Ilustração gerada por inteligência artificial com o ChatGPT, baseada em recordações pessoais da recruta nas Caldas da Rainha, durante o Curso de Sargentos Milicianos (abril–julho de 1969).
QUANDO O "115" PRECISOU DE EMERGÊNCIA MÉDICA
O último post do nosso amigo Artur Conceição,[1] sobre as vacinas que nos eram ministradas na tropa, lembrou-me um episódio passado no RI 5, Caldas da Rainha, durante a recruta.
Um dia fomos todos para a enfermaria do quartel a fim de recebermos a célebre vacina ou "injecção de cavalo", como era conhecida na gíria.
Longos bancos corridos num enorme corredor sombrio de chão de mosaico preto e branco, o pelotão todo em tronco nu esperava sentado, calmamente, a dita injecção.
Vem então um enfermeiro com algodão embebido em álcool, desinfectando um por um os recrutas. Mais atrás o segundo enfermeiro com uma tina cheia de agulhas que vai espetando nos nossos ombros. A seguir vem outro enfermeiro que vai injectando o desgraçado líquido e, finalmente, o último que de imediato remove as agulhas.
Todos nós conhecemos esta cena, mais ou menos assim.
No RI 5, cada um de nós tinha um número de ordem, na minha Companhia, a 6.ª, os números andavam pelo 2000. Eu era o número 2109, o meu amigo e vizinho de Leça, o Coelho, era o 2105, um camarada de S. Mamemede de Infesta (Matosinhos) era o 2107 e um camarada de Gaia, que dormia na cama ao lado da minha, seria o 2111.
Se bem se lembram, o número do emergência, hoje 112, era naquele tempo o 115. E nós tínhamos o nosso "115", mais propriamente o 2115, do qual não lembro o nome. Era um moço bastante alto, rondaria 1 metro e 80, magro e ar um pouco pálido.
Quando o enfermeiro, a quem competia injectar a vacina, passou, o 115 levantou-se de pronto, ainda com a agulha espetada. Alertámo-lo de que se devia manter sentado até lhe ser tirada. Ele, olhando por cima do ombro, vendo o canhão da agulha, de imediato perdeu os sentidos.
O "115" foi prontamente socorrido pelo pessoal de saúde ali presente, passando a partir daquele dia, e por uns tempos, a ser alvo das nossas piadas.
Lembro-me de a maioria de nós ficar com o braço "empenado" por uns dias. Acho até que nos mandaram de fim de semana prolongado.
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Notas do editor:
[1] - Vid. post de 27 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28467: Retalhos da vida militar (15): A Guerra do Ultramar e as Doenças Tropicais (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
Último post da série de 2 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28395: (Ex)citações (449): A velha placa que terá estado colocada em Mansoa (Artur Conceição, CART 730)
Blogue coletivo, criado por Luís Graça. Objetivo: ajudar os antigos combatentes a reconstituir o "puzzle" da memória da guerra colonial/guerra do ultramar (e da Guiné, em particular). Iniciado em 2004, é a maior rede social na Net, em português, centrada na experiência pessoal de uma guerra. Como camaradas que são, tratam-se por tu, e gostam de dizer: "O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande". Coeditores: C. Vinhal, E. Magalhães Ribeiro, V. Briote, J. Araújo.
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quarta-feira, 28 de outubro de 2026
terça-feira, 27 de outubro de 2026
Guiné 61/74 - P28467: Retalhos da vida militar (15): A Guerra do Ultramar e as Doenças Tropicais (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 27 de Outubro de 2026:Boa tarde meu caro Carlos Vinhal,
Mais um pequeno texto recordando coisas que já vão longe.
Um forte abraço com votos de muita saúde.
Artur António da Conceição
A Guerra do Ultramar e as Doenças Tropicais
Eu não tenho formação nem conhecimentos suficientes para falar de um tema tão abrangente como este. Sei que tanto o paludismo como outras doenças tropicais têm os seus nomes científicos destinados a quem tem capacidade para os saber usar. Desejo muito boa sorte e muito bom proveito a todos. Eu nunca fui invejoso. Sei que já existem no blogue alguns postes sobre o mesmo assunto onde o tema é abordado de uma forma bastante científica. Permitam-me meus caros que vos deixe uma abordagem mais “baixinha” sobre o mesmo assunto.
Quase no fim da Recruta e antes da ida para fim de semana, resolveram dar-nos uma prenda de Natal. Estávamos em dezembro, quero tudo em frente ao refeitório do CICA 4 em fila indiana e em tronco nu. Vinha o primeiro com algodão e desinfetava a zona que fica entre o ombro e o pescoço, talvez no chamado lombo. Vinha um segundo espetava uma agulha com dimensões pouco habituais. Mais adiante estava um terceiro que injetava o veneno. Para finalizar ainda vinha mais um para retirar a agulha e desinfetar o buraco que ela tinha originado.
Não me senti totalmente confortável, mas não me impediu de trabalhar nesse fim de semana.
Depois de ter sido mobilizado fui mandado ao Instituto de Medicina Tropica sediado na Rua da Junqueira em Lisboa, onde me foi atribuído um certificado internacional de vacinação de cor amarela depois de ter levado umas boas picadelas.
Nasci no ano de 1942, dois meses depois da minha mãe ter completado vinte anos. O meu avô, pai da minha mãe, era manajeiro e vinha com ranchos de ratinhos para a monda dos arrozais na zona de Alcácer do Sal.
A minha mãe aos 18 anos apanhou uma febre a que os ratinhos, migrantes da zona do Caramulo, chamavam de Sezões. Não quero meter foice e seara alheia, mas penso que Sezões e paludismo são a mesma coisa. Haverá alguma relação entre este facto e a razão pela qual eu nunca apanhei o paludismo.
Assisti a um diálogo entre dois médicos, sendo que um deles era maçarico, a perguntar ao velhote se davam quinino aos militares, uma vez que o quinino matava. Se eu já era anti comprimidos ainda fiquei pior.
Aprendi a dar sangue durante o tempo em que estive na Guiné. A primeira vez foi uma transfusão direita para um camarada a quem estavam a amputar uma perna porque tinha rebentado uma mina. Fui apanhado pelo Médico Psiquiatra, Dr. Pimenta que me estava a tratar. Nos últimos 6 meses em que estive em Bissau ainda dei sangue mais duas vezes. Regressado da Guiné fui dador de sangue até a idade o permitir. Dar sangue e colocar a agulha não custava nada. Quando eu dizia que tinha estado na Guiné, lá vinha a pergunta, então teve paludismo.
Quando dizia que não, era certo e sabido que não acreditavam. Então lá vinha a pica na ponta do dedo que me irritava solenemente.
Indicam as estatísticas de que durante a guerra do ultramar teriam morrido por doença 475 militares em Angola, 320 em Moçambique e 266 na Guiné. Não é indicado o tipo de doença pela qual foram vitimados.
As doenças venéreas em Bissau existiam e cada um as escondia da maneira mais airosa que conseguia sem dar muito nas vistas, o que não acontecia em Jumbembem onde todos sabiam que em Jumbembem catota cá tem.
Fui fortemente mordido por mosquitos, abelhas e formigas, mas nunca causaram problemas de maior.
Na minha ida de Bissau para Jumbembem fui de “avião” até Farim e depois tive de ficar em Farim à espera de coluna para Jumbembem. A CCS do meu Batalhão, que já estava em Farim, quando pedi um local para dormir mandaram para um armazém sem portas onde se encontravam em monte uma catrefada de camas. Montei uma cama e deitei-me. Não tinha mosquiteiro e dormi vestido. Por meio da noite, quando acordei, tinha sido invadido por semelhante praga de percevejos que tive de andar a matá-los com uma tábua das caixas das batatas.
Convém aqui recordar de que as batatas para a Guiné não iam em sacos, mas sim em caixas de ripas de madeira fina.
Falava-se muito em sarna, mas nunca tive, nem me apercebi que existisse.
Havia o péssimo hábito do uso da alpercata de enfiar o dedo. Claro que esse péssimo hábito era um chamariz para apanhar matacanha. Pela minha parte dei sempre preferência às botas de lona. Em Jumbembem havia disso a dar com pau e também me calhou uma. Havia nativos que usavam uma ferramenta feita em madeira para tirar a matacanha. Não era permitido nessa tarefa fazer sangue. Os apanhadores de matacanhas eram apelidados de Calonjandas.
Resumindo: Durante todo o tempo que estive na Guiné fui escapando ao paludismo por entre os pingos da chuva que na Guiné até eram bem grossos.
No Quartel General em Bissau, eu ocupava para dormir uma casinha de rés do chão que ficava nas traseiras do lado da bolanha que ia desde a Administração Militar até às proximidades de Bissalanca. A “vivenda” tinha uma sala onde estava instalado um AN-GRC 9, dois quartos e uma casa de banho. Um dia por volta das 4 ou 5 da tarde lembrei-me de ir para o banho. Toalha pela cintura alpercata de enfiar o dedo e aí vai ele para debaixo do chuveiro. Não sei precisar quanto tempo lá estive debaixo do chuveiro, mas deve ter sido um bom bocado. Quando saí comecei a sentir uma forte comichão na sola dos pés. Esfreguei os pés no chão de tal maneira e com tal gana que quando dei por ela sangrava a bom sangrar. Fui direito à enfermaria e fui enviado para o Hospital. Uma vez tratado no Hospital mandaram-me lá estar à meia noite para fazer uma análise ao sangue para detectar um bicharoco que só atuava depois da meia noite. Vim para o QG e por volta da meia noite fui ter com o Senhor Oficial Dia pedindo-lhe que mandasse o Condutor Dia levar-me ao Hospital. O Senhor Alferes riu-se e disse-me. -Vai dormir e vais ver que amanhã pela manhã já estás bom. Eu fui, mas passados 10 minutos andava tudo à minha procura porque já tinham telefonado do Hospital a pedir a minha presença, porque os outros dois já lá estavam. Dei sangue para fazerem a análise, mas o resultado nunca me foi comunicado.
No início da década de 80 e durante uns anos quando era chegado o mês de outubro apareciam-me na sola dos pés umas bolhas com cerca de um centímetro de diâmetro que me impediam de calçar um calçado normal. Tinham de ser lancetadas de uma forma em que a anestesia era morder a aba do chapéu. Isto aconteceu durante uns quatro ou cinco anos e não mais voltou. Não tenho conhecimentos que me permitam relacionar este facto com aquilo que me aconteceu em Bissau.
Regressado a Lisboa, entrei de férias regulamentares durante um mês, tendo passado à disponibilidade a 15 de março do ano de 1967.
