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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28451: Retalhos da vida militar (14): A (des) Vantagem de ter duas Especialidades (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 14 de Outubro de 2026:


A (des) Vantagem de ter duas Especialidades

Durante a especialidade de Transmissões e de Condutor Auto, após ter terminado a recruta no CICA 4 em Coimbra, (Centro de Instrução de Condução Auto), que teve lugar na Unidade de Caçadores 5 em Campolide, Lisboa, a indefinição da nova especialidade manteve-se. O espaço onde hoje se situa o Campus de Justiça, era pertença do Trem Auto que tinha a sua sede na Avenida de Berna. Os futuros soldados de Transmissões Condutores Auto iam ter instrução de condução a partir desse espaço que era contíguo ao Quartel de Caçadores 5.

Tratava-se de uma companhia de Instrução comandada pelo então Capitão Carlos Fabião que mais tarde veio a ser Governador Geral da Guiné.

Os instruendos que só tinham a especialidade de transmissões ficavam em Caçadores 5. Como só tinham uma especialidade foram todos para 1.ºs Cabos. Era assim, era assim e bico calado.

Durante a instrução de condução aconteceram vários episódios, mas apenas vou mencionar dois.

Primeiro Caso: Ao fundo da Rua de Campolide que fazia parte do circuito autorizado para instrução de novos condutores, existia ao tempo um Laboratório. O instrutor pediu ao instruendo para parar e fazer marcha atrás. Até aqui tudo bem, só que aparece de frente um trabalhador desse mesmo Laboratório que terá demorado mais um pouco a deixar as criancinhas na creche, e resolve tentar passar por trás da Morris que estava a fazer o movimento de recuar, para estacionar. Claro que levou uma trancada. Parece não haver dúvida em relação ao executante que cometeu uma Manobra Perigosa.

Segundo Caso: Do equipamento dispensado para os instruendos fazerem a sua aprendizagem fazia parte uma GMC, que a todos metia medo. Tinha o volante do lado direito e para endireitar um palmo era preciso dar duas voltas ao volante.

Numa manhã de instrução num percurso onde até já tinha havido uma corrida de automóveis com a participação de Filipe Nogueira, passa por nós a alta velocidade um carro topo de gama.

As condições de ocupação da via não permitiam velocidade tão excessiva pelo que o instrutor de serviço fez comentários que não foram do agrado dos ocupantes da viatura em causa. Como alguém diria. Chamou-lhe tudo menos Bom Rapaz.

Quando a viatura apressada parou e sai do seu interior um senhor Coronel fardado com galões e tudo o pavimento estremeceu um pouquito.

Em 1964 ainda continuava em vigor a lei do Senhor General Fernando Santos Costa publicada para acabar com os acidentes com veículos militares, que atribuía a culpa sempre ao condutor militar.

Terminada a especialidade(s) quatro dos prontos foram enviados para o RI 11 em Setúbal, que era uma unidade pertencente à Região Militar de Lisboa. Pela minha parte o meu destino era Castelo Branco, mas como o Senhor Primeiro Sargento era meu amigo consegui uma troca em que só um dos intervenientes teve conhecimento.

Em Setúbal, três dos recém-chegados faziam serviço de telefonistas e o Artur foi colocado numa arrecadação, onde estava instalado um rádio muito antigo que pertencia a uma rede da Região Militar de Lisboa. As instalações no interior da unidade eram uma espécie de aldeia de João Franco em Mafra. A tarefa era duas vezes por dia, de segunda a sexta, às 8 e às 18, responder a uma espécie de “Sentinela Alerta”. Todo o tempo restante era disponibilidade. O ambiente na Unidade era muito bom. O rancho tinha uma excelente característica: dia sim dia sim o jantar era caldeirada de peixe.

Desde que o Vitória não perdesse o Primeiro Carretas era do melhor que se podia ter. Falava muito à moda de Setúbal com o “rr” muito mal pronunciado. Era viva o “Vitóguia” em vez de Viva o Vitória. Deixava-me vir de fim semana à sexta-feira o que me permitia fazer dois dias de trabalho para o meu patrão de Lisboa.

Estava ao tempo no RI 11 um Aspirante da área de transmissões que tinha sido vítima de acidente de Viação e tinha ficado com várias sequelas, entre elas uma relacionada com a fala.

A um canto do barracão que servia de garagem estava estacionada uma viatura tipo Ramona que teria vindo da primeira Guerra Mundial, onde estava colocado um rádio muito antigo. A viatura tinha o volante do lado direito, não tinha manutenção nem revisão, mas andava. O rádio também funcionava.

O Senhor Aspirante, talvez para aumentar o curriculum e levando à letra a especialidade, “Transmissões e Condutor Auto” convenceu-me a irmos com a viatura até à Serra da Arrábida para fazermos alguns ensaios de transmissões.

De regresso a Setúbal, descendo a Serra da Arrábida, a antena de cobre com alguns três metros de altura obrigava, para não bater nas árvores que se podia partir, a circular mais junto ao eixo da via. Ao chegar ao Outão ainda na descida, aparece de frente um Autocarro de Serviço Público de Passageiros que nos jogou em cima com quantas luzes e buzinas tinha ao seu dispor. Eu apanhei um susto monumental, o Senhor Aspirante, cujo nome por delicadeza não indico, ainda ficou um pouquito mais gago.

Estava ao tempo em Setúbal um Cabo Readmitido, conhecido na gíria militar como “Cabo Xico”, usava divisas iguais às dos Cabos Milicianos, futuros Furriéis Milicianos.

O Senhor Cabo Santos era altamente respeitado, fazia a chamada não pelo número, mas pelo nome, era convocado para as reuniões de Oficiais, o que deixava o Primeiro Sargento Carretas, e o Segundo Sargento Ameixa à beira de um ataque de nervos. Terminou a sua Licenciatura em Direito em 1964.

O Senhor Aspirante fez uma segunda tentativa de saída, mas desta vez para maiores distâncias, com a qual eu não concordava pelo perigo que envolvia. Eu não tinha nenhuma prática, o que aumentava o risco, a apetência também não era brilhante.

O Senhor Cabo Santos funcionava como Advogado de Serviço e ajudou-me a elaborar a justificação para a minha recusa em não querer colaborar com saídas que poderiam por em risco a vida de terceiros.

O Senhor Cabo Santos foi convidado a aceitar uma graduação em Tenente com promoção a Capitão do Quadro Permanente logo que indigitado para Comandante de uma Companhia com destino ao Ultramar. Não aceitou e terminou a sua Carreira Militar.

A distância entre os vários postos da carreira militar, não me parece algo de mensurável, mas com toda a confiança posso afirmar de que essa distância era bem maior no Continente do que era no Ultramar.

O Artur entrou de férias no início de dezembro e a meio do mês foi informado de que havia sido mobilizado para a Guiné.

Fui a Setúbal buscar a trouxa, despedir-me de alguns amigos e fui apresentar-me no Regimento de Artilharia Ligeira (RAL 1) em Lisboa ao então Capitão Garcia Leandro, que fez o favor de me colocar de Serviço na noite de Natal de 1964 e também na noite de início do ano de 1965.

Como diz o Povo, “Ano Novo vida nova”, começou também aqui uma nova etapa da minha vida, como militar.

Artur Conceição
SPM 2578

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Nota do editor

Último post da série de 13 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28433: Retalhos da vida militar (13): O último quartel da minha Comissão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28433: Retalhos da vida militar (13): O último quartel da minha Comissão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 4 de Outubro de 2026:


O último quartel da minha Comissão

Cinco tostões eram metade de um escudo. Cinco tostões também conhecidos por uma quinhenta davam para comprar uma dose tremoços, ou uma malga de camarinhas ou uma malga de cabras.

Os CTT tinham dois tipos de correspondência, a carta que tinha de ser selada e também o chamado bilhete postal.

