Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Bolama. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bolama. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28009: 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente (Cabo Verde, Guiné, S. Tomé e Príncipe e Angola, 10 de agosto - 3 de outubro de 1935), de que foi diretor cultural o jovem e brilhante professor Marcello Caetano - Parte VII: Bissau e Bolama - Parte I


















Fotogramas > "1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", documentário de San Payo (1936) > Guiné > Bissau > Agosto de 1935 >  

Os fotogramas são reproduzidos com cortesia da Cinemateca Digital (Cinemateca Nacional). Para visualizar o documentário completo, consultar:

I Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente", realizado em 1936 por San Payo.

 Chamada de atenção ao leitor: caso não consigas visualizar o vídeo, por favor verifica se o endereço completo da página indica http://www.cinemateca.pt (e não https://www.cinemateca.pt/)

Deixa o browser forçar o s; senão este deverá ser eliminado manualmente; deverás ainda, utilizar apenas os browsers Firefox, Google Chrome ou Microsoft Edge. 

O filme, feito em parte com dinheiros públicos,  não chegou a passar nas salas de cinema:  terá sido projetado uma única vez, no S. Luiz, em Lisboa, a 29 de junho de 1936, em sessão destinada  aos participantes do cruzeiro.


1. Desde 4/11/2025, temos mostrado alguns fotogramas do documentário, de longa duração (91' 13''), sobre o 1º Cruzeiro de Férias às Colónias do Ocidente. O filme está disponível, em formato digital, no portal "Cinemateca Digital", da Cinemateca Nacional.

Ainda não o visionámos na totalidade. É uma reportagem completa do cruzeiro, de Dois meses, com imagens  e informação muito "interessantes", do ponto de vista da historiografia da presença portuguesa nas quatro "colónias" da África Ocidental visitadas, além de pormenores da partida de Lisboa, da chegada aos vários portos (Mindelo, Praia, Bissau, Bolama, Luanda, Lobito, etc.)  bem como da vida a bordo. (*)

Um documentário, raro, com 90 anos, que diz muito (até pelo que omite, por defeito, conveniência, autocensura ou opção) sobre o "império colonial", expressão que se usava na época sem complexos,  e até com orgulho.  O filme (feito em 35 mm, ainda sem som) tem algumas erros de montagem (cenas trocadas ou repetidas),  e muitas imperfeições  de imagem na cópia digitalizada. Mesmo assim, estamos gratos á Cinemateca Nacional por retirá-lo do pó dos arquivos, restaurá-lo e pô-la á disposição do público lusófono, em geral, dos antigos combatentes, em particular 

2. Recorde-se que o  realizador  é San Payo, nome artístico  de Manuel Alves San Payo (Melgaço, 1890-Lisboa, 1974),  que contou com a colaboração de Artur Costa Macedo, um conhecido  operador e diretor de fotografia (S. Tomé, 1894 - Lisboa, 1966).

O mostra a viagem do paquete "Moçambique" a Cabo Verde, Guiné, São Tomé e Príncipe e Angola entre agosto e outubro de 1935.  O cruzeiro coincidiu com as férias escolares. O navio, a vapor, "Moçambique", pertencia à  CNN, será abatido, quatro anos depois, em 1939, e substituido por um novo "Moçambique", a motor, maior e melhor.

A iniciativa foi da revista "O Mundo Português", com apoio do Secretariado da Propaganda Nacional e Ministério das Colónias. A revista era editada pela Agência Geral das Colónias e pelo Secretariado da Propaganda Nacional. 

Os "excursionsistas" não chegavam às duas centenas,   incluindo 7 dezenas de estudantes , considerados os melhores alunos na conclusão do curso geral dos liceus (entre eles,  o Ruy Cinatti). E só 20% eram mulheres.

Um dos mentores do projeto foi Marcelo Caetano, então com 29 anos, e já brilhante professor de direito administrativo na  Faculdade de Direito de Lisboa, e intelectual orgânico  do regime. Seria também  ele  o "diretor cultural" do cruzeiro.  O objetivo desta iniciativa era didático e propagandístico: cativar as jovens elites do país para a questão colonial, num altura em que outras potências coloniais   deitavam o olho a alguns territórios do império colonial português.

O  documentário dedica menos de 15 minutos à visita à Guiné (Bissau e Bolama). O realizador viveu na 2ª década do séc. XX no Brasil, país onde se iniciou na fotografia e no cinema: fez alguns filmes e documentários. Mas é em Portugal se torna um reputado fotógrafo das elites (políticas, sociais e culturais), sobretudo nos 30, 40 e 50. A clientela reflete também a qualidade técnica e estética do seu trabalho. 

Dizia-se, todavia, "apolítico". Mas sua escolha como realizador deste documentário não pode ser vista como "inocente":  como fotógrafo das elites (incluindo Salazar), dava garantias que o documentário reforçaria a "narrativa oficial". 

Neste  filme, o realizador dá sempre maior destaque aos aspetos cénicos do cruzeiro: as chegadas, o cais, a receção das populações locais, com as suas "danças indígenas", o exotismo humano e paisagístico, o anedótico, o "flagrante", ... 

Há um ou outro apontamento sobre a história da colonização: por exemplo, um dos intertítulos, referente ao forte de São José da Amura, diz explicitamente que a cidade de Bissau, até aos anos 20, cabia dentro das muralhas... Não sei se a censura  terá gostado, ou até pode ser que sim: podia interpretado  como uma "bicada" á malfadada República,  derrubada em 28 de maio de 1926.

Bissau  em 1935 ainda não era a capital, a cidade estava a crescer, segundo um plano urbanístico do tempo da Republiva, mas tinha  apenas um cais-acostável... Há poucas imagens da cidade, de resto as obras públicas só virão mais tarde, com o impulso dado pelo governador Sarmento Rodrigues à "modernização" da colónia... Mas um dos fotogramas mostra já a Av da República, com candeeiros de iluminação pública.

