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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28207: Retalhos da vida militar (7): A minha ida para o serviço militar obrigatório (Artur Conceição)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 21 de Julho de 2026:

Boa tarde amigos e Camaradas Editores
Um pequeno texto para recordar.

O meu Grande Abraço
Com votos de muita saúde para todos
Artur António da Conceição



A minha ida para o serviço militar obrigatório

A minha ida para cumprimento do serviço militar obrigatório não me retirou hábitos de trabalho, diria mesmo que talvez por uma questão relacionada com o sistema nervoso, terá dado o seu contributo.

Durante vários meses do ano de 1964, enquanto estive no Regimento de Infantaria 11 na cidade de Setúbal, tinha a missão de atender às 8 e às 18 horas uma chamada via rádio relacionada com a segurança da Região Militar.

Como tinha muito tempo disponível, durante o dia ia trabalhar para o Conselho Directivo, onde havia sempre muita coisa para fazer.
Guiné > Região do Oio > Jumbembém > CART 730 (1965/67) > Artur Conceição, o hortelão na sua horta onde se gabava de cultivar os melhores tomates e alfaces do CTIG.

Durante os dois anos de estadia na Guiné e no tempo de Jumbembem fazia a escala de serviço da qual fazia parte, fazia a manutenção das baterias, fazia os autos de destruição, fazia a requisição de material, fazia a gestão de stocks e ainda tinha tempo para tratar da horta de onde vinha o tomate e a alface para a salada destinada à secção de transmissões e para a Messe de Oficiais.

Permitam-me que aqui recorde, com a mesma amizade e admiração, dois dos Furriéis mais “malandros” e da mesma forma os dois mais “trabalhadores”.

Começando pelos dois com que não era possível contar com eles, para fazer qualquer coisa de jeito temos:

O Furriel de Manutenção Auto, Ilídio Barros dos Reis. Um grande abraço.
O Furriel de Transmissões, Higino José Gama Passos, que era natural da Ilha da Madeira. Um grande abraço meu Furriel.

Agora os dois que inventavam algo para ocuparem os seus tempos livres.

O Furriel José Joaquim Nunes da Venda, atirador.
O Furriel Amadeu Júlio Neves Cruz, atirador.

Os restantes jogavam à lerpa durante os seus tempos livres, onde se obtinham lucros que davam para uma viagem à Metrópole. O meu abraço para todos.

Permitam-me agora um especial realce para o Senhor Furriel Amadeu Cruz.

Sendo atirador, desempenhou com a mais elevada competência, a função de Vaguemestre durante muito tempo da sua estadia em Jumbembem.

Encontrei-o em 1973 como gerente de uma loja de uma famosa marca de móveis em Lisboa. “Móveis Baía”.

Encontrei-o mais uma vez num almoço do Batalhão 733, que teve lugar na Cidade de Lagos no Algarve.

Ao aproveitar para enaltecer as qualidades do Amigo Amadeu Cruz, tive como resposta palavras que nunca mais esquecerei.

- Enquanto estive a cumprir o serviço militar senti-me sempre em serviço. Enquanto estou em serviço não bebo. Daí que durante todo o tempo que estive na tropa nunca apanhei uma bebedeira.

De todos os Sargentos e Oficiais da CART 730, todos nascidos em 1943 ou antes, só tenho conhecimento do falecimento do Furriel Vira, natural de Setúbal. Descansa em PAZ.

Damaia, 16 de julho, 2026
Artur Conceição

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Nota do editor

Último post da série de 16 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28187: Retalhos da vida militar (6): História da Pista de aterragem de Jumbembem (Artur Conceição, ex-Soldado TRMS)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28187: Retalhos da vida militar (6): História da Pista de aterragem de Jumbembem (Artur Conceição, ex-Soldado TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 13 de Julho de 2026:

Boa tarde amigos e Camaradas Editores.

Como não tenho Quintal, nem Horta, nem Apiário tenho de contentar-me com os meus hábitos matinais de ligar o computador, consultar a meteorologia, ver as gordas do dia, dar uma espreitada ao blogue e verificar com vai a conta bancária, não vá o diabo tecê-las… Gato escaldado da água fria tem medo.

Escrevi algumas linhas sobre a famosa pista para aeronaves em Jumbembem que envio em anexo.
Escrevi também algumas linhas sobre um tema que serviu de mote para o primeiro.
Estou por cá a tentar cumprir com as indicações do Luís Graça. Vamos correr com o Alemão.

O meu Grande Abraço
Muita saúde para todos
Artur António da Connceição



História da Pista de aterragem de Jumbembem

Sendo a Guiné uma região plana tem e sempre teve excelentes condições para a criação de pistas de aterragem para qualquer tipo de aeronaves.
Jumbembem não fugia à regra e tinha condições excelentes para a criação de uma pista de aterragem.

A CART 730, enquanto sediada em Jumbembem, sempre recebeu a sua correspondência largada do Céu, a partir de uma avioneta, por não haver uma pista para aterragem.
As condições geográficas eram boas, havia tempo até de sobra, mas faltou sempre a boa vontade para levar a obra para diante.

Chegou a estar em Jumbembem uma máquina de terraplanagem para proceder à criação da tão almejada pista de aterragem. Essa máquina era manobrada por um 1.º Cabo pertencente à Engenharia sediada em Brá na cidade de Bissau.

A CART 730 enquanto esteve em Jumbembem dispunha de Messe para Oficiais, Messe para Sargentos e Rancho Geral. O 1.º Cabo, Operador de Máquinas considerando que como tinha de trabalhar oito horas por dia, pediu para que as suas refeições tivessem lugar na Messe de Sargentos. Tal não lhe foi concedido, mas logo na primeira oportunidade o nosso 1.º Cabo montou-se na máquina foi embora.

A dada altura o Senhor Comandante da CART 730, Capitão Amaro Rodrigues Garcia não comprou uma “cabritinha”, mas sim uma cabra adulta, que trazia consigo dois filhotes. O objectivo era passar a haver leite para o pequeno almoço na Messe de Oficiais. A cabra mãe e os filhotes pernoitavam em espaços separados e só tinham direito a mama depois de a cabra ser mugida para tirar o leite para a Messe de Oficiais. O cozinheiro da Messe, que era quem mugia a cabra logo pela manhã, quando foi para buscar os filhotes verificou que um deles havia desaparecido durante a noite.

O cozinheiro da Messe teve de dar conhecimento ao Senhor Capitão. Iniciadas as primeiras averiguações para saber o que se tinha passado, verificou-se ao fim de algumas horas de que tinha havido furto. Havia na Companhia um grupo de Alentejanos especialistas em petiscadas muito boas que logo se tornou suspeito. Feita uma minuciosa pesquisa na caserna foi encontrado, já sem vida, o cabritinho dentro de um caixote de guardar farda, mas que tinha ficado com o rabo de fora. Descoberto o crime e os criminosos, procedeu-se ao julgamento e leitura da sentença.

A sentença foi a seguinte: Tinham direito a comer o cabrito, mas como castigo teriam de derrubar 12 árvores na zona onde iria ser construída a futura pista de aterragem.

Pela manhã o grupo dos “condenados”, munidos de machados, pás e picaretas dirigiam-se ao local para cumprimento da pena que lhes havia sido aplicada. Para controlar o stresse iam também munidos de uns baralhos de cartas e algumas bebidas.

Volvidas duas semanas, o senhor Capitão resolveu ir verificar o ponto da situação em relação à execução da pena aplicada. Verificou de que todas as árvores sinalizadas para serem abatidas continuavam de pé.

Chamado o grupo, foi-lhes transmitido de que a sentença passava a ter a seguinte redacção: se no prazo de duas semanas todas as árvores não estiverem tombadas a sentença será revertida e substituída por 15 dias de detenção para cada um.

A sentença foi cumprida, mas as árvores permaneceram tombadas no mesmo local até à retirada de Jumbembem da CART 730.

O helicóptero que procedeu à evacuação do Senhor Capitão Rui Romero entrou pelo lado da futura pista e poisou ao fundo da parada junto aos abrigos subterrâneos.

Esta era a situação, em termos de pista de aterragem para aeronaves, quando da retirada da CART 730.
Eu sei, eu vi, eu estava lá.

