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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28241: Historiografia da presença portuguesa em África (538): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (6): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 12 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Quando o Capitão Henri Brosselard saiu de Bolama em direção ao rio Nuno e daqui a Kandiafara, este itinerário não era inocente, conforme comprova a narrativa do chefe da missão francesa para a delimitação de fronteiras. Ele observa neste seu relato a importância do rio Nuno no contexto dos chamados Rios do Sul, e procurou habilmente sondar Mamadu Paté (que se revela leal à França) sobre a chamada relação de forças no Forreá e quem era quem na Península de Cacine. Era facto assente que a política francesa passava por criar uma barreira de acessos comerciais dos portugueses às rotas dos Futa-Djalon, entretanto havia que sondar as linhas de tráfego do Futa até Cacine. também ficou verificado que as comunicações entre o rio Nuno e o rio Compony eram extremamente difíceis, a acessibilidade só poderia ser garantida por pequenas embarcações. E o capitão Brosselard também deixa claro a luta pelo poder em que os Fulas do Forreá procuravam expulsar os Biafadas e os Nalus, nesta época (1888) já o próspero comércio da região do rio Grande do Bolala estava praticamente dizimado pelas sanguinárias guerras travadas no Forreá.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 6
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Retomando o texto anterior, a coluna do Capitão Henri Brosselard chegou a Kandiafara, na véspera já tinha chegado a esta pequena povoação o Sr. Galibert. Na penúltima etapa deste percurso, Brosselard tinha atingido o rio Compony ou Cogon, aqui desfraldou a bandeira francesa, para ele ficava claro que tinha percorrido regiões completamente desconhecidas, deixadas em branco das cartas geográficas, confirmava-se ter chegado a um dos rios dos chamados Rios do Sul, cuja existência era contestada, negada pelos geógrafos que pensavam que o curso de água atravessado por alguns viajantes nas altas regiões do Futa-Djalon tinha a sua foz no estuário do rio Cacine, reconhecido em 1885 pelo tenente do navio Vallon, agora nau capitânia.

Para determinar a fronteira sul da Guiné, devíamos visitar regiões que não tínhamos assinaladas a não seu por vagas informações, todas erróneas, como pudemos verificar na continuação deste reconhecimento e que nós sabíamos estar num grande estado de desolação provocado pela invasão de hordas Fulas. Antes de começar o nosso trabalho e dar uma direção às operações, incumbia-me uma dupla missão que iria cumprir em Kandiafara: assegurar-me da boa vontade dos chefes do país e recolher informações genéricas sobre a geografia das regiões à volta.

Logo à minha chegada constatei haver uma grande emoção que reinava no país. Corria o rumor que um chefe francês vinha fazer a guerra; os Fulas do Forreá, que muito maltratavam os Nalus, invadindo diariamente o território e destruindo toda e qualquer povoação, não se sentiam sossegados, pois estavam em crer que a França tinha vindo em auxílio dos reis dos Nalus, seu aliado. A povoação Fula de Simbéli, edificada a alguns quilómetros de Kandiafara, fora abandonada pelos seus habitantes, e o rei do Forreá, Mamadu Paté, convocara o seu exército.

O primeiro dia foi consagrado à instalação; os oficiais ficaram numa casa de comércio abandonada e os restantes militares construíram abrigos confortáveis. O Sr. Galibert deu conta da sua navegação pelos braços de rio estreitos e lamacentos que permitem a navegação às pequenas embarcações para passar do rio Nuno para o Compony. Ele partira de Samiah com a maré, na noite de 10 de fevereiro, tinha descido com a embarcação do rei Dinah e uma outra embarcação ligeira no curso do rio Nuno até Victória. Costeando depois a margem direita do rio Nuno, andou em braço de rio até Kassagoua. A sete quilómetros de Boffa deixou Kassagoua e penetrou noutro braço do rio sinuoso que desagua no Compony, perto do Cabo Sin. A 12 chegou a Bassiah, pequena povoação de comerciantes situada na margem esquerda do rio, subiu o Compony com a maré e chegou a 13 a Kandiafara. Os braços de rio de Tankina e de Socotia estabelecem uma outra comunicação entre o rio Nuno e o Compony, mas a navegação só é possível por canoa. Esta região de cursos de rio é muito perigosa e insalubre, mesmo para quem lá vive. Encontram-se aqui alguns Nalus misturados com Bagas e Biafadas que fugiam da invasão Fula e procuravam aqui um refúgio seguro.

A 14 à noite, recebi uma mensagem do rei Mamadu Paté. O rio do Forreá anunciava que estaria no dia seguinte em Simbéli e solicitava uma entrevista com o chefe francês. A 15 fui ao encontro acompanhado de um intérprete, de cinco atiradores e de um certo número de atiradores; instalei-me provisoriamente na povoação, mandei montar uma tenda fora do recinto, num espaço descoberto.

Ao cabo de algumas horas ouviu-se o rumor longínquo dos tambores, acompanhados de cânticos, de gritos, de tiros, anunciando a aproximação do rei e do seu exército. Mamadu Paté apareceu montado num cavalo, precedido pelos griots (cantores e tocadores de Korá) que teciam louvores ao seu senhor. Atrás deste grupo vinha uma longa fila de guerreiros, armados de espingardas e de sabre, vestidos com uma curta túnica presa à cintura na qual pendia um grande corno com pólvora. Muitos deles traziam chapéus de abas lisas, tecidos com caniços tingidos com variadas cores; esta indumentária pitoresca era completada por um grande número de amuletos que pendiam no pescoço ou estavam fixados no vestuário ou nas armas.

Mamadu Paté apeou-se ao pé da tenda que estava destinada às conversações e sentou-se na companhia dos principais chefes que tinham vindo com ele. Os guerreiros sentaram-se no chão à volta da tenda. A reunião não podia ter lugar na povoação de Simbéli: o rei estava em guerra com os Biafadas e enquanto não regressasse dessa campanha os usos e costumes proibiam-no de se abrigar na povoação. Avancei, precedido dos meus atiradores, bem indumentado, tendo a arma na espádua e a baioneta no cano. O rei veio na minha direção e travámos os cumprimentos da praxe.

Já sentados, os carregadores depuseram os presentes que foram oferecidos ao rei. Este, homem prudente, fez saber antes, por um confidente, que precisava de deixar à guarda do chefe de Simbéli a maior parte dos presentes que lhe estavam destinados, com este subterfúgio não precisava de acompanhar os seus acompanhantes. Os presentes ficaram à vista de todos, aos pés do rei, estes estavam destinados a mostrar a sua generosidade.

Começaram as conversações. Exponho as razões que me traziam ao Forreá e Mamadu Paté protesta a sua simpatia pela França e por tudo o que é francês. Peço ao rei para me vender cavalos. Ele não pode satisfazer o meu pedido, só tinha três e em mau estado, Mody-Yaya tinha recentemente levado os que ele possuía. Antes de regressar a Kandiafara, e para satisfazer o pedido do meu hóspede, mostrei-lhe a potência das espingardas dos meus atiradores. Estes dispararam sobre troncos de árvores distantes a 300 metros. Os Fulas não puderam conter a sua surpresa e admiração.