Quando fui fazer o resto espólio da roupa que tinha trazido vestida ainda tive de pagar sete escudos e cinquenta centavos para a lavagem dessa roupa, que o nosso primeiro atirou para um monte de trapos.
Com a passagem à disponibilidade foi-me entregue um documento que me obrigava a uma vez em cada mês ir a um departamento militar localizado na Rua Dona Estefânia em Lisboa para levantar medicamentos para o paludismo. O destino dado a esses medicamentos já foi dito num comentário feito ao Post 7012 de 20 de setembro de 2010.[1] Esta obrigatoriedade tinha origem no facto de não ter tido o paludismo durante o tempo que estive na Guiné.
Diziam os entendidos que quem não teve paludismo na Guiné iria ter em Portugal, mas com gravidade muito mais elevada.
Eu não nasci num berço de ouro. O meu berço foi uma canastra velha de ir ao pinhal mais próximo apanhar os chamiços dos pinheiros para alimentar a lareira onde eram colocadas as panelas de ferro para fazer o caldito dos pobres.
Deixo alguns pedidos neste meu documento, que espero sejam respondidos nos comentários.
Desde já os meus agradecimentos com um forte abraço e com votos de muita saúde para todos.
Artur António da Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578
26 de outubro de 2026
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2. Comentário do Coeditor CV
Como a partir da caixa dos comentários não se pode publicar imagens, aproveito este post do amigo Artur Conceição para publicar, complementando ao mesmo tempo o seu texto, três boletins de vacina a que fui sujeito durante a minha estadia no Exército Português.
O primeiro boletim diz respeito à célebre injecção em série que se levava ainda na recruta. Diz no registo que fomos vacinados em 9 de Maio de 1969 contra a varíola.
No Funchal, sensivelmente um mês antes do embarque para a Guiné, exactamente no dia 12 de Março de 1970, fomos todos em filinha ao Centro de Saúde do Funchal onde fomos vacinados contra a febre amarela. Finalmente e, provavelmente não menos importante, já na Guiné fomos revacinados, segundo o que está registado, contra a Febre Amarela. Curiosamente a data que consta é 12/3/70, que está errada, porque desembarcámos na Guiné só no dia 17 de Abril de 1970. Talvez quisessem escrever 12/3/71. O carimbo não deixa dúvida, "Serv. Saúde da Guiné Portuguesa Vacinação" _____________
Notas do editor:
[1] - Comentário de Artur Conceição no post Guiné 63/74 - P7012: Doenças e outros problemas de saúde que nos afectavam (1): Paludismo (Rui Silva)
Anónimo disse...
Eu não sei se posso dizer isto!...
Picadelas em Brá, em Bissorã e no Olossato e depois em Farim e Jumbembém apanhei umas boas centenas. Efeitos das picadelas não foram além das coçadelas habituais. Comprimidos nunca engoli nenhum, não pelo seu tamanho, porque até eram pequenitos, mas outra qualquer maluqueira de que não me recordo.
Matacanha apanhei uma que o Mamadu tirou com um canivete de madeira sem consequencias de maior. Das outras só vi no Hospital de Bissau.
Como durante os 24 meses de Guiné não apanhei paludismo, e como os Médicos entendiam que quem não apanhava na Guiné apanhava cá e com consequencias mais graves, acabei por ficar 6 meses de quarentena, pelo que uma vez em cada mês tinha de me deslocar a um Departamento na Rua D. Estefânia onde me era fornecido um saco de medicamentos. E agora não vou dizer o que lhes fazia porque já todos advinharam.
Na Guiné dei sangue por 3 vezes e nunca alguém me perguntou se já tinha tido paludismo.
Depois do regresso dei sangue várias vezes, e a cada vez o Médico perguntava, esteve no Ultramar? Estive na Guiné. Teve paludismo? Não tive. Nunca nenhum acreditou, e só depois da picadela no dedo para retirar sangue para análise, que custava bem mais do que dar sangue, é que acreditavam.
Não digo mais...
Os meus respeitos e a minha admiração para todos aqueles que não tiveram a mesma sorte. Vi muitos aflitos e em grande sofrimento.
Um grande abraço para todos os que apanharam paludismo e para os outros também...
Artur Conceição
segunda-feira, 20 de setembro de 2010 às 15:58:00 WEST
Último post da série de 20 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28451: Retalhos da vida militar (14): A (des) Vantagem de ter duas Especialidades (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
terça-feira, 20 de outubro de 2026
Guiné 61/74 - P28451: Retalhos da vida militar (14): A (des) Vantagem de ter duas Especialidades (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 14 de Outubro de 2026:A (des) Vantagem de ter duas Especialidades
Durante a especialidade de Transmissões e de Condutor Auto, após ter terminado a recruta no CICA 4 em Coimbra, (Centro de Instrução de Condução Auto), que teve lugar na Unidade de Caçadores 5 em Campolide, Lisboa, a indefinição da nova especialidade manteve-se. O espaço onde hoje se situa o Campus de Justiça, era pertença do Trem Auto que tinha a sua sede na Avenida de Berna. Os futuros soldados de Transmissões Condutores Auto iam ter instrução de condução a partir desse espaço que era contíguo ao Quartel de Caçadores 5.
Tratava-se de uma companhia de Instrução comandada pelo então Capitão Carlos Fabião que mais tarde veio a ser Governador Geral da Guiné.
Os instruendos que só tinham a especialidade de transmissões ficavam em Caçadores 5. Como só tinham uma especialidade foram todos para 1.ºs Cabos. Era assim, era assim e bico calado.
Durante a instrução de condução aconteceram vários episódios, mas apenas vou mencionar dois.
Primeiro Caso: Ao fundo da Rua de Campolide que fazia parte do circuito autorizado para instrução de novos condutores, existia ao tempo um Laboratório. O instrutor pediu ao instruendo para parar e fazer marcha atrás. Até aqui tudo bem, só que aparece de frente um trabalhador desse mesmo Laboratório que terá demorado mais um pouco a deixar as criancinhas na creche, e resolve tentar passar por trás da Morris que estava a fazer o movimento de recuar, para estacionar. Claro que levou uma trancada. Parece não haver dúvida em relação ao executante que cometeu uma Manobra Perigosa.
Segundo Caso: Do equipamento dispensado para os instruendos fazerem a sua aprendizagem fazia parte uma GMC, que a todos metia medo. Tinha o volante do lado direito e para endireitar um palmo era preciso dar duas voltas ao volante.
Numa manhã de instrução num percurso onde até já tinha havido uma corrida de automóveis com a participação de Filipe Nogueira, passa por nós a alta velocidade um carro topo de gama.
As condições de ocupação da via não permitiam velocidade tão excessiva pelo que o instrutor de serviço fez comentários que não foram do agrado dos ocupantes da viatura em causa. Como alguém diria. Chamou-lhe tudo menos Bom Rapaz.
Quando a viatura apressada parou e sai do seu interior um senhor Coronel fardado com galões e tudo o pavimento estremeceu um pouquito.
Em 1964 ainda continuava em vigor a lei do Senhor General Fernando Santos Costa publicada para acabar com os acidentes com veículos militares, que atribuía a culpa sempre ao condutor militar.
Terminada a especialidade(s) quatro dos prontos foram enviados para o RI 11 em Setúbal, que era uma unidade pertencente à Região Militar de Lisboa. Pela minha parte o meu destino era Castelo Branco, mas como o Senhor Primeiro Sargento era meu amigo consegui uma troca em que só um dos intervenientes teve conhecimento.
Em Setúbal, três dos recém-chegados faziam serviço de telefonistas e o Artur foi colocado numa arrecadação, onde estava instalado um rádio muito antigo que pertencia a uma rede da Região Militar de Lisboa. As instalações no interior da unidade eram uma espécie de aldeia de João Franco em Mafra. A tarefa era duas vezes por dia, de segunda a sexta, às 8 e às 18, responder a uma espécie de “Sentinela Alerta”. Todo o tempo restante era disponibilidade. O ambiente na Unidade era muito bom. O rancho tinha uma excelente característica: dia sim dia sim o jantar era caldeirada de peixe.
Desde que o Vitória não perdesse o Primeiro Carretas era do melhor que se podia ter. Falava muito à moda de Setúbal com o “rr” muito mal pronunciado. Era viva o “Vitóguia” em vez de Viva o Vitória. Deixava-me vir de fim semana à sexta-feira o que me permitia fazer dois dias de trabalho para o meu patrão de Lisboa.
Estava ao tempo no RI 11 um Aspirante da área de transmissões que tinha sido vítima de acidente de Viação e tinha ficado com várias sequelas, entre elas uma relacionada com a fala.
A um canto do barracão que servia de garagem estava estacionada uma viatura tipo Ramona que teria vindo da primeira Guerra Mundial, onde estava colocado um rádio muito antigo. A viatura tinha o volante do lado direito, não tinha manutenção nem revisão, mas andava. O rádio também funcionava.
O Senhor Aspirante, talvez para aumentar o curriculum e levando à letra a especialidade, “Transmissões e Condutor Auto” convenceu-me a irmos com a viatura até à Serra da Arrábida para fazermos alguns ensaios de transmissões.
De regresso a Setúbal, descendo a Serra da Arrábida, a antena de cobre com alguns três metros de altura obrigava, para não bater nas árvores que se podia partir, a circular mais junto ao eixo da via. Ao chegar ao Outão ainda na descida, aparece de frente um Autocarro de Serviço Público de Passageiros que nos jogou em cima com quantas luzes e buzinas tinha ao seu dispor. Eu apanhei um susto monumental, o Senhor Aspirante, cujo nome por delicadeza não indico, ainda ficou um pouquito mais gago.
Estava ao tempo em Setúbal um Cabo Readmitido, conhecido na gíria militar como “Cabo Xico”, usava divisas iguais às dos Cabos Milicianos, futuros Furriéis Milicianos.
O Senhor Cabo Santos era altamente respeitado, fazia a chamada não pelo número, mas pelo nome, era convocado para as reuniões de Oficiais, o que deixava o Primeiro Sargento Carretas, e o Segundo Sargento Ameixa à beira de um ataque de nervos. Terminou a sua Licenciatura em Direito em 1964.
O Senhor Aspirante fez uma segunda tentativa de saída, mas desta vez para maiores distâncias, com a qual eu não concordava pelo perigo que envolvia. Eu não tinha nenhuma prática, o que aumentava o risco, a apetência também não era brilhante.
