Fotos (e legenda): © António J. Pereira da Costa (2013). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (Gemini / Google)]
Cameconde era a guarnição militar portuguesa mais a sul, na região de Quitafine, na estrada fronteiriça Quebo-Cacine... Em 1968 era o batalhão que estava em Buba (BART 1896, 1966/68) quem defendia esta importante linha de fronteira...
1. Sobre Camemonde temos mais de 60 referências no blogue. É uma das muitas estações do nosso calvário na Guiné. Desde o princípio da guerra, foi sempre um osso muito duro de roer. Diversos camaradas nossos (aqui representados na Tabanca Grande) lá estiveram e por lá passaram (e por lá penaram...).
Estive a organizar uma lista dos "camedondenses" mas desapareceu, num daqueles "truques de magia" que, desgraçadamente, acontecem, de vez em quando, aos pobres dos editores (e também aos leitores, que nos comentam...): basta, às vezes, tocar na tecla errada... e é a morte do artista (irrecuperável, irremediável, irreversível).
Um gajo fica "piurso"... Mas não adianta partir o computador... O material tem sempre razão, aprendemos na tropa. Por isso, siga a Marinha...
O nosso último grão-tabanqueiro, o Fernando Villalôbos Filipe, (foto acima) foi um deles, um dos "camedondenses". E, por sinal, comandou a CART 6552/72 a quem coube a entrega (pacífica e planeada) das fracas instalações aos novos "senhores da guerra"... Em 19 de julho de 1974. No mesmo dia que Gadamael.
2. O José Vermelho, nosso grã-tabanaqueiro nº 471, ex-fur mil, CCAÇ 3520, Cacine, e CCAÇ 6, Bedanda, CIM Bolama (1972/74), descreveu Cameconde nestes termos realistas
(...) Cameconde era um destacamento de Cacine, distando 6/7 Kms entre si. Tinha uma forma mais ou menos rectangular, talvez aí de uns 50 por 70 mts., encravado no meio da mata, completamente isolado, sem qualquer população civil.
Era o destacamento das N/T situado mais a sul da Guiné. Tinha em permanência 1 Pelotão de Artilharia + 1 Grupo de Combate de Cacine, sendo este substituído mensalmente por outro, em regime rotativo.
Era feita uma coluna diária Cacine - Cameconde (com picagem) e volta. Nos primeiros meses de 1972, também fui um dos "turistas voluntários à força", convidado a visitar Cacoca... isto é... o pouco ou nada que restava dela! (...)
Quase meio século depois, o Patrício Ribeiro tirou umas chapas aos "restos arqueológicos" da presença dos tugas:
3. O Juvenal Candeias (ex-alf mil, CCAÇ 3520, Estrelas do Sul, Cacine e Cameconde e Guileje, 1971/74] ajudou-nos a melhor fazer o enquadramento de Cameconde na península de Quitáfine:
O PAIGC furtava-se sistematicamente ao contacto, optando por uma estratégia defensiva de protecção às populações que controlava, privilegiando as flagelações e a colocação de engenhos explosivos! Quem circulava a Sul de Cambaque (que distava cerca de 3 km de Cameconde) tinha como certo algumas surpresas no trilho! Provavelmente um campo de minas e a seguir (algum humor-negro), munições de Kalash espetadas no chão formando a palavra PAIGC!
O Quitáfine permitia ainda, ao PAIGC, um reabastecimento regular e seguro, processado a partir da República da Guiné, através de vários rios, em especial o Caraxe e o Camexibó! Ao dispositivo militar juntava-se uma mata densa intransponível!
Os paraquedistas, após uma operação no Quitáfine, só à noite conseguiram chegar a Cameconde, com grande dificuldade e orientados pelo clarão da queima de cargas de obus, em cima dos abrigos! O grupo de Marcelino da Mata, largado de helicóptero, fez um golpe de mão a Cabonepo, a base do PAIGC mais a Norte do Quitáfine, onde estaria instalado um posto transmissor. Quando chegou, após lenta progressão através da mata… não havia lá nada… a base tinha sido abandonada momentos antes!
O Quitáfine era, efectivamente, o santuário do PAIGC, desde o início da guerra! Foi ali que se realizou, na tabanca de Cassacá – a 15 Km de Cacine e a 8 Km de Cameconde -, em meados de fevereiro de 1964, o 1º Congresso do PAIGC, com a presença de Amílcar Cabral, Luís Cabral, Aristides Pereira e outras individualidades do Partido!
