quarta-feira, 1 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16152: FAP (95): de Gadamael a Kandiafara… sem passaporte nem guia de marcha (António Martins de Matos, ex-ten pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74)


Foto nº 2  > "Foto de  autor desconhecido mas já por várias vezes publicada,  refere-se à última missão do Cor Moura Pinto na Guiné, com os pilotos e mecânicos do FIAT G-91 (Co a devida vénia ao autor) 


Foto nº 2 A > 


Foto nº 2 B 

Cortesia do bogue Especialistas da Base Aérea 12 Guiné 65/74 > 25 de janeiro de 2009 > O fim de um grande homem, um grande comandante


 Foto e legenda de Arnaldo Sousa:  pessoal dos Fiat G91/R4 e alguns pilotos. O Comandante da Zona Aérea e da BA12, Coronel [Pilav] Gualdino Maria Moura Pinto (, já falecido [. por doença, segundo inmformação do AMM, e não no acidente  com avião da TAP, o TP 425, vindo de Bruxelas, ocorrido a 19/11/1977 no Aeroporto do Funchal]. 

Da esquerda para a direita: em pé: Sargentos Robalo, Antunes, Pinheiro, Gaudêncio; Cap Pilav Letras, Cor Pilav Moura Pinto, Major Pilav Pedrosa, Cabos Veríssimo, Pinto, Sousa, Sargento Duarte. 

Em baixo: Cabo Lopes, Furriel Pinheiro, Sargento Ramiro, Cabos Brás, Veríssimo (II). Na escada do avião o Ten Pilav Matos. 

Esta foto de despedida foi tirada dias antes da partida do Coronel Moura Pinto para a Metrópole. Pessoa muito educada e de poucas falas, passava com muita calma e esboçando um ligeiro sorriso, inspecção ao avião sem tecer comentários e sem encontrar ponta por onde pegar como se costumar dizer. Todos o admiravam.  [...]  Arnaldo Sousa,  MMA 1ª/72.



A. Mensagem, com data de 24 de maio, do nosso camarada António Martins de Matos [AMM]  [ex-tenente pilav, BA 12, Bissalanca, 1972/74, hoje ten gen pilav ref; membro da nossa Tabanca Grande]


Caros amigos

Quase chegados às datas importantes de Gadamael, aqui junto um texto que abarca o período de 1 de junho de 1973 até ao 25 de abril de 1974.

Se o acharem com “pés para ser publicado”, gostaria que o fizessem no 1 de junho, data em que os acontecimentos foram “complicados”.

Para adocicar o texto junto 4 fotos:

A 1ª, tirada por mim, é de Pirada, mostra a distância entre o aquartelamento e o marco da fronteira [Foto nº 1];

A 2ª (, de autor desconhecido mas já por várias vezes publicada, ) refere-se à última missão do Cor Moura Pinto na Guiné, com os pilotos e mecânicos do FIAT G-91:

A 3ª e 4ª foram tiradas da Internet, representam o MirageV e o Skyvan.

Abraço
AMM


B. De Gadamael a Kandiafara… sem passaporte nem guia de marcha

por António Martins de Matos

Numerosos são os textos, palestras, opiniões e até filmes sobre os acontecimentos em Guileje e Gadamael entre os meses de maio e junho de 1973, a maior parte das vezes descrevendo e prognosticando o principio do fim das nossas tropas (NT) e enaltecendo a manobra do PAIGC, no que alguns à posteriori e no sentido de valorizar o momento, denominaram de “Operação Amílcar Cabral”.

Inexplicavelmente os referidos textos, palestras e filmes só relatam os acontecimentos no brevissimo período de duas semanas, entre os dias 22 de maio e 5 de junho de 1973, ninguém se mostrou interessado em seguir a estória dos dias seguintes e saber o que realmente acabou por acontecer em Gadamael e em toda a zona sul da Guiné.

Quem se desse ao trabalho de analisar com maior profundidade os acontecimentos desse junho de 1973 acabaria por constatar que a grande ofensiva do PAIGC no sul da Guiné se resumiu apenas àquelas duas semanas e logo se volatilizou, tudo regressando à situação anterior a 1972.

Porquê? Que se passou?

O que travou o avanço do PAIGC e estancou o tão apregoado “efeito dominó”,propagandeado vezes sem conta por 'Nino' Vieira?

A explicação é simples e tem duas vertentes, por um lado a presença do Batalhão de Paraquedistas na área condicionou de imediato os movimentos dos guerrilheiros na zona, por outro lado a Força Aérea Portuguesa (FAP) bombardeou as matas à volta de Gadamael, silenciando várias bases de fogo, e em seguida entrou pelo território da República da Guiné-Conacri, destruindo a maior base de apoio do PAIGC, situada perto da localidade de Kandiafara.

Passados que são 43 anos e antes que o tema acabe por cair no esquecimento, aqui junto algumas considerações sobre a situação então vivida e factos ocorridos nesses dias.



Mirage V (Imagem, de origem desconhecida, recolhida na Internet, AMM)


1. O material em falta

Na Guiné e logo após a identificação do míssil Strela (6 de abril de 1973), os pilotos da FAP tinham pedido três melhoramentos urgentes.  a saber, pretendiam que: (i) fossem substituídas as metralhadoras 12,7 mm do FIAT G-91 por canhões de 20/30 mm: (ii) fosse instalado na aeronave um sistema de alerta anti-míssil:  e, (iii) na base de Bissalanca, necessitavam de um radar de busca/defesa aérea que os apoiasse em operações de dia/noite ou mau tempo.

Ainda que dispendiosos, todos estes requisitos eram fáceis de implementar, na Força Aérea Alemã havia aviões iguais aos nossos mas equipados com dois canhões de 30mm, sistemas anti-míssil já eram usados no Vietname, e Bissalanca até já tinha um radar de defesa aérea desde 1964, montado em torre metálica perto da cabeceira da pista, só que … não funcionava.

Em complemento a este pedido dos pilotos, o Comandante da Zona Aérea, Coronel Moura Pinto, tinha declarado em 15 de maio de 1973, durante a reunião de Comandos no Quartel-general do Comando Chefe, que, face à ameaça dos mísseis Strela e possível entrada no conflito de aviões MIG, para continuar a dar um apoio eficiente às NT precisava de  oito aviões SKYVAN, para substituir os DO-27, cinco helicópteros equipados com armamento axial, e doze aviões do tipo MIRAGE, com um raio de acção não inferior a 300 milhas náuticas.

Este requisito sobre o raio de acção não era inocente, no caso de um futuro ataque de MIG haveria necessidade de retaliar e destrui-los no solo e a única pista apta a receber os aviões, estava situada em Conacri, a uma distância de cerca de 200 milhas de Bissalanca.

Todos estes pedidos foram devidamente registados, logo os estados-maiores entraram na borbulhagem da burocracia e, de reunião em reunião, estudo em estudo e acta em acta, lá se foram adiando as soluções.

Esta inércia, ignorância, desleixo ou falta de respeito pelos militares que em 1973 combatiam na Guiné já há muito se tinha tornado por demais evidente, o Governo de Lisboa não sabia e/ou não estava minimamente interessado em resolver a situação no Ultramar, o seu lema pautava-se por um … “adiar é resolver”.

Tivessem lido os “Tratados sobre Guerra Subversiva” e deveriam saber que, com o passar do tempo, a situação iria evoluir da “tímida flagelação” para uma “guerra convencional”, onde a artilharia e a aviação acabariam por ter um papel fundamental.

No entanto, durante todos os anos do conflito e para além de alguns pequenos melhoramentos no armamento das nossas forças armadas, nada mais tinha sido feito.

Em boa verdade já não existia o capacete de ferro, cartucheiras a tiracolo e a Mauser mas os tempos da primeira mina encontrada (1963) já tinham passado, usávamos dilagramas e bazucas contra o RPG, obuses da 2ª Grande Guerra contra o canhão sem recuo e o FIAT G-91 contra uma previsível e futura aviação de MIG, de dono indefinido e, ao contrário do que muitos acreditavam, quase certamente pilotados por mercenários experientes, oriundos da Alemanha de Leste, URSS, Reino Unido, …como já anteriormente tinha acontecido na guerra Nigéria/Biafra.