O bilhete postal custava exactamente cinco tostões.
Como herdei da minha mãe o vicio pela leitura, quando tinha por volta dos 13/14 anos sempre que tinha cinco tostões disponíveis,  escrevia um postal para uma qualquer embaixada de um qualquer país dizendo que gostava de visitar esse país e queria que me mandassem alguns mapas.

Recebia, via correio,  muitos envelopes com mapas e literatura sobre muitos temas de ordem geográfica. A partir dessa leitura fui adquirindo muitos conhecimentos em termos de Geografia Física de muitos países. O Canadá, a Itália e a França iam mandando sempre, mesmo sem um segundo pedido.

A conversa era sempre a mesma, e a morada das embaixadas era em Lisboa. Eu tinha apenas a quarta classe e os conhecimentos em termos de relações diplomáticas entre países não abundavam. Eu sabia que existia um país chamado Hungria cuja capital era Budapeste, mas não sabia que não tinha relações diplomáticas com Portugal, após ter sido invadido pela então URSS em 1956.

Eu estava a trabalhar em Arrancada do Vouga onde já existiam algumas fábricas que davam trabalho a muitas pessoas. Um dia mandei também um postal para a Embaixada da Hungria. Recebi o postal de volta com a indicação de que a Hungria não tinha relações diplomáticas com Portugal.

Passados alguns dias vieram dizer-me que andavam dois homens à minha procura para me levarem. Não dei qualquer importância e entendi que era mais uma daquelas coisas que se diziam aos meninos e meninas para os assustar. "Não te portas bem, vem aí um cigano e leva-te". Só bastante mais tarde quase na fase de adulto percebi o que tinha acontecido em Arrancada do Vouga e quem eram os dois homens que me queriam levar. Queriam lebre apareceu-lhes um ratito do mato.

Já depois de estar em Lisboa e durante algum tempo a trabalhar na Zona de Alcântara,  comecei a tomar conhecimento de realidades que eu tinha dificuldade em entender. Por uma distância de aproximadamente 30 metros,  não fui testemunha presencial da morte de José Dias Coelho. 

Durante toda a minha infância e juventude sempre estive ligado à Igreja. Com 6 anos já me davam 2 tostões para eu dizer a confissão em latim. Saber a confissão em latim era uma condição necessária para se poder ajudar à missa.

Fui catequista e convivi com muitos sacerdotes entre eles, os padres Aleixo Cordeiro, Felicidade Alves e bastante mais com o senhor Padre Brotero. Sabia que o senhor Padre Brotero havia sido obrigado a fugir para Marrocos por causa de uma queixa apresentada ao Patriarcado. Era comentado de que as relações entre o senhor padre Felicidade Alves e o mais alto magistrado da Nação não eram famosas. 

Do mesmo modo também se sabia na comunidade que as relações entre o senhor Professor André Navarro e o senhor Padre Brotero não eram propriamente as melhores. O senhor padre Brotero dava tudo o que podia aos pobres das barracas da Avenida de Ceuta ao ponto de nem lençóis ter na cama para receber a visita de um médico. O Senhor Professor André Navarro era pai de 10 filhos, mas tinha uma criada para tomar conta de cada um dos filhos.

O largo de Alcântara e também o largo do Calvário eram lugares bastante complicados em função da existência de muitas centenas de operários. Era também o local por onde entravam todos os trabalhadores pertencentes à classe dos Estivadores.

Vim a saber, só durante o ano de 1966 em Bissau, que um popular engraxador com a alcunha de bolinhas era um perigoso informador da PIDE.

No largo de Alcântara trabalhavam de forma pacífica muitos vendedores ambulantes. Aqui também trabalhavam mulas e cavalos trajados com o seu avental do Atlético Clube de Portugal.

Um dia, a Rita peixeira travou-se de razões com um polícia de serviço. Puxou de um peixe espada e contra uma pistola, não deixou seus créditos em mãos alheios. O senhor polícia teve de ir para o Hospital para tratar dos ferimentos no rosto.

Naqueles tempos os mercados, também conhecidos por praças estavam abertos aos domingos de manhã. A Praça de Campo de Ourique, bairro rico de Lisboa, era famosa pela quantidade de raparigas que vinham do Alto Minho e das Beiras servir para Lisboa. Eram empregadas domésticas,  vulgarmente conhecidas por “Sopeiras”. No domingo depois da missa era quase obrigatório fazer uma visita ao Mercado de Campo de Ourique. Ia eu acompanhado do meu compadre Alcides, a quem ia a contar a estória da Rita e do polícia que tinha ocorrido na véspera.

Como bom militar, terei usado algumas expressões muito militarizadas às quais dois indivíduos que iam ao nosso lado não terão achado graça. Fui agarrado por um braço e levado para um gabinete existente no próprio Mercado. Identificaram-me como militar em Caçadores 5 e mandaram-me ir de imediato para o Quartel. Como era meu entendimento de que militar não recebe ordens civil, decidi não cumprir a ordem de regresso à Unidade Militar. Passados poucos minutos já vinham de novo atrás de mim, pelo que a alternativa foi mesmo a de abandonar o local.

Durante a Primavera do ano de 1963 teve lugar em Lisboa o grande encontro da Juventude. A maioria dos participantes vieram das aldeias do interior pelo que na sua maioria eram membros da JAC (Juventude Agrária Católica). No ano seguinte (1964) Lisboa recebeu a visita de Monsenhor Joseph Cardijn, um Belga fundador da JOC. Da recepção fazia parte uma Missa Campal junto ao Monumento a Cristo Rei em Almada seguida de um desfile até ao Campo do Almadense onde teriam lugar outras Cerimónias relacionadas com a visita. Eu era membro da JOC, mas apenas na sua componente religiosa e nem me passava pela cabeça que em simultâneo também existisse uma componente política.

Terminada a Missa Campal e quando tudo estava pronto para ser dado início ao desfile, surge-nos pela frente uma manada de cavalos e respectivas montadas, militares da GNR que não nos deixaram avançar. 

Do meio da uma enorme assistência surge o Senhor Primeiro Sargento da minha Companhia em Caçadores 5. Ao conhecer-me e ao ver-me de braçadeira vermelha tal qual a usada pelo senhor Oficial Dia exclamou: - Em que é que tu andas metido? Após algumas explicações quem tinha mandado a GNR terá percebido que as coisas não eram tão graves quanto eles imaginavam. 

O desfile correu normalmente e só voltou a haver alguma agitação quando foi evocada e aplaudida uma representação da JOC da Hungria com quem Portugal não tinha relações. Os Húngaros não entraram em Portugal vindos directamente da Hungria, entraram em Portugal integrados na Delegação de Espanha. A partir deste episódio as minhas relações com o senhor Primeiro Sargento da Companhia passaram a ser relações bastante amistosas e que ajudaram muito na minha ida para Setúbal, depois de terminadas as especialidades.
Entre Mansoa e Mansabá fica uma localidade chamada Cutia onde durante a guerra aconteceu um desastre. Nas referências sobre Cutia não há nada anterior a 1967, mas recordo muito bem que se tratou de uma situação bastante complicada. Durante esse ataque as comunicações militares não funcionaram. Desconheço se por falta de capacidade ou problemas de acesso.

Estas foram as causas próximas que levaram à criação de um protocolo de apoio junto da PIDE.

Quis o destino que ao fim de 18 meses de Guiné, o Artur estivesse a cumprir as suas funções militares nas instalações da PIDE.

Foram mais 6 meses de Guiné, mas que foram muito bem passados, em contraste com os outros 18. Trabalhei bastante, de forma voluntária, mas nunca fiz nenhum serviço militar. Tudo o que era dito na Rádio Moscovo e na Rádio Argel era gravado e passado a limpo em máquina de escrever no dia seguinte. As relações de trabalho e amizade com os senhores da PIDE eram brilhantes e eu não me importava nada de fazer muita coisa para os ajudar ajudando-me a mim também. Vinham ostras de São Domingos, vinham frangos e cabritos de Nhacra, vinham camarões de Quinhamel, mas vinham também muitas outras coisas de muitos outros lados. Quando o turno tinha início às 16 horas havia taina pela certa.

