quarta-feira, 25 de maio de 2016

Guiné 63/74 - P16134: (In)citações (91): "Um gajo não sabe o que foi a guerra colonial", diz Marcos Cruz, filho do Dr. Adão Cruz, um dos médicos do BCAÇ 1887 (Francisco Baptista, ex-Alf Mil)

1. Mensagem de 20 Maio de 2016, do nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72):


A minha filha Joana, que na adolescência me fez perguntas insistentes sobre hipotéticos perigos que eu teria passado na guerra da Guiné e eu que lhe respondia sempre que somente ouvi por vezes o som de algumas canhonadas a rebentar a quilómetros de distância, e que de resto passei lá umas agradáveis férias tropicais.

Já na passagem para a idade adulta, quando por uma ou duas leituras que lhe dei a ler neste blogue se apercebeu que passei por algumas situações de relativo perigo e convivi de perto com a morte de alguns camaradas ou feridos graves, ficou zangada e furiosa comigo e pelo menos durante quase três anos nunca mais quis ler qualquer texto meu sobre o assunto.

Hoje já mais indulgente e compreensiva enviou-me este texto do seu amigo Marcos, filho do médico Adão Cruz, nosso camarada da Guiné, que eu achei muito interessante e expressivo e que me pareceu que merecia maior divulgação.

A Guiné, para nós, foi um misto de sensações, boas e más, algumas dolorosas com um luto muito prolongado e muito difíceis de verbalizar. Muitos esperaram longos anos para se conseguirem libertar do arame farpado, das matas e bolanhas, alguns morreram sem nunca o conseguirem.
Durante muitos anos depois do meu regresso, sendo até já a Joana adolescente, lembro-me de um sonho que se repetia por muitas noites. Sonhava que voltava de novo para a Guiné e reclamava junto das chefias militares porquê outra vez, se eu já lá tinha passado lá dois anos. Não obtinha quaisquer respostas e o sonho diluía-se em solidão e silêncio.

Este ano, falei neste sonho, a três ou quatro camaradas, num convívio recente e dois deles disseram-me que tiveram sonhos idênticos. Os nossos filhos, os nossos netos que muitas vezes adivinharam a nossa tristeza envolvida no nosso silêncio, nem sempre compreenderam que não queríamos passar para eles essa mancha negra, essa mágoa, provocada pela violência da guerra quando éramos jovens. Não fomos heróis, Tínhamos entre vinte e trinta anos e uma imensa vontade de viver e ficámos chocados ao ver que essa vida, que nessa idade nos parecia eterna, era tão efémera que acabava num estilhaço de granada, numa mina ou numa bala certeira.


2. Mensagem de Joana Baptista, enviada a seu pai:

O meu amigo Marcos, filho do médico Adão(1), escreveu isto:

"Um gajo não sabe o que foi a guerra colonial. O meu pai, Adão Cruz, fartou-se de me contar histórias da comissão de serviço dele na Guiné – umas mais felizes, como a de um puto chamado Marcos que terá motivado a escolha do meu nome, ou a de um bebé que ficou Adão Doutor em homenagem ao médico que lhe desenrascou o parto, e outras menos, como a de um amigo a quem ele não conseguiu tirar a ideia de se arriscar no mato, debaixo de tiros, para apanhar uma galinha e cozinhá-la à cafreal e que chegou, pela mão de outros militares, todo furado, ou a de um colega que lhe morreu nos braços – mas pouco mais pude fazer com elas do que imaginar, especular, fantasiar. 

É exactamente o que a minha filha faz. 

A tantos anos de distância, ela pergunta-me coisas a que não sei dar resposta, como se eu tivesse vivido aquilo. No próximo sábado, dia 21, avô e neta vão a um almoço-reunião do que resta da Companhia 1547, e eu estou para ver o que a baixinha traz de lá. Entretanto, escreve o meu pai: 
- “Muitos já partiram. Os que restam não vão apenas dar um abraço esporádico, mas garantir com a sua presença, a despeito das vidas de cada um terem seguido caminhos muito diversos, o abraço perene e permanente, sabe-se lá porquê, com que nos mantivemos ligados até hoje, ao fim de meio século. 

Eu próprio sinto que não é apenas um abraço de braços, mas um abraço de alma vivida com profunda intensidade, o abraço de uma parte da vida aprisionada dentro e fora do arame farpado, que de tal forma explodiu no futuro que ainda hoje nos reúne, para alguns com muita dificuldade. É verdade, faz 50 anos que desembarcámos do velho navio Uíge, no cais de Bissau, sob um calor escaldante, para uma aventura que custou a vida a muitos dos nossos saudosos colegas”.