Era então governador  da Guiné (1933-1941) o major do exército  Luís António de Carvalho Viegas  (chegará a general em 1948; será deputado na Assembleia Nacional, na IV Legislatura, 1945-1949).

Resumo análitico do filme: 

  • até  8' >  Lisboa (despedida e partida do navio); viagem até Cabo Verde;
  • 8' - 23' > Cabo Verde (Mindelo, Praia, interior);
  • 23' - 37' > Guiné (Bissau e Bolama);
  • 37' - 46' > São Tomé e Príncipe (incluindo em São Tomé, visita às roças Água Izé, Monte Café, e Rio do Ouro; no Príncipe, roça não identificada):
  • 46' - 91' > Angola (Luanda, rio Dande, Catete, Dalatando, Casengo, Porto Amboim, Gabela, fazenda de café, Lobito, caminho de ferro de Benguela,  empresa de Cassequel, Catumbela,  Ganda, Moçamedes, foz do rio Bero, regersso a Luanda, minumento aos mortos da Grande Guerra, batuques, desfile) (incluindo visita à fazenda Tentativa, à granja S. Luiz e outras fazendas não especificadas, além da Estação Zootécnica e missão na Huíla).


3. Registe-se que  só as visitas a Luanda, Lobito e Moçâmedes duraram mais do que um dia,  nos restantes locais, os "excursionistas" ficaram apenas algumas horas.  

Em 1935, a organização do cruzeiro teve de enfrentar muitos problemas logísticos (falta de viaturas automóveis, péssima rede viária e hoteleira, etc.), problemas esses agravados num território como a Guiné, ainda não totalmente "pacificado" (daí que a visita se tenha limitado se a duas cidades costeiras, com cais acostável, Bissau e a capital, Bolama).

Recorde-se que só entre 1925 e 1936 é que foram "pacificados" os últimos povos animistas, no noroeste do território ("chão felupe") e nos Bijagós, tendo a última campanha sido na ilha de Canhabaque, cujos habitantes eram acusados de praticar  a pirataria.

Tratando-se de um documentário sem som síncrono,  o realizador recorreu aos intertítulos (no fundo, as velhas legendas usadas para apresentar diálogos ou explicar a narrativa entre as cenas ou sequèncias no cinema mudo). Eram cartões de texto filmados e inseridos durante a montagem do filme para ajudar o público a compreender a narrativa,  uma vez que não havia som sincronizado.
 . 
Por razões de produção, financeiras e técnicas, os documentários continuarão a fazer-se sem som síncrono até muito tarde, início dos anos 60.

Diversas empresas portuuguesas expuseram os seus produtos a bordo, e fizeram publicidade no roteiro, ajudando assim ao encaixe necessário para o financiamento da viagem, que contou ainda com 150 contos dados pelo governo, mais as receitas das inscrições dos excursionistas (que eram caras para a época, como já vimos).

 (Seleção e edição de imagens: LG)
______________

Nota do editor LG:


Vd. postes anteriores da série:




Vd. também postes de:

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P27992: Humor de caserna (263): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXIII: Os cocos do Sr. Gouveia (leia-se, da CUF)... Uma cena tão divertida quanto edificante, passada na IAO, em Bolama (Joaquim Pinto Carvalho, ex-alf mil at inf, CCAÇ 3398, Buba, 1971/73)


Guiné > Zona leste > Bafatá > Vista aérea  (parcial) > c. 1969/1970 > Rua principal da vila (mais tarde, cidade) > Do lado direito, em primeiro plano, o principal estabelecimento da cidade, uma sucursal da Casa Gouveia (que tinha a sua sede em Bissau).

Foto: © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.]



Pinto Carvalho.
Foto  LG (2010

1. O nosso colaborador permanente
Joaquim Pinto Carvalho é, reconhecidamente, um homem dotado de elevado sentido de humor. Perito nos trocadilhos, no uso do segundo sentido, no subtil manejo das palavras. Foi alf mil da CCAÇ 3398/BCAÇ 3852 (Buba) e CCAÇ 6 (Bedanda) (1971/73).  (O BCAÇ 3852, em 5 de agosto de 1973, recebeu um louvor do com-chefe, gen António Spínola; regressou à metrópole, de avião, no início de setembro de 1973.)

Além disso, é um poeta de talento. E tem o culto da memória (e da amizade). Adora, por outro lado, conviver. Faz parte da Magnífica Tabanca da Linha e da Tabanca do Centro.  

Natural do Cadaval, é advogado, e régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar (... e Não Tenhas Medo), Porto das Barcas, Atalaia, Lourinhã.

É autor de uma brochura com a história da unidade, a CCAÇ 3398, distribuída no respetivo XXV Convívio, realizado no Cadaval, em 18/9/2021. 

Tem  80 referências no nosso blogue, e é membro nº 633 da Tabanca Grande (desde 7/12/2013).

Este ano, a 9 de maio, em Águeda, a CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852 ("Os Incendiários", Buba, 1971/73) vai realizar o seu XXX Convívio Anual. Achámos por bem, em homenagem a estes "piromaníacos", publicar aqui esta história, "divertida" mas também "edificante" (*),  do tempo em que passaram pelo CIM de Bolama: nas andanças da IAO  (de 5 de a 31 de julho de 1971), o Joaquim com o seu pelotão entrou, sem dar por isso, numa plantação de coqueiros que tinha dono.

O sr. Gouveiia, abaixo referido, não seria por certo o fundador da Casa Gouveia... Recorde-se o que aqui já dissemos sobre ele o António da Silva Gouveia:
  •  foi deputado republicano, entre 1911 e 1915;
  • era um típico "africanista" do Séc. XIX que se instalara em Bolama justamente em 1879;
  •  devia ter nascido por volta de 1850;
  • em Bolama, capital da província, criara a maior empresa daquela colónia africana, a Casa Gouveia;
  • mais tarde, em 1921, a Casa Gouveia é adquirida pela CUF - Companhia União Fabril, que passou a ser o sócio mairitário; 
  • em 1961, passaria a sociedade anónima, por ações.

