domingo, 29 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16142: Manuscrito(s) (Luís Graça (84): Por que te calas, camarada ?



Foto nº 1


Foto nº 1A

Foto nº 2

Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo >19141 > Chegada do 1º batalhão expedicionário do RI 5 (Caldas da Rainha) (foto nº 1). "23/7/1941... Na foto [, do batelão que nos levou para terra,] estou eu com mais alguns camaradas da minha companhia. No porto do Mindelo [foto nº2]  fomos entusiasticamente recebidos"].

Fotos do álbum de Luís Henriques (1920-2012), ex-1º cabo inf, mobilizado pelo RI 5 (Caldas da Rainha), expedicionário, que viria a integrar o RI 23 (Mindelo, Ilha de São Vicente, Cabo Verde, 1941/43).

Não tenho a certeza absoluta mas na foto nº 1A poderá ser o meu pai o militar assinalado com um rectângulo a amarelo.

Fotos © Luís Graça (2016). Todos os direitos reservados [Edição: LG]



Por que te calas, 
camarada ? (*)

por Luís Graça (**)
  


O meu pai, Luís Henriques (1920-2012), 
também andou "lá fora", 
no ultramar,
a defender o Império, a Pátria,
durante a II Guerra Mundial, 
em Cabo Verde, São Vicente, Mindelo, 
entre 1941 e 1943...

Cresci, fascinado, 
a folhear o seu álbum de fotografias,
que andava lá por casa, escondido, 
numa gaveta, 
entre papéis velhos...
Mas ele nunca me sentou ao colo
e me explicou, tim por tim,
por que terras e mares tinha passado,
por que é que andou a "engolir pó" 

até ficar doente dos pulmões
(dir-me-ia mais tarde),
durante 26 meses,
lá nessa terra distante, semidesértica,
enfim, não me contou as histórias desse tempo, 
do seu tempo de menino e moço,
ainda eu não era nascido...

Afinal, era eu que as tinha que adivinhar, 
fantasiar,
criar as minhas próprias histórias, 
enredos,
personagens, 
mesmo se muitas dessas fotos tivessem legendas, 
lacónicas no verso,
escritas a tinta verde,
no tempo em que o vermelho era proibido ser vermelho,
ou só se dizer "escarlate" ou "carmesim", 
por causas das coisas e das moscas...
Foi aí que aprendi a legendar:
o Monte Cara, 
o ilhéu dos pássaros,
o Porto Grande, 
os navios hospitais italianos,
o vapor Mousinho de Albuquerque, 
o tubarão, 
o macaquinho fugido da fome de Santo Antão, 
o cemitério da tropa, 
os exercícios, 
as paradas, 
as antiaéreas,
os cavalos, 
o senhor ministro das colónias,
as meninas lá da terra, as bias,
em fatinho de chita, domingueiro, de ir à missa...
Mas, como eu era puto, 
e mal sabia ler, 
e muito menos sabia de história e geografia,
não entendia nada...

Cresci, arranjei outras brincadeiras,
na rua do Castelo da minha terra,
e no largo do Convento,
fronteiro à escola,
que era o mundo que eu conhecia e pouco mais,
esqueci o álbum das fotos da tropa do meu pai,
mas não pude esquecer a guerra
que, já adolescente, aos catorzes anos,
me irá caber em sorte...

Um dia, também a mim,  tocou a vez
de ir cumprir o serviço militar obrigatório 
e de ir "defender a Pátria", 
neste caso, 
ainda mais longe, 
lá na verde e rubra Guiné, 
em plena África, 
quase trinta anos depois...
Nunca falámos, nem ele me deu conselhos: 
olha isto, olha aquilo,
cuidado com isto, cuidado com aquilo... 
Nem sequer se foi despedir de mim,
que era longe a capital do império
e mais longe a terra para onde zarpava o velho Niassa...

Por pudor, perguntar-me-ás, camarada ? 
Sim, por pudor...



