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sexta-feira, 29 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28058: Efemérides (393): Há 57 anos, a 24 de maio de 1969, partiu o T/T Niassa para o CTIG - Parte IV: "E tudo o vento levou"... Os navios de transporte de tropas


A caminho da Guiné > A bordo do Niassa > c. 24-29 de maio de 1969 > Quadros metropolitanos da CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12), na viagem de Lisboa-Bissau. Da esquerda para a direita: 2º sargento Alberto Videira (já falecido), furriéis milicianos António Branquinho (já falecido), Tony Levezinho, Humberto Reis, Joaquim Fernandes, eu (Graça Henriques) e Luciano Almeida (já falecido). Na mesa de trás, ao fundo, receonhece-se, à ponta, do lado esquerdo, o  João Martins, o nosso "pastilhas" (fur mil enf).

Foto: Arquivo Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Foi há 57 anos que embarquei para a Guiné no T/T Niassa,  regressaria 22 meses depois no T/T Uíge (*). 

Hoje, olhando para trás, impressiona a dimensão logística e humana daquele esforço militar que o nosso país fez. Entre partidas e regressos, milhares de portugueses cruzaram o Atlântico e o Índico em navios que ficaram para sempre associados à memória da Guerra do Ultramar / Guerra Colonial  

Para muitos antigos combatentes, recordar o Niassa, o Uíge ou o Vera Cruz é recordar uma etapa decisiva da sua juventude, feita de camaradagem, incerteza, medo, distância e saudade. (E já não falo das "viagens de retorno" de centenas de milhares de portugueses, vítimas da descolonização, em 1974 e 1975.)

Recorde-se aqui a "epopeia" do transporte marítimo (e depois aéreo) de tropas para o Ultramar, a pretexto de mais uma efeméride.

Em finais dos anos 50, depois de investimentos públicos de grande envergadura, a marinha mercante portuguesa tinha atingido o seu desenvolvimento máximo. Éramos uma "potência marítima",  com uma frota de 22 paquetes, somando no total de 167 000 toneladas. (Sem esquecer a frota pesqueira, e nomeadamente a "frota branca", que  ia á pesca do bacalhau na Terra Nova e na Gronelândia.)

Na marinha mercante  destacavam-se   quatro gigantes, Santa Maria, Vera Cruz, Príncipe Perfeito e Infante D. Henrique:
  • com cerca de 30 000 toneladas cada um;
  • sendo capazes de transportar mais  de 1000 passageiros ou mais de 2000 soldados.

Quase todos estes paquetes foram requisitados em diversas ocasiões para transporte de tropas, muito especialmente na fase inicial da guerra. De resto, todas as unidades da marinha mercante seriam essenciais para manter o esforço de guerra em África.  Entre os  mais requisitados na ligação a África  destaca-se  o Vera Cruz, o Niassa, o Lima, o Império e o Uíge.

O Niassa foi o primeiro paquete fretado como transporte de tropas e de material de guerra, por portaria de 4 de Março de 1961. O Vera Cruz, por sua vez, seria aquele  a fazer mais viagens, chegando a realizar 13 num ano:

  • em 1961, efectuaram-se 19 travessias por nove paquetes em missão militar;
  • o ritmo aumentou à medida que a força expedicionária em África crescia;
  • em 1963, tinham-se efectuado 27 viagens por oito paquetes;
  • e, em 1967, 33 por nove. 
  • até 1974, o mar foi grande via de ligação ao império, tendo mais de 90 por cento da carga e de 80 por cento do pessoal metropolitano empenhado na guerra sido transportado em navios

 Fonte: Adapt de Centro de Documentação 25 de Abril, com a devida vénia.

 2. Recorramos, mais uma vez,  ao nosso "enciclopédico" Pedro Marquês de Sousa, autor de "Os números da Guerra de África" (Lisboa, Guerra & Paz Editores, 2021, pp. 306 e ss.), que tem informação preciosa sobre esta matéria no seu capítulo IV (As despesas da guerra).

Escreveu ele: "Estes três navios que asseguraram 75% das viagens de ligação de Lisboa para África realizaram 146 viagens para Angola, 50 para a Guiné e 30 para Moçambique" (pag. 306). 

Analisando o período entre 1965 e 1970 (seis anos), o autor apurou que o número médio anual de viagens foi 18, 8 e 5, para Angola, Guiné e Moçambique, respetivamente (pág. 307).  