O Senhor Cabo Santos funcionava como Advogado de Serviço e ajudou-me a elaborar a justificação para a minha recusa em não querer colaborar com saídas que poderiam por em risco a vida de terceiros.
O Senhor Cabo Santos foi convidado a aceitar uma graduação em Tenente com promoção a Capitão do Quadro Permanente logo que indigitado para Comandante de uma Companhia com destino ao Ultramar. Não aceitou e terminou a sua Carreira Militar.
A distância entre os vários postos da carreira militar, não me parece algo de mensurável, mas com toda a confiança posso afirmar de que essa distância era bem maior no Continente do que era no Ultramar.
O Artur entrou de férias no início de dezembro e a meio do mês foi informado de que havia sido mobilizado para a Guiné.
Fui a Setúbal buscar a trouxa, despedir-me de alguns amigos e fui apresentar-me no Regimento de Artilharia Ligeira (RAL 1) em Lisboa ao então Capitão Garcia Leandro, que fez o favor de me colocar de Serviço na noite de Natal de 1964 e também na noite de início do ano de 1965.
Como diz o Povo, “Ano Novo vida nova”, começou também aqui uma nova etapa da minha vida, como militar.
Artur Conceição
SPM 2578
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Nota do editor
Último post da série de 13 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28433: Retalhos da vida militar (13): O último quartel da minha Comissão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
terça-feira, 13 de outubro de 2026
Guiné 61/74 - P28433: Retalhos da vida militar (13): O último quartel da minha Comissão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 4 de Outubro de 2026:O último quartel da minha Comissão
Cinco tostões eram metade de um escudo. Cinco tostões também conhecidos por uma quinhenta davam para comprar uma dose tremoços, ou uma malga de camarinhas ou uma malga de cabras.
Os CTT tinham dois tipos de correspondência, a carta que tinha de ser selada e também o chamado bilhete postal.
O bilhete postal custava exactamente cinco tostões.
Como herdei da minha mãe o vicio pela leitura, quando tinha por volta dos 13/14 anos sempre que tinha cinco tostões disponíveis, escrevia um postal para uma qualquer embaixada de um qualquer país dizendo que gostava de visitar esse país e queria que me mandassem alguns mapas.
Recebia, via correio, muitos envelopes com mapas e literatura sobre muitos temas de ordem geográfica. A partir dessa leitura fui adquirindo muitos conhecimentos em termos de Geografia Física de muitos países. O Canadá, a Itália e a França iam mandando sempre, mesmo sem um segundo pedido.
A conversa era sempre a mesma, e a morada das embaixadas era em Lisboa. Eu tinha apenas a quarta classe e os conhecimentos em termos de relações diplomáticas entre países não abundavam. Eu sabia que existia um país chamado Hungria cuja capital era Budapeste, mas não sabia que não tinha relações diplomáticas com Portugal, após ter sido invadido pela então URSS em 1956.
Eu estava a trabalhar em Arrancada do Vouga onde já existiam algumas fábricas que davam trabalho a muitas pessoas. Um dia mandei também um postal para a Embaixada da Hungria. Recebi o postal de volta com a indicação de que a Hungria não tinha relações diplomáticas com Portugal.
Passados alguns dias vieram dizer-me que andavam dois homens à minha procura para me levarem. Não dei qualquer importância e entendi que era mais uma daquelas coisas que se diziam aos meninos e meninas para os assustar. "Não te portas bem, vem aí um cigano e leva-te". Só bastante mais tarde quase na fase de adulto percebi o que tinha acontecido em Arrancada do Vouga e quem eram os dois homens que me queriam levar. Queriam lebre apareceu-lhes um ratito do mato.
Já depois de estar em Lisboa e durante algum tempo a trabalhar na Zona de Alcântara, comecei a tomar conhecimento de realidades que eu tinha dificuldade em entender. Por uma distância de aproximadamente 30 metros, não fui testemunha presencial da morte de José Dias Coelho.
Durante toda a minha infância e juventude sempre estive ligado à Igreja. Com 6 anos já me davam 2 tostões para eu dizer a confissão em latim. Saber a confissão em latim era uma condição necessária para se poder ajudar à missa.
Fui catequista e convivi com muitos sacerdotes entre eles, os padres Aleixo Cordeiro, Felicidade Alves e bastante mais com o senhor Padre Brotero. Sabia que o senhor Padre Brotero havia sido obrigado a fugir para Marrocos por causa de uma queixa apresentada ao Patriarcado. Era comentado de que as relações entre o senhor padre Felicidade Alves e o mais alto magistrado da Nação não eram famosas.
Fui catequista e convivi com muitos sacerdotes entre eles, os padres Aleixo Cordeiro, Felicidade Alves e bastante mais com o senhor Padre Brotero. Sabia que o senhor Padre Brotero havia sido obrigado a fugir para Marrocos por causa de uma queixa apresentada ao Patriarcado. Era comentado de que as relações entre o senhor padre Felicidade Alves e o mais alto magistrado da Nação não eram famosas.
Do mesmo modo também se sabia na comunidade que as relações entre o senhor Professor André Navarro e o senhor Padre Brotero não eram propriamente as melhores. O senhor padre Brotero dava tudo o que podia aos pobres das barracas da Avenida de Ceuta ao ponto de nem lençóis ter na cama para receber a visita de um médico. O Senhor Professor André Navarro era pai de 10 filhos, mas tinha uma criada para tomar conta de cada um dos filhos.
O largo de Alcântara e também o largo do Calvário eram lugares bastante complicados em função da existência de muitas centenas de operários. Era também o local por onde entravam todos os trabalhadores pertencentes à classe dos Estivadores.
Vim a saber, só durante o ano de 1966 em Bissau, que um popular engraxador com a alcunha de bolinhas era um perigoso informador da PIDE.
No largo de Alcântara trabalhavam de forma pacífica muitos vendedores ambulantes. Aqui também trabalhavam mulas e cavalos trajados com o seu avental do Atlético Clube de Portugal.
Um dia, a Rita peixeira travou-se de razões com um polícia de serviço. Puxou de um peixe espada e contra uma pistola, não deixou seus créditos em mãos alheios. O senhor polícia teve de ir para o Hospital para tratar dos ferimentos no rosto.
Naqueles tempos os mercados, também conhecidos por praças estavam abertos aos domingos de manhã. A Praça de Campo de Ourique, bairro rico de Lisboa, era famosa pela quantidade de raparigas que vinham do Alto Minho e das Beiras servir para Lisboa. Eram empregadas domésticas, vulgarmente conhecidas por “Sopeiras”. No domingo depois da missa era quase obrigatório fazer uma visita ao Mercado de Campo de Ourique. Ia eu acompanhado do meu compadre Alcides, a quem ia a contar a estória da Rita e do polícia que tinha ocorrido na véspera.
Como bom militar, terei usado algumas expressões muito militarizadas às quais dois indivíduos que iam ao nosso lado não terão achado graça. Fui agarrado por um braço e levado para um gabinete existente no próprio Mercado. Identificaram-me como militar em Caçadores 5 e mandaram-me ir de imediato para o Quartel. Como era meu entendimento de que militar não recebe ordens civil, decidi não cumprir a ordem de regresso à Unidade Militar. Passados poucos minutos já vinham de novo atrás de mim, pelo que a alternativa foi mesmo a de abandonar o local.
Durante a Primavera do ano de 1963 teve lugar em Lisboa o grande encontro da Juventude. A maioria dos participantes vieram das aldeias do interior pelo que na sua maioria eram membros da JAC (Juventude Agrária Católica). No ano seguinte (1964) Lisboa recebeu a visita de Monsenhor Joseph Cardijn, um Belga fundador da JOC. Da recepção fazia parte uma Missa Campal junto ao Monumento a Cristo Rei em Almada seguida de um desfile até ao Campo do Almadense onde teriam lugar outras Cerimónias relacionadas com a visita. Eu era membro da JOC, mas apenas na sua componente religiosa e nem me passava pela cabeça que em simultâneo também existisse uma componente política.
Terminada a Missa Campal e quando tudo estava pronto para ser dado início ao desfile, surge-nos pela frente uma manada de cavalos e respectivas montadas, militares da GNR que não nos deixaram avançar.
O largo de Alcântara e também o largo do Calvário eram lugares bastante complicados em função da existência de muitas centenas de operários. Era também o local por onde entravam todos os trabalhadores pertencentes à classe dos Estivadores.
Vim a saber, só durante o ano de 1966 em Bissau, que um popular engraxador com a alcunha de bolinhas era um perigoso informador da PIDE.
No largo de Alcântara trabalhavam de forma pacífica muitos vendedores ambulantes. Aqui também trabalhavam mulas e cavalos trajados com o seu avental do Atlético Clube de Portugal.
Um dia, a Rita peixeira travou-se de razões com um polícia de serviço. Puxou de um peixe espada e contra uma pistola, não deixou seus créditos em mãos alheios. O senhor polícia teve de ir para o Hospital para tratar dos ferimentos no rosto.
Naqueles tempos os mercados, também conhecidos por praças estavam abertos aos domingos de manhã. A Praça de Campo de Ourique, bairro rico de Lisboa, era famosa pela quantidade de raparigas que vinham do Alto Minho e das Beiras servir para Lisboa. Eram empregadas domésticas, vulgarmente conhecidas por “Sopeiras”. No domingo depois da missa era quase obrigatório fazer uma visita ao Mercado de Campo de Ourique. Ia eu acompanhado do meu compadre Alcides, a quem ia a contar a estória da Rita e do polícia que tinha ocorrido na véspera.
Como bom militar, terei usado algumas expressões muito militarizadas às quais dois indivíduos que iam ao nosso lado não terão achado graça. Fui agarrado por um braço e levado para um gabinete existente no próprio Mercado. Identificaram-me como militar em Caçadores 5 e mandaram-me ir de imediato para o Quartel. Como era meu entendimento de que militar não recebe ordens civil, decidi não cumprir a ordem de regresso à Unidade Militar. Passados poucos minutos já vinham de novo atrás de mim, pelo que a alternativa foi mesmo a de abandonar o local.
Durante a Primavera do ano de 1963 teve lugar em Lisboa o grande encontro da Juventude. A maioria dos participantes vieram das aldeias do interior pelo que na sua maioria eram membros da JAC (Juventude Agrária Católica). No ano seguinte (1964) Lisboa recebeu a visita de Monsenhor Joseph Cardijn, um Belga fundador da JOC. Da recepção fazia parte uma Missa Campal junto ao Monumento a Cristo Rei em Almada seguida de um desfile até ao Campo do Almadense onde teriam lugar outras Cerimónias relacionadas com a visita. Eu era membro da JOC, mas apenas na sua componente religiosa e nem me passava pela cabeça que em simultâneo também existisse uma componente política.