Cabo Verde > Ilha de São Vicente > Mindelo > 19 de agosto de 1942 > "No dia em que fiz 22 anos, em S. Vicente, C. Verde. 19/8/1942. Luís Henriques ".



Minto: ofereceu-me umas botas,

de cano alto, 
até ao joelho,
de montar,
porque sabia que na Guiné
havia mato, com capim alto, e pântanos, e cobras...
Agradeci-lhe a ternura,
mas não as levei:
pesavam que nem chumbo!

Voltei, "são e salvo" (?), 
e continuámos sem falar, 
da tropa, 
da guerra, 
das áfricas... 
Era lá coisas que os pais falassem com os filhos
e os filhos com os pais!

Veio o 25 de abril, 
esqueci (?) a guerra, 
por um estranho sentimento de culpa, 
por pudor, 
por vergonha,
por estúpido preconceito talvez... 
Era politicamente incorreto, nesse tempo, 
falar-se da (ou até pensar-se na) 
maldita da guerra colonial, 
ou do ultramar, 
ou de África...

Passaram-se os anos 
até que, em 1980, 
comecei a interessar-me pelas minhas vivências da Guiné, 
publiquei uma série de escritos no semanário "O Jornal"... 
e por tabela fui "redescobrir" 
o velho álbum do meu pai, 
já desconjuntado. 
amarelecido, 
comido pela traça e pela humidade...

Com o blogue, 

a partir de 2004, 2005, 
começámos a ter conversas de maior "cumplicidade", 
eu e o meu pai, 
como dois bons e velhos camaradas... 
Afinal, Cabo Verde e a Guiné, ali tão perto...

Publiquei com ternura as fotos dele, 
no Mindelo, São Vicente, Cabo Verde, 
(as que restaram, ao fim de tantos anos...) 
e fiz diversos vídeos com entrevistas com ele, 
sobre esses tempos de "expedicionário"... 


Luís Graça, Bambadinca, c. 1970
Criei, no nosso blogue, uma série,
Tenho pena de, por razões de saúde, 
nunca o ter podido levar em viagem de saudade, 
de regresso, 
a São Vicente... 
Teimoso, ele nunca quis fazer uma artroplastia das ancas... 
A velhice (e o blogue) aproximou-nos
por volta dos oitenta e tal anos... 
Tarde, 
mas valeu a pena...



Provavelmente, sem o blogue, 
ele teria morrido, como morreu, 
há quatro anos atrás, 
sem eu ter sabido mais nada 
sobre os três anos e tal de vida 
que ele passou na tropa e na guerra, 
os seus medos, temores, amores, desamores,
saudades da terra e das uvas em setembro, 
as cartas que escreveu, 
centenas e centenas para os seus caramadas
que não sabiam ler nem escrever,
os versos de amor que mandou para a minha mãe,
os problemas de saúde, 
as amizades, 
as cumplicidades,
as histórias de vida daqueles homens,
abandonados no meio do Atlântico, 
em plena II Guerra Mundial,
e, mais tarde, os convívios do seu batalhão,
até que a morte os levou, um a um,
ano após ano...
Estão todos sepultados na vala comum do esquecimento...





Lourinhã > Abril de 1999 > Luís Henriques (1920-2012), com 78 anos,  e Maria da Graça (1922-2014), com 76



Espantoso, 
ouvi o meu pai, horas e dias a fio,
falar de Cabo Verde,
mas eu continuei sem nunca lhe falar da Guiné...
Acho que vou levar esta mágoa comigo
na última viagem que irei fazer,
através do rio Caronte,
o tal que, segundo os gregos antigos, 
todos os homens vão ter que atravessar um dia, 
e que só tem uma margem, 
a do lado de cá,
viagem da qual ninguém regressa,
a não ser os deuses e os heróis.

Afinal, boa pergunta: 
por que te calas, camarada ?


