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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28185: Historiografia da presença portuguesa em África (535): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Encontro aspetos surpreendentes nesta viagem do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada província da Guiné. Considero esta narrativa da melhor utilidade e sugiro a sua comparação com a do Tenente da Armada Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, já aqui publicada. Brosselard saiu de Bolama, que descreveu com detalhe, promete encontrar-se com Costa Oliveira em Kandiafara, no dia 12 de fevereiro, entretanto encontra-se com o rei dos Nalus, uma narrativa espantosa, e irá dar-nos seguidamente um retrato da visita que faz ao rio Nuno, dizendo erradamente que foi descoberto por Nuno Tristão em 1447 (Nuno Tristão foi assassinado no rio Gâmbia, norte da Grande Senegâmbia, nunca chegou a terras da Guiné e por conseguinte não podia ter chegado ao rio Nuno).

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3)
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro Guiné Bilhete de Identidade Tomo II.

Henri Brosselard descreveu Bolama, onde se veio a encontrar com Costa Oliveira, procurou organizar os aprovisionamentos para a expedição, irão ser expedidos para Bissau, combinou com Costa Oliveira encontro em Kandiafara em 12 de fevereiro, por se supor estar situada na vizinhança da linha fronteiriça. É aqui que recomeço o texto de Brosselard.

Entretanto o Aviso Dakar veio fundear diante de Bolama, em 4 de fevereiro. A comissão francesa tomou mediatamente as suas posições para o embarque de pessoal e bagagens. No dia seguinte partimos para o rio Nuno.

Depois dos trâmites alfandegários, o Dakar passou o entreposto de Bel-Air e acabou por fundear no entreposto de Samiah. Desembarcámos e instalámo-nos na feitoria que pertence à Casa Blanchard, fomos amavelmente recebidos nesta propriedade fortificada.

Informado da nossa chega ao rio Nuno, o rei dos Nalus veio fazer-nos uma visita em Samiah. No dia seguinte, acompanhado dos meus oficiais, visitei o rei Dinah na sua residência. O palácio real é uma residência notável, situa-se à beira do rio, a povoação terá 600 habitantes. Desembarcámos sem dificuldade, havia maré-alta. O rei sabia fazer as honras da hospitalidade, revelava uma compostura europeia.

Atravessámos três filas de paliçadas e postigos de vigia bem defendidos, caminhámos à direita e à esquerda por muros altos que envolvem as casas das pessoas importantes do círculo real e penetrámos no reduto onde se encontram as cinco habitações reais, quatro das quais tinham a forma aproximada de casas europeias, as paredes são em adobe e a cobertura em palha, muito espessa; uma casa maior tinha forma circular, era o salão de receção, contiguo estava o quarto onde o rei dorme e toma as suas refeições. Ficámos na varanda onde os músicos manejavam os balafons e cantavam em homenagem aos hospedes do rei.

Após um compasso de espera, passámos ao salão, tinha uma mesa e cadeiras, um certo conforto europeu, e uma limpeza admirável, serviam cerveja e limonada como refresco. O quarto do rei Dinah, contiguo ao salão de receção, estava mobilado com um conforto que nos surpreendeu. Amplo, coberto com um teto, as paredes forradas com esteiras, uma grande cama no meio, coberta com mosquiteiro, aqui e ali cadeiras estofadas; nas paredes, havia gravuras francesas e inglesas, espelhos deslumbrantes e garridos, um relógio de cuco e a dar horas! No toucador, todo o necessário em porcelana e cristal; ali perto um cofre-forte contendo o tesouro e os arquivos do reino; é ali que está preciosamente guardado o Tratado passado em nome da França com o predecessor de Dinah. Uma outra habitação está reservada a morada das mulheres. Dinah apresentou-as com orgulho, se bem que elas sejam pouco prendadas pela beleza.

No pátio desta casa os escravos pilam o milho miúdo. Inútil dizer que estes escravos são mulheres, porque em África um indígena sentir-se-ia desonrado se fosse condenado a este género de trabalho. A quarta casa continha os abastecimentos de arroz e milho, bem como o local reservado aos estábulos. Dinah tem um cavalo, aliás possante e raro, e quase desconhecido nesta costa de África. Enfim, a quinta casa composta pela sala da Justiça e as prisões. Atravessando o pátio, o rei mostra-nos os poços onde o seu pessoal se abastece de água; vemos seguidamente a cisterna. É Dinah quem guarda a chave do cadeado da cisterna para se precatar de qualquer tentativa de envenenamento.

Na sua imaginação bárbara, Youra, o predecessor de Dinah, tinha inventado suplícios que inspiravam terror a todo o povo. Um desses suplícios, que ainda se praticava há pouco tempo, consistia em prender o supliciado no momento da maré-baixa a um porte no rio; quando subiam as águas, o infeliz via pouco a pouco a água chegar à boca que ele se esforçava por fechar, o nível da água, entretanto subia, invadia as narinas provocando uma asfixia lenta.