De 1911 a 1915, António Silva Gouveia teve assento na Câmara dos Deputados, como representante da Província. Em 1912 aderiu ao Partido Republicano Evolucionista, dirigido por António José de Almeida (considerado de centro-direita, dentro do republicanismo).

(...) Este homem, de que se desconhecem muitos aspectos da sua vida, e que antes de ser empresário e político, foi "moço e marinheiro, piloto e capitão de navios" (sic), orgulhando-se de conhecer toda a África, ocidental e oriental, mereceria muito provavelmente uma boa história, uma boa biografia, um bom filme... 

Não sabemos onde nasceu nem onde morreu. Fazia gala de dizer que era "um homem que não tinha o exame de instrução primária" e que acreditava na "iniciativa privada", vociferando contra o estado (lastimável) em que se encontrava a província no início do Séc. XX. (...) (**)

A Casa Gouveia, com sede em Bissau, servia a totalidade do território devido às suas sucursais que, em 1948,  eram 14: Bafatá, Bambadinca, Binta, Bissorã, Bolama, Brames, Cacheu, Teixeira Pinto, Farim, Nova Lamego, Geba, Mansoa, Sonaco e Pelundo. Sucursais em que se vendiam bens adaptados à vida em contexto rural e atmosfera étnica (têxteis, bicicletas, aparelhos de rádio, máquinas de costura, utilidades domésticas e querosene).

Era a principal empresa da Guiné, e nomeadamente ao nível das exportações:

(...) "reunia e transportava para a metrópole os cultivos locais (mancarra, purgueira, rícino, algodão, mandioca) e as produções espontâneas de palmares, mangais, arrozais, bananais e outras frutas tropicais. Na segunda metade dos anos 1920 a procura internacional de produtos como a borracha e as oleaginosas desceu e bem assim os seus preços, no contexto das dificuldades da Grande Depressão de 1929-1933.”  (Fonte: Poste P24235, de 19 de abril de 2023).

Vd. poste de  27 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27958: Humor de caserna (260): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXII: o cheirinho a roupa lavada (Joaquim Costa, ex-fur mil Arm Pes Inf, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27948: As nossas geografias emocionais (65): O Jorge Ferreira, no CIM de Bolama, em junho/julho de 1961




Foto nº 1 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > O alf mil Jorge Ferreira, o segundo a contar a esquerda. 


Foto nº 2 >  Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > O alf mil Jorge Ferreira, o primeiro a contar da direita


Foto nº 3 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > À porta de armas...


Foto nº 4 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > O alf mil Jorge Ferreira, na entrada do CIM de Bolama: é o segundo a conta da direita


Foto nº 5 >Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar (CIM)  > c. junho /julho de 1961 > Entrada do CIM 


Foto nº 6 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > Recrutas guineenses em formatura (1)


Foto nº 7 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > Recrutas guineenses em formatura (2)


Foto nº  8 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 >   Paisagem



Foto nº 9 > Guiné > Arquipélago dos Bijagós > Bolama >  Centro de Instrução Militar > c. junho /julho de 1961 > O Jorge Ferreira à civil


Fotos (e legendas): © Jorge Ferreira (2026). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Jorge Ferreira em Buruntuma
(nov 61 / jul 62)

1. O Jorge Ferreira tem 40 referências no nsso blogue. É um dos nossos VCC ("velhinhos como o caraças...). Não em idade (é um jovem, vai fazer 88 anos no próximo dia 4 de julho), mas em antiguidade na tropa.

Entrou para a Tabanca Grande em 19/9/2016 (nº 728) (*)

Em meados de 1960, tinha concluído o 3º ano da licencitura em Ciências Sociais e Políticas (ISCSPU / UTL), quando foi chamado para a tropa. (Os últimos dois anos do curso serão completados depois de regressar à metrópole em julho  de 1963.)

Em maio de 1961 é  mobilizado para a Guiné. Ficou no CIM de Bolama a dar recruta a tropas do recrutamento local  (2 turnos). É colocado em Nova Lamego na 3ª Companhia de Caçadores Indígenas (a partir de 1/4/1967, sesignada por CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, até à sua extinção, em 1974).

Entre  novembro de 1961 e julho de 1962, esteve em Buruntuma, na fronteira com a Guiné-Conacri, quando ainda a guerra não tinha começado oficialmente... Esteve a comandar um pelotão  de 40 homens (metade do Esquadrão de Cavalaria nº 252, e metade do recrutamento local, da 3ª CCI).

A sua comissão de serviço no CTIG foi de 25 meses.  As fotos que apresentamos são do início da sua comissão quando foi colocado como instrutor no CIM de Bolama (**).

2. Informação adicional sobre a 3ª CCAÇ  I (José Martins, nosso colaborador permanente, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, Canjadude, 1968/70):



 (i) esta unidade foi constituída em 1 de fevereiro de 1961, como unidade da guarnição normal do CTIG;

(ii) era formada por quadros metropolitanos e praças indígenas do recrutamento local;

(iii) iniciou a sua formação adstrita à 1ª CCAÇ I (que passou a designar-se, a partir de 1/4/1967, CCAÇ 3);

(iv) em 1 de agosto de 1961, com a constituição de dois pelotões, substitui a 1ª CCAÇ I na guarnição de Nova Lamego;

(v) desloca elementos para guarnição de várias localidades do Setor Leste, por períodos e constituição variáveis, sendo de destacar as localidades de Che-Che, Béli e Madina do Boé;

(vi) passou a guarnecer, em permanência,  as localidades de Béli e Madina do Boé instalando, em 6 de maio de 1963, um pelotão em cada localidade;

(vii) em 1 de abril de 1967 passa a designar-se por Companhia de Caçadores nº 5, com sede em Canjadude.