Os Fulas do Forreá, que eu acabara de ver o seu exército quase completo de 600 a 800 homens, são antigos escravos dos Fulas. No seguimento de conflitos com a raça conquistadora, eles obtiveram uma certa autonomia; atualmente eles reconhecem a soberania do rei de Kadé, ele próprio é um dos grandes feudatários do Futa-Djalon.

Os Fula-Cundas, gente pobre e guerreira, só podem assegurar a sua independência conquistando território fora do Futa-Djalon, por isso se lançaram em 1852 sobre o Forreá, que estava nas mãos dos Biafadas, eram conduzidos pelo rei Bacar-Demba e expulsaram-nos para os pântanos da costa e para lá do rio Grande de Bolola; depois, sempre à procura de mais territórios, eles empurraram os Nalus para o Combidiah (será o rio Cumbidjã?). Também têm agora presença no Cogon em Kandiafara, sobre o Cacine na vizinhança das nascentes e sobre o Combidiah. A capital do reino está estabelecida em Bolola, a alguns quilómetros do posto português de Buba.

Inebriado pelos seus sucessos, Bacar-Demba quis tornar-se independente do Futa-Djalon, mas as suas pretensões fizeram sombra aos almamis, para estes o Forreá abre uma das melhores rotas da costa: também Alfa-Ibrahim enviou um exército no país e o rei, bem como o seu irmão Doura e todos os seus filhos foram assassinados por Mody-Yaya, rei de Kadé, que era o executor desta política bárbara. Este príncipe dirigiu-se em seguida para Buba junto dos portugueses e a pedido expresso destes últimos nomeou Mamadu Paté rei do Forreá.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
O mapa mostra a proliferação e rios e rias entre o rio Nuno e o rio Geba
Bacary-Lombi, desenho de P. Langlois segundo uma fotografia
Fulas de Kandenbel, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
O intérprete Ibrahima, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Gravura não identificada, seguramente que não tem base fotográfica

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 29 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28226: Historiografia da presença portuguesa em África (537): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (5): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28226: Historiografia da presença portuguesa em África (537): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (5): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Recapitulando a matéria dada, celebrada a convenção luso-francesa de 12 de maio de 1886, lá para os finais e 1887, o governo português exprimiu o desejo de que se organizasse uma comissão para a delimitação das fronteiras da Guiné, em dezembro desse ano estavam constituídas as equipas portuguesas e francesas, o Capitão Henri Brosselard dirigia a comissão francesa. É toda esta sua narrativa, que ele irá publicar na revista Le Tour du Monde, que aqui estamos a publicar. Viajou para Bolama, que descreve com algum detalhe, encaminha-se para o Rio Nuno, em Samiah recebe a visita do rei dos Nalus e irá a uma receção ao seu palácio; descreve o Rio Nuno e parte para Kandiafara, percorreu florestas espessas, admirou paisagens deslumbrantes, foram atacados pelas formigas, chegaram ao Rio Compony, deu-se o encontro das caravanas francesas. Vamos continuar.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 5
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro"Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Continuando a descrição da viagem da comissão orientada pelo Capitão Brosselard entre o rio Nuno e Kandiafara, concluímos o texto anterior com a referência a um assalto por formigas, em Samiah, em pleno entreposto, damos de novo a palavra aos comentários na primeira pessoa sobre tais vicissitudes. Uma fila longa e espessa de formigas estendia-se pelas paredes e perdia-se no jardim; a cabeça da coluna das formigas invadiu a galeria do primeiro andar. Foi necessário aquecer água toda a noite e lançá-la sobre este tipo de invasores. Sorte bem triste teria o armazém onde chegassem estas formigas vorazes, numa noite desapareceria tudo o que fosse comestível.

Um animal, fosse um cavalo, um boi ou mesmo um homem, atacado pelas formigas negras, é um ser perdido. Não há muito tempo, a prisão em que um indígena estava encarcerado num posto foi invadida por estes animais ferozes: o homem fartou-se de gritar, em vão. No dia seguinte quando lhe foram levar comida, só encontraram um esqueleto assombrosamente limpo, o homem tinha sido devorado pelas formigas.

A 13 de fevereiro atravessámos pelas margens de um rio de nome Tamalagba a povoação de Kantagara. Trepámos para uma espécie de planalto que separa o Tamalagba do rio de Tomboïa. É aqui que se encontra a povoação com o mesmo nome, no meio de uma floresta de uma robustez extrema. Árvores gigantes cujas raízes se espalham por toda a parte; flores que contém um veneno subtil e difundem um perfume irritante que cobre os arbustos que bordejam o carreiro que estamos a percorrer. Uma encosta suave permite descer da povoação, que está acima a uma centena de metros, até ao rio de Tamboïa. Nesta estação passa-se facilmente a vau, o rio tem uma largura de 70 metros, a água que corre sobre a areia é clara e de boa qualidade.

A coluna continua a sua marcha e iremos fazer uma grande paragem perto da povoação de Brandicara, habitada, como Tomboïa, por emigrados de Tenda. No momento em que o Tenente Clerc chegava com a vanguarda da coluna e fazia o reconhecimento do local para bivacar, uma enorme serpente verde saiu das ervas húmidas à volta do riacho, quase aos pés deste oficial, dirigia-se para ele ameaçador; mas ao ouvir os gritos dos negros que acorreram, desapareceu na alta vegetação. Na região que a nossa coluna estava a atravessar, parece que esta serpente é muito comum e faz numerosas vítimas.

À noitinha, o acampamento estava instalado junto de um ribeiro de nome Katiapé. Corre no fundo de uma ravina profunda com os flancos a pique; e imensas árvores cobrem-na com a sua folhagem.

A 14 de fevereiro atravessámos o ribeiro de Camoïn. Agora o país mudara de aspeto; as árvores atingem proporções gigantescas e crescem muito com as copas cerradas; as lianas e as silvas misturavam-se em todas as direções e uma erva alta, aí de 2,50 metros, cobria inteiramente o chão. É a floresta virgem em todo o seu poder vegetal. Sente-se que um considerável curso de água corre ali perto; é impossível ir reconhecê-lo, impraticável naquele matagal cerrado; porém, os barulhos dos hipopótamos confirmam a sua proximidade. A coluna avança lentamente, o carreiro mergulha muitas vezes numa semiobscuridade e pode-se, coisa rara neste país, caminhar com a cabeça descoberta.

O chão está de tal modo deteriorado pelos elefantes que se torna indispensável caminhar com precaução para não se cair nas fendas que se escondem na espessura das ervas. As palmeiras tornam-se cada vez mais numerosas; abruptamente, na curva do carreiro, uma brecha luminosa aparece na floresta e revela um panorama admirável, está exposto à luz tropical.