Dinah Salifou tinha sucedido ao seu tio Youra, conforme o costume que rege os direitos da sucessão. O filho mais velho de um irmão de Youra, um certo Tocha, primo direto de Dinah procura contrabalançar o prestígio do rei e ganhou adeptos que parecem ser em grande número entre os chefes Nalus. A influência moral de Tocha supõe-se ser mais forte que a do primo e Dinah, sem o apoio que lhe dá França, estaria provavelmente há muito tempo destronado. Os dois primos detestam-se, admite-se que pode haver atentados de um contra o outro (e o Capitão Brosselard conta duas histórias de tentativas dos primos em matarem-se).

Voltando ao relato na primeira pessoa, o Capitão Brosselard, que tinha curiosidade em ver frente-a-frente os dois, convidou-os a almoçar no mesmo dia em Samiah. No dia aprazado, perto das dez horas os cânticos barulhentos dos músicos que marcam a cadência aos remadores anunciaram a chegada da embarcação real, no mastro flutuavam as cores francesas. Dinah veste com aparato, traz uma espécie de estola de veludo coberta de bordados a fio de ouro; avança com passadas comedidas, com a gravidade que convém a um grande rei. Tocha chega por sua vez; o seu primo apresenta-o e expõe os laços de parentesco existentes.

Na sala de jantar cada um toma o lugar à mesa. Dinah senta-se no lugar de honra, à sua frente senta-se o Tenente Clerc, com o qual Dinah conversa em inglês. O rei tem boa figura, tem o aspeto de um europeu bem-educado, maneja com facilidade a faca e o garfo. Tocha é mais hesitante, antes de levar a comida à boca observa os seus vizinhos para os imitar. Na conversação, Dinah, por cortesia com o chefe da missão, recorda factos agradáveis sobre o General Faidherbe quando ele foi Governador do Senegal; são lhe dadas notícias do general, o rei mostra satisfação em voltar a vê-lo se puder visitar a exposição em 1889.

Durante este período em que a minha coluna está imobilizada em Samiah para recrutar carregadores, tive o prazer de percorrer o rio Nuno e de recolher informações sobre a situação presente e o passado deste rio.

É com esta descrição que iniciaremos o texto seguinte.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.
Uma das muitas imagens da Exposição Universal de Paris de 1889, referida na conversa entre o rei dos Nalus e o Capitão Henri Brosselard

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 8 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28164: Historiografia da presença portuguesa em África (534): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28164: Historiografia da presença portuguesa em África (534): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Importa explicar ao leitor que me sinto numa fase experimental nesta tentativa de coligir importantes relatos de olhares estrangeiros sobre a Província da Guiné nascida em 1879. Estou absolutamente convencido que fazer a História da Guiné exige uma multiplicidade de relatos que se prendem com o espaço da Senegâmbia, há que ter em conta os contributos de Cabo Verde e de espaços que hoje se designam por Senegal, Guiné-Conacri, talvez mesmo a Serra Leoa. Fui atraído pela perspetiva de que na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa se possam encontrar relatos de primeiríssima água e então este projeto teria pernas para andar, vamos confiar que há matérias palpitantes para engalanar o barco. O relato do Capitão Brosselard pareceu-me da maior utilidade e premência, Brosselard irá falar também da Senegâmbia, da terra dos Bagas e do Futa Djalon, regiões que antes de haver Província tinham bastante trato comercial com a nossa Pequena Senegâmbia. Devia esta explicação ao leitor, pois não se deve excluir que em determinado momento eu possa sentir que as fontes se secaram ou que dei com o nariz na porta.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - I:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2):
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

Não quero induzir o leitor em falsas esperanças, peço que se tome esta iniciativa de procurar ver a Guiné pelos olhares de estrangeiros, em tempos do Terceiro Império, ou seja, a partir do último quartel do século XIX, em publicações que estejam depositadas na Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, a título experimental. Não consigo vislumbrar se há muitos títulos interessantes que aqui se possam reportar. O tempo dirá.

Na continuação do ponto 3 que vem do anterior texto, é importante dizer que o relato do Capitão Henri Brosselard-Faidherbe me pareceu um bom ponto de partida, e espero ampliar o que ele escreve sobre a Guiné mostrando o mundo envolvente do que então se denominava por África Ocidental Francesa. Como vivemos tempos de grande imprevisibilidade, repito que vamos ver se a experiência resulta e se será possível encontrar textos de indiscutível valia. É este o aviso à navegação que faço. A publicação Le Tour du Monde era de grande qualidade e há imagens de cortar o fôlego. Quem então a dirigia tomou iniciativa de convidar Brosselard a contar o seu ponto de vista sobre a demarcação das fronteiras entre a possessão portuguesa e as francesas. O Capitão é o chefe da missão francesa parte para Bolama e interrompemos a narrativa precisamente com a descrição que ele faz da ilha e de quem a povoa. Retomando o texto anterior, damos de novo a palavra a Brosselard, não nos esqueçamos de que estamos em fevereiro de 1888.

Bolama passa por insalubre de junho a dezembro devido às chuvas que começam no fim de maio e vão até ao final de setembro, nessa época de chuvas aumenta a humidade durante as noites, o que é pernicioso para a saúde.

Os indígenas dos Bijagós são pretos rudes, mas empreendedores e navegadores intrépidos. Podemos vê-los nas suas pirogas a afrontar o mar mesmo no mau tempo. Na época do tráfico negreiro multiplicaram-se as incursões dos Bijagós no continente, pareciam piratas costeiros, raptavam os habitantes para os vender aos negreiros. No século passado vendiam de 300 a 400 cativos por ano; a sua obsessão pela aguardente levava-os mesmo a venderem-se uns aos outros. Todavia, os negreiros tinham pouco interesse nos escravos Bijagós.

