa. Ao dizer que “ (...) aquela terra misteriosa com rondas de feitiços e magias, terra de cruz, sonho e glória, céu liso e tardes de sol em brasa calcinando o chão, as almas (…) é um pouco de ti e da tua gente: tenho no sangue as tuas veias, porque amoldei tanta vez o meu corpo, a tremer, à poeira dos caminhos averme­lhados ou às algas dos pântanos doentios. Tenho no sangue o sangue da tua gente: carreguei com um negro ferido, dei pão ao garotio, admirei o ébano das raparigas, tenho, para recordação, uma tábua de marabú, um terço de mandinga e uma ligeira cicatriz. Por que será que, embora, sofrendo, hoje te adoro, terra de sol e azul em fogo? (...) ”[5].
Contudo, a sua extensa obra abarca apenas a fase inicial da guerra (1963 à 1965), ou seja, o período correspondente à comissão militar que autor cumpriu na Guiné numa altura em que os elementos para ali destacados eram utilizados onde era preciso, o que lhe valeu a experiência de ter estado onde se fazia sentir a guerra com maior intensidade, pelos que os seus livros afiguram-se cumulativamente como o reflexo dessa intensa experiência vivida, embora aqui e acolá se descortine neles uma espécie de fantasia resultante da livre recriação literária dessa mesma experiência.

Aliás, os primeiros escritos de Armor, que se reportam a fase pioneira da guerra, diferem ideograficamente dos que os seguiram, tanto é que na generalidade dos casos, só mais tarde os fautores literários se revelariam possuidores de uma aguda consciência política dessa mesma guerra. Consequentemente, Amor exaltava amiúde a missão civilizadora de Portugal, na linha do que Margarida Calafate Ribeiro considerou de “visões e fantasias organicistas e apocalípticas do final do século XIX que percorrem a literatura portuguesa e o pensamento crítico português do século XX, num longo epitáfio a nação portuguesa imperial (...)[6]”.

È nesse sentido Amor enaltece inclusivamente a guerra em que o próprio estava envolvido e na qual acreditava residir “o mistério da continuidade da missão histórica-imperial de Portugal”. Dizia ele, aliás, que “ (...) estamos aqui e agora. Em frente do cais da fortaleza de S. José da Amura, bastiões erguidos, bombardas apontadas para o rio numa evocação do passado, digna da memória histórica e são 25 de Junho de 1963. Voz marcial de clarim nos ajuntou aqui para render os Mortos e os vivos: Nuno Tristão que morreu flechado pelo gentio, Honório Barreto, homem de cor que alargou as terras e pacificou, o Tenente que, há dias foi estilhaçado por uma mina na área de S. João de Bolama, o soldado anónimo que repousa junto à Bolola. Nós estamos aqui e agora, a ganharmos força para erguer o nosso cântico (...)[7]”.

Mas o que verdadeiramente chama à atenção nas obras de Armor é o facto curioso de o inimigo, ou seja, os guerrilheiros do PAIGC, terem sido invariavelmente retratados como “terroristas”, “bandidos” ou “bandoleiros”, apesar dessas asserções terem começado gradativamente a rarear nas obras que sucessivamente foi publicando, a ponto de desaparecerem quase completamente nos publicados após o 25 de Abril, podendo-se por isso aferir-se das várias transfigurações ideográficas de que a sua produção literária foi alvo, tanto é que na descrição das grandes operações militares em que, invariavelmente, os mortos eram sempre os terroristas e os perdulários da acção militar o PAIGC[8], ideografia essa que, curiosamente, passou a assentar, sobretudo na produção literária pós 25 de Abril do autor, num enredo apologético de amizade “entre os portugueses de outrora e de hoje e os povos da Guiné-Bissau”, figurando Armor Pires Mota, por isso, como um autor de charneira entre o velho discurso que caracterizava a literatura de guerra colonial da Guiné e uma outra, de conteúdo radicalmente diferente, assente fundamente numa ideografia de questionamento da sua legitimidade.

José Martins Garcia

Ora, no caso da Guiné, o novo discurso foi introduzido no panorama literário José Martins Garcia[9], com o livro O Lugar de Massacre[10], aliás, uma obra que, para lá do seu inquestionável valor literário, inaugura sem pejos uma forma completamente sarcástica de desmontagem da roupagem ideológica de que se revestia a guerra colonial, procedendo, outrossim, a criação de um enredo literariamente ficcionado, mas que propiciou uma realística torrente evocativa da incomensurável hipocrisia e o absurdo de homens confrontados com a contingência de uma guerra cuja essência não compreendiam e, pior ainda, fazendo vir ao de cima a pungência e o drama de jovens que, na aurora da juventude, eram obrigados a confrontarem-se com o as adversidades ontológicas de um meio estranho e com a morte (ter de matar ou morrer para sobreviver), pois “ (...) o fim do Império, o movimento do 25 de Abril, como imagem essencial, o fim de Portugal como nação imperial, desde logo expresso nas primeiras obras de Guerra Colonial pós 25 de Abril, que unanimemente repudiam essa imagem-mito que tantos sacrifícios reais e recentes tinha levado, definindo esse espaço imaginário como Lugar de Massacre (...) ”[11].

Com efeito, O Lugar de Massacre apresenta-nos a guerra colonial com uma arena lúgubre, ou seja, um supremo lugar de massacre dos valores humanistas de toda uma geração, numa narrativa em que sem eufemismos, o autor, ou melhor, o narrador, denuncia os valores do Estado Novo, socorrendo-se de uma intriga textual que vai justamente rebuscar a homossexualidade como simbólica máxima do definhamento moral dos políticos de então, sintomaticamente, um sistema pensamento preso teimosamente à uma ideologia tida pelo autor como caquéctica e démodée, mas em cujas cinzas renasceram a aguda sátira de que, aliás, alimentaram a chacota:

“ (...) Vocês... – Vocês, quem? – A ordem. Vocês, a ordem...vocês têm tudo. Exércitos, clínicas, igreja e família. (...)[12]". Assim, em crescendo o narrador foi interpelando o Estado Novo: “Exmo. Senhor, tendo chegado ao meu conhecimento que a minha peregrinação por este martirizado território foi motivada por sórdidos interesses que nada têm a ver com a Pátria; tendo mais chegado ao meu conhecimento que alguém cobardemente nos confundiu, dignos e indignos, à sombra do uniforme do Exército Português; atendendo a que tal confusão mancha a minha dignidade de homem e de militar, solicito a V. Exa. se digne ordenar um inquérito referente às condições da minha peregrinação neste território, para se apurar as razões históricas que podem legitimar o assassinato duma juventude. Respeitosamente... (...) ”[13].

Na verdade, a guerra colonial marcou profunda e indelevelmente toda uma geração de jovens, pelo que a literatura por eles produzida “ (...) veio revelar com uma força artística moral que não tem paralelo em nenhuma outra fase da nossa cultura – a guerra de 14-18 nada suscitou entre nós que se comparasse com a vindima saída das guerras de 1961 a 1974 que (...) na situação-limite do conflito humano total e extremo que é guerra onde se mata e se morre ou se vê morrer, constituindo assim, globalmente, a maior catarse intelectual e colectiva sobre os horrores de um drama que marcou a ferro e fogo, cor, tatuagem de impossível apagamento, a nossa história contemporânea (...) ”[14].