Saindo da penumbra da floresta, os olhos ficam ofuscados por tanta claridade. Diante de nós, um rio com a largura de 300 metros e com um considerável volume de água. À direita, a algumas centenas de metros, uma barragem de calhaus mostra-se a descoberto, porque estamos na maré-baixa. As águas galgam-na, impetuosas. Na outra margem avistamos a pequena povoação de Kandiafara, construída em anfiteatro sobre as encostas de uma alta colina, no meio de uma vegetação selvagem e exuberante. À esquerda, os declives abruptos mergulham no rio Cogon. Ambas as margens estão guarnecidas por uma espessa cortina de palmeiras e no fundo do bosque vemos as suas coroas entre a folhagem brilhante.

Os rochedos que canalizam o rio retêm as raízes de inumeráveis plantas de variada folhagem cuja ramagem pende no rio. Este rio majestoso que se estende diante de nós é o rio Compony chamado Cogon pelos indígenas; o tratado de 1886 tornou-o possessão da França. Desfraldo as cores nacionais, e em nome da França tomo possessão do Cogon.

O Sr. Galibert tinha chegado na véspera à noite a Kandiafara, a embarcação e a coluna tinham podido cumprir o seu programa e atingir no mesmo tempo a última escala do rio Compony.

Neste duplo reconhecimento feito por terra e por rio através da região compreendida entre o rio Nunez e o Compony, tínhamos percorrido regiões absolutamente desconhecidas, completamente omitidas nas cartas geográficas, reconheceu-se o curso inferior do Cogon, um dos grandes rios chamados Rios do Sul, cuja existência era contestada.


Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Posto de Benty, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Perto do riacho de Camoïn, desenho de A. de Bar, segundo uma fotografia
Embarcação do rei Dinah, dos Nalus, desenho de Weber, segundo uma fotografia
Ambiente do interior de uma habitação Fula, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Um chefe de Simbéli, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Desembarcadouro de Kandiafara, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 22 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28205: Historiografia da presença portuguesa em África (536): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (4): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28205: Historiografia da presença portuguesa em África (536): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (4): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Fevereiro de 2026:

Queridos amigos,
Os relatos dos dois principais protagonistas pela primeira demarcação das fronteiras da Guiné portuguesa são indiscutivelmente do maior interesse. O leitor já tem à sua disposição aqui no blogue a narrativa portuguesa que saiu do punho do tenente da Armada Real, Costa Oliveira; a do responsável francês, o capitão Brosselard, não lhe fica atrás, mostra claramente a cultura naturalista que era dominante na sua geração, o seu grau de cultura revela-se na qualidade da exposição e traz-nos outros aportes: logo a convicção da fraquíssima presença portuguesa no rio Nuno, curso de água muito importante para as transações francesas a partir do Futa-Djalon, que eles esbarraram aos portugueses; a teia formada por contratos entre as autoridades francesas e os Nalus; a Guiné Portuguesa ficou com o remanescente da etnia Nalu na região da península de Cacine, etc. Quando as duas comissões se encontrarem, surgiram tensões, a França começará por nos dar uma fronteira a leste que irá regatear noutras etapas da demarcação.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo capitão Henri Brosselard – 4
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

A missão francesa encontra-se em território Nalu, mais propriamente na Corte do rei Dinah, em Samiah, a coluna está imobilizada, recrutam-se carregadores, e o Capitão Brosselard aproveita para dar informações sobre o rio Nuno, a situação passada e presente do rio.

Diz que o rio Nuno foi descoberto em 1447 por Nuno Tristão (o que é completamente falso), observa que foi durante bastante tempo um antro de negreiros. Em meados do século XIX, os comerciantes tomaram o lugar dos negreiros e em 1850 havia no rio Nuno cinco entrepostos franceses, três ingleses, um norte-americano e um indígena. Partilhavam um comércio de 4 milhões de francos. Tal como acontecia ainda hoje (entenda-se, na época do relato do Capitão Brosselard) consistia na exportação de café, couro, ouro, marfim, arroz, amendoim, índigo e cera. Hoje há também borracha, acrescenta, partem trezentas toneladas através do rio Nuno. Esta preciosa mercadoria, que pode valer, segundo a sua qualidade, entre 6 a 8 francos o quilo, representa, por si só, a carga para 12 mil carregadores, em todo o transporte no Futa-Djalon.

Os direitos da França sobre o rio Nuno datam do primeiro Tratado do Protetorado, assinado em 28 de novembro de 1865, pelo governador Pinet Laprade e Youra rei dos Nalus. O Posto de Boké foi construído em 1876 e a partir daqui rumou René Caillié para a sua grande viagem através da Senegâmbia e o Sarah. Há aqui perto um monumento edificado pelos cuidados do General Faidherbe que evoca o corajoso empreendimento do nosso compatriota. Em 20 de janeiro de 1884 os Nalus cederam à França o país. O rio Nuno faz parte do grupo dos rios franceses entre a Guiné portuguesa e a Serra Leoa, cada um destes cursos de água vai em direção do Futa-Djalon. Os territórios banhados por estes rios e pelos seus afluentes fazem parte integrante do domínio colonial francês.

Segue-se uma descrição detalhada da região envolvente do rio Nuno.

Vamos agora entrar noutro capítulo, dá-se a partida da missão francesa para Kandiafara, local aprazado para o encontro com a missão portuguesa, esta chefiada pelo Tenente da Armada Real Costa Oliveira. Damos de novo a palavra ao Capitão Brosselard.

"Durante a minha estadia no rio Nuno pude, depois de muitos esforços, recrutar uma trintena de carregadores e organizei a minha pequena coluna que partiu a 10 de fevereiro para Kandiafara. O Sr. Galibert embarcou no navio de Dinah com as bagagens e pessoal doente e sugeri que fosse pelo rio Compony por um afluente que permitia, disseram-me, passar do rio Nuno para o Compony. O Sr. Galibert deveria reconhecer esta passagem assim como o curso do Compony, entre a embocadura e Kandiafara.

Com o pessoal válido, tomei o caminho que conduzia a Kandiafara e no dia 10 à noite pernoitámos em Roppas, escala do rio Nuno e última povoação dos Nalus na margem direita deste rio.

Fomos recebidos no entreposto, outrora um dos primeiros do rio Nuno e que depende hoje da casa Blanchard. Na ausência do responsável, a mulher deu-nos hospitalidade, uma mulata de certa idade que num instante e com o concurso de um grupo numeroso de indígenas organizou a sua casa para nos receber. O entreposto perdeu muito do seu antigo esplendor. Os edifícios caíram em ruínas, os tectos desmoronaram-se, os revestimentos de mármore foram arrancados pelos indígenas só restam vestígios de uma antiga prosperidade.

Em 11 de fevereiro, a coluna deixou Roppas perto das seis da manhã, coluna composta por 3 oficiais, 9 atiradores, 5 estivadores, 5 criados, 17 carregadores. A coluna atravessou a povoação de Patea, depois Caméiompo, por fim Yacoubéia. Os habitantes destas povoações são cultivadores pacíficos. A região que eles habitam produzia no passado muita mancarra, e a importância do entreposto de Roppas era em parte devida à abundância deste produto. Agora a cultura do amendoim parecia substituída, de um modo geral, pelas do milho, sorgo e arroz. São de assinalar algumas plantações de café; todo o planalto, aliás, parece adequado a este tipo de cultura.