Fui convidado para ficar na PIDE, mas isso não estava nos meus objectivos e como tal declinei o convite.

No ano de 1967 entrei para os quadros da Função Pública, fiz juramento de activo repúdio pelo Comunismo e todas as ideias subversivas, tal como a tomada de posse o exigia, e fiquei definitivamente vacinado.

Artur Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578

(revisão / fixação de tecto, links: LG)

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28409: Retalhos da vida militar (12): Os que ficaram e viveram as partidas (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)


1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 9 de Setembro de 2026:

Boa tarde meu caro Carlos Vinhal,
Mais um pequeno texto que escrevi.
As cartas a Garcia ainda aguardam a sua vez?

Um grande Abraço com votos de muita saúde.
Artur António da Conceição



Os que ficaram e viveram as partidas

A frente da retaguarda

O tema partidas e chegadas não tem sido muito utilizado pelos muitos que enviam as suas vivências para o Blogue.

Cheguei a Lisboa no dia 6 de agosto de 1959 e fiquei a morar no bairro da Ajuda. A freguesia da Ajuda era e ainda é uma zona de muitos quartéis. Lá existe a Rua dos Quartéis, e a Travessa de Cima dos Quartéis. A partir do ano de 1961 esta zona passou a ser uma zona abundantemente frequentada por militares cujo destino era Angola. Para apoio a estas unidades militares foi adicionado o espaço da antiga cordoaria na Rua Junqueira de onde partiram os primeiros Batalhões com destino a Angola. Os embarques tinham lugar em Alcântara e na Rocha do Conde de Óbidos. Eram momentos muito emocionantes e dramáticos para os envolvidos.

Foi neste espaço de tempo que surgiu a célebre frase do Dr. Oliveira Salazar. Para Angola Já…! E em força...!

O último batalhão que terá passado pela Cordoaria terá deixado o espaço inabitável com a sua manifestação de protesto. Pelas ruas ouvia-se o sussurro de “Angola é nossa…”, “Angola é nossa...”.

Um amigo da minha aldeia veio ter comigo a Lisboa a pedir para o levar ao Quartel de Infantaria 1 para onde tinha sido recrutado, ao tempo localizado na Amadora. Quando ao fim de um mês o fui procurar, já o amigo João estava em Angola a defender a Fazenda Tentativa.

O objectivo primeiro de mais este pequeno retalho é deixar uma homenagem a todos aqueles, em especial às mães, que tanto sofreram, que não pegaram em armas para defender os ideais da Pátria, mas que na retaguarda sofreram bem mais do que nós. Éramos jovens, tínhamos uma maneira diferente de encarar a realidade que se nos deparava, alternamos momentos de sofrimento com bons momentos que ainda hoje recordamos com saudade. Somos pais, alguns são avós e isso leva-nos facilmente a compreender esse sofrimento de ansiedade permanente. Aqueles que nos viram partir e que carinhosamente nos receberam, merecem que nos curvamos em sua memória.

Sou pai de uma filha e avô de um neto a caminho dos 19 anos. Não consigo imaginar-me a assistir a uma despedida do meu neto a caminho de uma Guerra como foi a Guerra do Ultramar pela qual todos nós passámos.

Aconteceram situações de tal maneira chocantes que marcaram muitas pessoas para o resto da sua vida.

Permitam-me que recorde apenas duas que também me marcaram.

Uma esposa faz uma viagem de Lisboa a Bissau, para ir ao encontro do seu marido. Uma vez na Guiné, faz mais uma viagem até Farim. O seu marido estava a comandar a Companhia que estava sediada no chamado K3 que ficava a três quilómetros de Farim, mas bem dentro da mata do Oio. Para chegar mais depressa à margem esquerda do Rio Cacheu o marido, ansioso para abraçar a sua esposa, pede ao condutor para ser ele a conduzir. A meio do percurso uma mina anticarro atira pelos ares os ocupantes da viatura.

Esta ocorrência vitimou o marido que vinha ao encontro da sua esposa. O condutor teve ferimentos ligeiros. Ninguém foge ao seu destino.

Esta enorme tragédia que terá deixado de luto duas famílias, teve lugar num espaço que eu percorri sozinho para me encontrar com um conterrâneo que estava na Companhia que estava a construir o acampamento do K3.

Uma segunda situação muito menos marcante, mas de algum modo chocante e relacionada com as mães que tanto sofreram.

No dia 5 de janeiro do ano de 1996, uma colega de trabalho comunica-me telefonicamente de que não iria comparecer ao serviço porque tinha falecido a sua tia, mãe do seu primo falecido em Angola. O seu primo era o Alferes Manuel Luís Kágado, natural de Évora.

Fui consultar a minha lista dos mortos na Guerra, e verifico que esta mãe faleceu no mesmo dia em que o seu filho tinha sido morto. O Alferes Kágado foi morto em combate em Angola no dia 5 de janeiro, igualmente numa sexta-feira, do ano de 1968.

Assiste-se a algumas queixas de falta de reconhecimento por parte dos Governos presentes depois de terminada a Guerra. Convém não esquecer de que a atitude dos Governos tem estado na mesma linha do reconhecimento dos antigos combatentes para com os seus antepassados.

Foi anunciado, faz poucos dias, uma homenagem às mães, que irá ter lugar na Escola Secundária de Sacavém no dia 17 de outubro. Concordo plenamente com a iniciativa, embora a considere bastante tardia. Como se diz em bom português, “Vale mais tarde que nunca”.

Os militares mobilizados tinham direito a 10 dias de férias para se irem despedir do pai, da mãe, dos irmãos, da namorada, alguns da esposa e restante família que muitos deles não voltariam a ver.

Recorde-se um altar que fica do lado direito da porta de entrada para a Capela dos Ossos no Convento de São Francisco na cidade de Évora, onde não havia espaço para mais fotos de militares que ao tempo se encontravam em cenários de guerra.

A compreensão para com determinadas situações nem sempre era a mais recomendada. Na CART 730 estava um soldado natural de Peniche que era pescador na vida civil. Não tinha grandes habilitações literárias, mas era detentor de muita cultura. Era corajoso e destemido o que não agradava muito ao comandante da Companhia. Era casado e foi pai já depois de estar na Guiné. Como tinha direito a Abono de Família mandou ir a certidão de nascimento do filho que não conhecia. Quando se dirigiu à Secretaria para entregar a Certidão de Nascimento ouviu uma frase que não me atrevo sequer a transcrever.

O amigo Peniche que não era de temperamento fácil perdeu o seu poder de encaixe, fez asneira e acabou por ser punido com pena de prisão disciplinar.

No contexto de partidas e chegadas o Artur foi um sortudo. Estava em Lisboa quando foi mobilizado e para a família estar em Lisboa ou na Guiné não era uma diferença significativa. Namorada também não tinha.

Embarquei no cais de Alcântara subindo sozinho a escadaria do Timor com uma enorme carga de anginas e um frio de rachar. Ia de tal maneira maltratado que quando cheguei ao cimo da escada houve um Oficial que me disse: - Vais para a guerra nesse estado… Vai, mas é para casa.

A bordo do Timor seguiu também as Companhias 763 e 762, onde ia integrado o nosso camarada Furriel Mário Fitas. Eram as primeiras companhias a partir com farda camuflada. Por essa razão recebem a designação de Periquitos.

Depois de estar na Guiné também tive direito a algumas Madrinhas de Guerra. Uma delas era Governanta em casa de uma Alta Individualidade. Era a senhora D. Amélia, que já não era propriamente uma teenager, mas que me enviou vários livros. Recebi, enviados por ela toda a coleção do Padre alemão Tihamer Toth, para além de muitos outros.