Lisboa, 20/4/2014 | Lourinhã, 28/5/2016


_____________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 25 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16134: (In)citações (91): "Um gajo não sabe o que foi a guerra colonial", diz Marcos Cruz, filho do Dr. Adão Cruz, um dos médicos do BCAÇ 1887 (Francisco Baptista, ex-Alf Mil)

(*) Último poste da série > 9 de maio de 2016 > Guiné 63/74 - P16067: Manuscrito(s) (Luís Graça) (83): As nossas máscaras, ontem e hoje... Apontamentos sobre o XI Festival Internacional da Máscara Ibérica (Lisboa, 6-8 de maio de 2016)


11 comentários:

Vasco Pires disse...

Calei-me,porque andei por outras terras,
onde ninguém me entenderia.
Calei-me, porque era incômodo ser rotulado de fascista.
Calei-me,para não me perguntarem porque "andei a matar pretos".
Calei-me, para não ter que explicar porque o "ditador de um pequeno País", teimava (teimou),sacrificar a juventude, numa guerra "fora do tempo".
Calei-me,porque apesar de não acreditar que "ia dilatar a Fé e o Império", assim mesmo fui.
Calei-me, porque tinha estado na "contra-mão da História".
Calei-me, porque era mais cômodo "enterrar os fantasmas da guerra"(obrigado Padrinho).
...
Forte abraço.
VP


Antº Rosinha disse...

Uns calaram-se e calam-se por não saberem explicar o que andaram a fazer por lá.

Outros calaram-se e calam-se, porque não encontram quem tenha vida para os ouvir ou «aturar».

Outros calaram-se e calam-se porque têm receio de serem insultados e maltratados.

Foram 40 anos mais 13 a forjar informação de sentido único, a nível nacional e nível europeu, que baralhou toda a gente e que deixaram sem voz muita gente...e continua.

Luís, ao menos aqui, no luísgraca procura-se ir ao fundo.

Será caso único em Portugal desde as guerras da geração do pai do Luís e mesmo da do avô, da guerra 14/18, que este reviver de memórias da guerra não se faz desta maneira.

Gritemos com o Luís Graça.

Tabanca Grande disse...

Vasco, António:

Obrigado pelos vossos comentários. A pior coisa que podem fazer a um homem, que nasceu para ser livre e com boca para falar (e ouvidos para ouvir e olhos pra ler), é mandar calá-lo.

O nosso blogue nasceu com essa (modesta) missão de pôr a malta a falar...E honra nos seja feita, temos falado, a muitas vozes... Eu gosto do canto chão, do cante alentejano, mas também gosto da polifonia, das coros polifónicos, mesmo desafinados. Não somos nem queremos ser uma orquestra sinfónica. Cada um aqui toca e canta como pode e sabe...

Mas a verddae é que, ao fim destes anos todos, também já começo a ouvir dizer: *Camarada, por que não te calas ? Essa merda da guerra já cheira mal"...

Anónimo disse...

Camarada, por que te calas ?
Eu sei porque me calo, faço-o porque são cada vez menos os que me entendem, aqueles que estiveram no mesmo sítio e no mesmo tempo - os que passaram pela mesma realidade. Mesmo alguns que andam por aqui a publicar e a comentar os escritos dos outros, apesar de terem passado pelo mesmo contexto físico e histórico, eles olham o mundo de outro modo. É estranho que muitos se agarrem às concepções políticas e socioculturais passadas como se a humanidade não estivesse sujeita à dinâmica da história : o império, os estados confessionais, as regras do feudalismo, a imobilidade social...
Um abração
Carvalho de Mampatá.

Vasco Pires disse...

Luis, já o disse e repito:
O blog,é o "último bastião" do direto de "espernear*",quando a sentença ja transitou em julgado...
*Em Latim "macarrônico",jus esperniandi...
Forte abraço.
VP

Tabanca Grande disse...

Essa aprendi contigo, a expressão jocosa "jus esperniandi", usada no meio jurídico (,mais no Brasil do que cá, não ?)... Quanto ao estatuto no blogue, bom, é a tua opinião... De qualquer modo, obrigado. Luis

Vasco Pires disse...