Aqui fica uma fotografia dele, em boa companhia:"

Dr. Adão Cruz, ex-Alf Mil (?) Médico do BCAÇ 1887
____________

Notas do editor

(1) - O nosso camarada Domingos Santos, (ex-Alf Mil da CCAÇ 1546/BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68), no seu poste de 15 de junho de 2013 Guiné 63/74 - P11706: Os nossos médicos (48): O BCAÇ 1887 (1966/68) tinham três médicos, mas a minha CCAÇ 1546 não chegou a ter nenhum em permanência... Um deles era o dr.João Gomes Pedro, mais tarde ilustre pediatra no Hospital de Santa Maria e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (Domingos Gonçalves), a certa altura escrevia:
[...]
(vi) Os três médicos pertencentes ao batalhão a que pertenci eram os seguintes: (a) Dr. João C. Gomes Pedro. Penso que na altura era, ainda, clínico geral. Foi, quando passou à vida civil, - e continua a ser -, um insígne professor de pediatra [no Hospital de Santa Maria e na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa]. Como pessoa, apenas posso referir que era um homem excepcional. (b) Os outros dois médicos chamavam-se: Carlos Alberto, um, e Adão, outro.
[...]

Último poste da série de 9 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16070: (In)citações (90): Colonização versus descolonização - fenómeno de aculturações inter-raciais (José Manuel Matos Dinis, ex-Fur Mil da CCAÇ 2679)

9 comentários:

Anónimo disse...

Caro Francisco Baptista

De facto deve ser uma grande verdade que a maioria dos combatentes nada transmitiram ou muito superficialmente daquilo que passaram na guerra.
Por mim também respondo. Nunca os meus familiares, e não só, ouviram uma palavra da minha boca sobre a minha comissão na Guiné, até a minha "abertura" após a entrada neste Blogue.
Assim a minha esposa deixou este mundo sem saber o motivo de certas reacções "esquisitas", para ela, quando me irritava por baterem as portas de certa forma ou fecharem o frigorífico sem ser silenciosamente, durante os primeiros anos do regresso.
E nos dias de festas, com os foguetes...Ainda, já muito recentemente, quando passaram a usar os lançamentos de fogo de artifício sem ser por foguete, mas tipo morteiro, houve um click no cérebro...e um certo retesar dos músculos corporais.
Só passei a contar e a falar da Guiné aos meus filhos e netos portanto depois de 2008, ou seja 36 anos após o meu regresso.

Abraço
JPicado

Vasco Pires disse...

Caríssimos FB/JP,
Cordiais saudações.
Quando leio depoimentos como estes,sempre me pergunto porque ficamos "entupidos" come essas vivências da guerra.
A quase certeza de que não seriamos compreendidos?
Um certo receio de de sermos taxados de mentirosos, como o são amiúde os pescadores e ex-combatentes?
O certo e que a maioria de nós, ficou "esgasgado" com as emoções, durante décadas.
Forte abraço.
VP

Vasco Pires disse...

Onde se lê come, leia-se com.

Antº Rosinha disse...

"A quase certeza de que não seriamos compreendidos?"

VP, não é "quase" diz antes "absoluta certeza".

A campanha anti-colonial foi tão intensa, intencionalmente, nacional e internacionalmente, só para justificar as carnificinas que se iam seguir em Angola, Moçambique e Guiné, que era uma vergonha para os últimos barcos de tropa, desembarcarem fardados e muito menos com armas.

Conheci e conheço ex-soldados do último UIGE da Guiné, que me contaram que deitaram as fardas ao mar e alguns a própria arma, para ao chegar a Lisboa ninguém os identificar como tropas do Ultramar.

Ainda hoje, 42 anos passados, falo com retornados que me mandam calar, "aqui na minha rua, ninguém sabe que sou retornado".

VP, havia outra intenção em condenar aqueles que foram para África "matar pretos".

Era ilibar os "meninos bem", os "meninos intelectuais", os "meninos super dotados" em que alguns os paisinhos até estavam encostados ao Estado Novo, e precisavam estudar em Paris, tocar piano e falar francês, e iam fazer muita falta para vir a governar isto.

E eles sim, ficarem como os "heróis".

Aprofundemos, já que não temos mais que fazer!

Tabanca Grande disse...

Por que nos calamos ? O tema tem sido aqui debatido... Vd. por exemplo:


20 DE ABRIL DE 2014
Guiné 63/74 - P13010: 10º aniversário do nosso blogue (13): falar ou não falar, da guerra, aos nossos filhos... A alguns de nós foi o blogue que nos tirou a "rolha" (Luís Graça / Jorge Cabral / Vasco Pires / Antº Rosinha / António J. Pereira da Costa / Henrique Cerqueira / Manuel Reis)


https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2014/04/fwd-p13010-10-aniversario-do-nosso.html

Anónimo disse...