Terminada a Missa Campal e quando tudo estava pronto para ser dado início ao desfile, surge-nos pela frente uma manada de cavalos e respectivas montadas, militares da GNR que não nos deixaram avançar.
Do meio da uma enorme assistência surge o Senhor Primeiro Sargento da minha Companhia em Caçadores 5. Ao conhecer-me e ao ver-me de braçadeira vermelha tal qual a usada pelo senhor Oficial Dia exclamou: - Em que é que tu andas metido? Após algumas explicações quem tinha mandado a GNR terá percebido que as coisas não eram tão graves quanto eles imaginavam.
O desfile correu normalmente e só voltou a haver alguma agitação quando foi evocada e aplaudida uma representação da JOC da Hungria com quem Portugal não tinha relações. Os Húngaros não entraram em Portugal vindos directamente da Hungria, entraram em Portugal integrados na Delegação de Espanha. A partir deste episódio as minhas relações com o senhor Primeiro Sargento da Companhia passaram a ser relações bastante amistosas e que ajudaram muito na minha ida para Setúbal, depois de terminadas as especialidades.
Entre Mansoa e Mansabá fica uma localidade chamada Cutia onde durante a guerra aconteceu um desastre. Nas referências sobre Cutia não há nada anterior a 1967, mas recordo muito bem que se tratou de uma situação bastante complicada. Durante esse ataque as comunicações militares não funcionaram. Desconheço se por falta de capacidade ou problemas de acesso.
Estas foram as causas próximas que levaram à criação de um protocolo de apoio junto da PIDE.
Quis o destino que ao fim de 18 meses de Guiné, o Artur estivesse a cumprir as suas funções militares nas instalações da PIDE.
Foram mais 6 meses de Guiné, mas que foram muito bem passados, em contraste com os outros 18. Trabalhei bastante, de forma voluntária, mas nunca fiz nenhum serviço militar. Tudo o que era dito na Rádio Moscovo e na Rádio Argel era gravado e passado a limpo em máquina de escrever no dia seguinte. As relações de trabalho e amizade com os senhores da PIDE eram brilhantes e eu não me importava nada de fazer muita coisa para os ajudar ajudando-me a mim também. Vinham ostras de São Domingos, vinham frangos e cabritos de Nhacra, vinham camarões de Quinhamel, mas vinham também muitas outras coisas de muitos outros lados. Quando o turno tinha início às 16 horas havia taina pela certa.
Fui convidado para ficar na PIDE, mas isso não estava nos meus objectivos e como tal declinei o convite.
No ano de 1967 entrei para os quadros da Função Pública, fiz juramento de activo repúdio pelo Comunismo e todas as ideias subversivas, tal como a tomada de posse o exigia, e fiquei definitivamente vacinado.
Artur Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578
Entre Mansoa e Mansabá fica uma localidade chamada Cutia onde durante a guerra aconteceu um desastre. Nas referências sobre Cutia não há nada anterior a 1967, mas recordo muito bem que se tratou de uma situação bastante complicada. Durante esse ataque as comunicações militares não funcionaram. Desconheço se por falta de capacidade ou problemas de acesso.
Estas foram as causas próximas que levaram à criação de um protocolo de apoio junto da PIDE.
Quis o destino que ao fim de 18 meses de Guiné, o Artur estivesse a cumprir as suas funções militares nas instalações da PIDE.
Foram mais 6 meses de Guiné, mas que foram muito bem passados, em contraste com os outros 18. Trabalhei bastante, de forma voluntária, mas nunca fiz nenhum serviço militar. Tudo o que era dito na Rádio Moscovo e na Rádio Argel era gravado e passado a limpo em máquina de escrever no dia seguinte. As relações de trabalho e amizade com os senhores da PIDE eram brilhantes e eu não me importava nada de fazer muita coisa para os ajudar ajudando-me a mim também. Vinham ostras de São Domingos, vinham frangos e cabritos de Nhacra, vinham camarões de Quinhamel, mas vinham também muitas outras coisas de muitos outros lados. Quando o turno tinha início às 16 horas havia taina pela certa.
Fui convidado para ficar na PIDE, mas isso não estava nos meus objectivos e como tal declinei o convite.
No ano de 1967 entrei para os quadros da Função Pública, fiz juramento de activo repúdio pelo Comunismo e todas as ideias subversivas, tal como a tomada de posse o exigia, e fiquei definitivamente vacinado.
Artur Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578
(revisão / fixação de tecto, links: LG)
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Nota do editor
Último post da série de 6 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28409: Retalhos da vida militar (12): Os que ficaram e viveram as partidas (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
Nota do editor
Último post da série de 6 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28409: Retalhos da vida militar (12): Os que ficaram e viveram as partidas (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
terça-feira, 6 de outubro de 2026
Guiné 61/74 - P28409: Retalhos da vida militar (12): Os que ficaram e viveram as partidas (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 9 de Setembro de 2026:Boa tarde meu caro Carlos Vinhal,
Mais um pequeno texto que escrevi.
As cartas a Garcia ainda aguardam a sua vez?
Um grande Abraço com votos de muita saúde.
Artur António da Conceição
Os que ficaram e viveram as partidas
A frente da retaguarda
O tema partidas e chegadas não tem sido muito utilizado pelos muitos que enviam as suas vivências para o Blogue.
Cheguei a Lisboa no dia 6 de agosto de 1959 e fiquei a morar no bairro da Ajuda. A freguesia da Ajuda era e ainda é uma zona de muitos quartéis. Lá existe a Rua dos Quartéis, e a Travessa de Cima dos Quartéis. A partir do ano de 1961 esta zona passou a ser uma zona abundantemente frequentada por militares cujo destino era Angola. Para apoio a estas unidades militares foi adicionado o espaço da antiga cordoaria na Rua Junqueira de onde partiram os primeiros Batalhões com destino a Angola. Os embarques tinham lugar em Alcântara e na Rocha do Conde de Óbidos. Eram momentos muito emocionantes e dramáticos para os envolvidos.
Foi neste espaço de tempo que surgiu a célebre frase do Dr. Oliveira Salazar. Para Angola Já…! E em força...!
O último batalhão que terá passado pela Cordoaria terá deixado o espaço inabitável com a sua manifestação de protesto. Pelas ruas ouvia-se o sussurro de “Angola é nossa…”, “Angola é nossa...”.
Um amigo da minha aldeia veio ter comigo a Lisboa a pedir para o levar ao Quartel de Infantaria 1 para onde tinha sido recrutado, ao tempo localizado na Amadora. Quando ao fim de um mês o fui procurar, já o amigo João estava em Angola a defender a Fazenda Tentativa.
O objectivo primeiro de mais este pequeno retalho é deixar uma homenagem a todos aqueles, em especial às mães, que tanto sofreram, que não pegaram em armas para defender os ideais da Pátria, mas que na retaguarda sofreram bem mais do que nós. Éramos jovens, tínhamos uma maneira diferente de encarar a realidade que se nos deparava, alternamos momentos de sofrimento com bons momentos que ainda hoje recordamos com saudade. Somos pais, alguns são avós e isso leva-nos facilmente a compreender esse sofrimento de ansiedade permanente. Aqueles que nos viram partir e que carinhosamente nos receberam, merecem que nos curvamos em sua memória.
Sou pai de uma filha e avô de um neto a caminho dos 19 anos. Não consigo imaginar-me a assistir a uma despedida do meu neto a caminho de uma Guerra como foi a Guerra do Ultramar pela qual todos nós passámos.
Aconteceram situações de tal maneira chocantes que marcaram muitas pessoas para o resto da sua vida.
Permitam-me que recorde apenas duas que também me marcaram.
Uma esposa faz uma viagem de Lisboa a Bissau, para ir ao encontro do seu marido. Uma vez na Guiné, faz mais uma viagem até Farim. O seu marido estava a comandar a Companhia que estava sediada no chamado K3 que ficava a três quilómetros de Farim, mas bem dentro da mata do Oio. Para chegar mais depressa à margem esquerda do Rio Cacheu o marido, ansioso para abraçar a sua esposa, pede ao condutor para ser ele a conduzir. A meio do percurso uma mina anticarro atira pelos ares os ocupantes da viatura.
Esta ocorrência vitimou o marido que vinha ao encontro da sua esposa. O condutor teve ferimentos ligeiros. Ninguém foge ao seu destino.
Esta enorme tragédia que terá deixado de luto duas famílias, teve lugar num espaço que eu percorri sozinho para me encontrar com um conterrâneo que estava na Companhia que estava a construir o acampamento do K3.
Uma segunda situação muito menos marcante, mas de algum modo chocante e relacionada com as mães que tanto sofreram.
No dia 5 de janeiro do ano de 1996, uma colega de trabalho comunica-me telefonicamente de que não iria comparecer ao serviço porque tinha falecido a sua tia, mãe do seu primo falecido em Angola. O seu primo era o Alferes Manuel Luís Kágado, natural de Évora.
Fui consultar a minha lista dos mortos na Guerra, e verifico que esta mãe faleceu no mesmo dia em que o seu filho tinha sido morto. O Alferes Kágado foi morto em combate em Angola no dia 5 de janeiro, igualmente numa sexta-feira, do ano de 1968.
Assiste-se a algumas queixas de falta de reconhecimento por parte dos Governos presentes depois de terminada a Guerra. Convém não esquecer de que a atitude dos Governos tem estado na mesma linha do reconhecimento dos antigos combatentes para com os seus antepassados.
Foi anunciado, faz poucos dias, uma homenagem às mães, que irá ter lugar na Escola Secundária de Sacavém no dia 17 de outubro. Concordo plenamente com a iniciativa, embora a considere bastante tardia. Como se diz em bom português, “Vale mais tarde que nunca”.
Os militares mobilizados tinham direito a 10 dias de férias para se irem despedir do pai, da mãe, dos irmãos, da namorada, alguns da esposa e restante família que muitos deles não voltariam a ver.
Recorde-se um altar que fica do lado direito da porta de entrada para a Capela dos Ossos no Convento de São Francisco na cidade de Évora, onde não havia espaço para mais fotos de militares que ao tempo se encontravam em cenários de guerra.
A compreensão para com determinadas situações nem sempre era a mais recomendada. Na CART 730 estava um soldado natural de Peniche que era pescador na vida civil. Não tinha grandes habilitações literárias, mas era detentor de muita cultura. Era corajoso e destemido o que não agradava muito ao comandante da Companhia. Era casado e foi pai já depois de estar na Guiné. Como tinha direito a Abono de Família mandou ir a certidão de nascimento do filho que não conhecia. Quando se dirigiu à Secretaria para entregar a Certidão de Nascimento ouviu uma frase que não me atrevo sequer a transcrever.