E esse género literário que afina o seu diapasão ideográfico por essa toada geral entrou no panorama literário português como algo que ganhou corpus e que, pelo seu eivado realismo, interpela inexoravelmente a consciência critica portuguesa, isto é, antecipando-se à catarse histórica e propondo ao mesmo tempo uma catarse no imaginário colectivo. Por outras palavras, dir-se-ia que estes literatos mais não fizeram (e vão ainda fazendo) do que interpelar a sua própria identidade por intermédio de um exercício que visa encontrar o seu próprio lugar numa sociedade que consciente ou inconscientemente os violentou física, social e psicologicamente, aliás, razão porque é temática transversal em todos os literatos a descrição de terríficas situações em que ocorrem as mortes ou a imagem do feridos gangrenados, decepados, esfacelados e ainda, essoutra faceta da guerra, a solidão, o medo e o tédio, a folia, individual ou colectiva (“Pois é! Estamos todos doidos”[15]), as neuroses, a embriaguez, a masturbação, a homossexualidade, aliás, factores esses que, cumulativamente, no dizer de Margarida Calafate Ribeiro, constituem “ (...) poderosas imagens de uma pátria em exercício solitário de espera no vazio (imagem de masturbação), ao mesmo tempo que se vai deixando corroer por dentro (imagem da gangrena) e destruindo-se a si mesma (corpos esfacelado e mortos) (...) ”[16].

Augusto Pimenta

Este ambiente de tédio permanente, longe da pátria, era de resto sublimado através de uma atroz solidão que, por sua vez, era exorcizada com lenitivos de toda a espécie a que os soldados se socorriam ou a que a sua imaginação ou sensação de abandonados propiciava. Era, em suma, uma vida de sofrimento no mato para a qual era utilizada os expedientes possíveis para espantar a solidão, recorrendo para tal a expedientes vários, a saber a embriaguez até formas menos ortodoxas de sublimação das inquietudes.

Augusto Pimenta confirma-o ao dizer que “ (…) aqui, até por não termos pais ou filhos à mão, éramos sempre nós a inventar uma farra, já que fazer anos, na casa dos vinte, é sempre pretexto para festejar. Comemorar um aniversário em campanha foi sempre um duplo pretexto: festejar os anos e a vida. O acrescido risco de ser o último que se celebrava, introduzia irreverência maior nos votos que se formulavam e o facto de ser uma festa exclusivamente entre homens levava a comportamentos que, noutro contexto, seriam, no mínimo, bizarros (...). Também então, éramos irremediavelmente portugueses na nossa quotidiana mediania, nos lampejos de génio e na fascinante capacidade de improvisar. (...) O caminho dos abrigos tornava-se subitamente longo e, não raro, difícil de encontrar. Todos quantos não estavam de piquete, ou na mata, ou não tinham que sair ao alvorecer, aproveitavam a ocasião para a curta cura de esquecimento que o álcool provi­dencia. Em maior ou menor grau (...) ”[17].

Outrossim, este género literário reflecte, na sua forma, às más condições da vida no "quartel", designadamente, em termos de alimentação, acomodação e isolamento. À isto juntavam-se muitas vezes a desocupação e o tédio, pelo que todos os motivos são rebuscados para se reproduzir a dimensão e o tom real que as contendas assumiam no ambiente encrespado da guerra: o azar ao jogo, as convicções religiosas, a má qualidade da comida ou a disputa por uma guineense negra ou mulata da aldeia que fosse alvo da cobiça generalizada, entre outros aspectos. Aliás, na literatura de guerra colonial, segundo Daniel Lopes, “ (...) a indisciplina é justificada porque o quartel aparece como um contexto viciado de interacção e trabalho, com problemas comuns a muitos outros contextos institucionais. (...) Acrescentem-se ainda as tensões derivadas da própria hierarquia militar, com a sua torrente de ordens e castigos, muitas vezes incompreensíveis, provocadores, revelando autênticos abusos de poder. Neste campo, as praças uniam-se contra os sargentos, os sargentos e as praças uniam-se contra os oficiais, os oficiais operacionais uniam-se contra os oficiais "do ar condicionado", e as ordens continuavam a ter que ser cumpridas mas, de preferência, com má vontade (...) ”[18].


Salgueiro Maia

O exemplo mais sonante de loucura, traço muito comum à literatura de guerra colonial, é-nos dado por Salgueiro Maia, ao referir-se à caricata figura do major Gaspar, cuja irreverência abeirava-se da loucura, aliás, motivo pelo qual acabou ser hospitalizado:

“ (...) o major Gaspar vai comandar o CAOP 2 em Mansabá, onde, dando boa conta do recado, é solicitado para se deslocar a Bissau, à reunião semanal do Com. Chefe, onde deveria ser salientado o seu compor­tamento. Só que a coluna que, vinda de Farim, o devia transportar a Bissau nunca mais chegava. Farto de esperar, avança para Mansoa só com o condutor, percorrendo um itinerário onde eram frequentes as emboscadas, pois passava ao lado do Morés. À sua chegada a Mansoa, umas centenas de elementos da população agitam-se, pe­gando nas suas mercadorias com vista a ocupar lugar na coluna. Aí, o major Gaspar acha conveniente mandar parar o jipe. A população acerca-se e ele explica: «Meu povo, permaneçam mansos, porque a coluna ainda não vem aí, só vem o Gaspar.» Continua só em direcção a Bissau. Começa por visitar os seus amigos paras à entrada da cidade, depois o seu amigo director do Hospital Militar, os seus amigos comandos, etc. Entra em Bissau feliz e, desejando dar saída à sua alegria, descobre que o único sítio da Guiné onde havia uma peanha para um polícia dirigir o trânsito tinha um PSP guineense, que o major Gaspar considerou estar a fazer mal o seu trabalho. Fez parar o jipe ao lado da peanha e fez sair o polícia do sítio e, de pistola-metralhadora ao pescoço, o major Gaspar foi dirigir o trânsito. Lá, como noutros sítios, os condutores, apesar de na maioria serem militares, não eram obe­dientes, e assim o nosso amigo fartou-se de desobediências. Tanto, que atirou uma rajada por cima de urna camioneta da engenharia militar que não lhe obedeceu. Continuou em funções, mas surge mais uma camioneta, do Depósito de Adidos, que também não lhe obedece, e aí vai o resto do carregador. O Palácio do Governo, onde se encontrava o general Spínola, distava uns 400 m em linha recta, pelo que os disparos eram nítidos e originaram que a polícia do Exército fosse chamada ao local. Postas perante a realidade, as entidades competentes determi­naram a baixa à neuropsiquiatria do major Gaspar. Mas alguns, suficientemente conhecedores da maneira de ser do «doente», con­seguiram autorização para o director do Hospital Militar conven­cer o major a descansar uns dias no Hospital, onde os amigos o visitaram com assiduidade, criando talvez o único período de ver­dadeiro descanso e convívio que este homem teve ao longo de vários anos de guerra e de guerras com o sistema. As histórias do major Gaspar foram para muitos combatentes o escape natural nas vicissitudes da vida em campanha; quem o conheceu guarda dele a imagem do lutador pela dignidade e pela justiça, a certeza de que a sua luta foi imortal (...) ”[19].

Beja Santos


Outro traço comum aos literatos da guerra colonial é a forma como exteriorizam de forma pungente a vontade de regresso à terra. Nesse sentido é significativo a imagem que Beja Santos nos fornece, logo ele que, na sua comissão pela Guiné era também fotógrafo, aliás, razão porque operou de forma transcendental a transposição para o campo literário das suas imagens fotográficas. Diz ele: “ (...) Fotografias? Sim, mas também sinais trémulos de asco e alegria incontida no sacrifício inútil. Estas fotografias a preto e branco são fogo e água. Crianças a caminho de homens. Defuntos despojados de olhos pávidos e conflitos sibilinos. Amigos de abandono. Como um poeta que dilacera o vagido do poeta, tenho um álbum, um animal feroz, estes cabelos, esta arma, esta vontade de regressar já a Lis­boa. Foi assim e não foi. Peco-vos, por último, o corpo da compreensão. Nenhuma palavra, som, barco, amigo, amanhecente equatorial, falta aqui. O meu álbum é um via­duto aberto à côncava galáxia. Nestes álbuns de militar em campanha na última guerra de Portugal, a obra de amor em português fulge no silêncio. A preto e branco. Células vivas que povoam a nossa resistência à barbá­rie. Fotografias da guerra do fascismo. Terraços a prumo. (...) As minhas e as vossas fotografias gritam: não esmoreçam; na vossa bolanha continuai a lavrar. A minha câmara dispara fotografias em série, feita trem e luar textual. Cada fotografia é um concerto polar, sangue lustral de esperança. Repito: a preto e branco. Afinal, a cor dos actores. (...). Encerro o meu álbum. Despeço-me desta poalha afectiva. Em cada fotografia deixo um poeta perene, atado ao peso do próprio feito. E porquê? Porque houve uma guerra onde preparámos a fotografia da paz. Não se mexam. Fixo-vos para todo o sempre (...) ”[20].