No 10º aniversário do blogue, por razões pessoais, familiares ou outras que já esqueci, não me senti motivado para falar sobre esse tema, agora porque a minha filha Joana o trouxe à baila, ao enviar-me o texto do amigo Marcos senti vontade ou necessidade de o fazer.
As nossas experiências, as nossas vivências, as nossas personalidades são diferentes e cada um tem a sua forma e o seu tempo de se exprimir. Na família do Marcos e do doutor Adão Cruz a nossa passagem pela Guiné teve sempre um tratamento mais aberto do que na minha. No fundo foi esta comparação que quiz aprofundar.
Sobre a pergunta do Vasco Pires a que o António Rosinha responde, eu entendo que na família próxima seriamos compreendidos, mas falando da minha experiência pessoal, confesso que eu não gostava de falar sobre esse assunto.
Um abraço. Francisco Baptista

JD disse...

Bom dia Francisco e restantes Camaradas,
Que bela surpresa a que nos trazes hoje: as incógnitas que pairam sobre alguns (poucos) dos nossos filhos, sobre a nossa participação na guerra de África. Eu próprio pouco falei desse assunto, porque não encontrei interesse da parte dos meus filhos, mesmo quando o meu filho ainda pensou entrar para a Escola Naval e a implícita carreira militar.
Mas a questão parece radicar no argumento apresentado pelo Rosinha. De facto, construíu-se a ideia de que os portugueses foram horríveis colonos, e de que os milicianos mobilizados para a guerra teriam participado em actos repugnantes. Quer dizer, tudo junto, entre colonos e militares, quem passou por África teria regressado com uma terrível mancha que urgia eliminar.
Tudo isto, que era argumento dos oposicionistas que de Paris e Argel, onde viviam com as dificuldades próprias de "heróis" adulados, e combatiam esses ócios com a verbalização condenatória da nossa presença em África, enquanto, quais abutres, afiavam as garras à primeira oportunidade para alcançarem o poder, tiveram-na com o tolerado 25A, de onde se destacaram inúmeros heróis, que, maioritariamente, durante as suas comissões africanas, fugiam do mato e de acompanhar as tropas que diziam comandar nas acções que pudessem sugerir perigo bélico.
Dessa vergonhosa e traiçoeira comunhão de interesses, resultou o proclamado estado "democrático" que nos desgoverna há 42 e dois anos, e tudo o que o antecedeu tem sido varrido para a lixeira histórica sob a catalogação de fascismo. Quer dizer, para justificação das arbitrariedades carecidas de justificação, todos nós fomos colaboradores do fascismo, e devemos estar muito agradecidos com o fim da guerra e a oportunidade de regularmente depositarmos votos que legitimam a ditadura que nos governa e nos consome com impostos directos e indirectos, tão necessários a proverem o grande banquetre de uma minoria de incompetentes e salafrários.
Faço votos de que os nossos filhos saibam pôr alguma ordem no futuro do país, mas ainda vejo muitos a serem encaminhados pelas "juventudes" que só servem para perpetuarem o grande bacanal instalado. Quanto é que isso nos vai custar, não sei responder, mas a conta vai ser bastante pesada e os políticos já terão acautelado esses dias de sacrificios e penúria.
Um grande abraço para ti, que te tenho na conta de um bom camarada, e que não nos falte a capacidade para denunciar as tramóias com que nos lixam há tanto tempo.
Abraços fraternos
JD

Tabanca Grande disse...

Francisco: Tens aqui uma entrevista ainda recente (2014), do dr. Adão Cruz, médico cardiologista, poeta e pintor, ao semanário Labor:

http://www.labor.pt/noticia.asp?idEdicao=417&id=21088&idSeccao=4306&Action=noticia

(...) Fez-se médico e andou seis anos a calcorrear montes e vales de Vale de Cambra e da região, numa altura em que a medicina transitava para a era moderna. “Foi a minha grande escola de medicina”, comenta. Chamado para a guerra colonial, esteve destacado na Guiné durante dois anos. Nesse período, o jovem médico, que já levava de Portugal sentimentos antifascistas e anticolonialistas, despertou a consciência social e política. Assistiu à exploração dos agricultores, fez-se amigo dos nativos e até hoje troca correspondência com alguns. (...)

Anónimo disse...

Amigos e camaradas,
Emigrei para os EUA poucos meses após o meu regresso da Guiné. Neste País americano, durante as comemoraçöes do Indepemdence Day, assisti ao primeiro grande desfile cívico e no qual participaram muitos veteranos. Os americano batiam-lhe palmas, davam-lhes louvores, agradeciam-lhes os seus sacrifícios. Eu também bati palmas enquanto o coração chorava.
Passados todos estes anos continuo a fazer o mesmo, muito embora compreenda que no meu querido País muita coisa está a mudar em relação aos combatentes do Ultramar. Mas também é verdade que muito do que tem sido feito se deve ao facto de termos deixado de ter medo de falar das nossas experiências, das nossas amizades.
Aqui, nesta Tabanca, falamos uma linguagem que todos compreendem. Isso é bom, é o escapoe de muitos anos fechados ns nossas recordações.
Abraço transatlântico.
José Câmara