sábado, 10 de maio de 2014

Guiné 63/74 - P13126: Convívios (593): XVIII Almoço do pessoal da CART 2716 (Xitole, 1970/72), dia 31 de Maio na cidade do Porto (José Martins Rodrigues)

A pedido do nosso camarada José Martins Rodrigues (ex-1.º Cabo Aux Enf.º da CART 2716/BART 2917, Xitole, 1970/72) em mensagem de hoje, 10 de Maio de 2014, damos notícia do 18.º Almoço/Convívio do pessoal da CART 2716:


CART 2716

18.º ALMOÇO CONVÍVIO – 2014 – PORTO 

ESTIMADO AMIGO E EX-CAMARADA DE ARMAS 

Honrando uma já longa tradição de que muito nos orgulhamos, vamos festejar esta “família” que a nossa estadia Guiné ajudou a nascer. A cada ano, este um é dia único e muito especial porque transforma os nossos rostos em sorrisos abertos de alegria pelo reencontro e os nossos abraços são cúmplices de uma sincera, leal e fraterna Amizade.

Desejamos sinceramente que todos se sintam motivados a alegrar este nosso almoço convívio que se vai realizar no próximo dia 31 de Maio (sábado) na cidade do Porto.

O repasto terá início pelas 13horas no Restaurante “O Assador Típico” na rua D. Manuel II nº 22, junto ao Museu Soares dos Reis, a pouca distância do Palácio de Cristal e próximo das traseiras do Hospital de Santo António.

Cumprindo o nosso tradicional roteiro gastronómico, da ementa constará, como entrada, as inevitáveis Tripas à moda do Porto e o repasto será de churrascos e grelhados de diferentes peixes e carnes e suas guarnições.

O local da concentração será a partir da 10horas na rua D. Manuel II, junto da entrada principal do Palácio de Cristal. O estacionamento terá que ser encontrado nas ruas próximas do restaurante e do local concentração e para quem optar por estacionamento no privado Cristal Parque, defronte do restaurante, este oferece duas horas de estacionamento gratuito.

O nosso muito estimado e respeitado Capitão Espinha de Almeida irá, como é seu habitual desejo, dirigir-nos algumas palavras de estímulo. De seguida, serão distribuídas as lembranças alusivas ao Convívio.

Faz deste dia uma festa e trás a tua família para partilhar connosco as vivências da nossa experiência em terras da Guiné.

Inscreve-te até ao dia 25 de Maio, pelos telefones: 
Santos - 229 812 148 
Rodrigues – 229 517 464
Guimarães – 227 345 236 
Faria - 252 942 314 


RESTAURANTE ASSADOR TÍPICO I

ENTRADAS: 
RISSÓIS, CHOURIÇO, TOSCANA, ROJÕES, MOELAS E TRIPAS A MODA DO PORTO.

PRATO DE PEIXE: 
MISTO DE PEIXES; BACALHAU NA BRASA, LULAS GRELHADAS E SALMÃO NA BRASA. 

PRATO DE CARNE: 
MISTO DE CARNES: POSTINHA DE VITELA, ENTRECOSTO, COSTELINHAS E FRANGO. 

SOBREMESA: 
DOCE DA CASA, FRUTA LAMINADA. 

BEBIDAS: 
VINHO VERDE, VINHO MADURO, ÁGUA, SUMOS E CERVEJA. 

CÁFE E DIGESTIVO.

BOLO COMEMORATIVO E ESPUMANTE. 

Preço por pessoa – 20 euros 
Crianças entre os 5 e os 10 anos – 10 euros 

CONTACTO: 222015149 
RUA D. MANUEL II, 18/26 
4050-342 PORTO

Se tiveres dificuldade em encontrar o local liga para: Rodrigues - 967 409 449

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Nota do editor

Último poste da série de 8 DE MAIO DE 2014 > Guiné 63/74 - P13112: Convívios (592): XXIX Almoço anual da CART 3494, comemorativo do 40.º aniversário do regresso, dia 7 de Junho de 2014 em S. Pedro de Moel

Guiné 63/74 - P13125: Bom ou mau tempo na bolanha (55): Entre militares em cenário de guerra (Tony Borié)

Quinquagésimo quinto episódio da série Bom ou mau tempo na bolanha, do nosso camarada Tony Borié, ex-1.º Cabo Operador Cripto do CMD AGRU 16, Mansoa, 1964/66.




Há algum tempo o “comandante” Luís Graça comentando uma qualquer coisa a que eu vou chamando, um “texto”, ou um “post”, que na verdade só é legível com a preciosa paciência e ajuda do Carlos Vinhal, dizia uma frase onde mencionava, “ a tua Mansoa City”.

Talvez brincando com a história do conflito que por lá vivemos, aquilo em alguns princípio de mês, não era bem a “Mansoa City”, mas talvez, Las Vegas, Las Vegas, ou mesmo Atlantic City e, o aquartelamento em construção, talvez fosse o “Bellagio”, o “Caesars Palace”, o “Mandaly Bay” ou mesmo o “New York New York”.

Tudo se passava nos aposentos do furriel, que por sinal andava sempre a fumar um cigarro feito à mão e, aquelas “jornadas” de “lerpa” ou “montinho”, que se prolongavam pela noite dentro, só terminando quando uma das três coisas acabasse primeiro, que eram, os cigarros, o álcool, ou o escuro da noite, com o regresso da luz do dia.

Durante o dia, o Cifra carregava, à frente de todos, uma caixa de cerveja e talvez uma garrafa que devia ser do tal “whisky Vat 69”, que vinha da Escócia, onde algumas garrafas traziam a legenda que dizia mais ou menos, “for portuguese military, with love”, talvez fosse roubada, ou talvez não, mas vinha da messe dos sargentos, onde o Cifra fazia as contas, pois o bom do sargento dava-lhe uma certa liberdade, até diziam que era “burro”, mas devia de ser só fama, pois ele tinha muita competência para naquelas circunstâncias, dar de comer àquela gente toda e, era uma pessoa de muito bom trato.

Depois era a noite de “jogatana”, onde os “pesos” se acabavam para alguns, cresciam para outros, onde ninguém ficava “teso”, pois tal como os cigarros, quando estavam quase sem dinheiro, logo se pedia emprestado aos que naquele momento estavam a ganhar, mas no final, quando terminava o jogo, ninguém devia nada a ninguém, quem ganhasse, ganhou e, o que se passou, passou e, tal como em Las Vegas, “what happens in Las Vegas, stays in Las Vegas”, aqui era o mesmo, tudo ficava e “morria” dentro daqueles aposentos, ao outro dia, era outro dia e ninguém falava em dívidas ou lucros.


E, já que estamos a falar naqueles militares que por lá estavam, aquilo não era bem como o professor Silvestre nos explicava, na então escola fria, do adro da vila de Águeda, em que nos dizia que havia três classes de pessoas, que era “o Clero, a Nobreza e o povo”, mas lá em Mansoa também havia algumas classes de militares, eram os soldados, cabos, furriéis e alferes milicianos, que se tratavam quase “tu cá, tu lá”, depois eram os capitães e os majores, dos quais nós tínhamos algum receio e muito respeito, assim como ao nosso comandante, que era um tenente-coronel, mas de melhor trato que alguns desses capitães e majores.