Levados para o continente americano, só trabalhavam à custa de pancada, procuravam sempre fugir e acabavam por se enforcar.

As ilhas do arquipélago são muito vicejantes: a praia coberta de areia fina, as árvores chegam à beira-mar, as palmeiras e as laranjeiras formam espessas florestas. A vegetação é sempre verde. As bananeiras e laranjeiras dão frutos deliciosos. São ilhas encantadoras, mas o seu acesso ao navegador é dos mais arriscados, pois na orla marítima há muitos bancos do lodo mole, misturados de areia que as correntes deslocam muitas vezes, o que impõe imensa prudência na navegação; as correntes são numerosas e fortes, os barcos são facilmente desviados da rota ou podem mesmo naufragar. Quando um navio naufraga, surgem pirogas de todos os pontos do horizonte e a coberta do navio naufragado é tomada de assalto pelos Bijagós.

1 - As possessões portuguesas costeiras estavam dependentes da administração de Cabo Verde, do arquipélago chegava um Governador que dependia diretamente do Governador de Cabo Verde, dispunha de alguns subordinados e de uma centena de soldados, a maior parte eram indígenas de Cabo Verde.
Os portugueses ocupavam na Guiné Ziguinchor, Cacheu e Farim, Bissau e Geba. Em 1870 decidiu-se agrupar estes entrepostos em colónia autónoma. Bolama foi escolhida a Bissau como capital devido ao seu clima ser reputado como mais saudável.

Para criar recursos financeiros, estabeleceram direitos alfandegários e um ruinoso importo sobre a terra, dito imposto predial rural que imobilizou logo as tentativas agrícolas que estavam em curso em diferentes lugares devido a iniciativas de casas comerciais. A crise agrícola foi enorme, seguiu-se a crise comercial que atingiu muitos estabelecimentos franceses, que eram responsáveis por quase a totalidade do comércio da Guiné Portuguesa: Blanchard e Companhia; J.-B Pastré e Companhia; Maurel e Prom; Thiraiziot, Meinet; Oesliner de Conning. Estas casas eram as únicas a deter o monopólio da exportação, os estabelecimentos portugueses davam-lhe colaboração. A importação, salvo o tabaco que vinha da América, era essencialmente europeia. Hoje a importação diminuiu e a exportação não se dirige mais exclusivamente a Marselha, pois uma linha de vapores portuguesa serve a Guiné com um serviço regular, o que permite aos comerciantes portugueses poderem abastecer-se diretamente da metrópole. Parece à primeira vista que para eles seria mais fácil fazer concorrência ao comércio francês, já que eles estão protegidos por direitos alfandegários e municipais. Mas tal não acontece: estes comerciantes não têm um crédito suficiente para comprar as mercadorias que só são fornecidas em grandes quantidades e com obrigatoriedade de serem pagas num lapso de tempo curto; por isso os comerciantes portugueses continuam a fazer os seus negócios com as casas francesas.

2 - Apesar dos recursos de toda a natureza que a Guiné quase possui, o sistema de impostos introduzidos pela Administração arruína a colónia. Constatamos com pesar que os portugueses não parecem querer alterar esta deplorável situação. E na falta de artigos, porque não há por exemplo tabacos portugueses, encoraja-se o contrabando.

Desde a minha chegada a Bolama que me ocupei do recrutamento de transportadores. Pretendia recrutar entre 20 a 30 destes indispensáveis auxiliares. Em Bolama deparei-me com uma dificuldade intransponível para encontrar os auxiliares. O Tenente Oliveira, chefe da delegação portuguesa tinha arrebanhado ali todos os que estavam dispostos a cooperar com esta missão e dispunha já 50 carregadores, o que era ainda um número insuficiente. E punha-se, pois, procurar o aprovisionamento fora de Bolama.

Ficou decidido que a canhoneira Guadiana transportaria até Bissau os senhores Galibert e Cabral que iriam tentar recrutamento dos carregadores. Partiram a 1 e regressaram a 3, não tinham tido o menor sucesso. Decidi imediatamente que a comissão francesa deveria dirigir-se para o rio Nuno havia aqui uma maior possibilidade de arranjar transportadores que na colónia portuguesa.

Os aprovisionamentos, organizados em dois carregamentos distintos e destinados a subir mais tarde o rio Geba foram embarcados para Bissau, onde o senhor Galibert os confiou ao representante da casa Blanchard. Depois de negociar com a comissão portuguesa, acertámos o encontro em Kandiafara em 12 de fevereiro, por se supor que esta povoação estava situada na linha fronteiriça que tínhamos o propósito de determinar.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 1 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28147: Historiografia da presença portuguesa em África (533): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (1): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28147: Historiografia da presença portuguesa em África (533): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (1): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)




