sábado, 29 de setembro de 2018

Guiné 61/74 - P19056: Memórias de Gabú (José Saúde) (71): Gabu em tempos de despedida. Rebentamentos de material de guerra (José Saúde)


1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos mais uma mensagem desta sua série. 

Gabu em tempos de despedida 

Rebentamentos de material de guerra 

O tempo passava por uma série de iniciativas, agora já em tempo de paz, no interior do arame farpado que impunham mestrias em princípios básicos que visavam rigorosas convenções previamente engendradas e depois levadas à prática. 

A euforia do 25 de Abril manifestava-se, em simultâneo, pelo mais recôndito lugar onde as nossas tropas lutavam nas três frentes de guerra por terras de África: Angola, Moçambique e Guiné. 

Em Gabu, Guiné, ecoava-se, igualmente, o hino da liberdade. A Revolução dos Cravos de 1974 abria novos horizontes e o pessoal no terreno da guerrilha lançava descomunais gritos de entusiásticas manifestações de plena alegria. 

A guerra havia terminado. Longe ficavam registados os dias de pavor e das atrocidades conhecidas. A morte de um camarada, ou as emboscadas nas picadas, os flagelamentos noturnos aos quartéis, ou a retirada de mais um camarada ferido em combate, enfim, um conjunto de circunstâncias entretanto sabidas que requeriam uma autoavaliação sobre os horrores de uma peleja onde se cruzavam mundos de fétidos interesses. 

Fui chamado para participar com o meu camarada Santos, furriel miliciano de minas e armadilhas, numa missão que tinha como finalidade o rebentamento de material de guerra armazenado no paiol e que necessitava o seu desfazer. 

Estudámos a tarefa ao pormenor e o respetivo local para a operação. O sítio escolhido ditava para um profundo matagal. Naquela frente existia um campo de minas demarcado por dois fios de arame farpado. Ah, lembro-me de um dia uma vaca ter entrado naquele espaço e rebentar uma mina causando-lhe a morte. 

Uma bela manhã começamos a labuta. O Santos foi-me dando dicas e o trabalho lá se protelou por uns dias. Antes, porém, todas as granadas a rebentar passou, naturalmente, por um inventário. 

Inventário atempadamente visto e revisto, sendo que os explosivos mereceram profícuos reconhecimentos e nada foi feito à toa de prazeres pessoais. Ali ninguém retirou uma simples peça para uma eventual recordação. Lembro a nossa azáfama perante tal responsabilidade. 

Cada caixa de granadas retirada do paiol obedecia a claros cumprimentos superiores. Havia ordens do capitão e qualquer explosivo detonado ficava implicitamente catalogado. 

O Santos, conhecedor do material armazenado, orientava os trabalhos e ele próprio manobrava cada granada, e respetivo detonador, com um à-vontade desmedido. A sua especialidade deu-lhe conhecimentos quanto baste para em casos de necessidade fazer uso da experiência adquirida. 

Por outro lado, eu como ranger, possuía, também, úteis conhecimentos em armamentos o que valeu a minha chamada ao serviço. Sei que foram várias as manhãs que passámos imbuídos numa luta que teve como prioridade o “queimar” as muitas caixas de granadas até então instaladas num paiol que se pretendia livre para entregar ao PAIGC no dia em que abandonássemos as instalações. 

Repare-se nas imagens que vos deixo camaradas: o local do “crime” completamente plano no início dos rebentamentos e o mesmo após alguns dias de intensos “bombardeamentos”. No final um enorme buraco onde uma Berliet, por exemplo, se afundaria sem lei nem roque. 

Coisas fidedignas de Gabu mas em tempo de “arrumar as botas” e dizer o definitivo adeus a uma guerrilha que antes nos fora severa. 

Ficam as reproduções recolhidas e a melancolia de uma guerra que ainda hoje mexe com os nossos egos. 



Um abraço, camaradas 
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 

Mini-guião de colecção particular: © Carlos Coutinho (2011). Direitos reservados.
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Nota de M.R.: 

Vd. último poste desta série em: 



Guiné 61/74 - P19055: Os nossos capelães (12): O Carlos Manuel Valente Borges de Pinho, ex-alf mil capelão, de 16/3 a 16/9/73, CCS/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, 1973/74)


Guiné > Região de Tombali > BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Buba. Nhala, 1973/74 > Nhala > 10 de março de 1973 > 10 – Visita da Cilinha [, Cecília Supico Pinto, presidente do Movimento Nacional Femininpo].  aqui à conversa com o comandante do Batalhão, ten cor Carlos Ramalheira. Em primeiro plano,  o cap João Brás Dias, cmdt da  1.ª CCAÇ/BCAÇ 4513,  de Buba. O ten cor César Emílio Braga de Andrade e Sousa foi o 1º  comandante do batalhão,  abandonaria o TO da Guiné, por doença, logo no início da comissão, sendo substituído pelo ten cor Carlos Alberto Simões Ramalheira, aqui na foto].

Foto (e legenda): © António Murta (2015).  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].


1. Comentário de José Teixeira ao poste P19024 (*):
O Carlos Manuel Valente Borges de Pinho era e é felizmente meu amigo pessoal, ao ponto de ser por convite o celebrante do meu casamento.

Foi coadjutor da paróquia de Cedofeita, no Porto, transitando depois para S. João de Ovar. 

Por razões afetivas, abandonou o sacerdócio uns meses depois de ter chegado à Guiné. Veio de regresso e foi para Mafra tirar o COM [, Curso de Oficiiais Milicianos,],  por imposição militar e foi colocado em Infantaria 6 no Porto para formar Batalhão e partir para a guerra. 

Entretanto deu-se o 25 de Abril e ficou por cá.

Estava marcado e vigiado pela PIDE/DGS  desde Cedofeita. Sei que foi chamado pelo comandante de Batalhão e por este lhe foi dito mais ou menos isto:

- A PIDE ordenou-me que o Capelão fosse vigiado porque era um tipo perigoso - e mais lhe disse:  - Eu não lhe vou criar problemas, faça a sua vidinha, mas, se me complicar a minha,  fodo-o.

Chegou a estar em Aldeia Formosa. Foi por ele, no seu regresso que soube que o Alferes de 2ª linha e meu amigo, o Aliu Baldé, chefe de Tabanca de Mampatá, tinha falecido por doença e que a grande àrvore que havia no centro de Mampatá tinha sido abatida para alargar a estrada para Iroel/Colibuia/ Nhacobá.

Cursou direito e foi trabalhar para a Soares da Costa, de onde já se deve ter reformado.

José Teixeira

2. Comentário do editor LG:

Obrigado, Zé pela teu precioso comentário. O Carlos Manuel Valente Borges de Pinho foi capelão apenas por 6 meses: de 16/3 a 16/9/1973 (**).  Por informação do nosso camarada Fernando Costa, de 4 de setembro de 2014,  sabemos que pertenceu à CCS/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, 1973/74).  Aliás, o seu nome consta da lista do pessoal do batalhão [Vd. o blogue deste batalhão, que se publica desde 2010 e tem mais de 53 mil visualizações].

É a ele, seguramente, que se refere um poste de 11/4/2014, com o depoimento de um camarada deste batalhão, que pediu na altura o anonimato, pedido que foi aceite, a título excecional, dado o interesse do assunto. (***).

Oxalá apareçam mais depoimentos sobre os nossos capelães e, sobretudo, que apareçam mais capelães a dar a cara no nosso blogue, o mesmo é dizer, a exercer o dever e o direito à memória. Como é timbre da nossa Tabanca Grande, não estamos aqui para julgar ninguém, apenas para partilhar memórias (e afetos). (****)

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Notas do editor;

(*) Vd. poste de > 18 de setembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19024: Os nossos capelães (10): O "romance do Padre Puim", por Carlos Rebelo (1948-2009), ex-fur mil sapador, CCS/BART 2917 (Bambadinca, 1970/72)

(**) Vd. poste de 17 de setembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19023: Os nossos capelães militares (9): segundo os dados disponíveis, serviram no CTIG 113 capelães, 90% pertenciam ao Exército, e eram na sua grande maioria oriundos do clero secular ou diocesano. Houve ainda 7 franciscanos, 3 jesuitas, 2 salesianos e 1 dominicano.

Guiné 61/74 - P19054: Os nossos seres, saberes e lazeres (286): Primeiro, Toulouse, a cidade do tijolo, depois Albi (5): Dos jardins do Palácio de la Berbie em Albi, de novo na cidade do tijolo (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 20 de Julho de 2018:

Queridos amigos,
Foi com pesar que se deixou Albi, ficou muito para ver e rever. No final desta série, é com muito gosto que voltarei a falar e mostrar obras desse génio chamado Henri de Toulouse-Lautrec.
E voltei a Toulouse, havia muitíssimo mais para ver, em doses comprimidas, isto para já não esquecer que a cidade é aprazível, ajardinada e embelezada pelo canal do Midi. Desta feita, vagabundeou-se até chegar à grande beleza que é o Convento dos Jacobins. A próxima surpresa em Toulouse será o regresso à Basílica de Saint-Sernin e fundamentalmente ao Museu des Augustins que guarda um repositório único de capitéis românicos, deles falaremos mais adiante.
Amanhã o passeio é até Carcassonne e depois seguem-se os Pirenéus.

