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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28408: Retalhos da vida militar (12): Os que ficaram e viveram as partidas (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)


1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 9 de Setembro de 2026:

Boa tarde meu caro Carlos Vinhal,
Mais um pequeno texto que escrevi.
As cartas a Garcia ainda aguardam a sua vez?

Um grande Abraço com votos de muita saúde.
Artur António da Conceição



Os que ficaram e viveram as partidas

A frente da retaguarda

O tema partidas e chegadas não tem sido muito utilizado pelos muitos que enviam as suas vivências para o Blogue.

Cheguei a Lisboa no dia 6 de agosto de 1959 e fiquei a morar no bairro da Ajuda. A freguesia da Ajuda era e ainda é uma zona de muitos quartéis. Lá existe a Rua dos Quartéis, e a Travessa de Cima dos Quartéis. A partir do ano de 1961 esta zona passou a ser uma zona abundantemente frequentada por militares cujo destino era Angola. Para apoio a estas unidades militares foi adicionado o espaço da antiga cordoaria na Rua Junqueira de onde partiram os primeiros Batalhões com destino a Angola. Os embarques tinham lugar em Alcântara e na Rocha do Conde de Óbidos. Eram momentos muito emocionantes e dramáticos para os envolvidos.

Foi neste espaço de tempo que surgiu a célebre frase do Dr. Oliveira Salazar. Para Angola Já…! E em força...!

O último batalhão que terá passado pela Cordoaria terá deixado o espaço inabitável com a sua manifestação de protesto. Pelas ruas ouvia-se o sussurro de “Angola é nossa…”, “Angola é nossa...”.

Um amigo da minha aldeia veio ter comigo a Lisboa a pedir para o levar ao Quartel de Infantaria 1 para onde tinha sido recrutado, ao tempo localizado na Amadora. Quando ao fim de um mês o fui procurar, já o amigo João estava em Angola a defender a Fazenda Tentativa.

O objectivo primeiro de mais este pequeno retalho é deixar uma homenagem a todos aqueles, em especial às mães, que tanto sofreram, que não pegaram em armas para defender os ideais da Pátria, mas que na retaguarda sofreram bem mais do que nós. Éramos jovens, tínhamos uma maneira diferente de encarar a realidade que se nos deparava, alternamos momentos de sofrimento com bons momentos que ainda hoje recordamos com saudade. Somos pais, alguns são avós e isso leva-nos facilmente a compreender esse sofrimento de ansiedade permanente. Aqueles que nos viram partir e que carinhosamente nos receberam, merecem que nos curvamos em sua memória.

Sou pai de uma filha e avô de um neto a caminho dos 19 anos. Não consigo imaginar-me a assistir a uma despedida do meu neto a caminho de uma Guerra como foi a Guerra do Ultramar pela qual todos nós passámos.

Aconteceram situações de tal maneira chocantes que marcaram muitas pessoas para o resto da sua vida.

Permitam-me que recorde apenas duas que também me marcaram.

Uma esposa faz uma viagem de Lisboa a Bissau, para ir ao encontro do seu marido. Uma vez na Guiné, faz mais uma viagem até Farim. O seu marido estava a comandar a Companhia que estava sediada no chamado K3 que ficava a três quilómetros de Farim, mas bem dentro da mata do Oio. Para chegar mais depressa à margem esquerda do Rio Cacheu o marido, ansioso para abraçar a sua esposa, pede ao condutor para ser ele a conduzir. A meio do percurso uma mina anticarro atira pelos ares os ocupantes da viatura.

Esta ocorrência vitimou o marido que vinha ao encontro da sua esposa. O condutor teve ferimentos ligeiros. Ninguém foge ao seu destino.

Esta enorme tragédia que terá deixado de luto duas famílias, teve lugar num espaço que eu percorri sozinho para me encontrar com um conterrâneo que estava na Companhia que estava a construir o acampamento do K3.

Uma segunda situação muito menos marcante, mas de algum modo chocante e relacionada com as mães que tanto sofreram.

No dia 5 de janeiro do ano de 1996, uma colega de trabalho comunica-me telefonicamente de que não iria comparecer ao serviço porque tinha falecido a sua tia, mãe do seu primo falecido em Angola. O seu primo era o Alferes Manuel Luís Kágado, natural de Évora.