A CCaç 3520 tinha chegado ao porto de Cacine, a bordo da LDG Montante, em 24 de Janeiro de 1972, para render a CCaç 2726 – companhia açoriana comandada pelo Capitão Magalhães -, o homem que retorcia as pontas do bigode com cera e a quem o tabaco nunca faltava! Dizia-se mesmo, à boca pequena, que, quando o tabaco acabava em Cacine, o PAIGC deixava, no mato, uns macitos para o Capitão! Rumor ou realidade… ninguém sabe! Ficou por provar!
Decorria ainda o período de sobreposição, que se prolongou até 22 de fevereiro, quando foram recebidas instruções de Bissau, para ser preparada uma operação ao Quitáfine – Cabonepo e… Cassacá! (...)
4. Quase meio século depois, o Patrício Ribeiro tirou umas chapas aos "restos arqueológicos" da presença dos tugas:
Ainda hoje são impressionantes, as construções. (...)
A estrada que liga Cameconde, Cassacá, até Campeane, está em bom estado, ainda encontramos muita floresta frondosa, muito verdejante, esta zona é muito bonita. Onde se produz muita fruta; cola, laranja, ananás, banana, etc. Mas a plantação de caju, já está a chegar, para deitar a floresta abaixo.
A estrada passou a ser uma rua, com muitas casas durante alguns quilómetros muita população. Como está perto da fronteira, muitos vieram do outro lado (...)
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Nota do editor LG:




















1 comentário:
Luís Graça (by email)
9 out 2026 19:59
Caros "camecondenses":
A entrada, para o nosso blogue, do Fernando Villalôbos Filipe, comandante da última companhia que guarneceu Cameconde, a CART 6552/72, levou-me a "revisitar" aquele que foi o aquartelamento mais meridional da "nossa Guiné".
Sobre Cameconde temos mais de 60 referências no blogue. É uma das muitas estações do nosso calvário na Guiné. Desde o princípio da guerra, foi sempre um osso muito duro de roer. Diversos camaradas nossos (representados na Tabanca Grande) lá estiveram e por lá passaram (e por lá penaram...).
Tentei organizar uma lista dos "camedondenses" (e, nalguns casos, "vizinhos"...) mas desapareceu, num daqueles "truques de magia" que, desgraçadamente, acontecem, de vez em quando, aos pobres dos editores (e também aos leitores, que nos comentam...): basta, às vezes, tocar na tecla errada... e é a morte do artista.
Estou a reconstituir parcialmente a lista para vos dar conhecimento do último poste que vos pode interessar, sobre Cameconde (Parte I) (e que terá seguimento com a vossa boa vontade, ajuda e colaboração). E esperando que o enriqueçam com os vossos preciosos e indispensáveis comentários. Se o não conseguirem fazer na caixa dos comentários, podem fazê-lo através da caixa do email (que permite mandar em anexo fotos, textos mais extensos, documentos...).
Os vossos comentário são a "seiva", o "sangue" do blogue... Os editores e os autores esperam sempre o "feedback" crítico e complementar dos seus/nossos leitores. Se vos disser que perdi neste poste todo o dia de hoje concordarão que merecemos em contrapartida um pouco da vossa atenção...e carinho. Hé um trabalho oculto dos editores (eu e o Carlos Vinhal, no essencial, ao fim destes anos todos...) que não é conhecido....De resto precisamos, todos os dias, dos vossos contributos, já que o nosso blogue é feito por todos e para todos...
Haverá, ainda, muito por dizer dos "bravos" de Cameconde, desde o início da guerra até ao dia 19 de julho de 1974 em que aquele "resort... turístico" foi entregue aos "novos senhores da guerra"... juntamente com Gadamael.
Cameconde, tal como Cacine e Gadamael, aguentaram firmes até ao fim...Cacoca, Sangonhá, Gandembel, Balana, Ganturé, Guileje, Mejo, etc., foram retirados pelas NT... É um motivo de reflexão.
Com um alfabravo. Mantenhas. Luís Graça (e Carlos Vinhal)
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