Como tive de ficar mais seis meses na Guiné, mandei por um amigo da terra, uma mala cheia de livros.

Durante todo o tempo de Serviço Militar fui ouvindo sempre os queixumes dos camaradas de armas muitos dos quais não se me aplicavam, mas nem por isso deixava de os sentir, mas de uma maneira bastante diferente.

Assisti muito recentemente, durante um almoço de antigos combatentes da Guiné, em que um dos presentes na mesma mesa, já com 83 anos, não conteve as lágrimas ao recordar a presença dos seus pais durante a sua partida para a Guiné.

A perda de familiares durante a ausência, era bastante dolorosa, mas não havia nada que permitisse ultrapassar a situação.

Quando em 9 de fevereiro de 1967 entrei no Uíge, encontrei logo um velho colega de trabalho e amigo que fazia parte da tripulação. Era o cozinheiro da Messe dos Oficiais Maquinistas do Barco. Durante toda a viagem de regresso nunca compareci no refeitório.

O desembarque teve lugar no cais de Alcântara no dia 14 de fevereiro, dia dos namorados. Tal como na partida também à chegada não estava ninguém à minha espera que eu desse por isso.

Apenas uma nota final: durante o meu tempo de Serviço Militar, nasceram os meus três irmãos mais novos. A produção era excelente.

Artur António da Conceição
SPM 2578

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Nota do editor

Último post da série de 29 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28387: Retalhos da vida militar (11): Levar a carta a Garcia (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28395: (Ex)citações (449): A velha placa que terá estado colocada em Mansoa (Artur Conceição, CART 730)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 30 de Setembro de 2026:

Bom dia de trabalho Caríssimo Carlos Vinhal,
Por entender ser demasiado grande para incluir em Comentários decidi criar o texto que envio à consideração.

Um grande abraço com votos de muita saúde
Artur António da Connceição



A velha Placa que terá estado colocada em Mansoa

A placa é bonita e o prémio está muito bem entregue
A localidade que se encontra a 48 km de Bissau de acordo com as medições actuais é a localidade de Binar como podemos observar na figura abaixo.
Na velha placa que será anterior a 1965, atendendo à farda usada pelos dois militares, indica a localidade de Bambadinca a 85 Km. Como pode ser verificado na figura a seguir a distância foi reduzida em 13 Km.
A distância entre Mansoa e Encheia passou de 18 para 44 Km como pode
A distância entre Mansoa e Bissau foi aumentada em 12 Km, como pode ser verificado na figura abaixo.
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Notas do editor

Vd. post de 29 de Setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28386: Para bom observador, meia palavra basta (8): qual a povoação, no sector oeste do CTIG, que ficava a 93 km de Bafatá, a leste?

Último post da série de 15 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28349: (Ex)citações (448): Os Antigos Combatentes e os medicamentos. O desastre do Rio Zambeze, em Moçambique, no dia 21 de Junho de 1969 (Artur Conceição, CART 730)

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28387: Retalhos da vida militar (11): Levar a carta a Garcia (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 23 de Setembro de 2026:


Levar a carta a Garcia

A expressão "levar a carta a Garcia" significa cumprir uma missão difícil ou impossível com eficácia, iniciativa e sem hesitação, superando todos os obstáculos. Terá sido isto que me aconteceu quando fui mobilizado para o Comando Territorial Independente da Guiné, CTIG.

Um dos meus três patrões civis era o Senhor GARCIA. Dos três era o mais mau de aturar e como se isso não bastasse era pai de um filho com uma deficiência psíquica que também gostava de mandar. 

Fui mobilizado e vim com guia de marcha para o RAL 1, em Lisboa, para me apresentar ao senhor Capitão GARCIA Leandro. Embarquei a 11 de fevereiro de 1965, a bordo Navio Timor, cheguei a Bissau a 17 e logo que houve coluna militar com destino a Bissorã lá parti para me apresentar ao Senhor Comandante da CART 730 Capitão Amaro Rodrigues GARCIA.

 Passado cerca de mês e meio estava em consulta externa em Brá. Era norma o pessoal de transmissões em consulta externa irem fazer turnos ao Quartel General.

Também me calharam uns quantos turnos onde ficava às ordens do Senhor Capitão GARCIA dos Santos.

Senhor Capitão Garcia dos Santos tinha sempre a porta do seu Gabinete aberta. Sempre que aparecia um novato também chamado de maçarico,  era-lhe feito o batismo. A missão era levar algo ao senhor Capitão. O senhor Capitão não respondia à pergunta que o maçarico lhe fazia.

Dá licença meu Capitão? E ficava à espera da resposta que não vinha. Então a tarefa dava para o turno interno. Com o Senhor Capitão Garcia dos Santos era assim. Fazia a pergunta e entrava-se de imediato. Se o senhor Capitão não pudesse atender de imediato,  o que raramente acontecia, respondia, aguarda um minuto ou coisa parecida.

Todos sabemos que a expressão “Levar a carta a Garcia” tem outra origem, mas em meu entender esta também não ficava mal aplicada.

Voltando um pouco atrás também o senhor Capitão Garcia Leandro tinha uma caraterística muito especial, que era a de entender que todos os soldados eram provenientes das obras ou do sector agrícola. Na escala de serviço havia uma tarefa designada por Brigada da Pedra. O senhor Capitão andava a fazer uma vala com mais de 100 metros de comprimento com um metro de profundidade e 50 cm de largura. Para a Brigada da Pedra eram escalados apenas os soldados. Este senhor Capitão Garcia Leandro que já tinha chegado ao Posto de Capitão ainda não tinha percebido de que a origem social de Cabos e Soldados era mais ou menos a mesma.

No dia em que entrei na escala da Brigada da Pedra, o meu colega de brigada perguntou-me se eu queria usar a pá ou a picareta, respondi que queria a pá, quando ele acabou o trabalho de picareta, eu disse-lhe que havia mudado de ideias, toma lá a pá e dá cá a picareta. Quando o meu colega de brigada percebeu que tinha de fazer tudo sozinho foi fazer queixa, e com toda a razão. O castigo foi: Guarda ou Piquete todos os dias, por me ter recusado a trabalhar de pedreiro. Já tinha trabalhado em muitas profissões, mas de pedreiro nunca tinha experimentado.

Ao contrário do que havia acontecido em Setúbal, na Guiné ninguém se terá apercebido da segunda especialidade de condutor auto. Logo na primeira saída deram-me um PRC10 e um “carregador” para transportar o rádio.

Em Jumbembem havia um Unimog adaptado e todo revestido com chapa de bidons e sacos de areia e com uma cobertura feita também de chapas de bidons. Este Unimog também chamado de “Palucha” tinha atribuído um condutor que ou era o Alberto ou o Pato. Nas colunas dominicais para ir a Farim levar a correspondência emitida, a “Palucha” ficava às ordens do pelotão que ficava junto ao Rio Lamel a manter a segurança. Este serviço salvo muito rara exceção cabia ao Artur.

Sempre que era o terceiro pelotão a ficar a fazer segurança, o Alferes Crespo refugiava-se dentro da “palucha” onde ouvíamos o programa Música na Estrada, programa de discos pedidos emitido pela Emissora Nacional. Para sintonizar a Emissora Nacional, o Unimog tinha de estar no local exacto, isto queria dizer que a sintonia cabia também ao condutor da “palucha”. Um metro mais atrás ou mais à frente fazia toda a diferença. Com o Alberto, “O pachorras” da Companhia, a coisa era fácil. Com o Pato era mais difícil a sintonia. O Alberto era de tal maneira calmo que um domingo em que não ia a conduzir a “palucha”, mas sim um Unimog, pregou um susto à rapaziada.