Por outro lado e em termos de defesa aérea, a Guiné continuava totalmente desprotegida, não só contra aviões de combate mas também contra qualquer “avioneta” que, de noite, resolvesse vir largar sobre Bissau umas granadas, uns tijolos ou uns panfletos.

Ao chegar o 25 de abril de 1974, um ano depois do aparecimento do míssil Strela e depois de seis aviões terem sido abatidos, de todos os requisitos operacionais então solicitados e tidos como urgentes e imprescindíveis, nenhuma alteração/melhoramento tinha ocorrido.


Short Skyvan SC-7 (G-BEOL) of Invicta Aviation at the Cotswold Air Show at Cotswold Airport, Kemble, Gloucestershire, England. Later in the day it was used to drop a parachute team.
Date June 2010.  

[By Adrian Pingstone (Arpingstone) (Own work) [Public domain], via Wikimedia Commons ]


2. Estratégias

Entre 6 e 8  de junho de 1973 o então CEMGFA, General Costa Gomes, visitou a Guiné, trazendo a resposta/solução do Governo aos pedidos feitos a 15 de maio de 1973 no Quartel-general do Comando Chefe.

Segundo ele e por motivos não explicados, os pedidos de material militar dificilmente seriam satisfeitos, mas, em contrapartida, aceitavam/sugeriam a retracção dos aquartelamentos da fronteira.

Era a segunda visita de Costa Gomes nesse ano, desde logo se tornou evidente que, para transmitir aquelas decisões do Governo não teria sido necessário vir a Bissau, algo que poderia ter sido comunicado por mensagem, a razão da deslocação e a sua principal missão era a de tentar “amaciar” Spínola.

O General Spínola conhecia bem os textos de Clausewitz e Mao Tse Tung, sabia que a guerra na Guiné nunca poderia ser ganha pela força mas sim cativando as populações locais.  A sua estratégia há muito que estava definida, passava por não hostilizar as populações, criando ordenamentos auto-defendidos, com escolas e apoio sanitário, saudando o regresso dos que anteriormente tinham apoiado a guerrilha e deixando em aberto a possibilidade de, num futuro não muito distante, iniciar negociações com os líderes locais tendo em vista a oferta de uma autonomia negociada.

Interessante e quase nunca referido, durante o seu Comando, Spínola proibira terminantemente que alguém, alguma vez, efectuasse algum disparo na zona da Ilha do Como.

Spínola logo rejeitou a solução apresentada pelo CEMGFA, a estratégia da retracção autorizada pela Metrópole só iria conduzir a um beco sem saída, quando, de retirada em retirada e por falta de espaço, não mais pudessem retrair as forças, a saída acabaria por ser semelhante à que os americanos de Saigão vieram a adoptar em 1975, dos telhados da cidade em direcção aos navios fundeados na baía.

Por outro lado, uma retracção iria destruir pela raiz todo o esforço em que se empenhara, iria deixar vulneráveis todas as populações das áreas junto às fronteiras, e às quais tinha prometido protecção.

A estratégia de Spínola não agradava ao Governo, podia vir a ser um mau exemplo para Angola, e, para o Governo de Marcelo Caetano, só Angola era importante.

Desiludido, sentindo-se manipulado, Spínola desistiu, … outros que fizessem melhor…

Ninguém fez melhor.

Entretanto, o Comandante da Zona Aérea, Coronel Moura Pinto, que sabia de estudos na FAP desde 1971 para a compra de aviões MIRAGE V, ao constatar que o apoio urgente e pedido em 15 de maio de 1973 continuava adiado e a não fazer parte das prioridades do Governo e que, em vez disso e em jeito de consolação, ia recebendo equipamento variado mas sem qualquer utilidade, logo criticou as chefias de Lisboa.

Desta vez foram rápidos a reagir, de imediato foi destituído do cargo que desempenhava.


3. Gadamael

Fazendo parte do então criado COP5, juntamente com Cacine e Guileje, Gadamael era um aquartelamento sem grande estória ou posição estratégica, a sua importância resumia-se a uma missão do tipo entreposto, receber via fluvial os abastecimentos destinados a Guileje e …expedi-los.

Até 1968 o aquartelamento tinha-se mantido protegido de ataques vindos da fronteira pela existência dos destacamentos de Cacoca e Sangonhá e, apesar de entretanto estas duas posições terem sido desactivadas, pouco ou nada se alterou, o rio Cacine era um obstáculo natural para o PAIGC, bem mais interessado em utilizar o Corredor do Guileje.

Raramente Gadamael era atacada, como consequência, o plano de defesa do aquartelamento não era muito elaborado, uns mini-abrigos e algumas valas eram mais que suficientes.

Quando em 22  de maio de 1973 e sem qualquer aviso lhe entraram pelo aquartelamento cerca de 200 militares e 500 civis fugidos de Guileje, logo as coisas se complicaram, não havia espaço para acomodar tanto pessoal.

Em 25 de maio de 1973 e depois de se ter recomposto da surpresa de lhe terem oferecido de bandeja um aquartelamento das NT, ainda por cima cheio de víveres, o PAIGC logo procurou explorar o seu inesperado êxito, em cinco dias recolocou a sua artilharia pesada na direcção de Gadamael e passou a executar um “tiro ao alvo” contra o aquartelamento, bem mais intenso do que tinha feito contra Guileje.

Tudo o que depois aconteceu, resultou apenas da … falta de espaço.

A segunda pedra do dominó oscilou, tudo isso sem que os militares de Gadamael merecessem algum reparo ou reprimenda, apenas tinham sido surpreendidos por acontecimentos estranhos e inopinados, para os quais em nada tinham contribuído e eram completamente alheios.

Oscilou mas não caiu.

Entre 1 e 3 de junho de 1973 a FAP evitou fazer bombardeamentos na zona, nada a ver com desculpas de mau tempo, Strelas ou AA [, antiaéreas], mas sim por se saber haver inúmeros militares e população espalhados e em debandada por toda a área, só com a chegada dos paraquedistas em 3 de junho de 1973 a situação ficou mais ordenada.

A partir do dia seguinte as áreas suspeitas foram devidamente identificadas, as bases de fogo dos morteiros de 120 mm acabaram por ser bombardeadas e calaram-se de vez.

De seguida foi a busca das armas de maior alcance, situadas para além da fronteira, durante alguns dias ainda se tentaram encontrar as bases de fogos nas clareiras perto de Satiguia, mas a área era demasiado vasta, mereceu um pensamento apropriado:  “Em vez de andarmos à procura das formigas, o melhor será encontrarmos o formigueiro”.

Estava lançado o mote para destruir Kandiafara.


4. Kandiafara

No inicio do conflito na Guiné os “estrategas” de então terão pensado que o armamento da guerrilha se limitaria à “catana, canhangulo e arma fina”, tal ideia fez com que o dispositivo das forças portuguesas fosse planeado essencialmente de modo a controlar as fronteiras, espalhando os efectivos pelo terreno, alguns quartéis mesmo no limite do nosso território, em missão do tipo controlo de polícia, ver quem entra e quem sai.

Com a evolução da guerra tal aproximação revelou-se desajustada, a Guiné era um território pequeno, tendo por vizinhos o Senegal e a Guiné-Conacri, ambos hostis, e com as suas fronteiras altamente permeáveis a infiltrações.

Não obstante o dispositivo nacional estar espalhado por todo o território, o apoio logístico do PAIGC ao interior conseguia facilmente ser executado através de corredores de abastecimento mesmo nas vizinhanças dos nossos aquartelamentos, Jumbembem e Sambuiá no Norte, e Guileje no Sul disso eram exemplos.

A missão das NT de tentar impedir o fluxo e refluxo de colunas de abastecimento através desses corredores de infiltração sempre se revelou de êxito duvidoso, algumas colunas terão sido bloqueadas, mas o melhor que se conseguia fazer era atrasar o seu deslocamento, grande parte delas terá passado incólume.

Mas não era só o problema de conter as infiltrações que nos devia preocupar, alguns dos aquartelamentos tinham sido construídos a escassos metros da fronteira e por essa razão ao alcance de um simples tiro de arma ligeira disparado do país vizinho, casos de Guidaje, Pirada e Buruntuma.