A caminho das 9 horas, após termos passado uma espécie de cabeço através de matagais impenetráveis, chegámos abruptamente a uma ravina profunda de 50 metros e achámo-nos na presença de uma vegetação tropical de uma beleza fascinante e de um vigor exuberante. Um espesso tecto de verdura, formado por palmeiras gigantescas, deixa apenas filtrar alguns raios solares, que vêm acentuar os tons da folhagem.

Flores de grande variedade espalham odores inebriantes. A coluna percorre lentamente uma espécie de caminho estreito e tortuoso que foi mantido cuidadosamente no meio deste sítio encantador. Nesta ravina corre um riacho límpido, com água fresca e pura; as suas margens estão cobertas de um espesso tapete de elegantes fetos, tão juntos que parecem um tapete de espuma. Reina aqui uma humidade amena e suave, impenetrável ao sopro da brisa. Pássaros de uma plumagem multicolorida animam com os seus cânticos esta esplêndida solidão; e nuvens de borboletas de asas cintilantes esvoaçam em todas as direções.

Enquanto admirávamos esta poderosa e maravilhosa manifestação da natureza, sussurros característicos faziam-se ouvir à nossa volta: este local encantador estava povoado por um grande número de cobras.

De repente, o caminho, já tão estreito, voltou a diminuir; depois, num desvio, apareceu uma forte paliçada na qual existia uma abertura com a forma de porta. Passámos curvados por ela, e entrámos na povoação de Yaugaïa. Aqui mudou o espectáculo: estamos no meio de um povoado de Landumãs. Árvores da alta floresta cobrem as moranças, geralmente miseráveis; sentados à sombra, homens e mulheres confeccionam cestos elegantes destinados a servir de colmeias para as abelhas. As raparigas e mulheres andam praticamente nuas. O povoado está completamente cercado por uma forte paliçada; do lado da ravina é inacessível; do lado do planalto, a paliçada está reforçada por espessos bananais.

Após uma paragem de algumas horas na floresta, a coluna prossegue viagem, seriam duas horas e meia da tarde. O caminho penetra logo num espeço matagal que bordeja o riacho de Keimeia e desemboca na povoação de Toumané-Badé. Esta povoação, como a precedente, esta protegida dos assaltos devido à espessa vegetação que a envolve. Algumas paliçadas e espessos bananais completam as defesas. Estes bananais são tão cerrados que é impossível passar por eles, e atingem dimensões enormes.

A 12 de fevereiro, a coluna põe-se em marcha às 6 horas da manhã; a floresta na qual se pernoitou desaparece rapidamente, dando lugar a uma imensa pradaria onde grandes antílopes, surpreendidos pela vanguarda da coluna, não tiveram tempo de evitar os tiros que lhes fizeram baixas. Aves pernaltas, galinholas, flamingos e outros pernaltas são os hóspedes habituais deste solo verde e um pouco pantanoso. À nossa aproximação, ainda entorpecidos pelo frio húmido da manhã, parece que se põe a voar com um certo desgosto. A pradaria é atravessada pelo Bouroumda, que sai de uma estreita garganta aberta entre duas colinas e desaparece mais adiante numa floresta espessa e impenetrável que se estende à volta da pradaria. Faz-se um alto num bosque com árvores magníficas, à sombra temos uma fonte de água deliciosa; infelizmente, as abelhas disputam-nos este lugar de repouso, por isso tivemos de partir.

A coluna é surpreendida pela noite antes da nossa chegada ao acampamento. Instalámo-nos à luz de uma imensa fogueira. A meio da noite fomos bruscamente acordados por uma gritaria que vinha de todos os lugares do nosso acampamento. Num instante todo o pessoal se pôs de pé e apercebemo-nos à luz do fogo que o acampamento fora invadido por legiões de formigas. Todos os objectos colocados no chão desapareciam sobre a acumulação de terra amontoada por estes minúsculos trabalhadores; os nossos objectos iam sendo devorados, incluindo os nossos mosquiteiros que nos cobriam já estavam esburacados. A obra das formigas é extraordinária; porém, elas não atacam seres vivos, enquanto as suas congéneres, as formigas negras, são de uma ferocidade extrema."


Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 15 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28185: Historiografia da presença portuguesa em África (535): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28185: Historiografia da presença portuguesa em África (535): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Janeiro de 2026:

Queridos amigos,
Encontro aspetos surpreendentes nesta viagem do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada província da Guiné. Considero esta narrativa da melhor utilidade e sugiro a sua comparação com a do Tenente da Armada Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, já aqui publicada. Brosselard saiu de Bolama, que descreveu com detalhe, promete encontrar-se com Costa Oliveira em Kandiafara, no dia 12 de fevereiro, entretanto encontra-se com o rei dos Nalus, uma narrativa espantosa, e irá dar-nos seguidamente um retrato da visita que faz ao rio Nuno, dizendo erradamente que foi descoberto por Nuno Tristão em 1447 (Nuno Tristão foi assassinado no rio Gâmbia, norte da Grande Senegâmbia, nunca chegou a terras da Guiné e por conseguinte não podia ter chegado ao rio Nuno).

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (3)
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro Guiné Bilhete de Identidade Tomo II.

Henri Brosselard descreveu Bolama, onde se veio a encontrar com Costa Oliveira, procurou organizar os aprovisionamentos para a expedição, irão ser expedidos para Bissau, combinou com Costa Oliveira encontro em Kandiafara em 12 de fevereiro, por se supor estar situada na vizinhança da linha fronteiriça. É aqui que recomeço o texto de Brosselard.

Entretanto o Aviso Dakar veio fundear diante de Bolama, em 4 de fevereiro. A comissão francesa tomou mediatamente as suas posições para o embarque de pessoal e bagagens. No dia seguinte partimos para o rio Nuno.

Depois dos trâmites alfandegários, o Dakar passou o entreposto de Bel-Air e acabou por fundear no entreposto de Samiah. Desembarcámos e instalámo-nos na feitoria que pertence à Casa Blanchard, fomos amavelmente recebidos nesta propriedade fortificada.

Informado da nossa chega ao rio Nuno, o rei dos Nalus veio fazer-nos uma visita em Samiah. No dia seguinte, acompanhado dos meus oficiais, visitei o rei Dinah na sua residência. O palácio real é uma residência notável, situa-se à beira do rio, a povoação terá 600 habitantes. Desembarcámos sem dificuldade, havia maré-alta. O rei sabia fazer as honras da hospitalidade, revelava uma compostura europeia.

Atravessámos três filas de paliçadas e postigos de vigia bem defendidos, caminhámos à direita e à esquerda por muros altos que envolvem as casas das pessoas importantes do círculo real e penetrámos no reduto onde se encontram as cinco habitações reais, quatro das quais tinham a forma aproximada de casas europeias, as paredes são em adobe e a cobertura em palha, muito espessa; uma casa maior tinha forma circular, era o salão de receção, contiguo estava o quarto onde o rei dorme e toma as suas refeições. Ficámos na varanda onde os músicos manejavam os balafons e cantavam em homenagem aos hospedes do rei.