Naquele aquartelamento em Mansoa, pelo menos enquanto o Cifra ali esteve estacionado, não havia as formalidades usadas e ensinadas aos militares, quando receberam a instrução básica, no quartel em Portugal, não havia toque de clarim pela manhã, ou em qualquer outra ocasião do dia, pelo menos os mais velhos e que já se conheciam, respeitavam os seus superiores, acatavam as suas ordens, claro, havia sempre excepções, como no caso do Curvas, alto e refilão, mas mesmo esse militar nunca levou qualquer castigo disciplinar, pelo contrário, mas um simples, olá meu sargento, como está meu alferes, muito bom dia meu capitão, o meu major passou bem? Só havia um major que queria saudação, mas quase todos o evitavam. Os furriéis e alferes milicianos, pelo menos os que estavam estacionados no aquartelamento, conviviam com os soldados, quase de igual para igual.


Só ao comandante é que se dizia: Vossa Excelência dá licença, com a respectiva saudação, ao que ele dizia sempre, que não queria salamaleques, só queria que o respeitassem e tivessem disciplina nas suas funções, pois estávamos todos no mesmo barco, embora com diferentes responsabilidades.

Às vezes, quando as notícias não eram tão boas, ficava com cara de comandante e, quase todos o evitavam.

As horas das refeições estavam marcadas numa lista no refeitório, com o nome da companhia ou pelotão, e quase todos respeitavam. Mais tarde, como o movimento de militares aumentou, pois chegou a haver quase três vezes mais militares no aquartelamento, já havia umas certas regras, e houve até alguns casos de disciplina, mas nunca houve o toque de clarim, nem qualquer chamada de recolher.

Quando alguns ficavam a falar até um pouco mais tarde no dormitório, bastava um dizer um pouco mais alto: Calem-se, caral..! - Há malta que tem de sair pela madrugada. E quase todos se calavam.

Tony Borie, Abril de 2014.
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Nota do editor

Último poste da série de 3 DE MAIO DE 2014 > Guiné 63/74 - P13088: Bom ou mau tempo na bolanha (54): Caravelas, Bolanhas, Índios & Cowboys! Hoover Dam (Tony Borié)

Guiné 63/74 - P13124: Histórias da CCAÇ 2533 (Canjambari e Farim, 1969/71) (Luís Nascimento / Joaquim Lessa): Parte V: (i) A praxe (a história de uma partida a um alferes pira e que envolve também o cap inf Vasco Lourenço); e (ii) a cabra do mato que chorava (Fernando Pires, ex-fur mil at inf)


Capa da brochura "Histórias da CCAÇ 2533"



1. Histórias da CCAÇ 2533 > Parte V (Fur mil at inf, 3º pelotão, Fernando Pires)


[Imagem à esquerda: guião da CCAÇ 2533, cortesia de Carlos Coutinho, cuja coleção de guiões nos foi facultado pelo nosso camarada António Pires, do portal Ultramar Terraweb]


Continuamos a publicar as "histórias da CCAÇ 2533", a partir do livro editado pelo 1º ex-cabo quarteleiro, Joaquim Lessa, e impresso na Tipografia Lessa, na Maia (115 pp. + 30 pp, inumeradas, de fotografias). Esta publicação é uma obra coletiva, feita com a participação de diversos ex-militares da companhia (oficiais, sargentos e praças).

A brochura chegou-nos digitalizada através do Luís Nascimento (que também nos facultou um exemplar em papel e que, até ao momento, é o único representante da CCAÇ 2533, na nossa Tabanca Grande). Temos autorização do editor e autores para dar a conhecer, a um público mais vasto de amigos e camaradas da Guiné, as peripécias por que passou o pessoal da CCAÇ 2533, companhia independente que esteve sediada em  Canjambari e Farim, região do Oio, ao serviço do BCAÇ 2879, o batalhão dos Cobras, cuja história já aqui foi publicada pelo nosso camarada e amigo Carlos Silva, carinhosamente tratado por "régulo de Farim".

 Começamos hoje a publicar a colaboração do fur mil at inf Fernando J. do Nascimento Pires, que pertenceu ao 3º pelotão,  São duas pequenas histórias: (i) a praxe (pp. 27/28); e (ii) a cabra de mato (p. 29). 

Aproveito para, em troca da sua colaboração, convidar o Fernando Piers para se juntar à nossa Tabanca Grande. Só precisamos de 2 fotos dele, uma atual e outra do tempo da tropa... O convite é extensivo aos restantes autores, que iremos publicando. (LG)










Cortesia de Fernando Pires (ex-fur mil at inf, CCAÇ 2533, Canjambari e Farim, 1969/71), e dos seus camaradas Joaquim Lessa e do Luís Nascimento


(Continua)
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Guiné 63/74 - P13123: Homenagem póstuma, na sua terra natal, Areia Branca, Lourinhã, 11 de maio próximo, ao sold at cav José Henriques Mateus, da CCAV 1484 (Nhacra e Catió, 1965/67), desaparecido em 10/9/1966, no Rio Tompar, no decurso da op Pirilampo. Parte VII: Dois importantes depoimentos de camaradas e amigos do Mateus, o sold at cav, José Francisco Couto (Bombarral e Canadá e o ex-fur mil radiomontador Estêvão Alexandre Henriques (Lourinhã) (Jaime Bonifácio Marques da Silva)



Detalhe do cabeçalho do cartaz nº 5, de uma série de cinco, elaborados por Jaime Bonifácio Marques da Silva, e que vão ser exibidos, no próximo dia 11 de maio, no clube local da Areia Branca Lourinhã, na sessão de homenagem á memória do José Henriques Mateus (1944-1966). Aproveitámos alguns elementos de desses cartazes, na impossibilidade técnica de os reproduzir na íntegra, de forma legível, e procurando não repetir informação já aqui divulgada.  Neste poste, reproduzimos dois importantes depoimentos, de camaradas e amigos do malogrado José Henriques Mateus, que estavam com ele em Catió, em 1965/66: o José Francisco Couto e o Estêvão Alexandre Henriques... Vd. também, em poste anterior, os testemunhos dos seus camaradas da CCAV 1484, ouvidos no âmbito do processo sumário organizado na companhia  pelo Alf Mil José Rosa de Oliveira Calvário,  em 22/9/1966. (LG)


(i) Depoimento de José Francisco Couto 
[, natural do Bombarral, vive no Canadá, ex-sold at cav, CCAV 1484, Nhacra e Catió, 1965/67]:

O soldado n.º 699/65 – S.P.M. 3008, José Francisco Couto, natural da freguesia da Roliça (Baracais), concelho do Bombarral,  foi camarada de pelotão do Mateus e seu amigo. Participou na “Operação Pirilampo”, assistindo ao desaparecimento do Mateus quando ambos atravessavam o Rio Tompar e escreveu dois Aerogramas à mãe do Mateus.