Tudo o que se passou posteriormente a 17 de julho de 1966.
Eu não sei, eu não vi, eu não mais lá voltei.


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Posição relativa de Jumbembem na estrada Farim-Colina do Norte. © Infogravura Luís Graça & Camaradas da Guiné


Mote para a Pista

Primeiro interveniente

Deves estar a fazer uma grande confusão... Jumbembem com Iemberem ou outra terriola qualquer terminada em "em" desculpem a cacafonia provocada.

O Artur Conceição é que diz que no tempo dele 1965 em Jumbembem não havia pista e os editores vão na onda e fazem o descritivo da legenda nesse sentido.

Pois segundo reza a História do BArt 733 no dia 2/08/1965 1 GComb/CArt 730 continuou a construção da pista de aterragem e executou melhoramentos diversos no aquartelamento.

Portanto, talvez quando se verificou a morte do Cap Romero 10/07/66 quase um ano depois, talvez a pista já estivesse concluída. Não sei.


Segundo interveniente

O Luís é que escreve o seguinte:

"Segundo a última conversa que tive com o Artur, em Jumbembem não havia pista de aviação. O correio era largado às quintas-feiras, de avioneta. Acabada de chegar a Jumbembem, a CCÇ 1556 [1565] só recebeu o primeiro correio, no domingo, 10 de julho de 1966. Veio diretamente de Farim, por coluna auto."

Atenta no que acima escrevo invocando a História do BArt 733, não sei se a pista estava concluída ou não em 10/07/1966 um ano depois do início da sua construção, mas quase posso afirmar categoricamente que a evacuação que se vê na foto não é da parada de Jumbembem. É isso sim da pista ou do campo de futebol que ficava/fica paralelo à picada Cuntima>Jumbembem>Lamel>Farim e Jumbembem>Canjambari.
Pois a parada estava envolvida pela tabanca antiga que ainda é do meu tempo e fomos nós que a demolimos para construir uma tabanca nova a norte do aquartelamento e paralela à pista.

Donde da parada não se viam as árvores ao fundo nem em 1966 e nem quando fui para lá e só depois da demolição da tabanca velha é que se passou a ver, como se vê na minha foto a preto.

Em 2014


O SITREP era uma mensagem diária de classificação R (Rotina) transmitida ao fim da tarde e que tinha como objectivo enviar o ponto da situação. De um modo geral era transmitida pelo Artur porque o seu envio era sempre por volta da hora do jantar.

Todas as mensagens enviadas a partir de Jumbembem eram emitidas em fonia. Pelo fim da tarde as condições eram mais difíceis. Como o Artur tinha uma das melhores gargantas. Lá teria de ser, o que não significa que a mensagem onde veio este conteúdo tenha sido enviada pelo Artur.

São referidas neste retalho de SITREP 3 acções de elevado significado:

1. Patrulhamentos diários nas imediações da povoação e patrulhas de reabastecimento a FARIM, CANJAMBARI E CUNTIMA.

2. Melhoramentos e construção de edifícios e instalações para a criação de condições de vida e higiene em JUMBEMBEM e CANJAMBARI.

3. Construção da pista de aterragem de JUMBEMBEM e conservação da existente em CANJAMBARI

O terceiro ponto já foi censurado pelo 1.º Cabo António Bastos do Pelotão 953 que esteve em Canjambari.


Agora as mesmas 3 acções, mas com alguma mistura de verdade.

1. Logo pela manhã teve lugar banhinho matinal porque o pessoal da companhia admira a boa higiene, seguido de uma visita à tabanca para apalpar as bajudas.

2. Antes do almoço ainda houve tempo para uma suecada e para uma visita aos arredores para se possível apanhar alguma presa mais distraída.

3. Depois do almoço e após uma merecida sesta e depois de uma suecada, teve lugar um jogo de futebol entre as equipas, Alentejanos e não Alentejanos, que os não Alentejanos ganharam por 3 a zero.

Acreditar naquilo que está escrito nas actividades de Companhias e Batalhões é como acreditar no que está escrito na História de Portugal sobre a Padeira de Aljubarrota, Dona Brites de Almeida que terá matado com a pá de meter o pão no forno sete Castelhanos que se teriam escondido no forno onde Dona Brites cozia o seu pão. Isto para não falar daqueles que ainda acreditam no Pai Natal.

Esta é uma segunda imagem das várias que foram tiradas. Talvez nesta foto dê para identificar melhor a diferença entre o chão da parada e o chão do campo de futebol. De pista de aterragem nem vale a pena falar.

Partindo da “Porta de Armas” do acampamento de Jumbembem e seguindo sempre em linha recta até ao arame farpado entrava-se no espaço previsto para a tal pista.

Para lá do arame farpado do lado esquerdo ficava uma árvore de grande porte que dava frutos pequenos parecidos com figos e que em determinada época foi invadida por bandos de pombos bravos que vieram colher esses mesmos frutos. O Senhor Capitão tinha uma caçadeira que entregou ao Gamito que abateu umas quantas dezenas. Só não comeu pombo de churrasco quem teve preguiça de os depenar.

Do lado direito logo a seguir ao arame farpado ficavam as latrinas da Companhia. Uns 20 ou 30 metros mais adiante ficava uma cova onde eram testadas algumas munições.

Num desses ensaios já na presença do 1.º Sargento da Companhia 1565, aconteceu que uma granada de bazuca foi percutida, mas não saiu. O Primeiro Sargento da CART 730, Maurício Martins Clemente, quando se apercebeu do sucedido arremessou a bazuca para a maior distância que conseguiu, mas não conseguiu evitar ferimentos, não muito graves, mas que o forçaram a regressar a Bissau alguns dias mais cedo.

Entre o posto de rádio e o arame farpado e daí para diante apenas foi construída uma peanha para colocação de uma Metralhadora Antiaérea.

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Nota do editor


Último post da série de 10 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28169: Retalhos da vida militar (5): Faz hoje 60 anos que ocorreu a trágica morte do Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565 (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 10 de Julho de 2026:

Caríssimos camaradas, Administradores e Editores
Completam-se hoje, dia 10 de julho, 60 anos que ocorreu este trágico acontecimento.
Para o efeito que acharem por mais conveniente escrevi o texto em anexo que deixo à elevada consideração.

Um grande Abraço e votos de muita saúde.
Artur António da Conceição



Como era Jumbembem no ano de 1966

Partindo da Cidade de Farim a caminho da Fronteira com o Senegal sensivelmente a meio do caminho ficava o acampamento de Jumbembem na bifurcação com a estrada para Canjambari. Logo à chegada do lado direito ficava o campo de futebol onde os mais habilidosos da Companhia jogavam à bola. Importa recordar o mestre Gamito que a todos dava baile.

No topo do campo de futebol havia o desvio para Canjambari do lado direito e a entrada no acampamento de Jumbembem do lado esquerdo. Logo após a passagem da “Porta de Armas”, não havia porta nem cancela, do lado esquerdo estavam as instalações da “Ferrugem” e afins, e onde antes teria sido a serração de madeiras, a avaliar pela existência de muitos pedaços de serras no local. Ainda do lado esquerdo seguia-se a caserna, a cantina, o refeitório, a cozinha, as arrecadações de material e o paiol. Para o lado direito após a entrada ficava o espaço designado por parada, onde alguns condutores gostavam de fazer as suas gracinhas mesmo arriscando uma enxertia, espaço esse que tinha logo do seu lado direito os abrigos que ficavam junto à estrada. No lado a seguir ficavam as moranças de alguma população, muito reduzida, não mais de 30 moranças. Em frente ficava uma casa de habitação com telhado de quatro águas sensivelmente quadrado com varanda larga cimentada e coberta, a toda a volta da casa.

Na parte da frente da moradia voltada para a parada havia uma pequena escada para acesso à varanda da frente a partir da qual havia do lado direito a entrada para a secretaria e do lado esquerdo a entrada para o Posto Clínico. Na parte traseira da vivenda o acesso à varada era feito por um pequeno degrau, ficando do lado direito o Comando da Companhia e do lado esquerdo as Transmissões, posto de rádio e centro cripto.

