segunda-feira, 30 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16148: Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - X Parte: VI - Por Terras de Portugal (iv) : De Lisboa a Bissau no T/T Timor, de 11 a 17 de fevereiro de 1965


Lisboa > Cais da Rocha Conde Óbidos> 18 de agosto de 1965> Embarque do pessoal da CCAÇ 1426 e de outras unidades para o TO Guiné, no T/T Niassa. Ao fundo a ponte sobre o tejo ainda em construção... Será inaugurada um ano depois, em 6 de agosto de 1966.

 Foto: © Fernando Chapouto (2006). Todos os direitos reservados.




Capa do livro (inédito) "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra", da autoria de Mário Vicente [Fitas Ralhete], mais conhecido por Mário Fitas, ex-fur mil inf op esp, CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67.

Foi cofundador e é "homem grande" da Magnífica Tabanca da Linha, escritor, artesão, artista, além de nosso grã-tabanqueiro da primeira hora, alentejano de Vila Fernando, concelho de Elvas, reformado da TAP, pai de duas filhas e avô.




Lisboa > Navio da Marinha Mercante Portuguesa Timor > Navio misto (carga e passageiros), de duas hélices; construído em Inglaterra em 1950 e abatido em 1974, tinha mais de 130 metros de comprimento de fora a fora; arqueação bruta: cerca de 7,6 mil toneladas; velocidade máxima: 15 nós; 120 tripulantes; alojamentos para 4 em classe de luxo, 60 em primeira classe, 25 em terceira e 298 em terceira suplementar, no total de 387 passageiros. Armador: Companhia Nacional de Navegação. Lisboa.

Fonte: Navios Mercantes Portugueses (1996) (com a devida vénia...)


1. Continuação da publicação do cap VI - Por Terras de Portugal.... 

Sinopse: Depois de Tavira (CISMI) e de Elvas (BC 8), faz o curso de "ranger" em Lamego e é mobilizado para a Guiné. Unidade mobilizadora: RI 1, Amadora, Oeiras. Companhia: CCÇ 763 ("Nobres na Paz e na Guerra"). Parte para Bissau no T/T Timor, em 11 de fevereiro de 1965, no Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa.
Texto e foto da capa : © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados.


Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra > VI - Por Terras de Portugal: Tavira, Elvas, Lamego, Oeiras, Lisboa, Bissau> (iv)  (pp. 33-34)

por Mário Vicente [, foto à direita, março de 2016, Oitavos, Guincho, Cascais]

A dez de Fevereiro de manhã a CCAÇ [763]. desfila pelas ruas de Oeiras, prestando homenagem aos mortos da Grande Guerra no respectivo monumento. No dia seguinte embarcaria com destino a Bissau. 

Conforme tinha marcado, junta-se num bar da Baixa com alguns dos seus companheiros de viagem. Os copos
aquecem um pouco a alma. Há malta que vai dar uma volta de circuns­tância para despedida com miúdas do Bairro Alto. Chico Zé, Carlos Manuel, Jata e Vagabundo, preferem ficar bebendo. Encontrar-se-ão todos em Oeiras. O Velhinha regressa carre­gado de tabaco e passa a noite de borla. A rapariga tinha um irmão lá fora, diz. Devem ter sido uns momentos de loucura, coitada. Fazer amor e pensar no irmão na guerra, deve ter sido o orgasmo de metralhadora.

Manhã de onze de Fevereiro de 1965. António Pedro, Vagabundo, Jata, Chico Zé e restantes sargentos e furriéis à frente das suas secções aguentam-se, embora a alguns lhes saiba  a boca papel de música. A Banda do RI 1 toca o Hino Nacio­nal e marchas militares. As praxes e formalidades do costume. Presentes altas individualidades civis e militares, não faltando o Movimento Nacional Feminino, distribuindo assobios da presi­dente e alguns cigarros, com a secreta mensagem:
– Se morreres!... Que seja na paz de Deus!

Ordem de embarque. Vagabundo sobe as escadas de acesso ao navio, entra no portaló e acena para sua irmã Amália e para os familiares e conhecidos que estão mais ou menos con­centrados na varanda, em frente do cais. Começam os primeiros desmaios, os primeiros gritos e choros. Vagabundo recorda Camões, os Lusíadas, o Velho do Restelo e aflora-lhe ao pensa­mento, enquanto ouve nitidamente por entre o Povo:  «Ó glória de mandar, ó vã cobiça desta vaidade a quem chamamos fama!»