Outra temática sobremaneira recorrente na Literatura de Guerra Colonial prende-se justamente o confronto com o “outro civilizacional”, esse “outro” estranho, simultaneamente compreensível e incompreensível, o qual, aliás, despoletou toda uma narração que testemunha a perplexidade inicial dos europeus transpostos para a África, secundando-o, obviamente, tentativas de elucidação das mesmas. Esse “outro”, para lá das agruras da guerra e da diferente coloração do guineense, também contemplava uma geografia e uma paisagem adversas que provocavam, para lá do medo, outras reacções, próprias do homem. Disso nos dá conta Armor Pires Mota ao dizer que “ (...) quem entra pela primeira vez na selva sente um mundo diferente, terrível, negro e agressivo. Quem entra, de arma aperrada, passo miúdo e silencioso, sabe que, mais perto ou mais longe, pode saltar a onça, o inimigo, com armas que vieram de Praga ou Moscovo. Mundo terrível. São cantos de aves medonhas como agouros, são os pesados e sinis­tros. São ruídos trazidos no vento por entre o capim. No capim o vento aguça a voz que parece vir de fojo de serpentes. São grunhidos de macacos, gritos sel­vagens que nos bolem com o ser. Por isso, os olhos de cada um dos soldados são faróis, o coração bate e treme todo à flor da pele (...)[21]”.

Fernando V. Pinheiro

Omnipresente, era também a temática da morte. O medo da própria morte, a dor da morte do companheiros de campanha, o acto de ter que matar para não morrer. É a imagem que nos transmite Fernando V. Pinheiro ao confessar-se “ (...) um pouco assustado comigo mesmo, podes crer, porque no momento em que ficámos de peito feito freme aos guerrilheiros, no pri­meiro recontro debaixo de fogo, nem as misérias dos «deuses guerreiros» lá da terra nem o sorriso luminoso dos filhos foram suficientemente capazes de se sobrepor à intensidade da febre provocada pelo vermelho vivo das balas que nos procuravam. Apenas uma sensação indefinida como aquela que agora me avassala talvez um misto de medos recalcados e o desejo alarve de matar para não morrer, ou a vitória funesta do raciocínio frio sobre a coerência da parte humana que habita em todos nós (...) ”[22].

No mesmo sentido, Armor Pires Mota deixa-nos de forma crua a emoção de ter participado numa luta de morte ou de vida:

(...) Regresso da metralha, Senhor!
A luta foi terrível, feroz,
E sujei as mãos de sangue
E lama
E matei para ganhar horas de vida (...) ”[23]


Marcos Vidigal

Nesse exercício de sublimação colectiva, a música apresentava-se como o melhor paliativo espiritual, numa mescla e que eram adaptadas as letras das canções à sua situação de sofrimento, denotando estas adaptações alguma consciencialização contra a própria guerra. Havia inevitavelmente uma guitarra para pretensos ou reais tocadores e uma data de fadistas prontos a provar que não existe audiência menos exigente do que a de soldados em teatro de guerra. Assim, a rígida separação entre oficiais, sargentos e praças, que a tropa tanto prezava, há muito se havia diluído, pelo que os galões e divisas só tinham significado se traduzissem coragem, capacidade de comandar, solidariedade efectiva e respeito, muito respeito, pela vida e indi­vidualidade de cada um. Tal ambiente, acentuado sobretudo a partir de 1968 – sintomaticamente, altura em que o PAIGC endurece o ritmo, a intensidade e a violência da guerra, aliás, ambiente esse que Marcos Vidigal descreve com particular perspicácia:

“ (...) Num certo dia, igual a tantos outros, havia uma excitação desusada no Comando Operacional. As últimas notícias confirmavam a ideia de que o PAIGC preparava uma acção de grande envergadura na zona. Onde será? Interrogava-se o oficial de informações debruçado sobre mapas e relatórios. Chegaram mais mensagens, agora da Companhia do Saltinho e do Quartel-General, mas nada de novo. São mais notícias, a juntar às muitas outras que se acumulavam na pasta de trabalho, sem que fosse possí­vel tirar conclusões. Por enquanto apenas papéis sem sentido, que ficavam todos esborratados quando se colavam ao suor dos braços apoiados na mesa. (...) O oficial de informações voltou para os seus papéis – a sua preocupa­ção era mais do que evidente. Mas as horas passavam e os enigmas conti­nuavam. Felizmente, naquela noite, não houve nenhum ataque na Zona Leste, o que quase se poderia considerar uma excepção. Quando os havia, metia medo mesmo para quem estava longe; na tranquilidade das planuras da Guiné, a quarenta quilómetros de distância, viam-se os clarões e ouvia-se claramente, tanto o crepitar das armas ligeiras como o estrondo infernal dos rebentamentos. Era assustador! (...) Mais mensagens do centro de transmissões – será que desta vez vão aparecer notícias a sério? – O oficial de informações devora-as, com a vista a correr, na ânsia de encontrar elementos mais concretos. Ah! Finalmente parece que tudo começa a ficar mais claro, o «puzzle» joga certo.

Na manhã seguinte, realizou-se o «brieffing» diário, na sala de informa­ções com a presença de todos os oficiais do comando, como era habitual. Começou por falar o oficial de informações:

– Notícias recebidas recentemente levam-nos a admitir que o PAIGC prepara uma operação de grande envergadura, provavelmente uma flagelação à cidade de Bafatá, que deverá ter lugar nos próximos dias. Estas notícias vêm ao encontro da informação recebida do Quartel-General, de que um alto responsável inimigo declarou, em entrevista a um jornal europeu, que além das áreas onde já exercem soberania, têm liberdade de movimentos em grande parte do territó­rio e que a cidade de Bafatá está ao seu alcance. O comandante, que não conseguia esconder o seu nervosismo, atalhou:
– Mas então há alguns indícios sobre o dia do ataque?
– Meu comandante, se me permite, já lá chegaremos.
– Continue lá – continue lá.
– Pois conforme já referi, é previsível que a acção tenha lugar nos pró­ximos dias, por ter sido detectada volumosa concentração de inimi­gos junto à fronteira com a República da Guiné, na região de Gabú. Tendo em atenção as Ultimas acções verificadas na região, é de admitir que o efectivo a empenhar seja da ordem dos quatro bigrupos – portanto entre duzentos a duzentos e oitenta homens.

- E o senhor oficial de operações o que é que tem a dizer – perguntou o comandante.
- Como é do conhecimento de todos, desde que a companhia de pára-quedistas recolheu a Bissau, que este comando não dispõe de qual­quer força de intervenção. A pressão, que se continua a sentir ao lon­go de toda a fronteira norte, impede que se desfalquem as unidades responsáveis naquela área para reforçar o sul. Continua a não se po­der contar com o apoio aéreo, visto os pilotos se recusarem a voar enquanto não for conhecida a natureza dos mísseis antiaéreos do PAIGC e a forma de lhes fazer face. Tendo em atenção a previsão dos efectivos empenhados pelo inimigo e o desgaste a que têm sido submetidas as várias unidades que se situam nos itinerários previsí­veis para Bafatá, será de considerar o reforço deste comando com três companhias, uma para ser atribuída ao batalhão de Bafatá, ou­tra para o de Galomaro, e a terceira, que deverá ficar à disposição deste comando, como sua força de intervenção.