________________

Notas do editor LG:

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27909: Notas de leitura (1912): Um manjar para filatelistas acérrimos: "Os Selos Coroa da Guiné" (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Como o meu interesse filatélico é praticamente nulo, os aficionados que tiverem a paciência de ler esta narrativa me perdoem se nela houver alguma besteira. Encontrei este livro no alfarrabista, era irresistível a sua aquisição, creio que nunca falámos da filatelia guineense, nomeadamente deste período de transição da dependência da Cabo Verde até ao estado de Província autónoma. Os primeiros governadores, impossibilitados de terem selos próprios emitidos pela Casa da Moeda ou pela Imprensa de Bolama, recorreram aos selos Coroa de Cabo Verde sobrecarregando-os do termo Guiné em minúsculas e em maiúsculas, Guiné pequena e Guiné grande. O General Oliveira Pinto, autor da obra, faz um resumo histórico entre 1879 e 1897, estudou a fundo toda a documentação atinente que encontrou no Arquivo Histórico Ultramarino, dá-nos conta das discussões havidas entre filatelistas e tira as suas conclusões. Estou ciente que trouxe a público um assunto que interessa a poucos, mas a Guiné aqui é estudada sem pensar em maiorias ou minorias.

Um abraço do
Mário



Um manjar para filatelistas acérrimos:
Os Selos Coroa da Guiné


Mário Beja Santos

Este livro intitulado "Os Selos Coroa da Guiné", muito provavelmente só terá interesse para os filatelistas, sobretudo aqueles que colecionam selos das antigas colónias portuguesas, mas creio que as informações que se dão sobre a história destes selos poderão interessar a muitos mais. 

Diz-se no prefácio da obra que se vai procurar provar que as raras “Guinés” pequenas terem sido as primeiras a aparecer sobre os selos Coroa de Cabo Verde, que tradicionalmente circulavam na Guiné sem sobrecarga, isto em primeiro lugar. Mas o autor, o General Oliveira Pinto, deixa uma síntese histórica do território e revela aspetos interessantes da História Postal; o livro inclui a documentação que o autor pesquisou no Arquivo Histórico Ultramarino sobre o assunto.

Logo nas generalidades, o General Oliveira Pinto recorda que até junho de 1941 todos os catálogos, nacionais e estrangeiros, sem exceção, mencionavam os selos da emissão Coroa com a sobrecarga Guiné pequena como os primeiros selos a circular na Guiné depois da sua autonomia em relação a Cabo Verde, e só depois os de sobrecarga Guiné da Casa da Moeda, sobrecarga vulgarmente conhecida como Guiné grande. 

Como sou ignorante no tema, fui bater à porta de uma loja filatélica para saber o significado do que são selos Coroa, Guiné grande e Guiné pequena e sobrecarga. Os selos Coroa é um termo para todo o selo que incorpora no espaço central a Coroa régia, Guiné pequena, como se pode ver na capa da obra, inclui a impressão de Guiné em letras pequenas e Guiné grande em letras maiores, sobrecarga é o significado da impressão sobre um selo já existente, tanto em Guiné pequena como em Guiné grande.

Ficamos a saber que o 2.º Governador da Guiné, Pedro Inácio de Gouveia foi quem, em meados de 1882, por faltar em Bolama selos de várias taxas, das de sobrecarga Guiné, em grandes caracteres, mandara sobrecarregar com a mesma palavra, em caracteres mais pequenos e na Imprensa do Governo da Província uma certa quantidade de selos de Cabo Verde, que existiam em cofre, ainda do tempo em que a Guiné não era Província autónoma.

A discussão entre filatelistas sobre o aparecimento dos primeiros selos com a sobrecarga Guiné tem em consideração depoimentos da época. Vivia nessa altura na Guiné um inglês de nome John Marsden, que era da opinião que os Guiné pequena tinham sido os primeiros, portanto os Guiné pequena apareceram em 1879 e os Guiné grande circularam entre 1881 e 1884. Sabe-se igualmente que foram dadas ordens à Casa da Moeda para providenciar selos com a legenda Guiné Portugueza.

Passando adiante ao resumo histórico sobre a Província da Guiné, o autor dá-nos a relação das casas comerciais aí existentes em 1881, as empresas francesas com destaque, temos depois um acervo de imagens de documentação que o autor analisou no Arquivo Histórico Ultramarino, aparece depois a Imprensa na Guiné, a sua principal responsabilidade era tipográfica, a publicação regular do Boletim Oficial da Província da Guiné. 

Temos depois o elenco das remessas de selos, a partir de 1879 onde podemos ver claramente a sobrecarga de Guine pequena. A partir de 1884 os selos vão ter a efigie de D. Luís I, mas durante um bom lapso de tempo a Casa da Moeda foi satisfazendo as requisições da Guiné com os selos tipo Coroa, terá sido uma situação que se arrastou até 1886 ou mesmo 1887.

O autor discreteia sobre os correios na Guiné, como os selos e postais existiram em Bissau, Cacheu, Bula, Geba e Farim. Havia diretor dos correios nomeado em 1879, tinha a designação de Superintendente dos Negócios Postais da Guiné; tecem-se breve considerações sobre os serviços dos correios, fica-se a saber que o correio estava instalando no mesmo edifício da alfândega e assim o autor chega às conclusões: 

“Os selos Coroa, que começaram a sua circulação na Guiné em 1879, deviam ter terminado em 1886, quando começaram a circular os selos com a efigie do monarca.” 

Tinham sido proibidos todos os selos Coroa para Lisboa. Acontece que as contas da Alfândega de Cacheu, na listagem dos selos existentes em 1891, eram referidas estampilhas antigas de 40 e 100 reis, o que é o mesmo que o tipo Coroa.

