Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Ramalho Eanes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ramalho Eanes. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27961: O PIFAS, de saudosa memória (21): O Programa das Forças Armadas ganha maior visibilidade com Otelo e Ramalho Eanes, na Rep ACAP: recordações dos radialistas Garcês Costa e Silvério Dias (1934-2026)


Foto 1 > Guiné > Bissau > Amura > QG / CCFAG > Rep ACAP (Assuntos Civis e Acção Psicológica) > 1971 > Uma foto histórica: o  major Ramalho Eanes, de óculos de sol  (Diretor da Secção de Radiodifusão e Imprensa), à ponta esquerda; o ten cor Lemos Pires (chefe da repartição), na ponta direita;  o alf mil Ernestino Caniço está ao centro, na terceira fila.

O Ernestino Caniço acrescentou ainda os seguintes nomes à legenda (embora "orrendo o risco de me falhar a memória"):
  • alf Alberti (penso que de Abrantes) - 1ª fila à dtª (à esqº na foto) do ten cor Lemos Pires;
  • alf Janeiro, licenciado em Geografia - 2ª fila à esqª (à dtª na foto) do major Eanes;
  • alf Arlindo Carvalho, 2ª fila, à minha esqª (à dtª na foto);
  • alf Fidalgo, 3ª fila, 3º ao fundo da dtª para a esqª.

Foto (e legenda): © Ernestino Caniço (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 


Foto nº 2 > Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas > c. 1970/72 >  Da esquerda para a direita: Silvério Dias, José Camacho Costa  e Garcez Costa


Foto nº 3 > Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas > c. 1970/72 > "No dia da minha estreia aos microfones, fardado a rigor, como quase sempre era obrigatório".


Foto nº 4 > Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas > c. 1970/72 >  "Garcez Costa a  ler 'a bíblia'e o João Paulo Diniz à espera qu'eu lhe passe 'a bola' "


Foto nº 5 > Lisboa > Páteo Alfacinha > 31 de maio de 1985 > Jantar de convívio do pessoal do emissor regional da Guiné e Programa das Forças Armadas. Foto do álbum do Garcès Costa

Legenda: "Passados anos ainda reconheço algumas personalidades, uns fizeram parte da minha convivência, e outros não identifico, porque não houve o cuidado, na altura, de proceder à legenda da foto.

Em cima: (i) Jerónimo (o nosso incansável dactilógrafo – não tinha horário de entrada e nunca se sabia a que horas saía de serviço);

(ii) Ramalho Eanes (incentivou-me a ter gosto pela música clássica);

(iii) Maria Eugénia (a nossa "mãezinha" e a célebre "senhora tenente");

(ii) Silvério Dias (está encoberto o "paizinho" de todos nós, que era então, no meu tempo, 1º sargento);

(iv) Dias Pinto (estava no mato, quando vinha a Bissau, colaborava nos noticários);

(v) Raul Durão (o 1º locutor do PFA);

(vi) José Manuel Barroso;

(vii) João Paulo Diniz (um companheiro fraterno que me ajudou a soltar a voz sem medos)...

Em baixo: (viii) Mário Feio; (ix) Júlio Montenegro (ensinou que a palavra é o corpo da rádio); (x) Faride Magide (técnico do Emissor Regional e bom amigo a par do locutor Lopes Pereira que nunca mais ninguém ouviu falar dele); (xi) José Avelino; (xii) José Camacho Costa (a nossa amizade estendeu-se desde a adolescência no Colégio Nun'Álvares em Tomar até aos seus últimos dias de vida); (xiii) eu (Garcez Costa),   o último da direita."
 
Fotos (e legendas): © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1.   Em 4 de abril de 1968, fez agora 58 anos, o nosso recém-falecido camarada Silvério Pires Dias  começava a trabalhar,   como "radialista", aos microfones do PFA - Programa das Forças Armadas, da Rep ACAP / QG / CCFAG, conhecido mais popularmente por PIFAS. Na altura ainda estava ao serviço da CART 1802 (Nova Sintra, 1967/69). 

Nessa data (se o "nosso primeiro" não se enganpou, eu acho que deve 4/4/1949), ainda era governador e comandante-chefe o general Arnaldo Schulz. Isto quer dizer que o PFA já existia (desde 1967), não foi uma criação do António Spínola. É, no entanto, com o novo governador e com-chefe, que a Rep ACAP ganha mais visibilidade, recursos (humanos, técnicos, logísticos) e importância. 

Eis o que já escreveu um dos seus radialistas, o Garcês Costa (de seu nome completo António Manuel Garcez da Costa , que cumpriu o serviço militar entre fevereiro de 1970 e 72, tendo sido substituído no final da comissão pelo Armando Carvalhêda no PIFAS:

(...) O PFA  - Programa das Forças Armadas tinha instalações na Avenida Arnaldo Schultz, onde funcionava o Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné, sob a tutela do Estado Maior do Exército, com uma tafefa específica a que se chamava Acção Psicológica. 

Daí a intenção da criação por volta de 1967, e cujo primeiro locutor foi Raul Durão, do célebre mais tarde conhecido Pifas, com o fim de transmitir emissões de animação cultural e-musical junto da própria população civil e dos militares aquartelados em toda a região da Guiné Portuguesa. 

Já agora o último a fechar as portas, em 1974, foi José Manuel Barroso, sobrinho do casal Mário Soares/Maria Barroso.

As 3 emissões diárias (12:00-13:00; 18:00-19:00; 23:00-24:00) eram radiodifundidas através do Emissor Regional da Guiné. 

Nos quadros desta estação, enquanto militares, passaram, por exemplo, os compositores Rui Malhoa e Nuno Nazareth Fernandes, e o açoriano António Lourenço de Melo,  da atual RDP-Antena 1 (...)

 Ainda sobre a história do programa radiofónico das Forças Armadas na Guiné, diz o Garcês Costa: 

(...) Após a intervenção logística dos Chefes da Repartição Otelo e depois [Ramalho] Eanes, esses seus empenhos não só contribuíram para a remodelação de todo o equipamento técnico dos estúdios de gravação e directos, como foi o período em que se projectou como mais recursos humanos a área de Rádio e Imprensa.

(...) Daí que foi uma mais valia, tipo 2 em 1, a conjugação de projectos dos jornalistas José Camacho Costa e Júlio Montenegro com o radialistas Silvério Dias, Garcez Costa, João Paulo Diniz, que foi admitido para render Carlos Macareno;

(...) De realçar, entretanto, o nosso Chefe de Núcleo, Arlindo de Carvalho, hoje figura pública político-partidária;  

(...) Outro Carvalho foi o António (Tony),  carinhosamente tratado por engenheiro de som e do discotecário Carlos Castro;

(v) E,  claro,  a nossa "senhora tenente",  esposa do nosso primeiro,  que emprestava graciosamente a sua colaboração administrativa e radiofónica;

(vi) Haverá outros nomes aqui em esquecimento mas que seja perdoado por isso.
 
Prometo, entretanto, reformular as gravações em fita magnética, a partir do meu velho gravador de bobines, passando-as aqui para o computador para efeitos de mistura, bem como procurar uma foto do Jantar de Convívio no Pátio Alfacinha em meados dos anos 80.

Junto em anexo algumas fotos pifanianas (...)



2. Do blogue do Silvério Dias, "Poeta Todos os Dias" (que vai de janeiro de 2011 a novembro de 2023) selecionámos alguns postes com referências à sua experiência e memórias da rádio:
 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014 > QUADRA DO DIA

O "Mundial da Rádio"
Se celebra neste dia.
Vivi momentos de gáudio,
Quando a Rádio servia.


