sábado, 4 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16165: Manuscrito(s) (Luís Graça (85): Peço desculpa...

Peço desculpa...

por Luís Graça


Eu fiz o serviço militar obrigatório,
como o meu pai, e os meus avoengos...
Paguei o imposto de sangue
para ter direito a uma Pátria...


Depois do regresso a casa,
vindo da guerra da Guiné,
meia dúzia de anos depois,
talvez por volta de 1977,
lembro-me de ter escrito um poema
que rezava assim:

Eu sou devedor à Pátria,
a Pátria me está devendo,
a Pátria paga-me em vida
eu pago à Pátria em morrendo.


Peço desculpa…
Não tenho boas recordações
das guerras do império.
Só sei que não consegui defendê-lo
até à última gota do meu sangue,
como era dever do meu ministério ...

Em que repartição da Pátria
é que eu poderia apresentar
as minhas desculpas, 
mesmo que esfarrapadas ?
Ou até apresentar-me de baraço ao pescoço,
qual Egas Moniz dos anos 70 do século vinte ?

Peço desculpa,
se houve aqui um erro de casting,
ou se alguém me trocou os papéis,
no Terreiro do Paço,
ou se o império e as suas guerras
nunca existiram. 

v4, 3jun2016
_____________


Nota dp editor:

Último poste da série > 29 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16142: Manuscrito(s) (Luís Graça (84): Por que te calas, camarada ?

5 comentários:

Tabanca Grande disse...

Referindo-se aos bravos de Gadamael, e em especial aos do seu BCP 12:
O que fazia aqueles rapazes correram aqueles rsicos e suportarem tão grandes e polongados sacrificíos ? Tenho para mim que nb~
Aeo era peçla Pátra, que sentiam dostante e nada a ver com, aquiçp! Pemso quie o lhe s dava forças ewra o seuorgiulho em servirem os lparquediostas e que luitacan para pestigiuar a sua Boiba Verdde. (Jose Moura Calheiros,A última missão, 1ª ed., Lisboa, Caminhos Romanos, 2010, P. 520).

Antº Rosinha disse...

Luís Graça, abordas de uma maneira original, como já há muito nos habituas-te, este assunto da defesa do império.

Mas se devemos pedir desculpa, que penso que os que andámos lá talvez não devemos pedir desculpa a ninguém, mas se devêssemos pedir desculpa era apenas àqueles africanos que lutaram aos nosso lado, e que talvez muitos de que como tu e eu não africanos, lhe ficámos a dever o ainda estarmos vivos.

Aqui no Luisgraca, devemos contar o que vivemos e retratar o que sentimos, é assim?

E devemos acreditar uns nos outros, é assim? e não evitar qualquer contraditório, é assim?

Isto tudo para te dizer que vi-me terrivelmente constrangido a pedir desculpa, e não o fiz (pudor?, vergonha?, covardia?) por duas vezes na minha vida africana.

Uma foi em Angola, quando como retornado fiz os meus "caixotes" ainda em 1974, sem movimentos turras terem ainda entrado em Angola, e uns porta-miras que eu tinha há alguns anos, estavam incrédulos que eu me fosse embora.

E no último dia, apareceram-me se podiam ir comigo, porque "os brancos vão embora e vamos-nos matar todos una aos outros".

Ia para o Brasil, ainda hoje não sei qual foi a minha cara nem o meu comportamento, mas não me esqueço da cara deles, e ainda hoje fico sem saber o que diria se fosse hoje.

Foram muitos anos com aquela gente simples, no estado mais puro.

Outra foi na Guiné em 1980, quando apareceram as denuncias da valas comuns de comandos e régulos, contra Luís Cabral, pelo Nino.

Apareceram-me a mim e a outros portugueses, vários homens e mulheres, meio às escondidas, a relatar que viram ou o pai, ou o marido ou o irmão serem mortos pelo PAIGC, e alguns ainda mostravam fotos desses familiares com militares da metrópole.

Luís, estou convencido que essa gente vinha só com intenção de desabafar e chorar junto de alguém que os pudesse compreender.

Mas eu e outros colegas, ficávamos com uma sensação de culpa que dava vontade de chorar abraçado a eles e pedir desculpa.

Mas não o fiz.

Devia? continuo sem saber se devia pedir desculpa, mas para mim só essa gente merecia as minhas desculpas.

Mesmo aqueles que entre Tripoli e Lampedusa ou Creta, se afogam diariamente, outros Europeus que peçam desculpa a essa gente, onde naufragam africanos também da senegâmbia.

É o império a virar-se contra os imperadores

Cumprimentos









Anónimo disse...

Se houvesse lugar a pedido de desculpas(que há)as mesmas caberiam aos iluminados da DESCOLONIZAÇÃO que permitiu deixar ao abandono centenas de africanos que com ou sem farda,(militares, milícias e população) pagaram com a vida a sua lealdade a um país que também era o deles. O Rosinha refere-se que lhes devemos a vida, mais do que isso condenaram-se à morte.

JD disse...

Olá Luís, bom dia!
Também acho que frequentemente alguém nos troca os papéis. E porque essas trocas não são às claras, e o pessoal é apanhado pelas palavrinhas doces sedutoras que compõem o embrulho de oferta, só mais tarde nos damos conta daquelas trocas inopinadas.
Um abraço
JD

Tabanca Grande disse...

Caro Rosinha. caro Zé Dinis, caro anónimo (ainda vais a tempo de pôr o nome por baixo, certamente por lapso esqueceste-te de "assinar" o teu comentário):

todos fomos vítimas, das circunstâncias, da história, das nossas elites dirigentes.. Mas eu confesso que não gosto muito de me pôr nesse papel. Nós, portugueses, somos um povo dado à "vitimização" e à necessidade (quase patológica) de procurar o "bode expiatório" para os nossos erros, fracassos, derrotas...

Bons amigos e camaradas: não vale a pena ir por aí... Temos que saber dar a volta ao "fado"...Não é fácil, mas também não é saudável o exercício da autoflagelação.. Chega de carregarmos a culpa pelo "pecado original"... Todos os povos têm o seu "pecado original"... O nosso foi talvez o de nos termos feito ao mar... Podíamos ter ficado neste ractângulo de 89 mil km quadtrados a cultivar5 a leiras no norte e a fazer horticuktuar de irrigação, à volta de Lisboa, como nos ensinaram os mouros... A fome obrigou-nos a vencer o mar e `ss tantas, sem o querermos, estavávmoa s abrir a primeira autoestyrada da glçobalziação.. Foi que isso que nos tornou grandes... m,as também vulneráveis.

Não, não peço desculpa ninguém... LG