O autor dá-nos algumas notas sobre John Marsden (1857-1939) como filatelista. Ele viveu em Bissau na época em que ainda circulavam os selos Coroa. Era um filatelista de fama mundial, quando vendeu a sua coleção de selos de Portugal e colónias ela foi considerada a maior do mundo naquela época. Podemos ver na imagem um seu retrato publicado no Boletim Oficial n.º 27, de 4 de julho de 1885. Esteve na Guiné um pouco mais de um ano, teria então 28 anos. Elaborou catálogos e colaborou com revistas de renome. Os seus artigos publicados em jornais e revistas da especialidade eram tidos como fundamentais. No jornal Le Timbre Poste deu conta dos selos existentes na Guiné:

“Quando cheguei a Bissau e depois a Bolama, eu procurei saber nos Correios e em toda a parte e verifiquei para minha surpresa que ninguém tinha visto ou ouvido falar destas sobrecargas pequenas. Até o Governador da Província, cuja esposa era colecionadora de selos, não tinha ouvido falar neles.

Considerei aquela compra um mau negócio e cheguei à conclusão de que eram falsos, até que numa manhã cedo, meses depois, quando saí com a minha arma, passeando ao longo da praia em Bissau, eu vi um pequeno envelope enrolado nas ondas, e para minha satisfação vi que ele tinha no verso um selo de 20 reis e outro de 5 reis, ambos com a sobrecarga pequena e o envelope era dirigido ao padre de Bissau. Eu conhecia-o muito bem e tinha-o ajudado a tratar-se durante um par de dias quando ele estava a sofrer um forte ataque de febre.

Quando lhe mostrei o envelope e lhe disse o que queria, respondeu: ‘a carta era do meu amigo Cleto da Costa, o Chefe dos Correios de Cacheu’. Não perdi tempo a enviar a Cacheu mensageiro, três dias de jornada, pedindo-lhe para me enviar um selo de cada taxa que ele tivesse no correio. Quando em abril de 1881, o Governo recebeu o primeiro fornecimento de selos com a sobrecarga grande, todos os outros existentes em Bissau e Bolama sem sobrecarga, foram sobrecarregados em pequenos caracteres na Imprensa do Governo e enviá-los para Cacheu onde ficaram esquecidos até eu os descobrir.”


Outro filatelista contesta as afirmações de Marsden, não me sinto habilitado a saber qual o rigor dos argumentos de uns e outros, mas o autor nas conclusões volta a falar de Marsden dizendo que este chegou à Guiné em 1884, portanto cinco anos depois de terem feito as sobrecargas que estavam em circulação. 

No fundo, as autoridades da Guiné pretendiam tornar os selos diferentes dos de Cabo Verde, para poderem fiscalizar as receitas, logo sobrecarregando-os. Diz o autor que desconhece com que fundamentos Marsden, que começou por considerar a emissão dos Guiné pequena em 1881 veio depois a alterar, e bem, essa data para 1889.

O autor procede a um resumo dos pontos de vista de alguns filatelistas que já escreveram sobre a ordem cronológica das emissões, caso de Faustino António Martins, Carlos Trincão, Carlos George, Pires de Figueiredo, Vitorino Godinho. E assim se chega às conclusões finais quanto à cronologia das emissões dos selos da Guiné com as sobre cargas Guiné pequena e Guiné grande. Conclui o autor que a primeira emissão com selos da Guiné como Província autónoma foi a emissão com sobrecarga pequena.

Peço desculpa ao autor se acaso o estou a enfastiar com as considerações feitas pelo General Oliveira Pinto neste seu livro editado em junho de 2003 e que deve ser uma preciosidade para quem sente a devoção filatélica.

Página de bilhetes postais inseridos no livro Os Selos Coroa da Guiné
Folha completa dos 100 reis Guiné pequena
_____________

Nota do editor

Último post da série de 6 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27894: Notas de leitura (1911): "Querido Pai, uma conversa entre ausentes – Cartas da guerra 1961-1975", por Ana Vargas e Joana Pontes; Tinta da China, 2025 (2) (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27900: Historiografia da presença portuguesa em África (524): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1966 (82) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
Recordo-me quando cheguei à Guiné em 1968 ainda se falava numa explosão lá para os lados de Farim, uma barbaridade, ato insólito praticado por um grupo do PAIGC, não era prática corrente na guerrilha guineense lançar explosivos no meio de uma festa. Segundo os louvores dados pelo Governador Schulz, os agentes da PIDE que ali se deslocaram contaram com a colaboração da tropa local. Perguntará o leitor porque é que louvores desta natureza vêm no Boletim Oficial e não nos boletins das Forças Armadas. Acontece que a PIDE não estava enquadrada nas Forças Armadas, é a razão pela qual o Boletim Oficial regista a chegada e partida dos agentes da Polícia Política. O Governo central cede dezenas de milhões para financiar os planos de desenvolvimento. Fala-se neste ano de 1966 no contrato de concessão para a pesquisa e exploração de hidrocarbonetos na Província da Guiné, é esperável que tenhamos acesso ao desfecho desta missão. Criam-se novos grupos desportivos, caso da ANCAR e da SACOR, cria-se uma cooperativa de pesca em Bolama. E foi criado o Batalhão de Caçadores-Paraquedistas n.º 12, na dependência do Comando da Zona Aérea de Cabo Verde e Guiné.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1966 (82)

Mário Beja Santos

O que mais me impressiona na leitura do Boletim Oficial destes anos tumultuosos é a tentativa de uma grande discrição, a Guiné vive em apuros, mas teima-se em silenciar os factos, nesta altura a Província vive uma tempestade demográfica, mas quem lê o Boletim Oficial precisa de ler nas entrelinhas os acontecimentos.

