terça-feira, 3 de novembro de 2015

Guiné 63/74 - P15320: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (27): De 01 a 31 de Março de 1974

1. Em mensagem do dia 31 de Outubro de 2015, o nosso camarada António Murta, ex-Alf Mil Inf.ª Minas e Armadilhas da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74), enviou-nos a 27.ª página do seu Caderno de Memórias.


CADERNO DE MEMÓRIAS
A. MURTA – GUINÉ, 1973-74

27 - De 01 a 31 de Março de 1974

Março de 1974 – Não podendo dispor dos meus registos de memórias desta época, pelas razões já aqui expressas várias vezes, socorro-me de breves passagens da correspondência enviada para a Metrópole, mas, principalmente socorro-me do valioso documento memorial que é a História da Unidade do meu Batalhão, como um filme daquela curta mas tão marcante etapa da minha vida. Rebobino o “filme” para o mês em apreço e está lá tudo o que preciso saber, desde os factos de que não tenho a mínima memória, - ou de que nunca tivera conhecimento -, aos factos que, embora ainda vagamente lembrados, jamais conseguiria datar e localizar com precisão. Outros, é certo, estão bem vivos na memória e limito-me a confirmar no “filme” o rigor do que está gravado. Dizia um antigo presidente americano, - Abraão Lincoln, creio -, que a memória é como um aço muito duro, difícil de gravar, mas depois de gravado, jamais se apagará. Mais ou menos nestas palavras.

Este mês de Março ficou marcado por alguns acontecimentos empolgantes, para variar, como a ligação de Nhala à estrada nova Aldeia Formosa-Buba e a visita da Presidente do Movimento Nacional Feminino, Cecília Supico Pinto. Sobretudo esta visita, trouxe uma animação inusitada às tropas de Nhala – e do Sector -, mas não se pode dizer que tivesse, também, quebrado a monotonia e a rotina, simplesmente porque naquela época, o que tínhamos menos era monotonia e rotina, tal era a actividade operacional. Esta actividade continuava virada para a protecção às obras da estrada como até aí, mas, a partir de agora, também para a protecção exclusiva das máquinas, paradas à noite, em zonas cada vez mais afastadas dos aquartelamentos, implicando dormidas no mato junto delas. Para além disto, todo o Sector era “vasculhado” constantemente, em acções desencadeadas pelos alarmantes sinais – no terreno e não só -, de que a guerrilha estava um pouco por todo o lado: ora deixavam pegadas, ora lançavam very-lights, ora faziam tiros de RPG que se ouviam nas matas afastadas. Por várias vezes apareceram mesmo, dispostos ao confronto: logo no início do mês interceptaram dois soldados do Pel Caç Nat 55 que andavam à caça, matando um deles; na estrada Mampatá-Colibuia tentaram aproximar-se dos pontões, possivelmente para os destruir, mas foram repelidos pelo GrComb da CART 6250 de Mampatá que lá estava emboscado; no dia 15, a tropa de Buba, da 1.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 que se deslocava para a protecção às obras da estrada, foram emboscadas, (pela segunda vez) por cerca de 50 elementos. Em carta para a Metrópole, dei conta: “Hoje, mais uma vez, uma coluna vinda de Buba para a frente trabalhos, entre aquela base e Nhala, foi atacada na estrada. Mesmo nas nossas barbas, mas sem consequências”. Foi em 15 de Março/74, uma sexta-feira. Ainda nessa carta, como curiosidade, informo: “Há dias foi colocada uma bomba dentro de um café que eu costumava frequentar quando de passagem por Bissau”. Estava assim o ambiente geral.