"Pifas", o boneco que ajudou a popularizar
 o PFA - Programa das Forças Armadas

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018 
DEFERÊNCIAS

Amigos bem intencionados,
Um de Proença outro de Sacavém,
Atribuem-me uns predicados
Que,  por verdade, aceito bem:

Para um, sou "Homem-Palavra",
Já o outro diz ser "A Voz",
A distinguir esta pessoa falada,
Sem nenhum contra e alguns prós!

Referência às cordas vocais
De que disponho e bem.
Na Rádio, fui um dos tais ...
Já na oratória, como convém!

Fica dada a explicação.
Aos amigos, Marçal e Garcez,
um bem-haja, a "vocemecês"!


26 de fevereiro de 2018 > GRACEJO

Amigos que tive na Guiné
diziam, "depois do Caco Baldé,
és o mais famoso em Bissau".
Porque minha voz na Rádio local,
lhes soava menos mal ...
O comentário, nem era mau!

quarta-feira, 4 de abril de 2018 > OLÁ, SOU O "PIFAS"

Equipado, bem a rigor,
Apresento-me, sou o "Pifas"!
"Armado" de micro e gravador,
Alguém me disse, "bem ficas".

Tive uma nobre missão,
"Dar música" à rapaziada
Que, vivendo sob pressão,
Sentia uma saudade danada!

"Sempre ao vosso lado",
Um dos lemas que criei,
E nunca estive acomodado.
Tantos sectores visitei ...

Por estradas de lama e pó, ...
No "Unimog saltitão",
Pelos rios, em LDMs, não só,
No ares, "Alouette, "Dornier", o avião ...

Fui a todas, a muitos lados,
Sempre de peito feito
E aos camaradas soldados
Dei apoio, bem ao meu jeito!

Guardo imensas recordações.
Tantas, nem ouso contar...
Como prova, os vossos guiões
Que me quiseram ofertar.

Voluntário, prolonguei comissão
Até ao fim, em permanência,
E, quando terminei a missão,
A Guiné ganhou independência.

Hoje, passados cinquenta anos,
Revivo momentos e esqueço danos.
Com alguns de vós a meu lado,
Me sinto muito honrado!

Silvério Pires Dias
Ao tempo, 1.º Sargento de Art

sábado, 13 de fevereiro de 2021 > DIA MUNDIAL DA RÁDIO

A Rádio celebra o seu dia.
Quantos dias a servi
Naquela Rádio que se fazia?
Que bons momentos vivi ...

"Pifas", o símbolo criado
Para lhe dar evidência.
A alma, bem a seu lado, 
Era já de excelência!

Aos "Pifanianos da Guiné"
Vos desejamos muita Fé!
Recordando "aqueles dias", 
Tão cheios de agonias ...

Estive sempre convosco,
No Bem e no Desgosto!


13 de fevereiro de 2023 > DIA MUNDIAL DA RÁDIO

Ao tempo, fui radialista,
Função de que muito gostei.
Minha voz ainda regista
O tom, de quando comecei.

Órgão que prevalece, 
Mesmo a quem envelhece.



sexta-feira, 25 de agosto de 2023 > RECORDAR O P.FA.


Meio século já passou
Mas a recordação ficou,
A marcar uma saudade.
PFA foi um programa
Que na Rádio criou fama,
Com indiscutível verdade.

Pelo "Pifas", simbolizado,
Esteve sempre "ao vosso lado", 
Na tal guerra da Guiné.
Seus viventes seguidores,
Hoje já velhos senhores, 
Querem provar que assim é.

E reunem, no "Pátio Alfacinha".
Satisfação deles e minha!
A 9 de Setembro, a partir das 12H30.



sexta-feira, 8 de setembro de 2023 > AMANHÃ ACONTECERÁ

Um almoço/convívio do "Pifas".
Cerca de meio século passado,
Partilharemos as "tricas"
Que o tornaram afamado.

Será no "Pátio Alfacinha"
Que tem uma boa cozinha.

domingo, 10 de setembro de 2023 > ACONTECEU

Como tínhamos previsto,
Nos reunimos com gosto
E que bom tê-los visto,
Camaradas em antigo posto!

O "Pifas" foi recordado
Em momento contagiante,
Mas também chorado
Pelos que foram... adiante.

De vós que dizer, "meu" General?
Que gratificante. Sempre igual!


domingo, 17 de setembro de 2023 > REVIVER O "PIFAS"

Decerto nos orgulhamos
Considerar-nos "pifanianos",
Termo que por nós criado,
Justificando causa nobre.
Vaidade não nos sobre,
Ainda hoje é recordado.

Relacionado com Programa
Que na Rádio ganhou fama
Como sendo das Forças Armadas.
Nasceu e viveu na Guiné,
Quando em "tratos de polé",
Lutavam as nossas rapaziadas.

Tive ideia, e dela me gabo,
Criar um boneco/soldado
Como símbolo original.
Dado nome, o "Pifas" nasceu
E, de tal forma, "cresceu"...
Criando agrado geral.

Muitos anos passaram
E os tempos, esses, mudaram.
Independência da Guiné,
O "Pifas" passou à reforma,
Mas sempre em boa forma
Nos manteve na boa fé.

Um reencontro programado
Por interesse demonstrado,
Levou-nos a celebrar almoço.
Até o General Eanes, connosco,
Por sinal, bem disposto...
A foto exposta é bom esboço!

Referências,
Ao ex-alferes Jorge Varanda, "senhor" do evento ;
A todos os que marcaram presença;
Grande a saudade dos ausentes, tantos, infelizmente!

___________

domingo, 26 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27954: O PIFAS, de saudosa memória (20): relembrando aqui o "senhor primeiro" Silvério Dias e a "senhora tenente" Maria Eugénia, figuras carismáticas do programa radiofónico das Forças Armadas (Rep ACAP / QG / CCFAG, 1969/74)


A mascote do Programa [de Informação] das Forças Armadas (PIFAS), da responsabilidade da Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica (Rep ACAP / QG / CCFAG). A mascote do PIFAS... tem pai(s): segundo informação do João Paulo Dinis, um dos locutores do programa em 1970/72, o pai da "ideia" foi o fur mil Jorge Pinto, que trabalhava no QG, ideia a que depois deu corpo um outro camarada, o José Avelino Almeida, cuja companhia estava em Mampatá e Aldeia Formosa...

Imagem cedida pelo nosso camarada Miguel Pessoa, cor pilav ref (ex-ten pilav, Bissalanca, BA 12, 1972/74).



Alguns de nós lembram-se do filme, "Good Morninbg, Vietanm"  (EUA, 1981, 121 m, a cores) (em portuguès, "Bom Dia, Vietname).  (Cartaz: cortesia da Wikipedia)

Sinopse: 

Em 1965, o DJ Adrian Cronauer, protagonizado pelo grande ator cómico  Robin Williams (1951-2014), é recrutado para dirigir o programa de rádio das forças armadas norte-americanass  no Vietname. 

Irreverente, ele agrada aos soldados, mas enfurece Steven Hauk, um segundo-tenente e superior imediato de Cronauer, que tinha uma necessidade enorme de provar que era o "patráo". Movido pela inveja e ciumeira, ele tenta lixar o Cronauer, mas a sua popularidade é tal que é protegido pelos altos escalões.


 Guiné > Bissau > PFA (Programa das Forças Armadas), o popular Pifas > c. junho de 1971 > Noite 7 (Emissão especial aos sábados).

Na foto, o 1º cabo José Camacho Costa e o 1º srgt Silvério Dias. Reconhecem-se do na gravação, excertos musicais de Carlos do Carmo, José Mário Branco, Beatles e outros... Faz-se referência á chegada do homem à lua, à guerra no Laos e no Camboja, e dá-se a notícia da flagelação, à cidade de Bissau, com foguetões 122 mm de origem russa (em 9 de junho de 1971)... O Pifas era considerado mais "liberal" do que a EN - Emissora Nacional, a "voz do regime".

