1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Março de 2026:
Queridos amigos,
Era esperável, nesta fase da narrativa, que o capitão Brosselard nos desse mais detalhes sobre o que apreendeu da economia do Geba e nos desse um quadro mais aprofundado de Bissau. O que aconteceu é que nos veio contar as peripécias da viagem do seu colaborador pelo rio Corubal, onde foram apanhados pelo macaréu, acha que este rio, ao entrar no estuário do Geba, devia continuar a chamar-se rio Corubal, e, abruptamente, a narrativa já está em Ziguinchor, fala de Carabane com bastante pormenor e vai depois visitar a ponta Zozor. Iremos ver adiante quais foram as razões políticas e económicas que levaram a França a teimar em ficar com o controlo de Ziguinchor,mesmo sabendo da presença portuguesa ali há séculos.
Um abraço do
Mário
A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 15
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette
Mário Beja Santos
A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".
Recapitulando, o Capitão Brosselard descreve Bissau e as potencialidades económicas do rio Geba e dá-nos a saber que o senhor Galibert deixou o Kandiafara, viaja com uma lancha desmontável, enviou por via terrestre o seu intérprete e dois volumes de carga, impossíveis de transportar numa embarcação tão frágil, a lancha comporta um piloto, cinco homens e uma bagagem de 200Kg.
Damos novamente a palavra ao oficial francês. Na primeira parte da sua exploração, o senhor Galibert caiu num rápido do rio e correu grande perigo, vencido este foi surpreendido pelo macaréu que varria a foz do Corubal. Graças a um bloco de pedra no qual se puderam refugiar, os exploradores do Corubal escaparam a uma morte certa. Mas as águas não paravam de subir: foi um salve-se quem puder geral; os homens agarraram-se atrás do barco, que flutuava e ameaçava ser arrastado descontroladamente, abandonando no meio das ondas os cinco náufragos. Privados de víveres e de água doce há mais de um dia, os viajantes chegaram a Gã-Matjetja onde vive um rendeiro da Casa Blanchard que tem neste lugar uma casa telhada.
Mal chegados, acorreram de todas as direções ao mesmo tempo crianças, mulheres e velhos. Queriam ver a embarcação, olharam para ela como se fosse um ídolo, sem ousar aproximar-se. Quando se desmontou o barco e cada um dos viajantes guardou as partes desmontadas na roupa, as pessoas do lugar recusaram acreditar no que os outros diziam ter visto. Foi preciso prometer que se iria remontar o Breton para os deixarem sossegados. O batuque ressoava pelos arredores. Acorria gente das povoações Biafadas onde a notícia se espalhara.
No dia seguinte o senhor Galibert entrou no estuário do Geba onde se espraia o Corubal com uma largura de 1500 a 2000 metros. É, portanto, este rio que continua pelo estuário falsamente denominado de Geba (?). Em Bissau, o nosso companheiro organizou a coluna de abastecimento, de acordo com as instruções que recebera, e dispôs-se a cumprir a segunda parte da sua missão.
A 13 de março, ele embarcou acompanhado de todos os franceses bem como das autoridades portuguesas no veleiro Jean-Baptiste. Este afilado veleiro, célebre pelas viagens do senhor Olivier, Visconde de Sonderval, tinha nos seus porões os abastecimentos das comissões que o senhor Galibert devia fazer chegar à povoação de Geba.
Ele pensava ter de percorrer um rio imensamente largo, como vem indicado nas cartas geográficas. Não encontrou no princípio mais do que um leito de 300 metros, bordejado de lamas cobertas por arvoredo próprio do tarrafe, depois curvas e mais curvas, de modo que o Jean-Baptiste, veleiro de 30 toneladas, não podia navegar a não ser rebocado por uma canoa.
Em Fá, o senhor Galibert, ao tomar conhecimento que o barco tinha mais duas marés até chegar a Geba, partiu a pé com um guia da região.
Comentário meu: a narrativa dá surpreendentemente um salto, o Capitão Brosselard vai de imediato falar de Ziguinchor.
Uma curta navegação conduziu a comissão francesa à foz do Casamansa. Percorrendo um território de aluviões, este rio tem larguras bastante diferentes: até à altura de Selho, elas variam de uma a três milhas. As margens, até a uma curta distância da foz, são constituídas por uma série de ilhas sulcadas por bolanhas; elas diminuem à medida que sobe o rio, estão rodeadas de enormes mangueiras e de banhos de lama muito extensos; são muitas vezes cultivadas com arrozais. Ao longe, despontam florestas impenetráveis.
Todos os navios que entram no Casamansa param em Carabane, onde está instalada a alfândega. Estando o barco ancorado, o aspeto é bastante pitoresco: à esquerda, um belo estabelecimento pertencente à Casa Marcel e Prom, e um cais que permite a acostagem de pequenas embarcações; alguns belos poilões bordejam esta parte do rio; temos depois a escola do padre missionário e, contígua, a capela em madeira.
Na proximidade destes edifícios, há habitações contruídas à europeia representando os estabelecimentos das Casas Blanchard, Irmãos Maurel e Cª; as casas dos indígenas perfilam-se atrás; alguns conjuntos de palmeiras dominam todo este ambiente e, mais adiante, perto da direita, o posto de Carabane destaca-se pela brancura luminosa das suas paredes.
Uma alameda plantada de poilões e palmeiras bordeja o caminho que vai do posto à margem do rio. A natureza dos fundos obriga a que os navios fiquem ao largo para fazer as operações de carga e descarga em Carabane; e o estado do mar, raramente calmo, torna muitas vezes difícil o transbordo das embarcações para terra.
Na ponta Zozor, cuja beleza é admirável, os pescadores instalaram o seu aldeamento à sombra de uma maravilhosa floresta de palmeiras. Do rio vê-se um tipo de casa quadrangular contruída em madeira sobre estacas, estas têm cerca de dois metros de altura. Tendo sabido que esta habitação pertence à patroa e proprietária do lugar, chamada pomposamente pela gente da terra a rainha do Zozor, desci a terra para a cumprimentar. Acompanhado do Tenente Clerc, fui bater à porta da casa senhorial. Foi necessário subir por uma escada sobre a plataforma que dá acesso à habitação. Uma negra fez-nos entrar na casa. A princesa de Zozor é uma mulata possante, casada, ao que parece, com um funcionário de quem vive separada. As linhas do seu rosto mantêm-se bonitas, apesar de bem fornecidas de carnes.
Mandou-nos sentar nuns miseráveis escabelos e sentou-se num sofá que estava em cima de um pequeno estrado. É evidentemente ali que esta representante do regime feudal faz justiça.
Após cumprimentos, despedimo-nos desta Alteza e fomos explorar a região vizinha do domínio de Zozor.
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Porto de Ziguinchor
Imagens e bilhetes postais antigos de Ziguinchor, retirados do Google França
O Casamansa no contexto da República do Senegal
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Nota do editor
Último post da série de 30 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28391: Historiografia da presença portuguesa em África (546): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (14): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)








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