Com o passar do tempo e o aparecimento na panóplia do PAIGC de artilharia mais potente, inúmeros outros aquartelamentos logo vieram engrossar a lista dos que podiam ser atacados a partir do “estrangeiro”, a saber,  Bajucunda, Copa, Canquelifá, Guileje, Gadamael.

O abandono do Guileje em 22 de maio de 1973 deu ao PAIGC uma nova perspectiva de como bastava posicionar a sua artilharia pesada na zona da fronteira para poder forçar as NT a recuar, tudo isto sem serem obrigados a grandes riscos ou movimentações.

Com a introdução no conflito de uma nova peça de 130 mm (M-46, de alcance superior a 20 quilómetros), a breve trecho outros quartéis iriam ficar em semelhante situação, Piche, Cacine e Aldeia Formosa certamente seriam os próximos alvos.

A não ser tomada uma decisão que contrariasse este tipo de ataques, o PAIGC preparava-se para nos obrigar a retirar de todos os quartéis próximos da fronteira, sem sequer necessitar de entrar no nosso território.

A única maneira de conter estes ataques passava por destruir os grandes centros de logística, ambos situados na Guiné-Conacri, Kandiafara a cerca de 20 quilómetros a oriente de Guileje, recebia o material de guerra desembarcado em Boké e, com a ajuda de Simbeli e Kambera, abastecia todo o sul, e Koundara a uma distância de cerca de 40 quilómetros a leste de Buruntuma que, com o apoio de Kumbamori, abastecia o norte e leste.


5. Os riscos

Portugal já tinha passado por uma má experiência quando da “Operação Mar Verde”.

A maioria dos objectivos tinha falhado, de positivo tínhamos recuperado os prisioneiros portugueses, mas Sekou Touré continuava a ser o presidente da Guiné-Conacri, a oposição ao seu regime tinha sido aniquilada e não estava resolvido o mistério sobre a presença ou não de aviões MIG no seu território.

No plano internacional, de imediato tínhamos sido acusados de um acto de guerra e violação das fronteiras contra um estado soberano, tendo o Conselho de Segurança das Nações Unidas logo aprovado duas resoluções contra Portugal.

Em termos militares pagámos igualmente a ousadia de tal operação, Sekou Touré pediu e obteve um maior apoio militar da URSS, material de guerra que veio engrossar a panóplia do PAIGC.

O Governo Português ainda se esforçou por tentar defender a ideia que nada tinha a ver com a invasão, mas a deserção de alguns elementos dos comandos africanos puseram a nu a nossa participação.

Em termos de lições aprendidas e para um eventual novo ataque dentro do território da Guiné-Conacri havia uma série de riscos que Portugal não podia voltar a correr, a informação sobre o objectivo tinha de estar precisa e actualizada, o alvo tinha de ser totalmente destruído e não podiam ser deixadas “pontas soltas” em território da Guiné Conacri.

Quanto à situação internacional…. logo se veria.


6. O armamento

Cada avião FIAT G-91 foi armado com duas bombas de demolição de 750 libras (cerca de 340 quilos por cada bomba) e 200 munições 12,7 mm em cada uma das 4 metralhadoras.

As bombas de 750 libras, de origem americana, eram de demolição e actuavam por sopro. Obrigavam a um cuidado redobrado na pilotagem, estava-se perto do peso máximo autorizado para a descolagem e, devido à pequena dimensão da asa, não era possível manobrar o avião numa situação de assimetria, as duas bombas tinham que ser largadas na mesma picada de bombardeamento, ainda que pudessem bater dois alvos distanciados de 500 metros.

De referir que este problema de assimetria nas asas custou-nos a perda de um avião em 1 de setembro de 1973 quando, num bombardeamento na área do Morés, o piloto largou uma das bombas e, por motivos não esclarecidos, conservou a outra. (FIAT G-91 5416).

Quanto às metralhadoras, elas apenas seriam usadas para defesa próxima, na remota hipótese de algum encontro imediato com um MIG que nos viesse atacar.


7. A execução

Nessa manhã estavam 8 aviões prontos para operações mas na Guiné e nesse período só havia 6 pilotos qualificados na aeronave.

Logo pela manhã saíram 2 helicópteros de Bissalanca em direcção a Gadamael, tinham como missão ficarem de alerta para uma tentativa de resgate de algum piloto que eventualmente fosse abatido em território da Guiné-Conacri, algo que encarávamos como muito provável, já que sabíamos Kandiafara fortemente defendida com antiaéreas ZPU-4 de 14,5 mm, peças AA de 37 mm e mísseis Strela.

Havia ainda a possibilidade de, caso existissem, sermos confrontados e perseguidos por aviões MIG.

Os de Gadamael ouviram-nos passar, ainda vieram ao rádio, estavam habituados a ver-nos bombardear as matas na zona da fronteira, queriam saber onde íamos, não respondemos, desta vez o objectivo não era na vizinhança mas sim … no estrangeiro.

Em 20 minutos chegámos a Kandiafara, íamos altos, a cerca de 3500 metros de altitude, o que nos dava grande vantagem, lá de cima podíamos ver a área do objectivo na sua totalidade, estávamos ao abrigo de disparos de Strela e, uma vez identificados os alvos, permitia-nos uma picada imediata sobre os mesmos.

Fomos recebidos com um fogo cerrado das peças AA de 37 mm, os projecteis rebentavam um pouco abaixo de nós, formando um tapete branco de pequenas explosões.

Logo de seguida os seis aviões picaram sobre os respectivos alvos e cada um largou as suas duas bombas de 750 libras.

Na recuperação do passe sentimo-nos a ser perseguidos pelo fogo das ZPU-4, o chamado “calor na nuca”; pela minha parte vi algumas tracejantes passarem perigosamente perto da cauda do avião que me precedia, até que ele, com uma manobra brusca, inverteu a direcção da subida.

Depois de, no rádio, verificarmos que todos estavam bem, o regresso a Bissalanca foi “cada um por si”, interessava regressar o mais rápido possível, de modo aos mecânicos reabastecerem e remuniciarem as aeronaves.

Uma hora depois de termos aterrado já estávamos de novo no ar, novamente 6 FIAT G-91, cada um com outras 2 bombas de 750 libras.

Sabíamos que, a haver MIG, esta segunda missão seria o momento indicado para nos atacarem.

A chegada a Kandiafara foi bem diferente da vez anterior, já não houve tapete de explosões de 37 mm, apenas algumas tracejantes de ZPU-4, o que até nos permitiu localizá-las e largar bombas nas suas posições.

Nova verificação de que tudo estava bem e regresso imediato a Bissalanca para mais um remuniciamento.

Mais uma hora de espera e iniciámos uma terceira viagem ao estrangeiro, mais 12 bombas de 750 libras, ao chegarmos a Kandiafara já não vislumbrámos qualquer reacção hostil, nada, …, a área estava cheia de fumo e pó e … parecia deserta.

Esta última largada de armamento já não teve alvos definidos, foi mais na zona, o que tinha de ser destruído já o fora anteriormente.

Ainda ficámos algum tempo a circular à vertical do objectivo, tentando vislumbrar alguma reacção vinda do chão ou do ar, nada aconteceu.

A mais famosa e importante base de apoio do PAIGC acabara de ser destruída.


8. Os resultados 

Em termos diplomáticos a missão acabou por ser um sucesso já que, inexplicavelmente, não houve qualquer queixa internacional.

Como justificação para esta “não queixa” poder-se-á afirmar que, sendo certo que o bombardeamento foi bem dentro do território da Guiné-Conacri, por outro lado foi dirigido apenas contra instalações do PAIGC.

Numa análise mais “elaborada” arriscar-me-ia a dizer que este bombardeamento terá mesmo agradado ao presidente Sekou Touré, o qual há muito que não se sentia seguro com o crescente potencial bélico do PAIGC dentro do seu território, por comparação com a debilidade das suas forças armadas.

Em termos operacionais a missão foi igualmente um sucesso, por um lado nenhum avião foi atingido, por outro lado a capacidade de abastecimento do PAIGC na região sul ficou seriamente abalada e o grande esforço que vinha realizando nessa área, diluiu-se de imediato.

