sábado, 28 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16141: In Memoriam (258): Soldado Ilídio Fidalgo Rodrigues, o "Esgota Pipas" da CCAÇ 2382, morto por um estilhaço de um projéctil IN (Manuel Traquina, ex-Fur Mil)



1. Mensagem do nosso camarada Manuel Traquina (ex-Fur Mil da CCAÇ 2382, Buba, 1968/70), com data de 17 de Maio de 2016:


Ilídio Fidalgo Rodrigues

O Infeliz “ Esgota Pipas”

Na tropa, de um modo geral todos têm um alcunha, na maior parte das vezes são chamados por esse alcunha, ou pelo número que lhee foi atribuído. Em muitos casos é pelo seu verdadeiro nome, que são menos conhecidos.

Neste caso o soldado de nome (Ilídio?) Elídio Fidalgo Rodrigues, foi ele próprio que escolheu a sua alcunha, nem mais nem menos “Esgota pipas”. Foi esta a alcunha que ele próprio escolheu.

Efectivamente, recordámo-lo na Guiné, ele gostava de beber o seu copo, a sua cerveja, porém não se poderia dizer que fosse grande bebedor! Poderemos dizer que esta alcunha, era mais uma brincadeira que outra coisa.

Era um bom rapaz, natural da zona de Palmela, considerado a figura típica da Companhia 2382, e que passou a ser conhecido por todos, pela sua simplicidade humorística, a tropa para ele não contava, cada passo que dava era por “brincadeira”.

Talvez por ser simples de mais, no aquartelamento de Buba ele foi dispensado das saídas para o ”mato”, e assim ficou como ajudante de cozinha. Mas a Guerra na Guiné era assim e, só porque a sua actividade se resumia a trabalhos auxiliares dentro do aquartelamento, não quer dizer que não corresse riscos.
Assim aconteceu na fatídica noite de 14 do mês de Fevereiro de 1969, em que o aquartelamento sofreu um dos maiores ataques.

Ao fim da tarde o soldado Ilídio ocupava-se da limpeza do refeitório quando rebentou o ataque, como habitual correu a abrigar-se na vala que circundava o refeitório, porém o infortúnio acompanhou-o e, muito perto explodiu um projéctil em que alguns estilhaços lhe atingiram seriamente um órgão vital.
Evacuado na manhã seguinte, passados dias veio a falecer no Hospital Militar de Bissau, sem tempo sequer para mais uma “laracha” com os amigos.

(Do livro “Os Tempos de Guerra - De Abrantes à Guiné” de Manuel Batista Traquina)


 Fuselagem do projéctil do inimigo que terá causado morte ao Ilídio

Alguns membros do Núcleo da Liga dos Combatentes de Pinhal Novo e da CÇaç 2382 junto à campa do infeliz Ilídio no cemitério de Palmela, por ocasião do Almoço / Convívio da Companhia que se realizou no dia 7 de maio em Fernão Ferro.
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Nota do editor

Último poste da série de 6 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16057: In Memoriam (257): José Eduardo dos Santos Alves, o "Leça" (1950-2016), ex-sold cond auto, CART 6250, Mampatá (1972/74): homenagem da Tabanca Grande

5 comentários:

Henrique Cerqueira disse...

Camarada Manuel:
Há distancia destes anos todos,não deixa de ser interessante verificar a tão grande coincidência das situações que passamos na Guiné.Senão vejamos:-Quando estive no Biambe tinha-mos de igual modo a malta com apelidos,mais ao menos engraçados e típicos e tinha-mos malta que pelo seu comportamento no dia a dia acabava por receber o seu apelido.
É então que "nasce" o apelido num militar que era cabo " O Cabo Sujo "(lamento mas já não me recordo do seu nome verdadeiro).
O "cabo sujo" era mais um daqueles indivíduos que foram para a guerra e que estavam totalmente desadequados para aquela vida (de certo modo todos nós) e então eram um simplório,bem disposto que até tinha improvisado uma guitarra com caixas da marmelada e uns fios de nylon a imitar cordas e lá ia tirando uns sons a seu modo . Era baixinho,bonacheirão. É esta a imagem que ainda tenho dele embora não pertencesse ao meu grupo.
Até que um dia o aquartelamento é atacado e como era normal a malta corria de imediato para as valas até poder reagir aos atacantes. Só que o "cabo sujo" nesse dia e talvez porque estava distraído com a sua "guitarra" de caixas de marmelada ele em vês de correr para a vala, correu para debaixo dos beliches dentro da caserna abrigo.
Estava assim escrito o final de vida do nosso "cabo sujo",pois que o raio de um estilhaço e creio eu que de projétil RPG entrou pela caserna perfurou os colchões dos beliches e foi atingir directamente o nosso "cabo sujo" tirando-lhe assim a vida simples,bonacheira e tão jovem.
Caro camarada Manuel é hoje a primeira vês que me lembro deste episódio da nossa juventude que ao longo dos anos de guerra foi tão coincidente para todos nós. E sabes fez-me bem recordar e obrigado por teres despoletado esta recordação com o teu artigo sobre o vosso "Esgota Pipas".
Um abraço.
Henrique Cerqueira