Anteriormente, no dia 7 já noite, vimos subir nos céus de Nhala, mesmo à nossa frente, um very-light verde, silencioso e belo, como num resto de romaria minhota. Estávamos sentados no alpendre da messe, cada um com o seu copo na mão em amena cavaqueira, mas a reacção imediata não foi esperar pelo rufar dos tambores e acordes de gaita-de-foles, mas sim largar tudo e correr para o que tinha de ser feito. Toda a iluminação desligada, em pouco tempo o morteiro 81 estava no espaldão a bater a zona em frente. Todo o pessoal nas valas, expectante, sem saber o que aconteceria a seguir. Eu e a equipa do morteiro 60 do meu grupo, corremos para o extremo da tabanca, do lado da picada para Buba, para bater uma possível retirada por esse lado. Disto lembro-me perfeitamente. Colocámo-nos num espaço exíguo entre a vala de defesa e uma palhota. Enquanto ali estivemos, quase encostados à palhota, eu ouvia no seu interior um tossir de mulher de idade, pareceu-me, numa tosse persistente e cavernosa que picava num peito já sem energia. Não sei se estaria acompanhada mas, apesar do barulho das saídas do morteiro quase ao pé da porta, ninguém veio espreitar ou indagar daquelas necessidades de incomodar quem precisava de descansar. Nunca mais esqueci este episódio. No dia seguinte fizemos uma batida na zona, mas apenas encontramos pegadas de dois indivíduos.


10 de Março de 1974 – (domingo) – A visita da Cilinha

Cecília Maria de Castro Pereira de Carvalho Supico Pinto (1921 – 2011), Cilinha, como gostava de ser tratada, (diminutivo que lhe vinha da infância), era descendente de aristocratas e uma Senhora do Regime. Não precisa de grandes apresentações porque sobre ela quase tudo já foi dito. Muito antes de a ter conhecido em Nhala, já tinha por ela uma elevada consideração e um grande respeito, pela sua coragem, tenacidade e coerência. Durante treze anos, de 1961 a 1974, foi presidente do MNF que ela fundou, tendo em vista acções de sensibilização da sociedade portuguesa para a defesa das colónias ultramarinas, o seu Ultramar. Tudo fez nesse sentido, desdobrando-se em iniciativas na Metrópole e calcorreando as colónias, tentando dar alento a tropas desmotivadas e politicamente amorfas.

Era por ser assim, e não pelos seus objectivos, que a admirava e a minha consideração elevou-se depois de a ter conhecido. Porque, sendo coerente com as suas convicções, saiu do seu confortável cantinho e dos salões solenes e elegantes, e veio para o terreno com o seu camuflado pôr na prática aquilo em que acreditava, correndo riscos e sofrendo privações. E via-se que gostava do que fazia, exibindo uma alegria contagiante e uma disponibilidade total, atributos que passavam para quem a via e ouvia, por a reconhecerem como “um deles”. Politicamente, eu estava nos antípodas. Para mim, a Cilinha, pelas suas ideias e acções e pela sua proximidade (intimidade) com o Regime, representava o Regime.

Politicamente, portanto, eu era contra a sua filosofia de manutenção das colónias, contra tudo o que dizia e fazia nesse sentido, que era, um pouco do que já fizera na sua juventude em prol da caridadezinha.

Paradoxo, incoerência da minha parte? Não. Repito que, como pessoa, tinha por ela o meu maior respeito e consideração. Aliás, soube já depois da sua morte que, nesse aspecto de respeitar o “outro” mesmo não concordando com “ele”, ela não era muito diferente de mim. Dois exemplos: Foi sempre amiga, desde a infância, da Sofia de Mello Breyner, mesmo estando em campos políticos opostos; uma vez disse, revelando nobreza de carácter: “Admiro Cunhal pela sua coerência”. Para terminar, lamento que após o 25 de Abril e até à sua morte, tenha sido desprezada pela esquerda e ostracizada pelos seus correligionários de direita. Tudo apanágios de gente de baixa índole. Sei que nunca foi hostilizada, ainda assim, merecera mais consideração.

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À chegada a Nhala, a Cilinha foi alvo de calorosa recepção por parte da tropa e de alguma população, sobretudo crianças. Mais pelo inédito da situação e pela curiosidade por esta mulher branca que se aventurava no mato para chegar perto deles, com estímulos e uma palavra amiga. Almoçou na messe de oficiais após uns descontraídos aperitivos, mais para pôr a conversa em dia. Vinha acompanhada pelo Comandante do Batalhão, Ten Cor Carlos Alberto Ramalheira e por um séquito de outros oficiais que foi arrastando por onde passou. Após o almoço (ou antes?) houve tempo para falar aos soldados, cantar o fado e, até, dançar com alguns. Depois partiu rumo a Mampatá, após demoradas e sentidas despedidas. Admito que foi o acontecimento do mês, mas não poderia adivinhar que o mês seguinte traria acontecimentos muito mais importantes e marcantes do que este, efémero e superficial.