Em resumo, em Kandiafara foram largadas 36 bombas de 750 libras, o equivalente a mais de 12 toneladas de explosivos, o maior bombardeamento da FAP nos 13 anos de guerra em África.

Para o êxito da missão muito contribuíram os mecânicos, tantas vezes esquecidos, por vezes maltratados e que, nessa manhã, tinham feito um esforço sobre-humano para prepararem as 18 saídas e o respectivo armamento.


Foto nº 1 > Guiné > Zona leste > Pirada b> 1973 > "Foto  tirada por mim, é de Pirada, mostra a distância entre o aquartelamento e o marco da fronteira".

Foto (e legenda): © António Martins de Matos (2016). Todos os direitos reservados.


9. O rescaldo 

Em novembro de 1973 e como a indiferença perante a necessidade de melhorar o equipamento militar se continuasse a manifestar, o novo Comandante da Zona Aérea, Coronel Lemos Ferreira, subiu o tom das criticas, “SUGERINDO” que, à semelhança do ocorrido na Índia doze anos antes, o Governo preparava-se para tentar encontrar um “bode expiatório”, algo que permitisse justificar o fim do Ultramar, uma maneira hábil de tentar ilibar os políticos e culpar os militares.

Os recém nomeados Ministros da Defesa e Exército, Silva Cunha e Andrade e Silva e o então CEMGFA, General Costa Gomes, engoliram o “sapo” e nada fizeram.

E continuaram a nada fazer.

Algum tempo antes da missão a Kandiafara a FAP já havia bombardeado Kumbamori (no norte) e Kambera (no sudeste), enfraquecendo a logística de apoio do PAIGC nas zonas norte e sul.

O passo seguinte seria atacar e destruir Koundara, a base que apoiava o leste.

Foi feita uma missão de ensaio onde se verificou que o FIAT G-91 com o armamento apropriado e partindo de Bissalanca, apenas conseguia chegar a Buruntuma, devido ao seu pequeno raio de acção.

Ainda assim, a missão podia ser realizada, mas os aviões tinham de, no regresso, aterrar em Nova Lamego para reabastecer, nada de difícil, apenas mais demorado.

Inexplicavelmente … não fomos autorizados.  Ficava no ar a impressão que “alguém, algures” … queria perder a guerra.

Entretanto o nosso sobrevoo na zona de Buruntuma alertara as NT, nunca se saberá como os identificaram mas, … descobriram aviões MIG no ar.

Em dezembro de 1973 o General Bettencourt Rodrigues ordenou uma vasta operação no Cantanhez.

A comparação com Spínola estava a revelar-se difícil, no seu currículo já tinha uma má nota, responsável pela “comemoração da independência”, ainda que a mesma se tivesse efectuado fora da Guiné.  Necessitava urgentemente de marcar pontos.

Em termos de estratégia, a sua decisão desde logo deixava algumas dúvidas sobre a razão e oportunidade, outrora o Cantanhez fora um santuário do PAIGC mas tudo isso se diluíra devido a três factores: (i) a construção dos aquartelamentos das NT na margem esquerda do rio Cumbijã; (ii) o ataque e destruição de Kandiafara;  e (iii) os posteriores bombardeamentos na área, só terminados quando, depois de termos atacado a tabanca nossa/deles de Santa Clara, a população tinha entrado pelo aquartelamento de Cadique a pedir auxilio.

Tínhamos bombardeado a tabanca e de seguida fomos buscar os feridos, tivesse o Fernando Pessa sabido do acontecimento e logo diria … “E esta, heim?”.

Aos olhos de qualquer piloto habituado a sobrevoar a Guiné era evidente que os apoiantes do PAIGC e habituais no Cantanhêz, há muito se tinham apresentado aos nossos aquartelamentos ou … atravessado o rio Cacine, direcção Guiné-Conacri.

Para a FAP e face à não destruição de Koundara, o novo ponto crítico da Guiné estava há muito definido, o leste, onde a protecção das NT continuava a ser descurada.

Em 1 de janeiro de 1974 e com a missão no Cantanhez ainda a terminar, foi o momento do PAIGC iniciar os ataques a Canquelifá, Bajocunda e Copá, com o apoio logístico da entretanto poupada Koundara e a estratégia já anteriormente usada em Gadamael, o chamado “tiro ao alvo”, desta vez utilizando foguetões de 122 mm.


10. O fim

Quando em janeiro de 1974 o PAIGC se retraiu no sul e norte para poder iniciar os ataques ao leste, os “estrategas” do QG/CTIG já não estavam minimamente interessados em estudar e discutir as tácticas e os planos da guerra, mas sim em como se livrarem dela.

Desde logo identificavam como culpados Marcelo Caetano, o seu Governo e os 50 aviadores de Bissalanca que, segundo as más línguas, em vez de apoiarem as NT, “já nem voavam”, ainda que, misteriosamente, continuassem a largar ferro por tudo o que era sitio e a serem abatidos por Strelas (31 de janeiro de 1974, FIAT G-91 5437).

A 8 de fevereiro de 1974 foi a vez das NT abandonarem Copá.

Os passos seguintes foi lerem o livro de Spínola “Portugal e o Futuro”, prepararem a “estratégia revolucionária para aplicar no 26Abril” e … aguardar.

Quando George Orwell escreveu …“A maneira mais rápida de acabar com uma guerra é perdê-la”... não adivinhava ter conseguido tantos admiradores em Lisboa e … arredores.

Dedicado ao meu mui mui grande Comandante Moura Pinto e aos meus amigos Pedroso de Almeida, Bessa e Gil, todos eles já a voarem por outros céus.

AMM
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30 comentários:

Tabanca Grande disse...

Caro António:

Como já te dito, logo em resposta ao teui« mail, este é um texto para a história, escrito por um grande português e um bravo pilav que nos honra com a sua presença, com a sua inteligência emocional, com a sua indesmentível bravura, a sua notável capacidade de leitura dos acontecimentos e a sua não menos excelente memória... E, claro, a sua já proverbial capacidade de irreverência!...

António, ter-te sob o poilão da Tabanca Grande é também uma honra... Poucos generais, como tu, são capazes de ter a simplicidade e o prazer de "acamaradar" com a "tropa macaca", que constitui o grosso dos nossos grã-tabanqueiros"... Há muito que sei que te sentes gente ao pé da gente... E a gente retribui-te com a mesma moeda: és estimado, acarinhado, respeitado...

Aprecio, sempre apreciei, a força da tua autenticidade, a tua frontalidade, és um militar de carreira e a Guiné acabou por ser o "palco principal", senão da tua vida, pelo menos da tua história de vida... Ao fim destes anos todos, não podes esconder, escamotear, ignorar, branquear ou negar a experiência-limite que foi o TO da Guiné: estivestes lá dois anos, e que anos!...

Não é apenas um texto para a história da FAP, é um texto para a nossa história pátria!

Daí também o meu desafio: acho que os teus camaradas, os teus amigos, os teus filhos e os teus netos, merecem o livro que já escreveste, ao longo destes anos todos, no nosso blogue, mas que anda por aí disperso em dezenas e dezenas de páginas, sob a forma de crónicas ou pequenas histórias... Só precisas, ao fim e ao cabo, de juntar e alinhar as páginas, e editá-las em livro...

Este capítulo, o de Gadamael-Kandiafara, bem pode ser o último, partindo do princípio que esta terá sido a tua grande missão (tua e da tua esquadrilha): há nele todos os ingredientes para poderes "fazer as contas" com a guerra da Guiné: há bravura, há competência, há profissionalismo, há portuguesismo...

Independentemente da legitimidade do poder político, a ação heróica da FAP contra Kandiafara merece ser conhecida, divulgada e estudada... Os futuros pilotos da FAP, na Academia, precisam de "case studies" como este...

Como prometido, acabei de publicar o teu texto, religiosamente, sem falta, no dia 1, às 0h00 em ponto. E fiz questão de ser eu a editá-lo.

Quanto ao livro, e na falta de prefaciador ou apresentador com mais galões ou pergaminho do que os meus, conta comigo para o que te der e aprouver... Prometo acrescentar mais uma estrela às 3 estrelas que já tens, com todo o mérito... Precisamos agora de um bom editor, o que não está fácil...