[Ouvir aqui o compacto aúdio, de Garcez Costa, antigo locutor.  Vídeo (6' 31''): Alojado em You Tube > Nhabijoes ]

Foto (e ficheiro áudio): © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Silvério Dias, que acaba de falecer (*), soube aproveitar o talento de jovens radialistas (militares) (como o  José Camacho Costa, o Dias Pinto, o Garcês Costa, o João Paulo Dinis, o Armando Carvalhêda, etc.), era o "senhor Pifas", por antonomásia (**). 

A sua bela e potente voz era conhecida por toda a gente, pela tropa (em Bissau e no mato) bem como pela população civil. O programa era o nosso "Good Morning, Vietnam!", salvaguardadas algumas diferenças substanciais e o contexto.

Silvério Pires Dias (Vila Velha de Ródão, 1934 - Oeiras, 2026) esteve à frente do programa de rádio das Forças Armadas Portuguesas (PFA ou PIFAS, como era conhecido popularmente, Bissau, Rep ACAP /QG /CCFAG, de 1969 a 1974).

Trabalhou com "capitães de Abril" como Ramalho Eanes e Otelo Saraiva de Carvalho, depois de ter feito  em 1967/69 uma comissão de serviço  na CART 1802 (Nova Sintra, 1967/69). Veja-se aqui a ficha de unidade.


2. Ficha de unidade > Companhia de Artilharia n.º 1802

Identificação: CArt 1802
Unidade Mob: RAL 3 - Évora
Cmdt: Cap Mil Art António Nunes Augusto | Cap Art Luís Fernando Machado de Sousa Vicente  | Cap Mil Art Emílio Moreira Franco
Divisa: "Honra e Glória"
Partida: Embarque em 280ut67; desembarque em 02Nov67 | Regresso: Embarque em 23Ag069.

Síntese da Actividade Operacional

Em 03Nov67, seguiu para Farim a fim de efectuar a instrução de adaptação operacional sob orientação do BCaç 1887 e, seguidamente, reforçar temporariamente, este batalhão numa série de operações realizadas no sector respectivo.

Em 10Dez67, recolheu a Bissau, a fim de integrar as forças de intervenção e reserva à disposição do Comando-Chefe, tendo tomado parte em diversas operações em reforço de vários batalhões, nomeadamente na região de Ponta do Inglês, na operação "Grão-Duque", em reforço do BCaç 1888 e na região de Choquemone, nas operações "Bolo Rei" e "Buzinar Novo", em reforço do BCav 1915, entre outras.

Em 11Jan68, foi deslocada para S. João, onde substituíu um pelotão da CCaç 1566 e desenvolveu a actividade de reconhecimentos, patrulhamento e batidas na área e abertura e limpeza de itinerários, com vista à criação do subsector de Nova Sintra na zona de acção do BArt 1914. 

Em 06Mai68, assumiu então a responsabilidade deste novo subsector de Nova Sintra, com um pelotão destacado em S. João.

Em 030ut68, foi substituída, por fracções, pela CCav 2484, seguindo para Bissau, a fim de colmatar anterior saída do CArt 1689 no dispositivo do BCaç 1911 e colaborar na segurança e protecção das instalações e das populações da área.

Em 12Mar69, iniciou o deslocamento por pelotões para os destacamentos de Pelundo e ilha de Jete, tendo em 18Mai69 substituído, totalmente, por troca, a CCaç 1683, como força de intervenção e reserva do sector do BCaç 2845, com a sede em Teixeira Pinto.

Em 29Abr69, por criação do subsector respectivo, foi colocada em Pelundo, mantendo um pelotão destacado na ilha de Jete e continuando integrada no dispositivo e manobra do BCaç 2845; em O1Ju169, por alteração dos limites dos sectores, passou à dependência do BArt 2866 e depois do BCaç 2884.

Em 06Ag068, foi rendida no subsector de Pelundo pela CCaç 2586 e recolheu temporariamente a Bula, onde se manteve até à véspera da data de embarque, seguindo então para Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

Observações - Não tem História da Unidade. Tem Resumo de Factos e Feitos (Caixa n." 124
- 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 456/457.


Maria Eugénia e Silvério Dias, em 2017. Foto de LG (*)

3. Numa entrevista ao programa da Antena 1, Reportagem Tarde, em 11/2/2024, o Silvério Pires Dias e a esposa Maria Eugénia Valente dos Santos Dias contam, à  Sílvia Mestrinho, como acabaram por trabalhar na rádio.



O Pifas - Silvério Pires Dias era militar de carreira na Guiné e, meio por acaso, acabou aos microfones da rádio. Memórias contadas à jornalista Sílvia Mestrinho | 11 fev 2014 (vd.ficheiro aúdio aqui)

 
4. O "senhor primeiro" e a "senhora tenente" são figuras lendárias desses tempos da rádio, e do programa que ficou comnhecido por Pifas. (Poderia ter- se chamado"Bom Dia, Guiné!".)

E,m 1969, o Silvério Dias, já 1º srgt art, acabou por tornar-se "o homem por trás da voz", o "senhor Pifas".

Era conhecido pelo seu  lado  humano e proximo,  pela sua empatia, e pela sua bela voz...Daí o epíteto de “senhor Pifas” entre a tropa. Depois da guerra acabou por ficar em Bissau como civil (delegado de propaganda médica) e mais tarde em Portugal manteve uma veia literária, com o blogue “Poeta Todos os Dias”. (Publicou inclusive, em 2017, um livro de poesia.)


A "senhora tenente" (Bissau, c. 1970/72)
 Foto de Garcês Costa  (2012)
A referência à “senhora tenente” também é mais que justa: Maria Eugénia (bastante mais nova do que ele, e com quem casou em 1960, e de quem um filho, Manuel Valente, a viver na Dinamarca):  era uma rapariga "alta e esbelta", com vinte e poucos anos quando se juntou ao marido em Bissau, por volta de 1969 (provavelmente no fim da comissão na CART 1802). 

Tornou-se, por sugestão de Ramalho Eanes (que em 1969/71,chefiava  o Serviço de  Radiodifusão e Imprensa), um elemento fundamental da equipa,  quase uma extensão emocional do "senhor Pifas", sobretudo na gestão dos aerogramas que os ouvintes (nomeadamente militares) enviavam ao programa) e na resposta aos “discos pedidos”, mas também quando aparecia no mato com o "senhor primeiro" para fazer uma reportagem ou para gravar as mensagens de Natal. ( O material era depois montado no estúdio, uma vivenda em Bissau; não havia emissões em direto.)

O Silvério Dias (e a Maria Eugénia, que era uma simples civil, que envergava camuflado e usava galões de tenente, com a cumplicidade dos responsáveis da Rep ACAP)  foram duas figuras agregadoras,  um belo par que fazia companhia à distância, pelas ondas hertzianas,  aos homens no mato.

Na realidade, o Pifas foi  mais que um programa de rádio. O PFA / PIFAS (Programa das Forças Armadas) era emitido a partir de Bissau e tornou-se de algum modo lendário. 

Silvério Dias, nesta entrevista à Antena 1, não esconde a razão de ser da sua criação, que  era obviamente política. Mas também sublinha que a sua função principal era, de facto, o entretenimento da tropa e a elevação do seu moral.

Era, igualmente, a ligação afetiva com a metrópole, a terra, a casa (através de cartas, mensagens, música). Tinha, por fim, um papel de ação psicossocial (integrado na estrutura militar e  na prossecução da política spinolista "Por uma Guiné Melhor"). 

Não era por acaso que o Pifas  era gerido pela Rep ACAP (Repartição dos Assuntos Civis e Acção Psicológica). 

A Rep ACAP/QG/CCFAG, na Amura, era uma das 4 repartições do Com-Chefe. Era responsável por conquistar a população local ("ganhar corações e mentes") através de apoio social, educação, saúde, melhorias de infraestruturas, informação e  propaganda (como o programa de rádio Pifas). 