Após um compasso de espera, passámos ao salão, tinha uma mesa e cadeiras, um certo conforto europeu, e uma limpeza admirável, serviam cerveja e limonada como refresco. O quarto do rei Dinah, contiguo ao salão de receção, estava mobilado com um conforto que nos surpreendeu. Amplo, coberto com um teto, as paredes forradas com esteiras, uma grande cama no meio, coberta com mosquiteiro, aqui e ali cadeiras estofadas; nas paredes, havia gravuras francesas e inglesas, espelhos deslumbrantes e garridos, um relógio de cuco e a dar horas! No toucador, todo o necessário em porcelana e cristal; ali perto um cofre-forte contendo o tesouro e os arquivos do reino; é ali que está preciosamente guardado o Tratado passado em nome da França com o predecessor de Dinah. Uma outra habitação está reservada a morada das mulheres. Dinah apresentou-as com orgulho, se bem que elas sejam pouco prendadas pela beleza.

No pátio desta casa os escravos pilam o milho miúdo. Inútil dizer que estes escravos são mulheres, porque em África um indígena sentir-se-ia desonrado se fosse condenado a este género de trabalho. A quarta casa continha os abastecimentos de arroz e milho, bem como o local reservado aos estábulos. Dinah tem um cavalo, aliás possante e raro, e quase desconhecido nesta costa de África. Enfim, a quinta casa composta pela sala da Justiça e as prisões. Atravessando o pátio, o rei mostra-nos os poços onde o seu pessoal se abastece de água; vemos seguidamente a cisterna. É Dinah quem guarda a chave do cadeado da cisterna para se precatar de qualquer tentativa de envenenamento.

Na sua imaginação bárbara, Youra, o predecessor de Dinah, tinha inventado suplícios que inspiravam terror a todo o povo. Um desses suplícios, que ainda se praticava há pouco tempo, consistia em prender o supliciado no momento da maré-baixa a um porte no rio; quando subiam as águas, o infeliz via pouco a pouco a água chegar à boca que ele se esforçava por fechar, o nível da água, entretanto subia, invadia as narinas provocando uma asfixia lenta.

Dinah Salifou tinha sucedido ao seu tio Youra, conforme o costume que rege os direitos da sucessão. O filho mais velho de um irmão de Youra, um certo Tocha, primo direto de Dinah procura contrabalançar o prestígio do rei e ganhou adeptos que parecem ser em grande número entre os chefes Nalus. A influência moral de Tocha supõe-se ser mais forte que a do primo e Dinah, sem o apoio que lhe dá França, estaria provavelmente há muito tempo destronado. Os dois primos detestam-se, admite-se que pode haver atentados de um contra o outro (e o Capitão Brosselard conta duas histórias de tentativas dos primos em matarem-se).

Voltando ao relato na primeira pessoa, o Capitão Brosselard, que tinha curiosidade em ver frente-a-frente os dois, convidou-os a almoçar no mesmo dia em Samiah. No dia aprazado, perto das dez horas os cânticos barulhentos dos músicos que marcam a cadência aos remadores anunciaram a chegada da embarcação real, no mastro flutuavam as cores francesas. Dinah veste com aparato, traz uma espécie de estola de veludo coberta de bordados a fio de ouro; avança com passadas comedidas, com a gravidade que convém a um grande rei. Tocha chega por sua vez; o seu primo apresenta-o e expõe os laços de parentesco existentes.

Na sala de jantar cada um toma o lugar à mesa. Dinah senta-se no lugar de honra, à sua frente senta-se o Tenente Clerc, com o qual Dinah conversa em inglês. O rei tem boa figura, tem o aspeto de um europeu bem-educado, maneja com facilidade a faca e o garfo. Tocha é mais hesitante, antes de levar a comida à boca observa os seus vizinhos para os imitar. Na conversação, Dinah, por cortesia com o chefe da missão, recorda factos agradáveis sobre o General Faidherbe quando ele foi Governador do Senegal; são lhe dadas notícias do general, o rei mostra satisfação em voltar a vê-lo se puder visitar a exposição em 1889.

Durante este período em que a minha coluna está imobilizada em Samiah para recrutar carregadores, tive o prazer de percorrer o rio Nuno e de recolher informações sobre a situação presente e o passado deste rio.

É com esta descrição que iniciaremos o texto seguinte.


Praia de Bolama: Porto Beaver, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
Territórios franceses da Senegâmbia e do Sudão, com destaque para a Guiné Portuguesa
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Carregadores e guias, desenho de E. Ronjat, segundo uma fotografia
Ataque de abelhas, desenho de Th. Weber, segundo uma fotografia
O rio Grande do Geba, desenho de P. Langlois, segundo uma fotografia
Interior do estabelecimento comercial Maurel e Prom em Bolama, desenho de Taylor, segundo uma fotografia
Carta do território francês do Casamansa e distrito do Cacheu, feita pelo Capitão Henri Brosselard, dá perfeitamente para ver a região do Casamansa que detinha presença portuguesa, com sede em Ziguinchor, e que nos foi surripiada pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. A República do Senegal vive em permanência a rebelião do Casamansa, por razões fortemente étnicas, os povos do Casamansa, Djolas, não querem pertencer ao Senegal.
Uma das muitas imagens da Exposição Universal de Paris de 1889, referida na conversa entre o rei dos Nalus e o Capitão Henri Brosselard

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 8 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28164: Historiografia da presença portuguesa em África (534): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (2): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

quarta-feira, 13 de julho de 2022

Guiné 61/74 - P23426: Frase do dia (2): Quando o General Bettencourt Rodrigues chegou à Guiné (21Set73), já a FAP tinha destruído as bases de apoio do PAIGC no estrangeiro, Kumbamori no norte, Kambera e Kandiafara no sul, faltava Koundara no leste, a alguns quilómetros de Buruntuma (António Martins de Matos, ex-ten pilav, BA12, Bissalanca, 1972/74)


Capa e contracapa do livro "Voando sobre um Ninho de Strelas", de Antonio Martins de Matos, 2ª edicão,  Lisboa, Sítio do Livro, 2020, 456 pp.


1. Dois curtos comentários (*), que selecionámos como a "frase do dia" (**)... São da autoria 
 do António Martins de Matos, ten gen  pilav ref (ex-ten pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74) e autor do livro de memórias "Voando sobre um Ninho de Strelas" (1ª edição, Lisboa: BooksFactory, 2018, 375.pp.; 2ª edicão,  Lisboa, Sítio do Livro, 2020, 456 pp.); tem 114 referências no nosso blogue.

Quando o General Bettencourt Rodrigues chegou à Guiné (21Set73), já a FAP tinha destruído as bases de apoio do PAIGC no estrangeiro, Cumbamori no norte, Kambera e Kandiafara no sul. Faltava Koundara no leste, a alguns quilómetros de Buruntuma. 

Uma primeira decisão, o novo Comandante-Chefe não nos autorizava idas ao estrangeiro, preferiu fazer uma nova revisão da matéria dada, lá pelos lados do Cantanhez. No início de 1974 foi o que se viu, ataques no leste a Copá, Bajocunda, Canquelifá, nem precisavam de entrar no nosso território.