Por sua vez, a média de militares transportados (ida e volta), por ano foi a 70 mil: mínimo, 54 mil em 1966, máximo, 74,9 mil em 1969.

Discriminam-se a seguir os navios que transportaram tropas entre 1961 e 1975, por ordem decrescente do nº de viagens. O destaque vai para o Vera Cruz, o Niassa, o Uíge e o Ana Mafalda, com mais de duas dezenas de viagens:

  • Vera Cruz: 85;
  • Niassa: 66;
  • Uíge: 47; 
  • Ana Mafalda: 22;
  • Índia: 13;
  • Cuanza: 11;
  • Império: 9;
  • Pátria:7;
  • Carvalho Araújo: 5;
Total=265.

Estes nove  seriam os principais navios afetos ao transporte de tropas... Mas o autor fala num frota de 15... Há outros que fizeram também viagens, mas esporádicas: 

  • Arraiolos (em 1961, para Angola, e depois em 1974, para a Guiné); 
  • Sofala (em 1963, para a Guiné);
  • Timor: 2 viagens para a Guiné em 1967;  outra, em 1969, para a Guiné; em 1970, para Angola; em 1971, outra para Angola e Moçambique,

Mas há mais: 

  • em 1974, os navios Bragança, Cabo Bojador e Alcobaça, fizeram uma viagem para a Guiné; 
  • e em 1975 realizaram uma viagem a Angola e Moçambique os navios Lendas, Beiras, Amarante,  Infante D. Henrique, e o Serpa Pinto;
  • e ainda em 1975, mas só para Angola, viajaram o Papacostas, o Panarrange (duas viagens), o Lobito, o Novo Redondo e o Leixões (pág. 309), nomes de navios de que nunca tínhamos ouvido falar...

Mas, no caso de transportes de tropa para a Guiné (e da Guiné), há omissões: 

  • não são referidos o N/M Angra do Heroísmo, o N/M Rita Maria e o N/M Alenquer; 
  • o N/M Lima não sabemos se alguma vez foi à Guiné; 
  • mas há ainda o N/M Alfredo da Silva (que viajava para a Guiné, era da SG / CUF);
  • e, se calhar outros,  que não nos vêm à memória.

Vejam-se aqui as referências todas que temos no nosso blogue aos navios a motor (N/M) (às vezes designados por T/T no texto), por ordem decrescente de referências:


Segundo a fonte que  temos vindo a citar (Sousa, 2021, pág. 309),  o Uíge (com lotação de 571 passageiros e 139 tripulantes)  fez mais viagens (28) para a Guiné do que o Niassa (22). 

O Ana Mafalda também fez muitas viagens para a Guiné, "sobrelotado com unidades dos Açores e da Madeira, chegando a levar duas companhia (cerca de 300 homens), apesar de a sua lotação ser apenas de 52 passageiros e 47 tripulantes".

O N/M Funchal nunca transportou tropas que eu saiba, era um navio de cruzeiro... Transportou, sim, em fevereiro de 1968,  o presidente da República, Américo Tomás, e sua comitiva na visita  à Guiné, ainda no tempo do gen Arnaldo Schulz. Daí ter uma referência no nosso blogue.

3. Nunca, ao longo da nossa história secular, recrutámos, mobilizámos e transportámos tantos combatentes, para teatros de operações,  distantes, em milhares de quilómetros, em África, como durante o período de 1961/75. 

Basta recordar que nos três teatros de operações (Angola, Guiné e Moçambique) estiveram empenhados cerca de 800 mil militares portugueses: cerca de 70% provenientes da metrópole, e sendo os restantes do recrutamento local (pág. 199).

Nessa época Portugal tinha uma belíssima  frota da marinha mercante, à qual podia requisitar navios para transporte de tropas, material de guerra, víveres e outros meios logísticos. 

Em 1971, o país aumentaria a sua capacidade de transporte por via áerea, com a aquisição de dois aviões Boeing 707, por parte dos TAM - Transportes Aéreos Militares. Começaram a operar na ligação Lisboa-Luanda, trajeto que faziam em 10 horas (enquanto o Vera Cruz demorava 10 dias). 

É bom recordar aqui a demora média das viagens  para os três teatros de operações, por via marítima:  
  • 9/10 dias, Lisboa-Luanda;
  • 5/6 dias, Lisboa-Bissau; 
  • 19/22 dias, Lisboa-Moçambique (dependendo do porto de desembarque).
(Continua)
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