A Rep ACAP articulava-se  com a estratégia de Spínola de "portugalizar" a Guiné, focando-se na ação psicológica e no apoio à população civil para contrariar a influência do PAIGC. Incluía a organização de manifestações de apoio à política do Governador, prestação de cuidados de saúde, administraçao,   ensino, distribuição de medicamentos e alimentos (nomeadamenmet arroz) e, claro, propaganda radiofónica, destacando-se nesse papel o Pifas (Programa de Informação das Forças Armadas).

Esta repartição funcionava no âmbito do Quartel General do Comando Chefe das Forças Armadas da Guiné (QG/CCFAG), sob o comando direto de Spínola, e era uma estrutura fundamental na "guerra de contrassubversão"

Falaremos, noutro poste, dos conteúdos típicos do programa, que tinha três emissões diárias, e era feito em instalações próprias do QG/CCFAG, numa vivenda,  na Av Arnaldo Schulz. Incluíam discos pedidos (o coração do programa), leitura de aerogramas e mensagens pessoais, música da época (pop portuguesa e internacional), conversa leve, humor, notícias culturais. Diz a Maria Eugénia na entrevista que os discos mais pedidos eram os do conjunto Maria Albertina e a Valsa da Meia-Noite"...

 Há quem defenda que o Pifas era o equivalente português de “Good Morning, Vietnam!”. E a afirmação não anda longe da verdade, embora haja diferenças substanciais.

O impacto psicológico nas NT era grande. Era ouvido pelas NT, pelo IN e pela população. Do lado dos nossos militares, há  testemunhos que sugerem que “uma hora do Pifas" podia ser tão ou mais importante que uma carta ou aerograna da família.

Se quisermos, um programa radiofónico como o Pifas, em contexto de guerra e de isolamento da tropa,   tinha efeitos positivos: criava rotina num ambiente "caótico" (que era a vida em tempo de guerra no mato); humanizava a guerra; dava sensação de pertença (“alguém que falava para nós”); enfim, era ouvida em todo o lado, de Bissau a Buruntuma, do Cacheu a Cacine, nos quartéis e destacamentos do mato,  mas também nas messes e  repartições de Bissau,  na BA 12 em Bissalanca, nas embarcações da marinha, nas tabancas, etc,

Havia alguma liberdade criativa, mais solta (e até com alguma irreverência) do que a rádio em Portugal, a Emissora Nacional, mas sempre com limites de censura (e sobretudo autocensura, como disse o Armando Carvalheira).  Misturava informalidade com disciplina militar, Silvério Dias recebia instruçóes do Ramalho Eanes e mais tarde Otelo. 

Tinha até uma feliz “mascote” (o boneco do Pifas), uma espécie de "branding" avant la lettre.
 
Conhece-se alguma coisa da estrutura e dinâmica do programa, embora, e ao contrário do universo popularizado por "Good Morning, Vietnam!", o Pifas tenha ficado muito menos documentado e estudado de forma sistemática. Temos uma série, que merece ser revisitada, "O PIFAS., de saudosa memória" (de que se publicaram até agora 20 postes) (*)
 
O PIFAS (Programa de Informação das Forças Armadas) surge no contexto da governação de António de Spínola na Guiné (1968–1973), integrado numa estratégia mais ampla de ação psicológica: comunicação interna com as tropas, e com populações locais. Não era apenas rádio, articulava-se com um sistema de comunicação militar com várias vertentes: emissões radiofónicas, folhas informativas / boletins, semanário, cinema itinerante, campanhas cívico-militares, etc.

A rádio dentro do PIFAS: a componente radiofónica existia, mas não era uma “estrela solitária” como no caso americano. Funcionava mais como: 
  • rádio de apoio às tropas (música, muito dela pedida pelos ouvintes, militares e vivis), dedicatórias (“para o aquartelamento X, do camarada Y…”), mensagens de apoio moral;
  • informação controlada: notícias filtradas sobre a guerra,  relatos de operações com tom positivo, ausência de críticas ou ambiguidade;
  • ligação emocional: leitura de cartas, referências à “metrópole”, reforço da ideia de missão e camaradagem, humor,  notícias deptortivas,  chave do totoloto, etc.
Aqui nota-se a diferença entre o Pifas e o "Good Morning, Vietnam!": não havia espaço para figuras “à Robin Williams”, irreverentes ou disruptivas.
 
O Pifas (que emitia em protuguès, crioulo e principais línguas nativas) estava muito ligado à doutrina de “ganhar corações e mentes”, semelhante (em teoria) ao que os EUA também tentavam no Vietname sem sucesso (ao que parece).

Mas no caso português havia especificidades... Era uma programa mais "institucional"; integração com a política do “Portugal plurirracioal e pluricontinental”; tentativa de legitimar a presença histórica portuguessa na Guiné; dirigido em simultâneo aos militares e à população guineense (incluindo a que se encontrava sob controlo do PAIGC). Ou seja, não era só entretenimento, era  guerra psicológica estruturada.

O conhecimento sobre o Pifas vem sobretudo de memórias de militares (como as recolhidas no nosso blogue) (*), alguns estudos sobre ação psicológica na guerra colonial, documentação militar dispersa

Lamentavelmente, falta o arquivo sistemático das emissões, O  estudo académico aprofundado da rádio militar portuguesa e a comparação internacional detalhada (com o que foi feito noutras guerras coloniais...).

Com base nos testemunhos que temos, uma emissão típica do Pifas poderia soar assim: (i) abertura com música do filme "2001 - Odisseia no Espaço",; (ii)  locutor com voz vibrante mas mais sóbrio que o Robin Williams no filme "Good Morning, Vietname!", em todo o caso próximo do ouvinte; (iii)  leitura de mensagens entre unidades, notícias “positivas” de operação recente,  informaçáo desportiva, humor, etc.; (iv) fecho com música ou saudação...

Sem sarcasmo, sem confronto, mais próximo de uma “rádio de companhia disciplinada" do que de um palco criativo. Até por que o Silvério Dias, embora fosse um "homem da palavra", não era propriamente um radialista em 1969. 

O PIFAS foi discreto, mas importante, estruturado, mas pouco estudado, eficaz em alguns aspetos do moral da tropa, mas limitado pelos constrangimentos da hierarquia militar e pela censura. Mesmo assim, mais "liberal" do que a Emissora Nacional (EN), que era a voz do regime.
____________________


sexta-feira, 24 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27945: In Memoriam (578): Silvério Pires Dias (1934 - 2026), o "senhor Pifas", por antonomásia, radialista do Programa das Forças Armadas em Bissau (1969/74), faleceu no passado domingo, aos 91 anos; era casado desde 1960 com a Maria Eugénia, a "senhora tenente"


Oeiras > Galeria-Livraria Municipal Verney > 4 de março de 2017 > 15h00 - 16h30> A antiga equipa que deu voz e alma ao PIFAS (Programa de Informação das Forças Armadas): o primeiro sargento Silvério Pires  Dias (nosso grã-tabanqueiro nº 651) e a famosa "senhora tenente", a sua esposa.Matria Eugénia. 
.
Foto tirada na sessão de lançamento do livro de fotografia, da autoria de Jorge Ferreira, "Buruntuma: algum dia dia serás grande!... Guiné, Gabu, 1961-63" (edição de autor:  Oeiras, 2016; impressão: Jotagrafe - Artes Gráficas Lda)...    A apresentação esteve a cargo do nosso editor Luís Graça.

Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Silvério Pires  Dias  (Vila Velha de Ródão, 1934- Oeiras, 2026). Viveu nove anos na Guiné, desde 1967 a 1976, os últimos dois como "delegado de propaganda médica", e cinco locutor e apresentador na rádio das Forças Armadas, gerida pela Rep ACAP / QG / CCFAG.