A velocidade entre Jumbembem e o Rio Lamel era nos limites. A estrada tinha a picagem feita porque a CART 732 vinha sempre à frente. A dado momento o amigo Alberto despista-se, entra pela mata dentro com os ocupantes todos aos gritos foi sempre conseguindo desviar-se de todas as árvores que lhe apareceram pela frente. Quando conseguiu parar o Unimog, meteu a marcha atrás e fez questão de voltar a entrar na picada no mesmo sítio onde tinha saído.

Para além do um enorme “cagaço”, não aconteceu mais nada.

Para terminar quero apenas deixar um bem-haja ao senhor Alferes João José Andrade Crespo pela amizade. Tantas foram as vezes que passou pelo Posto de Rádio e disse: Artur quando tiveres uma aberta passa pela Cantina.

Os radiotelegrafistas e os radiotelegrafistas condutor auto, eram tratados como radiotelegrafistas. Da mesma maneira também os Transmissões Condutor auto eram tratados como transmissões. 

Os radiotelegrafistas eram 1.ºs cabos e tinham direito ao celebre prémio de especialidade, os soldados tinham só os 400 pesos. Os premiados pagavam o azeite para regar a salada que era caro como caraças.

Um grande Abraço para aqueles que ainda o possam receber, com muita amizade. E não se esqueçam! Vamos tornar o blogue do Luis Graça e Camaradas da Guiné cada vez mais novo com os cada vez mais velhos. Reajam porra…! Porra não carago…! que eu sou do Norte.

Artur Conceição
SPM 2578

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Nota do editor

Último post da série de 22 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28369: Retalhos da vida militar (10): As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28369: Retalhos da vida militar (10): As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

Guiné > Região do Oio > Jumbembem > CART 730 (1965/67) > Estes eram meninos de Jumbembem que eu gostava de ensinar.
Foto: © Artur Conceição


1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 9 de Setembro de 2026:


As galinhas que eram tão poucas que quase provocavam uma indigestão

Tendo em conta vários factores, este episódio terá acontecido em novembro de 1965 em Jumbembem. A CART 730 chegou à Guiné em outubro do ano de 1964. Era prática ao fim de um ano de Guiné vir de férias à Metrópole. Esta prática não era uma prática geral, mas era prática para Oficiais e Sargentos. Para as praças era muito rara, era quase exclusiva para os contemplados com o chamado Prémio do Governador Geral da Guiné, atribuído por actos valorosos de alguns militares.

O comandante da CART 730, Amaro Rodrigues Garcia, encontrava-se de férias na Metrópole e o comando da CART 730 estava entregue ao Alferes Francisco Miranda Ferreira, que penso que tal como o Alferes Orlando Valdez já terá falecido, por ser o mais antigo dos oficiais presentes. Tinha sido o dia mensal da ida a Farim para buscar os mantimentos para o mês. Acontece que, por acaso, naquele mês vinham algumas galinhas que não ultrapassariam a dúzia. Perante quantidade tão reduzida não faria muito sentindo irem para o rancho geral das praças.

Assim foi decidido por quem tinha poderes para o acto, de que as galinhas iriam ser consumidas nas Messes dos Oficiais e dos Sargentos.

Quando as Praças tiveram conhecimento da decisão que havia sido tomada, resolveram apresentar o seu protesto.

Ao final da tarde, já depois de todas as galinhas terem regressado ao seu poleiro, resolveram saltar para cima dos Unimogs e durante mais de uma hora fizeram uma serenata junto das Messes. Para o efeito foi utilizada a música e letra de uma canção muito usada ao tempo e que era cantada pelo Conjunto de António Mafra.

Ho senhora Marquinhas olhe que suas galinhas fugiram do capoeiro.
Ho senhora Marquinhas cuidado com as suas galinhas porque o meu galo é solteiro

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O Alferes Francisco Ferreira, sobre quem caía toda a contestação, refugiou-se no Posto de Rádio e aguardou que os ânimos se acalmassem.

O Alferes Ferreira era uma excelente joia de pessoa e toda a Companhia gostava muito dele. No dia seguinte tudo tinha passado e as galinhas foram consumidas de forma pacífica.

Toda a Companhia tinha muita consideração pelo Alferes Chico Ferreira, mas confesso que tive pena dele quando o vi perante uma situação que não era de perto nem de longe invejável.

Quero deixar aqui mais uma memória que eu encontrei.

O nome do criador deste espaço tem a afinidade com o meu nome. Senão vejamos:
O nome Luís Henriques Graça, filho do Henrique e da Graça tem alguma afinidade com:

O nome Artur António da Conceição, filho do António e da Conceição.

O meu padrinho, Hipólito Fernandes Nogueira, que já vai a caminho dos 95, que esteve prisioneiro na Índia, ainda hoje quando vê o seu primeiro afilhado que adquiriu logo aos 10 anos, ainda exclama, olha o Artur do António e da Conceição!

Artur António da Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578
Diácono das praças da CART 730
Em 7-9-2026

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Nota do editor

Último post da série de 8 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28332: Retalhos da vida militar (9): Couves para a Ceia de Consoada (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28332: Retalhos da vida militar (9): Couves para a Ceia de Consoada (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)


Guiné > Região do Oio > Jumbembém > CART 730 (1965/67) > Artur Conceição, o hortelão na sua horta onde se gabava de cultivar os melhores tomates e alfaces do CTIG.


1.
Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 30 de Agosto de 2026:



Couves para a Ceia  de Consoada


Numa cerimónia de divulgação de um livro, escrito por um dos nossos camaradas, que teve lugar no Bairro Grandela em Benfica, ouvi uma frase daquelas que nunca mais se esquecem.

Um dos presentes afirmou, para quem quis escutar, de que nos Natais da Guiné nunca faltaram couves para acompanhar o bacalhau e as batatas na Ceia de Natal. Ele próprio teria passado a véspera de Natal dentro de uma avioneta a distribuir couves por todos os aquartelamentos da Guiné.

No Natal do ano de 1965 passado em Jumbembem, penso que ninguém se terá preocupado muito com a existência ou não das couves para a ceia da consoada.

Tomate e alface eram a minha especialidade e também a minha praia e penso nunca ter deixado créditos em mãos alheias. Batatas eu sei que não valia a pena semear/plantar porque elas trepavam pelas árvores acima procurando um lugar para colocar os frutos.

Em elação às couves, percebi no Natal de 1966 a razão porque não tinha comido couves no Natal do ano anterior, e a resposta é muito simples. Não houve couves porque ninguém as plantou, nem alguém as lá foi levar.

Jumbembem era terra fértil, onde numa pequena bolanha se produzia arroz. Na zona mais enxuta era produzido com grande êxito milho, abóboras e amendoim.

Do lado direito da estrada que ligava o Quartel General ao Hospital Militar 241, ficava sediada a Granja Agrícola de Bissau, onde eram produzidas couves portuguesas de muito elevada categoria. Fui convidado para uma visita e fiquei admirado com aquilo que vi.

Não nasci no Alentejo, mas também me serve a carapuça mencionada nesta anedota.

No meio de uma grande herdade alentejana estava um grupo de trabalhadores agrícolas, aos quais dois regentes agrícolas perguntaram:

- Este terreno é bom para milho?
- Não, não dá nada!
- E é bom para trigo?
- Não, não dá nada!
- E é bom para girassol?
- Não, não dá nada!
- Mas já semearam?
- Não, isso ainda não fizemos!

Quando o Artur pediu semente de alface e semente de tomateiro, porque não pediu também sementes de muitos outros produtos hortícolas? E o nosso camarada piloto que andou a distribuir couves na véspera de Natal pelos aquartelamentos da Guiné, porque não foi dois meses antes distribuir “pranta” e cada Companhia, que as plantasse e regasse para ter couves com fartura para a noite de consoada.

Não morro de amores por couves, preferindo antes admirar uma boa horta cheia de novidades fresquinhas.

Tanto os alentejanos como os beirões só percebiam de alface e tomate.