Vagabundo não foi parido para isto. Milhares de len­ços brancos aparecem qual bando de borboletas sobre o cais e do outro lado, os lenços verde amarelados dos militares respon­dem. A sirene do “Timor” dá três roncos. É o delírio em terra e no navio. As mães gritam pelos filhos, as irmãs pelos irmãos, as noivas pelos noivos, as amantes pelos amantes! É aterrador!... Entra Vagabundo, entra, porque esta merda é o princípio do fim. Tu não gostas destas coisas, pois um homem fica mole e é uma grande porra.

Entra no bar do navio e pede um whisky ao barman. O barulho lá fora é ensurdecedor. Dá o primeiro golo e saúda:
– Por ti António que me fizeste! – Segundo golo: 
– Agora por ti Francisca, que me pariste! Por ti também avô Velhote, que ficaste sem companheiro!
– Por favor, dava-me mais um!

O barman com experiência destas situações, encheu o copo e Vagabundo.  já vaporizado, voltou aos seus brindes recordações.
– Por vocês.  irmãs! Calma, tem de ser um golo maior que são duas. Outro! por ti Inha! E os tios e primos? Também, mas são tantos! E os amigos? Ainda são mais! Oh! .,
– Porrr... favorrr... " um mais – pois já gaguejava .... 

Estava mesmo grogue! Veio a poesia, e lembrou-se dum poe­ma de Matos de Sá:

"Nada mudou
podes vir
de novo e com
o mesmo nome.
Em qualquer lugar
a distância para a morte
é a mesma.
Desigual é apenas
a vida que perdemos ..."


–Tânia.  porque não? Para ti também um golo especial e grande! Finalmente por mim, assim bêbedo estou melhor. Os últimos serão sempre os primeiros, (La Palisse) como diria  Marie Luise.

A viagem corre sem problemas para o furriel, até ao terceiro dia de viagem em que por serviço é obrigado a descer ao porão onde estão acomodados os seus soldados. Indescritível!... A miscelânea de odores é horrível, derivada dos enjoos causadores de vómitos de toda a espécie. Apenas uma solução, obrigar os soldados a subir ao convés para apanharem um pouco de ar. O militar começa a aperceber-se das dificuldades que lhe surgirão.

Mário Fitas, foto da página do Facebook
A 17 de Fevereiro aporta no cais de Bissau o navio “Timor”, transportando entre muitos, a CCAÇ 763 da qual faz parte o furriel miliciano Vagabundo. Instalada em Santa Luzia no BCAÇ 600, por escala o furriel Vagabundo tem como primeiro serviço em África, sargento de dia ao batalhão. A sua secção é reforçada por uma esquadra, comandada pelo 1°. cabo Laranjeira, natural de terras do lado do Norte.
– Não há fuga possível, Tânia a tua sombra e recordação sempre me hão-de perseguir.~


O primeiro contacto com África é um pouco desagra­dável. Não estava acostumado a ver tanta gente de cor. Mesmo em frente à porta de armas, há mulheres a chamarem os milita­res. Vagabundo fica furioso, mas o cabo Laranjeira diz-lhe para não ligar.
– Não deixe é ir lá os soldados, pois vão a pé e vêm a cavalo.

Já se sabe o destino da CCAÇ 763: entrar em quadrícula no sector do Tombali, concretamente Cufar, como reforço ao BCAÇ  619 sedeado em Catió, no Sul da Província.

Para além de Carlos, um verdadeiro comandante de homens, a CCAÇ possuía um “handicap” extraordinário em ofici­ais sargentos e praças. Mas… África é outro continente, a Guiné um problema, e Cufar um quebra-cabeças.

(Continua)

1 comentário:

Tabanca Grande disse...

!Para além de Carlos, um verdadeiro comandante de homens, a CCAÇ possuía um “handicap” extraordinário em ofici­ais sargentos e praças. Mas… África é outro continente, a Guiné um problema, e Cufar um quebra-cabeças."

Mário, talvez mais à frente se perceba melhor o que queres dizer. "Handicap", habitualmente, +é usado como sinónimo de defeito, desvantagem... "tenho um handicap, vou descalço, enquanto tu corres calçado"... Referes-te à preparação ou mentalização dos oficias, sargentos e praças ?

Quanto à última frase. ela é genial: "África é outro continente, a Guiné um problema, e Cufar um quebra-cabeças."... Todos nós em diferentes lugares e épocas, ao longo da guerra, pensámos ou dissemos o mesmo...