O amigo Peniche que não era de temperamento fácil perdeu o seu poder de encaixe, fez asneira e acabou por ser punido com pena de prisão disciplinar.
No contexto de partidas e chegadas o Artur foi um sortudo. Estava em Lisboa quando foi mobilizado e para a família estar em Lisboa ou na Guiné não era uma diferença significativa. Namorada também não tinha.
Embarquei no cais de Alcântara subindo sozinho a escadaria do Timor com uma enorme carga de anginas e um frio de rachar. Ia de tal maneira maltratado que quando cheguei ao cimo da escada houve um Oficial que me disse: - Vais para a guerra nesse estado… Vai, mas é para casa.
A bordo do Timor seguiu também as Companhias 763 e 762, onde ia integrado o nosso camarada Furriel Mário Fitas. Eram as primeiras companhias a partir com farda camuflada. Por essa razão recebem a designação de Periquitos.
Depois de estar na Guiné também tive direito a algumas Madrinhas de Guerra. Uma delas era Governanta em casa de uma Alta Individualidade. Era a senhora D. Amélia, que já não era propriamente uma teenager, mas que me enviou vários livros. Recebi, enviados por ela toda a coleção do Padre alemão Tihamer Toth, para além de muitos outros.
Como tive de ficar mais seis meses na Guiné, mandei por um amigo da terra, uma mala cheia de livros.
Durante todo o tempo de Serviço Militar fui ouvindo sempre os queixumes dos camaradas de armas muitos dos quais não se me aplicavam, mas nem por isso deixava de os sentir, mas de uma maneira bastante diferente.
Assisti muito recentemente, durante um almoço de antigos combatentes da Guiné, em que um dos presentes na mesma mesa, já com 83 anos, não conteve as lágrimas ao recordar a presença dos seus pais durante a sua partida para a Guiné.
A perda de familiares durante a ausência, era bastante dolorosa, mas não havia nada que permitisse ultrapassar a situação.
Quando em 9 de fevereiro de 1967 entrei no Uíge, encontrei logo um velho colega de trabalho e amigo que fazia parte da tripulação. Era o cozinheiro da Messe dos Oficiais Maquinistas do Barco. Durante toda a viagem de regresso nunca compareci no refeitório.
O desembarque teve lugar no cais de Alcântara no dia 14 de fevereiro, dia dos namorados. Tal como na partida também à chegada não estava ninguém à minha espera que eu desse por isso.
Apenas uma nota final: durante o meu tempo de Serviço Militar, nasceram os meus três irmãos mais novos. A produção era excelente.
Artur António da Conceição
SPM 2578
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Nota do editor
Último post da série de 29 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28387: Retalhos da vida militar (11): Levar a carta a Garcia (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
domingo, 4 de outubro de 2026
Guiné 61/74 - P28400: Parabéns a você (2531): Artur António da Conceição, ex-Soldado TRMS Inf / Condutor Auto da CART 730 / BART 733 (Bissorã, Jumbembem e Farim, 1964/66
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Nota do editor
Último post da série de 3 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28396: Parabéns a você (2530): Hélder Valério de Sousa, ex-Fur Mil TRMS / STM (Piche e Bissau, 1970/72)
Nota do editor
Último post da série de 3 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28396: Parabéns a você (2530): Hélder Valério de Sousa, ex-Fur Mil TRMS / STM (Piche e Bissau, 1970/72)
sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Guiné 61/74 - P28395: (Ex)citações (449): A velha placa que terá estado colocada em Mansoa (Artur Conceição, CART 730)
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 30 de Setembro de 2026:
Bom dia de trabalho Caríssimo Carlos Vinhal,
Por entender ser demasiado grande para incluir em Comentários decidi criar o texto que envio à consideração.
Um grande abraço com votos de muita saúde
Artur António da Connceição
Notas do editor
Vd. post de 29 de Setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28386: Para bom observador, meia palavra basta (8): qual a povoação, no sector oeste do CTIG, que ficava a 93 km de Bafatá, a leste?
Último post da série de 15 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28349: (Ex)citações (448): Os Antigos Combatentes e os medicamentos. O desastre do Rio Zambeze, em Moçambique, no dia 21 de Junho de 1969 (Artur Conceição, CART 730)
Bom dia de trabalho Caríssimo Carlos Vinhal,
Por entender ser demasiado grande para incluir em Comentários decidi criar o texto que envio à consideração.
Um grande abraço com votos de muita saúde
Artur António da Connceição
A velha Placa que terá estado colocada em Mansoa
A placa é bonita e o prémio está muito bem entregue
A localidade que se encontra a 48 km de Bissau de acordo com as medições actuais é a localidade de Binar como podemos observar na figura abaixo.
Na velha placa que será anterior a 1965, atendendo à farda usada pelos dois militares, indica a localidade de Bambadinca a 85 Km. Como pode ser verificado na figura a seguir a distância foi reduzida em 13 Km.
A distância entre Mansoa e Encheia passou de 18 para 44 Km como pode
A distância entre Mansoa e Bissau foi aumentada em 12 Km, como pode ser verificado na figura abaixo.
_____________Notas do editor
Vd. post de 29 de Setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28386: Para bom observador, meia palavra basta (8): qual a povoação, no sector oeste do CTIG, que ficava a 93 km de Bafatá, a leste?
Último post da série de 15 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28349: (Ex)citações (448): Os Antigos Combatentes e os medicamentos. O desastre do Rio Zambeze, em Moçambique, no dia 21 de Junho de 1969 (Artur Conceição, CART 730)
terça-feira, 29 de setembro de 2026
Guiné 61/74 - P28387: Retalhos da vida militar (11): Levar a carta a Garcia (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 23 de Setembro de 2026:Levar a carta a Garcia
A expressão "levar a carta a Garcia" significa cumprir uma missão difícil ou impossível com eficácia, iniciativa e sem hesitação, superando todos os obstáculos. Terá sido isto que me aconteceu quando fui mobilizado para o Comando Territorial Independente da Guiné, CTIG.
Um dos meus três patrões civis era o Senhor GARCIA. Dos três era o mais mau de aturar e como se isso não bastasse era pai de um filho com uma deficiência psíquica que também gostava de mandar.
Fui mobilizado e vim com guia de marcha para o RAL 1, em Lisboa, para me apresentar ao senhor Capitão GARCIA Leandro. Embarquei a 11 de fevereiro de 1965, a bordo Navio Timor, cheguei a Bissau a 17 e logo que houve coluna militar com destino a Bissorã lá parti para me apresentar ao Senhor Comandante da CART 730 Capitão Amaro Rodrigues GARCIA.
Passado cerca de mês e meio estava em consulta externa em Brá. Era norma o pessoal de transmissões em consulta externa irem fazer turnos ao Quartel General.
Também me calharam uns quantos turnos onde ficava às ordens do Senhor Capitão GARCIA dos Santos.
Senhor Capitão Garcia dos Santos tinha sempre a porta do seu Gabinete aberta. Sempre que aparecia um novato também chamado de maçarico, era-lhe feito o batismo. A missão era levar algo ao senhor Capitão. O senhor Capitão não respondia à pergunta que o maçarico lhe fazia.
Dá licença meu Capitão? E ficava à espera da resposta que não vinha. Então a tarefa dava para o turno interno. Com o Senhor Capitão Garcia dos Santos era assim. Fazia a pergunta e entrava-se de imediato. Se o senhor Capitão não pudesse atender de imediato, o que raramente acontecia, respondia, aguarda um minuto ou coisa parecida.
Todos sabemos que a expressão “Levar a carta a Garcia” tem outra origem, mas em meu entender esta também não ficava mal aplicada.
Voltando um pouco atrás também o senhor Capitão Garcia Leandro tinha uma caraterística muito especial, que era a de entender que todos os soldados eram provenientes das obras ou do sector agrícola. Na escala de serviço havia uma tarefa designada por Brigada da Pedra. O senhor Capitão andava a fazer uma vala com mais de 100 metros de comprimento com um metro de profundidade e 50 cm de largura. Para a Brigada da Pedra eram escalados apenas os soldados. Este senhor Capitão Garcia Leandro que já tinha chegado ao Posto de Capitão ainda não tinha percebido de que a origem social de Cabos e Soldados era mais ou menos a mesma.
No dia em que entrei na escala da Brigada da Pedra, o meu colega de brigada perguntou-me se eu queria usar a pá ou a picareta, respondi que queria a pá, quando ele acabou o trabalho de picareta, eu disse-lhe que havia mudado de ideias, toma lá a pá e dá cá a picareta. Quando o meu colega de brigada percebeu que tinha de fazer tudo sozinho foi fazer queixa, e com toda a razão. O castigo foi: Guarda ou Piquete todos os dias, por me ter recusado a trabalhar de pedreiro. Já tinha trabalhado em muitas profissões, mas de pedreiro nunca tinha experimentado.
Ao contrário do que havia acontecido em Setúbal, na Guiné ninguém se terá apercebido da segunda especialidade de condutor auto. Logo na primeira saída deram-me um PRC10 e um “carregador” para transportar o rádio.
Em Jumbembem havia um Unimog adaptado e todo revestido com chapa de bidons e sacos de areia e com uma cobertura feita também de chapas de bidons. Este Unimog também chamado de “Palucha” tinha atribuído um condutor que ou era o Alberto ou o Pato. Nas colunas dominicais para ir a Farim levar a correspondência emitida, a “Palucha” ficava às ordens do pelotão que ficava junto ao Rio Lamel a manter a segurança. Este serviço salvo muito rara exceção cabia ao Artur.
Sempre que era o terceiro pelotão a ficar a fazer segurança, o Alferes Crespo refugiava-se dentro da “palucha” onde ouvíamos o programa Música na Estrada, programa de discos pedidos emitido pela Emissora Nacional. Para sintonizar a Emissora Nacional, o Unimog tinha de estar no local exacto, isto queria dizer que a sintonia cabia também ao condutor da “palucha”. Um metro mais atrás ou mais à frente fazia toda a diferença. Com o Alberto, “O pachorras” da Companhia, a coisa era fácil. Com o Pato era mais difícil a sintonia. O Alberto era de tal maneira calmo que um domingo em que não ia a conduzir a “palucha”, mas sim um Unimog, pregou um susto à rapaziada.