Os meus saberes em termos de agricultura e culinária são bastante limitados, embora tenha alguns muito especiais como descrevo nos exemplos a seguir:

Saberes (e sabores):

- Deem-me uma tonelada de azeitona e digam-me onde fica o lagar de fazer azeite e eu devolvo todo o azeite que a azeitona der;

- Deem-me uma cabeça de porco, uma ou duas chouriças, um bocadinho de presunto, uma malga de feijão de luar, uma ou duas cenouras, uma couve lombarda ou coração de boi e eu devolvo uma feijoada como nunca se viu;

- Deem-me um alqueire de milho, digam-me onde fica o moinho, parado e à espera que eu chegue, e eu prometo que devolvo um alqueire de farinha;

- Deem-me 60 metros quadrados de terra fértil e uma malga de linhaça e prometo que coordeno todas as tarefas até a toalha de Linho chegar ao altar;

- Mas se me derem dez metros de tecido de lã para levar ao Pisão, então podem ficar com a certeza de que serão entregues os dez metros de tecido tal como foram recebidos. Nunca vi tal coisa a trabalhar. Só sei, que tal como o moinho também é movido a água.

Artur Conceição
SPM 2578

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Nota do editor

Último post da série de 25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28291: Retalhos da vida militar (8): Prémios de especialidade (Artur Conceição)

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28291: Retalhos da vida militar (8): Prémios de especialidade (Artur Conceição)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 21 de Agosto de 2026:


Prémios de especialidade

Os condutores dos veículos militares com destino à guerra em África recebiam formação adequada nos chamados CICA e CIACA.

A quarta incorporação de 1963 no CICA 4 em Coimbra não foi destinada a condutores, mas antes a outras especialidades, com uma complementar de condução.

Terminada a recruta no final do ano de 1963, uma parte dos incorporados foi enviada para Caçadores 5 em Lisboa, para tirar a especialidade de Transmissões de Infantaria, um outro grupo foi enviado para o Entroncamento, para tirar a especialidade de Ponteneiros. Condutor Auto e finalmente um grupo mais reduzido, enviado para o Trem Auto para tirar a especialidade de Auxiliar de Serviços Religiosos. Era este último grupo que eu deveria ter escolhido, tendo em conta que era só preciso dizer que sabia ajudar à missa, como era o meu caso. Optei por Transmissões, mas acredito que debaixo da Sotaina do Capelão sempre era menos arriscado. Nem o Capelão nem o seu auxiliar tinham viatura atribuída. Então qual era a razão desta segunda especialidade de condutor auto que até dava a garantia de um posto 1.º Cabo? Quem puder que explique.

Quando o Capelão ia na sua missão para Jumbembem, o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC tratavam dessa missão. Ao grupo que foi para a especialidade de Transmissões de Infantaria Condutor Auto, veio juntar-se um grupo de reprovados da Especialidade de Radiotelegrafistas, realizado em Tancos.

Esta Companhia de Instrução tinha como Comandante o Capitão Carlos Fabião que mais tarde viria a ser Governador da Guiné.

A meio da especialidade falou-se da escolha para frequentar a Escola de Cabos. No final da especialidade os reprovados de Tancos ficaram todos 1.º Cabo de Transmissões de Infantaria e os restantes, Soldados de Transmissões de Infantaria Condutor Auto (STICA).

Concluída a especialidade foram distribuídos por várias unidades, tendo cabido ao Regimento de Infantaria 11 de Setúbal quatro elementos a saber: O Artur 2712/63, o Morato 2714/63, o Adolfo 2716/63 e o Manuel 2720/63.


Por ocasião do São Martinho do ano de 1964, o Morato resolve fazer um disparate e é punido com 10 dias de prisão disciplinar. A pena acabou por ser alterada para 20 dias de prisão disciplinar agravada que tinha como pena acessória uma mobilização imediata. A CART 730 tinha partido para a Guiné com algumas faltas na secção de transmissões. Quem vai para a Guiné fazer companhia ao Morato? Seria o Adolfo. O Morato tinha um Tio Coronel que não conseguiu evitar a mobilização, mas conseguiu arranjar maneira de o sobrinho não ir para zona de conflito. Assim o Morato foi passar dois anos férias a São Tomé e Príncipe. O Adolfo arranjou maneira de ser amparo de mãe e o Manuel ofereceu-se para ir para a Guiné no lugar dele. E agora quem vai para a Guiné fazer companhia ao Manuel. Esta é a história de como se ia parar na Guiné por culpa de terceiros.

Em 1964, a 2.ª incorporação do CICA 2 na Figueira da Foz enviou para o Porto um grupo para dar origem aos primeiros e últimos Radiotelegrafistas Condutor Auto.

Dessa recente especialidade a CART 730 também tinha dois, embora um deles, o Manuel Carvalho só lá tenha estado dois meses.

A secção de transmissões da CART 730 era composta por:
- Um Furriel natural da Ilha da Madeira, que aparecia uma vez por semana, que era o CMDT da secção.

- Um 1.º cabo operador cripto
- Um 1.º cabo de transmissões de infantaria
- Dois 1.ºs cabos radiotelegrafistas
- Um 1.º cabo radiotelegrafista condutor auto
- Dois soldados de transmissões de infantaria condutor auto (STICA)

O prémio de especialidade era algo que não fazia parte das conversas do dia-a-dia. Era recebido por três 1ºs cabos com a especialidade de radiotelegrafistas. O facto de não ser falado nem criar qualquer tipo de mal-estar entre o grupo, não lhe tira o caracter de injustiça adjacente. O grupo era unido e muito colaborante. Se os apelidos ajudam... um dos elementos do grupo era LEAL Matias e outro era LEAL Chagas.

O prémio era recebido pelos radiotelegrafistas, mas uma coisa pode e deve ficar clara. Nunca foi emitida nem recebida qualquer mensagem em grafia durante todo o tempo em que a CART 730 esteve sediada em Jumbembem.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas. Foto e Legenda: © Artur Conceição

Aprendi e treinei a transmissão em grafia durante os últimos seis meses de comissão enquanto estive na PIDE. Os radiotelegrafistas da PIDE permitiam, mas era preciso que o recetor não desse o recado, que consistia: “Essa tarefa é feita com as mãos não é com os pés”. Era fundamental uma boa concentração e acima de tudo um ouvido apurado.

A conceção deste prémio não era famosa e como tal estava envolta em algumas injustiças sendo algumas mais flagrantes do que outras.

Os condutores auto rodas como eram designados não tinham direito a tal prémio. O 1.º cabo auxiliar de enfermagem tinha direito e muito bem. Neste caso concreto o que não estava bem era, o soldado maqueiro não ter igualmente direito. Para quem participou em situações de feridos, sabe muito bem qual era a missão de cada uma destas especialidades.

Durante os 24 meses de comissão nunca recebi mais do que os 400 pesos que me estavam destinados.

Canjambari era um local onde estava sediado um pelotão independente. As condições eram degradantes e muito penosas para os militares ali sediados.

Decidiram as altas patentes do sector de Farim e arredores que passaria a haver uma alternância com um pelotão da CART 730, permitindo assim ao Pelotão de Canjambari vir mês sim mês não a Jumbembem recuperar energias. Esta nova situação implicava algumas adaptações nalgumas áreas nomeadamente na Secção de Transmissões.

À partida havia dois elementos que estavam isentos de ir para Canjambari, sendo um deles o “Fininho” 1.º cabo operador cripto a quem o estatuto relacionado com a especialidade não permitia exercer a sua actividade em estrutura abaixo de Companhia. O segundo caso era o Artur que por via das muitas tarefas extras exercidas não lhe era permitido sair de Jumbembem. Canjambari recebia e emitia mensagens via rádio que tinham de ser codificadas e descodificadas. No final da comissão todos os elementos da secção eram capazes de executar essa tarefa.