Um bom resto de noite. E obrigado por continuares a confiar no teu/nosso blogue. Luis

Tabanca Grande disse...

António, quem lê o teu texto fica com uma pequena dúvida: em que data precisa foi feito o bombardeamento de Kandiafara ? Tudo se passou em horas, de um dado dia, mês... Só pode ser junho de 1973... Ab. LG

António Martins Matos disse...

Eu sei, é uma falha do texto,tinha uma data como certa mas depois vieram as dúvidas e, mesmo com a caderneta de voo à frente, não resolvi a ambiguidade.
Entre o não publicar ou fazê-lo dizendo simplesmente que foi depois dos ataques a Gadamael, optei pela segunda, que me desculpem os leitores
Abraço
AMM

António Martins Matos disse...

Nos comentários à foto inicial diz-se que o Cor Moura Pinto faleceu no acidente do TAP na Madeira. Não é verdade, o Cor Moura Pinto faleceu há uns anos, vitima de doença.

Tabanca Grande disse...

Fui induzido em erro pelo blogue dos Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74... I' m sorry. Vou corrigir. Obrigado, António.

Anónimo disse...

Jose Matos
1 jun 2016 11:08

Olá Luís

Essa foto é mesmo do Arnaldo Sousa, mando-te outras dele, que eu acho que podes publicar...

Ab

Vasco Pires disse...

Quando cheguei a Gadamael em meados de 70 a CART 2478 já tinha abandonado Ganturé,antes tnham sido evacuados Cameconde,Cacoca e Sangonhá,o que enfraquceu de sobremaneira os restantes aquartelamentos.
"Data venia", o acesso a Gadamael por parte do PAIGC, independia do rio Cacine,podendo ser feito pelo norte deste.
Quanto à importância estratégica de Gadamael, está referida no próprio texto, como único entreposto de abastecimento de Guileje.
Quanto à situação operacional em Gadamael, está documentada neste blog,pelo estudo do Camarada Manuel Vaz, e pelo depoimento do Senhor Coronel de Artilharia A.C. Morais Silva, ex-comandante da CCAÇ 2796.
Forte abraço.
Vasco Pires
Ex-soldado de Artilharia

Tabanca Grande disse...

É pena o AMM não conseguir, através da sua caderneta de voo, poder apurar a data exata deste bombardeamento a Kandiafara. A data, quanto a mim, dava maior credibilidade ao seu depoimento, de inegável interesse historiográfico. São pequenos detalhes, que têm alguma importância... O que não retira força, autenticidade e originalidade a este texto, independentemente da "leitura" que cada um de nós possa fazer dos acontecimentos.. Há sempre o risco de vermos a árvore e nunca floresta, e o contrário, só vermos a floresta e nunca a árvore... Tudo depende afinal dos "óculos" com que "reconstruimos" a realidade e acedemos à "verdade" (que nunca existe em absoluto)...

José de Moura Calheiros, no seu livro "A Última Missão" (Lisboa, Caminhos Romanos, 1ª ed., 2010), no capítulo "A batalha de Gadamel" (pp.513-545), faz uma referência explícita (e elogio) à ação dos pilotos do Fiat que efetuaram bombardeamentos à base de Kandiafara, na Guiné-Conacri, e a sul de Gadamael, contribuindo decisivamente, em articulação com as outras forças (marinha, exército, milícias e BCP 12), para que a batalha de Gadamael fosse ganha (p. 545), mas não apresenta uma data precisa para esses bombardeamentos, nomeadamente os que ocorreram contra Kandiafara, tal como o AMM os descreve, com todo o detalhe, neste poste.

Moura Calheiros escreve que “foi [no dia 23 de junho] que considerei aquela batalha definitivamente ganha" (p. 540), ou seja, depois do assalto da CCP 121, comandada interinamente pelo ten para Hugo Borges, a uma base do IN a cerca de 10 km a sueste de Gadamael, abaixo de Cacine, em território estrangeiro...

No regresso a Gadamael surgiram "quatro Fiat" (sic), tendo o tenente sugerido que bombardeassem em redor do aquartelamento que acabavam de atacar... e onde já tinham feito grandes estragos...

E prossegue Moura Calheiros, na altura 2º cmdt e oficial de operações do BCP 12: "Fizeram um bombardeamento nessa zona e em outros alvos já bem no interior da Guiné-Conacri, logo desencadeando uma maciça reação da artilharia inimiga. Apesar da distância de alguns quilómetros a que a CCP 121 se encontrava, o estrondo das armas antiaéreas era ali fortíssimo. Subitamente, pareceu-lhes ouvir um ruído de chuva, de bátegas de água a caírem no solo, acontecendo também algumas pequenas explosões. Mas não estava a chover… Eram as balas explosivas que o inimigo disparava contra os Fiat que, não se tendo autodestruido, estavam a a cair ali, junto da Companhia” (…) (p. 540).

O regresso a Gadamael foi tranquilo e a batalha estava ganha… mesmo se a 30 de junho e a 2 de julho de 1973 Gadamael ainda tivesse que sofrer “pesadíssimos bombardeamentos” (p. 543)… Gadamael era agora uma “fortaleza”, em termos físicos e anímicos, graças em grande parte à acção do BCP 12 bem como das forças do exército (CCAV 8350, CCAÇ 4730 e diversos pelotões da guarnição), sem esquecer o papel dos Fiat G-91... e de pilotos corajosos como o nosso AMM... A CCP 121 e a CCP 122 regressam a Bissau a 7 de julho e a CCP 123 dez dias depois…

O Moura Calheiros já me autorizou, em tempos, a reproduzir este capítulo que é umas páginas heróicas da nossa história do século XX. Os heróis de Gadamael precisam de ser conhecidos, no mínimo, pelas novas gerações...

Mas, amigos e camaradas,Gadamael... nunca mais! Não queremos que os nossos filhos, netos e bisnetos passem, algum dia, por situações limite como Guadamael, Guileje, Guidaje, Copá, Canquelifá... O mesmo desejo aos nossos amigos guineenses, os que combateram do nosso lado, e bem como aos que estiveram do outro lado... Na Guiné, as "linhas de fronteira" nunca foram nítidas...

Manuel Peredo disse...

Grande texto do Sr. General António Matos,digno de figurar num livro da história da guerra do Ultramar. Sinto orgulho por muitos reconhecerem o papel que o BCP12 teve nos acontecimentos de Gadamael. Deixámos lá muito suor e sangue,mas certamente evitámos que muitas mais vítimas mortais houvesse.

JD disse...

Temos um General!
Sereno na descrição, aqui e ali com recurso a umas tiradas de ironia, objectivo na exposição circunstancial dos aspectos que abordou, o António Martins de Matos ainda se revela irreverente e com capacidade crítica relativamente aos comandos que ditaram o fim da guerra, quando deixa no ar qualquer coisa como alguém queria perder a guerra.
Subscrevo essa possibilidade. Aliás, estou a ler um dos livros recomendados pelo B.S. sobre o MFA da Guiné, da autoria de Jorge Sales Golias, e as contraposições são inúmeras e flagrantes. Enquanto um faz a apologia da vitória do PAIGC, o nosso General continua combativo na missão de desmistificar o auto-proclamado heroísmo dos que, sem outro nexo que não o de regressar a casa, fizeram o golpe revolucionário que atirou Portugal para as trevas, onde se mantém sem sinais de delas sair.
Politicamente incorrecto, deixa-nos aqui um magnífico retrato daquela situação que mediou entre 1973 e 1974, em que, apesar das obsoletas armas de combate, os melhores portugueses continuaram a defender o melhor período histórico-civilizacional que mostràmos ao mundo, o de desenvolver novas sociedades, multirraciais e com igualdade de oportunidades, que já revelavam padrões de nítido desenvolvimento. Naturalmente, ancoradas no modelo Angolano, e que se deveria estender aos restantes territórios, conferindo-lhes o necessário apetrecho para se tornarem verdadeiramente autónomas, sem subjugações aos imperialismos.
Do ponto de vista da estratégia política e militar, aquela impediu que a vertente militar desse o recital de superioridade que se afigurava necessário, cujo modelo poderia ensaiar-se reproduzir em Moçambique, o "teatro" que se afigurava mais complicado e importante, já que em Angola a coisa mostrava-se controlada, e os guerrilheiros de origem portuguesa preferiam trabalhar e viver na sua terra, do que andar sem rei nem roque em insondáveis aventuras nas matas.
Ficaram assim hipotecadas, as teses amplamente divulgadas para justificar o injustificável, que o 25 de Abril foi um golpe libertador para os portugueses. Eu sinto-me cada vez mais preso à angústia sugerida pela única visão de um futuro negro, que os maliciosos políticos tentam contrariar pelo recurso continuado ao crédito financeiro e às importações de bens essenciais e de luxo, do que resulta uma carga fiscal cada vez maior para cada cidadão, para além dos inúmeros outros que já não têm presente.
Parabéns António Martins de Matos.
Abraços fraternos
JD

Anónimo disse...