A varanda lateral esquerda havia sido fechada e servia de dormitório do pessoal das Transmissões. Imediatamente a seguir à varanda traseira e do lado direito ficava uma arrecadação “irmanamente” dividida para guarda do material de Enfermagem e de Transmissões.

Em frente da varanda lateral direita ficava um terraço em cimento logo seguido da Messe e Dormitório dos Sargentos da Companhia. Foi neste pequeno terraço que vi pela primeira vez a chamada cobra minuto. Não estivera ao lado de Alferes Valdez que deu o alerta e não lhe teria dado a mínima importância. Era uma lagartixa de cor preta com cerca meio metro de comprimento e um centímetro de diâmetro. Naquele tempo ainda prevalecia a lenda, que por aquilo que hoje se conhece é muito diferente da realidade. Afinal o animal é inofensivo.

Pelo fundo das moranças havia uma bomba de balanço para tirar a água de um poço ali existente, essa bomba era a única fonte de abastecimento de água até à abertura de um furo. A partir da abertura do furo passou a haver água com fartura para todos. A bomba ficou praticamente em exclusivo para regar as hortas. As hortas ficavam junto ao ribeiro e eram pertença do Artur e dos Alentejanos entre eles me recordo apenas dos parentes Vaqueirinhos.

Do lado direito da parada havia ainda uma invocação à primeira Companhia a ocupar este espaço. Antes da Companhia 730 esteve neste mesmo local a Companhia de Cavalaria 488 pertencente ao mesmo Batalhão a que pertenceu o nosso Alferes Virgínio Briote. Batalhão de Cavalaria 490.
De pé e da esquerda para a direita, o Artur, o Norberto e o Florival. Sentados estão o Mathias e o Campos.

Entrando na estrada para Cuntima onde esteve sediada a CART 732 e logo após a passagem de um pequeno ribeiro tínhamos do lado direito a pequena bolanha de Jumbembem onde era plantado o arroz, tarefa exclusiva das mulheres grandes. Ao cimo da bolanha ficava um grande barracão que em tempos terá servido de arrecadação dos produtos agrícolas.
Arroz na bolanha de Jumbembem. Na parte mais alta cresce milho de grandes dimensões.

A seguir ao barracão do lado esquerdo e do lado direito ficava uma área agrícola de alguns hectares onde eram semeados o milho e a mancarra. Esta tarefa tinha também exclusividade dos homens grandes.
Quatro Cabos e um Soldado com ar feliz a caminho do Senegal. Da esquerda para a direita: António Morais Castela, Florival Fernandes Pires, Artur António da Conceição, Norberto (pertencia ao Pelotão de Canjambari) e o Guilherme Augusto Leal Chagas.

Continuando esta amostra de levantamento, resta apenas uma visita ao Rio de Jumbembem que por ali passa a muito curta distância do aquartelamento de Jumbembem.

Entrando na estrada com destino a Canjambari ficava a cerca 100 metros uma ponte sobre o Rio de Jumbembem ao lado da qual existia um enorme pego onde a pesca era feita à granada de mão. A montante da ponte, por falta de canas de pesca, também a pesca era feita com bala de pistola ou de G3. A perícia da pesca à bala consistia em não acertar no peixe. O deslocamento da água provocado pela bala rebentava a membrana natatória deixando o peixe a boiar. Peixe a boiar é fácil de apanhar.

O Rio de Jumbembem continuava o seu percurso em direcção a Farim onde a poucos quilómetros antes se juntava com o Rio de Canjambari. A partir desta junção o rio passa a ter a designação de Rio Cacheu.

É no cenário acima descrito que no dia dez de julho do ano de mil novecentos e sessenta e seis, pelo meio dia, aconteceu uma das muitas tragédias ocorridas ao longo dos treze anos de guerra em África.
Cap Mil Inf Rui António Nuno Romero, Comandante da CCAÇ 1565

Sobre a referida tragédia está tudo escrito nos posters 2335, 13729 e 13736. [1]

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Para terminar quero deixar duas pequenas correções ao perfil do Soldado de Transmissões Condutor Auto 2712/63, Artur António da Conceição.

Foi mobilizado pelo Regimento de Artilharia Ligeira 1 em dezembro de 1964. Embarcou com destino à Guiné a 11 de fevereiro de 1965, a bordo do Navio Timor. Chegou a Bissau a 17 de fevereiro e foi levado para o quartel de Brá onde se encontrava a CCS do Batalhão 733. Depois de ter visto passar por cima da sua cabeça o helicóptero transportando o corpo do soldado Jozé da Graça Bexiga Troncão morto em combate no Olossato durante uma operação efetuada pela CART 730 foi enviado em coluna militar para Bissorã. Mais tarde foi enviado para Jumbembem de onde regressou a Bissau em finais do mês de julho de 1966.

No início de agosto do ano de 1966, a CART 730 regressa a Lisboa deixando na Guiné, qual mãe desnaturada, seis dos seus elementos, entre eles o médico da Companhia 730, Dr. Jaime Afonso. Terá sido o Dr. Afonso, que ao dar um tiro no pé, acabou por levantar a lebre que deu origem a tal situação. O Artur foi forçado a ficar mais seis meses na Guiné, regressando a Lisboa em 14 de fevereiro do ano de 1967, tendo embarcado em Bissau a nove do mesmo mês de fevereiro. Assim sendo, o Artur esteve na Guine de 1965 a 1967 e não de 1964 a 1966 como aparece em algumas publicações.

No segundo caso, quero recordar que passados quatro meses após o regresso da Guiné o Artur ingressou nos quadros da DGTT (Direcção Geral de Transportes Terrestres) em três de julho do ano de 1967.

Durante os 36 anos que desempenhou funções públicas passou por várias categorias: foi Dactilógrafo, Operador, Programador de Aplicações, Técnico Superior de Informática, Assessor de Informática e Assessor de Informática Principal. Quando se aposentou tinha a categoria de Especialista de Informática Grau 3, nível 2, como consta da sua ficha de utente existente na Caixa Geral de Aposentações.

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Notas do editor:

[1] - Além dos posts citados pelo camarada Artur Conceição sobre a trágica morte do Capitão Rui Romero, vd. os posts de:

14 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13734: Tabanca Grande (448): Ana Romero, filha do cap mil inf Rui Romero (Portalegre, 1934 - Jumbembem, 1966)

18 de outubro de 2014 > Guiné 63/74 - P13757: Consultório militar, de José Martins (5): Processo do cap mil inf Rui Romero, no Arquivo Histórico Militar.... Algumas "dicas" para a Ana Romero
e
31 de dezembro de 2014 > Guiné 63/74 - P14100: In Memoriam (216): Rui Romero (1934-1966), cap mil inf, 1º cmdt da CCAÇ 1565 (1966/68)... Finalmente... a Verdade (Ana Romero)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27570: Retalhos da vida militar (4): Aconteceu há 60 anos, um presépio em Jumbembem (Artur Conceição, ex-Sold TRMS)

1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS da CART 730/BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 24 de Dezembro de 2025:

Aconteceu há 60 anos

No ano de 1965 foram colocados na Companhia de Artilharia 730 do Batalhão de Artilharia 733 dois Soldados de Transmissões Condutor Auto, que viria estar sediada em Jumbembem, de seu nome Artur António da Conceição, o Artur, e Manuel Mendes Almeida Santos, o MC.

Jumbembem, pertencia ao Sector de Farim e ficava a meio caminho entre Farim e Contima na bifurcação da estrada que vinha de Canjambari. Das instalações de Jumbembem fazia parte uma Casa Residencial, que terá sido a habitação de um Industrial de Serração de Madeiras.

O Artur indigitado para fazer a gestão do material de transmissões, localizou a dada altura um baú contendo todas as figuras necessárias para fazer um Presépio. Nas proximidades do Natal do ano de 1965 o Artur desafiou o MC, catequista tal como a Artur, a construir um presépio em Jumbembem usando para o efeito o material encontrado. O Homem sonha, a Obra nasce.
Presépio de Jumbembem no Natal de 1965

O Batalhão tinha maioritariamente origem no Sul do País, onde determinadas caraterísticas não permitem grande aceitação a eventos de carácter religioso.

Quando o Padre Maia se deslocava a Jumbembem o Cabo Martins ficava em Farim porque o Artur e o MC asseguravam as tarefas do auxiliar de Serviços Religiosos.