Bem, faça já uma mensagem para o Quartel-General dizendo que, tendo em vista a possibilidade de ataque a Bafatá, se solicita reforço urgente deste comando com três companhias. Faça também mensa­gens para Bafatá e Galomaro, alertando para a possibilidade de ata­que a Bafatá e ordenando a montagem de emboscadas nos itinerários de acesso, em especial Cansamba Jau, Cantaúde e Ponte de Anambé. Mas, meu comandante, olhe que neste momento cada uma das com­panhias poderá dispor quando muito, de um pelotão para empenhar nas emboscadas, e os homens poderão ter de se confrontar com três ou quatro bigrupos inimigos, sem disporem de apoio aéreo.

O que é que quer que eu lhe faça? Ou tem alguma alternativa para sugerir?

Não, meu comandante. O ar estava carregado e o calor parecia ainda mais quente. Maldita guer­ra que nunca mais tem fim! Naquele fim de tarde a ponte das bajudas[24] ficou vazia, tal era a preocupação de todos. Já ao cair da noite apareceu o alferes Pires. Vinha de Bissau, de regresso à sua companhia, que era em Cabuca, para onde seguiria no dia seguinte. Como sempre fazia-se acompanhar da viola.

– Ah! grande Pires, ainda bem que apareces. Venha de lá esse abração. Então quais são as novidades de Bissau? – Quase berrava o Vasques pulando com a alegria de ver o amigo.
– Ora! a mesma merda de sempre. Agora há para lá uma «guerra» por causa dum congresso dos combatentes que ainda não percebi bem o que é. Sei é que anda tudo doido. Olha, já só me faltam três meses para me pôr a andar e isso é o que me interessa.
– Se eu pudesse dizer o mesmo. Ainda tenho de aguentar mais um ano se isto durar até lá. Olha, reunimo-nos logo à noite no meu quarto. Tá bem?
– Ok, Ok, lá estarei.
– Tenho lá um bagaço que até faz cantar quem não tem voz, como eu. Entro com o bagaço e tu com a viola.
– Ok, é mesmo disso que eu estou a precisar.
À noite cantou-se até altas horas. O Zeca Afonso e o Adriano Correia de Oliveira era como se estivessem ali presentes. O Pires sabia-as todas e, quanto a voz, também não ia nada mal. O major das informações, os dois capitães milicianos adjuntos do comando, o alferes da acção psicológica e o das transmissões, além do Pires, passaram uma noite que decerto nunca mais esquecerão por mais anos que vivam. No auge da guerra, com o espec­tro da derrota a curto prazo, havia qualquer coisa de místico e de ritual – as rimas chicoteavam e as palavras calavam fundo porque exprimiam os sentimentos de todos:
..........................................
..........................................

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada
Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar
O soldadinho não volta
Do outro lado do mar

O soldadinho já volta
Está quase mesmo a chegar
Veio numa caixa de pinho
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar

Para terminar todos cantaram em coro uma canção muito conhecida dos militares da Zona Leste. Tinha a música do Guantanamera, então mui­to em voga, e a letra – sabe-se lá – era de algum militar com veia de poeta:

Vão à bardamerda
Com esta merda da guerra
Eu sou um pobre soldado
Que vim para o ultramar
Obrigado
A pela pátria lutar (...)”[25]


Pela última estrofe deste poema (adaptado), descortina-se na Literatura de Guerra Colonial sobre a Guiné que estes literatos-soldados acabaram por ser alvos de um profundo processo de auto-consciencialização com a própria guerra. De facto, abjura-se quase sempre os mais elementares conceitos estratégicos de defesa, designadamente os que foram colhidos noutras guerras e transportados dogmaticamente para os compêndios e as salas de aulas da Academia Militar, na medida em que para eles a guerra era para ser feita pelos soldados e pelos oficiais e sargentos milicianos, uns e outros sem qualquer preparação prévia, antes arrancados abruptamente das suas famílias e dos seus amigos, com ordens expressas para matar ou morrer. Por outro lado, o contacto com as populações, as afeições várias que daí resultaram, se não conduziram de imediato a compreensão e a aceitação das reivindicações independentistas sustentada pelo movimento de libertação a quem combatiam, conduziram ao menos a uma espécie de cumplicidade interactiva – tão próprias do português e das gentes da Guiné – isto é, a cumplicidade entre os soldados-literatos e a população, passando, na já imensa produção literária da guerra colonial a olhar as mesmas estas como alvos e vitimas da opressão do Estado Novo.

Daniel Gouveia

Na realidade, já o referimos, rapidamente o PAIGC caminhava a partir de 1968 para uma guerra de tipo convencional sem todavia abandonar completamente a táctica de guerrilha, o que lhe permitia fustigar com os modernos e eficazes armamentos bélicos os soldados portuguesas praticamente reduzidos a quadrícula e aos aquartelamentos e recolher de seguida às bases, algumas situadas no além-fronteiras. Nesse sentido, a clausura a que os soldados estavam sujeitos, associados as acções de constantes ataques de que eram alvos, propiciavam ainda mais as condições para neuroses de vários tipos. Referindo-se a estas, Daniel Gouveia considera e bem que “(...) a cerca de arame farpado fazia do quartel um cárcere, pouco diferente de um campo de concentração. Tinha até postos de vigia a toda a volta. A única diferença era os vigilantes estarem virados para fora e não atentos a cada passo dos presidiários. Melhor era andar em operações. Na mata, ao menos caminhava-se, havia um destino, uma missão (...)[26].”

Ao que acrescenta Carlos de Matos Gomes, dizendo que na Guiné “(...)a guerra tinha ultrapassado o limite. As duas últimas operações dos generais Spínola e Bettencourt Rodrigues, na Guiné, envolveram vários batalhões, navios e outros meios próprios de uma guerra convencional. A situação invertera-se: eram os militares a colocar as minas e a rebentar pontes para que os guerrilheiros não chegassem aos seus quartéis (...)[27]”

Aliás, mesmo antes de 1968, a avaliar pela experiência de Armor Pires Mota, pode-se concluir-se de que já era perceptível no seio das forças armadas portuguesa o questionamento do “inimigo”: "Quem é o inimigo? Porque nos combatemos mutuamente? Porque somos igualmente o inimigo do ponto de vista de quem combatemos?. Dir-se-ia constituírem estas e outras indagações afins acerca do inimigo a panóplia dos questionamentos que os soldados colocavam. Com efeito, diz-nos Armor Pires Mota que “(...) não é a floresta tentacular que me curva a alma. É este não saber a terra que piso, a água que bebo, o ar que respiro. É não saber a verdadeira cor do inimigo (a cor negra não é a sua cor). Esta não é uma guerra aberta. É uma guerra absurda, cega, permanente, sem quartel. É um atirar de pedra e esconder a mão (...)”[28].

Gustavo Pimenta

Mas é Gustavo Pimenta é quem, nesse sentido, nos fornece uma imagem sarcástica da guerra, ao dizer que “(...) deslocarmo-nos para as tarefas mais comezinhas, para uma simples mijada fora do abrigo, tornara-se numa espécie de jogo do gato e do rato. Nunca sabíamos se eles estavam à coca e nos sairia na rifa o tiro isolado do dia. Aos mais afoitos, ou mais loucos, já lhes dava, às vezes, para subirem ao alto de um abrigo e despejarem insultos a tudo quanto fosse guerrilheiro inimigo e respectiva família, enquanto evidenciavam convenientes manguitos. 

Foram os mais insustentáveis tempos da nossa guerra. As múltiplas inscrições que o pessoal foi colocando, em estacas ou nas árvores, um pouco por todo o lado, eram significativas. As imediações do quartel, a maior ou menor distância, eram patrulhadas diariamente segundo um esquema que nos permitia ter sempre pessoal na mata, fora do perímetro defensivo. Simultaneamente, estava sempre um grupo de combate preparado para sair em socorro dos que estavam em patrulha ou emboscados. O outro dos três grupos operacionais descansava. 