Para terminar permitam-me uma pequena história para tema dos nossos camaradas que adoram a Banda Desenhada. Recordo a todos que a Cidade da Amadora é a Capital Portuguesa da Banda Desenhada.

Para além dos guarda costas, havia também alguns soldados com missões específicas conhecidas de todos.
Uma dessas missões era fazer-se acompanhar de um isqueiro, uma caixa fósforos ou algo que pudesse lançar fogo de uma maneira rápida.
Terminada uma operação a um objectivo, o Garcia diz para o “incendiário” fogo nisso. Isso eram meia dúzia de moranças abandonadas pelos nativos.
Obedecendo à ordem recebida, o nosso camarada puxa da G3 e dispara uma rajada contra a inofensiva morança.

O Garcia que tinha alguma dificuldade em aceitar este tipo de maus entendimentos enfia-lhe um merecido par de estalos que quase iam dando fagulhas.

Existe assim para primeira mão uma outra história relacionada com um nosso camarada, que no final de um assalto a uma Casa de Mato, se fazia acompanhar de um burro transportando uma máquina de costura quase em estado novo.

Mais uma vez o Garcia deve ter tido um descontrolo emocional. Prega dois tiros no pobre do burro que não tinha nenhuma culpa do que se estava passar. Que pena não haver alguém por perto para enfiar dois bufardos no Garcia.

Deixo o mote para o nosso camarada Furriel João Parreira que conhece muito bem esta história, para que nos possa brindar com mais alguns pormenores que ele tão bem conhece.

Um Abraço
Artur Conceição
STICA 2712/63

SPM 2578
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Nota do editor

Último post da série de 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28207: Retalhos da vida militar (7): A minha ida para o serviço militar obrigatório (Artur Conceição)

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28207: Retalhos da vida militar (7): A minha ida para o serviço militar obrigatório (Artur Conceição)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 21 de Julho de 2026:

Boa tarde amigos e Camaradas Editores
Um pequeno texto para recordar.

O meu Grande Abraço
Com votos de muita saúde para todos
Artur António da Conceição



A minha ida para o serviço militar obrigatório

A minha ida para cumprimento do serviço militar obrigatório não me retirou hábitos de trabalho, diria mesmo que talvez por uma questão relacionada com o sistema nervoso, terá dado o seu contributo.

Durante vários meses do ano de 1964, enquanto estive no Regimento de Infantaria 11 na cidade de Setúbal, tinha a missão de atender às 8 e às 18 horas uma chamada via rádio relacionada com a segurança da Região Militar.

Como tinha muito tempo disponível, durante o dia ia trabalhar para o Conselho Directivo, onde havia sempre muita coisa para fazer.
Guiné > Região do Oio > Jumbembém > CART 730 (1965/67) > Artur Conceição, o hortelão na sua horta onde se gabava de cultivar os melhores tomates e alfaces do CTIG.

Durante os dois anos de estadia na Guiné e no tempo de Jumbembem fazia a escala de serviço da qual fazia parte, fazia a manutenção das baterias, fazia os autos de destruição, fazia a requisição de material, fazia a gestão de stocks e ainda tinha tempo para tratar da horta de onde vinha o tomate e a alface para a salada destinada à secção de transmissões e para a Messe de Oficiais.

Permitam-me que aqui recorde, com a mesma amizade e admiração, dois dos Furriéis mais “malandros” e da mesma forma os dois mais “trabalhadores”.

Começando pelos dois com que não era possível contar com eles, para fazer qualquer coisa de jeito temos:

O Furriel de Manutenção Auto, Ilídio Barros dos Reis. Um grande abraço.
O Furriel de Transmissões, Higino José Gama Passos, que era natural da Ilha da Madeira. Um grande abraço meu Furriel.

Agora os dois que inventavam algo para ocuparem os seus tempos livres.

O Furriel José Joaquim Nunes da Venda, atirador.
O Furriel Amadeu Júlio Neves Cruz, atirador.

Os restantes jogavam à lerpa durante os seus tempos livres, onde se obtinham lucros que davam para uma viagem à Metrópole. O meu abraço para todos.

Permitam-me agora um especial realce para o Senhor Furriel Amadeu Cruz.

Sendo atirador, desempenhou com a mais elevada competência, a função de Vaguemestre durante muito tempo da sua estadia em Jumbembem.

Encontrei-o em 1973 como gerente de uma loja de uma famosa marca de móveis em Lisboa. “Móveis Baía”.

Encontrei-o mais uma vez num almoço do Batalhão 733, que teve lugar na Cidade de Lagos no Algarve.

Ao aproveitar para enaltecer as qualidades do Amigo Amadeu Cruz, tive como resposta palavras que nunca mais esquecerei.

- Enquanto estive a cumprir o serviço militar senti-me sempre em serviço. Enquanto estou em serviço não bebo. Daí que durante todo o tempo que estive na tropa nunca apanhei uma bebedeira.

De todos os Sargentos e Oficiais da CART 730, todos nascidos em 1943 ou antes, só tenho conhecimento do falecimento do Furriel Vira, natural de Setúbal. Descansa em PAZ.

Damaia, 16 de julho, 2026
Artur Conceição

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Nota do editor

Último post da série de 16 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28187: Retalhos da vida militar (6): História da Pista de aterragem de Jumbembem (Artur Conceição, ex-Soldado TRMS)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28187: Retalhos da vida militar (6): História da Pista de aterragem de Jumbembem (Artur Conceição, ex-Soldado TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 13 de Julho de 2026:

Boa tarde amigos e Camaradas Editores.

Como não tenho Quintal, nem Horta, nem Apiário tenho de contentar-me com os meus hábitos matinais de ligar o computador, consultar a meteorologia, ver as gordas do dia, dar uma espreitada ao blogue e verificar com vai a conta bancária, não vá o diabo tecê-las… Gato escaldado da água fria tem medo.

Escrevi algumas linhas sobre a famosa pista para aeronaves em Jumbembem que envio em anexo.
Escrevi também algumas linhas sobre um tema que serviu de mote para o primeiro.
Estou por cá a tentar cumprir com as indicações do Luís Graça. Vamos correr com o Alemão.

O meu Grande Abraço
Muita saúde para todos
Artur António da Connceição



História da Pista de aterragem de Jumbembem

Sendo a Guiné uma região plana tem e sempre teve excelentes condições para a criação de pistas de aterragem para qualquer tipo de aeronaves.
Jumbembem não fugia à regra e tinha condições excelentes para a criação de uma pista de aterragem.

A CART 730, enquanto sediada em Jumbembem, sempre recebeu a sua correspondência largada do Céu, a partir de uma avioneta, por não haver uma pista para aterragem.
As condições geográficas eram boas, havia tempo até de sobra, mas faltou sempre a boa vontade para levar a obra para diante.

Chegou a estar em Jumbembem uma máquina de terraplanagem para proceder à criação da tão almejada pista de aterragem. Essa máquina era manobrada por um 1.º Cabo pertencente à Engenharia sediada em Brá na cidade de Bissau.

A CART 730 enquanto esteve em Jumbembem dispunha de Messe para Oficiais, Messe para Sargentos e Rancho Geral. O 1.º Cabo, Operador de Máquinas considerando que como tinha de trabalhar oito horas por dia, pediu para que as suas refeições tivessem lugar na Messe de Sargentos. Tal não lhe foi concedido, mas logo na primeira oportunidade o nosso 1.º Cabo montou-se na máquina foi embora.

A dada altura o Senhor Comandante da CART 730, Capitão Amaro Rodrigues Garcia não comprou uma “cabritinha”, mas sim uma cabra adulta, que trazia consigo dois filhotes. O objectivo era passar a haver leite para o pequeno almoço na Messe de Oficiais. A cabra mãe e os filhotes pernoitavam em espaços separados e só tinham direito a mama depois de a cabra ser mugida para tirar o leite para a Messe de Oficiais. O cozinheiro da Messe, que era quem mugia a cabra logo pela manhã, quando foi para buscar os filhotes verificou que um deles havia desaparecido durante a noite.