Um abraço do
Mário


Primeiro, Toulouse, a cidade do tijolo, depois Albi (5): 
Dos jardins do Palácio de la Berbie em Albi, de novo na cidade do tijolo

Beja Santos

Impõe-se uma confissão do viandante: por ele, não arredava pé de Albi, está deslumbrado, é um crime lesa-majestade não voltar a percorrer a Catedral de Santa Cecília, mais impressionante obra-prima do gótico meridional não existe, não houve tempo de andar pela Ponte Velha, a Colegial Saint-Salvi e o seu claustro é um conjunto excecional que vem desde o século X, enfim, teve uma barrigada de Toulouse-Lautrec e agora vê lá do alto os jardins do Palácio de la Berbie, mais poderoso contraste entre o palácio-fortaleza e o rio não podia haver, é um jardim à francesa, parece tirado da revista de modas e bordados, um primor da jardinagem, e depois olha-se à distância a Ponte Velha, com um traço de azedume, é como ver Braga por um canudo, com as greves dos comboios os turistas estão sujeitos aos horários estritos dos autocarros. É hora de regressar a Toulouse.



Adeus Catedral de Santa Cecília, castelo por fora, palácio por dentro, esta entrada recamada entre o tardo-gótico e o Renascimento é coisa nunca vista. Adeus e até ao meu regresso.


Pareciam formigas numa algraviada, formigas grisalhas, umas dirigindo-se ao parque dos autocarros de turismo, outras à procura de uma estação bem perto dos comboios. As formigas estacaram, em enlevo, a mirar a catedral iconográfica, ouviu-se um comentário em castelhano, houvera sorte com o dia, bem verdade, olhe-se para aquele azul com nuvens bem altas a emoldurar a espantosa construção cor de tijolo. E para a cidade do tijolo, Toulouse, nos voltamos. Durante alguns dias, assim será, ida e volta.


O prato forte que está apalavrado para esta manhã de Toulouse é o Convento dos Jacobins, os Jacobins, uma fundação da Ordem dos Dominicanos, em 1215. O viandante começa o dia degustando o croissant de folha estaladiça e café au lait. Tem em frente um fontanário e uma fachada de tijolo, é irresistível não guardar a imagem, mais a mais a empregada que o serviu já falou dos encantos de Lisboa, andou no elétrico 28, comeu pastéis de bacalhau no Bairro Alto, ia munida de um guia Routard, não falhou os museus mais baratos, vinha deliciada com o Museu Nacional de Arte Antiga. Eis senão quando se atravessa o Capitólio de Toulouse e dá-se com uma festa LGBT, música, pavilhões, um palco em movimento. O viandante vasculha documentação, tem a doença do papel, encontra documentação curiosa sobre violência doméstica e os programas LGBT para seniores, acompanhamento de doentes, visitas a quem sofre, etc. O aspeto mais impressivo eram aqueles jovens, desinibidos, comunicativos, festivos, um quadro de um mundo que mudou radicalmente e atirou preconceitos e tabus para o fundo dos armários.




Vindo o viandante já assarapantado com o que vira em Albi, não deixa de ser esmagador olhar em todas as direções para este gótico meridional sobre influência das ordens mendicantes. Ainda se pode perceber o que foi a igreja primitiva, retangular, edificada de 1230 a 1235 e que depois se expandiu, ergueu-se a nave, todo aquele abobadado de teto se reticulou, é deslumbrante. O viandante prometera a si mesmo voltar a Albi e estende agora a promessa a regressar a Toulouse mais não seja para se estarrecer com o que o Convento dos Jacobins nos oferece, olhem bem.



Não querendo ensinar o Padre-Nosso ao vigário, recordo que a arte gótica apareceu no século XII, no Norte de França, exprimiu-se em várias fases até chegar ao gótico-flamejante. Aquilo que se chama gótico-meridional tem a ver com os materiais e neste caso o tijolo, assim se distingue do gótico do Norte, que usava o mármore e as pedras brancas. Este convento é reconhecido mundialmente pela sua abóbada em leque, a discrição dos vitrais, os elementos decorativos no abobadado. Estes irmãos pregadores vão ter um papel importante na luta contra a fé cátara, e aparecem associados à criação da primeira universidade de Toulouse, em 1229. Este convento medieval tem requisitos únicos: luminosidade e majestade dos volumes, uma espantosa organização dos lugares de vida da comunidade, e daí o interesse em visitar o claustro, a sala do capítulo, deslumbrar-se com o campanário que é uma torre octogonal com quatro níveis, arcos mitrados, passear pelo refeitório e parar diante do túmulo de São Tomás de Aquino.




Este Doutor da Igreja terá nascido entre 1224 e 1225 e faleceu em 1274. O seu pensamento trouxe novidade e fecundidade para o estudo da teologia. Desde o século XIV que as suas relíquias atraem aqui numerosos peregrinos, o seu túmulo está colocado sobre o altar-mor da igreja e todos os anos, a 28 de janeiro, dia de S. Tomás, os Dominicanos comemoram a trasladação do seu corpo para Toulouse. Porque Tomás de Aquino era italiano, é autor de um documento fundamental para o pensamento religioso católico, a Suma Teológica. Depois de muitas peripécias, as relíquias voltaram em 1974 para o Convento dos Jacobins. O mínimo que se pode dizer é que ele está num ambiente perfeito, é incontestável.

Amanhã, o viandante volta a território consagrado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, Carcassone.


(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 22 de setembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19035: Os nossos seres, saberes e lazeres (285): Primeiro, Toulouse, a cidade do tijolo, depois Albi (4): O fascinante Museu Toulouse-Lautrec (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P19053: Parabéns a você (1503): António Bastos, ex-1.º Cabo At Inf do Pel Caç Ind 953 (Guiné, 1964/66)

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Nota do editor

Último poste da série de 26 de setembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19047: Parabéns a você (1502): António Medina, ex-Fur Mil Art da CART 527 (Guiné, 1963/65) e Amílcar Mendes, ex-1.º Cabo Comando da 38.ª Companhia de Comandos (Guiné, 1972/74)

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Guiné 61/74 - P19052: Notas de leitura (1104): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (53) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Fevereiro de 2018:

Queridos amigos,
A documentação avulsa constante no Arquivo Histórico do BNU é bastante parcimoniosa sobre os acontecimentos da II Guerra Mundial, aqui fica referência a um aspeto de transferência financeira que envolvia os beligerantes, na vizinhança da Guiné.
Tema quente era o fim da filial de Bolama, com a mudança de capital. O gerente Virgolino Pimenta não deixa de zurzir o seu colega de Bolama e de referir que era tempo de acabar com aquele sorvedouro de dinheiro, tratava-se de um clamoroso prejuízo. Este gerente Virgolino Pimenta é uma das figuras centrais desta documentação esparsa, é seguramente a figura mais desassombrada e de comentários mais brutais de toda a vida do BNU da Guiné.

Um abraço do
Mário


Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (53)

Beja Santos

Estamos já na guerra, impõem-se esclarecimentos sobre a delicadeza de transferências financeiras que envolvem países em conflito, em 1941 a capital está formalmente transferida para Bissau, põem-se assuntos delicados relacionados com a filial de Bolama, alguns deles dignos do maior interesse.
Neste acervo avulso chama logo a atenção um ofício expedido pelo gerente Virgolino Pimenta para Lisboa, o assunto tem a ver com a filial do Banque de l’Afrique Occidentale em Dakar, informa-se o seguinte:
“Bathurst, onde o Bank of British West Africa tem uma filial, fica na Gâmbia e está encravada no território francês que tem que ser atravessado por quem lá queira ir, partindo da nossa Guiné.
Actualmente, as autoridades não deixam passar ninguém da nossa colónia para a Gâmbia ou vice-versa o que, contudo, e em caso de haver interesse no negócio, talvez se pudesse conseguir com uma intervenção nossa junto do governador do Casamansa, em Ziguinchor, ou com uma ordem da Legação Francesa em Lisboa, para a mesma autoridade.
Em princípio, pusemos de parte a ideia de se juntarem aqui as notas do Bank of British West Africa Ltd. e levarem-se a Bathurst, por razões muito sérias e de ordem vária que resultam da situação atual.
No entanto, se V. Exas. ordenarem tal serviço, nós faremos tudo para o executar.
Como sabemos que a Nouvelle Société Comerciale Africaine tem aqui escudos da Guiné em demasia e deve precisar de libras na Gâmbia, abordámos o seu gerente que, em princípio e sem nenhum compromisso da sua parte ou da nossa, nos disse que poderia interessar-lhe o negócio nas seguintes condições:
O nosso devedor Banque de l’Afrique Occidentale depositaria as libras West Africa, em Bathurst, à ordem da Nouvelle Société Comerciale Africaine daquela cidade e a mesma aqui, mediante telegrama, entregar-nos-ia os escudos da Guiné a um câmbio acordado e para o qual precisamos elementos, pois não temos hoje base para o fixar.
Tudo depende ainda de se conhecer a importância que o Banque de l’Afrique Occidentale tem de pagar.
Nas circunstâncias actuais, não vemos aqui outra solução para o assunto a não ser que possa interessar recebermos aqui as libras e remetê-las à sede.
Dadas as dificuldades de navegação, que parecem sujeitas a agravamento, para esta colónia, parece-nos conveniente uma resposta telegráfica, caso V. Exas. encontrem interesse no assunto.”

