domingo, 1 de novembro de 2015

Guiné 63/74 - P15312: Libertando-me (Tony Borié) (41): O passado é o início do futuro

Quadragésimo primeiro episódio da série "Libertando-me" do nosso camarada Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGR 16, Mansoa, 1964/66, enviado ao nosso blogue em mensagem do dia 28 de Outubro de 2015.



O passado é o início do futuro! É quase uma afirmação de que, tudo o que de novo se inicia nas nossas vidas, teve origem num passado.

Gostávamos de falar do nosso Portugal, mas infelizmente não recebemos muita formação escolar durante a nossa juventude, sabemos só o básico, portanto, às vezes, contamos coisas da região de Águeda e outras povoações por onde passámos, pelo menos no serviço militar, portanto amigos companheiros, não fiquem pensando que “isto são americanisses”, falamos daqui, que é onde vivemos e onde recebemos alguma educação superior.

Cá vai a história de hoje.
Viajávamos no estado de Kansas, na estrada rápida número 70, no sentido Oeste, quando nos surge uma placa de sinalização dizendo “Fort Wallace”, não pensámos duas vezes, seguindo a estrada estadual número 40, passado algum tempo, depois de viajar por planícies sem fim, surge-nos Fort Wallace, que tem um passado importante na história da imigração para o oeste.

Tudo começou por volta do ano de 1865, quando foi considerada como a melhor rota não só para correio como para caravanas a partir de Atchison, no estado de Kansas, para Denver, no estado do Colorado, onde começaram a nascer estações, aproximadamente de 15 em 15 milhas de distância e, uma estação era uma "casa" que alimentaria os viajantes, fornecia feno aos animais, e onde também poderiam trocar as mulas, ou cavalos, por animais mais frescos. A área era um hostil território de índios Cheyennes, que não apreciavam a invasão dos colonos brancos, e claro, os ataques tornavam-se demasiado frequentes, chegando ao ponto de cada caravana ter, pelo menos, 20 ou mais vagões e 30 homens armados.

Muitas destas paragens eram pequenas fortalezas, com poucas condições de sobrevivência, que eram palco de frequentes ataques, quase só abrindo as suas portas quando recebiam as caravanas de colonos. Assim surgiu um posto avançado com mais segurança a que deram o nome de Stage Station Pond Creek, ou seja Acampamento de Pond Creek, sendo este o maior acampamento daquela rota, portanto logo se tornou no maior alvo dos índios Cheyennes, pois viam naquele acampamento um forte motivo do avanço dos colonos brancos, atacando-o frequentemente, os ataques dos índios eram tão numerosos por esta altura, que o negócio tornou-se inútil, ou seja, os colonos estavam quase a desistir do avanço para oeste, chegando ao ponto do governo intervir, instalando um Acampamento Militar bem próximo, a mais ou menos milha e meia de distância, a que deram o nome de Fort Wallace, em honra de WHL Wallace, um general que morreu na batalha de Shiloh.


Neste forte estavam estacionados à volta 350 militares, chegou a ser designado como “Fightin’est Fort in the West”, ou seja mais ou menos, o forte onde se praticaram as maiores lutas do Oeste. Numa altura em que o búfalo era o mais importante meio de sobrevivência, tanto para os índios Cheyennes, como para os colonos em trânsito, era o principal motivo de guerras, pois os índios viam nos animais o seu sustento única e simplesmente, controlando o seu abate, que era feito consoante a necessidade, enquanto que alguns colonos, além de sustento, viam o lucro na comercialização da sua pele. Vimos vestígios do passado dizendo-nos que por aqui passaram nomes históricos como General George Armstrong Custer, que aqui teve a primeira batalha com os índios, o grandes homens de fronteira como George Forsyth, Buffalo Bill Cody ou Wild Bill Hickok.

Mas o que nos “tocou” mais foram as sepulturas no cemitério da área, onde as placas dizem coisas como por exemplo: “L. Frey, idade 35, veio da Prússia, morreu de desinteria, família, não há conhecimento”; “Campa 42, nome, não se sabe, idade, não se sabe, causa da morte, não se sabe”; “H. T. Wyatt, veio de Missouri, morreu em 1868, assassinado por um tiro de pistola às mãos de Wm. Comstock”; “John Etcher, idade 60, veio de Inglaterra, encontrado morto, gelado, próximo de Wallace”; “Sand Callahan, idade, não se sabe, morreu de profundos ferimento das setas dos índios, próximo ribeiro Rose”; “Philip Cory, assassinado em Pond Creek Station, não tinha família”; “Charles Walker, idade, não se sabe, assassinado com tiros de pistola em Pond Creek”; “sepultura 24, nome, não se sabe, foi encontrado na planície, próximo da estrada militar, família, não se sabe”; “John Drier, idade, não se sabe, assassinado a tiro de pistola em Sheridan, Kansas”; “William McDonald, idade, não se sabe, morreu de acidente, caindo da carroça onde seguia na caravana, próximo de Sheridan, Kansas”; “nome, não se sabe, morreu pelo escalpe, arrancado ainda vivo, por índios, a oito milhas oeste da planície”; “Miss Katie Runey, idade 2 anos, morreu com a doença da cólera, próximo do campo de Fort Wallace”; “John Langford, idade 22, enforcado numa árvore pelos “vigilantes”, perto de Pond City, Kansas”; “G. H. Brownell, idade não se sabe, morto por índios perto da Estação de Timbers”.