Seguem-se algumas fotografias que seleccionei dessa visita.


Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: A Cilinha rodeada por alguns oficiais num momento de descontracção durante os aperitivos.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: A Cilinha a dialogar com o Comandante do Batalhão Carlos Ramalheira. Em primeiro plano o Cap. João Brás Dias, Comandante da 1.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 de Buba.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: Messe de oficiais de Nhala. O Comandante do Batalhão diz umas palavras de circunstância.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: Ajuntamento de alguns militares e nativos para ouvir a Presidente do MNF.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: A assistência vai-se chegando, mas alguns parecem hesitantes...

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: Após a visita, a Cilinha é acompanhada até às viaturas para o regresso. À sua esquerda o Comandante da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 de Nhala, Cap Braga da Cruz. À frente, o Comandante do Batalhão em diálogo com um homem grande da tabanca.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: A Cilinha troca umas palavras com o Cap Braga da Cruz.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: Cilinha sorridente, num meio que lhe é familiar: a tropa.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: A Cilinha olha directamente para a objectiva (corte da fotografia anterior).

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: Finalmente o embarque.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: A Cilinha e o Comandante do Batalhão acomodam-se por cima de sacos de areia.
 
Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: Última despedida do Cap Braga da Cruz.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: A Cilinha despede-se de um Alferes que não consigo identificar.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: Últimas recomendações? A mim pareceu-me mal que a Cilinha e o Comandante tivessem seguido à cabeça da coluna numa Berliet rebenta-minas.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: Vista geral do aparato que envolveu a visita da Cilinha.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: Último adeus da Cilinha ao pessoal de Nhala. Em segundo plano, de frente com a mão na cintura, vê-se o Fur Mil Manuel Casaca.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: A coluna embica pela velha picada rumo a Mampatá. Mas em frente já é possível ver-se o troço que, ao cimo, entronca na estrada nova: à direita para Buba, e à esquerda pata Mampatá e Aldeia Formosa.

Nhala, 1974-03-10 – Visita da Cilinha: O pó foi sempre uma constante, mas agora agravado pelo revolver dos terrenos pelas máquinas da Engenharia. Não o apanhar de frente, é uma vantagem de quem segue na viatura rebenta-minas. Ou talvez por isso...

(Continua)

Texto e fotos: © António Murta
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Nota do editor

Poste anterior da série de 27 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15297: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (26): De 29 de Janeiro a 26 de Fevereiro de 1974

10 comentários:

Luís Graça disse...

São palavras de grande autenticidade, hombridade e nobreza, as que escreves sobre esta mulher, a Cilinha, que podíamos descrever como a "pasionaria" do regime...Podemos discordar, política e ideologicamente, das pessoas com quem fizemos a guerra, ou contra quem fizemos a guerra, mas o respeito pelo "adversário" é das coisas que eu mais admiro... Alpoim Calvão manifestou, publicamente, antes de morrer, nm entrevistas que deu, a sua admiração pelos guerilheiros do PAIGC que tão duramente combateu...

Luís Graça disse...

Valiosíssimo, o teu álbum fotográfico!... Continua a ser uma caixinha de surpresas!... E fazes bem em editar as fotos, desde que tenham boa resolução... Podes fazer "grandes planos", valorizando certos detalhes... Foi o que fizeste (ou foi o Carlos Vinhal por ti ?) com o "grande plano da Cilinha" mais o comandante de batalhão... Parabéns!

Anónimo disse...

Documento de grande valor, Caro Murta.
V Briote

Cesar Dias disse...

Que grande reportagem,finalmente vejo uma senhora que nos acompanhou, não me recordo que tenha passado por Mansoa (69/71), ouvi falar dela , bem e mal como era normal.
Caro Murta, obrigado por partilhares estas imagens connosco, dá-nos a ideia que estamos no terreno.
Um abraço
César Dias

JD disse...