“Raramente Gadamael era atacada, como consequência, o plano de defesa do aquartelamento não era muito elaborado, uns mini-abrigos e algumas valas eram mais que suficientes.”

Faltará ao senhor general AMM a informação seguinte referente ao período de Dez70 a Fev72 em Gadamael.

Em Dezembro de 70 a CCaçInd 2796 (início da comissão) foi flagelada no dia 16, atacado o aquartelamento no dia 20 (1 hora) e flagelada no dia 30.
Destas acções resultaram 2 baixas nas NT e 16 na POP.
Em Janeiro de 71, flagelações em 8, 10,11 e 28. Combate próximo em 5 e 24 (morte do cmdt compª Cap Infª Assunção Silva).
Em 6/7 de Fevereiro de 71 o aquartelamento é flagelado durante 3 horas com repetição em 28Fev.
Neste período a companhia teve 9 baixas (ver no PT7756 o estado da companhia em fins de Jan71 para melhor apreciar o “raramente” do senhor general)

Nos 13 meses de estadia em Gadamael a CCaç 2796 teve 5 mortos e 26 feridos, foi flagelada 25 vezes e teve 5 contactos com o IN.
A situação relatada é compatível com a afirmação “Raramente atacada”?!

O plano de defesa integrava organização do terreno (valas com protecção de fornilhos quer no aquartelamento quer na tabanca) para todo o pessoal (incluam-se 80 milícias e POP da auto-defesa), posições defensivas do Pelotão de Reconhecimento, fogos directos do Pelotão de Artª , fogos dos morteiros e fogos das posições de metralhadoras pesadas.
Herdei 2 pequenos abrigos (de que nunca fui adepto) mas todo o pessoal tinha o seu sector de defesa nas valas onde a dispersão do pessoal minimizou baixas.
Importa acrescentar que o plano era treinado amiúde, era feita a manutenção do armamento, fornilhos e da organização do terreno.
O plano era pouco elaborado? Bem gostaria de saber porquê.
Reafirmo que a pressão exercida pelo PAIGC de Dez70 a Mar71 buscava a queda de Gadamael e a consequente queda de Guilege. Não o conseguiu porque a guarnição de Gadamael apesar dos momentos muito difíceis que viveu, garantiu a posse da posição, a segurança da população, o apoio logístico a Guilege e a liberdade de movimentos no seu sector.
Por último, senhor general AMM, evite dissertar sobre o combate das tropas terrestres por ser assunto de que, naturalmente, nada sabe.
Morais Silva
Cor Artª (cmdt CCaç 2796)

Anónimo disse...

Só uma correção quando fala na CCAV 8350 e na CCAÇ 4730 era a CCAÇ 4743 que fazia parte da guarnição de Gadamael não a 4730 .

Vasco Pires disse...

Muito obrigado Senhor Coronel A. C. Morais Silva, pela sua detalhada descrição da situação operacional de Gadamael no período. Permita-me acrescentar, que V.Exa. assumiu o Comando Operacional do aquartelamento de Gadamael,depois de trágicos acontecimentos, que levaram o moral da tropa próximo do ponto de ruptura,situação tal que mesmo o Comando Chefe admitia a hipótese do abandono do quartel.
Finalizo, reafirmando que foi uma subida honra, servir sobre o seu comando operacional. Um
Forte e fraterno abraço.
Vasco Pires

Vasco Pires disse...

Onde se lê :.. sobre o seu comando...
Deve ler-se :...sob o seu comando...
VP

António Martins Matos disse...

Não é meu hábito deixar conversas a meio ou perguntas por responder, de modo que, havendo alguns comentários em aberto, proponho-me dar algumas explicações às questões pendentes.
Diz o Cor Morais Silva:
1.“Nos 13 meses de estadia em Gadamael a CCaç 2796 teve 5 mortos e 26 feridos, foi flagelada 25 vezes e teve 5 contactos com o IN.
A situação relatada é compatível com a afirmação “Raramente atacada”?!”

O tempo é uma variável um pouco abstracta mas … Acho que sim, raramente era atacada, duas vezes por mês por comparação com outros aquartelamentos que eram atacados quase diariamente.

2.“O plano era pouco elaborado? Bem gostaria de saber porquê”.

Basta ler o livro do Cor Calheiros “A última missão”, a páginas 517 onde ele (para-quedista, sabe mais a dormir que nós dois juntos) afirma que “naquela noite (31maio) estariam cerca de oitocentas pessoas numa área preparada e mal, para um máximo de duzentas”.

3. “Evite dissertar sobre o combate das tropas terrestres por ser assunto de que, naturalmente, nada sabe”.

Quanto a este último tema.. tem toda a razão, não sei manejo de arma, rastejar, emboscar, cavar abrigos, limpar a G-3….
Quanto a operações de combate até sei bem mais do que imagina, com para-quedistas, fuzileiros, comandos, … pode perguntar-lhes, ou, outra vez, ler o livro do Cor Calheiros a páginas 480

AMM

Manuel Luís Lomba disse...

Felicito e agradeço ao AMM, esta sua narrativa, acontecimental e paradigma de rigor. À honra de ter servido o Exército fundado pelo grande soldado e nosso rei fundador D. Afonso Henriques, acrescento a honra de ter tido por companhia a Força Aérea e a sua corajosa malta, que o pilav. António Martins Matos personifica.
E trago a minha achega à data da destruição da base IN de Kandiafara. Terá acontecido em 5 ou 6 de de Junho?
Em resultado das minhas pesquisas, no livro "Guerra da Guiné" de que sou autor e editor, escrevi na pag. 287 (com mea culpa face às incorrecções): "No dia 5 (Junho), Gadamael e arredores foram alvo de novo bombardeamento da poderosa artilharia turra, causando mais 10 feridos.
Na esteira do operado duas semanas antes, em Guidaje, uma parelha de aviões Fiat G91, pilotados pelos tenentes aviadores J. Pinto Ferreira e António Martins Matos bombardeou por 3 vezes a base de Kandiafara, uma espécie de praça-forte e de paiol do "Corredor de Guileje", cerca de 20 km no interior do território estrangeiro, despejando-lhe e6 bombas de 370 kg, em pacotes de 12 de cada vez".
Ab.

antonio graça de abreu disse...

Muito bem, meu General António Martins de Matos. Os dados,os factos, a realidade da nossa guerra, tudo enxuto, não politizado, verdadeiro.Claro que não íamos ganhar militarmente aquela guerra, mas fomos heróis, e não a perdemos.
Neste blogue quantas vozes já se levantaram a falar no período pós Strela em que "perdemos a supremacia aérea.?" E como o meu general sabe, melhor do que ninguém continuámos a voar, e bombardeámos como nunca. E o AMMatos desmitifica também a treta do Costa Gomes sobre a retracção do dispositivo militar e a inevitável retirada de aquartelamentos, tese defendida por exemplo pelo Beja Santos.
Enfim, um grande BEM HAJA para o nosso general António Martins de Matos.A nossa História faz-se com a VERDADE, com a heroicidade dos melhores de nós, todos os que viraram a cara à luta e, mesmo numa guerra que não desejámos, fomos dignos PORTUGUESES.

Abraço,

António Graça de Abreu

antonio graça de abreu disse...

Falta aqui um "não" como será evidente:

todos os que não viraram a cara à luta e, mesmo numa guerra que não desejámos, fomos dignos PORTUGUESES.