1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 15 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Recorrendo à fantasia, aí quando eu tiver 105 anos dá-me um treco em plena Biblioteca da Sociedade de Geografia, de onde não posso desandar, há sempre uma reminiscência guineense que espera por mim. Pretendia arrumar e preparar volume com as grossas centenas de páginas da papelada do Boletim Oficial e derivar para outras leituras e escritos e, como nos contos de Sherazade, a Dra. Helena Grego lembrou-me que há muitas mais leituras a fazer em terreno ignoto, referindo-se ao apreciável volume de publicações naquela biblioteca onde de poderão catar relatos de estrangeiros sobre a Guiné. E pôs-me em cima da secretária Le Tour du Monde. Não resisti, começo hoje o relato do Capitão Brosselard, em finais de 1887 foram-lhe atribuídas as funções de comissário do lado francês para a demarcação das fronteiras. Morreu prematuramente, deixou-nos um relato digno de ser visitado e as imagens de Le Tour du Monde são por vezes de uma beleza inexcedível. Os dados estão lançados, vamos ver se me aguento no balanço.

Um abraço do
Mário


A Guiné vista por estrangeiros - I:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (1):
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

Tenho uma confissão a fazer ao leitor. Concluída a pesquisa a mais de 100 anos do Boletim Oficial da Província da Cabo Verde e Costa da Guiné até à Província da Guiné, projetei começar a sistematizar as cerca de 500 páginas de material compulsado, é certo que não passa de uma ferramenta auxiliar para estudiosos de várias procedências, e deixar as investigações sobre a Guiné em banho-maria. Conversando com a Dra. Helena Grego, uma bibliotecária devotada, que me tem dado apoio sistemático nos últimos quinze anos, e dando-lhe conta de que queria agora fazer uma investida no mundo da ficção, reagiu, nem pensar, tem ainda muito trabalho aqui para fazer, nunca se fez o levantamento dos últimos séculos de como autores estrangeiros viram a Guiné. Sugiro que comece pelo artigo assinado pelo Capitão Henri Brosselard-Faidherbe (1855-1893), que coordenou a primeira comissão de demarcação de fronteiras pelo lado francês, logo em 1888, ele foi também sócio correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa, à semelhança do Tenente da Armada Real Eduardo João da Costa Oliveira, que coordenava pelo lado português essa primeira comissão de demarcação de fronteiras, ele era o sócio n.º 1878 da Sociedade de Geografia de Lisboa (o relato do Tenente da Costa Oliveira fará parte do meu livro "Guiné Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa").

Vamos ver se tenho arcaboiço para tal expedição, desconheço as toneladas de papel que me podem estar reservadas, e sabe-se lá em que idiomas. À secretária, recebo três tomos da Revista Le Tour du Monde, de facto só o relato do Capitão Brosselard se prende especificamente com a Guiné Portuguesa, nos outros dois volumes são tratados os temas da Terra dos Bagas e do Rio Nulo e também do Futa-Djalon. Vou então lançar-me ao trabalho, peço desculpa ao leitor se a minha tradução for manhosa.

1 - No ano de 1887, as Câmaras francesa e portuguesa ratificaram uma Convenção relativa à delimitação das possessões franco-portuguesas da costa ocidental de África. Antes da assinatura da Convenção, os territórios ditos Rios do Sul do Senegal, compreendidos entre Dakar e a Serra Leoa, estavam submetidos à autoridade da França ou reconhecida a sua soberania, à exceção de Bathurst, na Gâmbia e de alguns entrepostos portugueses disseminados entre o Casamansa e o rio Grande de Bolola.

Na região dita dos Bijagós, os estabelecimentos franceses e portugueses, cuja origem remonta a um passado longínquo, achavam-se muitas vezes na orla costeira, encravados uns nos outros. Esta situação não deixava de criar dificuldades entre os comerciantes e as autoridades das duas nações.

A Convenção franco-portuguesa teve por objetivo pôr termo a estas situações, reconhecendo os direitos dos portugueses na região onde estavam agrupados os seus entrepostos de Cacheu, Farim, Bissau, Geba, Buba e Bolama. Ziguinchor, no Casamansa, foi entregue à França.

O território português denominado Guiné Portuguesa, constituía um enclave no meio do enorme território que está submetido à França ou dependente da sua soberania. O rei de Portugal fez o reconhecimento do protetorado estabelecido pela França no território do Futa-Djalon, na sequência dos tratados feitos com os almamis (líderes) em 1881.

Em finais de 1887, o Governo português exprimiu desejo de que o tratado fosse aplicado sem demora e os dois Governos concertaram-se para a constituição de uma comissão de delimitação de fronteiras. Em dezembro de 1887, o Capitão Henri Brosselard-Faidherbe, oficial às ordens do Ministro da Marinha, foi designado para as funções de comissário do Governo francês. É o relato da sua última viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa que temos o privilégio de poder oferecer aos leitores.


2 - Em dezembro de 1887, organizei a missão que me fora confiada, tendo como adjunto o Tenente de Infantaria Clerc e o Sr. Galibert, publicista, que outrora tinha procurado fazer fortuna na costa de África, veio oferecer-me os seus serviços, que eu aceitei.