Esta atitude, se bem que nos tenha proporcionado frequentes e violentos combates com as forças do PAIGC, sobretudo no início, revelava-se vital para a nossa sobrevivência. Se nos vísse­mos remetidos a viver permanentemente dentro do arame farpado, rapidamente estaríamos reduzidos a uma força desmoralizada e incapaz de enfrentar com dignidade o olhar que o espelho nos devolvia. Para além disso, importava não consentir que a indisciplina pudesse minar a nossa capacidade de resistir, ou que a desocupação acolhesse os inevitáveis maus presságios que a situação facilitava. Não era difícil admitir ser alta a probabilidade de o regresso a Portugal se verificar numa caixa de chumbo tapada com quatro tábuas (…)[29]”.

Salgueiro Maia descreve-nos, também de forma pungente, a forma como a morte o afectou, e como aquela guerra que era feita de mortes o guindou para a uma tomada de consciência para a necessidade de uma revolução que bulisse com os fundamentos do Estado Novo. Eis o relato:

“ (...)A acção decorre na Guiné no ano de graça de 1973, num Maio em fim de época de chuvas Pelas 7 horas, ou­viu-se forte tiroteio, pelo que, tendo-me dirigido ao rádio, ouvi grossa confusão de pedidos de apoio aéreo, de apoio de artilharia, de evacuação, etc. Para cúmulo, tudo aquilo partia de um destaca­mento a cargo de um pelotão da minha companhia e sem eu ter conhecimento de qualquer acção das NT' nessa zona. Face à confusão no rádio e ao desconhecimento do que se passava na zona, segui para o meu destacamento com o efectivo disponível, que eram dez homens. No destacamento de C., transformado em posto de comando avançado, amontoavam-se, sentados no chão, cerca de 150 homens, que se encontravam de reserva; o ambiente era de nervosismo.

"Pouco depois de ter chegado, novo contacto do PAIGC com outro bigrupo das NT. Dos primeiros contactos resultaram seis mortos para as NT, incluindo três milícias, vários feridos graves e o destroçar do bigrupo, que deixou no terreno os mortos com tiros de armas ligeiras. Na fracção de segundo em que, deitado no chão, tento perceber o que está a acontecer, começamos a ouvir como que o barulho de aviões a jacto. São os «jactos do povo», foguetões de 122 mm, que o PAIGC atira para a povoa­ção sede do batalhão. Como a guerra não é connosco, mando retirar. O ferido na perna é acondicionado com as roupas do morto e todos os panos disponíveis na caixa do Unimog. O cabo enfer­meiro segue sentado a seu lado com um frasco de soro nas mãos. O morto é colocado ao lado, embrulhado num pano de tenda; tem o peito aberto, parece um porco no talho.

"Pouco depois de iniciar o regresso, o ferido na perna morre. Nunca falou ou gritou. Guardo dele uns olhos assustados a brilhar numa pele branca e seca, a ficar vazia de vida, porque, em 60 homens, ninguém sabia o mais elementar em primeiros socorros: fazer um garrote.

"Chego ao destacamento de C. Está à minha espera uma coluna com ambulância para evacuar os feridos por terra. O médico do batalhão receita injecções e dá conselhos aos enfermeiros. Sigo no Unimog, que agora só tem cadáveres. Agradeço ao pessoal que saiu comigo a sua dedicação e digo-lhe que, mais que os agradeci­mentos, a nossa consciência nos recompensará. Mando preparar a minha secção para regressar ao meu destacamento. Enquanto se forma a coluna para Bissau e o meu pessoal se prepara, dou comigo a contemplar os mortos de boca e olhos abertos, com aspecto de quem não compreende nada do que aconteceu. Mecani­camente, tiro os atacadores das botas dos mortos, ato-lhes os quei­xos, ponho-lhes as mãos em cruz, os pés juntos. Com a água do cantil molho-lhes os olhos e fecho-lhos. Olho para a minha obra e também não entendo. Entretanto, os seus camaradas contemplam de longe, mas não se acercam. Ainda agora, sempre que um senhor general da «brigada do reumático» diz que «a guerra estava ganha» me vem à memória a morte estúpida daqueles homens e a vitória que eles ajudaram a preparar(...)”[30].


Foi efectivamente a guerra colonial na Guiné que despertou nos soldados em geral e nos soldados-literatos em particular uma aguda consciência política , consciência essa que, avolumando-se, viriam a implodir o 25 de Abril. Socorremo-nos mais uma vez de Beja Santos que sobre escreveu o seguinte:

“(...)foram vinte e seis meses e dezassete dias, que vi a surucucu mortal, que enterrei os miolos de Madiu Colubali, que são fotografias a preto e branco, sabedoras, cavaleiros fulas, a retórica da bandeira portuguesa, catanas sem capim, ditos e desditas. Deste homem guardo um memorial sem fé, mas o rascunho definitivo de todos os moinhos de que uma só esperança é a mó e velas da tribulação ao vento. Falo-vos verdade: não tenho medo desta câ­mara escura, um pouco ardente de tanto chicote colonial e maratona no sentido inverso da história. Nem sofro de pesar. Porque venceu quem tinha Pátria. Porque em todos nós o capim despontou da lama. E aprendemos a atravessar bolanhas de arroz e lodo fétido. Aqui, inexoravelmente, nasceu-me a fonte de Abril. Quando outros, por emboscada, golpe de mão, mina, bazucada, subiam a pulso o seu dia de Abril (...)”[31].
É justamente essa aguda consciência de que um outro autor, Fernando V. Pinheiro, faz eco, através da evocação e espezinhar da ideologia colonial do Estado novo. Pungente na sua narrativa, este autor, a dado passo da sua obra, remata:

“(...) repara bem, aqui, onde o nacionalismo balofo dos governantes de além-mar não passa de um mero exercício de retórica apodrecida e se impõe o raciocínio mais frio para podermos sobreviver sem «vender a alma ao dia­bo», não há mistérios de qualquer natureza em tudo quanto se move à nossa volta, nem se deve confundir uma guerra de libertação com outra de rapina(...)Se te lembras das aulas «teóricas», as colónias dos governantes, dos ex­ploradores e dos seus medíocres propagandistas, eram o prolongamento na­tural do nosso país e só por isso se justificava que o melhor da nossa juven­tude lá morresse, ou deixasse um pedaço do seu corpo sem um queixume de raiva ou uma interrogação de desespero, porque, se nada mais houvesse, «a pátria sempre recompensa os seus heróis com honras e medalhas mesmo que elas tenham de ser concedidas a título póstumo(...)”[32].

Rui Alexandrino Ferreira

Podíamos desdobrar-nos em exemplos afins para ilustrar essa profunda tomada de consciência política que diversos autores fizeram referência. Porém, paradoxalmente, esta mesma guerra, não obstante as agruras que lhe eram intrínsecas, permitiu a alguns soldados, como tão bem demonstra Alexandrino Ferreira, de se tornarem homens, simplesmente mais amadurecidos:

“(...) O nosso comportamento em situação de guerra desdobra-se numa constante dialéctica entre a agressão diária da nossa participação em algo cuja justificação e compreensão não é facilmente perceptível e a permanente recusa dessa mesma participação. O desgaste resultante do enorme esforço físico e ainda maior desgaste provocado pelo afastamento das pessoas que amamos, pela angustia, pela incerteza e, porque não dize-lo, pelo próprio medo e pela necessidade de o suplantar, deixam, inevitavelmente, marcas muito profundas e, em alguns casos, irreversíveis. Todavia, a guerra fez-nos homens. Eventualmente, fizemo-nos homens à pressa, mas, seja como for, ficamos homens (...)”[33].