zé manel cancela disse...

Caro Traquina.Lamento imenso não ter estado convosco
este ano,mas já te apresentei a razão, tanto mais por
ter sido feita homenagem ao nosso "esgota pipas".
Para o ano,lá estarei,para vos dar a todos um abraço,de bem haja
por esta merecida homenagem.....

Tabanca Grande disse...

Manel Traquino, saúde!

Cada um de nós teve na tropa e na guerra uma história para contar. E quase todos nós tínhamos uma alcunha, dos oficiais superiores ao soldado básico. A começar pelo nosso Com-Chefe, na altura o Spínola. E todos temos o direito a conhecer a nossa alcunha e a nossa história.

Às vezes o próprio não sabia a alcunha que os camaradas (ou os subordinados) lhe chamavam. Nuns casos, era humorística, relacionada com um episódio, uma cena, um traço biográfico, a terra de nascimento, etc. Noutros casos era claramente depreciativa. Noutros ainda poderia ser interpretada como uma manifestação de ternura, de camaradagem ou até de admiração. Dependia do contexto, do grupo, etc.

No fundo, era uma forma de distinguir os Antónios, os Josés e os Maneis...

Se a maior dos nomes dos nossos camaradas já se nos varreram da memória, ao fim destes 50 anos, o mesmo acontece com as alcunhas... Ou talvez não, alcunhas como a do teu infeliz camarada, o "Esgota-pipas", não se esquecem tão facilmente com o nome ou o apelido.
Mas é importante contar a história que esteve na origem da alcunha, e outras notas biográficas. É sobretudo importante recordar os nossos mortos e as circunstâncias em que morreram. Porque são também as nossas histórias.

Ao fim destes anos todos, o Rodrigues teve uma pequena e justa homenagem, graças ao teu texto e à iniciativa dp« pessoal que se reuniu em Palmela, da CCAÇ 2382, bem como ao apoio dado pelo Núcleo de Pinhal Novo da Liga dos Combatentes. É mais um camarada que retiramos da "vala comum do esquecimento".

Bem hajas, Manuel Traquina.

Tabanca Grande disse...


alcunha | s. f.
3ª pess. sing. pres. ind. de alcunhar
2ª pess. sing. imp. de alcunhar

al·cu·nha
(árabe al-kunia, sobrenome)
substantivo feminino
Epíteto, geralmente fundado nalguma particularidade física ou moral do indivíduo ao qual ele se atribui.
Palavras relacionadas: alcunhar, sobrealcunha, epíteto, cognome, barbóneo, apelidação, sobrenome.

al·cu·nhar - Conjugar
(alcunha + -ar)
verbo transitivo
Pôr alcunha a.

"alcunha", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/DLPO/alcunha [consultado em 30-05-2016].

Tabanca Grande disse...

Quem não se lembra do célebre "major elétrico", em Bambadinca, ao tempo do BCAÇ 2852 ? Andava sempre na mecha, no seu jipe, de um lado e para o outro, dentro e fora do quartel... Dispensava o condutor!... Falo do major Ângelo da Cunha Ribeiro, 2º cmdt do BCAÇ 2852, de alcunha "o major elétrico"...

Um dia ia-se teve um grave acidente ao subir a rampa de acesso ao quartel, ia ficando esmagado no seu jipe por um desprendimento de cibes da viatura pesada que seguia à frente... Foi evacuado para Bissau, e nunca mais regressou a Bambadinca, mas escapou dessa. Voltei a vê-lo, são como um pero, em 1994, no 1º convívio do pessoal de Bambadinca, dessa época, que se realizou em Fão, Esposende.