Silvério Dias, ex-2º sargt art, CART 1802, Nova Sintra, 1967/69; 1º srg art, locutor do PFA - Programa das Forças Armadas, Bissau, Rep ACAP,/QG/CCFAG, 1969/74m

Fotos : Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)



A mascote do Programa [de Informação] das Forças Armadas (PIFAS), da responsabilidade da Repartição de Assuntos Civis e Acção Psicológica Rep ACAP / QG / CCFAG. Autor da imagem:  (até à data) desconhecido. Imagem cedida pelo nosso camarada Miguel Pessoa, cor pilav ref (ten pilav, Bissalanca, BA 12, 1972/74).

Silvério Dias, que os jovens radialistas (militares) (como o Garcês Costa, o João Paulo Dinis,  o José Camacho Costa, o Armando Carvalheda, etc.)  tratavam por "paizinho", era o "senhor Pifas", por antonomásia. A sua bela e  potente voz era conhecida por toda a gente, pela tropa (em Bissau e no mato) bem como pela população civil e inclusive pelo IIN   O programa era o nosso "Good Morning, Vietnam!".


1. Através do formulário de contacto do Blogger, soubemos, pelo João Paulo Dinis, do falecimento (*) do nosso camarada Silvério Dias.  A notícia foi-lhe dada pelo "pifaniano" Jorge Varanda,  e conformada pela própria viúva, Maria Eugénia, a nossa conhecida "senhora tenente".

Segundo a sua página no Facebook, o Silvério Dias tinha orgulho nas suas raízes beirãs:  (i) nasceu em 19 de agosto de 1934, em Sarnadinha, Vila Velha de Ródão;  (ii) frequentou a Escola Industrial Machado de Castro, Lisboa; (iii) fez careira militar (passou pela Índia, Moçambique e Guiné);  (iv) vivia em Oeiras; (v) era casado e tinha pelo menos um filho, Manuel Valente vive na Dinamarca.
 
No CTIG, o Silvério Dias  esteve como 2º srgt art, CART 1802 (Nova Sintra, 1967/69) e depois, por convite, como 1º srg Art, locutor do PFA, Bissau QG/CCFAG, 1969/74 (onde trabalhoou na Rep ACAP com, entre outros oficiais,  Ramalho Eanes e Otelo Saraiva de Carvalho). Como  civil, foi delegado de propaganda médica, em Bissau (1974/76). 

Disse ele: 

(...) Para descrever as minhas (memórias), diria que só num livro de muitas páginas. Basta referir que "por lá andei" (na Guiné ) durante 9 (nove) anos, de 1967 a 1976. Granjeei amigos de todas as etnias e credos, admiradores ouvintes do PFA. e agradecimentos pelo bem-fazer, na minha condição de Delegado de Propaganda Médica, após abandono voluntário do Exército. (...) (**).

Era nosso grão-tabanqueiro nº 651 (desde 24/3/2014),  e um  caso extraordinário de "resistência e resiliência" contra os "males da idade"...Tem c. 3 dezenas de referências no nosso blogue.

Tinha deixado, infelizmente, de nos dar notícias, depois do último convívio da malta do Pifas no "Páteo Alfacinha", em Lisba, em 9/9/2023, com a presença do general Ramalho Eanes (***).

Tinha então 89 anos completados em 18 de agosto. Ainda me desafiou para aparecer, o que não me foi possível por estar fora de Lisboa. Um das últimas vezes que o vi, terá sido em Oeiras, na Galeria-Livraria Municipal Verney, em 4 de março de 2017, na apresentação do livro do Jorge Ferreira.

Editava o blogue "Poeta Todos Dias" ( criado em janeiro de  2011). E todos os dias, publicava um, dois, três, quatro , cinco ou seis apontamentos poéticos (em geral, quadras populares, sobre temas do quotidiano). Foram mais de 15 mil postes, até quase ao final de 2023. O blogue (ainda "on line") tem c. de 700 mil visualizações. 

Publicou em vida o livro de poesia "Neste lugar onde nasci" (2017).

 À viúva, filho, demais família e amigos "pifanianos", o nosso abraço de solidariedade na dor pela perda deste camarada, que foi um referência para muitos de nós que passámos pela "Spinolândia".



Lisboa > Páteo Alfacinha > 31 de maio de 1985 > Convívio do pessoal do emissor regional da Guiné e do PFA - Programa das Forças Armadas.

Foto: © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



 Guiné > Bissau > PFA - Programa das Forças Armadas, c. junho de 1971 > Noite 7 (Emissão especial aos Sábados).

Na foto, o 1º cabo José Camacho Costa e o 1º srgt Silvério Dias. Reconhecem-se excertos musicais de Carlos do Carmo, José Mário Branco, Beatles e outros... Faz-se referência á chegada do homem à lua, à guerra no Laos e no Camboja, e dá-se a notícia da flagelação, à cidade de Bissau, com foguetões 122 mm de origem russa (em 9 de junho de 1971)... O Pifas era considerado mais "liberal" do que a EN - Emissora Nacional, a "voz do regime".

[Ouvir aqui o compacto aúdio, de Garcez Costa, antigo locutor.  Vídeo (6' 31''): Alojado em You Tube > Nhabijoes ]

Foto (e ficheiro áudio): © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados.  [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


sábado, 4 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27889: Os nossos seres, saberes e lazeres (729): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (250): Palácio de Belém, o menos conhecido de todos os antigos palácios reais (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Sim, é de facto o menos conhecido de todos os antigos palácios reais. Há, contudo, uma razão de ser. Foi, ao longo de quase duzentos anos, uma quinta de veraneio, lugar de reis e princesas. Marca-o a singularidade de ter sido o único palácio a resistir intacto ao terramoto, facto que não lhe alterou a discrição. Aqui viveram D. Carlos e D. Amélia enquanto foi rei D. Luís. Com a República, instalou-se aqui a presidência, foi escolhido para a residência oficial do Chefe de Estado. Mas continuou fora dos circuitos de visita, incluindo o Estado Novo. Foi na presidência do General Ramalho Eanes que o Palácio de Belém abriu as suas portas ao público. Com Mário Soares e Jorge Sampaio a utilizar o Palácio de Belém exclusivamente como local de trabalho, houve uma vontade de aproximação aos cidadãos, mais tarde com substanciado na criação do Museu da Presidência da República. Está belissimamente conservado e pode muito bem acontecer que na visita guiada onde estiver o leitor apareça ali de rompante o novo inquilino, quando os visitantes estiverem no gabinete de trabalho do Presidente, frente à mesa onde ele às terças-feiras recebe o Primeiro-ministro.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (250):
Palácio de Belém, o menos conhecido de todos os antigos palácios reais

Mário Beja Santos

Era uma visita guiada, não quis perder a oportunidade de conhecer o Palácio depois de visitar o Museu da Presidência; os antigos combatentes têm visita gratuita. O Palácio é monumento nacional desde 2007 e desde 1910 é sede da instituição presidencial. Na livraria do Museu deu-me para comprar um livro sobre os azulejos, estuques e tetos do Palácio de Belém. Foi aqui que fiquei a saber que é o único Palácio que resistiu intacto ao terramoto de 1855. Dá-se a explicação que o Palácio tinha uma importância inconstante no conjunto dos restantes palácios reais, os constrangimentos continuaram pelo facto de ser a residência oficial do Chefe de Estado. Esteve até recentemente fora dos circuitos de visita. Foi no segundo mandato do General Ramalho Eanes que o Palácio abriu as suas portas ao público. Mário Soares e Jorge Sampaio passaram a utilizar o Palácio de Belém exclusivamente como local de trabalho. A abertura do Museu e a inclusão do Palácio nos circuitos de visita motivaram um crescente interesse em estudar todo o património e daí as monografias sobre todo o seu acervo, caso desta dedicada aos azulejos, estuques e tetos.