Alpoím Galvão e Sérgio Pereira

Porém, embora a grande parte da Literatura de Guerra Colonial contemple essa aguda tomada de consciência, autores há que, escrevendo de forma marginal, optaram por uma narração em que simplesmente se encontra ausente esse desalento colectivo. Nessas obras, ausentes também estão o medo, a mote ou uma perspectiva de culpabilização do regime ou do sistema. Ora, essas ausências são largamente compensadas por uma narrativa quase acéfala, isto é, desprovido das pieguices das ideologias, remetendo o leitor para a leitura dessa outra perspectiva, que é a dos militares que, assumindo-se plena e absolutamente como tal, apenas se preocuparam com a observância da obrigação e disciplina militares. É, entre outros, os casos de Alpoim Calvão ou de Sérgio Pereira, ambos autores do livro Contos de Guerra[34]”.

Neste livro, os autores, essencialmente o primeiro, geralmente considerado como o temível combatente português da guerra colonial, narra o espírito guerreiro despido de qualquer sentimento de culpa ou interrogações existenciais. Aliás, na sua narrativa, a morte surge como uma fatalidade natural no cenário da guerra, privilegiando nelas o enaltecimento da camaradagem e a coragem das forças especiais que estiveram sob o seu comando, fazendo contrastar a sua bravura com àqueles a quem, pretensa ou realmente, se pautaram pela indisciplina e pela cobardia, apelidando-as depreciativamente, de “tropa magala”, segundo as palavras do autor. Como quer que seja, esta está longe de ser a temática dominante da Literatura sobre a guerra colonial da Guiné. É-a aguda consciência que levava a generalidade dos soldados e geral e os soldados-literatos em particular a compreenderem que aquela guerra não era propriamente sua e o que interessava era cumprir a missão e regressar vivos a Portugal, chegando mesmo algumas as unidades de combate do Exército português a fazerem tudo para evitar recontros violentos com os combatentes do PAIGC, havendo casos em que as mesmas estabeleciam, com estes últimos, acordos tácitos ou explícitos para que não se incomodassem mutuamente, como de resto ilustra um trecho da autoria de Marcos Vidigal:

“(...) De Bissau chegou, via aérea, uma companhia de pára-quedistas desfalca­da, único reforço possível, mas diminuto, tendo em conta as três considera­das necessárias. Seguiram de imediato para reforçar a Companhia de Cancolim, pertencente ao Batalhão de Galomaro, por se considerar que era ali que poderia ser travado o avanço da coluna inimiga.
Passados dois ou três dias, uma força constituída por cerca de cinquenta homens desta Companhia, estava então emboscada em Cansamba Jau, ponto de passagem considerado importante. Era manhã e um soldado afas­tou-se – o corpo tem as suas imposições. Passado algum tempo, regressa ofegante e apavorado.
– Meu alferes, estão ali manga de turras.
– O quê? Tu’ tás é parvo!
– Já lhe disse meu alferes, venha cá ver.


E era verdade. Tranquilamente, dispostos numa clareira, cerca de ses­senta guerrilheiros ouviam as instruções que lhes eram transmitidas pelo seu comandante. O alferes lá foi deslizando sem ser visto, para estudar o terreno e poder decidir como reagir, quando localiza um segundo grupo noutra cla­reira e ainda um terceiro noutra. Que fazer com os seus cinquenta homens, em terreno que não era favorável, perante aquela avalanche? Nunca tinha sentido o medo a entrar-lhe pelos poros com tanta força. Ter medo é natural, é preciso é saber dominá-lo e reagir friamente – tinham-lhe ensinado. Mas decidir o quê? A guerra não é minha. Lerpar aqui para defender o quê? O Spínola que venha cá e combata ele. O raio que o parta, desabafava consigo mesmo. Dirigiu-se ao rádio e pediu reforços para Galomaro, onde não os havia; o comandante de Galomaro pediu para Nova Lamego, onde também não os havia; o comandante, em Nova Lamego, informou o Quartel-General em Bissau da situação e pediu apoio aéreo, que já se sabia não existir. O alferes manteve a cabeça fria e tomou a única decisão possível, reti­rando com a sua tropa para Cancolim, sem ter sido detectado pelas forças inimigas. O coronel comandante era um homem prático e pouco falador. Manti­nha a calma em situações difíceis e às vezes conseguia fazer rir os parceiros com as suas tiradas oportunas e cheias de espírito. (...) Apesar de tudo, também ele sentia o absurdo da guerra, mas era preciso aguentar até ao fim da comissão que ainda estava longe – o último que fe­che a porta! Sabia muito bem que o problema que se vivia ali era de nature­za política e que só por essa via se poderia solucionar, mas não se manifesta­va sobre isso, como é evidente. Pouco dado a gestos heróicos, também não os exigia ou esperava dos seus subordinados. No entanto, tinha de fazer o possível por merecer as estrelas de general e este desaire podia pô-las em causa. Logo no dia seguinte mandou proceder ao reconhecimento do caminho seguido pela coluna inimiga, tendo-se então verificado que ela passara por Cansamba Jau, Cantaúde e Ponte de Anambé, o que significava que as em­boscadas tinham sido previstas correctamente e o contacto não podia deixar de se ter verificado. Só que, efectivamente, a coluna do PAIGC se deslocou até à base de ataque, instalou-se, flagelou Bafatá e continuou o seu caminho até regressar ao território da Guiné-Conakry, sem nunca ter sido incomo­dada.

O comandante deslocou-se a todos os quartéis que tinham tido tropa empenhada na operação. Falou com os comandantes e com os alferes que ti­nham sido encarregados das emboscadas. Não se mostrava admirado e tal­vez estivesse mais aliviado que agastado. Afinal tudo correra bem. Para de­fender as possíveis estrelas de general cumprira a sua obrigação dando a or­dem para as emboscadas. Poderia ter sido o responsável moral por muitas mortes, o que afinal não sucedera. Era melhor não agitar muito o assunto. Foi por isso que, as conversas com os alferes pareciam autênticos diálogos de doidos:
– Então, oh senhor alferes, você montou a emboscada no local que lhe foi determinado?
– Sim senhor, meu comandante. – E estava lá ontem à tarde e à noite?
– Com certeza, meu comandante.
– Não viu a coluna inimiga que foi atacar Bafatá? – Não senhor, meu comandante.
– Mas olhe que eles passaram lá.
– Se passaram não os vi, meu comandante (…)”[35].


Outro autor que retrata de forma concisa esta espécie de desejo colectivo de regressar são e salvos, e que se assoberbou das tropas portugueses na Guiné, foi Gustavo Pimenta que nos diz que “(...) restava a ameaça – talvez a única – mais temida: uma mina anti-pessoal que nos inutilizasse para a vida sonhada. A morte era cenário em que já não se acreditava, mas que, apesar de tudo, nos parecia bem mais preferível do que o de deficiente das forças armadas. Com a comissão quase a findar, o sentido da nossa presença em África revelava-se-nos mais opaco do que fora na hora da partida de Portugal. Cada um de nós assumia quotidianamente um duplo objectivo: honrar a nossa condição de combatentes sem pôr em causa o regresso a casa. Inteiros e a mexer. Ao longo dos meses fôramos adquirindo a consciência de que aqueles que combatíamos e nos combatiam não eram o nosso inimigo. Eram apenas a provável hipótese de um futuro reduzido. Mais do que não sentirmos nosso o que defendíamos, o dilema estava em não sabermos, não entendermos, o que estávamos a defender. Eles minavam os trilhos da aventura de cada nosso patrulhamento, emboscavam-nos, atacavam com armas pesadas o almejado sossego do nosso tempo de repouso. E se nos pergun­távamos porquê, sobrava a única resposta plausível: queriam que nos fossemos embora. Porque não íamos? Aquela terra, aquelas gentes, por mais hospitaleiras que se nos oferecessem, nada nos diziam. Não éramos dali. Fôramos parar à Guiné como, na roleta das mobilizações, poderíamos ter ido parar a qualquer outra colónia. Coubera-nos em rifa o cu do mundo, dizíamos. Porque o cu do mundo, se existe, é sempre o sítio da nossa perplexa angústia. (...) Não desejávamos a morte, nossa ou deles, mas ninguém abdicava do direito à valentia. Cada combate era sempre uma questão pessoal onde se não prescindia do melhor desempenho. É por isso que os portugueses serão sempre bons soldados (...)”[36].