Desembarcámos em Dakar a 13 de janeiro. No Senegal o Governador designou o Dr. Noury, médico da Marinha, para se juntar à comissão. De regresso a Gorée, ocupei-me a organização minuciosa da exposição. Confecionaram-se modelos específicos de tendas, camas e outros objetos destinados aos oficiais, bem como trinta caixas de forma cúbica, com 40 cm de cada lado. Dois carregamentos deviam subir o curso do rio Geba e outros dois igualmente deviam ser agrupados no curso do rio Cacheu. A comissão devia estar munida de um bote.

Em 26 de janeiro partiu-se de Dakar num aviso (um navio pequeno e rápido) com pessoal indígena, os carregamentos e bagagens. A comissão portuguesa era composta do Tenente Costa Oliveira, Tenente da Armada Real, o Sr. Cabral, antigo Secretário-Geral, e o Sr. Bacelar, Capitão de Cavalaria e especialista em topografia. Durante alguns dias visitou-se Bolama e arredores.


3 - A capital da Guiné Portuguesa situa-se na ilha do mesmo nome, a extensão é de 8 milhas de leste a oeste por 3 ou 4 milhas de norte a sul.

Tem uma rica vegetação e possui árvores comercialmente muito procuradas. O desembarque faz-se sem recurso a um pontão. Para chegar a terra, os europeus são obrigados a desembarcar às costas de um homem. Quanto às mercadorias transportadas nos navios de uma certa tonelagem, é preciso transbordá-las em pequenas embarcações que dão à costa na maré alta e o desembarque faz-se com a maré baixa.

Acima do porto, a vila espraia-se em anfiteatro, sobre uma inclinação suave que desce de uma vasta planura até às margens arenosas. O bairro europeu foi construído em pedra; a maior parte das casas tem dois andares e são revestidas de telhas.

O porto, na maré alta, acha-se a dez metros do grande estabelecimento da casa Maurel e Prom; mas na maré baixa mais de duzentos metros separam a água do cais, são duzentos metros de terreno lodoso com restos de barros e detritos.

O bairro indígena está construído na parte norte; as casas são construídas em adube, cobertas de palha que é retirada na época seca para se evitarem os incêndios. O Governador está instalado num edifício que se destaca pelo seu aspeto elegante e bem conservado. Uma capela pitoresca envolvida por um caramanchão de folhagem ergue-se numa colina da vila, bem perto um hospital de construção simples montado em pilares; na mesma colina construíram-se recentemente casernas.

A população da ilha estava estimada em 3.730 habitantes, compõe-se de europeus, mestiços e pretos; os europeus serão em número de 150, os mestiços cerca de 1.000. A guarnição é de cerca de 400 homens. Em Bolama está metade desse contingente composto em grande parte de angolanos enquadrados por europeus.

Os portugueses só tomaram posse de Bolama em 1870; o concelho de Bolama inclui a ilha das Galinhas, as duas ilhas estão separadas por um canal com cerca de 3 milhas. Nas águas das duas ilhas são abundantes as tartarugas e a pesca é bastante lucrativa.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 24 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28129: Historiografia da presença portuguesa em África (532): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1974, depois do 25 de abril (91) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28130: As nossas geografias emocionais (67): o monumental depósito de água de Bolama (conhecido localmente como "castelo")





Foto nº 1, 1A e 1B > Guiné . Bissau > Bolama > Junho de 2021 > Depósito de água (também conhecido como "castelo"): este é o histórico depósito (em inglês, "water tower") erigido na periferia da antiga capital colonial de Bolama, e recentemente reabilitado (em 2024) para responder à tradicional falta de água na ilha (que tem, de resto, fracos lençóis freáticos). A sua origem remonta aos anos 30/40. Em 2021 estavada degradado, como toda a antiga capital da Guiné. Havia sinais de grafitos, reboco caído, corrosão das estruturas metálicas superiores, infiltrações antigas,  ausência de manutenção regular, etc, tudo sinais de que não era usada há muito. Mas o edifício possui grande valor patrimonial  e merece restauro. Há uma estrutura parecida em Canchungo (antiga Teixeira Pinto), cuha data de construção é de 1946.

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nçº2 : Guiné-Bissau > Zona Leste > Gabu > Depósito de água, cuja origem remonta aos anos 80/90. Por isso, não faz parte da memória de nenhum dos antigos combatentes protugueses que passaram por Nova Lamego (hoje, Gabu) durante os anos da giuerra (1961/74).

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2021). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Entre as duas fotos distam 40 anos. O nosso leitor poderá ter curiosidade em saber  um pouco mais a sua origem, história, arquitetura, estado de conservação, etc.

Comecemos por dizer que, no caso do "castelo" de Bolama (como era conhecido localmente) a sua arquitectura não pode ser britânica, vitoriana, como já vimos por aí escrito (na IA do Google, citando o sítio britânico Medium: "Water tower, built during the British occupation. Photo credit: Brad Yonaka").

Os camaradas que estiveram no CIM de Bolama devem-se lembrar do "castelo", que fica(va) junto ao antigo hospital militar e civil da ilha (e antiga capital de Bissau, entre 1879 e 1941). No entanto, a primeira foto que publicámos no nosso blogue foi da autoria do Patrício Ribeiro, em 2021 (*). (Sobre a localização do antigo hospital e do "castelo",  vd. o roteiro que o nosso saudoso António Estácio elaborou e publicou em livro, bem como no nosso blogue).