Caro Murta,
Não posso deixar de me associar à tua homenagem a essa figura mítica, que foi a Cilinha. Nunca a vi, mas foi uma patriota consequente, que fez o que muitos militares e políticos não fizeram, talvez porque ela acreditasse, e eles, incompetentes, só tivessem em consideração o "prestígio" das funções que exerciam.
Mais ou menos como acontece persistentemente, pois os responsáveis desta "segunda república" não têm mostrado sentido cívico nem orgulho em servir Portugal, e têm sido responsáveis por inumeras traições que nos conduziram à perda da soberania, e à corruptela dos valores de solidariedade e de orgulho nacional, que precipitou o país numa profundíssima crise económica, financeira, e de identidade.
Um abraço
JD

Anónimo disse...

Na senda que nos tem habituado o Murta continua a revelar-nos cenas e ângulos de visão singulares da nossa guerra. O MNF liderado por Ceília Supico Pinto teve um papel nesta guerra, como nós todos, antigos combatentes. Pelo seu esforço, em proveito nosso, a minha gratidão.

Um abração

Carvalho de Mampatá

Valdemar Silva disse...

Parabéns, caro Murta.
Extraordinária reportagem fotográfica.
Contado, se calhar, ninguém acredita ou, só acreditam os que lá estiveram.
Eu, também, conheci a Cilinha. 'Quem é que do Benfica'? perguntou ela e,
depois, ofereceu uma bola de futebol.
Cilinha 1921-2011, como é que viveu 90 anos a mandar a baixo uns bioxenes
e umas grandes cigarradas?
Mais uma vez, grande reportagem fotográfica. A foto final com a poeirada até
parece ensaiada.
Valdemar Queiroz

Anónimo disse...

É, sem sombra de dúvidas, um excelente documentário e, por isso mesmo, agradeço ao Grã-tabanqueiro Murta, a sua partilha. No mesmo mês de Março de 1974 (não sei em que dia), a Cilinha, juntamente com outra senhora, visitaram Gadamael Porto, tendo aí pernoitado. Era, sim senhora, uma mulher de coragem. No dia em que lá chegou, estávamos no bar de oficiais e já noite fechada, entrou um soldado com uma granada descavilhada na mão e a gritar "f...-vos todos". Excusado será dizer que esse soldado já estava "apanhado" (já tinha lá ultrapassado o tempo normal da comissão devido a sanções disciplinares. O certo é que a Cilinha não arredou pé do sítio onde se encontrava. O soldado foi mais ou menos facilmente manietado e foi-lhe retirada a granada em segurança. No dia seguinte, por volta das 5:30 da manhã, uma flagelação e, a Cilinha, uma vez mais, deu provas da sua coragem. De facto, enquanto nós recorremos às valas e abrigos, a Cilinha já se encontrava no bar e dali não arredou. Questionada pelo Capitão Patrocinio sobre o facto de não se ter abrigado, ela respondeu: Só se morre uma vez. Grande lição.

Um abraço a todos
Carlos Milheirão

António Murta disse...

Obrigado a todos pelas amáveis palavras.

É muita gentileza vossa. Ainda mais, com achegas que enriquecem o conhecimento sobre essa grande Senhora.

Abraço a todos,
A. Murta.

Joana Cavaleiro disse...

Papá:
Mais uma vez me comovo por saber que guardas tantas histórias impressionantes, cheias de emoção! Garanto-te que muito poucos foram os livros que li, que me fizessem sentir entrar tão profundamente na acção da história, e arrepiar, e ficar com um nó no estômago ao passar naqueles momentos de ansiedade e perigo!... Gosto muito de te ler!... Gosto muito da forma como escreves!
Mais uma vez te peço que continues! Posso não ter tempo agora para ler todas as tuas publicações, mas garanto-te que um dia, talvez naquela ainda longínqua fase da vida em que as minhas filhas vão querer dar mais que fazer a outros do que a mim, eu então vou querer ler tudinho, sem falhar nenhum capítulo!
Beijinho bom!
Joana