Conclusões

Ao procurarmos esboçar uma panorâmica da literatura de guerra colonial sobre a Guiné, duas constatações se impõe:

(i) a de que do lado português, praticamente desde o início da guerra, começou a ser notório a existência de uma grande actividade literária, sobretudo por parte dos oficiais subalternos, dado não somente a sua formação, que contrasta com a baixa instrução dos soldados em geral, mas igualmente porque as suas funções especificas eram um chamariz relativamente as actividades literárias sobre a guerra. Consoante o estrato social do soldado-literato e a mundividência que essa literatura espelha, influenciado ou não por uma determinada ideologia [37] ou por factores que decorrem de processos e percursos próprios de socialização, a ideografia dessa literatura privilegia, em termos de conteúdo, aspectos tão variados para além dos atinentes à experiência individual ou colectiva.

(ii) Pela sua abundância e papel acrescido que nela tiveram muito ex-combatentes, a literatura de guerra, quer em forma de poesia como de prosa, desdobra-se ainda em simples narrativas descritiva-análitica, apresentando traços de uma profunda observação sociológica do meio circundante, descortinando-se também nela outros géneros literários, tal como o lírico, o bucólico, a realidade ficcionada (a ficção), o romance, o conto, a poesia, a crónica, o teatro, etc. À propósito, diz-nos João Medina que “ (…) a nossa literatura das guerras coloniais do séc. XX, em suma, não tem paralelo com as suas predecessoras nacionais na capacidade estética, narrativa e até moral de mostrar o horrível, o abominável do negrume das trevas da alma humana: ela é, a seu modo, feita por toda uma geração, a nossa incom­parável viagem ao «coração das trevas». O sofrimento, o silêncio e as selvajarias humanas têm ali momentos de incomensurável alti­tude no registo do horrível, no até ali indizível (…)[38].

(iii) Assim, visando chamar a atenção para a importância que essa literatura vem assumindo, quisemos tão-somente inventariar e partilhar, sumariamente que seja, alguma amostra dos poisos temáticos a ela recorrentes, os quais poderíamos resumir numa só palavra: inquietude. Na realidade, a ideia mais generalizada é a de que toda a gente sente medo na guerra e disso faz eco essa literatura: “tremer de medo", "borrar-se de medo", “ficar paralisado pelo medo", "fugir a sete pés", mas também "entrar em pânico", "perder a calma", ou ficar "fora de si", "tensão", "cagaço", "stress", "nervos", consoante os vários vocabulários transpostos para a Literatura de Guerra Colonial da Guiné com bastante frequência, mas que têm na realidade operacional da guerra um sentido literal[39].

(iv) Mas a guerra era também sinónimo de tão dilatada privação do contacto com as mulheres, o isolamento físico sob todas as suas formas, a abominação da dor, da angústia perante a morte, da agonia em combate, com as tripas furadas ou outras mutilações infligidas pelas armas adversárias; corpos esfacelados, mutilados ou agonizantes, feridos e/ou mortes, emboscadas cruéis, violências espantosas, torturas, fuzilamentos e outras infâmias que, curiosamente, não poupa nenhum dos contendores, nem mesmo o lado da barricada do literato-soldado.[40]”.

(v) Outra temática privilegiada, que é quase transversal as obras que lemos, prende-se com uma quase obsessão em explorar literariamente os contrastes culturais ou civilizacionais, a começar pelos hábitos, a moral, “as estranhas e pitorescas tradições dos guineenses”, o “antiquíssimo”, o “ingénuo” modo de ser dos “indíge­nas”; a sua “mentalidade primitiva”, “o seu folclore”, “a sua história oral”, os seus “mistérios religiosos”, a candidez nativa de “raças escravas”, enfim, a descrição desse outro mundo de sombras e imagens que se associa a curiosidade sagaz e à imaginação criadora, em cujas entrelinhas se vai desenvolvendo o enredo da guerra, ou seja, a vida obscura e interminável da epopeia do soldado português na Guiné: admirável de energias empreendedoras e activas, de astúcias felinas, de intrigas burlescas ou trágicas, de situações imprevis­tas, de humor, de simplicidade, de derrotas e triunfos que se arrevesam, para além do tempo vivido numa guerra absurda, atravessada pelo trauma da solidão, o sofrimento pessoal, a derrelicção no meio de uma terra alheia e hostil e o horror físico que os combates em terra estranham engendravam no sentir íntimo dos soldados.

(vi) Por toda essa carga de enorme tédio e privações, há também na literatura de guerra colonial laivos de desprezo por uma burocracia injusta que nunca reconheceu e que tende a não reconhecer o papel desempenhado pelo soldado em nome da pátria, pelo que não escapam à fúria dos soldados-literatos nem os “comandantes de ar-condicionado, nem as estruturas e entidades do aparelho de Estado. A linha de demarcação é sempre acentuada pelos soldados-literatos, como se de duas concepções antagónicas se tratassem – a da experiência vivida na carne, que encontrou o seu tropo na ferida da guerra, e o código oficial da burocracia – sempre em diálogo de surdos, pois representam dois níveis diferentes de registo. É esse realismo extremo que faz com que a Literatura de Guerra Colonial testemunhe, com singular gravidade, o que é viver e morrer na guerra contra “os outros” e até contra si próprio.

(vii) Apesar de em certo sentido a literatura de guerra colonial sobre a Guiné comportar esforços louváveis para dar vida a um momento passado e exaltante e assim apropriar-se desse mesmo passado, deve-se olhar com reservas para a possibilidade de a mesma ser usada como fonte histórica, na medida em que é preciso sempre ter em linha de conta de que ela não foge propriamente à natureza do mito, uma vez que é o resultado de uma categorização que visa compreender e explicar uma realidade complexa pela via das reanimações das categorias conceptuais com que se tenta interpretar uma guerra mutante e sulcada por múltiplas variantes, entre as quais, a das estruturas mentais, do qual dimana, por seu turno, o quadro ideológico que a subjaz.

(viii) Contudo, pela sua qualidade estética e conteudístico, a Literatura de guerra colonial tem vindo a conquistar aos poucos um estatuto próprio no panorama literário português, contribuindo para isso o facto de comportar - para lá de mera descritiva da experiência militar vivida - uma profunda observação sociológica da envolvente antropológica e ontológica, numa inextricável mescla em que o exotismo e o eivado realismo se confundem com mitos que, amiúde, roçam os limites do paroxismo[41].


Julho de 2008

Leopoldo Amado

_________

Notas do autor

[1] Armor Pires Mota é empresário, escritor e jornalista. Nasceu em Águas Boas (Oiã) em 4 de Setembro de 1939: Frequentou o seminário em Aveiro onde cursou Teologia. Exerce desde há uns a esta parte as funções de Director do Jornal da Bairrada.

[Nota de vb: vd. no nosso blogue os seguintes postes:

29 de Julho de 2008 > Guiné 63/74 - P3100: Bibliografia de uma guerra (29): Romance de Armor Pires Mota: A Cubana que dançava flamenco (Virgínio Briote)


5 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2916: Recortes de Imprensa (5): Armor Pires Mota lança novo romance de temática guineense, A Cubana que Dançava Flamenco ]

[2] Baga-Baga, nome por se designa as térmitas no crioulo da Guiné-Bissau. Porém, também serve para designar os montes de areia que as térmitas pacientemente constroem, chegando as mesmas a atingir dois a três metros de comprimento.

[3] Expressão por que designa no crioulo da Guiné-Bissau o mangal, arbusto marinho que abundam nas bordas dos imensos rios e riachos na Guiné-Bissau.