Numa primeira análise visual  da foto nº 1 não parece haver qualquer relação com a arquitetura britânica ou vitoriana. E duas ou três ferramentas de IA que consultámos confirmam a nossa opinião. Aqui vão alguns dos factos históricos e arquitetónicos que desmontam esse mito.

Recorde-se que a disputa territorial com os ingleses (a famosa "Questão de Bolama") foi resolvida em 1870 pelo presidente americano Ulysses S. Grant, que deu a razão a Portugal (e daí ter-se constrruído uma estátua  em bronze em sua homenagem, infelizmente vandalizada e roubada).

A presença britânica na ilha de Bolama foi esporádica e precária, caracterizada por duas fases de curta duração que culminaram na disputa diplomática que opôs o Reino Unido a Portugal, e resolvida a favor de Portugal. 

Em maio de 1792 houve uma primeira tentativa de ocupação, oficiais da Armada Britânica (tenentes Philip Beaver e Henry Hood) desembarcaram com cerca de 270 colonos para estabelecer uma "colónia-modelo" após a compra da ilha a um régulo local. O projeto gurou-se ao fim de um ano, devido a a uma série de factores adversos ( clima, doenças,  hostilidade do povo nativo).

 A segunda tentativa foi mais série: a partir de 1834, no contexto da repressão ao tráfico de escravos, o Reino Unido voltou a reclamar a ilha. Os britânicos chegaram a desembarcar, destruir fortificações e marcos portugueses, e a declarar o arquipélago sob a jurisdição da coroa britànica).

De qualquer modo, nessa época (meados do séc. XIX), os depósitos de água de engenharia britânica eram construídos em alvenaria de tijolo maciço, pedra ou estruturas de ferro fundido.

O depósito na imagem é inteiramente construído em betão armado  uma tecnologia construtiva que só começou a ser amplamente utilizada em obras públicas na Guiné Portuguesa bem avançado o século XX.

E quanto ao estilo arquitectónico, o  desenho da torre filia-se claramente no Modernismo/Art Déco tardio e na arquitetura de cariz utilitário do Estado Novo.  
Destacam-se as linhas geométricas simplificadas, as frestas verticais estreitas e alongadas (rasgadas para iluminação e ventilação da escadaria interna) e as varandas circundantes com guarda-corpos maciços ou com pilaretes geométricos de betão.

Aqui há divergências na análise visual da foto, pela IA do Gemini / Google, e pela IA e do ChatGPT Open AI, e na caractrização da estrutura. 

O ChatGPT  diz tratar-se de  estrutura em alvenaria rebocada, de grande massa volumétrica, com composição simétrica e monumental, janelas verticais em arco, de inspiração neoclássica simplificada, varandas com balaustradas decorativas, reservatório superior oculto por uma espécie de torre arquitetónica.

 Inclinamo-nos também mais para a hipótese de a estrutura ter construída em alvenaria rebocada, analisando as fotos acima, do Patrício Ribeiro e outras, disponíveis na Net (Vd. foto nº 3).

Não sabemos a data exata da inauguração do "castelo" (teríamos que ver a  documentação específica do Ministério das Colónias ou das Obras Públicas da época), sabemos, sim, que as s infraestruturas de saneamento e modernização urbana de Bolama foram projetadas e erguidas maioritariamente entre as décadas de 1920 e 1940. 

Trata-se, portanto, de um exemplar genuíno da engenharia e arquitetura colonial portuguesa do segundo quartel do século XX, construído no período que antecedeu ou coincidiu com a transferência definitiva da capital para Bissau (1941). O depósito de água de Teixeira Pinto (hoje Canchungo) segue a mesma tipologia, e data de 1946.

O depósito  tinha capacidade para mais de 70 mil litros. Mas há meios século que estava inativo. Foi reabilitado em 2024, com fundos da União Euriopeia, e por inciativa da ONG espanhola AIDA (vd. foto nº 5).





Fotos nº 3 e 4 > Guiné-Bissau > Bolama > 2018 > "AntigoHospital Militar e Civil"... Fotos  de Helena Maria Pestana (2018). Imagens do domínio público,. Cortesia de Wikimedia Commons.



Foto nº 5 > Guiné-Bissau > Bolama > 2024 > O depósito de água, reabilitado. Fotro da página da ONG espanh0ola, com sede em Madrid, AIDA.- Ayuda, Intercambio y Desarrollo


Da página da AIDA, transcrevemos o seguinte (tradução livre para português):

(...) "Em 16 de setembro, a ONG espanhola AIDA, com o apoio das ONG ACRA e Pro-Bolama e financiamento da União Europeia, pôs em funcionamento a Expansão da Rede de Abastecimento de Água na cidade de Bolama, Guiné-Bissau.

Iniciado em 2021, este projeto representa uma melhoria significativa para a região, incluindo a perfuração do poço mais profundo da ilha, com 195 metros. A iniciativa envolveu a reabilitação de um reservatório de água com capacidade superior a 70 mil litros; construída originalmente na época colonial, a instalação estava sem uso há mais de 50 anos.

O projeto também inclui a instalação de dois sistemas de bombeamento movidos a energia solar, a construção de novas fontes públicas e a ligação dessa infraestrutura à rede de água existente, implantada originalmente pela AIDA em 2008.