A velocidade entre Jumbembem e o Rio Lamel era nos limites. A estrada tinha a picagem feita porque a CART 732 vinha sempre à frente. A dado momento o amigo Alberto despista-se, entra pela mata dentro com os ocupantes todos aos gritos foi sempre conseguindo desviar-se de todas as árvores que lhe apareceram pela frente. Quando conseguiu parar o Unimog, meteu a marcha atrás e fez questão de voltar a entrar na picada no mesmo sítio onde tinha saído.
Para além do um enorme “cagaço”, não aconteceu mais nada.
Para terminar quero apenas deixar um bem-haja ao senhor Alferes João José Andrade Crespo pela amizade. Tantas foram as vezes que passou pelo Posto de Rádio e disse: Artur quando tiveres uma aberta passa pela Cantina.
Os radiotelegrafistas e os radiotelegrafistas condutor auto, eram tratados como radiotelegrafistas. Da mesma maneira também os Transmissões Condutor auto eram tratados como transmissões.
Também me calharam uns quantos turnos onde ficava às ordens do Senhor Capitão GARCIA dos Santos.
Senhor Capitão Garcia dos Santos tinha sempre a porta do seu Gabinete aberta. Sempre que aparecia um novato também chamado de maçarico, era-lhe feito o batismo. A missão era levar algo ao senhor Capitão. O senhor Capitão não respondia à pergunta que o maçarico lhe fazia.
Dá licença meu Capitão? E ficava à espera da resposta que não vinha. Então a tarefa dava para o turno interno. Com o Senhor Capitão Garcia dos Santos era assim. Fazia a pergunta e entrava-se de imediato. Se o senhor Capitão não pudesse atender de imediato, o que raramente acontecia, respondia, aguarda um minuto ou coisa parecida.
Todos sabemos que a expressão “Levar a carta a Garcia” tem outra origem, mas em meu entender esta também não ficava mal aplicada.
Voltando um pouco atrás também o senhor Capitão Garcia Leandro tinha uma caraterística muito especial, que era a de entender que todos os soldados eram provenientes das obras ou do sector agrícola. Na escala de serviço havia uma tarefa designada por Brigada da Pedra. O senhor Capitão andava a fazer uma vala com mais de 100 metros de comprimento com um metro de profundidade e 50 cm de largura. Para a Brigada da Pedra eram escalados apenas os soldados. Este senhor Capitão Garcia Leandro que já tinha chegado ao Posto de Capitão ainda não tinha percebido de que a origem social de Cabos e Soldados era mais ou menos a mesma.
No dia em que entrei na escala da Brigada da Pedra, o meu colega de brigada perguntou-me se eu queria usar a pá ou a picareta, respondi que queria a pá, quando ele acabou o trabalho de picareta, eu disse-lhe que havia mudado de ideias, toma lá a pá e dá cá a picareta. Quando o meu colega de brigada percebeu que tinha de fazer tudo sozinho foi fazer queixa, e com toda a razão. O castigo foi: Guarda ou Piquete todos os dias, por me ter recusado a trabalhar de pedreiro. Já tinha trabalhado em muitas profissões, mas de pedreiro nunca tinha experimentado.
Ao contrário do que havia acontecido em Setúbal, na Guiné ninguém se terá apercebido da segunda especialidade de condutor auto. Logo na primeira saída deram-me um PRC10 e um “carregador” para transportar o rádio.
Em Jumbembem havia um Unimog adaptado e todo revestido com chapa de bidons e sacos de areia e com uma cobertura feita também de chapas de bidons. Este Unimog também chamado de “Palucha” tinha atribuído um condutor que ou era o Alberto ou o Pato. Nas colunas dominicais para ir a Farim levar a correspondência emitida, a “Palucha” ficava às ordens do pelotão que ficava junto ao Rio Lamel a manter a segurança. Este serviço salvo muito rara exceção cabia ao Artur.
Sempre que era o terceiro pelotão a ficar a fazer segurança, o Alferes Crespo refugiava-se dentro da “palucha” onde ouvíamos o programa Música na Estrada, programa de discos pedidos emitido pela Emissora Nacional. Para sintonizar a Emissora Nacional, o Unimog tinha de estar no local exacto, isto queria dizer que a sintonia cabia também ao condutor da “palucha”. Um metro mais atrás ou mais à frente fazia toda a diferença. Com o Alberto, “O pachorras” da Companhia, a coisa era fácil. Com o Pato era mais difícil a sintonia. O Alberto era de tal maneira calmo que um domingo em que não ia a conduzir a “palucha”, mas sim um Unimog, pregou um susto à rapaziada.
A velocidade entre Jumbembem e o Rio Lamel era nos limites. A estrada tinha a picagem feita porque a CART 732 vinha sempre à frente. A dado momento o amigo Alberto despista-se, entra pela mata dentro com os ocupantes todos aos gritos foi sempre conseguindo desviar-se de todas as árvores que lhe apareceram pela frente. Quando conseguiu parar o Unimog, meteu a marcha atrás e fez questão de voltar a entrar na picada no mesmo sítio onde tinha saído.
Para além do um enorme “cagaço”, não aconteceu mais nada.
Para terminar quero apenas deixar um bem-haja ao senhor Alferes João José Andrade Crespo pela amizade. Tantas foram as vezes que passou pelo Posto de Rádio e disse: Artur quando tiveres uma aberta passa pela Cantina.
Os radiotelegrafistas e os radiotelegrafistas condutor auto, eram tratados como radiotelegrafistas. Da mesma maneira também os Transmissões Condutor auto eram tratados como transmissões.
Os radiotelegrafistas eram 1.ºs cabos e tinham direito ao celebre prémio de especialidade, os soldados tinham só os 400 pesos. Os premiados pagavam o azeite para regar a salada que era caro como caraças.
Um grande Abraço para aqueles que ainda o possam receber, com muita amizade. E não se esqueçam! Vamos tornar o blogue do Luis Graça e Camaradas da Guiné cada vez mais novo com os cada vez mais velhos. Reajam porra…! Porra não carago…! que eu sou do Norte.
Artur Conceição
SPM 2578
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Nota do editor
Último post da série de 22 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28369: Retalhos da vida militar (10): As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
Um grande Abraço para aqueles que ainda o possam receber, com muita amizade. E não se esqueçam! Vamos tornar o blogue do Luis Graça e Camaradas da Guiné cada vez mais novo com os cada vez mais velhos. Reajam porra…! Porra não carago…! que eu sou do Norte.
Artur Conceição
SPM 2578
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Nota do editor
Último post da série de 22 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28369: Retalhos da vida militar (10): As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
domingo, 27 de setembro de 2026
Guiné 61/74 - P28379: Humor de caserna (294): "Periquito hoje, velhinho um dia"...
O capelão também ajudava à festa...na receção ao "periquito"... Também ele um dia fora "praxado", também ele um dia fora "periquito"...

Terão sido as bajudas fulas quando chegaram ao cais para oferecer ao novo contingente os seus préstimos de lavandeiras e se depararam com uma formatura de soldados todos vestidos de verde, que os batizaram: "Iiih!, jubi ! Agora cá tem maçarico, só manga de periquito".
(Conta o Zé Botelho Colaço, um VCC, da batalha do Como, jan-mar de 1964)
Duas coisas em que o burro do "artista gráfico" da IA nunca acerta: a p*ta da G3 e a m*rda do quico!
Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA (ChatGPT/OpenA).
Nota do editor LG:
Último poste da série : 26 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28377: Humor de caserna (293): "Salta, periquito, salta!"...
Último poste da série : 26 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28377: Humor de caserna (293): "Salta, periquito, salta!"...
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terça-feira, 22 de setembro de 2026
Guiné 61/74 - P28369: Retalhos da vida militar (10): As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
Guiné > Região do Oio > Jumbembem > CART 730 (1965/67) > Estes eram meninos de Jumbembem que eu gostava de ensinar.
Foto: © Artur Conceição
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 9 de Setembro de 2026:
As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão
Tendo em conta vários factores, este episódio terá acontecido em novembro de 1965 em Jumbembem. A CART 730 chegou à Guiné em outubro do ano de 1964. Era prática ao fim de um ano de Guiné vir de férias à Metrópole. Esta prática não era uma prática geral, mas era prática para Oficiais e Sargentos. Para as praças era muito rara, era quase exclusiva para os contemplados com o chamado Prémio do Governador Geral da Guiné, atribuído por actos valorosos de alguns militares.
O comandante da CART 730, Amaro Rodrigues Garcia, encontrava-se de férias na Metrópole e o comando da CART 730 estava entregue ao Alferes Francisco Miranda Ferreira, que penso que tal como o Alferes Orlando Valdez já terá falecido, por ser o mais antigo dos oficiais presentes. Tinha sido o dia mensal da ida a Farim para buscar os mantimentos para o mês. Acontece que, por acaso, naquele mês vinham algumas galinhas que não ultrapassariam a dúzia. Perante quantidade tão reduzida não faria muito sentindo irem para o rancho geral das praças.
Assim foi decidido por quem tinha poderes para o acto, de que as galinhas iriam ser consumidas nas Messes dos Oficiais e dos Sargentos.
Quando as Praças tiveram conhecimento da decisão que havia sido tomada, resolveram apresentar o seu protesto.
Ao final da tarde, já depois de todas as galinhas terem regressado ao seu poleiro, resolveram saltar para cima dos Unimogs e durante mais de uma hora fizeram uma serenata junto das Messes. Para o efeito foi utilizada a música e letra de uma canção muito usada ao tempo e que era cantada pelo Conjunto de António Mafra.
Ho senhora Marquinhas olhe que suas galinhas fugiram do capoeiro.
Ho senhora Marquinhas cuidado com as suas galinhas porque o meu galo é solteiro
O Alferes Francisco Ferreira, sobre quem caía toda a contestação, refugiou-se no Posto de Rádio e aguardou que os ânimos se acalmassem.
O Alferes Ferreira era uma excelente joia de pessoa e toda a Companhia gostava muito dele. No dia seguinte tudo tinha passado e as galinhas foram consumidas de forma pacífica.
Toda a Companhia tinha muita consideração pelo Alferes Chico Ferreira, mas confesso que tive pena dele quando o vi perante uma situação que não era de perto nem de longe invejável.
Quero deixar aqui mais uma memória que eu encontrei.
O nome do criador deste espaço tem a afinidade com o meu nome. Senão vejamos:
O nome Luís Henriques Graça, filho do Henrique e da Graça tem alguma afinidade com:
O nome Artur António da Conceição, filho do António e da Conceição.