A partir de janeiro de 1941 adensa-se a correspondência de Bissau para Lisboa referente à desativação do filial de Bolama. Logo o cadastro de clientes, com informações curiosas:
“Carlos Machado – A sua situação é muito precária e, portanto, é muito prudente não lhe conceder nenhum crédito. Quanto à sua moralidade individual, talvez seja mais seguro tê-la por “regular”; Joaquim Ribeiro da Silva – Empregado da Casa Gouveia. Confidencialmente, e até por uma confissão verbal do próprio, sabemos que se mete em negócios do seu interesse particular, servindo-se da posição que tem naquela casa. Assim, tem arranjado bom dinheiro. Pomos reserva na sua moralidade que consideramos abaixo de regular, desde que se trate de negócios.
Dada a sua função de empregado da Casa Gouveia, casa hoje, como sempre, se mantém numa posição permanente de ataque aos interesses do Banco, pensamos que só pedirá crédito em último transe, pois, como é público, dispõe dos dinheiros da casa para os seus negócios.
Manuel de Pinho Brandão – É, francamente, má a moralidade deste indivíduo e citaram-na, decerto por mero lapso, como “boa”. Só por um muito infeliz acaso não se encontra a ferros para toda a vida.”

Vale a pena insistir que o gerente Virgolino Pimenta escrevia com este desassombro seguramente porque estava autorizado, foram anos sucessivos de catilinárias e expressões desabridas, não poupava ninguém, é seguro que Lisboa apreciava o vitríolo dos seus comentários. Intervém em tudo, veja-se, com data de 24 de maio de 1938 o que escreveu para Lisboa:
“O senhor presidente da Câmara de Bolama, aquele Sr. Delicado já célebre por ter sido aqui um sócio da revolução do Béla Kun, em 1931, parece que continua aivado dos mesmos princípios de destruição dos bens e propriedades alheias que caracterizava aquela revolução para a qual forneceu matéria para bombas.
Assim, preza-se de ser um inimigo do Banco, comprazendo-se em incomodar-nos sempre que pode. Tem sido grosseiro com o nosso encarregado de Bolama, pessoa que merece consideração a todos e tem-no importunado.
Agora Sua Excelência lembrou-se de fazer uma avenida, em Bolama, devendo esta ter, num dos lados, muros e só muros.
E, para tal, tem duas soluções, tirar aos donos os terrenos onde têm caído prédios velhos e destruir os prédios que estão bons e dão rendimento aos donos. Está o nosso neste caso e o Sr. Presidente Delicado quer que o Banco o dê à Câmara ficando com uma nesga de terra de uns três metros de profundidade por detrás do seu projectado muro, certamente para ele, no futuro, arranjar qualquer novo litígio por causa desta nesga de terreno”.

Informa-se Lisboa de como se está a processar a transferência de Bolama para Bissau, Virgolino Pimenta aproveita a oportunidade para lançar uma farpa ao Encarregado de Bolama:
“Imensamente desagradável nos tem sido também registar que o Sr. Encarregado de Bolama não tem querido manter a harmonia na sua filial, principalmente com o tesoureiro que tem sido uma perfeita vítima da falta de educação e maldade do Sr. Encarregado, que o persegue ferozmente. O Sr. Encarregado de Bolama, cujo carácter já conhecemos há quase duas dezenas de anos, é odiento, com os laivos de baixa cultura que mal fixou e de educação que não deixa dúvidas quanto à sua não existência. Tem sido um elemento de indisciplina invulgar, dentro do quadro do pessoal da Guiné, e actualmente aparenta quietude porque V. Ex.ª lhe impôs. Mas não tenha V. Ex.ª dúvida, não a aceita bem e sempre que pode mostra-se grosseiro.
Agora mesmo, acabamos de conhecer que obriga o servente do Banco a ser seu criado particular. V. Ex.ª diz-nos que nota da nossa parte falta de necessária e criteriosa acção para se modificar o Sr. Baptista. Pois pode V. Ex.ª crer que, com a calma com que temos suportado tanto desrespeito, tanta indisciplina, tanta grosseria, outra coisa não temos feito senão o contrário do que V. Ex.ª supõe.
O Sr. Baptista não tem razão absolutamente nenhuma para ser connosco como é, e só o é por ódio, cuja razão desconhecemos, e por falta de educação”.

Verboso e virulento, o gerente Virgolino Pimenta agradece os encómios e louvores que lhe chegam de Lisboa, apresenta-se com uma modéstia extrema:
“Se nada nos liga nem nada nos prende, pessoalmente, nesta colónia, confessamos aqui o nosso amor por ela, e o nosso sentimento por a vermos tão mal aproveitada, sendo tão rica e tão pródiga em recursos como é.
Com os conhecimentos que temos da praça e da colónia, com as boas relações que temos em toda a parte, não havendo uma porta que se nos feche, é fácil cumprirmos a nossa missão como V. Ex.ª. quer e nós também, que a cumpramos”.

Em 1 de maio de 1941, o gerente Pimenta informa o Sr. Governador do BNU do que se está a passar na filial de Bolama:
“O Sr. Governador deu ordem para se activar o acabamento do edifício destinado à Repartição Central dos Serviços da Fazenda e à Repartição dos Serviços de Administração Civil, pois deseja que estes serviços passem para Bissau onde ficará então a capital da colónia.
Conta-se que, dentro de uns três ou quatro meses, o máximo, tudo estará efectivado, pois até para se ocorrer às necessidades de alojamento para o pessoal está também a activar-se a construção de 12 moradias para funcionários.
Nestas circunstâncias, é altura própria para se renovar o pedido ao Governo Central, caso a nossa ideia mereça o apoio de V. Ex.ª, de se fechar a filial de Bolama de modo que terminem os enormes prejuízos que o Banco tem com ela e vão a um grande milhar de contos, nos últimos dez anos.
Em sua carta de 6 de Janeiro de 1933, já o Exmo. Sr. Presidente do Conselho Administrativo do nosso Banco escrevia ao Exmo. Sr. Secretário-geral do Ministério das Colónias que ‘… a praça de Bolama, comercialmente, não tem condições para sustentar a organização de um estabelecimento bancário, mesmo modesto que seja’.
E isto que era uma realidade absoluta há 7 anos, tornou-se ainda mais evidente hoje, pois Bolama, dia-a-dia, tem perdido o valor comercial que naquela altura, e muito justamente, se lhe negava. E, o que é pior, não se entreveem se não possibilidades de decrescer mais esse já tão ínfimo valor.
A compartilhar esta razão, encontra-se um parecer que o Sr. Governador João José Soares Zilhão prestou a Sua Excelência o Ministro das Colónias, em seu ofício de 7 de Fevereiro de 1932 àquela entidade dirigido e onde afirma: ‘O fechar da agência do banco em Bolama e a mudança de capital parecem-me factos que devem ser conexos’. E daqui se conclui que entendia que se devia então fechar Bolama, logo que a capital mudasse.
A passagem dos serviços de Bolama para aqui obriga-nos a considerar a V. Ex.ª que nos falta lugar na nossa casa-forte para os valores do Tesouro.
Este inconveniente soluciona-se facilmente, acrescentando à casa-forte actual o compartimento ao lado, onde hoje mal cabe o nosso arquivo.
Para arquivo geral daqui e do que vier de Bolama é que não vemos lugar, mas há a grande facilidade de se acrescentar ao edifício, para o lado das traseiras, uma nova e ampla sala, cuja cobertura será uma simples laje de cimento, em continuação da actual varanda do edifício, modificação esta que em nada prejudica a estética deste.
Quanto a pessoal, terá que vir para aqui o funcionário que trabalha com o serviço do Tesouro e deverá vir o tesoureiro também pois o serviço de tesouraria que já é muitíssimo em Bissau e em várias alturas do ano obriga a ter que se mandar dois e mesmo três funcionários de outras secções ajudar na tesouraria, o que tem que se fazer, por força, embora não seja muito aceitável”.

O assunto da extinção da agência de Bolama só ficará clarificado em 16 de maio de 1942, a administração do BNU envia a seguinte determinação:
“Atendendo a que a capital da colónia foi transferida para Bissau, e que resolvemos extinguir a filial de Bolama, o Conselho do Banco resolveu em sua sessão de 12 do corrente que a dependência de Bissau passasse a denominar-se filial de Bissau.
Depois de a sede ter mandado circular a extinção da filial de Bolama, poderá Bissau usar a nova denominação.
Vossas Senhorias remeterão à repartição do arquivo da nossa sede os antigos carimbos da filial de Bolama”.

Mas os trâmites administrativos da transferência irão arrastar-se por mais tempo, como se verá adiante.

(Continua)


O Arquivo Histórico do BNU tem um belo património de plantas de edifícios construídos e outros planeados. O primeiro documento refere-se a um projeto da autoria do arquiteto Fernando Schiappa de Campos para as novas instalações da sede do BNU em Bissau, Marcello Caetano, na viagem efetuada em 1969 fez o reparo de que a sede era digna mas requeria uma construção moderna, o BNU mandou proceder a estudos, a nova sede não chegou a aparecer, o mesmo se passou com o plano de construir uma delegação em Bafatá. Entanto, construíram-se moradias para funcionários do BNU, houve sempre a preocupação de ter os funcionários bem instalados.