Se a Missa era por alma do Cachopo e do Baleizão, os dois mortos em combate, a Companhia comparecia em peso, mas se fosse uma Missa para cumprir calendário, só aparecia o Artur e o MC o Senhor Capitão e mais meia dúzia de especialistas.

Permitam-me a imodéstia, mas o Artur teve mais um posto enquanto militar que desempenhou com todo orgulho e aceitação. O Artur foi Decano das Praças da Companhia de Artilharia 730. Para além escala de serviço fazia os autos de destruição, as requisições de material, a manutenção das baterias e ainda tinha tempo para tratar da horta onde cresciam as melhores alfaces e o melhor tomate de Jumbembem.

Artur Conceição
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Nota do editor

Último post da série de 18 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27545: Efemérides (380): No passado dia 10 de Dezembro, a Força Aérea Portuguesa condecorou as nossas Enfermeiras Paraquedistas com a Medalha de Mérito Aeronáutico, Primeira Classe. A cerimónia decorreu no Comando Aéreo, em Monsanto, e contou com a presença do Ministro da Defesa Nacional

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Guiné 61/74 - P26392: Nunca Tantos Deveram Tanto a Tão Poucas (2): O que é feito de ti, Maria Rosa Exposto ?... "Nunca vos esqueci nem esquecerei", escreveu ela em depoimento para o livro "Nós, Enfermeiras Paraquedistas", 2ª ed., 2014, pág. 403)


Guiné > Região do Oio > 
Jumbembem > CART 730 (1964/66) e CCAÇ 1565 (1966/68) > Domingo, 10 de julho de 1966 > Um dia trágico: pormenor da evacuação do cap mil inf Rui Romero, na foto a ser transferido para a maca do helicóptero Alouette II... A enfermeira paraquedista é (pou parece ser)  a alf Maria Rosa Exposto. (*)

Em primeiro plano, de costas, e quico na mão, o 1.º cabo operador cripto Florival Fernandes Pires, natural de Portalegre, que foi, com o Artur Conceição, sold trms, uma das primeiras testemunhas das circunstâncias trágicas em que morreu o cap mil inf Rui Anónio Nuno Romero, cmdt da CCAÇ 1565, de 32 anos, casado, pai de 2 filhas menores, natural de Portalegre, residente em Lisboa, filho de pai militar, desenhador de construção civil a frequentar o curso de arquitetura quando foi chamado para o curso de capitães.

O Artur Conceição estava a 2 metros do local da tragédia. Embora já cadáver, o corpo do malogrado oficial foi levado de helicóptero para o Hospital Militar de Bissau  e o funeral realizou-se um mês e tal depois em Lisboa, no cemitério do Alto de São João. A enfermeira na foto parece ser a Rosa Exposto, do curso de 1964, segundo apurámos junto do nosso camarada Miguel Pessoa e das nossas camaradas enfermeiras paraquedistas Giselda Pessoa e Maria Arminda.

A CCAÇ 1565 foi mobilizada pelo RI 1, partiu para o TO da Guiné em 20/4/1966, e regressou a 22/1/1968. Esteve em Bissau, Jumbembem, Canjambari e Bissau. Comandantes, além do cap mil inf Rui António Nuno Romero: cap inf José Lopes e cap mil inf José Alberto de Sá Barros e Silva (vivia em Lisboa em 2007).

Por sua vez, a CART 730 / BART 733, foi mobilizada pelo RAL 1, partiu para o TO da Guiné em 8/10/1964, e regressou a 14/8/1966. Pasou por Bironque, Biossorã, Jumbembem e Farim, Foi seu comandante o cap art Amaro Rodrigues Garcia. O BART 733 esteve em Bissau e Farim.

Foto ( e legenda): © Artur Conceição (2007). Todos os direitos reservados.  [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Tombali > Guileje > CCAÇ 726 (Out 64 / Jul 66) > O pessoal em operações militares: na foto, acima, transporte às costas de um ferido, evacuado para o HM 241, em Bissau, por um helicóptero Alouette II (versão anterior do Alouette III, que nos era mais familiar, sobretudo para aqueles que chegaram à Guiné a partir de 1968).

Maria Arminda Santos: (...) "A partir daí a guerra na Guiné estava instalada e assim que foi possível fomos colocadas na Base de Bissalanca, para o início das evacuações aéreas com enfermeiras. Havia os aviões Auster e os helicópteros Alouette II; nestes não nos era possível acompanhar de perto os feridos, os quais eram transportados fora do helicóptero, numa espécie de caixas colocadas por cima dos patins do heli, uma de cada lado. Nos Auster a maca quase entrava pela cadeira ao lado do piloto e na cauda do avião.

"Felizmente mais tarde chegaram os DO-27 e os Alouette III, onde passámos a fazer inúmeras evacuações, adaptando e modificando os meios sanitários e a nossa actuação, com a finalidade de uma mais eficaz prestação de cuidados aos feridos, os quais iam sendo cada vez em maior número. Infelizmente tivemos que chegar a fazer evacuações no Dakota, quando havia ao mesmo tempo muitos feridos e a pista era adequada para a sua aterragem." (...)  (**)

Foto (e legenda): © Alberto Pires (Teco) / Jorge Félix (2009). Todos os direitos reservados.[Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Maria Rosa Exposto, ex-alf grad enfermeira paraquedista

Brevet nº 2846, 26-4º enf nov 64




1. O que é feito de ti, Maria Rosa Exposto ? Há tempos correu, por aí,  pelos "mentideros" das redes sociais, a notícia da tua morte... O que nos deixou sobressaltados... Boato ? Mentira ? Verdade ? Quem desejaria a tua morte, a ti, que salvaste tantas vidas ?!... 

Mas nenhuma das tuas antigas camaradas (a Rosa Serra, a Maria Arminda, a Giselda...) puderam confirmar ou infirmar essa infeliz notícia, que esperamos, de todo o coração, seja falsa.

Infelizmente, não temos dados biográficos detalhados sobre ti, Rosa. Não sabemos onde vives. E o que é feito de ti... Havia três enfermeiras paraquedistas com o nome ou apelido Rosa: 

  • a Rosa Serra (que é membro da nossa Tabanca Grande, minhota de V. N. Famalicão);
  • Maria Rosa Mota (com o casamento, Maria Rosa Mendes) (que vive em Faro, presumindo nós que é algarvia);
  • e tu, Maria Rosa Exposto (transmontana de Bragança, dizem-nos).
Sabemos que fizeste  a tua primeira comissão na Guiné. Como alferes graduada. Estiveste com a Maria Arminda. Republicamos acima  uma foto em que tu apareces na evacuação do cap mil inf Rui Romero, "vítima de acidente com arma de fogo", em 10 de julho de 1966. 

É muito provável que depois da Guiné tenhas passado também pelos TO de Angola e Moçambique. E, tudo indica, pelos dois ou três teus escritos (no vosso livro, "Nós, enfermeiras paarquedistas", 2ª ed., 2014) que tenhas voltado à Guiné em 1969.

Sabemos pertenceste ao 4º curso (1964) (o 5º Curso foi em  1966). Segundo tu própria nos contas, no livro "Nós, as enfermeiras paraquedistas", a tua "primeira comissão foi na Guiné, após um pequeno 'estágio' nos Açores" (pág, 175). Não dizes o ano, mas terá sido em 1966, a avaliar pela foto que nos mandou o nosso camarada Artur Conceição (que vive na Amadora, ex-sold trms, CCAÇ  730, 1964/66).E a Maria Arminda confirma.

Sabemos que és transmontana de Bragança. E estudaste enfermagem em Coimbra (pág. 175), na então Escola de Enfermagem Dr. Ângelo da Fonseca (hoje integrada, desde 2004, na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra).

A Rosa Serra (que foi a corrdenador do vosso livro) não também não me soube responder a algumas questões que lhe pus a teu respeito. Sabe que tu eras mais velha (a Rosa Serra nasceu en 1946, tu provavelmente em 1940/41). E, há uns anos atrás, quando te telefonou, ficou a saber que já eras viúva e tinhas um filho. A Maria Arminda não falava  contigo  há um ano. Sabia que vivias para os lados de Portalegre. 