Continuando Luis,
Lendo o teu alerta ao arrogante "Porque não te calas?", ouso uma rápida e despretensiosa repassada na nossa História.
Após um longo e glorioso período de tolerância, com "as grossas lentes" da intolerância (e escusos interesses), demos inicio aos três séculos da "Santa Inquisição".
Será que nos libertamos desse "espíritode caça às bruxas"?
Forte abraço.
VP

Vasco Pires disse...

Para nós, que andamos a "dilatar a Fé e o Império", há um artigo (De Cabo Verde a Angola, na rota da escravatura em cinco países), que nos pode ajudar a ter uma visão alargada da nossa presença em África.
Forte abraço.
VP

Vasco Pires disse...

Onde se lê :há um artigo...
Deve ler-se: há um artigo,no Público de hoje...
Forte abraço.
VP

JD disse...

Neste fim de semana estive na Foz do Arelho, onde ocorreu um encontro de malta da C.Cap. 2679. Todos os anos ocorrem encontros, sempre muito animados e com as inevitáveis recordações e paródias. Já há mulheres que nos vão conhecendo pelo que se pode ouvir de referências a cada um, umas parodiantes, outras comportamentais, e ainda outras que referenciam sensibilidades, interesses, conhecientos, comportamentos, etc. Nesses encontros despi-mo-nos de preconceitos, brincamos uns com os outros sem a mínima mazela. "Estamos juntos".
Fora disso as manifestações de cada um serão diferentes, ora dominadas por reserevas pessoais, ora pelo desinteresse dos circunstantes, e torna-se dificil falar da guerra e de tudo quanto a ela possa dizer respeito.
Mas, não se esqueçam, éramos putos imberbes, pouco sabíamos sobre os cordelinhos que dominam o mundo e os respectivos manipuladores. Antes, eram os "fascistas" que controlavam a informação para manterem o regime; hoje, pelas mesmas razões, mas de sentido contrário, são os que nos induziram a mantê-los no poder auto-classificado de "democrático", um género de poder autocrático, em que a generalidade dos cidadãos é aliciada a votar nos seus carrascos, legitimando-os, retirando-os do circuito judiciário que entretanto se abandalhou e ficou manietado pelo interesse político. Apresentam-nos a sociedade moderna e o acesso ao consumo como uma grande conquista de um país economicamente atrasado e compulsivamente devedor.
Também por isso, os curriculas escolares omitem não só o passado colonial na parte que nos devia orgulhar, como a educação cívica e os princípios do bem comum e da prossecução do Interesse Público.
Ralvez por isso nos calamos, e também pelo medo de perdermos o que temos.
Abraços fraternos
JD

Henrique Cerqueira disse...

Camarada Luís e restantes camaradas.
É verdade que em certos momentos nos vem à mente essa celebre frase do "Porque não te calas".É verdade também que sempre que se vai a encontros com ex militares da nossa geração das guerras ultramarinas as nossas conversas são sempre as mesmas e repetitivas. É verdade também que no final desses encontros e no rescaldo das tradicionais "comezainas"e normalmente provocado pelas más digestões alguns de nós dizemos para os nossos botões:Já chega não me meto noutra.
Mas a grande verdade é que passado umas horas já estamos a desejar o próximo encontro e na maior parte das vezes todos os dias dá-mos uma espreitadela ao nosso blogue.E para quê ?Para precisamente manter este laço que nos une a todos que estivemos em certa altura da nossa vida ligados por algo que só o fim da nossa vida irá terminar.
Luís n~~ao és pessoa de se calar por dá aquela palha,mas mesmo assim não cales este nosso blogue porque mesmo havendo alturas de alguns de nós não escreverem algo que é o meu caso,mesmo assim não há dia que pelo menos não leia os cabeçalhos.
Um abraço a todos os camaradas do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.
Henrique Cerqueira