Graças a essa expansão, que agora conta com 19 fontes públicas e abastece os dois principais mercados, o hospital e várias escolas, é possível garantir o fornecimento de água potável a uma população que não tinha acesso a ela há mais de 25 anos.

Embora Bolama tenha sido a capital da Guiné-Bissau até 1941, os habitantes não tinham anteriormente de acesso contínuo à água potável. Este projeto marca um grande avanço no desenvolvimento da região, melhorando a qualidade de vida de milhares de pessoas". (...)


2. Com a ajuda do ChatGPT, pode acrescentar-se mais o seguinte sobre as característcias arquitetónicas desta estrutura:


(...) "O objetivo não era apenas armazenar água. Era também afirmar a presença do Estado. Na época colonial, muitos edifícios técnicos eram desenhados para transmitir autoridade e permanência: quartéis, hospitais, administrações, correios, tribunais e até depósitos de água!"(...)

Há uma influência a que se poderia chamar "colonial português tardio", misturando funcionalidade,  neoclassicismo simplificado e alguma influência art déco muito discreta.
 
Bolama, depois de resolvida a questão da soberania, foi concebida e planeada como uma cidade-modelo para funcionar como capital política e administrativa (veremos isso melhor em próximo poste). A rede de abastecimento de água fazia parte do conjunto de infraestruturas urbanas que procuravam demonstrar alguma modernidade: hospital (que já existia em 1908),  câmara municipal (1919),  ponte-cais,  central elétrica, etc,

"O facto de o reservatório estar escondido dentro da torre revela uma preocupação estética pouco comum hoje" (veja-se a foto nº 2, que ilustra outra tipologia de "!castelos de água").
 
Sobre de depósito de água do Gabu, que data já do pós-independência,  falaremos mais detalhamente num próximo poste desta série. (**)

(Pesquisa: LG + Wikipedia + Net + IA (Gemini / Google | ChatGPT / Opena AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, links, título: LG)

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28009: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte VII: Bissau e Bolama - Parte I


















Fotogramas > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", documentário de San Payo (1936) > Guiné > Bissau > Agosto de 1935 >  

Os fotogramas são reproduzidos com cortesia da Cinemateca Digital (Cinemateca Nacional). Para visualizar o documentário completo, consultar:

I Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", realizado em 1936 por San Payo.

 Chamada de atenção ao leitor: caso não consigas visualizar o vídeo, por favor verifica se o endereço completo da página indica http://www.cinemateca.pt (e não https://www.cinemateca.pt/)

Deixa o browser forçar o s; senão este deverá ser eliminado manualmente; deverás ainda, utilizar apenas os browsers Firefox, Google Chrome ou Microsoft Edge. 

O filme, feito em parte com dinheiros públicos,  não chegou a passar nas salas de cinema:  terá sido projetado uma única vez, no S. Luiz, em Lisboa, a 29 de junho de 1936, em sessão destinada  aos participantes do cruzeiro. 


1. Desde 4/11/2025, temos mostrado alguns fotogramas do documentário, de longa duração (91' 13''), sobre o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente. O filme está disponível, em formato digital, no portal "Cinemateca Digital", da Cinemateca Nacional.

Ainda não o visionámos na totalidade. É uma reportagem completa do cruzeiro, de dois meses, com imagens  e informação muito "interessantes", do ponto de vista da historiografia da presença portuguesa nas quatro "colónias" da África Ocidental visitadas, além de pormenores da partida de Lisboa, da chegada aos vários portos (Mindelo, Praia, Bissau, Bolama, Luanda, Lobito, etc.)  bem como da vida a bordo. (*)

Um documentário, raro, com 90 anos, que diz muito (até pelo que omite, por defeito, conveniência, autocensura ou opção) sobre o "império colonial", expressão que se usava na época sem complexos,  e até com orgulho.  

O filme (feito em 35 mm, ainda sem som) tem algumas erros de montagem (cenas trocadas ou repetidas),  e muitas imperfeições  de imagem na cópia digitalizada. Mesmo assim, estamos gratos à Cinemateca Nacional por retirá-lo do pó dos arquivos, restaurá-lo e pô-la á disposição do público lusófono, em geral, dos antigos combatentes, em particular.


2. Recorde-se que o  realizador  é San Payo, nome artístico  de Manuel Alves San Payo (Melgaço, 1890-Lisboa, 1974),  que contou com a colaboração de Artur Costa Macedo, um conhecido  operador e diretor de fotografia (S. Tomé, 1894 - Lisboa, 1966).

O mostra a viagem do paquete "Moçambique" a Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe e Angola entre agosto e outubro de 1935.  O cruzeiro coincidiu com as férias escolares. O navio, a vapor, "Moçambique", pertencia à  CNN, será abatido, quatro anos depois, em 1939, e substituido por um novo "Moçambique", a motor, maior e melhor.

A iniciativa foi da revista "O Mundo Português", com apoio do Secretariado da Propaganda Nacional e Ministério das Colónias. A revista era editada pela Agência Geral das Colónias e pelo Secretariado da Propaganda Nacional. 

Os "excursionsistas" não chegavam às duas centenas,   incluindo 7 dezenas de estudantes , considerados os melhores alunos na conclusão do curso geral dos liceus (entre eles,  o Ruy Cinatti). E só 20% eram mulheres.