Também não sabemos qual era o teu apelido de casada. Mas tudo indica que o teu nome completo seja Maria Rosa Exposto Olivença.  Encontrei-o no "Diário da República" (II Série, nº 168, de 24/7/1986): foste promovida, por progressão na carreira, desde 1/1/1986, à categoria de enfermeira de grau 1, 3º escalão, do quadro geral do pessoal civil da Força Aérea... Terás lá ficado até quando ? 

Participaste  no livro "Nós, as enfermeiras paraquedistas" (2014). Desse livro vamos destacar o seu testemunho de vida (pág. 403).

Não te conhecemos pessoalmente. Mas queremos que te juntes a nós, com os amigos e camaradas da Guiné, queremos que se sentes à sombra do nosso mágico e fraterno poilão, ao lado da Giselda, da Rosa Serra, da Maria Arminda, da Aura Teles e da Ivone Reis (que infelizmente já morreu em 2022).

Recordemos que terminas o teu depoimento, para o vosso livro coletivo, com um agradecimento à FAP pela oportunidade que te deu de te realizares como ser humano e como enfermeira, e com palavras de grande nobreza para com aqueles com quem trabalhaste e conviveste: "Nunca vos esqueci nem esquecerei!"...

Não nos cansamos de lembrar, no nosso blogue, que  vocês, as ex-enfermeiras paraquedistas, são as únicas mulheres a quem, "de jure" e "de facto", podemos chamar camaradas de armas, no sentido puro e duro da etimologia da palavra...  




Fonte: "Nós, enfermeiras paraquedistas", 2ª ed., org. Rosa Serra, prefácio do Prof. Adriano Moreira (Porto: Fronteira do Caos, 2014), pág. 4032 (com a devida vénia)  (***)

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Notas do editor:



(**) Vd. postes de



segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Guiné 61/74 - P24618: Notas de leitura (1612): Guiné, Operação Irã (maio de 1965) e Operação Hermínia (março de 1966), no fascículo 2 de "As Grandes Operações da Guerra Colonial", textos de Manuel Catarino; edição Presselivre, Imprensa Livre S.A. (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Outubro de 2021:

Queridos amigos,
É meritório, há que o reconhecer, a divulgação em fascículos, com acesso ao grande público, e numa linguagem acessível, de acontecimentos relevantes como foram grandes operações da guerra colonial. Quando me atirei à tarefa de estudar com um pouco de minúcia os acontecimentos que antecederam a chamada luta armada e depois a luta armada propriamente dita, entre 1963 e 1965, isto num projeto editorial que teve como base a história do BCAV  490 feita por um poeta popular, e assim chegámos os dois à feitura do livro "Nunca Digas Adeus às Armas", Húmus Edições, 2020, detetei que a generalidade da historiografia sobre a guerra da Guiné passa como gato pelas brasas pelos aspetos fulcrais tanto da atividade operacional desenvolvida no período como no contexto dessa luta armada, os dois comandantes-chefes, e nomeadamente Arnaldo Schulz, lançaram as bases da ação psicológica, da formação de milícias e companhias de Caçadores, projetos de desenvolvimento e algo mais que merecia o respeito e consideração por quem estuda a guerra.

Mas o mantra é muito superior à realidade e quem escreve que a guerra se agravou entre 1963 e 1968 e mais adiante dirá que a partir de 1970 a guerra nunca mais deixou de se agravar não dá pelas injustiças que profere, uma delas até é cometida com tiros no pé, como esta "Operação Irã", de maio de 1965, e esta "Operação Hermínia", de março de 1966, que desdizem cabalmente de que não se respondia taco a taco, enfrentando o inimigo. Bem curiosamente, há agora quem escreva que mesmo no período da governação Spínola a tropa dos aquartelamentos limitava-se a andar ali à volta, quem verdadeiramente tinha atividade operacional eram as tropas especiais, outro mantra, falando por mim, não me ofende quem quer, na chamada zona libertada do Cuor eu percorria quatro quintos a qualquer hora do dia e se a mais não me afoitava era por não dispor de recursos, com aquelas operações de tabancas em autodefesa fui sendo sangrado de várias secções de pelotões de milícia, em vão protestei. Mas isso é uma história que a historiografia nem se preocupa em estudar, a precariedade dos meios.

Um abraço do
Mário



Guiné, Operação Irã (maio de 1965) e Operação Hermínia (março de 1966)

Mário Beja Santos

A série "As Grandes Operações da Guerra Colonial", surgida na década de 2010, vendia-se nas papelarias e quiosques sob a forma de fascículos, os textos pertencem a Manuel Catarino, edição Presselivre, Imprensa Livre S.A. Este fascículo 2 é uma reedição, é uma miscelânea onde para além destas duas operações a que nos iremos referir juntar-se-ão outras informações, acrescendo a descrição da Operação Tridente, acontecimentos que envolveram paraquedistas em Guilege ou que viveram dificuldades no decurso de uma operação em Cassebeche. O valor do texto é muito discutível. Dizer que a Operação Irã é uma investida das tropas portuguesas no Morés onde nunca elas se tinham aventurado é desconhecer inteiramente de operações no Morés em 1963 e 1964. Sim, o Morés era uma região de mata densa, aí se sediavam pequenas bases móveis, improvisadas infraestruturas, importantes depósitos de material. E o texto lança logo o mantra de que tudo foi agravamento do conflito desde janeiro de 1963 até 1968, é o velho e estafado refrão de que os Altos Comandos anteriores a Spínola andaram aos bonés e revelaram-se incapazes de travar a progressão da guerrilha.

Quem lê a resenha das campanhas de África, no que tange à Guiné, e é este período, ficará seguramente atónito com o texto das diretivas de comando e as ordens de batalha dos dois comandantes-chefes anteriores a Spínola, e sobretudo ao conjunto de operações efetuadas, ao seu desenlace, e à sinceridade posta nos quadros de situação, é uma linguagem que não deixa margem a equívocos de que era inteiramente possível fazer melhor com os meios disponíveis. O autor dá uma no cravo e outra na ferradura, sempre que pode deslustra quer Louro de Sousa quer Schulz e chega a dizer enormidades como:
“Schulz era um militar clássico e, como seria de esperar, respondeu classicamente à manobra do PAIGC”. O que desdiz completamente o que Schulz escreveu para os chefes de Estado-Maior General das Forças Armadas, o mesmo é dizer que chegou ao conhecimento do governo. Louro de Sousa apanhou a fase da implantação do PAIGC, tinha efetivos humildes, o sistema de informações era mais do que precário, a operação de investida no Sul tinha sido estrategicamente calculada, revelou-se fulminante, passou-se para o outro lado do Corubal, foi-se consolidando na região do Morés. Havia que prontamente responder apoiando as populações que se revelavam afetas à soberania portuguesa e à atividade operacional que foi contínua, apareceram as milícias, as tabancas em autodefesa, as tropas especiais.