O Museu da Presidência detém milhares de peças, entre objetos pessoais, retratos, presentes de Estado e condecorações. O seu Arquivo integra milhares de documentos que testemunham a vida publica e familiar da maioria dos Presidentes da República. Este Museu também tem a seu cargo a valorização do Palácio da Cidadela de Cascais, bem como uma significativa coleção de carros que serviram os Presidentes da República, a coleção está exposta no Porto, no Museu de Alfandega.

A visita permite conhecer a galeria dos retratos oficiais, os símbolos nacionais associados à República, os presentes de Estado, as Ordens Honoríficas e o acervo dos trabalhos de Paula Rego para os quadros que estão expostos na capela do Palácio.

Posta a visita ao Museu da Presidência segui para o Palácio de Belém, começou-se pelo Jardim do Buxo e pela varanda, obviamente que se entrou pela Sala das Bicas.

As galerias com os retratos dos Presidentes da República. Na altura da minha visita ainda não tinha sido colocado o retrato do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa feito por Vhils, rompendo com a tradição de quadros com pinturas a óleo, desta feita elaborado com troços de jornais.
Jardim do Buxo, vendo-se ao fundo, antes da estátua de Afonso de Albuquerque, o Tejo
Na varanda do Palácio de Belém estão patentes uma série de painéis, os maiores representam dois dos doze episódios dos trabalhos de Hércules, são dos últimos anos do século XVII, com restauros dos séculos XVIII e XX. Neste painel temos Hércules lutando com uma das aves de rapina do lago de Estinfália, na Arcádia, episódio relativo ao sexto trabalho. O herói recebeu ordens para expulsar do lago as terríveis aves com o bico de bronze. Neste painel azulejar ele é representado em pé armado da habitual clava com a qual tenta suprimir o animal.
Este painel evoca o segundo trabalho do herói, de pé, enfrenta e mata a hidra de Lerna, serpente aquática de sete cabeças. Ele veste a pele de leão e levanta a clava em direção à serpente.
Neste painel temos Hércules e a égua de Diomedes, ilustração do oitavo trabalho do herói que tem como missão eliminar as éguas do rei Diomedes, animais selvagens que se alimentavam de carne humana, o herói é representado de pé tentado dominar o equídeo. Na mão direita, ele segura a clava e na esquerda segura a corrente com a qual prende a égua pelo bridão. Hércules veste já a pele do leão de Nemeia, foi o seu primeiro trabalho.

A publicação que eu adquiri sobre azulejos estuques e tetos do Palácio de Belém refere que no século XIX houve um notório desinteresse pelos azulejos. Tanto a varanda como a Sala das Bicas são referidas sem se abordar o azulejo. Foi necessário chegar ao adiantado século XX para se ouvirem comentários altamente elogiosos, como o do arquiteto e historiador de arte Aires de Carvalho que, a propósito dos azulejos da fachada que terão sido colocados em 1778, conclui: “Esses belíssimos painéis de azulejos que felizmente ainda perduram e são inspirados em gravuras seiscentistas com assuntos mitológicos, se não conhecêssemos as contas e que foram pintados expressamente para aplicar nos espaços entre portas e janelas, poderíamos pensar que seriam originais e do século XVII.” Os azulejos da fachada estão dispostos em 14 painéis de grandes dimensões. Cada apinel representa em tamanho natural, uma figura mitológica. Este conjunto tem sido descrito, erradamente, como uma ilustração de Hércules, porque Hércules é, com efeito, a figura que mais se destaca e que é representada em vários painéis.

Confesso que me emocionei profundamente com esta capela do Palácio que alberga oito obras de Paula Rego denominadas O Ciclo de Vida da Virgem Maria. O Presidente Jorge Sampaio não apreciava grandemente esta capela vazia e numa visita a Londres, em 2002, convidou a artista a tal desempenho, ela aceitou prontamente, no Museu da Presidência podemos ver o acervo dos esboços, mas é na capela que podemos testemunhar a genialidade destas oito pinturas a pastel.
Quem vai ser recebido pelo Presidente da República entra no Palácio pela Sala das Bicas, é aquela que vemos mais frequentemente na televisão. Chama-se assim por ter ao fundo duas bicas que deitam água para umas bacias de pedra. A Sala das Bicas também dá acesso à Arrábida, isto é, a zona reservada à vida privada do dia-a-dia do Presidente da República, ele tem direito de morar aqui com a sua família ou sozinho.
A Sala Dourada precede as Salas Império e dos Embaixadores. É uma sala sumptuosa, com mobília encomendada para o casamento do Príncipe D. Carlos, em 1886. Num quadro da escola de Rubens, Cristo triunfando sobre a morte.
No Jardim da Cascata temos os viveiros que D. Maria I mandou construir para os seus pássaros exóticos. Por baixo deste jardim encontram-se as jaulas onde antigamente viviam leões e outros animais ferozes.
O Palácio de Belém conserva nos salões nobres um diversificado conjunto de tetos decorados que incluem um belíssimo exemplar ornamental barroco, que aqui se mostra, está na Sala das Bicas, mas há igualmente teto com pintura mitológica na Sala Dourada, teto com revestimento neoclássico na Sala Império, isto é só uma lembrança para que quando for visitar o Palácio de Belém não se esqueça de olhar para cima.
_____________

Nota do editor

Último post da série de 28 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27866: Os nossos seres, saberes e lazeres (728): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (249): Notícia póstuma de uma notável exposição dedicada a Rogério Ribeiro - 2 (Mário Beja Santos)

sábado, 9 de setembro de 2023

Guiné 61/74 - P24636: Convívios (972): Almoço/Convívio do pessoal do Programa das Forças Armadas da Guiné (PIFAS), hoje, 9 de Setembro de 2023, com a presença do senhor General Ramalho Eanes (João Paulo Diniz)

Lisboa > Páteo Alfacinha > 31 de maio de 1985 > Convívio do pessoal do emissor regional da Guiné e do PFA - Programa das Forças Armadas.

Foto: © Garcez Costa (2012). Todos os direitos reservados



1. Mensagem do nosso camarada João Paulo Diniz, um dos radialistas do PFA, chegada ontem ao nosso Blogue através do Formulário de Contacto do Blogger:

Quem foi militar na Guiné decerto recorda-se do PFA - Programa das Forças Armadas, carinhosamente tratado por PIFAS! Era um programa de Rádio, com três emissões diárias, feito em instalações próprias do Comando Chefe, em Bissau.

O Pifas tinha grande impacto, não só junto dos militares, mas também da população civil.

Uma das pessoas que chefiou o Pifas foi o Capitão Ramalho Eanes, no início da década de '70.

Em 1985 - já lá vão 38 anos... - houve um jantar entre aqueles que passaram pelo Pifas. Um dos presentes foi o então Presidente da República, Ramalho Eanes que, nesse dia regressado de uma visita oficial à China, fez questão de estar junto dos seus Amigos!

Agora é tempo de reencontros, e por isso, neste sábado, 9 de Setembro, está marcado um almoço no Páteo Alfacinha, em Lisboa, a partir das 12:30. O General Ramalho Eanes estará presente, juntamente com sua esposa, a Dra. Manuela Eanes. Na ementa do almoço estão incluídos muitos abraços, algumas lágrimas de emoção e... os sorrisos felizes de todos os presentes!!!