Fotografias do que resta do Hospital Militar e Civil de Bolama, reproduzidas, com a devida vénia, do livro “Bijagós Património Arquitetónico”, Edições Tinta-da-China, 2016.
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Nota do editor

Poste anterior de 21 de setembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19033: Notas de leitura (1102): Os Cronistas Desconhecidos do Canal do Geba: O BNU da Guiné (52) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 24 de setembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19041: Notas de leitura (1103): “Ku Mininos Di Nô Terra, Ideias para a educação pré-escolar”, trabalho coordenado por Carlos Lopes e Olívia Mendes, para o Departamento de Educação Pré-escolar, edição patrocinada pelo Ministério da Educação Nacional da Guiné-Bissau e pelo Instituto Universitário de Estudos do Desenvolvimento, Genebra, edição DEDILD – Departamento de Edição, Difusão do Livro e do Disco, Bissau; 1982 (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Guiné 61/74 - P19051: Agenda cultural (650): Homenagem na Casa do Alentejo, Lisboa, sábado, dia 29, aos bonecos e aos bonecreiros de Estremoz, uma arte recentemente classificada como "património cultural imaterial da humanidade"



Casa do Alentejo, Lisboa, sábado, dia 29 > Homenagem aos bonecos e aos bonecreiros estremocences. 


1. Uma terra simpática, do nosso Alentejo, que tem na "produção do figurado em barro" uma arte com mais de 3 séculos, classificada no final do ano de 2017, pela UNESCO, como "património cultural imaterial da humanidade"... 

É um dos ex-libris do nosso Alentejo, que precisa ser conhecido, divulgado, acarinhado, protegido e... celebrado!... São meia dúzia os artesãos, os "bonecreiros", ativos. E mais de uma centena as figuras, já inventariadas, que saiem das mãos dos/das barristas, incluindo o "soldado montado a cavalo"... Ou não fosse Estremoz com tradições militares, sede do Regimento de Cavalaria nº 3 , o qual durante a Guerra do Ultramar  mobilizou, só por si,  cerca de 42 mil homens (!), organizados em 2 esquadrões de reconhecimento, 42 batalhões e 17 companhias independentes de cavalaria, que combateram nos 3 TO, Angola, Guiné e Moçambique.

Terra de gente valente e sacrificada, morreram na guerra do ultramar 25 estremocences, dos quais 8 no TO da Guiné. È também um pretexto para os homenagear e honrar a sua memória... Um pretexto para visitar a Casa do Alentejo onde os não-alentejanos também são bem vindos, de alma e coração.

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Nota do editor:


Guiné 61/74 - P19050: Os nossos capelães (11): Não, não fui chamado à presença do gen Spínola, mas sim de um outro militar de alta patente que de resto teve um comportamento civilizado comigo (Arsénio Puim, ex-alf mil, CCS/BART 2917, Bambadinca, 1970/71)


Coruche > IV Convívio anual da CCS / BART 2917 (Bambadinca, 1970/72) > 27 de Março de 2010 > O ex-Alf Mil Capelão Arsénio Chaves Puim (, que vive na ilha de São Miguel, Açores) e o ex-Alf Mil Trms Antero Magalhães Pacheco da Silva (, que vive no Porto).

Foto: © Luís Graça (2010). Todos os direitos reservados. [Edikção e kegendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Em 18 do corrente, enviámos a seguinte mensagem ao nosso camarada e amigo Arsénio Puim, ex-alf mil capelão, CCS/BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), na sequência do poste P19024 (*)


Arsénio, amigo e camarada:

Há séculos que não falamos!... Por favor, lê o texto e os comentários [, Poste P19024] (*)...Julgo que tu e o Rebelo nunca mais se voltaram a encontrar, depois da tua saída forçada de Bambadinca e do CTIG... É importante o teu testemunho...Por dever e direito de memória...

Já és avô ? Vejo que continuas vivo, ativo, produtivo, saudável...

Um alfabravo do Luis, um xicoração da Alice...


2. Resposta de ontem do Arsénio Puim:

Caro amigo Luís

Há muito que não nos vemos, mas não nos esquecemos. É como a brasa debaixo da cinza: não aparece, mas está viva.

Impossível apagarmos as recordações e sentimentos que nos imprimiu um ano tão forte e marcante de vivência comum na - para bem e para mal - sempre lembrada Guiné. O mesmo posso dizer em relação a todos os velhos companheiros do nosso Batalhão.

Eu continuo vivo, e com alguma actividade , ao ritmo da idade e das consequentes e naturais limitações. E estou preparado e feliz por viver com a qualidade possível a minha quarta idade, que, como é natural, marca o fim de uma vida.

É verdade: sou já avô duma linda neta, com quase 4 anos, e duma outra que vem a caminho e chegará no fim de Novembro.

Ora o «Romance do Padre Puim», que o próprio autor [, o Carlos Rebelo,]  me remeteu com o curioso endereço «onde quer que se encontre» e que acabou por me chegar às mãos através de um funcionário da Caixa Geral de Depósitos,  de Vila Franca do Campo, foi um momento muito gratificante e emocionante para mim.

O  Carlos Rebelo foi dos últimos elementos do Batalhão [, o BART 2917,]  com quem me encontrei na Guiné, pois ele encontrava-se em Bissau e participou no jantar de homenagem que um pequeno grupo de camaradas de Bambadinca me promoveu antes de embarcar para Lisboa. Depois, é verdade, tive oportunidade de contactar com os filhos no convívio de Viana em 2009.

Quanto ao texto e o seu conteúdo, acho que a composição demonstra o talento do autor neste género e que ele apreendeu realmente a verdade de fundo do «romance» do capelão de Bambadinca em relação à sua missão no meio duma guerra colonial, sem deixar, como é natural, de «romancear» alguns pormenores descritivos. 

A propósito, posso dizer que não se tratava do General Spínola, mas sim dum militar de alta patente, cujo nome já não recordo. (**)

Termino,  reiterando ao Luís e Alice a minha sincera amizade e os meus melhores cumprimentos. E aproveito a oportunidade para enviar a todos os velhos companheiros da Guiné - e não esqueço também as Companhias do Xime, Mansambo e Xitole - as minhas amistosas saudações com um grande abraço.

Arsénio Puim
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de 18 de setembro de  2018 > Guiné 61/74 - P19024: Os nossos capelães (10): O "romance do Padre Puim", por Carlos Rebelo (1948-2009), ex-fur mil sapador, CCS/BART 2917 (Bambadinca, 1970/72)

Dois comentários de LG:


(i) (...) O que fizeram ao Puim, os seus comandantes, os do BART 2917, o AC e o BB, foi de uma grande pulhice humana...Afinal, o que ele fez foi em perfeito alinhamento com as orientações da política spinolista "Por uma Guiné Melhor"!...

O Puim, enquanto português, homem, cidadão, capelão e oficial do Exército Português, insurgiu-se, protestou ou chamou a atenção para a situação desumana, degradante, em que viviam, numa espécie de galinheiro, em Bambadinca, velhos, mulheres e crianças que foram "recuperados" de uma tabanca no mato, sob controlo do PAIGC (que "eles" chamavam, pomposamente, "áreas libertadas", na famigerada áera do Poindon / Ponta do Inglês onde demos e levámos muita porrada ao longo da guerra...)!

Porra, não eram "TURRAS"!... Era população civil, desarmada, andrajosa, miserável, esfomeada, apavorada... As crianças tinham nascido no mato e entravam em pânico ao ouvir o roncar de uma GMC...no quartel.

Muito provavelmente estes "pobres diabos" foram trazidos pela minha CCAÇ 12 em abril ou maio de 1971... Eu tinha acabado de chegar à metrópole, há coisa de um mês e tal... (...)


(ii) (...) O "romance" escrito pelo Carlos Rebelo não pode ser lido "à letra"... O Rebelo nunca mais viu o seu camarada e amigo Puim... Daí a dedicatória: "Para o Padre Puim, onde quer que se encontre, tantos anos depois"...

Quando o Puim veio à metrópole, em 2009, ao 3º convívio do pessoal da CCS/BART 2917, já foi demasiado tarde... O Rebelo tinha acabado de morrer...

O Rebelo imaginou esta cena, o Puim, vítima mas corajoso, enfrentando o seu juiz, o general, prepopente mas fraco, e saindo porta fora com a dignidade e a superioridade dos que têm a razão moral...

Mas ninguém pode garantir, a não ser o próprio Puim, que as coisas se tenham passado assim... Nem sei sequer se o Puim esteve com o Spínola. É de todo improvável...Sei, pelas conversas que tive com ele, em Lisboa, na casa dos filhos, que houve, isso, sim, uma discussão azeda, amargurada, entre ele e o capelão-chefe, lá no "Vaticano", em Bissau...

Não estou a defender o Spínola, mas se ele tivesse chegado a saber a história como devia ser (, a história dos desgraçados dos prisioneiros civis, em Bambadinca, abril ou maio de 1971) quem teria levado uma "porrada" era o comando do BART 2917, o AC e o BB (...)



(**) Vd.poste de 25 de maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4412: Dando a mão à palmatória (20): O Arsénio Puim, capelão do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), só foi expulso em Maio de 1971

(...) O nosso capelão ainda teve uma semana em Bissau, a aguardar transporte, e outra semana em Lisboa, até ser reenvaiado para os Açores...

 Em Bissau, foi recebido por uma alta patente militar (que ele não consegue identificar, mas que até teve com ele um comportamento civilizado) bem como pelo seu superior hierárquico, o Major Capelão Gamboa (....). 