Talvez para benefício do leitor, dá-se o rol dos acontecimentos e fazem-se as citações necessárias. Logo no Boletim Oficial n.º 1, de 3 de janeiro, o Governador Schulz dá louvores a dois agentes da PIDE, aqui sim, convém transcrever logo:
“O atentado terrorista, levado a cabo em 1 do passado mês de novembro, na tabanca de Morocunda, em Farim, por elementos então desconhecidos, motivou a deslocação de uma brigada da PIDE àquela vila, a fim de se proceder às averiguações necessárias para a descoberta dos criminosos.
Foram árduas e extremamente difíceis as investigações, não só pela falta de indícios, como também pelas massas autóctones, em estado de choque devido à explosão e seus efeitos, se recusara a prestar declaração, o estar convencida que o atentado fora perpetrado por brancos.
Só houve a suavizar as dificuldades criadas por meio tão hostil, a franca e leal colaboração dada pelas tropas locais, a cujo apoio moral e material se deve, em grande parte, o êxito obtido.

Foram estas que nos cederam os locais para concentrar os detidos por suspeita e as dependências para os interrogatórios, alimentaram os presos e ainda facilitaram a nossa tarefa muito contribuindo para a descoberta dos criminosos.
A atuação do pessoal desta Polícia, também merece especial relevo dado que foi graças ao seu inexcedível zelo, competência, espírito de sacrifício e vontade de bem servir, que se descobriram os autores do crime e uma vasta e bem organizada rede de elementos do PAIGC que tudo prepararam e mais projetavam fazer.”

Em sequência, foram louvados um chefe de Brigada e quatro agentes de 2.ª classe, que vêm perfeitamente identificados no Boletim Oficial.

No Boletim Oficial n.º 2, de 8 de janeiro, publica-se a Portaria n.º 1767, que estipula que durante o ano de 1966 é autorizada a isenção de direitos na importação de arroz. Em termos nacionais, o Governo decidira melhorar os vencimentos dos militares do Exército, Armada e Força Aérea. Dá-se igualmente reforço de verbas inscritas na tabela de despesa do orçamento privativo das forças terrestes ultramarinas em vigor na Província da Guiné. Ficamos a saber que pelo Decreto-Lei n.º 46826 foi instituído o Serviço Postal Militar; também pelo Decreto n.º 46796, do Ministério do Ultramar, é aprovada a renovação do contrato para pesquisa e exploração com a Esso Exploration Guiné Inc., celebra-se um novo contrato que consta no Boletim Oficial n.º 6, de 5 de fevereiro.

Igualmente merece destaque o contrato de empréstimo à Província Ultramarina da Guiné para a execução de empreendimentos previstos no Plano Intercalar de Fomento. Vale a pena dar conta de como se previa a aplicação destes recursos financeiros oriundos de uma receita extraordinária, provenientes do empréstimo a conceder pela metrópole: conhecimento científico do território; investigação científica; estudos de base; agricultura, silvicultura e pecuária; pesca; energia; indústria; transportes e comunicações; turismo; habitação e melhoramentos locais; promoção social. Tudo somado: 40.000.000$00.

Voltando ao contrato de concessão com a Esso, talvez valha a pena dizer que a concessão tinha por objeto o direito de pesquisar e explorar, à custa do concessionário, em regime de exclusivo, todos e quaisquer jazigos de hidrocarbonetos sólidos, líquidos e gasosos, incluindo petróleo, nafta, ozoquerite, gases naturais e asfalto, e ainda enxofre, hélio, anidrido carbónico e substâncias salinas; obviamente que se define a área de concessão que teria um período inicial de cinco anos.

No mês de abril, conforme consta no Boletim Oficial n.º 17, de 23 de abril, constitui-se a Cooperativa de Pesca de Bolama, diz-se mesmo no preâmbulo do despacho do Governador:
“É de todos conhecida a enorme riqueza ictiológica das águas interiores e fluviais da Província da Guiné. Dos cursos fluviais de maior riqueza ictiológica destaca-se o rio Grande de Buba em cujo troço designado por Ria de Buba, entre a foz do rio Lenguete e a ponta Nalu, abundam várias espécies ictiológicas comestíveis, tais como a bicuda, o barbo, a taínha, a corvina, etc.
Dos portos nas proximidades da Ria de Buba o porto de Bolama é aquele que oferece, sem sombra de dúvida, melhores condições para enxurrar as embarcações com mais recursos do que se refere à possibilidade de uma regular manutenção tanto das embarcações propriamente ditas como dos respetivos equipamentos propulsores.”

Estabelece-se a natureza, os fins e sede da sociedade.

No Boletim Oficial n.º 19, de 7 de maio, pela Portaria n.º 1803, aprovam-se os estatutos do Grupo Desportivo, Recreativo e Cultural ANCAR. Ficamos a saber que foi fundado pelos empregados, assalariados e simpatizantes da Firma António Augusto de Carvalho, a coletividade tem a sua sede em Bissau e as suas finalidades são, para além das modalidades desportivas, a organização de cursos de ginástica, excursões, criação de uma biblioteca técnica, realização de palestras, conferências e exposições, o resto dos estatutos mostra a afinidade com a estrutura de todos os outros.

Disse-se inicialmente que se procura o máximo de discrição quanto às dificuldades económico-financeiras, elas vão sendo desveladas pingo a pingo.

No Boletim Oficial n.º 30, de 23 de julho, a Portaria n.º 22107 determina que o Governo da Província Ultramarina da Guiné abra créditos destinados a suportar determinados encargos provenientes de objetivos previstos no programa de financiamento do Plano Intercalar de Fomento, e destacam-se as rúbricas envolvidas: regularização do abastecimento interno do pescado; portos e navegação; educação; meteorologia; fomento dos recurso agro-silvo-pastoris; aproveitamento dos meios de obtenção de água doce; transportes rodoviários, aéreos e aeropostais, etc. O Boletim Oficial n.º 33, de 13 de agosto, pelo Decreto n.º 47132 autoriza o Governo da Província a contrair no Banco Nacional Ultramarino, um empréstimo, em moeda local, até ao montante de 12 milhões, destinado a ser aplicado em obras inscritas em planos de fomento.

Já estamos em setembro, no Boletim Oficial n.º 36, de 13 de setembro, são aprovados os estatutos do Grupo Desportivo e Recreativo do Pessoal da SACOR.