Quanto à Directiva para o Apoio Aéreo, não tinha nada de novo, não era mais que a repetição das decisões da Reunião de Comandos de 15Mai73, então presidida pelo General Spínola.

12 de julho de 2022 às 11:38

Em aditamento ao meu comentário anterior, Bettencourt Rodrigues vinha da enorme Angola. Como Comandante Chefe da Guiné andou sempre atrás dos problemas, sem conseguir perceber a situação daquele território. Em 26Abril74 acabou preso pelo seu próprio staff, uma das muitas tristezas, para não dizer vergonhas, do 25Abril.

12 de julho de 2022 às 14:27
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(**) Último poste da série > 11 de julho de 2022 > Guiné 61/74 - P23422: Frase do dia (1): Faz hoje 55 anos que entrei para a tropa, em Santarém. Tinha 22 anos feitos, regressei com quase 26... (Valdemar Queiroz, ex-fur mil at art, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70)

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Guiné 61/74 - P23415: Guidaje, Guileje, Gadamael, maio/junho de 1973: foi há meio século... Alguém ainda se lembra? (8): um "annus horribilis" para ambos os contendores: O resumo da CECA - Parte VII: "Gadamael tremeu mas não caiu" (Manuel Reis, "pirata de Guileje", dixit), e isso deveu-se aos seus bravos defensores, com destaque para a atuação pronta, inteligente, corajosa e eficaz do BCP 12, e da FAP


Guiné > Região de Tombali > Gadamael > 1973 > Obus 14... Foto do álbum do  J. Casimiro Carvalho, ex-Fur Mil Inf Op Esp, da CCAV 8350 (Piratas de Guileje) e da CCAÇ 11 (Lacraus de Paunca), que passou por Guileje, Gadamael, Nhacra, Paúnca, entre 1972 e 1974... e que é um dos heróis (esquecidos) de Gadamael.

Foto (e legenda): © José Casimiro Carvalho (2007).  
Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Continuação da publicação desta nova série "Guidaje, Guileje, Gadamael, maio/junho de 1973: foi há meio século... Alguém ainda se lembra?" (**).

Trata-se de excertos da CECA (2015) sobre estes acontecimentos de maio/junho de 1973. Recordamos Guidaje, Guileje e Gadamael, os famosos 3 G, "a batalha (ou as batalhas) dos 3 G", na véspera da efeméride dos seus 50 anos (que será em 2023).

Felizmente que ainda temos muitos camaradas vivos, que podem falar "de cátedra" sobre os 3 G, Guidaje, Guileje e Gadamael... Outros, entretanto, já não estão cá, que "da lei da morte já se foram libertando"... Do lado do PAIGC, por seu turno, é cada vez mais difícil poder-se contar com testemunhos, orais ou escritos, sobre os acontecimentos de então.

Sobre Gadamael, podemos fazer nossa a opinião do Manuel Augusto  Reis, ex-alf mil at cav, um dos "piratas de Guileje (CCAV 8350, 1970/72): 

"Gadamael tremeu mas não caiu e tal se deve à actuação do Batalhão de Paraquedistas [, BCP 12,] e à actuação EFICAZ da Força Aérea. Como homem no terreno, é minha convicção que se as Forças Paraquedistas demorassem mais 2 ou 3 dias, não era preciso mais, Gadamael teria caído com estrondo, aprisionando ou matando tudo o que lá se encontrava." (**).

E aqui convém repetir o que  escreveu o gen pilav ref António Martins de Matos, membro da nossa Tabanca Grande (e na altura, tenente, que pilotava um dos nossos Fiat G-91, BA 12, Bissalanca, 1972/74, que foram neutralizar Kandiafara, a base do PAIGC; já no território da Guiné-Conacri):

"O que travou o avanço do PAIGC e estancou o tão apregoado 'efeito dominó', propagandeado vezes sem conta por 'Nino' Vieira? A explicação é simples e tem duas vertentes, por um lado a presença do Batalhão de Paraquedistas na área condicionou de imediato os movimentos dos guerrilheiros na zona, por outro lado a Força Aérea Portuguesa (FAP) bombardeou as matas à volta de Gadamael, silenciando várias bases de fogo, e em seguida entrou pelo território da República da Guiné-Conacri, destruindo a maior base de apoio do PAIGC, situada perto da localidade de Kandiafara." (***)


CAPÍTULO III > ANO DE 1973 > 2. Nossas Tropas

2. 1. Ataque lN no Sul a Guileje e a Gadamael Porto

2.1.2. Ataque lN a Gadamael Porto  (continuação)

Operação "Dinossauro Preto" - 2jun a 17lul73

[Nota: É feito um resumo do Relatório de Operações, n.º 16/73 do Cmdt do BCP 12 de jul73.]

A "Missão" consistia em "destacar as três CCPs para Gadamael Porto, onde ficam sob Comando Operacional do COP 5 com missão e actividade a indicar por aquele comando". Nota: CCP 121, 122 e 123 articuladas em 4 GComb a 25, 29 ou 30 homens, conforme as disponibilidades 
em pessoal.

Em 2jun73, a CCP 122 foi deslocada de Bissau para Cacine e no dia seguinte para Gadamael Porto, sempre em meios navais.

Em 2jun, a CCP 123 foi destacada de Cadique para Cacine e em 5jun deslocada para Talaia, em meios navais, e daí em progressão apeada para Gadamael Porto.

Em 11jun a CCP 121 foi deslocada de Bissau para Cacine e em 13Jun para Talaia também em meios navais e nesse dia em progressão apeada para Gadamael Porto.

"Diversos"

"a. O Comandante do BCP 12, ten Cor Para Sílvio Rendeiro de Araújo e Sá, que se encontrava em Cufar no comando do COP 4 recebeu em 5jun73 ordem para se deslocar para Gadamael Porto e assumir o comando do COP 5, substituindo o Major Pára-quedista António Valério de Mascarenhas Pessoa, que em 2jun73, estando em Cufar como adjunto do COP 4, seguira para Cacine em 2jun73, e em 3jun desembarcara em Gadamael Porto com a CCP 122.

O Comandante do BCP 12 nesse mesmo dia seguiu em helicóptero para Cacine, e na manhã seguinte (6jun73), logo que as condições de maré o permitiram seguiu via marítima para Gadamael Porto.

b. Feito o necessário estudo, e verificando-se que o Inimigo exercia forte pressão sobre Gadamael Porto:
  • Flagelando com armas pesadas com bases de fogos na República da Guiné e em território Nacional junto da fronteira;
  • Mantendo observadores avançados para regulação de tiro;
  • Mantendo na área de Gadamael Porto volumosos efectivos de infantaria.