Em contrapartida, os amigos e camaradas de Bambadinca que na altura estavam de passagem em Bissau, fizeram-lhe um jantar de despedida, onde também esteve o 1º sargento Brito, como faz questão de frisar. (...)

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Guiné 61/74 - P19049: Historiografia da presença portuguesa em África (131): Relatório de um alto funcionário maltratado na Revolução Triunfante, 1931 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Abril de 2018:

Queridos amigos,
Parecia que estava tudo escrito e dito sobre os acontecimentos da revolta de 1931, ninguém ignora que houve uma certa recetividade, rendidos os revolucionários da Madeira, era certo e seguro que os da Guiné iriam pelo mesmo destino. Os elementos da Junta Governativa saíram da Guiné, seriam quase todos severamente punidos, o Estado Novo fazia-se impor e não condescendia aos democratas.
Esta peça que faz parte do acervo dos Reservados da Sociedade de Geografia de Lisboa tem o seu encanto e alguém propõe como assunto o seu quase fuzilamento… Ele, que nada tinha a ver com aquela aventura, vinha, com as necessárias mesuras burocráticas, explicar-se convenientemente ao Sr. Governador interino, Soares Zilhão.
Para que conste.

Um abraço do
Mário


Relatório de um alto funcionário maltratado na Revolução Triunfante, 1931

Beja Santos

Não se pode dizer que o assunto do relatório não tenha um título exuberante: Relatório feito pelo Director dos Serviços e Negócios Indígenas, Dr. José Peixoto Ponces de Carvalho, entregue ao Governador nomeado pelo Poder Central, Sr. Coronel João Soares Zilhão, referindo-se à ocorrência, e do qual constam os maus tratos sofridos a quem foi submetido pelos revoltosos, a ponto de, mercê da intervenção de um amigo – revoltoso também – escapou milagrosamente de ser fuzilado, chegou a ser encostado a um muro. É um delicioso relatório constante do acervo dos Reservados da Sociedade de Geografia de Lisboa. O texto não é integral, julga-se, no entanto, que guarda o essencial:

“Exmo. Sr. Governador da Colónia da Guiné
Foi às 3,30 horas do dia 17 do passado mês de Abril que os tiros que iniciaram a revolução me despertaram. Mandei chamar o 1.º Oficial desta Direcção, António Pereira Cardoso. Demorado a comparecer, enviei novo recado. Pela resposta soube ter sido preso. Ao amanhecer soube mais: aquele funcionário fora violentamente espancado, bem como o Amanuense Mário Augusto de Serpa Rosa, detido, como o primeiro, no Armazém da Alfândega.

Já dia claro: nas ruas inúmeros civis – deportados, cadastrados e alguns espontâneos – passam armados. Depois, camionetas com metralhadoras, civis, cabos e sargentos.
É neste ambiente que à hora regulamentar me dirijo para o serviço. Ao entrar, um revolucionário deportado mostra-me uma intimação da chamada Junta Governativa, mandando comparecer na Repartição Militar os Magistrados Judiciais e do Ministério Público, Chefes de Serviço e de Repartição.

Na secretaria, todos os funcionários, com excepção dos referidos presos, trabalham nas suas mesas. Às 12 horas, apresentei-me na Repartição Militar, onde, com todos os intimados, assinei o compromisso de acatamento às ordens da Junta, repetindo o juramento feito quando tomei posse do meu cargo. Por duas razões o fiz: a convicção de que não cometia qualquer infracção; a certeza de que à recusa do acatamento corresponderia a da minha imediata prisão, o que necessariamente contribuiria para a desordem dos serviços e desprestígio de um alto funcionário, cujo cargo, para ser útil e eficaz, tanto cumpre fazer respeitar pelo elemento nativo.
O signatário, porque muito preza a verdade – contra a qual os interesses do seu amor-próprio não podem prevalecer – não quer omitir a hipótese de que a perspectiva de inúteis incómodos físicos e morais muito tivesse contribuído para a sua prudente resolução…

Em suplemento ao número 16 do ‘Boletim Oficial’ foi publicado um ‘convite’ a todos os funcionários e entidades oficiais para assistirem à posse do Governador Interino nomeado por ‘Resolução da Junta Governativa da Guiné’. Todos os funcionários compareceram, assinando o respectivo ‘termo de posse’. Nenhum outro contacto houve entre os funcionários da Direcção dos Serviços e Negócios Indígenas e a revolução. Dentro da quase completa estagnação que os acontecimentos provocaram, não se verificou a mais pequena solução de continuidade na pontualidade e compostura dos funcionários que aqui trabalham.
Durante o período revolucionário, nenhum diploma ou portaria foram publicados sobre a proposta, sugestão ou parecer desta Direcção.

Tendo exposto a V. Ex.ª. o comportamento e a atitude dos funcionários e a maneira como decorreram os serviços desta Direcção, durante o período revolucionário creio ter cumprido o que por V. Ex.ª foi determinado, 
15 de maio de 1935,
 José Peixoto Ponces de Carvalho”.



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Nota do editor

Último poste da série de 19 de setembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19028: Historiografia da presença portuguesa em África (130): Relatório do Comando Militar do Oio, nascia o ano de 1915 (3) (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P19048: Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capítulos 66 e 67: "mas porque é que esta rapariga não arranjou outro rapaz nestes meses todos e está à espera daquele bandalho?"


Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > O 1º cabo cond auto José Claudino da Silva, no início da comissão.


Foto: © José Claudino da Silva (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Cortesia do autor,  página do Facebook.
1. Continuação da pré-publicação do próximo livro (na versão manuscrita, "Em Nome daPátria") do nosso camarada José Claudino Silva [foto atual à direita, com a esposa Amélia, no dia em que fazem 43 anos de casados] (*):

(i) nasceu em Penafiel, em 1950, "de pai incógnito" (como se dizia na época e infelizmente se continua a dizer, nos dias de hoje: que o digam mais de 150 mil portugueses!), tendo sido criado pela avó materna;

(ii) trabalhou e viveu em Amarante, residindo hoje na Lixa, Felgueiras, onde é vizinho do nosso grã-tabanqueiro, o padre Mário da Lixa, ex-capelão em Mansoa (1967/68), com quem, de resto, tem colaborado em iniciativas culturais, no Barracão da Cultura;

(iii) tem orgulho na sua profissão: bate-chapas, agora reformado; completou o 12.º ano de escolaridade no âmbito do programa Novas Oportunidades; foi um "homem que se fez a si próprio", sendo já autor de dois livros, publicados (um de poesia e outro de ficção);

(iv) tem página no Facebook; é membro n.º 756 da nossa Tabanca Grande.


2. Sinopse dos postes anteriores:

(i) foi à inspeção em 27 de junho de 1970, e começou a fazer a recruta, no dia 3 de janeiro de 1972, no CICA 1 [Centro de Instrução de Condutores Auto-rodas], no Porto, junto ao palácio de Cristal;

(ii) escreveu a sua primeira carta em 4 de janeiro de 1972, na recruta, no Porto; foi guia ocasional, para os camaradas que vinham de fora e queriam conhecer a cidade, dos percursos de "turismo sexual"... da Via Norte à Rua Escura;

(iii) passou pelo Regimento de Cavalaria 6, depois da recruta; promovido a 1.º cabo condutor autorrodas, será colocado em Penafiel, e daqui é mobilizado para a Guiné, fazendo parte da 3.ª CART / BART 6250 (Fulacunda, 1972/74);

(iv) chegada à Bissalanca, em 26/6/1972, a bordo de um Boeing dos TAM - Transportes Aéreos Militares; faz a IAO no quartel do Cumeré; o dia 2 de julho de 1972, domingo, tem licença para ir visitar Bissau, e fica lá mais uns tempos para um tirar um curso de especialista em Berliet;

(v) um mês depois, parte para Bolama onde se junta aos seus camaradas da companhia; partida em duas LDM para Fulacunda; são "praxados" pelos 'velhinhos' (ou vê-cê-cês), os 'Capicuas", da CART 2772;

(vi) faz a primeira coluna auto até à foz do Rio Fulacunda, onde de 15 em 15 dias a companhia era abastecida por LDM ou LDP; escreve e lê as cartas e os aerogramas de muitos dos seus camaradas analfabetos;

(vii) é "promovido" pelo 1.º sargento a cabo dos reabastecimentos, o que lhe dá alguns pequenos privilégio como o de aprender a datilografar... e a "ter jipe"; a 'herança' dos 'velhinhos' da CART 2772, "Os Capicuas", que deixam Fulacunda; o Dino partilha um quarto de 3 x 2 m, com mais 3 camaradas, "Os Mórmones de Fulacunda";

(viii) Dino, o "cabo de reabastecimentos", o "dono da loja", tem que aprender a lidar com as "diferenças de estatuto", resultantes da hierarquia militar: todos eram clientes da "loja", e todos eram iguais, mas uns mais iguais do que outros, por causa das "divisas"... e dos "galões"...

(ix) faz contas à vida e ao "patacão", de modo a poder casar-se logo que passe à peluda; e ao fim de três meses, está a escrever 30/40 cartas e aerogramas por mês; inicialmente eram 80/100; e descobre o sentido (e a importância) da camaradagem em tempo de guerra.