Durante a consulta do espólio do Mateus encontrei entre a sua correspondência dois aerogramas enviados à mãe do Mateus pelo José Francisco Couto. Neles, lamentava as circunstâncias da morte do filho e afirmava que a iria visitar logo que regressasse da Guiné, uma vez que eram naturais de concelhos vizinhos.

Transcrevo o segundo aerograma que enviou à mãe do Mateus em novembro de 1966:

José Henriques Mateus (1944-1966)
Catió – 8-Nov-966

Prezada Senhora

É com os olhos rasos de lágrimas que novamente me encontro a escrever-lhe sendo ao mesmo tempo a desejar-lhe uma feliz saúde a si e aos seus filhos que eu cá vou indo na graça de Deus.

Sei senhora Rosa que ao receber esta minhas notícias mais se recorda da tragédia que lhe roubou o seu querido filho, pois é com mágoas no coração que lhe respondo a tudo quanto me pergunta e peço a Deus que não a vá magoar mais com tudo o que lhe possa dizer. Pois compreendo que além da minha dor ser enorme a sua não tem palavras, pois o destino foi traiçoeiro. Sim, a Senhora pede-me que lhe explique como tudo se passou. Pois sou a dizer-lhe tudo o que sei.

Foi uma das saídas que nós tivemos, durante o dia tudo se passou da melhor maneira na graça de Deus e nós nos sentíamos satisfeitos, mas no regresso tivemos que atravessar um Rio e a corrente era enorme, como enorme era o peso que trazíamos, o que ele ao passar a corda se partiu e foi quando ele foi parar ao fundo sem mais ninguém o ver. Pois quatro camaradas nossos, mal pressentiram o que se estava a passar, atiram-se à água e mergulharam ao fundo para ver se o encontravam correndo o Rio de cima para baixo e vice versa mas o resultado foi o que Senhora já sabe. Não o conseguiram encontrar pois a corrente o arrastaria logo, foi como um balde de água fria que caiu sobre nós e todos os esforços que juntos fizemos foram negativos. Esta é apenas a verdade que podem contar à Senhora aos seus filhos. Sim, também me diz que apareceu alguma coisa dele e é certo, mas não o que a Senhora me diz. Apareceu sim o que lhe vou contar. 


Passados alguns dias nós voltámos a passar por lá, e foi nessa altura um dos Alferes encontrou uma parte da camisa e a carteira no bolso, pois a parte da camisa era só da frente e tinha o bolso onde estava a carteira, que o alferes tem para lhe enviar tudo junto que resta do seu querido filho. E a Senhora não precisa de tratar nada pois a companhia já tratou de tudo, pois também tratou dos papéis para a Senhora ficar a receber algum dinheiro que bastante falta lhe fará e assim, minha Senhora, não quero alongar mais as minhas notícias pois elas só lhe levam mágoas. No entanto, mais uma vez lhe digo, a companhia está a tratar de todos os assuntos e lhe enviará todas as suas coisas. Sem mais me despeço com muitas saudades para os seus filhos um aperto de mão para todos para a Senhora também deste que chora também a sua dor.

José Couto



(ii) Depoimemto do ex-fur mil mecânico radiomontador Estevão Alexandre Henriques ( recolhido em 23. 4.2014)

[Imagem à esquerda, guião do BCAÇ 1858, Catió, 1965/67, cortesia de Carlos Coutinho]


O Estevão foi amigo do Mateus. É natural de Fonte Lima, Stª Bárbara, cocnelho da Lourinhã,  e vive no Seixal.

Com a especialidade de Radio Montador, embarcou para a Guiné a 18 de Agosto de 1965 a bordo do navio Niassa, chegando a Bissau a 24. Fazia parte da CCS/BCAÇ 1858. [Tem página no Facebook, clicar aqui].

A sua proximidade ao Mateus advém do facto de ambos serem naturais de terras vizinhas,  o que levou o Furriel Estevão a conseguir o destacamento do Mateus para a Messa de Sargentos, uma vez que este pertencia a uma companhia, a CCAV 1484, adida ao BCAÇ 1858 e era muito amigo do cozinheiro Santos.

Na altura do acidente, o Estêvão não estava em Catió e só soube do acidente três dias depois, quando regressou de Empada onde tinha ido fazer reparações nos rádios. Pensa que,  se estivesse em Catió na altura da operação, seguramente o Mateus não teria sido nomeado para a mesma, uma vez que, no seu entender, ele já não era operacional.

O que soube em pormenor do acidente foi-lhe contado pelo cozinheiro António José dos Santos, natural das Matas (Lourinhã), amigo do Mateus e que faleceu há cerca de dois anos.




O Santos e o Mateus estão os dois na foto acima,  a preparar uma vitela para a festa de anos do Furriel Estevão a 2.9.66. Esta vitela tinha sido oferecida ao Furriel pelos responsáveis da Casa Gouveia (CUF) pelo facto de este ter feito a instalação do armazém de arroz desta empresa. Quem está de catana na mão é o Santos e ao lado o Mateus.

O Estêvão disse que as Nossas Tropas só voltaram ao local do acidente uma semana despois, altura em que encontraram, então, a camisa ou um pedaço (farrapo) da camisa pendurada (presa) numa árvore. Não sabe quem a encontrou e nunca viu a camisa. O que é certo é que na camisa, farrapo ou pedaço,  se encontrava intacto o bolso da mesma e dentro dela uma carteira em forma de ferradura contendo uma medalha da Nossa Senhora, uma moeda portuguesa furada e um amuleto de cabedal.

Foi o Estevão que entregou a carteira à mãe do Mateus. No final da Comissão o Comandante do Batalhão 1858, cujo nome não se lembra, chamou-o e pediu-lhe expressamente que entregasse a carteira à mãe e lhe apresentasse as suas condolências e do pessoal do Batalhão pela morte do filho. O Comandante nunca lhe falou das circunstâncias do desaparecimento do Mateus. Diz que foi sempre tudo um segredo bem guardado e nunca conseguiu que algum dos camaradas que participaram na operação lhe dissesse o quer que fosse sobre o acidente. Afirma, ainda, que o Mateus nunca lhe falou em fugir [, como sugere um depoimento do Couto].

O Furriel Estevão regressou da Guiné em 9 de Maio de 1967 e só em junho teve a coragem de entregar a carteira à mãe do Mateus. Lembra-se que nesse momento estava presente a irmã do Mateus

Texto: Jaime Bonifácio Marques da Silva




Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS do BART 1913 (Catió 1967/69) > Foi aqui que viveu, durante 3 meses, entre 8/6/1966 (data da chegada da CCAV 1484 ao setor de Catió) a 10/9/1966 (data do seu desaparecimento) o José Henriques Mateus... 

Álbum fotográfico do nosso saudoso camarada Victor Condeço (1943-2010) > Catió - Quartel > Foto 03 > "Foto tirada de cima do depósito da água do quartel [Julho de 1967]. Vista parcial da zona antiga do quartel, o primeiro edifício eram quartos, o do meio era o dos quartos do 7,5 e ao fundo a Central Eléctrica Geradora Civil do lado de lá da rua das Palmeiras que ligava à estrada de Priame. Era também a zona da capela/escola, posto de socorros/enfermaria, arrecadação de material de guerra, arrecadação de material de sapadores, oficina de rádio, etc". 



Guiné> Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (Catió 1967/69) > Álbum fotográfico de Vitor Condeço > Catió - Quartel >

"Foto nº 4 - Foto tirada de cima do depósito da água do quartel [JUL 1967]. Vista parcial da parte nova do quartel. A parada com o cepo (raiz) do Poilão, à esquerda as casernas nº 1 e nº 2, ao centro o edifício do comando, por detrás deste as camaratas de sargentos e depois destas as novas messes ainda em construção, tal como a camarata de oficiais à direita. O telhado vermelho era a messe e bar de sargentos".  



Guiné> Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (Catió 1967/69) > Álbum fotográfico de Vitor Condeço > Catió - Porto Interior. O José Henriques Mateus deve-se ter banhado nestas águas, matando saudades da sua Praia da Areia Branca... Mas é bom que se recorde que o seu acidente (desaparecimento nas águas do Rio Tompar, afluente do Rio Cumbijã) não foi acidente de lazer, mas em combate, com as NT de regresso a Cufar, e com o IN à perna...

"Foto nº 9 > Porto interior de Catió no rio Cadime, depois do trabalho a merecida banhoca".

Fotos (e legendas): © Victor Condeço (2007) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.

Guiné 63/74 - P13122: Os nossos últimos seis meses (de 25abr74 a 15out74) (13): No caos de Bissau, sou destacado, como médico, para uma missão nos Bijagós, Ilha Caravela: um aeródromo de recurso, para uma eventual evacuação de emergência das NT... (Rui Vieira Coelho, ex-alf mil med, 1972/74)


Guiné-Bissau > "Caravela é uma ilha do arquipélago de Bijagós, constituindo um setor da região de Bolama, na Guiné-Bissau. Localizada a 37 km da costa continental, tem 128 km² e é a ilha mais a norte daquele arquipélago, caracterizando-se por densas florestas, vastos mangais e praias de areia branca. O aeroporto tem o código ICAO GGCV." (Imagem e legenda: Wikipédia).




1. Mensagem, de 7 do corrente, enviada pelo nosso camarada, médico reformado, Rui Vieira Coelho:ex-Alf Mil Médico BCAÇ 3872 e BCAÇ 4518 (Galomaro, 1973/74) [,foto atual, à direita];



Assunto: Aeródromo de recurso


Na parte final da minha comissão no CTIG (comando territorial independente da Guiné) e após a entrega do quartel de Galomaro,  a um bigrupo do PAIGC, e  que era a sede do meu último Batalhão, o BCAÇ  4518, e após uma curta estadia em Bafatá.  lá segui com ordem de marcha para Bissau para me apresentar no Hospital Militar.

Como não quis ficar aquartelado nas instalações hospitalares,  aluguei um apartamento na baixa da cidade,  perto do Quartel da Amura, por um preço irrisório, pertencente à Casa Gouveia (CUF), para ter mais liberdade de movimentos e não ter que aturar a confusão instalada na cadeia de comando, com gente bastante impreparada e a gerarem um caos e uma anarquia que nos poderiam ter saído bastante caros.

Assim, todos os dias vinham buscar-me por volta das 7 horas da manhã,  levavam-me para o hospital onde fazia consulta ou dava apoio cirúrgico à Urgência, almoçava por lá e após giboiar um pouco, regressava a casa, sem antes passar pelo QG .(quartel general), para me inteirar da minha situação e receber ordens para o dia seguinte.

O clima na cidade de Bissau ia-se deteriorando, o trânsito era caótico, com numerosas viaturas militares carregadas de camaradas que regressavam do Mato, de Batalhões e Companhias aí estacionados,l  e que se amontoavam nos edifícios militares da capital, aguardando um embarque para a Metrópole.

No Caís do Pidjiguiti o movimento de mercadorias, viaturas militares, armas pesadas e homens era brutal .As LDG e LDM ajudavam no transporte de material bélico para cargueiros que demandavam o Porto de Bissau e que se encontravam fundeados ao largo.

O mesmo se passava também em Bissalanca, onde se constava que iria ser organizada uma ponte aérea para transporte rápido de dezenas de milhares de militares, e onde se amontoavam paletes de mercadorias,  malas e outros haveres. O Quartel de Adidos estava superlotado. O Quartel do Cumeré também estava a romper pelas costuras.

A desordem na cidade era grande, ninguém respeitava ninguém, havia uma grande quebra na hierarquia, com insultos à mistura aos superiores, pilhagens de tudo o que pudesse ser transportado, irritabilidade á flor da pele, escaramuças e cenas de pugilato tornavam a vivência e o clima de relação humana cada vez mais difíceis.

Os boatos e as mentiras eram demais e a tensão psicológica criada originava desacatos entre os a favor do movimento e os contrários, mas todos com um objectivo comum,.  partirem o mais depressa possível daquele Inferno.

Começava a constar cada vez com mais força, à  medida que os dias iam passando, que estaria eminente um assalto final á capital. Vai daí os "inteligentes da altura", ligados ao movimento dos capitães, retomaram um projecto anteriormente delineado de que para uma evacuação rápida necessitariam de um Aeródromo de Recurso no Arquipélago dos Bijagós, mais propriamente na Ilha Caravela,  para onde seriam encaminhados todos os militares em LDG, LDM e outros vasos de guerra navais onde estariam incluídos todos os Patrulhas a operar na Guiné além de outro tipo de embarcações.

E assim sobrou para mim! Fui convocado a comparecer no QG onde me foi dada ordem para seguir em viatura militar para a Base Aérea em Bissalanca a fim de enquadrar como mêdico uma Missão de carácter confidencial.

Chegado à Base aérea foram-me reveladas mais informações da Missão e que está seria para a Ilha Caravela, para a qual já tinha partido no dia anterior uma Companhia de Engenharia.
Cerca de meia hora depois levantaram 6 helicópteros num dos quais eu segui.
A viagem foi espectacular, com progressão a rasar o mar, com os 6 helis em formação agitando a água pela deslocação do ar. O barulho das turbinas e a velocidade imprimida tornaram toda esta acção digna de um filme, com banda sonora da Cavalgada das Valquireas de Wagner,  tudo em paralelismo com um Apocalipse Now. No meio daquele mar começa a vislumbrar-se a ilha verdejante no meio de um azul turquesa lambendo as areias das praias que a circundavam.

Como médico as ordens eram a de instalar uma Tenda de Apoio Mêdico, macas, suportes para soros, verificação de latrinas e fossas sépticas, iinstalação de cialiticas e geradores eléctricos ,verificação do atrelado sanitãrio e farmacêutico, equipamentos cirúrgicos,

Ao meu lado instalavam-se tendas gigantes para alojar o pessoal no caso de evacuação . No terreno já se encontravam manobradores com máquinas de terraplanagem a nivelarem as terras revolvidas previamente da futura pista onde seguidamente entravam os cilindros para capacitação . Tudo trabalhava, minha gente.

A população da ilha olhava estupefacta para tudo isto. Com os seus saiotes de palha e seios á mostra as mulheres da terra com os filhos á ilharga. Os homens enquadravam-nas boquiabertos e desconfiados.

Ali fiquei de um dia para o outro conjuntamente com um furriel enfermeiro e mais dois cabos maqueiros da companhia de engenharia. Tudo foi devidamente controlado e elaborado um relatório, de prontidão e operacionalidade por parte da acção mêdica pedida.

No dia seguinte vieram -me buscar e,  chegado a Bissau, levaram-me ao [QG ?],  onde mais uma vez me pediram o máximo de confidencialidade.

Curiosamente já lá vão 40 anos e nunca mais ouvi falar em aeródromo de recurso na ilha Caravela, mas podem ter a certeza eu estive lá

Um alfabravo do Rui Vieira Coelho

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Guiné 63/74 - P13121: Parabéns a você (731): Fernando Valente (Magro), ex-Cap Mil Art do BENG 447 (Guiné, 1970/72) e Henrique Matos, ex-Alf Mil Art, CMDT do Pel Caç Nat 52 (Guiné, 1966/68)

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Nota do editor

Último poste da série de 5 DE MAIO DE 2014 > Guiné 63/74 - P13099: Parabéns a você (730): Joaquim Gomes Soares, ex-1.º Cabo da CCAÇ 2317 (Guiné, 1968/69)

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Guiné 63/74 - P13120: Notas de leitura (588): "Julinha", um excerto do próximo livro de Lucinda Aranha dedicado a seu pai Manuel Joaquim, empresário e caçador em Cabo Verde e Guiné (Lucinda Aranha)

1. Mensagem da nossa amiga tertuliana Lucinda Aranha, com data de 22 de Abril de 2014:

Caros «camaradas»,
Agradeço a simpatia com que me receberam. Creio, no entanto, que têm uma espectativa demasiado alta da minha hipotética contribuição.
O meu pai teve 7 filhos, todos eles nascidos na Praia, excepto a sexta nascida em Bolama e eu que vim a nascer em Portugal. Viveu na Praia entre 1929 e 43 e desde essa data até 1972 na Guiné portuguesa, vindo à metrópole para junto da família, que residia em Portugal desde 1946, na época das chuvas.
Assim, nem eu nem os meus irmãos estudámos em África.

Como o Carlos calculou, fui professora, leccionando História no ensino secundário.
As estórias sobre África que conto no Reino das Orelhas não foram vivenciadas por mim mas são recordações dos meus pais, da minha ama Sampadjuda e dos amigos cabo-verdianos e guineenses que enxameavam a nossa casa de Lisboa.
O meu pai praticava uma política de casa aberta aos amigos. Por lá passavam administradores, chefes de posto, comerciantes e as suas famílias, alguns deles chegaram mesmo a ser residentes temporários. 

Envio-lhes um excerto do livro que estou a escrever sobre Manuel Joaquim onde a sua mulher discreteia sobre essas «invasões» e que, penso, lhes permitirá perceberem melhor as minhas relações com a Guiné.

O Carlos pediu-me fotografias. Já lhe enviei 4 no anexo do mail Apelo.
Agradecia, pela importância de que se revestem para mim, que as publicasse.

Os meus agradecimentos,
Lucinda Aranha

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Manuel Joaquim dos Prazeres, empresário e caçador, que conhecia a Guiné como poucos

Foto: © Lucinda Aranha (2014). Todos os direitos reservados.


"JULINHA"

A Guiné era outra loiça. A sua casa estava sempre cheia, de estadia ou simples visita, dessa gente mas a maior parte dela não lhe deixava saudades. Uns atrevidos, abusadores que chegavam a telefonar-lhe, perguntando: É da Pensão da avenida de Roma? Havia excepções. A Chica, da idade da sua mais nova, que durante anos foi ficando lá por casa, criada como filha, vinda para se tratar de uma poliomielite e que parecia ter bicho carapinteiro não parando descansada, acrescentando à doença uma perna partida que teve artes de se atirar de uma varanda. Uma preocupação com os pais ausentes na Guiné e ela a entrar e a sair a toda a hora do Hospital do Ultramar. A Maria Domingas e os pequenos, a Maria Garcia com a Luisita costumavam passar pequenas temporadas em sua casa. Todos amigos ligados ao funcionalismo da Guiné. O compadre Esteves que adorava a cachupa e o pudim de pão da Maria, de estalo, trazendo a reboque a Constança, o Fialho, procurador dos dois compadres, o filho com a mulher dada à poesia e muito da intimidade da Tina e as filhas, todas impecáveis, e os respectivos maridos eram visitas muito do seu agrado.

Não lhe falassem daqueles dois horríveis casais, os Pascoais e o Urso Pardo e a Bela Adormecida, alcunhas dadas pelas filhas. Os dois últimos de arcaboiços de mais de cem quilos, ela com uma cabeleira negra de azeviche e escorrida, a bater-lhe pelas ancas e que cofiava languidamente, uma Ursulina do Brejo como também diziam as miúdas, lidas no Pato Donald e no Mickey. Gente detestável e mal formada que o Nequinhas lhe enfiava pela casa dentro com o argumento de que lhes devia retribuição da hospitalidade recebida em terras africanas, tudo imaginações que todos sabiam que recusava dormir debaixo de tecto na Guiné, salvo quando em Bissau e aí só aceitava o abrigo do compadre. As visitas da Maria Virgínia e família faziam as delícias das filhas com as suas estórias picarescas. Era casada com um administrador, por sinal bastante mulherengo. Ela morria de ciúmes do marido. Na Guiné houvera aquela escandaleira de se vestir de homem para espiar os passos do marido. Toda a Bissau, maldosamente, a murmurar nos seus preparos. Cá para mim, pensava muitas vezes, nada como o calor para empolar os pequenos percalços de cada um. Agiganta tudo a uma escala que Deus me livre. As filhas adoravam ouvi-la, desbocada, xingando o marido que não se lhe dava nada de arriar a jiga onde quer que estivesse. Então não fora que em sua casa, onde tinham sido convidados para almoçar, a Maria Virgínia, desvairada de ciúmes, mal levantada da mesa, larga os amigos, o marido, os filhos, desconchava e desanda porta fora, atirando em resposta ao atónito marido que queria saber o motivo da saída intempestiva: Vou à baixa levar na caixa! Se havia boa mulher estava ali, mas os malditos ciúmes faziam-lhe perder a tramontana, esquecendo-se das conveniências. A pena que tinha de a ver em semelhantes destemperos. Virgínia, deixe-se dessas cenas que não a levam a lado nenhum. Só se arrelia inutilmente. Pense nos seus filhos. Olhe o exemplo que dá às crianças com estes destrambelhamentos e discussões constantes, e acrescentava penalizada, desculpe-me a sinceridade com que lhe falo. Bem lho dizia mas qual o quê que se havia mulher teimosa estava ali.

E a Pãozinho? Uma viúva de um funcionário ultramarino de Angola cuja filha, mulher apoderada, era casada com um funcionário da Casa Esteves, um lingrinhas que se escondia, à cautela, por detrás da mulher quando as coisas lhe pareciam negras. A Pãozinho assim chamada porque muito se temia de que o pãozinho que o marido lhe deixara, a sua pensão de viuvez lhe fosse roubada pelos terroristas, não percebendo ou não querendo perceber, na sua sanha antiterrorista que dependia do estado português. Mal sabia ela que tempos haviam de chegar em que os pensionistas e reformados portugueses seriam vistos pelo governo do seu país como uma excrescência, um cancro que convinha extirpar, fazendo-os morrer o mais rápido possível, e enquanto o genocídio não ocorria, convinha espoliá-los de parte substancial dos descontos obrigatórios de toda uma vida de trabalho em nome da austeridade. As suas estórias encantavam as miúdas, enfim não tanto miúdas, que algumas já andavam na faculdade. Todas se maravilhavam com a estória da mezinha feita por curandeiros angolanos, no maior secretismo, com o pó das unhas de crocodilo que a tornou resistente a um cancro, o que admirou os médicos do IPO, que espantados com a sua de todo inexpectável resistência, lhe pediam para revelar o segredo mas ela, temerosa e obstinada, nunca lhes explicou a alquimia. A Antónia, dada a elucubrações, perguntava-se então e tem-no feito pela vida fora, se não estaria ali a cura para uma doença tão mortífera com foros de uma peste da modernidade.

Calhava passar lá por casa um outro casal, dos conhecimentos anteriores aos tempos de África, cuja presença a Julinha detestava porque era sinónimo de arrelias. O Luís, magriço, empertigado com o rosto emoldurado por uma piaçaba branca no alto do toutiço e a Aida, envaidecida pela sua origem anglófona, uma cara de cavalo direita com se tivesse engolido um varapau. Chegavam e era vê-los, sem qualquer rebuço como se estivessem em casa própria, meterem-se em tudo, arrebanhando o Nequinhas para o escrutínio das despensas. E aí começava o sarilho. Ó Manuel, dizia o famigerado avarento, você é muito desprevenido. Não verifica os mantimentos? A mulher, feita sacristã, ajudava à missa: A Julinha dá muita liberdade à Maria. Tome cautela que ela deve encher a família de queijos, presuntos, paios, chouriços que aquilo é terra de fome, o Manuel bem sabe. O Manuel pouco se importava mas ia dizendo: Sim, sim, a Julinha sabe bem o que tem em casa. Só dislates, pensava a Julinha, gente pobre mas honrada, honesta, cheia de morabeza e a sua Maria uma empregada como não havia outra, de inteira confiança, mesmo um membro da família que tudo sacrificara por eles. Só que a Maria enchia-se, e com toda a razão, de brios. Els comê, els bébi e mí qui ê ladron, repetia furibunda. Bem tinha de a mandar calar mas custava-lhe que a razão estava do lado dela. Uma vida que a enfermidade do marido fizera terminar. Afinal eram poucos os amigos, o Esteves e família, os Vicentes, o Raul, o Zeca que os outros, os que a vida não fora afastando ou não matara entretanto, todos debandaram.

Lucinda Aranha
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Nota do editor

Vd. postes de:

15 DE ABRIL DE 2014 > Guiné 63/74 - P12991: Tabanca Grande (433): Lucinda Aranha, filha de Manuel Joaquim dos Prazeres que viveu em Cabo Verde e na Guiné entre os anos 30 e 1972, e que era empresário de cinema ambulante
e
23 DE ABRIL DE 2014 > Guiné 63/74 - P13022: Em busca de... (241): Fotos e histórias do cinema ao ar livre e do empresário Manuel Joaquim dos Prazeres, que deambulou pelo território entre 1943 e 1972 (Lucinda Aranha, filha e escritora)

Último poste da série de 9 DE MAIO DE 2014 > Guiné 63/74 - P13119: Notas de leitura (587): "Um Sorriso para a Democracia na Guiné-Bissau", por Onofre dos Santos (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P13119: Notas de leitura (587): "Um Sorriso para a Democracia na Guiné-Bissau", por Onofre dos Santos (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Novembro de 2013:

Queridos amigos,
O Dr. Onofre dos Santos participou em vários atos eleitorais na Guiné-Bissau, em 1994 e depois no período de 2003-2005. É um amante fervoroso da Guiné e não o disfarça.
Este livro reporta-se às eleições de 1994, são minuciosamente versadas, mostra-se a legislação, os partidos em competição, a estimulante educação cívica desenvolvida no período que procedeu o ato eleitoral, ouvem-se os comentários e os sonhos por quem suspirava por aquela ansiada alvorada democrática, pois pareciam franqueadas as portas da democracia multipartidária. Este livro é um testemunho e um registo e uma referência obrigatória para o estudo do que aconteceu na Guiné-Bissau entre 1991 e 1994.

Um abraço do
Mário


Um sorriso para a democracia na Guiné-Bissau, por Onofre dos Santos

Beja Santos

De Onofre dos Santos já aqui se fez recensão ao seu importante livro “Eleições em tempo de cólera”(*), de 2006, a reunião das suas lembranças do período em que viveu na Guiné-Bissau entre 2003 e 2005. Anteriormente Onofre dos Santos estivera na Guiné-Bissau na Missão de Observação Eleitoral das Nações Unidas a propósito das eleições de 1994 que pareciam marcar definitivamente a entrada da república da Guiné-Bissau no quadro dos países africanos em busca de uma legitimidade democrática fundada na livre escolha dos eleitores. É dessas eleições que ele escreveu o livro “Um sorriso para a democracia na Guiné-Bissau”, edição de autor, 1996.

Como ele escreve à guisa de introdução, a Guiné-Bissau era o penúltimo dos cinco PALOP a adotar um figurino democrático depois de uma década e meia de sistema de partido único. Nas eleições presidenciais houve segunda volta entre Nino Vieira e Koumba Yalá, foi um processo vibrante e com consequências no futuro. Para se chegar a essas eleições, durante três anos e meio decorreu um processo de democratização que começou pelo reconhecimento da democracia multipartidária, foram produzidas várias leis constitucionais, alterou-se a lei da imprensa, o estatuto dos jornalistas, regulou-se o acesso dos partidos políticos aos meios de comunicação social, aprovou-se a liberdade sindical, etc. Entrou em funcionamento uma Comissão Multipartidária de Transição para preparar a realização de eleições. É possível imaginar as polémicas e fricções que este processo de democratização suscitou, tanto na Assembleia Nacional Popular como nos partidos políticos.

Em 1993 foi criada a Comissão Nacional de Eleições, surgiu apoio da comunidade internacional, mormente para o financiamento do recenseamento e montagem de todo o aparelho eleitoral. Onofre dos Santos depois de apresentar este cenário onde iriam decorrer as eleições de 1994, apresentou o país de uma síntese. É desse punhado de reflexões que se retira o que ele escreveu sobre a integração falhada de Cabo Verde: “A falhada experiência de integração, projetada no próprio nome do PAIGC, nascera de um objetivo anticolonial, confirmado por uma luta sangrenta travada nas florestas da Guiné-Bissau, na qual os cabo-verdianos tiveram uma ação relevante.

A experiência colonial conjunta, a unidade cultural e étnica e o imperativo pan-africanista da unidade do continente africano, os laços seculares entre os dois países não foram suficientes para superar o ressentimento latente e profundo em relação aos cabo-verdianos, associados à presença colonial portuguesa de quem ao longo de um século foram os melhores agentes, em consequência do relativamente alto índice de alfabetização no arquipélago, onde todos os habitantes eram arbitrariamente classificados como civilizados e gozavam, pelo menos teoricamente, do mesmo estatuto legal que os portugueses metropolitanos.

De facto, a experiência colonial de Guiné e Cabo Verde, embora conjunta, teve traços de caracterização que as diferenciou, nomeadamente a interiorização pela elite colonial educada e predominantemente mestiça, da maioria dos pressupostos racistas de superioridades veiculados pela função civilizadora portuguesa e tanto bastou para que a clivagem se tornasse num fosse que desde a ascensão às independências respetivas impediu a sua maior aproximação e unificação”.

Onofre dos Santos dá-nos no seu livro um quadro abrangente do leque partidário e respetivos dirigentes, aflora as difíceis alianças a que não seriam alheios os fenómenos da fulanização e da falta de clarificação ideológica. Define depois o trabalho da Comissão Nacional de Eleições, como se processou o recenseamento eleitoral e dificuldades sentidas, como se pôs em prática um programa de educação cívica com a colaboração dos média e de formadores nas tabancas. A rádio teve um papel crucial tanto no recenseamento como na campanha e no acompanhamento minuto a minuto do ato eleitoral. A Comissão Nacional de Eleições produziu banda desenhada intitulada “A decisão está em ti” e que fazia parte do programa de educação física extensivo a todo o país. Segue-se uma apresentação quanto ao modo como a comunidade internacional interveio e apoiou o processo eleitoral. Na sequência desta exposição, o autor apresenta o sistema eleitoral, o controlo e fiscalização dos partidos políticos e o papel dos órgãos jurídicos, a que se segue uma curta abordagem sobre o papel dos observadores no processo eleitoral.

É do maior interesse o conjunto de referências que o autor apresenta sobre comentários dos candidatos como Nino Vieira, Cadogo (Carlos Domingos Gomes), Koumba Yalá, Victor Saúde Maria, François Mendy entre outros, fala-se de incompetência, violação dos direitos elementares, desastre económico, corrupção, promessas de paz e estabilidade, etc.

Entramos nas eleições legislativas e primeira volta das presidenciais, no caso das primeiras surgem reações, torna-se notório o fenómeno Koumba Yalá que procurou juntar todas as forças oponentes ao PAIGC logo que se soube que o PAIGC tivera mais votos que Nino Vieira, exigindo uma segunda volta. O PAIGC teve uma maioria de 62 lugares entre os 100 do parlamento com apenas 37 % dos votos obtidos. A Resistência da Guiné-Bissau – Movimento Bafatá teve 19 lugares e o PRS – Partido da Renovação Social 12. Quanto às presidenciais da primeira volta, Nino obteve 46,20 % e Koumba Yalá 21, 88%. Ia seguir-se o duelo entre Nino e Koumba, o fator étnico entrou em ação, houve mesmo pronúncios de violência e chegou a segunda volta das presidenciais em que as chuvas de Agosto dificultaram o acesso dos eleitores em certas zonas do país. Nino Vieira foi o vencedor com mais de 12 mil votos de diferença. A declaração final de Koumba teve a maior importância para o regresso à calma dos espíritos: “Estou contente, porque finalmente o povo da Guiné vai conquistar a liberdade”. Mas essa declaração não iludia a referência a atos de repressão e intimidação, arbitrariedades e corrupção eleitoral. Num surpreendente agradecimento, elogiou Rafael Barbosa, dizendo que na sua pessoa “está refletida a coragem e decisão dos guineenses na luta por dias melhores, em que não haja repressão, abusos, prisões arbitrárias nem quaisquer outros crimes que violem a dignidade da pessoa humana”. E continuou: “Se em termos de números perdi as eleições, em termos políticos ganhei-as largamente pois se o povo guineense mesmo atemorizado pela Segurança do Estado votou massivamente na minha candidatura, livremente ter-me-ia dado uma larga maioria do seu voto. E é essa vitória política que nos vai permitir a conquista de novas vitórias no caminho da democratização e construção do bem-estar da sociedade guineense juntamente com todos os que me apoiaram no quadro do conjunto da oposição”.

Em 18 de Agosto, tomaram posse os deputados eleitos à nova Assembleia Nacional Popular. Emerge como segunda figura do Estado Malan Bacai Sanhá, elogia-se a transição sem violência e sem ódio, o elevado grau de civismo dos guineenses. Bacai Sanhá comenta: “Esta terá sido a melhor homenagem que podia ser prestada a Amílcar Cabral e a todos os combatentes da liberdade deste país que pode ser pequeno no tamanho e ainda pobre nos seus recursos mas que é muito grande e principalmente rico na unidade que é conseguida na convivência de todos os dias e secular entre guineenses tão diferentes entre si”.

Esta a substância do livro de Onofre dos Santos. Infelizmente, os sonhos de Bacai Sanhá não se confirmaram.


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Notas do editor:

(*) - Vd. postes de:

28 DE MARÇO DE 2014 > Guiné 63/74 - P12908: Notas de leitura (576): "Eleições em tempo de cólera", por Onofre Santos (1) (Mário Beja Santos)
e
31 DE MARÇO DE 2014 > Guiné 63/74 - P12917: Notas de leitura (577): "Eleições em tempo de cólera", por Onofre Santos (2) (Mário Beja Santos)

Último poste da série de 5 DE MAIO DE 2014 > Guiné 63/74 - P13100: Notas de leitura (586): "O Tráfico de Escravos nos Rios da Guiné e Ilhas de Cabo Verde (1810-1850)", por António Carreira e "Mário Soares e a Revolução", por David Castaño (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P13118: Homenagem póstuma, na sua terra natal, Areia Branca, Lourinhã, 11 de maio próximo, ao sold at cav José Henriques Mateus, da CCAV 1484 (Nhacra e Catió, 1965/67), desaparecido em 10/9/1966, no Rio Tompar, no decurso da op Pirilampo. Parte VI: Vinte jovens lourinhanenses morreram na guerra colonial, seis dos quais no TO da Guiné (Jaime Bonifácio Marques da Silva)



Detalhe do cabeçalho do cartaz nº 2,  de uma série de cinco, elaborados por Jaime Bonifácio Marques da Silva, e que vão ser exibidos, no próximo dia 11 de maio, no clube local da Areia Branca Lourinhã, na sessão de homenagem á memória do José Henriques Mateus (1944-1966). Vamos aproveitar alguns elementos dos 5 cartazes, na impossibilidade ténica de os reproduzir na íntegra, de forma legível, e procurando não repetir informação já aqui divulgada. (LG)

1. ENQUADRAMENTO DA HOMENAGEM AO SOLDADO JOSÉ HENRIQUES MATEUS NO CONTEXTO DA EVOCAÇÃO HISTÓRICA DA GUERRA COLONIAL



(Mapa do Império Português existente em todas as Escolas primárias de Portugal até 1974)


1.1 O INÍCIO DA GUERRA EM ÁFRICA


Durante a Guerra em África Portugal mobilizou durante os treze anos do conflito (1961 – 1974) cerca de um milhão de jovens.

Destes, mais de 8 mil tombaram na frente de combate ou em acidentes, cerca de 120 mil foram feridos, 4 mil ficaram estropiados e, estima-se, que cerca de 100 mil ficaram a sofrer de “Stress Pós Traumático de Guerra”.


1961 - ANGOLA: 

Se tem que se apontar uma data para o início da guerra em Angola, a data é 4 de fevereiro de 1961. Nesse dia um grupo de africanos ataca a cadeia de Luanda, matando sete polícias portugueses. Dias depois, a 15 de março, sucedem-se os massacres no Norte levados a cabo pela UPA.

Em Angola as tropas portuguesas tiveram de enfrentar os guerrilheiros de três movimentos nacionalistas diferentes:

- UPA (União da Populações de Angola) que, em 1962, viria a designar-se FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), liderada por Holden Roberto;

- MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola), liderado por Agostinho Neto;

- UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), liderada por Jonas Savimbi.


1963 – GUINÉ: 

Em 23 de janeiro de 1963 inicia-se oficialmente a guerra na Guiné, quando o PAIGC liderado por Amílcar Cabral ataca o quartel de Tite, a Sul de Bissau. Contudo, a primeira ação contra a soberania de Portugal neste território já tinha acontecido em julho de 1961, quando os guerrilheiros do MLG (Movimento de Libertação da Guiné), comandados por François Mendy entraram pela fronteira da GUINÉ com o Senegal e atacaram as povoações de S. Domingos, Suzana e Varela junto à fronteira com o Senegal.

 1964 – MOÇAMBIQUE: 

A 25 de setembro de 1964 dá-se o início da luta armada em Moçambique. A FRELIMO, liderada por Eduardo Mondlane, ataca o quartel de Mueda e proclama a insurreição geral contra a autoridade portuguesa.

A 16 de novembro de 1964 as tropas portuguesas sofrem as primeiras baixas no Norte de Moçambique, na região de Xilama.


1.2 AS CONSEQUÊNCIAS DA GUERRA PARA OS JOVENS DA LOURINHÃ

Da relação que se anexa verifica-se que, do Concelho da Lourinhã, perderam a vida durante o conflito 20 jovens: 9 em Angola, 5 em Moçambique e 6 na Guiné.

CONCELHO DA LOURINHÃ
RELAÇÃO DOS COMBATENTES FALECIDOS NA GUERRA DO ULTRAMAR
ANGOLA

NOMES
POSTO
FREGUESIA
FALECIMENTO
Joaquim Alexandre Neto Martins
Soldado
Ribamar/C.P. Dinheiro
12.06.1961
João Cláudio Fernandes
Soldado
Atalaia
05.07.1963
Leonel Lourenço dos Santos
Soldado
Marteleira
10.08.1963
João António Fonseca Martins
Soldado
Lourinhã
14.01.1964
Joaquim Domingos Santos Oliveira
Soldado
Reguengo Grande
24.05. 1964
Frutuoso Brás Ferreira
1.º Cabo
Reguengo Grande
30.08.1964
João dos Santos Correia
Soldado
Pena Seca
07.07 1970
Arsénio Bonifácio da Silva
Soldado
Seixal
04.09.1972
Henrique Luís Rodrigues
Soldado
Pena Seca
01.03.1973

MOÇAMBIQUE

NOMES
POSTO
FREGUESIA
FALECIMENTO
Manuel Filipe Henriques
1.º Cabo
Casal das Barrocas
02.10.1967
Henrique Lino Antunes Marques
Furriel
Marteleira
07.02.1968
Avelino augusto Corado
Soldado
Paço
30.10.1969
Jorge Maceira Santos
Soldado
Reguengo Grande
26.09.1970
Israel António Onofre
Alferes
Moita dos Ferreiros
11.01.1972

GUINÉ

NOMES
POSTO
FREGUESIA
FALECIMENTO
José António Canôa Nogueira
Soldado
Lourinhã
23.01.1965
José Henriques Mateus
Soldado
Areia Branca
09.07.1966
Albino Cláudio
Soldado
Ribamar
23.07.1968
Alfredo Manuel Martins Félix
Soldado
Toxofal
26.01.1970
Carlos Alberto Ferreira Martins 
Soldado
Toledo
15.04.1971
José João Marques Agostinho
1.º Cabo
Reguengo Grande
05.05.1973


OBSERVAÇÕES:

Na Guiné, de acordo com este último quadro,  podemos verificar que:

i. Tombaram seis (6) militares: Lourinhã, Areia Branca, Ribamar, Toxofal, Toledo e Reguengo Grande.

ii. De acordo com a lista que consultei no Arquivo Geral do Exército verifica-se que as causas da morte foram: ferimentos em combate, três (3) (José Nogueira, José Agostinho e Carlos Martins); acidente com arma de fogo, um (1) (Albino Cláudio); acidente de viação, um (1) (Alfredo Félix); desaparecido em combate, um (1) (José Mateus).

iii. Quanto à Especialidade e Posto: cinco (5) são atiradores e um (1) é apontador de morteiro – José Nogueira; três (3) são Soldados e um (1) é 1.º Cabo.

iv. Cinco pertencem ao Ramo do Exército e um à Força Aérea – o Paraquedista Carlos Alberto Ferreira Martins.

v. O primeiro militar da Lourinhã a tombar na Guiné foi o soldado José António Canôa Nogueira em 23.1.1965, natural da Vila e o último foi o 1.º Cabo José João Marques Agostinho em 5.5.1973, natural de Reguengo Grande.

Nota:

A este propósito, Luís Graça escreveu: 

“Curvo a cabeça em memória do Mateus e do meu primo Canoa Nogueira, os dois primeiros lourinhanenses a morrer na guerra da Guiné, com um intervalo de ano e meio... E não longe um do outro, na mesma região, Tombali, no mesmo setor, Catió... O Canoa morreu em 23 de janeiro de 1965, em Ganjola, num ataque ao destacamento... Pertencia a um pelotão de morteiros... Era meu primo... E fui ao seu funeral, quatro meses depois... Veio num caixão de chumbo... A sua morte marcou-me muito. Seis dias depois dele morrer, fiz eu 18 anos, a idade de dar o nome para as sortes...
"O Mateus não o conhecia, pessoalmente, embora vivesse a menos de 3 km da Lourinhã...” (In: blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, 21.4.2014).