A Operação Irã ocorreu em maio de 1965, foi um golpe de mão à base do PAIGC de Iracunda. Lê-se no relatório: “A CART nº 730 saiu de Bissorã em 2 de maio e no dia seguinte montou uma rede de emboscadas em proteção à CART nº 566 que executou o ataque à base central do Morés. Pelas 5h50 de 3 de maio vinte elementos vindos do Morés caíram na zona de morte, interrogado um prisioneiro deu informações sobre a base de Iracunda para onde a CART n.º 730 logo seguiu. Esta unidade seguiu prontamente para Iracunda e capturaram material, havia aqui uma escola, a CART n.º 730 sofreu duas fortes ações de fogo sem consequências”. Depois o autor escreve outro êxito, o do BCAÇ 2879, em agosto de 1969, segue-se um texto sobre os Diabólicos, o grupo de Comandos que executou a primeira ação helitransportada na Guiné, a Operação Hermínia, que ocorreu em março de 1966. O objetivo era tomar de assalto uma base de guerrilha em Jabadá. Nesta altura havia melhores meios, já tinham chegado os helicópteros Alouette III, já existiam quatro grupos de Comandos, os Diabólicos (comandados pelo alferes Virgínio Briote), os Vampiros (comandados pelo alferes António Pereira Vilaça), os Centuriões (comandados pelo alferes Luís Almeida Rainha) e os Apaches (comandados pelo alferes António Neves da Silva).
Narra o autor que a operação se iniciou à uma da tarde de 6 de março de 1966, seis helicópteros descolaram de Bissalanca em direção ao objetivo, não mais de 20 minutos de voo, a formação de seis helicópteros dividiu-se, três largaram os atacantes nas moranças a norte, enquanto os outros três foram lançados nas moranças mais a Sul. A operação durou cerca de três horas e meia, perdeu a vida o soldado António Alves Maria da Silva. O PAIGC teve baixas, fizeram-se oito prisioneiros, foram destruídos meios de abastecimento. Seguidamente Manuel Catarino descreve o aparecimento dos Comandos na Guiné, dá-nos uma tábua cronológica do país e a guerra do ano 1962, e entra-se na reedição da Operação Tridente, minuciosamente descrita, é mencionada a Operação Grifo, que decorreu em 28 de abril de 1966 e em que foi morto o capitão Tinoco de Faria que ia à frente de um pelotão de paraquedistas que saiu do aquartelamento de Mejo com a missão de montar emboscadas no corredor de Guilege. Haverá depois a descrição da Operação Ciclone II, que aconteceu no dia 25 de fevereiro de 1968, o Batalhão de Caçadores Paraquedistas n.º 12 executou uma ação no Cantanhez.

Em vagas sucessivas de helicópteros, os paraquedistas foram lançados nas bolanhas de Cafal e Cafine, e tomaram de assalto as bases do PAIGC depois de combates encarniçados. Os paraquedistas sofreram cinco feridos, três com gravidade, aniquilaram um bi-grupo e aprisionaram 19 homens. O texto sobre a Operação Ciclone II é igualmente detalhado, segue-se depois um texto sobre Spínola na Guiné, os seus primeiros textos enviados para Lisboa dizendo que as tropas portuguesas estavam à beira da derrota, o autor menciona as alterações estratégicas e termina o texto com uma frase mirabolante, contrariando tudo o que disse anteriormente: “A partir de 1970, a situação militar nunca mais deixou de piorar”.

Voltamos agora a uma área específica, o Quitafine, onde o PAIGC implantara metralhadoras antiaéreas de quatro canos – as ZPU-4. Foi num voo de reconhecimento sobre este ponto do Cantanhez que se descobriu este potencial antiaéreo e logo foi dada a missão ao Batalhão de Caçadores Paraquedistas 12 para destruir o ninho de metralhadoras antiaéreas – a Operação Vulcano. Tudo começou na tarde de 7 de março de 1969, duas companhias de paraquedistas prepararam-se para atacar as posições do PAIGC em Cassebeche. Os grupos do PAIGC deram resistência e forçaram à retirada dos paras, estes tiveram que abandonar o local, depois de combater denodadamente. Mais tarde, a Força Aérea Portuguesa pulverizou estes ninhos de metralhadoras antiaéreas.

No termo deste n.º 2 de "As Grandes Operações da Guerra Colonial", faz-se uma síntese dos acontecimentos da guerra na Guiné, o desempenho de Spínola, é referida a máquina de propaganda que o cercava, fala-se na tentativa de reviravolta logo em 1968, o esforço de Spínola para negociar com Senghor e a recusa de Caetano e o papel desempenhado pelo livro que abalou o regime, "Portugal e o Futuro".

Militares num dos rios da Guiné no decurso de uma operação. Imagem extraída do blogue Capeia Arraiana, com a devida vénia
Lanchas de fiscalização "Daneb" e "Canópus" em proteção ao desembarque na ilha de Como. Imagem do livro AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos Gomes. Guerra Colonial. Edição: Editorial Notícias, abril de 2000
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Nota do editor

Último post da série de 1 DE SETEMBRO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24608: Notas de leitura (1611): "Cabo Verde, Abolição da Escravatura, Subsídios Para o Estudo", por João Lopes Filho; Spleen Edições, 2006 (Mário Beja Santos)

sábado, 21 de setembro de 2019

Guiné 61/74 - P20165: Controvérsias (139): louvor, em ordem de serviço, do comando do BART 733 (Farim, 1964/66), aos seus militares, pelo pronto, abnegado e eficiente socorro prestado às vítimas do atentado terrorista de 1 de novembro de 1965 (João Parreira, ex-fur mil op esp, CART 730 / BART 733, Bissorã, 1964/65; ex-fur mil cmd, CTIG, Brá, 1965/66)

1. Mensagem do nosso grã-tabanqueiro João Parreira ( ex-fur mil op esp, CART 730 / BART 733, Bissorã, 1964/65; ex-fur mil cmd, CTIG, Brá, 1965/66):

Data:  sexta, 20/09/2019 à(s) 19:40
Assunto: o incidente em Farim, em 1/11/1965

Boa tarde Luís Graça,

Não me esqueci do que falámos no almoço da Magnífica Tabanca da Linha [, no passado dia 19,]  e fui procurar saber se, além do que publicaste no P20130 do passado dia 7 (*),  tinha mais elementos sobre o incidente em Farim em Novembro 1965.

Assim, para o caso de ter interesse, transcrevo uma ordem de serviço do comando do BART 733 (Farim, 1964/66) (**):



Após o incidente ocorrido na Vila de Farim em que perderam a vida alguns nativos (mulheres e crianças) e outros ficaram feridos, é dever deste Comando pôr em destaque o trabalho do pessoal militar em serviço nesta Sede que desde o momento do acontecimento até ao dia seguinte trabalhou afanosamente durante toda a noite socorrendo os feridos, transportando-os aos postos de socorros e enfermarias, iluminando o campo de aviação para que o avião de socorro pudesse vir em auxílio dos feridos, o que se realizou de maneira impecável na opinião dos pilotos, acorrendo ainda a diversos pontos da Vila onde a sua presença se tornava necessária, recolhendo alguns cadáveres, ajudando o pessoal especializado em número muito reduzido, nos tratamentos, ministrando até injecções, colocando pensos e realizando outros trabalhos para os quais não estavam preparados, tudo executado com o máximo de desembaraço, rapidez e sobretudo boa vontade inexcedível, compenetração e espírito de abnegação e de bem servir, contribuindo assim com a sua acção para socorros mais rápidos e evitando perda de maior número de vidas, factos que foram reconhecidos pela população que de certo modo nos manifestou o seu agradecimento e nos retribuiu a solidariedade demonstrada. 

 Por todos estes motivos, a acção das NT aquarteladas na Sede deste Batalhão, merece ser posta em realce, pelos altos serviços prestados nesta situação de emergência, tudo decorrendo com tal método, ordem, disciplina e sem pânico que mais parecia um serviço previamente planeado e determinado.

Um abraço. João Parreira

domingo, 15 de setembro de 2019

Guiné 61/74 - P20149: Controvérsias (138): Ainda o atentado terrorista de 1 de Novembro 1965, em Morcunda ou Morocunda, Farim: "pessoal bandido não gostava de fulas e mandingas", era o que se ouvia dizer na época... Vi a "cara amassada" do Júlio Pereira... Infelizmente queimaram-me, em Bissau, o rolo de fotografias que tirei, onde estavam os suspeitos, detidos num campo vedado a arame farpado (António Bastos, testemunha dos acontecimentos)


Guiné- Bissau > Região de Oio > Farim > Março de 2008 > Cádi ou Cati, uma sobrevivente dos trágicos acontecimentos de 1 de novembro de 1965. O António Paulo Bastos conheceu-a,  na Missão Católica, na altura da sua 3ª viagem à Guiné-Bissau.

Foto (e legenda): © António Paulo Bastos (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Mensagem do nosso camarada António [Paulo] Bastos (ex-1.º cabo, nº 371/64, do Pel Caç Ind 953, Cacheu, Bissau, Farim, Canjambari e Jumbembem, 1964/66; esteve adido ao BCAV 790 e ao BART 733):

Data: sábado, 14/09/2019 à(s) 12:04
Assunto: 1 de Novembro 1965.