(x) como "responsável" pelo reabastecimento não quer que falte a cerveja ao pessoal: em outubro de 1972, o consumo (quinzenal) era já de 6 mil garrafas; ouve dizer, pela primeira vez, na rádio clandestina, que éramos todos colonialistas e que o governo português era fascista; sente-se chocado;

(xi) fica revoltado por o seu camarada responsável pela cantina, e como ele 1.º cabo condutor auto, ter apanhado 10 dias de detenção por uma questão de "lana caprina": é o primeiro castigo no mato...; por outro lado, apanha o paludismo, perde 7 quilos, tem 41 graus de febre, conhece a solidariedade dos camaradas e está grato à competência e desvelo do pessoal de saúde da companhia.

(xii) em 8/11/1972 festejava-se o Ramadão em Fulacunda e no resto do mundo muçulmano; entretanto, a companhia apanha a primeira arma ao IN, uma PPSH, a famosa "costureirinha" (, o seu matraquear fazia lembrar uma máquina de costura);

(xiii) começa a colaborar no jornal da unidade, os "Serrotes" (dirigido pelo alf mil Jorge Pinto, nosso grã-tabanqueiro), e é incentivado a prosseguir os seus estudos; surgem as primeiras dúvidas sobre o amor da sua Mely [Maria Amélia], com quem faz, no entanto, as pazes antes do Natal; confidencia-nos, através das cartas à Mely as pequenas besteiras que ele e os seus amigos (como o Zé Leal de Vila das Aves) vão fazendo;

(xiv) chega ao fim o ano de 1972; mas antes disso houve a festa do Natal (vd. cap.º 34.º, já publicado noutro poste); como responsável pelos reabastecimentos, a sua preocupação é ter bebidas frescas, em quantidade, para a malta que regressa do mato, mas o "patacão", ontem como hoje, era sempre pouco;

(xv) dá a notícia à namorada da morte de Amílcar Cabral (que foi em 20 de janeiro de 1973 na Guiné-Conacri e não... no Senegal); passa a haver cinema em Fulacunda; manda uma encomenda postal de 6,5 kg à namorada; em 24 de fevereiro de 1973, dois dias antes do Festival da Canção da RTP, a companhia faz uma operação de 16 horas, capturando três homens e duas Kalashnikov, na tabanca de Farnan.

(xvi) é-lhe diagnosticada uma úlcera no estômago que, só muito mais tarde, será devidamente tratada; e escreve sobre a população local, tendo dificuldade em distinguir os balantas dos biafadas; em 20/3/1973, escreve à namorada sobre o Fanado feminino, mas mistura este ritual de passagem com a religião muçulmana, o que é incorreto; de resto, a festa do fanado era um mistério, para a grande maioria dos "tugas" e na época as autoridades portuguesas não se metiam neste domínio da esfera privada; só hoje a Mutilação Genital Feminina passou a a ser uma "prática cultural" criminalizada.

(xvi) depois das primeiras aeronaves abatidas pelos Strela, o autor começa a constatar que as avionetas com o correio começam a ser mais espaçadas; o primeiro ferido em combate, um furriel que levou um tiro nas costas, e que foi helievacuado, em 13 de abril de 1973, o que prova que a nossa aviação continuou a voar depois de 25 de março de 1973, em que foi abatido o primeiro Fiat G-91 por um Strela;

(xvii) vai haver uma estrada alcatroada de Fulacunda a Gampará; e Fulacunda passa a ter artilharia (obus 14); e o autor faz 23 anos em 19 de maio de 1973; a 21, sai para Bissau, para ir de férias à Metrópole; um grupo de 10 camaradas alugam uma avioneta, civil, que fica por um conto e oitocentos escudos [equivalente hoje a 375,20 €];

(xviii) considerações sobre o clima, as chuvas; em 19/5/1973, faz 23 anos... e vem de férias à Metrópole, com regresso marcado para o início de julho de 1973: regista com agrado o facto de o pai, biológico, ter trazido a sua tia e a sua avó ao aeroporto de Pedras Rubras para se despedirem dele;

(xix) vê, pela primeira vez, enfermeiras, brancas, paraquedistas; apercebe-se igualmente da guerra psicológica; queixa-se de a namorada não receber o correio; manda um texto para o jornal "O Século" que decide fazer circular pelo quartel e onde apela a uma maior união do pessoal da companhia, com críticas implícitas ao capitão Serrote por quem não morre de amores: na sequência disso, sente-se "perseguido" pelo seu comandante...

(xx) vai de baixa médica para Bissau, mas não tem lugar no HM 241; passa o Natal de 73 e o Ano Novo de 1974 nos Adidos; conhece a "boite" Chez Toi onde vê atuar alguns elementos do grupo musical Pop Five Music Incoporated, a cumprir o serviço militar na Guiné;

(xxi) grande ataque, em 7/1/1974, ao quartel e tabanca de Fulacunda com canhões s/r, resultando danos materiais, feridos entre os militares e a população e a morte de uma criança.

(xxii) faltam 5 meses para acabar a comissão... e há mais uma "crise" nas relações com a namorada...


3. Ai, Dino, o que te fizeram!... Memórias de José Claudino da Silva, ex-1.º cabo cond auto, 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Capºs 66 e 67

[O autor faz questão de não corrigir os excertos que transcreve, das cartas e aerogramas que começou a escrever na tropa e depois no CTIG à sua futura esposa. E muito menos fazer autocensura 'a posterior', de acordo com o 'politicamente correto'... Esses excertos vêm a negrito. O livro, que tinha originalmente como título "Em Nome da Pátria", passa a chamar-se "Ai, Dino, o que te fizeram!", frase dita pela avó materna do autor, quando o viu fardado pela primeira vez. Foi ela, de resto, quem o criou. ]


66º Capítulo > ERAS TU

A maior de todas as coisas que aprendi, entre as muitas coisas que a vida me ensinou na Guiné e, principalmente, dentro daquela prisão, talvez tenha sido “perdoar”. Quem me conhece não consegue entender como, com tão pouco, tenho tanto. Aos 67 anos de idade, não tenho a mais pequena dúvida em afirmar que quem aturou uma raiva da minha parte,  sabe que alguns minutos depois já estava arrependido de a ter. Infelizmente, não agradei a todos e dói-me ter entre as pessoas a quem não agrado algumas das mais importantes da minha vida. É por elas que a frase na minha página do facebook diz: “Por vós, lamento imenso não ter a imagem que querem que eu tenha”.

Apenas de duas pessoas, nestes anos que levo de vida, me recordo de algo de mal que me fizeram; de todos os outros, se os houve, não me lembro. É assim com a minha Pátria. Não tenho qualquer rancor ao meu país pelo que me fez. A dor transformou-me num sobrevivente. Ninguém me derrotou, apenas perdi pequenas batalhas.

As cartas que li ou reli nestes últimos dias, e que quero divulgar para quem tenha a curiosidade ou a paciência de conhecer o que nelas está vertido, embora escritas num tempo já longínquo, mostram que mesmo no meu pior, tenho de me sentir bem.

Ainda me faltam ler algumas dezenas de cartas e aerogramas para terminar esta tarefa. Não sei o que vou encontrar, nem sei se terei surpresas agradáveis ou desagradáveis, mas sei que tenho aqui, na minha mão, um texto que foi escrito para a mulher da minha vida e que mais uma vez afirmo: sem ela, este livro não podia ser editado. A do dia 21 de Janeiro de 1974 foi dirigida à minha namorada; hoje é… para a minha mulher e para todas as mulheres do mundo.

Sim eras tu!
Com teus cabelos castanhos!...
Com os teus olhos castanhos
Brilhando como o luar.
Foste tu com o teu caminhar, silencioso, ondulante!...
Foste tu com o teu sorriso provocante!...
Foste tu com o teu vestido esvoaçando ao vento
Eras tu surgindo em cima de uma onda que se aproximava
Eras tu fazendo vibrar em meu espírito um sentimento profundo
Eras tu! – AMOR
Oh! Eras tu sim! Conseguindo com tuas palavras provocantes, com teus sorrisos aliciantes, a minha inteira admiração.
Foste tu, sim! Que me fizeste homem 

Foste tu que me fizeste sofrer
Mas foste tu que me ofereces-te a alegria
Mas foste tu quem me ofereceu o que sem ti jamais iria encontrar
A FELICIDADE



67º Capítulo > SERÁ QUE ELE NÃO MUDOU MUITO?


Se o capítulo anterior encerra um certo romantismo, e como quero cumprir com o máximo rigor a sequência da minha vida em nome da pátria, como está datada, previno os mais descuidados de que está a chegar uma altura muito má para os mancebos enamorados, que ainda resistem aos muitos meses de separação, a começar por mim. Querem ver?

“Disseste-me há dias que a tua mãe está farta de discutir contigo e te ver perder tempo a escrever-me, e o teu irmão também, vou dizer-te o que penso.

Faltam-me mais ou menos cinco meses para acabar a comissão e regressar à Metrópole o que significa que há dezanove meses que esperas por mim. Tenho a certeza que conhecendo a tua mãe e embora tu negues, sei que ela não gosta de mim, neste momento deve pensar. Por que é que esta rapariga não arranjou outro rapaz nestes meses todos e está à espera daquele bandalho? Se calhar aquele merdas chega aqui e nem passa mais cartão à minha filha”.


Acreditem que o que escrevi naquele tempo correspondia à realidade. Muitas raparigas passaram um mau bocado por terem esperado os namorados. Alguns, no seu regresso, trocaram-nas por outras e estas ainda eram desdenhadas por outros rapazes. A miséria do ser humano expressa-se das diversas maneiras. E esse foi, indiscutivelmente, também um dos danos colaterais da guerra colonial. Mesmo com alguns que cumpriram a sua palavra, muitos dos casamentos pouco duraram, coisa que, se agora é banal, há uns anos atrás não era.