O meu padrinho, Hipólito Fernandes Nogueira, que já vai a caminho dos 95, que esteve prisioneiro na Índia, ainda hoje quando vê o seu primeiro afilhado que adquiriu logo aos 10 anos, ainda exclama, olha o Artur do António e da Conceição!
Artur António da Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578
Diácono das praças da CART 730
Em 7-9-2026
_____________
Nota do editor
Último post da série de 8 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28332: Retalhos da vida militar (9): Couves para a Ceia de Consoada (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
Foto: © Artur Conceição
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 9 de Setembro de 2026:
As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão
Tendo em conta vários factores, este episódio terá acontecido em novembro de 1965 em Jumbembem. A CART 730 chegou à Guiné em outubro do ano de 1964. Era prática ao fim de um ano de Guiné vir de férias à Metrópole. Esta prática não era uma prática geral, mas era prática para Oficiais e Sargentos. Para as praças era muito rara, era quase exclusiva para os contemplados com o chamado Prémio do Governador Geral da Guiné, atribuído por actos valorosos de alguns militares.
O comandante da CART 730, Amaro Rodrigues Garcia, encontrava-se de férias na Metrópole e o comando da CART 730 estava entregue ao Alferes Francisco Miranda Ferreira, que penso que tal como o Alferes Orlando Valdez já terá falecido, por ser o mais antigo dos oficiais presentes. Tinha sido o dia mensal da ida a Farim para buscar os mantimentos para o mês. Acontece que, por acaso, naquele mês vinham algumas galinhas que não ultrapassariam a dúzia. Perante quantidade tão reduzida não faria muito sentindo irem para o rancho geral das praças.
Assim foi decidido por quem tinha poderes para o acto, de que as galinhas iriam ser consumidas nas Messes dos Oficiais e dos Sargentos.
Quando as Praças tiveram conhecimento da decisão que havia sido tomada, resolveram apresentar o seu protesto.
Ao final da tarde, já depois de todas as galinhas terem regressado ao seu poleiro, resolveram saltar para cima dos Unimogs e durante mais de uma hora fizeram uma serenata junto das Messes. Para o efeito foi utilizada a música e letra de uma canção muito usada ao tempo e que era cantada pelo Conjunto de António Mafra.
Ho senhora Marquinhas olhe que suas galinhas fugiram do capoeiro.
Ho senhora Marquinhas cuidado com as suas galinhas porque o meu galo é solteiro
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O Alferes Francisco Ferreira, sobre quem caía toda a contestação, refugiou-se no Posto de Rádio e aguardou que os ânimos se acalmassem.
O Alferes Ferreira era uma excelente joia de pessoa e toda a Companhia gostava muito dele. No dia seguinte tudo tinha passado e as galinhas foram consumidas de forma pacífica.
Toda a Companhia tinha muita consideração pelo Alferes Chico Ferreira, mas confesso que tive pena dele quando o vi perante uma situação que não era de perto nem de longe invejável.
Quero deixar aqui mais uma memória que eu encontrei.
O nome do criador deste espaço tem a afinidade com o meu nome. Senão vejamos:
O nome Luís Henriques Graça, filho do Henrique e da Graça tem alguma afinidade com:
O nome Artur António da Conceição, filho do António e da Conceição.
O meu padrinho, Hipólito Fernandes Nogueira, que já vai a caminho dos 95, que esteve prisioneiro na Índia, ainda hoje quando vê o seu primeiro afilhado que adquiriu logo aos 10 anos, ainda exclama, olha o Artur do António e da Conceição!
Artur António da Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578
Diácono das praças da CART 730
Em 7-9-2026
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Nota do editor
Último post da série de 8 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28332: Retalhos da vida militar (9): Couves para a Ceia de Consoada (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)
terça-feira, 15 de setembro de 2026
Guiné 61/74 - P28349: (Ex)citações (448): Os Antigos Combatentes e os medicamentos. O desastre do Rio Zambeze, em Moçambique, no dia 21 de Junho de 1969 (Artur Conceição, CART 730)
1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 13 de Setembro de 2026:
Caríssimo amigo Carlos Vinhal,
Antes de tudo os meus agradecimentos pelo esclarecimento, pena que não chegue a muitas pessoas ainda muito mal esclarecidas em relação a benefícios dados aos antigos combatentes. No caso dos transportes é uma desgraça. No tocante às viúvas é um lamento. Só na minha aldeia são 6 viúvas, uma irmã, uma cunhada e duas primas. Pouco ou nada sabem.
Quem vai à Farmácia aviar os meus medicamentos é sempre a minha mulher. Ela sabe ou pelo menos ouviu dizer que os antigos combatentes tem direito a medicamentos gratuitos.
Cada vez que paga algo pelos meus medicamentos, reclama e é informada na Farmácia de que só não paga se usar os medicamentos genéricos. Quanto à eficácia de uns e outros não sinto nenhuma autoridade para me pronunciar.
Fui sempre muito anti medicamentos. Durante os dois anos de Guiné nunca tomei os comprimidos para o paludismo e contudo nunca tive tal coisa.
Depois de ter passado à disponibilidade, fui durante cerca de meio ano obrigado a levantar uma carga de medicamentos num Departamento Militar, situado na Rua da Estefânia.
A justificação era: como não tiveste paludismo na Guiné vais ter paludismo em Lisboa, mas com muito mais gravidade.
Ouvi um médico recém chegado ao Hospital de Bissau exclamar: dão Quinino à malta? Mas isto mata!
Penso que ele se referia ao celebre “Daraprin”.
Em Brá, onde estavam os três Grupos de Comandos e que no início do ano de 1965 tinham o apoio em termos de refeições, por parte da CCS do Batalhão 733. As praças tinham direito a comer em pratos, mas quando levantavam o prato às quintas-feiras estava por baixo o comprimido já descascado. Com o dedo médio em forma de bilharda lá vai ele para o mais longe possível.
Durante o tempo em que fui dador de sangue raramente os responsáveis pela tiragem acreditavam que ter estado na Guiné e não ter tido paludismo não era real. E lá vinha a picada no dedo que era mais difícil que dar sangue.
A tragédia referida em (2) é a tragédia do Rio Zambeze em Moçambique na tarde do dia 21 de junho de 1969. O batelão São Martinho naufragou com 150 homens e 30 viaturas a bordo.
Morreram 101 militares e 5 tripulantes.
Um grande abraço com votos de muita saúde
Sempre ao dispor
Artur António da Conceição
2. A TRAGÉDIA DO RIO ZAMBEZE
O amigo Artur Conceição no seu Post anterior[1], quando referia o afundamento de uma jangada que tinha vitimado mais de uma centena, estava a falar concretamente da tragédia do Rio Zambeze, em Moçambique, ocorrida no dia 21 de Junho de 1969. Posteriormente enviou-nos uma listagem com os militares falecidos na transposição deste rio num batelão civil. Esta coluna militar deslocava-se de Lourenço Marques para Vila Cabral.
Pesquisando no Livro 1 - Tomo III - Moçambique - Mortos em Campanha - Edição da CECA, Lisboa 2014, elaborei a listagem abaixo.
Honremos a memória destes nossos 101 compatriotas que cedo demais encontraram a morte.
Transcrevemos, com a devida vénia, as páginas 716 a 718 do Livro 1 - Tomo III - Moçambique - Aspectos da Actividade Operacional - Edição da CECA, Lisboa 2012:
A tragédia do Zambeze
Pelas proporções que assumiu merece referência específica, o acidente ocorrido em 21 de Junho de 1969 durante a transposição do R. Zambeze, em Chupanga, num batelão civil, por uma coluna militar que, de Lourenço Marques, se dirigia para Vila Cabral.
Assim, em 09 de Junho de 1969 uma coluna militar comandada pelo Alferes Miliciano do GAC 6, Oscar David Firmino do Rosário e composta por 150 homens (1 Oficial, 1 Sargento e 148 Praças) e 30 viaturas saiu de Lourenço Marques com destino a Vila Cabral a fim de transportar pessoal e material para diversas Unidades sedeadas ao longo do percurso Lourenço Marques - Beira, Inhaminga - Chupanga (R. Zambeze) - Mopeia - Quelimane - Nampula - Belém - Vila Cabral.
A viagem até Chupanga (na margem direita do R. Zambeze) decorreu sem incidentes mas, aí chegados, no dia 15 de Junho, verificou-se que o batelão que efectuava a transposição do rio, pertencente ao Senhor Amancio Pedreiro, se encontrava avariado. Dois meses antes do acidente o batelão sofrera alterações não autorizadas pela Autoridade Marítima que avisara o respectivo proprietário que não poderia utilizá-lo sem aprovação da Direcção Provincial dos Serviços de Marinha 12.
Por este motivo a coluna permaneceu em Chupanga até 21 de Junho data em que o batelão foi declarado reparado pelo proprietário.
Depois do Comandante da coluna ter perguntado ao dono do batelão se toda a coluna podia embarcar na mesma viagem e ter recebido como resposta que o batelão aguentava com mais peso que o do pessoal e material da coluna 13, deu-se início ao embarque cerca das 15H30. A distribuição da carga foi feita pelo proprietário que seguiu no batelão juntamente com a tripulação e o mecânico que procedera às reparações.
A travessia iniciou-se cerca das 16H30.
Quando se encontravam a meio do rio, duas das almadias, das três que suportavam a plataforma, tendo cada uma o seu motor, começaram a meter água e um dos motores parou.
Foi então ordenada, pelo proprietário, uma mudança de rumo que, ao contrário do pretendido, originou que a embarcação metesse ainda mais água e se afundasse em menos de um minuto. Eram cerca das 17HOO.
Agarrados a objectos que flutuavam e com auxílio generoso expontâneo de uma família autóctone que morava numa ilha perto - os Campíra - sobreviveram 50 homens.
Já de noite a notícia do desastre chegou a Mopeia tendo o Administrador e o pessoal do Destacamento Militar local prestado toda a assistência aos sobreviventes.
Avisadas as autoridades civis e militares, desenvolveu-se, logo a partir do dia seguinte, uma grande operação de busca de sobreviventes e de recolha e identificação de cadáveres em que se empenharam meios aéreos civis e militares, almadias tripuladas por autóctones, lanchas a motor e mergulhadores da Marinha.
Em 23 de Julho a situação era a seguinte:
- Militares falecidos e identificados, 68
- Militares falecidos, encontrados e não identificados, 23
- Militares desaparecidos, 9
- Militares sobreviventes ~150
Faleceram também o proprietário do Batelão e parte da tripulação.
Seguiu-se um período de recuperação do material (foram recuperados 8 Unimog 404 e 1 Unimog 411) e as transladações, solicitadas pelas famílias, dos corpos dos militares inicialmente sepultados no cemitério de Mopeia.