O cozinheiro da Messe teve de dar conhecimento ao Senhor Capitão. Iniciadas as primeiras averiguações para saber o que se tinha passado, verificou-se ao fim de algumas horas de que tinha havido furto. Havia na Companhia um grupo de Alentejanos especialistas em petiscadas muito boas que logo se tornou suspeito. Feita uma minuciosa pesquisa na caserna foi encontrado, já sem vida, o cabritinho dentro de um caixote de guardar farda, mas que tinha ficado com o rabo de fora. Descoberto o crime e os criminosos, procedeu-se ao julgamento e leitura da sentença.

A sentença foi a seguinte: Tinham direito a comer o cabrito, mas como castigo teriam de derrubar 12 árvores na zona onde iria ser construída a futura pista de aterragem.

Pela manhã o grupo dos “condenados”, munidos de machados, pás e picaretas dirigiam-se ao local para cumprimento da pena que lhes havia sido aplicada. Para controlar o stresse iam também munidos de uns baralhos de cartas e algumas bebidas.

Volvidas duas semanas, o senhor Capitão resolveu ir verificar o ponto da situação em relação à execução da pena aplicada. Verificou de que todas as árvores sinalizadas para serem abatidas continuavam de pé.

Chamado o grupo, foi-lhes transmitido de que a sentença passava a ter a seguinte redacção: se no prazo de duas semanas todas as árvores não estiverem tombadas a sentença será revertida e substituída por 15 dias de detenção para cada um.

A sentença foi cumprida, mas as árvores permaneceram tombadas no mesmo local até à retirada de Jumbembem da CART 730.

O helicóptero que procedeu à evacuação do Senhor Capitão Rui Romero entrou pelo lado da futura pista e poisou ao fundo da parada junto aos abrigos subterrâneos.

Esta era a situação, em termos de pista de aterragem para aeronaves, quando da retirada da CART 730.
Eu sei, eu vi, eu estava lá.

Tudo o que se passou posteriormente a 17 de julho de 1966.
Eu não sei, eu não vi, eu não mais lá voltei.


******************************
Posição relativa de Jumbembem na estrada Farim-Colina do Norte. © Infogravura Luís Graça & Camaradas da Guiné


Mote para a Pista

Primeiro interveniente

Deves estar a fazer uma grande confusão... Jumbembem com Iemberem ou outra terriola qualquer terminada em "em" desculpem a cacafonia provocada.

O Artur Conceição é que diz que no tempo dele 1965 em Jumbembem não havia pista e os editores vão na onda e fazem o descritivo da legenda nesse sentido.

Pois segundo reza a História do BArt 733 no dia 2/08/1965 1 GComb/CArt 730 continuou a construção da pista de aterragem e executou melhoramentos diversos no aquartelamento.

Portanto, talvez quando se verificou a morte do Cap Romero 10/07/66 quase um ano depois, talvez a pista já estivesse concluída. Não sei.


Segundo interveniente

O Luís é que escreve o seguinte:

"Segundo a última conversa que tive com o Artur, em Jumbembem não havia pista de aviação. O correio era largado às quintas-feiras, de avioneta. Acabada de chegar a Jumbembem, a CCÇ 1556 [1565] só recebeu o primeiro correio, no domingo, 10 de julho de 1966. Veio diretamente de Farim, por coluna auto."

Atenta no que acima escrevo invocando a História do BArt 733, não sei se a pista estava concluída ou não em 10/07/1966 um ano depois do início da sua construção, mas quase posso afirmar categoricamente que a evacuação que se vê na foto não é da parada de Jumbembem. É isso sim da pista ou do campo de futebol que ficava/fica paralelo à picada Cuntima>Jumbembem>Lamel>Farim e Jumbembem>Canjambari.
Pois a parada estava envolvida pela tabanca antiga que ainda é do meu tempo e fomos nós que a demolimos para construir uma tabanca nova a norte do aquartelamento e paralela à pista.

Donde da parada não se viam as árvores ao fundo nem em 1966 e nem quando fui para lá e só depois da demolição da tabanca velha é que se passou a ver, como se vê na minha foto a preto.

Em 2014


O SITREP era uma mensagem diária de classificação R (Rotina) transmitida ao fim da tarde e que tinha como objectivo enviar o ponto da situação. De um modo geral era transmitida pelo Artur porque o seu envio era sempre por volta da hora do jantar.

Todas as mensagens enviadas a partir de Jumbembem eram emitidas em fonia. Pelo fim da tarde as condições eram mais difíceis. Como o Artur tinha uma das melhores gargantas. Lá teria de ser, o que não significa que a mensagem onde veio este conteúdo tenha sido enviada pelo Artur.

São referidas neste retalho de SITREP 3 acções de elevado significado:

1. Patrulhamentos diários nas imediações da povoação e patrulhas de reabastecimento a FARIM, CANJAMBARI E CUNTIMA.

2. Melhoramentos e construção de edifícios e instalações para a criação de condições de vida e higiene em JUMBEMBEM e CANJAMBARI.

3. Construção da pista de aterragem de JUMBEMBEM e conservação da existente em CANJAMBARI

O terceiro ponto já foi censurado pelo 1.º Cabo António Bastos do Pelotão 953 que esteve em Canjambari.


Agora as mesmas 3 acções, mas com alguma mistura de verdade.

1. Logo pela manhã teve lugar banhinho matinal porque o pessoal da companhia admira a boa higiene, seguido de uma visita à tabanca para apalpar as bajudas.

2. Antes do almoço ainda houve tempo para uma suecada e para uma visita aos arredores para se possível apanhar alguma presa mais distraída.

3. Depois do almoço e após uma merecida sesta e depois de uma suecada, teve lugar um jogo de futebol entre as equipas, Alentejanos e não Alentejanos, que os não Alentejanos ganharam por 3 a zero.

Acreditar naquilo que está escrito nas actividades de Companhias e Batalhões é como acreditar no que está escrito na História de Portugal sobre a Padeira de Aljubarrota, Dona Brites de Almeida que terá matado com a pá de meter o pão no forno sete Castelhanos que se teriam escondido no forno onde Dona Brites cozia o seu pão. Isto para não falar daqueles que ainda acreditam no Pai Natal.

Esta é uma segunda imagem das várias que foram tiradas. Talvez nesta foto dê para identificar melhor a diferença entre o chão da parada e o chão do campo de futebol. De pista de aterragem nem vale a pena falar.

Partindo da “Porta de Armas” do acampamento de Jumbembem e seguindo sempre em linha recta até ao arame farpado entrava-se no espaço previsto para a tal pista.

Para lá do arame farpado do lado esquerdo ficava uma árvore de grande porte que dava frutos pequenos parecidos com figos e que em determinada época foi invadida por bandos de pombos bravos que vieram colher esses mesmos frutos. O Senhor Capitão tinha uma caçadeira que entregou ao Gamito que abateu umas quantas dezenas. Só não comeu pombo de churrasco quem teve preguiça de os depenar.

Do lado direito logo a seguir ao arame farpado ficavam as latrinas da Companhia. Uns 20 ou 30 metros mais adiante ficava uma cova onde eram testadas algumas munições.

Num desses ensaios já na presença do 1.º Sargento da Companhia 1565, aconteceu que uma granada de bazuca foi percutida, mas não saiu. O Primeiro Sargento da CART 730, Maurício Martins Clemente, quando se apercebeu do sucedido arremessou a bazuca para a maior distância que conseguiu, mas não conseguiu evitar ferimentos, não muito graves, mas que o forçaram a regressar a Bissau alguns dias mais cedo.

Entre o posto de rádio e o arame farpado e daí para diante apenas foi construída uma peanha para colocação de uma Metralhadora Antiaérea.

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Nota do editor


Último post da série de 10 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)