No Boletim Oficial n.º 45, de 5 de novembro, temos a Portaria n.º 22260, da Presidência do Conselho e Ministério do Ultramar é constituído o Batalhão de Caçadores-Paraquedistas n.º 12. No Boletim Oficial n.º 48, de 26 de novembro, pela Portaria n.º 1849 voltamos à candente questão do reforço de verbas, será assim até ao fim do ano.

Procurando refletir conjuntamente com o leitor, subjaz a grande questão dos meios económico-financeiros que foram postos por Lisboa à gestão do Governador Schulz, é bem percetível de toda esta avalanche de reforço de verbas de que a economia guineense ainda não está exangue, mas deu-se uma reviravolta nas receitas fiscais, nas taxas aduaneiras, lê-se permanentemente no Boletim Oficial que há nomeações, e da leitura que estou a fazer do Boletim Oficial de 1967 já faltam candidatos para os postos administrativos, a dissuasão é dado pelo alastramento da guerra de guerrilhas. Não deixo de insistir que a dilucidação de todo este período da governação de Schulz aguarda uma tese de doutoramento.

General Arnaldo Schulz
O Subsecretário de Estado do Fomento Ultramarino, Rui Patrício, visita a Guiné em abril
Felupe em traje festivo
Tecelão Manjaco
Dança Manjaca
Rapariga Manjaca tatuada
Tocadores Fulas

Estas cinco imagens são retiradas do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa de 1966

(continua)

_____________

Nota do editor

Último post da série de 1 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27879: Historiografia da presença portuguesa em África (523): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1965 (81) (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27778: Notas de leitura (1900): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (4) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Creio que se justifica uma explicação quanto à extensão que estou a dar à recensão deste livro. O Marquês do Lavradio, possuidor de um arquivo histórico ímpar, tendo acompanhado no exílio o rei D. Manuel II até ao seu falecimento, pode debruçar-se a preceito, neste livro que concluiu em 1934 a discretear com rigor e sem nacionalismos tolos ao estado das colónias portuguesas, às razões do seu estado decadente e à análise das mais palpitantes questões diplomáticas que se prendiam com a formação do nosso Terceiro Império.
Assim como a História da Guiné não se pode elaborar exclusivamente com os dados que possuímos sobre a presença portuguesa quer na Senegâmbia quer na Província, havendo o imperativo de convocar historiografias de Cabo Verde, Senegal, Guiné Conacri, pelo menos, do mesmo modo não se pode entender o esforço de ocupação e pacificação que a Guiné viveu sem entender o pano de fundo da ténue presença portuguesa na Grande Senegâmbia e o que representou a Conferência de Berlim para esse papel de ocupação e pacificação, que se estenderá até 1936 e culminará com o desempenho do governador Sarmento Rodrigues.
Obviamente que esta obra do Marquês do Lavradio irá ser taticamente esquecida na argumentação das autoridades portuguesas na era da descolonização mundial, aqui se revela, preto no branco que estávamos há cinco séculos em África em entrepostos, pagando dinheiro às chefaturas para ali comerciar e traficar. Como, de igual modo, valerá a pena ler com atenção uma conferência que o Conde de Penha Garcia, que presidiu aos destinos da Sociedade de Geografia de Lisboa de 1924 a 1940, conferência produzida em 1892, onde disse claramente que Portugal estava ligado ao continente africano por interesses de quase 500 anos.

Um abraço do
Mário



Um livro assombroso, o Império Colonial Português no microscópio, na década de 1930, pelo punho do Marquês do Lavradio – 4

Mário Beja Santos

Portugal em África depois de 1851, subsídios para a História, pelo Marquês do Lavradio, foi ditado pela Agência Geral das Colónias em 1936, trabalho que terá sido concluído em 1934. Goza da singularidade deste aio do Rei D. Manuel II ter tido acesso aos arquivos britânicos e possuir um repositório intitulado o Arquivo Lavradio, o seu pai, diplomata em Londres, correspondeu-se com diferentes governos britânicos, expediu notas para Lisboa e deixou relatórios da maior pertinência. O aspeto mais curioso deste seu trabalho é a franqueza que ele põe nas suas considerações da decadência imperial portuguesa, como se procurou mostrar nos dois textos anteriores revela como até ao século XIX a nossa presença circunscrevia-se praticamente à orla da costa de regiões que só no século XIX passaram a ser designadas ou até fronteiras, caso da Guiné, Angola e Moçambique (os arquipélagos de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). Dentro da franqueza que o Marquês usa na sua narrativa é patente a crítica por vezes brutal face ao imperialismo britânico; no entanto, dirá nas conclusões que o Império português só poderá sobreviver à sombra da proteção britânica.

Já florámos o estado das colónias portuguesas de África em 1851, as causas principais de decadência no olhar do Marquês do Lavradio, entramos agora nas questões diplomáticas, a seguir à questão de Bolama temos a de Lourenço Marques que igualmente originou graves discussões com as autoridades britânicas.

Lourenço Marques deve o seu nome ao navegador português que em 1544 entrou naquela baía e tomou posse em nome do rei de Portugal. Em 1733, os holandeses expulsaram-nos de Lourenço Marques e construíram uma fortaleza; mais tarde, os austríacos expulsaram os holandeses. Em 1781, saiu de Moçambique uma expedição por ordem de D. José, os austríacos foram expulsos e tomou-se novamente posse daquele porto e território.

A questão de Lourenço Marques teve a sua primitiva origem no procedimento do capitão Owen em 1824. O governador Lourenço Marques maltratara o rei Capela, e devendo tratá-lo com respeito, como ordenavam as cartas régias, ultrajara-o e matara-lhe gente, porque não se prestara às rapinas que lhe propusera. O rei Capela foi buscar auxílio do capitão de mar e guerra Owen, encarregado de levantar a carta hidrográfica de toda a costa oriental de África e que então estava na baía de Lourenço Marques. Owen, para atrair o régulo, prometera-lhe auxílio, içou uma bandeira inglesa na ponta sul das terras daquele rei, fronteiras ao estabelecimento português. Owen conseguiu ainda de outras autoridades gentílicas vassalagem ao rei britânico. Começaram as contendas entre autoridades portuguesas e britânicas: arriar a bandeira britânica, apresamento de brigues, ameaças, intimidações.