Nas conclusões do "Relatório Sumário sobre as causas prováveis do acidente que teve lugar durante a travessia do R. Zambeze por uma coluna militar, em 21 de Junho de 1969 e suas consequências elaborado pelo comando do Sector "D", é referido:
"A existência do batelão que transportou a coluna e a sua actividade eram ilegais;
- O batelão não oferecia as condições de segurança que se julgam indispensáveis;
- As condições de navegação oferecidas pelo R. Zambeze no dia, hora e local onde se deu o acidente não eram favoráveis às condições do batelão e à carga transportada;
- Admite-se que foram tomadas, na generalidade, medidas de segurança para evitar a deslocação de viaturas sobre a plataforma;
- O comportamento dos militares durante a travessia foi disciplinado e colaborante;
Consideram-se como causas prováveis do acidente as seguintes:
(1) Falta de condições de segurança do batelão;
(2) Más condições de navegação oferecidas pelo R. Zambeze;
(3) Manobra precipitada de mudança de direcção".
Este desastre tocou profundamente toda a população de Moçambique e também da Metrópole de onde era oriunda parte dos militares falecidos.
Contudo não deixaram de surgir comentários tendentes à atribuição de responsabilidades aos militares.
C.V.
_____________
Notas do editor:
[1] - Vd. poste de 13 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28343: (In)citações (290): Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes (Artur Conceição da CART 730)
Último post da série de 12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28092: (Ex)citações (447): O pessoal das transmissões: músicos, de talento (tirando eu que só tocava ferrinhos): o que é é feito de vocês, camaradas, Luís Dutra (já falecido), Eduardo Pinto, Victor Barros, Carlos Lã, Fernando Cruz, Fernando Marques, António Camilo, Miguel Pacheco, José Fanha, Nélson Batalha (já falecido), e outros, do meu curso de transmissões... (Hélder Sousa)
Caríssimo amigo Carlos Vinhal,
Antes de tudo os meus agradecimentos pelo esclarecimento, pena que não chegue a muitas pessoas ainda muito mal esclarecidas em relação a benefícios dados aos antigos combatentes. No caso dos transportes é uma desgraça. No tocante às viúvas é um lamento. Só na minha aldeia são 6 viúvas, uma irmã, uma cunhada e duas primas. Pouco ou nada sabem.
Quem vai à Farmácia aviar os meus medicamentos é sempre a minha mulher. Ela sabe ou pelo menos ouviu dizer que os antigos combatentes tem direito a medicamentos gratuitos.
Cada vez que paga algo pelos meus medicamentos, reclama e é informada na Farmácia de que só não paga se usar os medicamentos genéricos. Quanto à eficácia de uns e outros não sinto nenhuma autoridade para me pronunciar.
Fui sempre muito anti medicamentos. Durante os dois anos de Guiné nunca tomei os comprimidos para o paludismo e contudo nunca tive tal coisa.
Depois de ter passado à disponibilidade, fui durante cerca de meio ano obrigado a levantar uma carga de medicamentos num Departamento Militar, situado na Rua da Estefânia.
A justificação era: como não tiveste paludismo na Guiné vais ter paludismo em Lisboa, mas com muito mais gravidade.
Ouvi um médico recém chegado ao Hospital de Bissau exclamar: dão Quinino à malta? Mas isto mata!
Penso que ele se referia ao celebre “Daraprin”.
Em Brá, onde estavam os três Grupos de Comandos e que no início do ano de 1965 tinham o apoio em termos de refeições, por parte da CCS do Batalhão 733. As praças tinham direito a comer em pratos, mas quando levantavam o prato às quintas-feiras estava por baixo o comprimido já descascado. Com o dedo médio em forma de bilharda lá vai ele para o mais longe possível.
Durante o tempo em que fui dador de sangue raramente os responsáveis pela tiragem acreditavam que ter estado na Guiné e não ter tido paludismo não era real. E lá vinha a picada no dedo que era mais difícil que dar sangue.
A tragédia referida em (2) é a tragédia do Rio Zambeze em Moçambique na tarde do dia 21 de junho de 1969. O batelão São Martinho naufragou com 150 homens e 30 viaturas a bordo.
Morreram 101 militares e 5 tripulantes.
Um grande abraço com votos de muita saúde
Sempre ao dispor
Artur António da Conceição
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2. A TRAGÉDIA DO RIO ZAMBEZE
O amigo Artur Conceição no seu Post anterior[1], quando referia o afundamento de uma jangada que tinha vitimado mais de uma centena, estava a falar concretamente da tragédia do Rio Zambeze, em Moçambique, ocorrida no dia 21 de Junho de 1969. Posteriormente enviou-nos uma listagem com os militares falecidos na transposição deste rio num batelão civil. Esta coluna militar deslocava-se de Lourenço Marques para Vila Cabral.
Pesquisando no Livro 1 - Tomo III - Moçambique - Mortos em Campanha - Edição da CECA, Lisboa 2014, elaborei a listagem abaixo.
Honremos a memória destes nossos 101 compatriotas que cedo demais encontraram a morte.
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Transcrevemos, com a devida vénia, as páginas 716 a 718 do Livro 1 - Tomo III - Moçambique - Aspectos da Actividade Operacional - Edição da CECA, Lisboa 2012:
A tragédia do Zambeze
Pelas proporções que assumiu merece referência específica, o acidente ocorrido em 21 de Junho de 1969 durante a transposição do R. Zambeze, em Chupanga, num batelão civil, por uma coluna militar que, de Lourenço Marques, se dirigia para Vila Cabral.
Assim, em 09 de Junho de 1969 uma coluna militar comandada pelo Alferes Miliciano do GAC 6, Oscar David Firmino do Rosário e composta por 150 homens (1 Oficial, 1 Sargento e 148 Praças) e 30 viaturas saiu de Lourenço Marques com destino a Vila Cabral a fim de transportar pessoal e material para diversas Unidades sedeadas ao longo do percurso Lourenço Marques - Beira, Inhaminga - Chupanga (R. Zambeze) - Mopeia - Quelimane - Nampula - Belém - Vila Cabral.
A viagem até Chupanga (na margem direita do R. Zambeze) decorreu sem incidentes mas, aí chegados, no dia 15 de Junho, verificou-se que o batelão que efectuava a transposição do rio, pertencente ao Senhor Amancio Pedreiro, se encontrava avariado. Dois meses antes do acidente o batelão sofrera alterações não autorizadas pela Autoridade Marítima que avisara o respectivo proprietário que não poderia utilizá-lo sem aprovação da Direcção Provincial dos Serviços de Marinha 12.
Por este motivo a coluna permaneceu em Chupanga até 21 de Junho data em que o batelão foi declarado reparado pelo proprietário.
Depois do Comandante da coluna ter perguntado ao dono do batelão se toda a coluna podia embarcar na mesma viagem e ter recebido como resposta que o batelão aguentava com mais peso que o do pessoal e material da coluna 13, deu-se início ao embarque cerca das 15H30. A distribuição da carga foi feita pelo proprietário que seguiu no batelão juntamente com a tripulação e o mecânico que procedera às reparações.
A travessia iniciou-se cerca das 16H30.
Quando se encontravam a meio do rio, duas das almadias, das três que suportavam a plataforma, tendo cada uma o seu motor, começaram a meter água e um dos motores parou.
Foi então ordenada, pelo proprietário, uma mudança de rumo que, ao contrário do pretendido, originou que a embarcação metesse ainda mais água e se afundasse em menos de um minuto. Eram cerca das 17HOO.
Agarrados a objectos que flutuavam e com auxílio generoso expontâneo de uma família autóctone que morava numa ilha perto - os Campíra - sobreviveram 50 homens.
Já de noite a notícia do desastre chegou a Mopeia tendo o Administrador e o pessoal do Destacamento Militar local prestado toda a assistência aos sobreviventes.
Avisadas as autoridades civis e militares, desenvolveu-se, logo a partir do dia seguinte, uma grande operação de busca de sobreviventes e de recolha e identificação de cadáveres em que se empenharam meios aéreos civis e militares, almadias tripuladas por autóctones, lanchas a motor e mergulhadores da Marinha.
Em 23 de Julho a situação era a seguinte:
- Militares falecidos e identificados, 68
- Militares falecidos, encontrados e não identificados, 23
- Militares desaparecidos, 9
- Militares sobreviventes ~150
Faleceram também o proprietário do Batelão e parte da tripulação.
Seguiu-se um período de recuperação do material (foram recuperados 8 Unimog 404 e 1 Unimog 411) e as transladações, solicitadas pelas famílias, dos corpos dos militares inicialmente sepultados no cemitério de Mopeia.
Nas conclusões do "Relatório Sumário sobre as causas prováveis do acidente que teve lugar durante a travessia do R. Zambeze por uma coluna militar, em 21 de Junho de 1969 e suas consequências elaborado pelo comando do Sector "D", é referido:
"A existência do batelão que transportou a coluna e a sua actividade eram ilegais;
- O batelão não oferecia as condições de segurança que se julgam indispensáveis;
- As condições de navegação oferecidas pelo R. Zambeze no dia, hora e local onde se deu o acidente não eram favoráveis às condições do batelão e à carga transportada;
- Admite-se que foram tomadas, na generalidade, medidas de segurança para evitar a deslocação de viaturas sobre a plataforma;
- O comportamento dos militares durante a travessia foi disciplinado e colaborante;
Consideram-se como causas prováveis do acidente as seguintes:
(1) Falta de condições de segurança do batelão;
(2) Más condições de navegação oferecidas pelo R. Zambeze;
(3) Manobra precipitada de mudança de direcção".
Este desastre tocou profundamente toda a população de Moçambique e também da Metrópole de onde era oriunda parte dos militares falecidos.
Contudo não deixaram de surgir comentários tendentes à atribuição de responsabilidades aos militares.
C.V.
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Notas do editor:
[1] - Vd. poste de 13 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28343: (In)citações (290): Eventos de iniciativa de Antigos Combatentes (Artur Conceição da CART 730)
Último post da série de 12 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28092: (Ex)citações (447): O pessoal das transmissões: músicos, de talento (tirando eu que só tocava ferrinhos): o que é é feito de vocês, camaradas, Luís Dutra (já falecido), Eduardo Pinto, Victor Barros, Carlos Lã, Fernando Cruz, Fernando Marques, António Camilo, Miguel Pacheco, José Fanha, Nélson Batalha (já falecido), e outros, do meu curso de transmissões... (Hélder Sousa)
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