[4] Mota, Armor Pires, Guiné – Sol e Sangue, Editora Pax, Braga, 1968, p. 62.

[5] Mota, Armor Pires, Guiné – Sol e Sangue, Editora Pax, , Braga, 1968, p. 62.

[6] Ribeiro, Margarida Calafate, Uma História de Regressos: Império, Guerra Colonial e Pós-Colonialismo, site http://www.ces.fe.uc.pt/publicacoes/oficina/188/188.pdf, Centro de Estudos Sociais, p. 29.

[7] Mota, Armor Pires, Guiné – Sol e Sangue, Editora Pax, Braga, 1968, p. 23.

[8] Curiosamente, Amândio César, contemporâneo e amigo de Armor Pires Mota e, em certo sentido seu tutor ideológico, usava amiúde a expressão “terrorista” quando se referia as populações e aos guerrilheiros que estavam do lado do PAIGC, associando-os normalmente aos que foram alvo fácil da “cabala de Amílcar Cabral e do comunismo”.

[9] José Martins Garcia foi oficial de transmissões na Guiné em 1967. Esteve depois em França e Estados Unidos, acabando por voltar aos Açores; é doutorado em Letras com uma tese sobre Fernando Pessoa. Este currículo sobressai na linguagem da sua obra, muito trabalhada, que funde um discurso erudito com o calão mais directo.

[Nota de vb: vd. no nosso blogue o poste de 27 de Maio de 2008 > Guiné 63/74 - P2889: A verdade e a ficção (1): Op Tridente, Ilha do Como, Jan / Mar 1964 (Mário Dias) ]

[10] Garcia, José Martins, O Lugar de Massacre, Circulo de Leitores 1996. A primeira edição, com a chancela das Edições Salamandra data de 1975.

[11] Ribeiro, Margarida Calafate, Op.Cit., p. 27.

[12] Garcia, José Martins, O Lugar de Massacre, Circulo de Leitores 1996, p. 182

[13] Garcia, José Martins, O Lugar de Massacre, Círculo de Leitores, 1996, p.165.

[14] Medina, João, As guerras coloniais em África, Escrita Vária, Sintra, 1998, n.º 5, p. 29

[15] Garcia, José Martins, O Lugar de Massacre, Círculo de Leitores, 1996, p.104

[16] Ribeiro, Margarida Calafate, Uma História de Regressos: Império, Guerra Colonial e Pós-Colonialismo, site http://www.ces.fe.uc.pt/publicacoes/oficina/188/188.pdf , Centro de Estudos Sociais, p. 28.

[17] Pimenta, Gustavo, SaiòmeM – Guerra Colonial, Palimada Editores, 200, pp. 68-70.

[18] Lopes, Daniel Alexandre Seabra, Dissertação de tese mestrado sobre “Ex-combatentes da Guerra Colonial: Experiências e Identidades (Ensaio sobre a construção de um objecto antropológico, ISCTE, 1988, passim.

[19] Maia, Salgueiro, O Acaso, In Capitão de Abril – Memórias da guerra do Ultramar e do 25 de Abril, Editorial Notícias, pp. 56 e 57.

[20] Santos, Beja, Fotografias a Preto e Branco, In Memórias da Guerra Colonial, (Cruz de Guerra), Andrómeda Publicações, 1984, p. 91.

[21] Mota, Armor Pires, Tarrafo, Editora Pax, Braga, 1970, p.30.

[22] Pinheiro, Fernando V., A tragédia desceu do Espaço, In Memórias da Guerra Colonial, (Cruz de Guerra), Andrómeda Publicações, 1984, pp.56-579.

[23] Mota, Armor Pires, Guiné – Sol e Sangue, Editora Pax, , Braga, 1968, p. 28

[24] “Badjuda” ou “Bajudas” são expressões no crioulo da Guiné-Bissau para designar raparigas.

[25] Vidigal, Marcos, As clareiras das emboscadas, In Memórias da Guerra Colonial, (Cruz de Guerra), Andrómeda Publicações, 1984, pp.116-119.

[26] Gouveia, Daniel, Arcanjos e bons demónios : crónicas da guerra de África, Hugin, 2a edição, Lisboa, 2002, p.86.

[27] Citado por Azevedo Rui, A guerra Colonial, Romance Português, Editorial Notícias, 2ª edição, 1998.

[28] Mota, Armor Pires, Guiné – Sol e Sangue, Editora Pax, Braga, 1968, p. 20

[29] Pimenta, Gustavo, SaiòmeM- Guerra Colonial, Op. cit., p. 92-94.

[30] Maia, Salgueiro, Capitão de Abril – Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril – Depoimentos, Editorial Notícias, Lisboa, 1994, pp. 61 e 12.

[31] Santos, Beja, Fotografias a Preto e Branco, In Memórias da Guerra Colonial, (Cruz de Guerra), Andrómeda Publicações, 1984, p.90.

[32] Pinheiro, Fernando V., A tragédia desceu do Espaço, In Memórias da Guerra Colonial, (Cruz de Guerra), Andrómeda Publicações, 1984, pp.55-56.

[33] Ferreira, Rui Alexandrino, Rumo a Fulacunda, Palimage Editores, 2000, p.18.

[34] Calvão, Guilherme Almor de Alpoim e Pereira, Sérgio A., Contos de Guerra, 1ª edição, Lisboa, 1994.


[35] Vidigal, Marcos, In Memórias da Guerra Colonial, As clareiras da emboscada, (Cruz de Guerra), Andrómeda Publicações, 1984, pp.120-121.


[36] Pimenta, Gustavo, SaiòmeM - Guerra Colonial, Palimada Editores, 200, p. 16-17.

[37] Segundo João Medina, “(...) crescimento das universidades, bem como um maior acesso de estratos médios da população ao ensino superior e às academias militares, que se vão tornar pólos de oposição formados por jovens com mais cultura, influenciados pelas mudanças desta década, cristalizadas em acontecimentos como o Maio de 68 ou a guerra do Vietname. As Forças Armadas vão recorrer a um grande número destes jovens, muitos deles atraídos por ideologias de esquerda, e isso vai-se refletir na composição e na mentalidade dos combatentes em África(...)”.


[38] Medina, João, As guerras coloniais em África, Escrita Vária, Sintra, 1998, n.º 5, pp.. 44-45.

[39] Lopes, Daniel Alexandre Seabra, Dissertação de tese mestrado sobre “Ex-combatentes da Guerra Colonial: Experiências e Identidades (Ensaio sobre a construção de um objecto antropológico, ISCTE, 1988, passim.

[40] Medina, João, As guerras coloniais em África, Escrita Vária, Sintra, 1998, n.º 5, p. 40-41

[41] cf. Amado, Leopoldo, Literatura Colonial Portuguesa, Soronda, n.º 9, INEP, Bissau, pp. 77 e ss.
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Notas de vb:

(*) Leopoldo Amado, Doutor em História Contemporânea pela Universidade Clássica de Lisboa (Faculdade Letras de Lisboa), sob a temática “Guerra Colonial da Guiné versus Luta de libertação Nacional (1961 – 1974); membro da nossa tertúlia; edito do blogue Lamparam II.

Sobre o Leopoldo Amado, vd. ainda os seguintes postes:

7 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CLXXIX: Leopoldo Amado, guinense, historiador, novo membro da nossa tertúlia

24 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1782: O nosso doutorando Leopoldo Amado vai ter o seu 'baptismo de fogo' no próximo dia 28, na Universidade de Lisboa (Luís Graça)

24 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1783: Tese de doutoramento de Leopoldo Amado: Guerra colonial 'versus' guerra de libertação (João Tunes)

29 de Maio de 2007 > Guiné 63/74 - P1794: Blogoterapia (21): Falar da guerra, com pudor... e com alegria do novo Doutor, Leopoldo Amado (Luís Graça)

(**) A época das chuvas tinha início em meados de Maio (nota do editor).