Seguiram-se negociações diplomáticas sobre a legitimidade de direitos portugueses a Lourenço Marques, contestação britânica, com prova de força, a 28 de julho de 1860, o contra-almirante Keppel entrava na baía de Lourenço Marques e escrevia ao governador: “Que aquela baía era considerada como limite entre as possessões portuguesas e inglesas, e que a parte sul e território sul pertenciam à coroa britânica, e o governo de Sua Majestade britânica mantinha o seu direito de reclamar e conservar o mesmo território.”

Em 5 de novembro de 1861, o governador do Cabo da Boa Esperança mandou a Lourenço Marques um navio para se apoderar de ilhas declarando ao governador Lourenço Marques que eram possessão inglesa e ficavam anexadas à colónia do Natal. Protesto do comissário português, diligências diplomáticas em Londres. O Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico continuava a negar os direitos portugueses. O diplomata português, o Marquês do Lavradio, respondeu:
“Que à vista da inqualificável declaração que ele acabara de fazer-me, eu começava por lhe perguntar se ele considerava Portugal uma nação independente ou como uma conquista da Inglaterra? Que eu não podia admitir que se duvidasse da independência de Portugal, e que então o emprazava para que me dissesse com que direito o Governo britânico havia não só mandado violar o território português, mas até anexado uma porção dele, sem respeito aos Tratados vigentes? O Governo britânico, prevalecendo-se da superioridade das suas forças e confiando que nós nem sequer havemos de confiar ao mundo civilizado os resultados da nossa opressiva aliança, exerce sobre nós uma verdadeira tirania, de um género que não conheço outros exemplos na história das nações.”

O diplomata português confessou abertamente a Lord Russell a sua profunda indignação e esperava, no entanto, que houvesse uma reparação aos atos praticados pelo governador da colónia do Cabo.

A Inglaterra não tinha argumentos que pudesse contrapor para justificar o direito a ocupar as ilhas da baía de Lourenço Marques. A Inglaterra sabia que Portugal não tinha forças para evitar as prepotências britânicas. Nestas condições, só restava a Portugal o recurso de negociar, a arbitragem era o único meio que Portugal dispunha para poder segurar as suas possessões. E o Governo português procurou alianças. A 29 de julho de 1869 assinava-se em Pretória um Tratado de paz, amizade, comércio e limites entre Portugal e a República do Transval, seguiram-se protestos britânicos. A diplomacia portuguesa reagiu apelando para que se terminasse amigavelmente a questão de Lourenço Marques. Indicou-se então como árbitro o Presidente da República Francesa, Mac-Mahon pronunciou em 24 de julho de 1875 a sentença arbitral dando completa satisfação às reclamações portuguesas, o que veio consolidar o domínio português na Província de Moçambique. O Governo britânico aceitou a decisão do árbitro. Fez-se um novo Tratado com o Transval, estipulando a construção do caminho-de-ferro Lourenço Marques a Pretória, isto em 1875, e no ano seguinte Portugal assinou um Tratado com o Estado Livre de Orange sobre as mesmas bases do Tratado de Transval.

O Marquês do Lavradio vai agora demoradamente debruçar-se sobre a questão do Zaire e a Conferência de Berlim, temas-chave para o reconhecimento de Portugal como potência colonial e porta de saída para a reconfiguração de territórios coloniais com as presenças francesa, britânica, portuguesa e alemã. Lembra o autor uma citação num livro sobre a colonização dos povos modernos, da autoria de Leroy Beaulieu:
“Portugal pela sua inércia, incapacidade e corrupção, devidas ao tráfico negreiro, deixou passar o momento propício de reconstituir um florescente império português em África.”

D. José Maria do Espírito Santo de Almeida Correia de Sá, 6.º Marquês do Lavradio (1874-1945)
Chegada de um comboio oriundo do Transval à então novíssima estação ferroviária de Lourenço Marques (1ª fase) pouco depois da inauguração, ocorrida em Março de 1910 (note-se que a imagem foi recolhida já após o golpe de Estado que impôs uma república em Portugal, evidenciado pela bandeira nacional verde e vermelha, imposta pelo regime republicano). A estação inicial, muito mais rasca, que ficava do lado direito deste e mais ao fundo, ainda existe, mas foi desativada na altura (Ver o postal em baixo). Se o Exmo. Leitor reparar, ao fundo ainda não se vê a parte de trás da fachada que daria para a Praça (então chamada Azeredo, depois Mac-Mahon, hoje dos Trabalhadores) e que seria construída posteriormente e concluída cerca de 1916 (2ª fase). Note-se ainda a torre de iluminação elétrica, que na altura era considerado o píncaro da modernidade e que permitia utilizar a estação quando os comboios partiam e chegavam durante a noite.
Navios fundeados em frente a Lourenço Marques, 1895. Em primeiro plano, barcaças chatas. Esta foto foi tirada aquando dos ataques a Lourenço Marques, que motivaram os portugueses a enviar uma expedição ao Sul de Moçambique, chefiada por António Ennes e que incluía, entre outros o Major Mouzinho de Albuquerque.

Estas duas imagens foram retiradas do site The Delagoa Bay World, com a devida vénia

(continua)

_____________

Notas do editor:

Vd. post de 20 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27754: Notas de leitura (1898): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (3) (Mário Beja Santos)

Último post da série de 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27764: Notas de leitura (1899): "Amílcar Cabral O Africano que Abalou o Império", por José Alvarez, Âncora Editora, 2025 (3) (Mário Beja Santos)