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas
Considero que o abandono controlado de Sangonhá, Cacoca e, posteriormente, Ganturé, preparou o que viria a suceder em 1973. Sei, porque assisti à reunião, que o Brigadeiro Spínola queria recuperar tropa da quadrícula para a intervenção e, por isso, contra a opinião do "meu capitão", determinou o abandono imediato de Sangonhá e Cacoca. Por fim, já em JAN69, Gandembel foi-o também e Mejo, onde chegou a haver uma companhia sediada, já o tinha sido. Podemos dizer que, em JAN69, a extremidade SUL da Guiné estava guarnecida por CACINE, CAMECONDE, GADAMAEL e GUILEJE o que é manifestamente pouco, até em termos de apoio mínimo. Tenho para mim que o controlo da estrada Cacine-Guileje era essencial para a manobra das NT, mas muito difícil de obter e manter. A superioridade do In em termos de apoio de fogo (artilharia) foi sendo cada vez maior (parece que com apoio topográfico e observação) e a possibilidade de cada uma das companhias actuar, com êxito, no seu sector, restringindo a passagem ao In era muito pequena. Além disso, o In não necessitava de residir na área, a não ser a Sul de Cacine onde se estabelecera desde o início e ficou.
A situação táctica tornou-se numa bom-relógio que teria de explodir, mais tarde ou mais cedo.
(Continua)

António José Pereira da Costa disse...

Saliento que a capacidade de actuação do Comando do COp5 era mínima, com três companhias dispersas, sem cavalaria (necessária para a movimentação das unidades) e sem qualquer unidade de intervenção que pudesse lançar no terreno numa acção mais elaborada. Podemos dizer que para além de boas(?) comunicações nada tinha que justificasse a sua existência.
Já tenho pensado que alguém estava à espera de um "desenlace"...
Mas isto já é teoria da conspiração.
Cacine era um bom local para desembarque de reabastecimento, especialmente material pesado, e juntamente com Gadamael concedia domínio sobre o rio e possibilidade de apoio de vária ordem.
Quanto à reunião de 15MAI73 só peca por tardia e eu não vejo como é que se poderia alterar de modo tão drástico e em tão curto espaço de tempo a FAP que operava na Guiné. A substituição das metralhadoras por canhões era elementar. Nunca supus que cada avião fosse tão mal armado, neste campo.
Sabemos que desde o começo se queria "embaratecer a guerra". Assim chegou-se, de facto a um pacto de silêncio em que a alta hierarquia das FA e "os políticos". Creio que aqueles não queriam levantar ondas junto daquelas. Já me referi ao facto de a nossa artilharia ser céguinha e surda, respondendo a olhómetro às iniciativas do In. Já nesse tempo existiam radares contra-morteiro e referenciação pelo som e luz, só que...
E outro exemplo é o radar ANTPS-1D da BA 12, que repousava tranquilamente a 12 metros de altura. Já se perfilava então a possibilidade de sermos atacados com os tais MIG e nas condições que o António resume. Para lhes fazer frente nada melhor que três unidades AA da II GM. Pode não se eficaz, mas é histórico.
(Continua)

António José Pereira da Costa disse...

Isto se não acontecer um ataque aéreo com qualquer teco-teco ou com um Antonov a largar bombas à mão, pela porta do fundo, sobre um pequeno quartel da periferia. Não se riam porque isto foi feito na Guiné... pelas NT. Nunca entendi aquela da contracção do dispositivo nem vejo quais as vantagens. Será que se esperava que se pudesse vir a expandi-lo? Boa táctica esta do encolher para, mais tarde, esticar...
A Kandianfara era já nossa conhecida, em 1968, assim com o Porto de Camassó (no Quitafine), mas não era atacável por estar fora do TN! Outra coisa que não entendo, mas aceito. Já noutro lugar escrevi que não houve guerra e que Portugal nunca declarou guerra a nenhuma potência estrangeira e, por isso o Senegal e a Rep. Guiné eram países contra os quais só "para gastos de casa" havia acusações.
O emprego de tropa especial naquele sector "só depois da casa roubada" causa-me apreensão. Será que o comando empenhou todas as suas reservas e não tinha nenhuma para acorrer a uma nova situação? Ou estabeleceu prioridades e só actuou no Sul de pois de ter resolvido(?) o problema do Norte.
De qualquer modo parece que ficou provado que uma boa antecipaçâo ou, no mínimo, uma resposta pronta, poderia ter resolvido os problemas no Sul, no Norte e no Leste. Assim, foi sempre que atamancada uma solução, com as consequências que se conhecem.
Tenho cada vez mais a certeza de que andaram a gozar comigo - ou connosco - durante 13 anos (11, no caso da Guiné).
Mas felizmente houve o 25 de Abril, senão teríamos outra Índia. Pior e não é difícil ver porquê. Na Índia éramos prisioneiros de um exército regular de matriz britânica. Na Guiné éramos os colonialistas, salazaristas, imperialistas e lacaios de qualquer coisa que não me ocorre, o que era um problema, já que o nosso governo era relapso a aceitar os seus falhanços e adorava heróis mortos.
Um Ab e desculpem qualquer coisinha.
António J. P. Costa

Joao Sillva disse...

Militares do timbre deste piloto aviador não tive o privilegio de encontrar e até pensava que não existiam no QP.
Talvez não agrade a muita gente mas quem esteve na guiné entre 72-74 e no teatro operacional apercebia-se à medida que o tempo avançava que "algo" estava a ser cozinhado para justificar a derrota e abandono de rabo entre as pernas do militares. E uma inverdade que ainda hoje é divulgada pelos que lá não estiveram e também por outros que foram protagonistas que a guerra estava perdida passou a ser uma verdade histórica. A guerra estava num impasse tal como começou, sem estratégia politica. Ocupando esse vazio surgem os militares, especialmente os capitães, facilmente manipulados e sem preparação são levados para a "causa". A corda roía na caserna onde era suposto estar o elo mais forte.
Especialmente a partir de 1973 por toda a província, mas especialmente em Bissau, o boato e a realidade andavam de mãos dadas. Depois do 1º Fiat ter sido abatido era dito, às claras e sem contraditório, que os pilotos se recusavam a voar, que não havia evacuação de feridos ou doentes, que Bissalanca deixara de nos apoiar. O abandono do General Spínola e a debandada do major Coutinho provocou o caos e como um baralho de cartas o dispositivo desfazia-se. E isso parecia agradar a muita gente, até de quem se esperava o contrario.
Esta é a minha leitura do que vivi na Guiné entre abril de 1972 e maio de 74, em Cabuca, 3404, Ccaç 12, Bambadinca e Xime e por fim CIM em Bolama.


João Silva, Furriel Mil. At Inf

JD disse...

Camaradas,
Já vai longa a lista de comentários, mas deixo aqui uma pérola do citado livro de Jorge Sales Golias sobre o dia 25 de Abril na Guiné, que refuta os princípios democráticos de deixar aos povos a escolha dos seus destinos: «Na Guiné não se podia protelar o reconhecimento da independência, muito menos, jogar o jogo da solução federativa, após consulta às populações. Marcou-se nova reunião para o dia 25», pag.113. O livro contém alguns erros de expressão, certamente por deficiência de revisão ao texto, mas uma afirmação desta ordem contraria, ou parece contrariar, as intenções do Programa do MFA e, nesse caso, vem dar razão aos que o catalogam de alta traição e hipocrisia.
Já antes, nas páginas 108/9, dá-se conta do recurso aos boatos e à especulação que possa justificar o golpe, quando refere; «O Otelo conhecia bem o ambiente nesta colóniae sabia da pressa em se fazer algo, antes que houvesse o tal desastre militar, semelhante ao da Índia, que estava bem na nossa memória. Muitos de nós entraram ou já estavam na Academia nesse ano de 1961 (Dezembro) e sabiam como foram tratados os nossos camaradas que passaram por essa experiência e sabiam ainda que na Guiné seria bem pior. Nino Vieira não era o humanista e pacifista que foi Jawral Nehru». Elucidativo sobre a falta de perfil de alguns militares do QP empenhados no golpe, mas que também nunca se questionaram, sobre que recursos se passaria a viver em Portugal depois da acção, e à mercê de quem ficaria o País. Hoje já se sabem algumas coisas.
JD