A Manobra a seguir pelas nossas forças assentou nos seguintes pontos:
  • Fazer estacionar dentro de perímetro defensivo o mínimo de forças, e disperso por todo o perímetro, ocupando assim também a periferia dos reordenamentos;
  • Manter em permanência em actividade operacional o máximo de forças, tomando em atenção os efectivos e o período de actuação que se previa longo;
  • Ir aumentando gradualmente a amplitude das acções e operações, por forma a aliviar a pressão sobre Gadamael Porto, e permitir o lançamento de acções e operações sobre os objectivos mais importantes (Sangonhá, Tambambofa, Gadamael Fronteira, Lamoi e Sori Ucreá);
  • Manter liberdade de navegação no braço do rio de acesso a Gadamael Porto mediante ocupação quase em permanência de Talaia e da ponta da península;
  • Impedir a livre actuação de observadores mediante patrulhamentos frequente dos possíveis pontos a ocupar pelos mesmos;
  • Colocar o Pelotão de Artilharia em condições de actuação com rendimento, melhorando os espaldões, acionando o emprego do plano de fogos previsto, garantindo as ligações obuses - PC, e prevendo o apoio directo às forças em operações, face à ausência do helicanhão;
  • Garantir a utilização com rendimento das armas pesadas disponíveis (canhões s/recuo, morteiros médios e metralhadoras pesadas), melhorando os espaldões, preparando os planos de fogos ainda não executados, e garantindo as ligações armas-PC. No caso de morteiros e canhões s/recuo prever o apoio directo às forças em operações, para as distâncias mais curtas, para as quais a Artilharia não podia actuar;
  • Utilizar códigos para conversação em claro, prevendo de preferência a utilização do HF, e distribuir mosaicos gráficos com referências numeradas, para não permitir ao Inimigo tirar partido da escuta que se previa estar a fazer às transmissões das NT;
  • Garantir a evacuação em "sintex" para Cacine de feridos ou doentes, face à ausência de helicóptero para evacuações;
  • Prever, a todo o momento, ajustamentos no plano de actividade operacional, face à actividade desenvolvida pelo Inimigo.

c. Dado que as Companhias do Exército estacionadas em Gadamael Porto se encontravam em condições deficientes, no que respeitava a efectivos, moralização e armamento, o esforço sobre as zonas de contacto provável e de maior amplitude foi exercido pelas CCP reservando-se para aquelas companhias a missão de garantir a liberdade de navegação no braço do rio de acesso a Gadamael Porto."

"Desenrolar da Acção":

De 6jun a 13jul foram efectuadas 31 acções e 8 operações.

A CCP 121 e a CCP 123, em 9 acções, fizeram o treino operacional das 3ª C/BCaç 4612/72, CArt 6252/72 e CCav 8452/72 respectivamente 3, 1 e 5, incluídas nas 31 referidas.

Destacam-se algumas em que houve contacto com o lN.

- Acção COP 5 - 6jun

A CCP 123 saiu da Gadamael Porto em patrulhamento, rumo Norte. Pelas 17h30 o agrupamento foi flagelado em Cacoca 6D8.80 com armas automáticas e LGFog RPG por um grupo ln estimado em 30 elementos.

Na reacção o ln sofreu vários feridos confirmados por abundantes rastos de sangue.

- Acção Bojarda - 10 e 11jun

A CCP 122 saiu de Gadamel Porto em patrulhamento. Em Cacoca 6F6.88, foram detectadas muitas pegadas lN, sendo montada uma emboscada, sem contacto. Pelas 14h00 as NT foram emboscadas em Cacoca 6F2. 78 por um grupo ln estimado em 40 elementos. 

A CCP 122 sofreu 17 feridos ligeiros. Feita a batida, verificou-se que o lN sofreu vários feridos, confirmados por abundantes rastos de sangue. 2 GComb regressaram ao aquartelamento para evacuar os feridos e os outros dois fizeram uma emboscada nocturna sem contacto com o lN.

- Operação Bisturi Negro - 14 e 15jun

A CCP 121 saiu em patrulhamento apeado, rumo Leste, flectindo para NWe depois para Norte. Em Cacoca 6E4.94 foi flagelada durante 45 minutos com armas autom,  LGFog RPG-2 e RPG-7, canh s/r por um grupo lN estimado em 80 elementos que se deslocavam na direcção Leste/Oeste. 

As NT sofreram 1 morto (guia) e 2 feridos ligeiros. Da batida efectuada verificou-se que o lN sofreu 4 mortos confirmados e elevadas baixas prováveis dada a forma como procurou reter as NT com uma segunda linha de fogo com nítida intenção de retirar mortos e feridos, o que foi confirmado por sinais de arrastamento de corpos e abundantes rastos de sangue. 

Foram referenciados elementos de tez clara e o lN utilizou esp autom G-3, metr lig  HK-21 e dilagramas. 

A CCP 121 regressou a Gadamael Porto para evacuar os feridos. Dois GComb voltaram a sair, rumo Leste flectindo depois para Norte. Montaram uma emboscada nocturna. Não houve contacto com o lN.

- Operação Diamante Preto - 17 e 18jun

A CCP 122 a 3 GComb saiu em patrulhamento. Em Cacoca 6F8.65 foi detectado um grupo lN estimado em 20 elementos ao qual foi montada uma emboscada imediata. O lN sofreu 1 morto confirmado e feridos prováveis; foi recolhida uma pá articulada, uma pica e uma granada de
LGFog RPG-2 com carga. 

Reiniciada a progressão o agrupamento foiflagelado do lado da fronteira com 3 granadas de canh sr/, sem consequências.

Foi montada uma emboscada nocturna. Não houve contacto com o lN.

- Operação Gamo Selvagem - 20 e 21jun

Em 20 foi feito um patrulhamento e montada uma emboscada, sem contacto lN.

Em 21 6h30 em Cacoca 6h5.94, a CCP 123 teve um forte contacto frontal com um grupo lN estimado em 80 elementos que na sequência do contacto se instalou em 2 posições sendo uma mais recuada. No contacto inicial as NT sofreram 2 feridos graves e 4 ligeiros, o que não impediu que se lançassem ao assalto, tendo a linha recuada do lN batido as NT com mort 60 mm com o propósito de retirar elementos mortos, feridos e respectivo material. 

O lN sofreu 5 mortos confirmados e muitos mortos e feridos prováveis e foram recolhidas 3 granadas tipo chinês. Foram referenciados elementos lN de tez clara e utilização de esp aut G-3. 

O lN retirou para Leste. A CCP 123 reiniciou a progressão em direcção ao aquartelamento para evacuar os feridos.

- Operação Cobra Ondulante - 23 e 24 jun

A CCP 121 a 3 GComb saiu de Gadamael Porto para efectuar um patrulhamento apeado. Depois de ter seguido vários rumos, em Cacoca 500.18, detectou rastos de viaturas.

Pelas 12h00foi montada uma emboscada em Cacoca 6D1.13. Foi levantada e passada uma hora de marcha, foram ouvidas vozes de elementos IN, tendo sido iniciada a imediata perseguição. Apercebeu-se da existência de um acampamento.

Pelas 13h30, em Cacoca 6D0.19 foi efectuado um golpe de mão imediato a um grupo lN estimado em 40 elementos. Conjugando fogo e movimento as NT transpuseram o que era então um quartel e montaram segurança nos próprios abrigos do lN. 

As NT não sofreram baixas e o lN teve 6 mortos confirmados e muitos mortos e feridos prováveis pelos abundantes rastos de sangue encontrados durante a batida. 