(Abraço, Luís Graça)

Cumprimentos,
João Paulo Diniz

____________

Nota do editor

Último poste da série de 7 DE SETEMBRO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24629: Convívios (971): CCAÇ 3398 (Buba, 1971/73): Cinquentenário do regresso, Freiriz, Vila Verde, 2set2023 (Joaquim Pinto Carvalho)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Guiné 61/74 - P24046: Efemérides (381): Os 60 anos da formação dos primeiros Comandos, em Zemba, Angola... Convite para a sessão solene comemorativa do encerramento das Comemorações, no auditório do Instituto de Defesa Nacional, Lisboa, 15/2/2023, 17h00 (Associação de Comandos)



1. Convite que nos chegou ontem por intermédio do cor inf ref Manuel Bernardo, com uma mensagem da Associação de Comandos (Delegação de Lisboa), que é do seguinte teor:

De: Associação de Comandos Delegação de Lisboa <associacao.comandos.lisboa@gmail.com>
Date: segunda, 6/02/2023 à(s) 11:40
Subject: Convite

Caros Sócios, Companheiros e Amigos,

Anexo convite para a sessão solene do 60º aniversário da formação dos primeiros Comandos em Zemba.

Mama Sume
Jaime Silveira

2. Chama-se a atenção para os nossos camaradas que queiram comparecer a esta sessão solene, que deve ser dada, até ao dia 10 do corrente, a  confirmação de presença,  para estes contactos;

Telf: 21 353 83 73 

Tlm: 926 991 129

email: associacao.comandos.dn@gmail.com
__________

Nota do editor:

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Guiné 61/74 - P24040: Memórias de Luís Cabral (Bissau, 1931 - Torres Vedras, 2009): Factos & mitos - Parte II: O comandante Pombo que intercedeu junto do 'Nino' Vieira por causa da situação humilhante em que se encontrava o Luís Cabral, detido no Forte da Amura, sem cinto nas calças e atacadores nos sapatos, depois do golpe militar de 14/11/1980


Foto nº 1 > Guiné > c. 1972/74 > O comandante Pombo aos comandos de um Cessna dos  TAGP (Transportes Aéreos da Guiné Portuguesa) (era uma aeronave muito melhor equipada com instrumentos de navegação do que a DO-27)


Foto nº 2 > Guiné > c. 1972/74 > Imagens do Cessna, vermelho, pilotado pelo comandante Pombo (foto nº 1), dos TAGP (Transportes Aéreos da Guiné Portuguesa) em que o nosso camarada Álvaro Basto, ex-fur mil enf, CART 3492 (Xitole, 1971/74)  fez várias viagens entre o Xitole e Bissau, nos anos da sua comissão.

Fotos (e legendas): © Álvaro Basto (2008). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1º Srgt Pombo, piloto de F-86-F Sabre,
BA 5, Monte Real, 1961.

1. Há histórias que andam por aí perdidas, no nosso blogue, na floresta-galeria dos mais de 24 mil postes publicados desde 2004, e que fazem mais sentido se as situarmos num contexto de "memórias cruzadas". Por outro lado, é difícil dizer onde começa(m) e acaba(m) a(s) nossa(s) história(s), mesmo que seja(m) com h pequeno.

No seu livro de memórias (*), o Luís Cabral (1931-2009) não fala do seu piloto privativo, o comandante Pombo, pela simples razão de que o livro acaba no dia seguinte ao assassinato do irmão Amílcar Cabral (1924-1973).  

Ao que parece, esteve ( prometido um segundo livro com as "memórias presidenciais" (1973-1980) que, infelizmente, nunca chegaram a ser escritas ou, pelo menos, publicadas. E nesse segundo volume talvez o Luís Cabral quisesse (u pudesse) fazer a justiça de evocar, pelo menos, o nome do dedicado piloto, português,  do seu avião a jato, presidencial, um Falcon...

O mítico comandante Pombo, José  Luís Pombo  Rodrigues (1934-2017),  também já não está, fisicamente, entre nós. Morreu há seis anos, em 2/9/2017. Tinha 83 anos, feitos em 3 de junho desse ano.  

Tive o privilégio de falar com ele, duas ou trêz vezes, não na Guiné mas já cá, a primeira vez foi em 3/2/2015: tinha regressado, por razões de saúde, do Brasil (para onde fora viver em 2010). Tivemos uma longa conversa ao telemóvel. Depois conhecemo-nos pessoalmete e  estivemos juntos, pelo menos duas vezes, na Tabanca da Linha. 

Ao telefone, o nosso camarada, José Luis Pombo Rodrigues, popular e carinhosamente conhecido como o comandante Pombo, começou por falar-me dos problemas de saúde que o preocupavam então, e que terão motivado o seu regresso a Portugal. Transmiti-lhe os nossos votos de rápidas melhoras, em nome dos amigos e camaradas da Guiné, depois disso, recuperada a saúde, ele arranjaria, por certo, tempo e disposição para passar à escrita muitas das suas histórias e memórias da FAP e da Guiné, antes e depois da independência, e partilhá-las connosco. Infelizmente isso não chegou a acontecer. Mas ingressou, postumamente, na Tabanca Grande, e a sua presença, sob o nosso poilão, honra-nos a todos. (*)

O Pombo era então capitão piloto reformado.  Tinha feito, segundo bem percebi, 4 comissões na Guiné. Vivia em Bucelas, sendo grande amigo do major gen paraquedista Avelar de Sousa, que passou pelo TO da Guiné, integrando o BCP 12, como comandante da CCP 123 (1970/71), e foi ajudante de campo, entre 1976 e 1981, do gen Ramalho Eanes, 1º presidente da República eleito democraticamente no pós 25 de abril. E esse facto é relevante para se perceber a influência, discretíssima, que o comandante Pombo terá tido na libertação do ex-1º primeiro ministro da Guiné-Bissau, Luís Cabral, depois do golpe de Estado do ‘Nino’ Vieira em 1980.  Pareceu-me que não haver aqui imodéstia ou fanfarronice.

O comandante Pombo privou com os dois, o Luís Cabral e o 'Nino' Vieira. Dos dois era inclusive "amigo". Ao ‘Nino’ Vieira tratava-o mesmo por tu. E o Pombo continuou a ser o comandante Pombo, depois da independência da Guiné-Bissau. 

Terá havido, ao que parece,  um acordo entre as novas autoridades de Bissau e o governo português para que ele ficasse na Guiné... Desconheço as condições em que ele lá ficou. Sabemos que o PAIGC não tinha pilotos (muito menos MiG ou outros aviões). O comandante Pombo pilotava o pequeno Falcon que fora oferecido ao Luís Cabral, já não sei por quem (talvez pelos suecos). 

O Luís Cabral gostava muito do cmdt Pombo, e sempre que viajava com ele trazia-lhe uma garrafa de... champagne. (É interessante que o PAIGC não tinha ido buscar um piloto cabo-verdiano como o antigo sargento piloto, da FAP, o Honório Brito da Costa  (de resto mais novo, nasceu em 1941, sendo também um perfeito conhecedor dos céus da Guiné: depois de servir na FAP, no CTIG, onde terá feito duas comissões, regressou à sua terra; foi piloto comercial nos TACV - Transportes Aéreos de Cabo Verde, onde terá chegado a comandante).

Depois veio o golpe militar do ‘Nino’ em 14/11/1980 e o Luis Cabral ficou preso na Fortaleza da AmuraSem cinto, por alegadas razões de segurança!... (E possivelmente sem atacadores nos sapatos: é dos livros.)

O comandante Pombo foi visitá-lo e encontrou-o sem cinto, com as calças na mão, numa situação caricata e humilhante para um ex-chefe de Estado… Diziam-lhe, os seus carcereiros, que era para ele não poder fugir. Achando essa uma situação indigna, o Pombo foi falar ao seu amigo ‘Nino’, que lhe deu razão…

Mais tarde o Pombo moveu as suas influências, junto do seu amigo e camarada Avelar de Sousa… O presidente Ramalho Eanes, como é sabido publicamente, exerceu forte influência junto de ‘Nino’, no sentido de obter a libertação de Luís Cabral, preso há 13 meses. Primeiro, foi para Cuba e mais tarde veio para Portugal, tendo passado também, antes, por Cabo Verde.  Acabou por viver o resto da sua vida (cerca de 25 anos) em Portugal: viria a morrer, no antigo Hospital do Barro, em Torres Vedras, em 30/5/2009. Ramalho Eanes e Luís Cabral tinham muita estima mútua.