Já o disse quase no início deste livro que pouco e pouco fui diminuindo a intensidade dos contactos com familiares e amigos, como vos falei das várias crianças mulatas que vivem nas tabancas. Com que cara um soldado enfrentava a namorada que o esperou dois anos dizendo-lhe:
-Olha! Tenho um filho duma negra na Guiné?

Sabem que mais? Vocês estão-se nas tintas porque não se viram nelas, mas as futuras sogras tinham muita razão em ficar apreensivas.

Tinham tanta razão que no dia 5 de Fevereiro de 1974, dentro duma carta, devolvi um aerograma que tinha recebido.

“Se achas que a tua mãe e o teu irmão têm razão fica com eles. Devolvo-te esse aéro ridículo que não quero ver mais. Só porque disse, o que acho que a tua mãe pensa, já sou eu que penso isso e chego aí não te passo cartão e ponho-me a andar.

Vê bem a data do aéro, demorou 14 dias a chegar aqui, se esta carta demorar o mesmo tempo, vai chegar aí no dia 28, mais 14 dias da tua resposta, e assim sucessivamente tão cedo não me entendo contigo, talvez até chegue aí antes de nos entendermos. Por isso se não confias em mim, segue os conselhinhos da mãezinha e do irmãozinho e não esperes. Tens rapazes aos pontapés, já agora eu é que te dou um conselho. Arranja um que não venha para aqui.
Sinto que o teu amor por mim é que acabou, se assim é diz-me”.

Oh que caramba! desculpem lá. No aerograma seguinte, a Amélia voltava a jurar-me o seu amor e escrevi-lhe logo a dizer que aceitava.

Estão para aí todos a pensar: este tipo é um idiota chapado. Concordo plenamente convosco. Avisei-vos que a minha guerra não tem nada a ver com as outras guerras que vos contaram. Nas reuniões de ex-combatentes só ouço falar de mortes, corpos cortados à catanada, cabeças penduradas nas árvores e, principalmente, muitas fodas dadas nas pretas e barris de cerveja. Eu não posso dizer isso porque poucas mulheres havia onde estive e barris de cerveja, pelo menos no quartel, nunca vi nenhum.

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Nota do editor:

Guiné 61/74 - P19047: Parabéns a você (1502): António Medina, ex-Fur Mil Art da CART 527 (Guiné, 1963/65) e Amílcar Mendes, ex-1.º Cabo Comando da 38.ª Companhia de Comandos (Guiné, 1972/74)


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Nota do editor

Último poste da série de 23 de setembro de 2018 > Guiné 61/74 - P19037: Parabéns a você (1501): Tony Borié, ex-1.º Cabo Op Cripto do CMD AGR16 (Guiné, 1964/66)

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Guiné 61/74 - P19046: (D)o outro lado do combate (36): Bigene, agosto de 1972, «Operação Silenciosa"... (Jorge Araújo)


Bigene, a oeste de Farim, junto à fronteira com o Senegal



Jorge Alves Araújo, ex-Furriel Mil. Op Esp / Ranger, CART 3494 
(Xime-Mansambo, 1972/1974); coeditor do nosso blogue


GUINÉ: (D)O OUTRO LADO DO COMBATE > 

BIGENE, AGO'1972: «OPERAÇÃO SILENCIOSA»: A NEUTRALIZAÇÃO DA ARTILHARIA PESADA COLONIAL  [AO TEMPO DA CART 3329]


MEMÓRIAS DO BRIGADEIRO-GENERAL DAS FARP ALBERTINHO ANTÓNIO CUMA (EX-COMBATENTE)


Entrevista publicada em «O Defensor», órgão das FARP - Forças Armadas Revolucionárias do Povo. Edição n.º 22, dezembro de 2015, p.10.- "Grupo de guerrilheiros neutraliza artilharia colonial"

(Parte I)

1. INTRODUÇÃO

Já aqui foi referida a existência da revista «O Defensor», órgão de Informação Geral do Estado-Maior General das Forças Armadas da Guiné-Bissau, por iniciativa do camarada José Teixeira, 1.º cabo aux enf da CCAÇ 2381 (1968/70), ao partilhar/divulgar a entrevista dada em 2001 por Arafam Mané (1945-2004), aquele que historicamente é referido como tendo sido o principal líder do ataque ao quartel de Tite, em 23 de Janeiro de 1963, data que marcou o início do conflito armado no CTIGuiné [P16794].


Com a presente narrativa, a segunda elaborada tendo por base a mesma revista, a n.º 22, de Dezembro de 2015, seleccionámos uma outra entrevista dada por outro combatente – Albertinho António Cuma [hoje, Brigadeiro-General das FARP] – que em Agosto de 1972 chefiou o grupo de bazucas que assaltou o quartel de Bigene com o objectivo de neutralizar as peças de artilharia aí existentes: dois canhões de 130 mm, cuja missão foi designada por «Operação Silenciosa».

Pela sua importância histórica, pelo interesse colectivo que certamente despertará em cada um de nós, em particular do contingente das NT que naquela data passou por aquela experiência, tomámos a iniciativa de a divulgar, com a devida vénia.

Ainda que não tenhamos registos oficiais em relação à unidade que aí estava instalada naquela data (ou período), acreditamos tratar-se da CART 3329, uma Companhia Independente mobilizada pelo Regimento de Artilharia Ligeira n.º 3, de Évora.

De acordo com a investigação realizada, e embora esta unidade não tenha qualquer membro registado na nossa «Tabanca» ou aqui divulgadas quaisquer acções da sua actividade operacional (1970/72), conseguimos apurar que a sua comissão decorreu entre 19 de Dezembro de 1970 (chegada a Bissau) e regresso a Lisboa em Dezembro de 1972.

Para além destes elementos cronológicos, localizámos mais dois fragmentos históricos retirados do vasto espólio do blogue da «Tabanca», a saber:

● P2416 – A CART 3329 rendeu em 3 de Março de 1971 a CCAÇ 2527 (1969/71) no subsector de Bigene (A. Marques Lopes, ex-Alf Mil, 1968/69).

● P5534 – A CCAÇ 4540 (1972/74), após ter terminado o período de sobreposição com a CART 3329, assumiu toda a responsabilidade administrativa e operacional desse subsector. No dia 15 de Novembro de 1972, a CART 3329 terminou a sua comissão e despediu-se de Bigene (Eduardo Campos, ex-1.º cabo trms, 1972/74).

Por outro lado, seria interessante que a esta história pudessem adicionar-se outros depoimentos elaborados por quem tivesse vivido este acontecimento.

Aguardemos!


2. ANTECEDENTES HISTÓRICOS - FRENTE NORTE

"Para desencravar a Zona Norte – criar um corredor livre e seguro entre Farim e Barro – com vista a facilitar a movimentação da guerrilha e a população que apoiava a luta, o PAIGC tomou a decisão de assaltar o quartel colonial de Bigene, principal obstáculo ao avanço da luta armada naquela área, que tinha duas peças de canhões de 130 mm cujos disparos causavam perdas humanas e danos materiais e morais entre os combatentes da área e dificultavam as movimentações tanto no Norte como no sentido Leste – Norte.

O aumento no seio dos combatentes, de novos quadros militares formados nos países amigos, e a formação de novos Corpos do Exército Regular nas fileiras da guerrilha [CE 199-X-70] revolucionou a sua capacidade táctica e combativa. Assim, estavam criadas as premissas de mudar a forma de luta para derrotar o inimigo [NT] e expulsá-lo dos territórios ocupados. Intensificaram-se as operações contra os quartéis e contra as colunas militares coloniais que faziam a ligação entre eles, desse modo, viam as suas manobras cada vez mais limitadas.

Graças a essa evolução, positiva, a Direcção Superior do Partido decidiu, sob as orientações do Secretário-Geral, Amílcar Lopes Cabral [1924-1973], criar entre Farim e Barro, além da fronteira com o Senegal, corredores livres para facilitar as movimentações dos guerrilheiros ao longo daquele espaço norte".

[Oito meses após a «Operação Silenciosa», que serviu de ensaio para uma nova forma de agir no terreno, o PAIGC inicia em Abril de 1973 uma nova estratégia, levando à prática o isolamento de Guidaje (um pouco mais a norte de Bigene) que culminou com a «Batalha de Kumbamory». Concluído este confronto bélico de grande envergadura, facto gravado para sempre na História da Guiné como «Operação Ametista Real», realizada em 19 de Maio de 1973, as NT contabilizaram uma das maiores capturas e destruições de material da Guerra de África].


3.  O CASO DA «OPERAÇÃO SILENCIOSA» EM AGOSTO'1972

Considerando a importância histórica da «Operação Silenciosa», o Brigadeiro-General Albertinho António Cuma, Chefe de Divisão da Educação Cívica, Assuntos Sociais e Relações Públicas do Estado-Maior General das Forças Armadas da Guiné-Bissau, que esteve presente no teatro das operações [imagem ao lado, à data com a patente de Coronel], dá conta dos principais factos da sua missão.

[É de referir, neste contexto, que a primeira parte da entrevista é assinada pelo Major Ussumane Conaté, director do jornal «O Defensor», órgão das FARP – Forças Armadas Revolucionárias do Povo, publicada na Edição n.º 22, de dezembro de 2015, p. 10 (primeira versão em http://www.farp.gw/?p22 ).