Bom dia, Luís e camaradas da Tabanca Grande:

Luís, mais uma vez vou falar sobre esse dia pois eu estava em Farim  [, nesse fatídico dia 1 de novembro de 1965, pelas 21:30, estava eu de passagem por Farim esperando transporte para Canjambari], quando se deu o rebentamento... Não estava na Morcunda [ou Morocunda] mas estava à porta da caserna do Pelotão de Morteiros, claro peguei logo na arma e esperei o pior (um ataque de  morteiros do Oio).(*)

Logo no outro dia,  fui a Morcunda ver onde rebentou a granada, ainda se via sangue e muitas coisas pessoais pelo chão.

Também ouvia os familíares [das vítima] dizerem que "pessoal bandido não gostava de Fulas e Mandingas".

Também em 2008, quando estive novamente em Farim, ao falar com o Gibril Candé e com a Kati, onde lhe tirei as fotos, foram unânime em dizer que foi o Júlio [Pereira] da Ultramarina [, o responsável pelo atentado]. (**)

Também fui à1ª Companhia [, a CART 730, que estava em Nema, Farim], a   ver os presos que já lá estavam onde vi o Júlio [Pereira] com a cara toda amassada e outros mais.

Tenho pena de,  em Bissau,   me terem queimado as fotos que eu tirei onde estavam os presos no campo vedado a arame [farpado]

Também li há dias o que o jornal 'O Democrata' dizia e não estou de acordo que tivesse sido a PIDE (***), que mandou lançar a granada, se bem que eles muito competentes de fazer isso e muito mais. 


Um abraço

A. Paulo do Pelotão Caçadores 953. (***)
_________________

Notas do editor:

(*) Vd. postes de:


1 de novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7205: Efemérides (54): O fatídico dia 1 de Novembro de 1965 (António Bastos)

(**) Último poste da série > 12 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20144: Controvérsias (137): Craveiro Lopes em Bolama, em visita de Estado... Era presidente da câmara municipal o Júlio [Lopes] Pereira, que passa, em dez anos, de cidadão respeitável a proscrito social... (Recorte de imprensa: "Diário Popular", Lisboa, 6 de maio de 1955)

Vd. também postes anteriores:

11 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20142: Controvérsias (136): Não consta que o Amílcar Cabral, o "pai da Pátria", tenha reivindicado a autoria (moral e política) do "atentado terrorista" de 1 de novembro de 1965, em Morocunda, Farim, e muito menos denunciado ou condenado esse ato monstruoso... Pelo contrário, até lhe convinha, para memória futura, que as criancinhas de Farim continuassem a repetir, em coro, estes anos todos, na escola, que esse ato foi obra maquiavélica e tenebrosa dos "colonialistas portugueses"...

10 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20140: Controvérsias (135): as duas noites de terror, em Farim, as de 1 e 2 de novembro de 1965, para as vítímas (mais de uma centena) do atentado terrorista, e para os indivíduos (mais de sessenta, o grosso da elite económica local) detidos e interrogados pela tropa pela PIDE, por "suspeita de cumplicidade"...

9 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20135: Controvérsias (134): os trágicos acontecimentos de Morocunda, Farim, em 1 de novembro de 1965: a memória das vítimas e o risco de falsificação da história... Excertos de reportagem do jornal "O Democrata", Bissau, 13/11/2014

7 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20130: Controvérsias (133): Os trágicos acontecimentos de Morocunda, Farim, de 1 de novembro de 1965, um brutal ato de terrorismo, cuja responsabilidade material e moral nunca foi apurada por entidade independente: causou sobretudo vítímas civis, que estavam num batuque: 27 mortos e 70 feridos graves
(***) Vd. poste de 18 de agosto de 2007 > Guiné 63/74 - P2060: Bibliografia de uma guerra (14) : o testemunho de Pedro Pinto Pereira. "Memórias do Colonialismo e da Guerra", de Dalila Cabrita Mateus (Virgínio Briote)

(...) Que assistira ao fabrico de uma bomba. Quando eles (PIDE) é que tinham deitado uma bomba em Farim, onde mataram muita gente,

(...) (quem lançou a bomba?) Foi a PIDE que mandou, tenho a certeza disso. Lançou a bomba para depois dizer que nós até matávamos africanos. Ali não havia quartéis, só havia casas comerciais, onde era fácil lançar bombas e fugir. Porque é que não lançavam as bombas nos quiosques, frequentados pelos militares portugueses? E iam deitar onde só estava a população? Queriam arranjar pretexto para fazer prisões. Havia, então, uma festa numa tabanca e morreram mais de cem pessoas. Isto passou-se no dia 1 de Novembro de 1965. (...)

(...) Nota da historiadora Dalila Cabrita Mateus: 


Confirmado o incidente, a PIDE, em mensagem por rádio existente nos arquivos de Salazar [, Arquivo Oliveira Salazar, 1908-1974, Torre do Tombo],  afirma que, no dia 1 de Novembro de 1965, cerca das 20 horas, fora lançado um engenho explosivo para o meio dos africanos que se encontravam num batuque em Farim. A explosão teria provocado 63 mortos e feridos, na sua maioria mulheres e crianças.

Foi detida meia centena de pessoas. Confissões obtidas levaram à detenção de um tal Issufo Mané, que declarou pretender atingir militares (?). Para o fazer, teria recebido 14 contos de Júlio Lopes Pereira, o qual, por seu lado, actuara por indicação do chefe da Alfândega de Farim, Nelson Lima Miranda. E este teria vindo a declarar que a bomba fora lançada a mando da direcção do PAIGC.

(AOS/CO/UL- 50-A, Informações da PIDE, 1965-1966, 86 subdivisões, pasta 2, fls. 636, 637, 638, 641 e 642).

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Guiné 63/74 - P16693: Carta aberta a... (14): ...ao Comandante Supremo das Forças Armadas Portuguesas, Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (Manuel Luís Lomba, ex-Fur Mil da CCAV 703 / BCAV 705, Bissau, Cufar e Buruntuma, 1964/66)

Portugal > Presidência da República > Havana, 26/10/2016 > O Presidente da República encontrou-se com Fidel Castro

O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa reuniu-se, em Havana, com o antigo Presidente cubano, Fidel Castro, um encontro que durou cerca de uma hora.

Foto (e legenda): Presidência da República (com a devida vénia)


1. Mensagem do nosso camarada Manuel Luís Lomba (ex-Fur Mil da CCAV 703/BCAV 705, BissauCufar e Buruntuma, 1964/66) com data de 5 de Novembro de 2016, trazendo, para publicar, uma carta aberta ao Comandante Supremo das Forças Armadas Portuguesas, Presidente da Rerpública Marcelo Rebelo de Sousa.

[ Foto à direita: Manuel Luís Lomba, residente em Barcelos,  autor do livro "Guerra da Guiné: A Batalha de Cufar Nalu".  Barcelos: Terras de Faria, 2012, 340 pp. (Email: terrafaria@iol.pt)].


CARTA ABERTA - 14

Espécie de carta aberta ao nosso compatriota Marcelo Rebelo de Sousa:

Excelência:

Como Presidente da República e Comandante Supremo das FA Portuguesas, prescindiu do meu respeito!

Como é de boa prática, faço uma declaração de interesses. Não votei no jurista e mediático comentador Marcelo, por o considerar uma flor da estufa social de Lisboa-Cascais; votei no engenheiro e trabalhador Henrique Neto, por o considerar uma espécie de esteva no resto da paisagem.

A minha geração deu em escrutinar o currículo militar aos “valores emergentes” do 25 de Abril. Em 1974, Marcelo, filho de ministro, tinha 26 anos e sem assentar praça, quando o povo comum se tornava magala aos 21 anos! Terá sido um dos honrosos refractários de facto, mas não de direito, obviamente…

A curiosidade pela vida militar dos que se promovem ou são promovidos ao topo político não revela tendência militarista. O nosso orgulho de ex-combatentes não é de actores nos palcos da Guerra do Ultramar, mas de camaradas de D. Afonso Henriques, o primeiro soldado de Portugal, 800 anos depois de ele ter fundado a nacionalidade portuguesa e dado à luz a nossa independência política. E sem inibições em manifestar o nosso respeito aos que, movidos por idêntica aspiração, nos deram combate nessa guerra.