Foram apreendidas:
  • 1 metr lig Degtyarev, 
  • 1 LGFog RPG-2, 
  • 2 esp aut Kalashnikov,
  • 3 pist metr  PPSH,
  • 2 esp Mosin Nagant, 
  • 10 gran de LGFog  RPG-2, 
  • 1 gran de LGFog RPG-7, 
  • 13 tambores pist metr  PPSH,
  • 15 carregadores de esp aut  Kalashnikov, 
  • 3 gran mão ofensivas tipo chinês, 
  • 4 gran mão ofensivas M/62, 
  • 1000 munições 9 mm, 
  • 350 munições 7,62 mm "Soviet", 
  • 50 munições 7,62 mm "Soviet" m/908 e diverso equipamento e fardamento.
Foram montadas uma emboscada nocturna e em 24, uma diurna ambas sem contacto lN.

- Acção Bera - 11jul

Um agrupamento constituído por 2 GComb/CCP 123 e 2 GComb/CArt 6252/72 saiu de Gadamael Porto em patrulhamento apeado em direcção ao cruzamento de Ganturé com a finalidade de fazer o treino operacional da CArt 6252/72.

Em Cacoca 6E2.73 foi encontrado um acampamento ln com cerca de 70 abrigos e restos de ração de combate. Próximo e ao longo da estrada encontravam-se mais de 30 abrigos individuais com disposição que levava a concluir ser uma posição para emboscar a estrada.

Pelas 09H30 ao ser efectuado um reconhecimento das minas implantadas pelas NT em Cacoca 6E9.74 verificou-se que uma armadilha tinha sido accionada pelo l. No mesmo local foram detectadas e levantadas 3 minas A/P  lN e foi accionada pelas NT uma mina A/P  que provocou 1 morto (furriel) e 2 feridos ligeiros. Foram prestados os primeiros socorros e em seguida reiniciou-se a progressão rumo ao aquartelamento.

Pelas 10h15 quando atravessava a estrada Oeste/Leste foram detectadas 2 minas A/C  que foram torneadas em virtude da urgência da evacuação dos feridos e foi encontrado um cadáver em decomposição. Depois da chegada ao aquartelamento, foi feita nova saída para uma batida à zona Cacoca 6F9.75 até ao pontão do rio Sarampita e uma emboscada em Cacoca 6F1.86, ambas sem contacto.

"Ensinamentos Colhidos"

"Os bombardeamentos inimigos a Gadamael Porto em 1jun73 causaram às NT pesadas baixas no aquartelamento, face ao tiro ajustado e, julga-se, ao facto de estarem concentradas na zona do quartel duas companhias, um pelotão de artilharia e um pelotão de reconhecimento, não dispondo essa zona de valas ou abrigos para tal efectivo.

Com base no conhecimento do sucedido, uma das preocupações do novo comando COP 5, foi dispersar ao máximo as forças pelo perímetro defensivo, ocupando também toda a periferia dos reordenamentos, e estacionar dentro desse perímetro o mínimo indispensável do pessoal, mantendo em permanência em actividade operacional elevado conjunto de forças.

Assim, as flagelações a Gadamael Porto a partir de 6jun73 não causaram baixas às NT, sendo digno de referir a fortíssima flagelação de todo o dia 2Jul73 em nada inferior à do dia lJun73, que apenas causou dois feridos muito ligeiros.

Julga-se ser este o procedimento a seguir em situações futuras similares."

Levantamento de minas

O lN procurou dificultar os deslocamentos de Gadamael Porto, sobretudo para nordeste, implantando minas antipessoal e anticarro nas vias de comunicação.

Depois da operação "Dinossauro Preto" já era praticável efectuar a desminagem. Executou-se a acção Barulho, em 19ago73 na zona de Ganturé, por forças do COP 5 e de uma equipa de Sapadores do BCaç 4510/72, na qual detectaram e levantaram várias minas antipessoal e destruíram 2 minas anticarro.  [Nota: Atenta-se à actividade operacional - 2° Semestre, deste Capítulo.

Por se presumir a existência de mais minas, em 10Set, foi feita, na região de Ganturé, mais uma acção pelo COP 5 (Nota: Relatório da acção "Bandido" de 10Set73 do COP 5.). Foram constituídos 2 agrupamentos por forças de 1 GComb/CArt 6252/72, 1 GComb/CCav 8452/72 e por 1 Sec/Pel Mil 235. Transcreve-se:

 "Desenrolar da Acção"

"Pelas 14h00 os agrupamentos saíram do aquartelamento de Gadamael Porto seguindo pela estrada para Guileje. Ao cruzamento de Ganturé (Cacoca 6 FO 75) foi montada a segurança. Procedeu-se depois à picagem da estrada e bermas tendo sido detectadas e neutralizadas 14 minas antipessoal de plástico tipo PMN e detectadas e levantadas 3 minas anticarro TM-46.

Após o levantamento o Agrupamento B regressou ao Quartel e o Agrupamento A patrulhou a zona Cacoca 6 FI 85 onde montou uma emboscada. Pelas 23h00 regressou ao aquartelamento."

Flagelações a Gadamael Porto

O lN continuou a flagelar o aquartelamento mas com menores consequências para as NT. Entre outros ataques (Nota: Consulte-se as flagelações no 2.° Semestre a Gadamael Porto no "Inimigo - actividade militar" deste Capítulo.)
  • em 8nov; 
  • em 11nov, pelas 18h40, com 8 foguetões 122 mm;
  • e em 15nov. 
Desta última relata-se o "Desenrolar da acção"  [Nota: Relatório da flagelação a Gadamael Porto em 15Nov73 do COP 5 datado de l6Nov73

"Cerca das 17h00 o lN começou a flagelar o aquartelamento de Gadamael Porto com dois foguetões de cada vez, indiciando utilizar duas rampas. A flagelação durou cerca de 20 minutos e o lN disparou 15 foguetões da direcção de 80 graus cartográficos medidos a partir de aquartelamento. Os rebentamentos danificaram 3 casas ocupadas pelo pessoal da CCaç 20, as instalações do Comando da CCav 8452/72, uma caserna da CArt 6252/72 e uma antena do STM e causaram 7 feridos às NT, sendo 2 graves, 3 de menor gravidade e 2 ligeiros. Os feridos foram evacuados de "sintex" para Cacine.

Mais uma vez a população invadiu o edifício das transmissões e da enfermaria, abrigo onde aliás muitas mulheres e crianças se mantêm desde o dia 8nov73."

Fonte: Excertos de: Estado-Maior do Exército; Comissão para o Estudo das Campanhas de África (1961-1974). Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África; 6.º Volume; Aspectos da Actividade Operacional; Tomo II; Guiné; Livro III; 1.ª Edição; Lisboa (2015), pp. 334-340. (Com a devida vénia...)

[ Seleção / adaptação / revisão / fixação de texto / negritos e itálicos, pata efeitos de publicação deste poste no blogue: L.G.]
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Notas do editor:


(***) Vd. poste de 1 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16152: FAP (95): de Gadamael a Kandiafara… sem passaporte nem guia de marcha (António Martins de Matos, ex-ten pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74)