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camarada
Perder nem a feijões!... Hein! Aquilo 'tava no papo! Pois não se via mesmo? Não se púnhamos a pau e ganhávamos aquela m...
Não vejo qual é o problema do JD.
Se calhar a "vitória" aproximava-se a passos largos e a culpa da derrota foi dos profissionais que não souberam ver o almejar daquele dia.
Gostava que fosse feito um inquérito à opinião do blog, mesmo daqueles em 5 hipóteses e mais o NS/NR. À data do 25ABR qual era a situação táctica/estratégica?
1. 'Tava na mala!
2. 'Tava quase na mala!
3. Mais um bocadinho e 'tava quase na mala!
4. Não há hipóteses!
5. Pira-te!
6. Não sabe, não responde e tem raiva a quem sabe ou responde. Era uma boa aposta.
Estava-se num impasse. Mais um? Ainda, ao fim de 11 anos de guerra? E como sair dele? Aceitam-se sugestões.
«Na Guiné não se podia protelar o reconhecimento da independência, muito menos, jogar o jogo da solução federativa, após consulta às populações. Marcou-se nova reunião para o dia 25». Não li o livro, mas pagava para ver uma "consulta popular" em que o PAIGC fosse confrontado com outras forças "políticas" entretanto nascidas (do nada) e sob controlo de quem? Das FA portuguesas? Quem aceitaria essa solução? Os militares portugueses ansiosos pelo fim dos seus trabalhos ou os gloriosos vencedores, os guerrilheiros do PAIGC?
Os exemplos de granel político e social abundam por toda a África do tempo, caso não se recordem.
Quanto à questão da comparação com o caso da Índia já falei dela. Peço aos camarada um esforço de imaginação fundamentado no que passaram os nossos camaradas que estiveram detidos...
Tá bem? Agora imaginem isso convosco, em grande escala e sem qualquer apoio do governo de Lisboa. Só um pequeno esforço...
Um Ab.
António J. P. Costa

Luís Dias disse...

Agradeço ao Sr.General António Martins de Matos, o importante texto que trouxe para esta nossa Tabanca Grande. É, de facto, um pedaço importante da nossa história naquele território. um bem haja e mais uma vez apenas lembrar:

"Em honra de todos aqueles que palmilharam estradas, picadas e trilhos. Que atravessaram rios, bolanhas, matas serradas e savanas. Que sofreram as agruras da sede, do calor intenso, das chuvas diluvianas e das trovoadas com relâmpagos de assustar. Que com toda aquela solidão e sofrimento conseguiam ter um sorriso para as gentes das tabancas, arranjar tempo para brincar com as crianças e animar os outros camaradas. Que souberam aguentar, mesmo quando o inimigo parecia mais forte. Que apesar do cansaço das operações e das acções, sabiam serrar os dentes, beber água das poças com baba de macaco, se fosse preciso e seguir em frente.
Deixámos nas Terras Quentes e Vermelhas da Guiné muito suor, muitas lágrimas e também sangue.
Honremos todos aqueles que foram combatentes, que foram irmãos de armas, que cumpriram um dever que lhes foi imposto e que pela coragem e pela vontade demonstrada não vergaram, não deixaram ninguém para trás e dignificaram o seu nome e o seu país. Estes homens podem andar de cabeça erguida, pois merecem todo o nosso respeito."
Luís Dias in "História Resumida da CCAÇ 3491/BCAÇ3872 (Guiné 1971-74).

Jorge Canhão disse...

Tenho umas dúvidas sobre as datas que são dadas em relação às companhias presentes a meados de Junho / Julho.Quando a 3ªCª do BCaç 4612/72 de Mansoa,parte como reforço do COP 5, faz o desembarque em Gadamael (em sintex),só com o armamento individual de combate,e com a roupa que tínhamos no corpo (25/6/73),só vimos os para-quedistas e poucos mais militares. As várias vezes que saímos para o mato em operações foi com os paras.Nenhuma outra companhia estava presente( foi o que nos pareceu), aliás isso é dito em vários documentos que no quartel só tinham ficado cerca de 30 militares. Cerca de + de 200 segundo os escritos andavam refugiados nos arredores e também evacuados para Cacine. Compreende-se o que aconteceu.Em Junho e Julho ,ainda houve ataques a Gadamael, um como já anteriormente escrevi, um demorou cerca de 4 a 6 h, até acabar -4JUL73 ?(com a distancia do tempo, as datas vão-se esfumando) e só acabou depois dos Fiats terem lá ido pela segunda vez, e debaixo do fogo das anti-aéreas,terem bombardeado o tal local (Kandiafara -outra vez?). A 3ª Cª de Mansoa saiu de Gadamael a 13 de Julho de 73. Regressou a Mansoa como Cª de Intervenção do COT 9.Só uma achega, se não fosse a FA e os paras, Gadamael já era.Abraços Jorge Canhão

Anónimo disse...

1.Resumi a situação de Gadamael no período de Dez70 a Fev72 pelo que ripostar com opiniões/situações referidas a Maio de 73 não tem cabimento.

2.Como o senhor general nunca esteve no mato, em permanência, não perco tempo a dar-lhe conta do que é ser flagelado com armas pesadas ou o que é o combate de encontro.

3.Para que conste além de “saber manejo de arma, rastejar, emboscar, cavar abrigos, limpar a G-3….etc,” tenho 3 anos de mato (Angola e Guiné), em companhias de combate, além de 2.5 anos em tropas “comando”. Aprendi portanto “umas coisas”, experienciei muitas mais e daqui resulta não gostar de ler o que o senhor general escreve, recorrentemente, subestimando quando não ridicularizando, o desempenho das tropas terrestres da quadrícula.

4.Da minha parte nada mais tenho a acrescentar. Assunto encerrado.

Morais Silva
Cor artª

Vasco Pires disse...

Permita-me, Senhor Coronel, a ousadia de acrescentar ao item 3 acima,a sua capacidade de árduo trabalho e liderança, para reverter uma situação operacional e moral das nossas tropas,situação essa que o próprio Comando Chefe, duvidava ser sustentável.
Afastou o que mais tarde aconteceu em Guileje.
Assim foi em Gadamael no primeiro semestre de 71,e eu ao testemunhar faço-o com um sentimento de justiça e gratidão.
Votos de bastante saúde e sorte.
Vasco Pires
Ex-soldado de Artilharia
Cmdt.do 23 Pel. Art.

Anónimo disse...

Mais uma vez, aproveito este blogue para expressar a minha gratidão ao Comandante dos Pára-Quedistas,Tenente-Coronel Araújo e Sá (infelizmente já falecido) e seus comandados, Força Aérea (António Martins e outros) e porque não a Nossa Senhora de Fátima (mais um milagre!!!, eclipsou a 3ª Comp. Caç. 4612/72 de Gadamael, a partir do dia 30 de Junho de 1973) pois foi graças a este triunvirato, que a minha Comp. não sofreu baixas, perante o "fogo" intenso e aterrador a que estivemos expostos, nesse período.
Sem ironia e para avivar a memória, o Caop nº 1 foi deslocado para Cufar no dia 6/06/1973.
A 3ª CCaç 4612/72 seguiu a 23/06/1973 em LDG para Cacine e chegou de sintex a Gadamael no dia 25/06/1973, ficando integrada no Caop nº 5.
No dia do eclipse do sol (30/06/1973), pela madrugada, fomos brindados com morteiros pesados durante várias horas, assim como, nos dias seguintes...
Nós, tropa "macaca", tínhamos apenas um Canhão, o Jorge!!!

Bernardo Godinho

https://pt.wikipedia.org/wiki/Eclipse_solar
Eclipses totais do Sol
Dia Ano Duração
29 de Maio 1044 7m12s
20 de Junho 1955 7m08s
1 de Julho 1098 7m05s
8 de Junho 1937 7m04s
30 de Junho 1973 7m04s

Anónimo disse...

Para quando a merecida homenagem a este Homem (Araújo e Sá)?
"Guiné 63/74 - P2969: Com os páras da CCP 122 / BCP 12, no inferno de Gadamael (Carmo Vicente) (6): O grande comandante Araújo e Sá (Manuel Rebocho)"

BG