Como Presidente da República de plena legitimidade, como o meu ADN é lusitano passei a dedicar o devido respeito e a tributar a minha lealdade a S. Ex.ª, com unhas (os dentes já não são capazes). A romagem de S. Ex.ª a Fátima e a Roma poderá entender-se um acto positivo. É que enquanto Portugal e os Portugueses dedicaram os seus afectos e devoção a Nossa Senhora, de Oliveira, da Conceição ou de Fátima, tornou-se independente, construiu-se, expandiu-se ao Mundo – e foi Império durante 500 anos! Decretada a sua orfandade, os “portuguesinhos” venderam o país e a sua alma, Portugal perdeu tudo – sobretudo a vergonha! – para se tornar um protectorado da União Europeia, dependente e venerador da Troika e da Senhora Merkl…

Que S. Ex.ª vá a Cuba em visita de Estado, são atribuições do seu cargo, e compreensíveis são os sorrisos amistosos e os cumprimentos mediáticos que dispensou ao seu chefe, por maior tratante que tenha sido para com os Portugueses e continue a ser para os cubanos. Ossos do ofício. Mas que vá prestar menagem e veneração ao fossilizado Fidel Castro – e espere um dia para ser recebido por ele – é inadmissível! Porquê? O Presidente da República de Portugal tem obrigação de saber, o dever de sentir e de ter a coragem moral de tomar as dores das ofensas militares ao seu país!

“Quem não se sente, não é filho de boa gente” – sabedoria popular portuguesa.

Reconhecidamente paciente desse complexo de superioridade de revolucionário, o cubano Fidel Castro tornou-se agente da morte, sofrimento e privações do povo cubano, impondo-lhe o culto da sua personalidade e a ditadura ideológica e social, feroz e oligárquica, que o oprime há quase 60 anos! E a estruturação do seu pensamento revolucionário começara por colocar a Humanidade à beira do apocalipse nuclear USA-URSS e a passar 14 anos a matar Portugueses, pelas ofensas militares ao nosso país, por assuntos que não lhe diziam respeito.

No tempo em que andei em perigos e guerras esforçados ao longo da fronteira Leste e Sul da Guiné, com os corajosos e eficientes guerrilheiros do PAIGC, como o seu chefe Amílcar Cabral apregoava já controlar dois terços do território, Fidel Castro tentou convencer o presidente da República da Guiné a ceder o seu país como plataforma da invasão pelo exército cubano. Sekou Touré era verdadeiro inimigo de Portugal, mas ditou:
- Como o Cabral já controla dois terços do território, tens muito por onde lançar a invasão, entre o Geba e o Cacheu…

Enquanto os outros patrocinadores, desde a Europa do Norte, passando pela URSS e satélites, à China e aos Estados Unidos, cooperavam com a guerrilha, mas não autorizavam os seus nacionais a pisar território português, Fidel Castro enviava oficiais e especialistas do exército regular de Cuba, para planear e supervisionar as operações para matar soldados portugueses nas fronteiras da Guiné.

Excelência:

Para atalhar o tema, atente em dois factos, anda bem frescos na memória de milhões de Portugueses e que ainda amarguram os corações de centenas de milhares, imputáveis ao “el comandante en jefe” cubano da sua devoção.

Os ataques massivos contra as tabancas fronteiriças de Guileje, Gadamael, Guidaje, Canquelifá, etc, planeados, supervisionados e desencadeados por elementos do exército regular de Cuba, durante o primeiro semestre de 1973, provocaram cerca de 2000 vítimas portuguesas, entre os nativos residentes e os nativos atacantes, incluindo cerca de 200 soldados portugueses metropolitanos.

É ao exército cubano que os Portugueses e os Angolanos devem, infelizmente com a cumplicidade do MFA português, a materialização da inveja e da sanha internacionalista, que visava a desconstrução da realidade física e social, atingida pelo Estado de Angola, como subempreiteiro por conta dos interesses dos imperialismos – Rússia, Estados Unidos e China. Nos 13 anos da guerra sustentada por Portugal, o progresso económico e social de Angola foi exponencial; nos 16 anos da guerra alimentada pelos cubanos, a destruição económica e o retrocesso civilizacional de Angola bateram no fundo.

E lembramos a sua responsabilidade na desnatação dos quadros, que alavancavam o progresso angolano e das suas vidas - os 800 000 refugiados, que Portugal recebeu sob o eufemismo de “retornados” – como vítimas do maior roubo da História, apenas superado pelo confisco nazi aos Judeus.

Excelência: É devoto de Fidel Castro? Aquela rapaziada do Governo que foi ver os jogos do Campeonato da Europa à borla, também era devota – e da Selecção Nacional! E já fez a sua autocrítica.

Faça como eles…
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Nota do editor

Último poste da série de 16 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16310: Carta aberta a... (13): ...ao Senhor Presidente da Republica Portuguesa e Comandante Supremo das Forças Armadas (José Martins, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 5)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Guiné 63/74 - P15082: Tabanca Grande (473): José Vargues, ex-1.º Cabo Escriturário da CCS/BART 733 (Bissau e Farim, 1964/66), tertuliano 702

1. Mensagem do nosso camarada e novo tertuliano, José Vargues (ex-1.º Cabo Escriturário da CCS do BART 733, Bissau e Farim, 1964/66), com data de 3 de Agosto de 2015:

Estive em na Guiné de 1964/1966 como 1.º Cabo Escriturário do Comando da CCS.
Estive na Granja, depois em Brá e passado algum tempo fui para Farim num Dakota, com mais alguns camaradas.
Na secretaria estava a chefiar o Alferes Martins, o 1.º Sargento Guimarães e os 1.ºs Cabos Sancho, apelidado de "Almada" e o Alfredo, apelidado de "Andorinha".

Durante o tempo que estive em Farim, estive com mais 3 camaradas num quarto perto do aquartelamento.

Quero aqui relatar um caso que aconteceu comigo.
Uma noite que estava de Cabo da Guarda na guarita junto ao arame farpado, bastante longe do aquartelamento.
Levei comigo dois soldados nativos e escolhi fazer o 1.º turno.
Adormeci e acordei sobressaltado com os disparos feitos pelo Alferes Lopes da Tesouraria, para o mato através da vigia.
Ele levou as três armas e no outro dia estavam na Tesouraria. Ele nada referiu.

Aqui ficam os meus agradecimentos, mais uma vez.

Um abraço
José Vargues


 Parada em Farim. José Vargues assinalado pela seta


2. Comentário do editor:

Caro camarada Vargues, bem-aparecido na tertúlia onde hoje és recebido formalmente.
Como o mês de Agosto coincide com alguma acalmia no Blogue, deixei para agora a tua apresentação.
Não estranhes o tratamento informal por tu, uso entre nós, independentemente das nossas idades e de outras "diferenças".

Quanto à história que nos contas, o teu oficial andou muito mal porque não se deve em circunstância alguma tirar a arma a ninguém, muito menos a quem está de serviço. Há muitas maneiras de chamar a atenção e "castigar" o prevaricador se e quando necessário.

Embora, julgo eu, tenhas feito uma guerra mais calma, se tiveres algumas histórias, que não precisam ser de guerra, para nos contar, manda para as darmos a conhecer à tertúlia. Se mandares fotos, peço-te que o faças com mais resolução, já que a que nos mandaste, e eu publiquei, vinha só com 32KB. O tamanho ideal para uma boa edição é acima dos 100KB.

Em relação ao teu Batalhão, temos 17 entradas, clica aqui para acederes aos postes.
Há na tertúlia 4 camaradas que pertenceram ao BART 733:
Artur Conceição e João Parreira da CART 730;
António Bastos do Pel Caç Ind 953 e
Luís Camolas, que como tu fez parte da CCS.
Clica nos nomes para acederes às suas postagens.

Julgo que está dito o essencial pelo que te endereço um abraço de boas vindas em nome da tertúlia e dos editores.

O teu camarada e novo amigo
Carlos Vinhal
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Nota do editor

Último poste da série de 7 de Setembro de 2015 > Guiné 63/74 - P15080: Tabanca Grande (472): José Matos, investigador independente em história militar, filho do nosso falecido camarada José Matos, fur mil da CCAV 677 (Fulacunda, São João e TIte, 1964/66)... Novo grã-tabanqueiro nº 701