Existe uma outra versão, disponível no sítio das FARP, marcador "notícias",  http://www.farp.gw/?news09, com data de 25.07.2017).  Quanto à existência de uma segunda ou mais partes da entrevista, ainda não nos foi possível localizá-la (s)].


3.1 - ENTEVISTA [PARTE 1] COM 3 QUESTÕES:


i - A Direcção Superior do Partido tomou a decisão de assaltar o quartel colonial de Bigene e neutralizar os canhões de 130 mm que não davam tréguas aos guerrilheiros da zona. Com que forças contava o Partido para o sucesso da operação?


BGAC – Tudo tornou-se possível a partir do momento em que se mudou a estratégia e o sistema de combate com a chegada, às fileiras da guerrilha, de novos quadros militares formados nos países amigos do PAIGC. Nesta óptica, um grupo de guerrilheiros da Frente Norte recebeu instruções do Partido para neutralizar, por completo, o quartel colonial de Bigene, nomeadamente, as duas peças de artilharia terrestre (canhões de 130 mm) que impediam as movimentações dos combatentes.

É bom sublinhar que a tabanca de Bigene, que se encontra situada a cerca de 16 quilómetros da fronteira com o Senegal, tinha um quartel fortificado equipado com dois canhões de 130 milímetros, que não davam tréguas. Deste modo, a Direcção Superior do Partido tomou a iniciativa de destacar um grupo de guerrilheiros corajosos, bem treinados, equipados, que tinha como missão fundamental assaltar, em plena luz do dia, o quartel de Bigene e destruir os dois canhões.

A perigosa e complexa missão dirigida pelo valente Comandante Joaquim Mantam Biagué foi cumprida com êxito, no período indicado por Amílcar Cabral. Para realizar com êxito a missão, os guerrilheiros aproveitaram o momento em que o grosso da força colonial saiu para uma patrulha na estrada que liga Bigene – Barro. Conseguiram penetrar no interior do quartel colonial, destruir as duas peças de artilharia pesada bem como o arsenal, incluindo as munições, incendiar o depósito de combustível e dar à população a oportunidade de saquear algumas lojas.

O assalto que ocorreu na época das chuvas, no mês de Agosto de 1972 [?], surpreendeu toda a força colonial que não conseguiu disparar nem um tiro. Não houve perdas humanas nem material do lado dos guerrilheiros.

O reduzido número de tropas coloniais que na altura se encontrava no quartel não teve outra solução senão abandonar o local para se salvar.

ii - Como foi preparada a "Operação Silenciosa"?

BGAC – A operação foi preparada e planeada a partir de Conacri pelos dirigentes do Partido e depois comunicada ao comando da Frente Norte em Sambuia [Osvaldo Vieira; 1938-1974] o qual enviou, mais tarde, um lote de fardamento (camuflado português), incluindo armas, lança roquetes, AKM novas, cintilas cubanas e mantimentos para os homens alinhados para a missão. Na Frente Norte foram destacados um total de 25 guerrilheiros, sendo 19 da base de Ermon Kono e 6 da base de Cumbanghor [Kumbamori].

Depois da distribuição dos equipamentos, os guerrilheiros receberam durante três dias, as instruções sobre a realização da missão incumbida pelos órgãos superiores do Partido. [Quando terminou o período de instrução, os 25 guerrilheiros, bem equipados, deixaram Ermon Kono de carro para o acampamento de Fayar e depois para Cumbanghor [Kumbamori] onde permaneceram durante 5 (cinco) dias antes de passarem para o local a partir do qual devia ser lançada a operação.

Como base central, para a realização da operação, foram escolhidos os acampamentos de Sindina e Pabedjal. Tínhamos como guias os camaradas Ansu Bercko, Comandante de um dos acampamentos da área, Issufo Bodjam e Adjal Manga. Os acampamentos de Sindina e de Pabedjal estavam situados entre 9 e 12 quilómetros da tabanca de Bigene.


Citação: (s.d.), "Mapa da zona Norte", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_40225 (2018-9-2)

Mapa (croqui) com as localidades de Barro, Bigene e Farim (Guiné) e Ziguinchor, Samine e Sidju (Senegal) no arquivo de Amílcar Cabral (Pasta: 07063.036.001)

O nosso destacamento [acampamento] estava instalado nessa área vigiando as movimentações das tropas coloniais e procurando buracos (oportunidade) para realizar em plena luz do dia, o assalto relâmpago contra o quartel e destruir as duas peças de canhões 130. Para se ocupar das nossas refeições diárias, o Comando da missão atribuiu-nos dois rapazes. Tínhamos igualmente connosco alguns bolos tradicionais preparados à base de farinha de milho preto pelas mulheres da aldeia de Samanancunda Kolda [Senegal].

iii - Qual era o objectivo da vossa presença nesse local?

BGAC – Era permanecer e estudar as possibilidades de chegar a Bigene, entrar na tabanca e dar um golpe duro ao quartel. Tínhamos como Comandante da missão, Joaquim Mantam Biagué. No grupo estavam eu, enquanto chefe do grupo de atiradores de bazooka, e os camaradas Gabriel Iabna Kundock, Alupa Manga e Adjal Manga.

Fazíamos pequenas incursões secretas até perto dos lugares onde a população cultivava a mancarra, um espaço livre que nos permitia ver o quartel e depois voltar ao nosso esconderijo. Os apoios da população ajudavam de facto na observação dos movimentos dos tugas e segui-los atentamente. O que sempre nos interessava, não obstante os riscos, era procurar uma posição favorável para realizar o assalto planeado contra o quartel, o que devia acontecer somente no momento em que chovia porque era o único período propício que se podia aproveitar para avançar até ao quartel atravessando os vastos campos lavrados, sem ser vistos ou sem que ninguém desse conta.

Era a altura em que os lavradores ficavam mais ocupados nas suas actividades e as tropas coloniais também iam à patrulha. Era o momento favorável para avançarmos sem despertar a atenção da população porque nós vestíamos uniformes camuflados do tipo usado pelas tropas coloniais. Tudo o que fazíamos eram instruções dadas pelo Secretário-Geral do Partido, camarada Amílcar Cabral.

O grupo ficou no mato nos arredores de Bigene vigiando as movimentações das tropas portuguesas e, também, aguardando a queda oportuna da chuva para poder atravessar os grandes espaços de mancarra antes de penetrar no quartel.

Por esta razão, fomos obrigados a permanecer nos arredores de Bigene durante uma semana fazendo constantes vaivém entre o acampamento e as proximidades do quartel. Todos os dias deixávamos o acampamento de manhã e voltávamos à noite. Era preciso ter paciência, persistência e espírito de patriotismo.


A principal rua de Bigene – foto de Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 (Canquelifá e Bigene, 1966/68), in https://aventar.eu/2011/01/07/guerra-da-guine-pequenas-memorias-3/ (com a devida vénia).


3.2 - As acções militares do mês de Agosto de 1972 divulgadas em comunicado do PAIGC assinado por Amílcar Cabral.

Considerando que o entrevistado omitiu na sua narrativa a data completa da acção, procurámos encontrar resposta a esta interrogação nos arquivos de Amílcar Cabral existentes na Casa Comum – Fundação Mário Soares, tendo encontrado o comunicado em título, escrito em francês, do qual faremos referência abaixo.


Tradução do comunicado escrito em francês, da nossa responsabilidade (,só os três primeiros parágrafos colocados no interior da caixa).

"Durante o mês de Agosto [1972], os nossos combatentes realizaram 77 acções importantes, das quais 51 ataques contra os campos fortificados portugueses, 19 emboscadas e outros encontros [contactos]. Foram atacadas as cidades de Catió (no sul do país, no dia 18) e Bafatá (no centro-leste, no dia 24).

No período de 1 a 10 de Agosto efectuámos 20 ataques contra as posições fortificadas inimigas, acções realizadas em memória dos mártires do massacre de Pidjiguiti (3 de Agosto de 1959).

Foram também realizados ataques a guarnições [aquartelamentos] importantes particularmente: Enxeia, Ingoré, Mansabá, Bigene, Olossato, S. Domingos e Cuntima (no Norte do País), Kebo (duas vezes), Cabedu, Guileje, Bedanda, Empada e Fulacunda (no Sul); Bambadinca (duas vezes), Xitole, Pirada e no porto fluvial do Xime (a Leste)"

 [neste último caso, foi uma flagelação ao quartel do Xime. em 03.08.1972, 5.ª feira, às 05h18, durante 20 minutos, e com RPG… eu estava lá…].



25 de Setembro de 1972, [ou seja, há quarenta e seis anos].

Amílcar Cabral, Secretário-Geral



Citação: (1972), "Comunicado do PAIGC sobre as acções militares do mês de Agosto", CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_42413 (2018-9-2)

Para que esta história fique completa, para memória futura, falta a versão dos camaradas da CART 3329 (1970/72). Ficamos a aguardar esse importante contributo histórico.

Obrigado pela atenção.

Com um forte abraço de amizade e votos de muita saúde.
Jorge Araújo.
14SET2018
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Nota do editor:

Último poste da série > 29 de julho de  2018 >  Guiné 61/74 - P18878: (D)o outro lado do combate (35): a doutrina do PAIGC no recrutamento de jovens combatentes para as suas fileiras (Jorge Araújo)