Estes são exemplos da odisseia, da aventura dos colonos a caminho do Oeste, para onde seguiam pessoas das mais variadas origens, procurando novos rumos, para onde alguns levavam na sua mente o tal espírito de aventura, que todos nós temos, que às vezes é só “querer estar onde não estamos”.

Tony Borie, Outubro de 2015
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Nota do editor

Último poste da série de 25 de outubro de 2015 > Guiné 63/74 - P15288: Libertando-me (Tony Borié) (40): Isto é a Flórida

5 comentários:

Juvenal Amado disse...

Tony

A história de muitos países pauta-se pela violência com que defenderam fronteiras dos ataques de outras nações que tentaram a todo o custo absorver os seus estados. Nós tantas vezes evitamos ser anexados pela a Espanha.
A violência dos combates bem com a forma como se tratavam os derrotados são relatos de atrocidade difíceis de entender hoje.
Mas na América, bem como a Austrália, Nova Zelândia, bem como a maioria dos países da América Latina, têm a sua fundação assente na extermínio da sua população indígena, que viviam agrupadas em nações com leis e condutas próprias e à medida que os colonizadores avançavam para o Oeste, foram sendo exterminadas.
Os invasores praticaram assim uma politica de matança e genocídio das populações e bem das suas formas de viver com dignidade, ocupando as suas terras, metendo-os em reservas administradas por corruptos funcionários, que levaram os guerreiros por diversas vezes a pegar em armas contra o invasor. Porque eram isso mesmo invasores sem piedade. Cada vez que foram vencidos ficaram mais pobres e calcados nos seus direitos.
É uma história triste que é hoje revivida em festas para turista ver.

Quando era garoto brincava aos índios e aos cawboys e como garoto que se prezava, antes queria ser o General Custer do que índio. Os livros e os filmes de cowboys apresentavam sempre o índio como sendo o mau da fita. Hoje sabemos que não foi assim.
Talvez o primeiro filme que vi que retrata a odisseia dos povos indígenas americanos foi "O Pequeno Grande Homem" com Dusty Hoffman . Aconselho a quem não viu a ver.

Um abraço

Hélder Valério disse...

Caro Tony

É bem verdade isso do passado 'ter a ver com o futuro'. Não há qualquer margem para grande objecção ao facto de se dizer que as opções tomadas num determinado momento originam as realidades seguintes, ou seja, o passado determina o presente e, naturalmente, este determinará o futuro.

No que diz respeito à história que hoje nos trazes é bem verdade que "Fort Wallace" faz (ou fez) parte do imaginário da nossa geração através dos filmes e revistas que falavam da epopeia da 'conquista do Oeste'. E também desses personagens que relatas.
É também curioso esse teu olhar sobre as sepulturas e o que elas revelam.

Quanto ao comentário do Juvenal, com observações apropriadas, eu acrescentava outro filme que por cá apareceu como o título "Danças com Lobos" com o Kevin Costner, com pontos de vista que normalmente não aparecem. Igualmente no filme com o título em português "O Último Samurai", está lá, embora assim de fugida, a razão pela qual o oficial do exército americano está em 'oposição moral' à sua chefia. Interessante também é um livro de 1953 de um tal L.L. Mathias com o título em português de "Autópsia dos Estados Unidos", teorizando sobre a "natureza" das guerras que os EE.UU. travaram.
É claro que seria necessário aprofundar mais sobre a composição social, a sua origem, os costumes, a cultura, a 'civilidade', etc., dos colonos da expansão, mas isso é um bocado mais trabalhoso.

Abraço.
Hélder S.

PS
Quando brincava aos 'índios e cobóis' também queria ser dos cobóis, de preferência o 'xerife'. Ah, e acredites ou não, algumas vezes, na brincadeira entrava também um tal "ZéZé" que era 'filho do carcereiro' e algumas vezes, quando havia vagas, colocávamos os prisioneiros numa cela verdadeira.....

Antº Rosinha disse...

Uma vénia temos que fazer aos norte-americanos, eles não são choramingas, não atribuem o fim dos índios aos colonizadores ingleses, "fomos nós os cóbois americanos" e acabou-se.

Os americanos só não deviam mentir em inglês que na américa do sul tanto os portugueses como os espanhóis não deixaram um indiozinho para os outros matarem.

No caso dos brasileiros, guatemáltecos, mexicanos, etc. nem um indiozinho sobrou para eles fazerem o gosto ao dedo.

O Tony traz-nos o caso deste tipo de "colonização exemplar" norte-americana, num momento em que estamos a assistir a uma invasão da Hungria, Austria e Grécia e Alemanha etc.

As voltas que o mundo dá!

Juvenal Amado disse...

Se chamar à colonização uma coisa exemplar, quando são chacinados os indígenas até praticamente até ao desaparecimento físico de nações inteiras.
O governo pagava por cada índio morto.
O mesmo aconteceu na Austrália em relação ao povo aborígene, facto que motivou um pedido de desculpas do governo há pouco tempo.
De facto haverá poucos "choramingas", quando os seus povos foram tão exemplarmente apagados do mapa.
Quase não sobrou ninguém para contar a história tão exemplar

Vasco Pires disse...

É certo que os colonizadores e as doenças que trouxeram, dizimaram grande quantidade de indígenas.
Atualmente, no Brasil, devem existir entre 900mil e um milhão de índios, de 305 etnias e 274 idiomas.
Forte abraço.
VP