Fui consultar a minha lista dos mortos na Guerra, e verifico que esta mãe faleceu no mesmo dia em que o seu filho tinha sido morto. O Alferes Kágado foi morto em combate em Angola no dia 5 de janeiro, igualmente numa sexta-feira, do ano de 1968.

Assiste-se a algumas queixas de falta de reconhecimento por parte dos Governos presentes depois de terminada a Guerra. Convém não esquecer de que a atitude dos Governos tem estado na mesma linha do reconhecimento dos antigos combatentes para com os seus antepassados.

Foi anunciado, faz poucos dias, uma homenagem às mães, que irá ter lugar na Escola Secundária de Sacavém no dia 17 de outubro. Concordo plenamente com a iniciativa, embora a considere bastante tardia. Como se diz em bom português, “Vale mais tarde que nunca”.

Os militares mobilizados tinham direito a 10 dias de férias para se irem despedir do pai, da mãe, dos irmãos, da namorada, alguns da esposa e restante família que muitos deles não voltariam a ver.

Recorde-se um altar que fica do lado direito da porta de entrada para a Capela dos Ossos no Convento de São Francisco na cidade de Évora, onde não havia espaço para mais fotos de militares que ao tempo se encontravam em cenários de guerra.

A compreensão para com determinadas situações nem sempre era a mais recomendada. Na CART 730 estava um soldado natural de Peniche que era pescador na vida civil. Não tinha grandes habilitações literárias, mas era detentor de muita cultura. Era corajoso e destemido o que não agradava muito ao comandante da Companhia. Era casado e foi pai já depois de estar na Guiné. Como tinha direito a Abono de Família mandou ir a certidão de nascimento do filho que não conhecia. Quando se dirigiu à Secretaria para entregar a Certidão de Nascimento ouviu uma frase que não me atrevo sequer a transcrever.

O amigo Peniche que não era de temperamento fácil perdeu o seu poder de encaixe, fez asneira e acabou por ser punido com pena de prisão disciplinar.

No contexto de partidas e chegadas o Artur foi um sortudo. Estava em Lisboa quando foi mobilizado e para a família estar em Lisboa ou na Guiné não era uma diferença significativa. Namorada também não tinha.

Embarquei no cais de Alcântara subindo sozinho a escadaria do Timor com uma enorme carga de anginas e um frio de rachar. Ia de tal maneira maltratado que quando cheguei ao cimo da escada houve um Oficial que me disse: - Vais para a guerra nesse estado… Vai, mas é para casa.

A bordo do Timor seguiu também as Companhias 763 e 762, onde ia integrado o nosso camarada Furriel Mário Fitas. Eram as primeiras companhias a partir com farda camuflada. Por essa razão recebem a designação de Periquitos.

Depois de estar na Guiné também tive direito a algumas Madrinhas de Guerra. Uma delas era Governanta em casa de uma Alta Individualidade. Era a senhora D. Amélia, que já não era propriamente uma teenager, mas que me enviou vários livros. Recebi, enviados por ela toda a coleção do Padre alemão Tihamer Toth, para além de muitos outros.

Como tive de ficar mais seis meses na Guiné, mandei por um amigo da terra, uma mala cheia de livros.

Durante todo o tempo de Serviço Militar fui ouvindo sempre os queixumes dos camaradas de armas muitos dos quais não se me aplicavam, mas nem por isso deixava de os sentir, mas de uma maneira bastante diferente.

Assisti muito recentemente, durante um almoço de antigos combatentes da Guiné, em que um dos presentes na mesma mesa, já com 83 anos, não conteve as lágrimas ao recordar a presença dos seus pais durante a sua partida para a Guiné.

A perda de familiares durante a ausência, era bastante dolorosa, mas não havia nada que permitisse ultrapassar a situação.

Quando em 9 de fevereiro de 1967 entrei no Uíge, encontrei logo um velho colega de trabalho e amigo que fazia parte da tripulação. Era o cozinheiro da Messe dos Oficiais Maquinistas do Barco. Durante toda a viagem de regresso nunca compareci no refeitório.

O desembarque teve lugar no cais de Alcântara no dia 14 de fevereiro, dia dos namorados. Tal como na partida também à chegada não estava ninguém à minha espera que eu desse por isso.

Apenas uma nota final: durante o meu tempo de Serviço Militar, nasceram os meus três irmãos mais novos. A produção era excelente.

Artur António da Conceição
SPM 2578

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Nota do editor

Último post da série de 29 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28387: Retalhos da vida militar (11): Levar a carta a Garcia (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

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