2. A este propósito o António Rosinha que viveu e trabalhou na República da Guiné-Bissau (era topógrafo na empresa TECNIL), depois da independência, entre 1979 e 1993, escreveu o seguinte comentário no poste P24031 (*):

"(...) Até certo ponto, o Presidente Ramalho Eanes teria dois motivos para receber bem, muito bem, o exilado Luís Cabral. E se não estou equivocado, também foi atribuída uma "mesada" ao presidente exilado.

Mas um dos motivos no meu entender, para Ramalho Eanes receber bem Luís Cabral, seria motivo político, era um ex-presidente de um PALOP.

O segundo motivo, no meu entender, seria um caso pessoalmente muito motivador, é que Luís Cabral proporcionou uma recepção na Guiné ao Presidente Ramalho Eanes, de tal maneira calorosa que passados mais de 2 anos dessa visita (1978), ainda se viam grandes cartazes com a foto do nosso Presidente, intactas e bem tratadas, nas mais importantes ruas da cidade de Bissau.

Mais tarde já com Nino na presidência, Ramalhos Eanes também foi bem recebido, mas não com tanta euforia. (...)"


Voltando ao comandante Pombo: contrariamente ao boato que corria na Guiné, no tempo da guerra colonial, ele nunca esteve feito com os “turras”… E a prova disso é que umas das aeronaves (não era um Cessna, era uma outra avioneta tipo DO 27…) foi perseguida por dois mísseis Strela, já depois do último avião da FAP ter sido abatido (em 31/1/1974, no leste do território)…

Ele contou-me os pormenores ao telemóvel: deve ter sido, deduzo eu, por volta de março ou mesmo abril de 1974, um ano depois do aparecimento dos Strela. O comandante Pombo vinha de Bissau para Farim, na “carreira normal” dos TAGP (Transportes Aéreos da Guiné Portuguesa)… O PAIGC (o Manecas dos Santos) conhecia o horário e os apontadores do Strela estavam à espera da aeronave nas imediações de Farim…

Havia a indicação de que a guerrilha queria mesmo cortar todas as ligações aéreas com o nordeste da Guiné. Deve ter havido falhas na segurança militar, nas imediações da pista de aviação… Para iludir os guerrilheiros, o comandante Pombo vinha com a sua avioneta a baixa altitude e a baixa velocidade. como mandavam as regras de segurança emitidas pela FAP no período pós-Strela. Mas antes de chegar ao destino ele fez inteligentemente uma mistura de combustível que não deixava rasto, isto é, "fumaça"… E, antes de aterrar, terá feito uma manobra de subida, na vertical, seguida de um voo a pique…

Foi o que eu percebi, desculpem-me se o relato é tecnicamente grosseiro… Mesmo assim não se livrou de ver passar-lhe, por perto, dois mísseis que lhe vinham dirigidos… Conseguiu, por fim, aterrar em segurança… "Não ganhei para o susto: os auscultadores saltaram-me da cabeça!", confessou-me ele...

3. Esta é umas das suas muitas histórias de piloto lendário, desde a famosa "Missão" de 1961, que já aqui foi contada (**)... De facto, o que muita gente também não sabia (eu incluído…) é que o comandante Pombo era um orgulhoso sobrevivente da “Operação Atlas”, a primeira (e única) travessia Monte Real – Bissalanca, feita pela Esquadra 51/201 (BA 5), constituída por aviões F-86F “Sabre”, realizada em agosto de 1961… Era então um jovem 1.º sargento piloto, com 27 anos...

O comandante Pombo esteve depois muitos anos no antigo Zaire em Kinshasa a trabalhar como piloto da companhia Sicotra Aviation (aviões de carga). Trabalhou ainda em Angola antes de ir para o Brasil em 2010.

O  que o Pombo nunca foi, isso não,  foi "piloto privativo" do Sékou Touré, a seguir à independência da Guiné-Bissau, como chegou a constar por aí... Esse boato foi desmentido pela filha, Maria João Pombo Rodrigues. 

Nas conversas que tive com ele, apercebi-me apenas que tinha pilotado o pequeno Falcon da presidência da Guiné-Bissau, tendo estado ao serviço do Luís Cabral e depois do 'Nino"... E que nessa condição chegou a levar várias vezes o presidente de São Tomé e Príncipe, Manuel Pinto da Costa, isso sim, no avião que era do Luís Cabral e que este emprestava ao seu amigo são-tomense... 

O comandante Pombo tem 24 referências no nosso blogue.  Já agora publicamos a seguir uma foto de grupo, tirada na BA 12, Bissalanca, em 1973, em que aparece o Pombo. Cortesia do Miguel Pessoa e do blogue dos Especialistas da BA 12, Guiné 65/74). (****)




Guiné > Bissalanca > BA 12 > 1973 > Foto (histórica) de grupo com diversos pilotos (sargentos e oficiais, alguns já nossos conhecidos e referenciados no nosso blogue, como por exemplo - citamos de cor - o cor Moura Pinto, o ten cor Lemos Ferreira ou o cap Branco) e duas enfermeiras (a Giselda e a Piedade). O Pombo (que nessa altura já estava nos TAGP, não sabemos quando entrou) é o terceiro da primeira fila, a contar da direita para a esquerda. (E em quinto lugar, o nosso então ten pilav Matos, António Martins de Matos, hoje ten gen ref; o Miguel Pessoa não aparece na foto, pode ter sido ele o fotógrafo.)

Foto (e legenda): © Miguel Pessoa (2014). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
___________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 2 de fevereiro de 2023 > Guiné 61/74 - P24031: Memórias de Luís Cabral (Bissau, 1931 - Torres Vedras, 2009): Factos & mitos Parte I: Ainda não foi desta que o autor nos contou toda a verdade...

Vd. também o poste de 4 de março de 2009 > Guiné 63/74 - P3983: Nuvens negras sobre Bissau (16): O Nino e o Luís Cabral que eu conheci, em 1979-1993 (António Rosinha)


(***) Vd. poste de 4 de fevereiro de 2015 > Guiné 63/74 - P14218: Gloriosos Malucos das Máquinas Voadoras (32): Falei ao telefone com o comandante Pombo, amigo de Luís Cabral e de 'Nino' Vieira... e sobretudo um orgulhoso sobrevivente dos Strela (em 1973/74) e da "Operação Atlas", em agosto de 1961 (travessia, com uma esquadra de F-86F “Sabre”, Monte Real-Bissalanca, num total de 3888 km e o tempo de 7h50 sobre o Atlântico) (Luís Graça, com José Cabeleira, cap TMMA ref, Leiria)

(...) No dia 8 de agosto de 1961, oito F-86F "Sabre" descolaram da BA-5 para dar início a uma longa viagem que os levaria até Bissalanca (!)... Os aviões escolhidos para a missão foram os seguintes 5307, 5314, 5322, 5326, 5354, 5356, 5361 e 5362. A missão foi executada com êxito, os 8 aviões aterraram em Bissalanca no dia 15 de agosto. Segundo informação do blogue dos nossos camaradas "Especialistas da BA 12, Guiné, 65/74", o Pombo terá levado para Bissalanca o F-86F "Sabre" 5314.  (...)



(****) Blogue Especialistas BA12 Guiné 65/4 > 28 de fevereiro de 2014 > Voo 3068 > A Minha Colaboração (Miguel Pessoa, cor pilav, Lisboa)