Um dos mentores do projeto foi Marcello Caetano, então com 29 anos, e já brilhante professor de direito administrativo na  Faculdade de Direito de Lisboa, e intelectual orgânico  do regime. Seria também  ele  o "diretor cultural" do cruzeiro.  O objetivo desta iniciativa era didático e propagandístico: cativar as jovens elites do país para a questão colonial, num altura em que outras potências coloniais   deitavam o olho a alguns territórios do império colonial português.

O  documentário dedica menos de 15 minutos à visita à Guiné (Bissau e Bolama). O realizador viveu na 2ª década do séc. XX no Brasil, país onde se iniciou na fotografia e no cinema: fez alguns filmes e documentários. Mas é em Portugal se torna um reputado fotógrafo das elites (políticas, sociais e culturais), sobretudo nos 30, 40 e 50. A clientela reflete também a qualidade técnica e estética do seu trabalho. 

Dizia-se, todavia, "apolítico". Mas sua escolha como realizador deste documentário não pode ser vista como "inocente":  como fotógrafo das elites (incluindo Salazar), dava garantias que o documentário reforçaria a "narrativa oficial". 

Neste  filme, o realizador dá sempre maior destaque aos aspetos cénicos do cruzeiro: as chegadas, o cais, a receção das populações locais, com as suas "danças indígenas", o exotismo humano e paisagístico, o anedótico, o "flagrante", ... 

Há um ou outro apontamento sobre a história da colonização: por exemplo, um dos intertítulos, referente ao forte de São José da Amura, diz explicitamente que a cidade de Bissau, até aos anos 20, cabia dentro das muralhas... Não sei se a censura  terá gostado, ou até pode ser que sim: podia interpretado  como uma "bicada" á malfadada República,  derrubada em 28 de maio de 1926.

Bissau  em 1935 ainda não era a capital, a cidade estava a crescer, segundo um plano urbanístico do tempo da Republiva, mas tinha  apenas um cais-acostável... Há poucas imagens da cidade, de resto as obras públicas só virão mais tarde, com o impulso dado pelo governador Sarmento Rodrigues à "modernização" da colónia... Mas um dos fotogramas mostra já a Av da República, com candeeiros de iluminação pública.

Era então governador  da Guiné (1933-1941) o major do exército  Luís António de Carvalho Viegas  (chegará a general em 1948; será deputado na Assembleia Nacional, na IV Legislatura, 1945-1949).

Resumo análitico do filme: 

  • até  8' >  Lisboa (despedida e partida do navio); viagem até Cabo Verde;
  • 8' - 23' > Cabo Verde (Mindelo, Praia, interior);
  • 23' - 37' > Guiné (Bissau e Bolama);
  • 37' - 46' > São Tomé e Príncipe (incluindo em São Tomé, visita às roças Água Izé, Monte Café, e Rio do Ouro; no Príncipe, roça não identificada):
  • 46' - 91' > Angola (Luanda, rio Dande, Catete, Dalatando, Casengo, Porto Amboim, Gabela, fazenda de café, Lobito, caminho de ferro de Benguela,  empresa de Cassequel, Catumbela,  Ganda, Moçamedes, foz do rio Bero, regersso a Luanda, minumento aos mortos da Grande Guerra, batuques, desfile) (incluindo visita à fazenda Tentativa, à granja S. Luiz e outras fazendas não especificadas, além da Estação Zootécnica e missão na Huíla).


3. Registe-se que  só as visitas a Luanda, Lobito e Moçâmedes duraram mais do que um dia,  nos restantes locais, os "excursionistas" ficaram apenas algumas horas.  

Em 1935, a organização do cruzeiro teve de enfrentar muitos problemas logísticos (falta de viaturas automóveis, péssima rede viária e hoteleira, etc.), problemas esses agravados num território como a Guiné, ainda não totalmente "pacificado" (daí que a visita se tenha limitado se a duas cidades costeiras, com cais acostável, Bissau e a capital, Bolama).

Recorde-se que só entre 1925 e 1936 é que foram "pacificados" os últimos povos animistas, no noroeste do território ("chão felupe") e nos Bijagós, tendo a última campanha sido na ilha de Canhabaque, cujos habitantes eram acusados de praticar  a pirataria.

Tratando-se de um documentário sem som síncrono,  o realizador recorreu aos intertítulos (no fundo, as velhas legendas usadas para apresentar diálogos ou explicar a narrativa entre as cenas ou sequèncias no cinema mudo). Eram cartões de texto filmados e inseridos durante a montagem do filme para ajudar o público a compreender a narrativa,  uma vez que não havia som sincronizado.
  
Por razões de produção, financeiras e técnicas, os documentários continuarão a fazer-se sem som síncrono até muito tarde, início dos anos 60.

Diversas empresas portuuguesas expuseram os seus produtos a bordo, e fizeram publicidade no roteiro, ajudando assim ao encaixe necessário para o financiamento da viagem, que contou ainda com 150 contos dados pelo governo, mais as receitas das inscrições dos excursionistas (que eram caras para a época, como já vimos).

 (Seleção e edição de imagens: LG)
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Nota do editor LG:


Vd. postes anteriores da série:




Vd. também postes de: