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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28454: Convívios (1079): Os antigos combatentes da vila de Loriga, a princesa da Serra da Estrela, homenagearam as suas mães, no almoço-convívio realizado na Escola Secundária de Sacavém, no passado sábado, dia 17 - Parte II




Foto nº 17 > O António de Brito Ribeiro brindou-nos, no fim da refeição, com um magnífico uísque velho, da sua "garrafeira da Guiné"... Um "Whytte & Macakays'", 21 anos... Ainda com o estojo, devia valer, no   mercado de coleccionismo,  entre os 200 e os 300 euros,  dizem os entendidos...Dividido irmamente, chegou para todos. Estava em ótimo estado de conservação... Revelou-se um verdadeiro néctar. Foi bebido também em homenagem das mães de Loriga (*)... Os seus filhos tinham na altura a idade deste "scotch": 21 anos...


Fotro nº 18 > O António foi um dos elementos da comissão organizadora mais presentes no evento: ele não parou, falou com toda a gente, esteve atento a tudo e a todos...Por outro lado, é difícil não  dar nas vistas, sendo ele um alteirão... Aqui na nossa mesa, a nº 5, com o Manuel Resende, o régulo da Tabanca da  Linha, e o Hélder Sousa (que veio aqui encontrar o "velhinho" que ele veio substituir em Piche...)


Foto nº 19 > Sempre gentil, afável e cavalheiro, o Antóni0 explica à Alice Carneiro e à Isaura (esposa do Manuel Resende) a história desta garrafa, umas das últimas da sua "garrafeirra da Guiné!...


Fpoto mº 20 > À direita, o António e ao centro o seu irmão José (de Brito Ribeiro) que também esteve na Guiné, como alferes miliciano, em Bissau, na Amura, na 3ª Rep /QG / CCFAG, a "Rep do IN" (Informações), disse-nos ele com piada... (Engenheiro-quimico, foi gestor no Grupo CUF.) Há um terceiro irmão, o Jorge, que foi mobilizado para Moçambique, onde foi ferido. Não esteve presente neste encontro. O António tem ainda mais duas irmãs vivas, mais novas.


Foto nº 21 > O António e o Abílio (?), um camarada de veio de Loriga de propósito: esteve em Angola (abr 1967/ mai 1969) e ainda hoje é pastor na Serra da Estrela.  O António estebva na Guiné, tem fiota amarela; o Abílio (?) tem fita encarnada, esteve em Angola.

O Abílio (?) pertenceu à CCAÇ 1696 (divisa "Firmes e Constantes"):  (i) esta subunidade esteve colocada na Zona Norte de Angola, mais especificamente no setor de Nambuangongo, tendo como base principal a Fazenda Madureira e com destacamentos noutras localidades da região, como Santa Eulália; (ii) foi mobilizada pelo Regimento de Infantaria 15 (RI 15 - Tomar); (iii) embarcou em Lisboa no T/T Vera Cruz a 15 de abril de 1967, chegando ao porto de Luanda a 24 de abril de 1967; o pessoal regressou a casa em maio de 1969;  (iv) era comandada pelo cap mil inf Joaquim Inácio Machado de Sola Campos; (v) operou numa das zonas de guerrilha mais ativas e difíceis da altura (o triângulo do café nos Dembos/Nambuangongo), realizando patrulhamentos e escoltas nos itinerários entre Nambuangongo, Madureira e Muxaluando.

Não confundir o Abílio com o António Macedo (n. 1948), outro pastor da serra da Estrela, loriguense de gema, que recentemente foi vedeta do  programa da RTP1, "Pão da Nossa Terra > Pão da Serra  da Estrela > Ep 1 > 28 de setembro de 2026 (vd. a partir de 09:50). Embora  o Abílio e o Antõnio tenham algumas parecebças físicas,  o primeiro é mais velho (deve ter nascido por volta de 1945; e o António, que tinha 13 anos em 1961,  é mais conversador, pelo que pude observador o programa da RTP).


Foto nº 22 >  A mesda da comissão organizadora: o António ao centro, ladeado  à esquerda por outro elemento da comissão organizadora do almoço-convívio, o Gabriel Pina; e à direita, pelo presidente da Junta de Freguesia de Loriga, Luís Costa, que veio cá abaixo com uma delegação de gente da aquela terra serrana, de gente voluntariosa, trabalhadora e bairrista (tem hoje c. de 850 habitantes; tinha em 1950, no auge da indústria de lanifícios, c. de 3 mil).

Outros elementos da comissão organizadora, que estavam presentes na mesa, além do António Ribeiro (Guiné) e do Gabriel Pina (Moçambique):  António Fernandes (Guiné); José Manuel Alves (Angola); e José Ambrósio (Guiné).

Segundo me informou o António de Brito Ribeiro, a ANALOR (Associação  dos Naturais e Amigos de Loriga) (com sede em Sacavém, mesmo aqui ao lado da escola secundária) realiza todos os anos a "semana serrana". Aqui, em Sacavém, terra que está geminada com Loriga. Um evento que abrange diversas actividades, da cultura à diversão. Este ano o ponto alto foi a apresentação dos livros do filho e historiador de Loriga, Augusto Moura Brito (que tive o prazer de conhecer pessoalmente no sábado).

Ainda segundo a nossa fonte, estão identificados 338 antigos combatentes loriguenses, e não 235 como referi no poste anterior (*) (dado que vou corrigir). Existem ainda cerac de meia centena, nascidos entre 1941 e 1952, que o António ainda não conseguiu contactar para saber em que teatro de operações estiveram presentes.

Desses 338 loriguenses identificados, sabe-se o seguinte: 

(i) eram filhos de 265 mães; 

(ii) duas mães tiveram, cada uma, 4 filhos no ultramar; 

(iii) 14 tiveram 3 filhos (é o caso da mãe do António, Aurora de Brito Pina Ribeiro. 1925-2014); 

(iv) 39 tiveram 2 filhos no ultramar. 

"Foi uma desumanidade!", comenta o António...



Loures > Sacavém > Escola Secundária de Sacavém > 17 de outubro de 2026 > Almoço-convívio dos antigos combatentes do ultramar de Loriga, Seia (*)


Fotos (e legendas): © Luís Graça  (2026). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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Nota do editor LG:

sábado, 3 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28398: O vinho... pró branco de 2ª e pró tinto de 1ª (5): o "uísque de Sacavém"

 


O "whisky" (em inglês, sem aspas) "preferido por quem sabe" (sic)...Anúncio do "Diário de Lisboa", no tempo em que se começou a fazer grande publicidade ao "Scotch Whisky", bebida até então seleta mas a partir daí cada vez mais popular entre os combatentes da guerra do Ultramar (e dos "colonos" de África)... Era um dos "presentes" mais cobiçados na época, entre amigos e familiares... Traziam-se caixotes de garrafas de uísque de Guiné, de Angola, de Moçambique, no regresso das comissões de serviço militar. Algumas, as últimas, vamo-las esvaziando ainda hoje nas efemérides mais importantes que celebramos: a partida do T/T Niassa ou do T/T Uíge, os cinquenta anos da "peluda", as bodas de ouro, os 75 ou 80  anos de vida, os almocos-convívio da Tabanca da Linha...

Nos bares de "alterne", da grande Lisboa, da Reboleira aos Cais do Sodré,  mas também seguramente na "noite do Porto" bebia-se muito uísque marado, "batizado",  que ficou popularmentre conhecido como "whisky de Sacavém"... Lembro-me ainda na tropa, nas Caldas da Rainha ou em Tavira, ter conhecido o "capitão Vat 69"... 


1. "Uísque de Sacavém" e "vinho a martelo" são duas das expressões mais castiças e conhecidas do calão português para designar bebidas alcoólicas falsificadas, adulteradas ou de péssima qualidade, muitas vezes associadas ao mercado negro e à vivência popular das décadas de 1960 e 1970.


A elas junta-se frequentemente a "água de Lisboa", uma expressão mais antiga, de que falaremos em próximo poste.

Há testemunhos de antigos combatentes recordando os soldados fulas (que eram abstémios, por imposição da sua cultura e religião)  a dizerem, com bastante graça, “água de Lisboa, manga de cabeça grande!”,  isto é, uma bebida que embriagava (como o vinho de palma, consumido pelos "cristãos" / grumetes e  "animistas" / balantas, papéis, etc....)  e que não era necessariamente de má qualidade ("água de Lisboa manga de sabi").

O que poucos sabem é a origem e o significado da expressão "uísque de Sacavém", apesar de ter estado muito em voga durante a guerra colonial em que os portugueses começaram a ter acesso, em África, ao bom uísque escocês, bebida até então só para ricos e estrangeirados.

2. E porque não "uísque do Beato" ?  

No Beato, Poço do Bispo, Marvila, na margem direita do estuário do rio Tejo, havia grandes armazéns de vinho, onde se dizia que o vinho era "batizado" com a água do Tejo, e daí talvez a origem da expressão "água de Lisboa", como chamavam os nossos camaradas guineenses ao vinho da Intendência... 

Mas a origem desta última expressão deve ser mais antiga, relacionada com o abastecimento de água a Lisboa, no início do séc. XVIII e com os impostos que eram cobrados sobre o vinho e os gnéneros alimentícios para financiar a construção e o funcionamento do Aqueduto das Águas Livres.

A verdade é que também se dizia,  em Portugal, nessa época (anos 60/70) que "da água também se fazia vinho"... A frase, injustamente, era atribuída ao grande agricultor e empresário Abel Pereira da Fonseca, com vinhas no Bombarral e armazéns no Beato

O Beato/Poço do Bispo/Marvila era efectivamente uma extensa zona ribeirinha de Lisboa, onde os grandes armazenistas e comerciantes de vinho a granel eram "reis". E o nome de Abel Pereira da Fonseca aparece inevitavelmente nesta história. Na memória popular ficou uma frase que provavelmente nunca saiu da boca do Abel Pereira da Fonseca, em versões diferentes: “Enquanto houver água no Tejo, nunca há-de faltar vinho a Lisboa.” Ou: “Lembrem-se, meus filhos, que até da água se faz vinho.”

Não encontrámos fonte histórica suficientemente sólida para afirmar que ele tenha realmente pronunciado essas palavras, e muito menos à hora da morte. Elas pertencem às "anedotas popular" criadas em torno dos grandes armazenistas de vinho de Lisboa.

Mas essa anedota ganhou uma segunda vida entre os militares que passaram pela guerra colonial / guerra do ultramar. No caso da Guiné, aparece documentada a expressão “água de Lisboa” para designar depreciativamente o vinho fornecido pela Intendência. Ou seja, como sinónimo de vinho "batizado" (e, pior ainda, a "saber a cânfora", que era para tirar a tusa aos combatentes do mato: excesso de testosterona afetava o moral da tropa, suspeitavam os senhores da guerra).
 
“Água de Lisboa” e “vinho de Sacavém” são duas alcunhas com geografias diferentes. 
Não é fácil, na ausência de investigação séria sobre estes tópicos, de encontrar o fio à meada...Há. contuda, uma  pequena histórias de 1966 que liga Sacavém ao uísque falsificado...

3. Uísque de Sacavém: a  falsificação lendária
De facto, o "produto" até tem certidão de nascimento. Ou melhor, a expressão. Terá nascido a 5 de fevereiro de 1966, quando o jornal Diário Popular noticiou o desmantelamento da primeira fábrica de uísque falsificado em Portugal, localizada justamente num armazém em Sacavém.
 Quando a guerra do Ultramar, já ia a meio, acrescentamos hoje nós (que sabemos que ela acabou em 1974, mas em 1966 todos já pensávamos que ia ser a guerra dos 100 anos, e que iria sobrar para toda a nossa geração).
O esquema era engenhoso: os falsificadores compravam garrafas vazias de marcas escocesas conceituadas (como Johnnie Walker ou Vat 69) e enchiam-nas com uma mistura bombástica de álcool etílico puro, um cheirinho de uísque verdadeiro e pastilhas corantes para imitar a cor original. O álcool puro era comprado, ao garrafão, dia sim dia não, numa farmácia próxima na "fábrica clandestina" onde se martelava a mistela...
O "Diário Popular" desse dia refere que "o caso despertou a maior curiosidade entre a população de Sacavém, interrogando-se então, apreensivamente, algumas pessoas acerca da verdadeira origem das garrafas de whisky que adquiriram em data mais ou menos recente» (Fonte: Diário Popular,  nº 8373, de 5 de fevereiro de 1966, 24º ano de publicação, pág. 17.)
O produto era vendido clandestinamente a bares, buates e cabarés de Lisboa e arredores. O caso gerou tanta troça popular que a gíria "uísque de Sacavém" passou a designar qualquer bebida alcoólica contrafeita, barata ou que causasse uma ressaca terrível no dia seguinte.
Portanto, o “uísque de Sacavém” tem uma origem histórica muito concreta e datável — a falsificação descoberta em 1966. Alguns apreciadores (?) desta bebida consideravam até ser difícil distinguir esta falsificação do produto original... O problema não era a cópia ser melhor do que o original, mas sim a inexistência de um tradiçáo de consumo de uísque escocês em Portugal.  

Este acontecimento teve grande repercussão, dando origem a muitas piadas. Havia quem pedisse, na brincadeira, um “whisky de Sacavém”, nome pelo qual ficou popularmente conhecida esta falsificação que apresentava rótulos de consagradas marcas escocesas.  

Já a “água de Lisboa” parece ser uma alcunha popular muito mais antiga e difusa, alimentada pelos impposto ssobre o vinho, pela fama dos grandes armazéns vinícolas lisboetas e pela proverbial suspeita de que o vinho destinado aosmercados africanos ("o vinho p'ró preto") (isto é, para o branco de 2ª, o colono, e o preto de 1ª, o assimilado) era de qualidade inferior.

E há ainda uma deliciosa inversão colonial: o soldado português ia para África e descobria o "Scotch whisky" genuino (importado exclusivamente para as Forças Armadas Portuguesas e fornecidas, sem impostos, pela Intendência aosl "heróis de Portugal" que combatiam pela Pátria em África, enquanto o guineense olhava para a garrafa de vinho que vinha de Lisboa e chamava-lhe, entre deliciado e desconfiado,  "água de Lisboa.”

Estas expressões ajudam-nos a reconstituir a história através de três bebidas: o “Scotch” genuíno,  o “uísque de Sacavém”, marado,  e a “água de Lisboa” / "vinho a martelo",  três expressões que dizem muito sobre a sociedade portuguesa dos anos 60/70 e sobre a experiência colonial / ultramarina / africanista de todos nós.  (vd.  Sons de Abril da RTP/Antena 1).
 
Acrescente-se que, na altura, nos famigerados anos 60/70 (em que já se avolumavam os sinais premonitórios do fim de uma época e do regime de Salazar), era frequente aparecer no mercado vinho de proveniência duvidosa, popularmente conhecido por "vinho a martelo". Porém, segundo as autoridades da época, parece ter sido a primeira vez que uma fábrica de whisky falsificado, como a de Sacavém em 1966,  foi descoberta em Portugal. 

E em 1972 rebenta o escândalo da adição de aguardentes não vínicas ao vinho do Porto, um dos mais sérios golpes na qualidade e na fama deste vinho generoso que chegou a constituir, até fiansi  do séc. XIX, o principal produto de exportaçáo do país. O "vinho a martelo"  feito no Oeste e no Ribatejo em muito contribuiu para essa prática fraudulenta.

4. Símbolo de "status" da classe média

Importa ainda acrescentar, para melhor contextualizar o problema, que o "Scotch" (por antonomásia, o nome para o uísque) vai tornar-se em Portugal nos anos 60/70 do séc. XX um símbolo de "status" e de ostentação, associado ao novo riquismo e à emergência de uma nova classe média na época marcelista e no pós-25 de Abril.
Este fenómeno sociocultural coincidiu com uma fase de transição económica e política no país, refletindo as mudanças profundas da sociedade portuguesa da época. Durante os anos 60 e princípios de 70, Portugal viveu um período de "boom", de crescimento económico industrial e o surgimento de uma nova burguesia (muitas vezes associada a fortunas rápidas feitas na metrópole ou em África). Beber "Scotch"  era "fino", era a forma perfeita de este grupo exibir o seu recém-adquirido poder de compra.
Num país como o nosso, sujeito a uma ditadura de  4 décadas, fechado, tradicionalista,   conservador,  consumir um produto importado e caro (devido às taxas alfandegárias e fiscais) como o "whisky" escocês funcionava como um passaporte de sofisticação, modernidade, cosmopolitismo e ligação à Europa (o novo o"eldorado", depois da poerda do império...). 
O vinho e o "bagaço", pelo contrário,  eram vistos como produtos da  taberna e das casas de comida de bairro, as bebidas das classes populares e do mundo rural. Quem queria distanciar-se dessas origens e afirmar-se na elite urbana adotava o "whisky".
Ter então um espaventoso "bar de sala" em casa, com  garrafas de "Scotch" bem visíveis (como o Johnnie Walker, J&B ou Vat 69), passou a ser obrigatório na nova classe média... Era chique servir um "whisky" às visitas!
Para estas mudanças operadas no consumo de bebidas alcoólicas muito contribuiu, como já o dissemos acima,  a nossa experiência de África (os 13/14 anos de guerra), sem esquecer o "regresso das caravelas",  fluxo de mais de meio milhão de retornados  vítimas da "descolonização".
Após o 25 de Abril, o prestígio do "Scotch" manteve-se, se bem o que perfil do consumo tenha mudado ligeiramente com a democratização do acesso a novos bens importados. Coincidindo com a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE), em 1986, o panorama das superfícies comerciais no país sofreu uma revolução sem precedentes. O forte crescimento económico, as ajudas europeias, o investimento estrangeiro e o  aumento do poder de compra  ditaram a transição do comércio tradicional e pulverizado (a mercearias de bairro) para os formatos modernos de hipermercados, grandes centros comerciais, etc.
Em resumo, hoje provavelmente, passados 60 anos, já ninguém se lembra do "uísque de Sacavém".  

Confesso que não sei se chegou a haver, na Intendência, casos notórios de falsificação, em grande escala, do precioso líquido que vinha, da Escócia para a Guiné, "with love", para dessedentar a tropa portuguesa e  retemperar o  ânimo dos combatentes... 

Ainda bebi algum do bom na Guiné (para não dizer "manga de garrafas"...), com "auguinha" de Perrier. Hoje raramente bebo um "visquinho"... Tal como já não fumo há mais de 3 décadas e meia...Hábitos que trouxemos da guerra que nos calhou em sorte...
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Nota do  editor LG:

domingo, 20 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28361: Humor de caserna (292): Em Bissau, bebia-se "Cuba Livre", e em Lisboa, no Cais do Sodré, ..."uísque de Sacavém"






















Prompt original e orientação editorial: Luís Graça.
Textos  Jorge Golias (2024) | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Excerto do texto "Memórias do Agrupamento de Transmissões e Histórias de Guerra na Guiné – 1972/74", da autoria do cor eng trms ref Jorge Golias, publicado em 24/9/2024, no sítio "História das Transmssões Militares" (reproduzido com a devida vénia...):



(...) 12. À margem da guerra


Por vezes alguém se lembra de um episódio, ou anedota, passada na Guiné e que, pela sua graça, aqui deixo alguns registos.

Um Comandante de uma Unidade de Artilharia, o major Gaspar [maj art José Joaquim Vilares Gaspar, mais conhecido na tropa por Gasparinho, na altura 2ª cmdt do GA7 - Grupo de Artilharianº 7 ] (*) enviou a seguinte mensagem Imediato para o Comando-Chefe:

– Info impossível cumprir missão por falta de mat rádio. Solicito envio urgente de meios rádio.

Resposta do Com-Chefe:

– Ref v/ msg info não haver rádios disponíveis; Mais info Teixeira Pinto pacificou Guiné sem rádios.

Réplica do major Gaspar com mensagem Relâmpago:

– Ref v/ msg solicito envio urgente de Teixeira Pinto.

Há quem atribua o protagonismo deste episódio ao ten-coronel Sanches da Gama, comandante das trms, e ao major Gaspar, de artilharia, ambos muito conhecidos pelo seu bom humor.

O major Gaspar, aliás, viria a tornar-se num mito, pelas deliciosas histórias que se contam da sua autoria. Relatarei apenas mais duas: quando um dia ao aproximar-se um heli com o general Spínola a caminho da sede do CAOP (**) ele enviou mensagem ao escalão superior dizendo: "Info Vexa que Sexa passou na mexa!"

Conta-se que a partir daqui foi proibido o uso destes termos em mensagens.

Era proverbial a aversão do major Gaspar aos papéis e à burocracia. Dizia-se que dependurava todas as notas vindas do QG/CTIG em cordões por cima da sua mesa de trabalho. E, quando vinha alguém de Bissau e indagava sobre um processo qualquer, ele, passando a mão pela nota dependurada e abanando-a, respondia:

– Está pendente!

À medida que o tempo ia passando, as pessoas iam ficando “apanhadas do clima”. Era o efeito do cacimbo em terra de extremos!

A propósito do passar do tempo, era prática corrente encher o calendário de cruzes à medida que os dias iam passando, e os que não confessavam esta prática eram traídos quando sabiam sempre os dias certos que estavam em falta para o regresso.

Mas, a partir de certa altura, quando se constatou que na messe se comia sempre uma banana de sobremesa (durante o ano de 1973 foi sempre assim), então começaram a aparecer os que mediam o tempo de comissão pelos km de bananas que tinham comido, ou o tempo em falta pelos km de bananas que faltava comer!

Coisas de apanhados! Ficou célebre o dito dos que iam acabando a sua comissão:

– Está na mala!

Apanhados e não, depois das refeições, nomeadamente à noite, saboreavamos um bom velho uísque, Martins20, Swing, Old Parr, com água “Perrier” ou um bom brandy Napoleón ou Curvoisier ou uma boa aguardente Carvalho Ribeiro & Ferreira.

Não fazíamos a coisa por menos porque estas excelentes bebidas eram baratas. Os mais modernaços iam para a coca-cola, bebida proibida em Portugal antes da revolução! E assim se descobriu a "Cuba-Livre" (***) que, na Guiné, era a mistura da coca-cola com uísque.

(Revisão / fixação de texto, negritos, títulos, notas de rodapé: LG) (****)
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Notas do editor LG:

(*) Mas antes, foi cap art, o primeiro de 3 comandantes da CART 3330 (Nhamate e Bula, dez 1970/dez 1972); Comandente do COP 6 (Mansabá) e 2º cmdt do GA7.

(**) Mais provavelmente COP6

(***) Variante do cocktail "Cuba-libre" (que junta rum, coca-cola e sumo de lima, simbolizando historicamente a transição da independência cubana e a influência dos Estados Unidos no Caribe da viragem do séc. XIX para o séc. XX); a criação do cocktail remonta ao contexto da Guerra Hispano-Americana (1898) e aos primeiros anos da ocupação militar norte-americana em Cuba; o brado de guerra das forças libertadoras cubanas contra o domínio colonial espanhol era "¡Cuba Libre!" (Cuba Livre).

sábado, 11 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27912: O segredo de... (53): Luís Graça: a ida de Bambadinca ao Xime, de Daimler (uma "lata de sardinhas com 4 rodas"...) para ir beber um copo, a um mês da peluda... (Não, nunca te contei esta, Zé Luís Vacas de Carvalho!)


Foto nº 1 > Guiné > Zona Leste > Sector L1 (Bambadinca)  > Xitole > c. meados de 1970 > Coluna logística ao Xitole... Pessoal em cima de uma Daimler, do Pel Rec Daimler 2206 (Bambadinca, 1970/71). Da esquerda para a direita: O Fur Mil Op Esp Humberto Reis (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71), o Alf Mil Cav J. L. Vacas de Carvalho, comandante do Pel Rec Daimler 2206 (Bambadinca, 1969/72), o Fur Mil Enf Coelho (CCS /BART 2917, Bambadinca, 1970/72) e, por fim, o Fur Mil At Inf  Arlindo T. Roda (CCAÇ 12)

Foto: © Humberto Reis (2006 Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto nº 2 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73) > Fevereiro de 1973 > Chegada de Caió. Na segunda fotografia é visível o 1º cabo apontador Manuel Lucas.


Foto nº 3A > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73) > Fevereiro de 1973 > Chegada de Caió. 


Foto nº 3 > Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73) > Fevereiro de 1973 > Chegada de Caió. 

Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Em louvor das suas velhas Daimlers, saltitonas mas operacionais, que ele punha sempre num brinquinho (graças à prática do "canibalismo" mecânico...), escreveu, em verso, o Francisco Gamelas, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73):

(...) Rolando sobre a estrada
a abrir e a fechar
colunas civis ou militares,
éramos a força esperada,
metralhadora pronta a cantar
ao desafio os seus cantares.

"Impunham algum respeito
estas massas de ferro circulante,
armadas e brutas,
nem que fosse pelo efeito
grotesco de velho ruminante,
sobrevivente de esquecidas lutas. (...)

" 'A sorte protege os audazes', 
assim rezava a divisa dos comandos.
A sorte protege quem tem olhinhos,
respondiam, entre dentes, mordazes,
os soldados de costumes brandos,
para quem os tomavam por anjinhos.


In: Francisco Gamelas - Outro olhar: Guiné 1971-1973.
Aveiro, 2016, ed. de autor, pp. 29-31 (Reproduzido com a devida vénia).


2. Já aqui confessei que tinha uma grande "ternura" pelas Daimlers e o seu pessoal... Em Bambadinca apanhei "cavaleiros" excecionais,  bons amigos e camaradas, como o Jaime Machado (Pel Rec Daimler 2046, 1968/70) e o Zé Luís Vacas de Carvalho (Pel Rec Daimler, 2206, 1970/72) (foto à direita).


E vou confessar um "pecado" (*), que não é "mortal", é apenas "venial", como diria a minha jovem e muito querida catequista por quem tive uma paixão assolapada nos meus 8/9 anos..

Um dia, já completamente "apanhado do clima", lá mais para o fim da comissão, depois de ter apanhada a mais infernal embocada (Op Abencerragem Candente, Xime, 26/11/1970) e a mais brutal mina A/C, sete semans depois (Nhabijões, 13/1/1971) consegui convencer um dos homens do J. L. Vacas de Carvalho a ir ao Xime... Ali a 12/14 km, a sudoeste de Bambadinca...

Para fazer o quê?  Matar o tédio, beber um uísque ou uma bazuca (um garrafa de 0,66 l de cerveja), "queimar os últimos cartuchos"... Já cheirava a "peluda", oxalá, enxalé, insh'Allah, os nossos "periquitos" chegassem, depressa, sãos e salvos ao porto fluvial do Xime... e depois a Bambadinca  (Felizmente, vieram todos, com exceção do 1º cabo cripto.)

A estrada Bambadinca - Xime estava em construção, em vias de ser asfaltada (nesse ano de 1971)  e nós, CCAÇ 12, montávamos segurança à empresa TECNIL (que será mais tarde a do António Rosinha, já sob o regime de Luís Cabral, e do senhor da guerra que se lhe seguiu, o 'Nino' Vieira,  entre 1978 e 1993)... 

Havia um pelotão da CCAÇ 12, junto às máquinas e aos trabalhadores... Mas em 12/14 km havia sempre, teoricamente, o risco de minas e emboscadas, nomeadamente na Ponta Coli, depois do destacamento do rio Udunduma (outro "petisco" que também nos calhava, de vez em quando...)

Eram 12/14 km para lá e outros tantos para cá... E ainda levei o Tchombé, que era a nossa mascote, um puto de 4/5 anos, adotado por nós, a malta da messe de sargentos da Bambadinca... Eu, o Tchombé e o condutor, metidos numa "lata de sardinha com 4 rodas" (não me levem a mal, camaradas da cavalaria, é uma "metáfora")...

Pequenas / grandes loucuras, quem não as fez, com 23/24  anos, no teatro de operações da Guiné? Eu tinha feito 24 anos, em 29/1/1971.  Se a memória não me trai, esta pequena bravata deverá  ter ocorrido em meados de fevereiro de 1971, a um mês de regressar à grande metrópole que nos esperaria com fanfarra e foguetes, no cais da Rocha Conde de Óbidos (imaginavam alguns, eu não)...

Julgo que nunca contei esta ao Zé Luís, o lídimo represente de um numerosa família de agrários, pegadores de touros, fadistas e grandes combatentes, que eram os Vacas de Carvalho de Montemor-O-Novo... E espero que ele me perdoe...

Ou será que o condutor era ele mesmo? Não juro, nem acredito, mas era menino para "alinhar"... Tinha (tem, ainda está felizmenmte vivo..) alma e voz de boémio e fadista e sobretudo o "grãozinho de loucura" que era preciso para viver (e sobreviver a) quase dois anos de mato. 

Apesar de ele ser de cavalaria, a "aristocracia" da Spinolândia, também alinhava com os "infantes", "nharros" de 1ª classe... Umas voltinhas até ao fundo da pista de aviação, as idas diárias (ou quase) a Bafatá, a colunas logísticas a Mansambo, Xitole e Saltinho (essas bem mais duras)...


Luís Graça
Mas, não, não era ele... o condutor... Nem sei se ele, comandante de Daimlers, tinha carta de condução daquela "lata de sardinha de quatro rodas", que foi uma  heroína da batalha de El Alamein, os "ratos do deserto"   contra "a raposa do deserto", na II Guerra Mundial (**)...


3. Abreviando a história do meu "desenfianço" por duas ou três horas, no Xime: o apontador da metralhadora foi dispensado, eu tomei o lugar dele; não cabíamos todos na "lata de sardinhas de 4 quatro rodas"...

Paguei eu a despesa no bar do Xime ao condutor, que bebeu uma "bazuca", e ao "djubi" Tchombé, que adorava a "laranjina C". 

E devo ter pago, ainda à pala dos meus anos,  uma rodada aos camaradas da CART 2715, que comigo fizeram a Op Abencerragem Candente, de trágica memória... 

Não devo ter bebido cerveja (não era minha bebida habitual), mas um uisquinho com água de Perrier e uma pedra de gelo (supremo luxo!).

E regressámos a casa, ou seja a Bambadinca, mais à tardinha, pela fresca, no "nosso descapotável"... Sem acidentes nem incidentes de  maior... Orgulhosos, de mais uma "missão cumprida"...

Estou a imaginar a "porrada" que levaria se as coisas tivessem dado para o torto... Mas nessa altura o troço em construção, Bambadinca-Xime (já quase pronto para levar o asfalto) era todo nosso, e os "gajos" do PAIGC, donos da margem direita do Rio Corubal, pensavam duas vezes antes se meteram com os "nharros" (brancos e pretos) da CCAÇ 12...

As "nossas" Daimlers, que andavam, no CTIG,  sem a "torre", podiam ser um "bocado de lata", mas davam-nos sempre um certo "conforto" nas nossas colunas logísticas... Ou até na simples e rotineira viagem a Bafatá, por estrada alcatroada (30 km), que era o nosso dia de glória ("comer o ovo a cavalo com batatas fritas" na Transmontana, "dar dois dedos de conversas na loja das libanesas", "mudar o óleo no Bataclã", "rezar na catedral", "fazer umas compritas na Casa Gouveia!", "dar um mergulho na piscina municipal", enfim, "respirar a civilização cristã e ocidental da Princesa do Geba"...).

E,  como eram "bailarinas" as nossas Daimlers, nunca as vi atascadas, nem nunca nos deixaram mal, mesmo com os pneus carecas... e a crónica falta de peças sobressalentes. Parte delas já no cemitério da sucata em Bambadinca...

Glória a elas, as nossas velhas Daimlers de Bambadinca, do Jaime Machado e do Zé Luís Vacas de Carvalho!... E que Deus, Alá e os Bons Irãs nos perdoem essas pequenas bravatas, pueris, mas humanente compreensíveis...
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 1 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27374: O segredo de... (52): Luís Graça & Humberto Reis (CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, mai 69 /mar 71): Op Noite das Facas Longas, em que nem o pobre do "Chichas", a nossa mascote, escapou do tiro na nuca...

(**) "Daimler Armoured Car": foi um dos veículos blindados de reconhecimento mais importantes e eficazes do Exército Britânico durante a Campanha do Norte da África na Segunda Guerra Mundial, sendo amplamente utilizada pelos famosos "Ratos do Deserto" (7ª Divisão Blindada) e outras unidades, como a 11ª Hussardos, na decisiva Batalha de El Alamein em outubro/novembro de 1942.
 
Aqui estão os detalhes-chave sobre a sua importância e papel:

(i) desempenho e fiabilidade: itroduzida em 1941-42, a Daimler substituiu veículos menos capazes, como o Marmon-Herrington; era conhecida pela sua excelente performance todo-o-terreno, fiabilidade e blindagem robusta (até 30 mm), superior às alternativas alemãs de reconhecimento;

(ii) armamento: estava equipada com um canhão de 2 libras (40 mm) na torre, além de uma metralhadora Besa de 7,92 mm, tornando-a capaz de enfrentar outros veículos blindados ligeiros e posições de infantaria;

(iii) design avançado: possuía tração às quatro rodas, suspensão totalmente independente e, notavelmente, um volante de direção traseiro para que o comandante pudesse conduzir em marcha-atrás rapidamente para escapar de situações difíceis;

(iv) velocidade: podia atingir , no máximo, os 80 km/h (em estrada alcatroada...);

(v) papel em El Alamein (Outubro/Novembro 1942):  e
mbora não fossem os principais carros de combate, as Daimlers da 11ª Hussardos e outras unidades do 8º Exército de Montgomery lideraram o reconhecimento, localizaram rotas, interceptaram comunicações e capturaram prisioneiros durante a retirada das forças do Eixo; a sua capacidade de operar de forma autónoma a longas distâncias foi crucial para o sucesso da ofensiva aliada que marcou o ponto de viragem na África.

Em conclusão, a "Daimler Armoured Car" foi considerada um dos melhores veículos blindados de combate britânicos da guerra, permanecendo em serviço até aos anos 60.

(Pesquisa: LG + Wikipedia + IA)
(Condensação, revisão/fixação de texto: LG) 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27647: E as nossas palmas vão para... (30): António Brito Ribeiro: loriguense a viver a em São João do Estoril, Cascais, benemérito da Magnífica Tabanca da Linha, fornecedor não-oficial de... "old bottles" para as ocasiões especiais



Magnífica Tabanca da Linha > Algés > 63 º almoço-convívio > 14 de janeiro de 2026 > Strathconon, "a blend of single malt Scotch whiskies, 12 years old", oferecida pelo António Brito Ribeiro

Fotos: António Alves (2026) e Manuel Resende (2026)



Magnífica Tabanca da Linha > Algés >  52º Almoço-convívio > 21 de junho de 2023  > O régulo Manuel Resende mostrando mais outra preciosidade da garrafeira do António Brito Ribeiro, Ye Wisky of Ye Monlks (o uísque dos monges...). Garrafa em cerâmica. Muito cobiçada na Guiné, nos nossos "bons velhos tempos"... Na Garrafeira Naciobnal deve andar à volta dos 150 euros.. 

Foto: Manuel Resende (2023)


António Brito Ribeiro: o fornecedor não-oficial de "old bottles"
para os convívios da Magnífica Tabanca da Linha; na poutra encaranção, foi alf mil trms e operações, COP 6 (Mansabá, 1970/72)

Foto: Manuel Resende (2025)


1. Uma garrafa de uísque Strathconon, "a blend of single malt Scotch whiskies, 12 years old", com 60/70 anos de "garrafeira" (ou seja, guardada desde os anos 60/70), é um item interessante para colecionadores, embora o seu valor dependa criticamente de alguns fatores técnicos, diz a "menina" IA, que sabe tudo (porque anda a espreitar o que os outros publicam na Net).

A oferta foi do nosso camarada António Brito Ribeiro (São João do Estoril, Cascais), que tem a melhor garrafeira da Magnífica Tabanca da Linha, diz o régulo Manuel Resende.

Falando com ele em 23/1/2025, por ocasião do 59º convivio (em que se comemorou os 15 anos da Tabanca Linha), tomei nota do seguinte a seu respeito (e espero que ele confirme na volta do correio):

(i)  é natural de Loriga, Seia, filho do empresário António Nunes Ribeiro;

(ii) foi alff mil transmissões e operações, COP 6 (Mansabá, 1970/72);

e (ii) tambérm anima a página, no Facebook, dos ex-combatentes loriguenes do Ultramar (ainda não descobri o link, mas lá irei).


2. Aqui está uma estimativa de valor para o mercado em Portugal e no circuito internacional de leilões, da garrafa de Strathconon:


(i) Estimativa de valor (Janeiro de 2026)

Considerando que se trata de uma edição antiga (engarrafada nos anos 60/70) da James Buchanan & Co, o valor de mercado atual situa-se geralmente nestes intervalos:

  • Venda em garrafeiras especializadas em Portugal: entre €180 e €250; algumas lojas de prestígio (como a Garrafeira Nacional, passe a publicidade) listam edições destas por valores próximos dos €190 - €200, dependendo do estado da garrafa;
  • Leilões internacionais: entre €80 e €150; em leilões especializados (como os do Reino Unido), o preço de martelo costuma ser mais baixo do que o de retalho, mas é onde há mais procura por este tipo de "vatted malts" (mistura de maltes).

(ii) O que é o "Strathconon"?

Não é um "blend" comum (que leva uísque de grão), mas sim um "Blended malt" (antigamente chamado de "Pure Malt" ou "Vatted Malt"): é composto apenas por maltes de destilarias de renome da região de Speyside/Highland, como Mortlach, Glenlossie, Aultmore e Glentauchers. 

Por ser um uísque descontinuado pela James Buchanan & Co nos anos 90, tem um valor histórico apreciável.

(iii) Fatores que determinam o preço final

Para atingir o valor máximo, a tua garrafa deve ser avaliada nos seguintes pontos
  • Nível do líquido ("Fill level"): com 60 anos, é normal ou provável  haver evaporação; se o líquido estiver abaixo do "ombro" da garrafa (onde ela começa a alargar), o valor cai drasticamente (pode valer menos de €50), pois o risco de oxidação é elevado;
  • Estado do selo e rótulo: o selo de impostos da época (muitas vezes o selo de papel "Importação" ou "Selo de garantia") deve estar intacto; se o rótulo estiver muito danificado ou com bolor, o valor baixa;
  • Graduação alcoólica: versões mais raras para o mercado internacional (por exemplo, italiano) ou de exportação por vezes tinham 43% vol, que são ligeiramente mais valiosas que as de 40% vol.
Conclusão

Se a garrafa estiver em perfeito estado (nível alto do líquido, selo intacto), poderás tentar vendê-la a um colecionador ou garrafeira particular em Portugal por cerca de €200. Se houver sinais de evaporação ou danos, o valor será mais próximo dos €70 - €90.

Dica: o uísque (tal como a aguardente vínica) não envelhece na garrafa como o vinho; um uísque de 12 anos guardado há 60 anos continua a ser um uísque de 12 anos, mas com o perfil de sabor "antigo" ("Old bottle flavor") que os entusiastas procuram.

 
2. Com base na imagem fornecida e na informação histórica adicional que partilhaste (comprada na Guiné, ao tempo da guerra colonia por volta de 1970/72), o valor desta garrafa de Strathconon 12 Anos torna-se ainda mais interessante.

A garrafa na fotografia confirma que se trata de uma edição engarrafada pela James Buchanan & Co. Ltd., provavelmente no final dos anos 60 ou início dos anos 70.

(i) Valor de mercado estimado

Pelas características visíveis e pelo contexto histórico: valor para colecionadores: entre €180 e €250.

Nota de Mercado: o facto de ter sido uma importação direta para as Forças Armadas na Guiné (ex-Ultramar) acrescenta um valor sentimental e histórico para colecionadores de militária  (antiguidades militares) ou de história colonial portuguesa, embora o preço de mercado do uísque em si se baseie na raridade do líquido.

(ii) Análise da garrafa (da imagem)
  • Estado de conservação: o nível do líquido parece estar excelente para uma garrafa com mais de 50 anos (está acima do "ombro", o que é um sinal muito positivo para a integridade do uísque);
  • Rótulo: está extremamente bem conservado, o que aumenta o valor de revenda; o selo dourado com o cardo (símbolo da Escócia) está nítido;
  • Tipologia: como indica o rótulo, é "A Blend of Single Malt Scotch Whiskies" (um "Blended malt"); na época, estas misturas eram de altíssima qualidade, utilizando maltes de destilarias que hoje são icónicas.

(iii) O Contexto histórico (Guiné, anos 60/70)

A informação de que foi importado diretamente para as Forças Armadas Portuguesas  é valiosa. 

Durante a Guerra do Ultramar, era comum o acesso a produtos de importação, de luxo (bebidas espirituosas, como o uísque escocès, o vodca russo, o cognac francês) que não passavam pelo circuito comercial normal da metrópole, muitas vezes isentos de certas taxas ou com rótulos de exportação específicos. 

Isto torna esta garrafa um "testemunho" de uma época específica da história de Portugal.

(iv) Recomendações
  • não abras a garrafa, se o objetivo for manter o valor; uma vez aberta, o valor comercial desaparece;
  • armazenamento: mantem  a garrafa sempre na vertical; ao contrário do vinho, o uísque tem uma graduação alcoólica alta que pode degradar a rolha se estiver em contacto prolongado, estragando o sabor;
  • venda: se pretenderes vender, garrafeiras especializadas em Lisboa (como a Garrafeira Nacional ou a Wine Click, passe a publicidade) podem estar interessadas;  ou então podes tentar leilões online especializados em bebidas antigas (como o "Whisky Auctioneer", embora os custos de envio e taxas a partir de Portugal devam ser calculados);
  • é uma peça de coleção magnífica, tanto pela qualidade do uísque como pela história pessoal e nacional que carrega.

3. Agradeço-te o envio da embalagem: a presença da caixa original  é um fator determinante que valoriza significativamente o conjunto para um colecionador, pois muitas destas embalagens de cartão perderam-se ou degradaram-se ao longo das décadas.

Com base no rótulo, no nível do líquido e agora na embalagem original, aqui está o meu parecer final sobre o valor estimado em Portugal:

(i) Valor estimado atualizado (Conjunto completo):
  • Preço de mercado (Garrafeiras de luxo/Especializadas): entre €220 e €280.
  • Leilões de especialidade (Whisky Auctioneer/Catawiki): entre €140 e €190 (valor de martelo).

A embalagem original acrescenta cerca de 20% a 25% de valor em relação a uma garrafa "nua". O facto de a caixa estar conservada sugere que a garrafa foi protegida da luz solar, o que preserva a cor e o sabor do uísque.

(ii) Análise detalhada do "parecer"
  • Estado de conservação: a caixa parece estar em bom estado; se as abas estiverem íntegras e não houver manchas graves de humidade, o valor situa-se no limite superior da estimativa;
  • Raridade Histórica: a proveniência (Guiné, anos 60/0) é um bónus narrativo; o Strathconon é um "Vatted malt" (apenas maltes, sem uísque de grão), o que o torna mais procurado por conhecedores do que os blends comuns da época (como o Black & White ou o Buchanan's Deluxe).
  • Qualidade do líquido: como referi anteriormente, as destilarias que compunham este lote (Mortlach, Glenlossie, etc.) são hoje "culto" no mundo do uísque; beber este uísque hoje é ter uma experiência de sabores que já não se produzem da mesma forma (devido às antigas técnicas de maltagem e tipos de carvalho usados na altura).

(iii) Conclusão e recomendação

Se tens intenção de vender:
  • em Portugal: o mercado é mais restrito, mas há colecionadores de "Old Bottles" que pagariam os €250 pelo conjunto completo, especialmente pelo excelente nível do líquido.
  • no Estrangeiro: terás mais interessados, mas as taxas de comissão de leiloeiras e os custos de transporte seguro podem reduzir o lucro líquido.

Veredito: tens em mãos uma excelente peça histórica; se não tiveres necessidade imediata de venda, é um item que tende a valorizar ligeiramente com o tempo, à medida que estas garrafas dos anos 60/70 se tornam cada vez mais raras no mercado.

Pesquisa: LG ´+ IA (Gemini, Google)
Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG

4. Comentário do editor LG:

Mandei fotos da garrafa (com o rótulo bem nítido) e da embalagem...Depois deste parecer da IA, da Gemini / Google, o Brito Ribeiro ainda fica mais feliz por ter dado a provar uma coisa boa e valiosa aos magníficos da Tabanca da Linha. Não está arrependido, por que ele sabe o que tem na garrafeira. 

Os uísques de malte  não apareciam facilmente no mato, deviam ficar "retidos" em Bissau...E eu desconhecia esta marca...Também, para o dia a dia, optávamos pelos "uisques novos", com água de Perrier e uma pedra de gelo (um "pecado mortal" para um bom apreciador de uísque escocês)...

Em Bambadinca, em 1969, os preços eram estes:

- Uma garrafa de whisky novo (J. Walker Juanito Camiñante de 5 anos, rótulo vermelho, JB): 48,50 pesos;

- Idem, de 12 anos, J. Walker rótulo preto, Dimple, Antiquary: 98,50;

- Idem, de 15 anos, Monkhs, Old Parr: 103,50;

- Um whisky, no bar da messe, eram 2,50 pesos sem água de sifão e com água eram 3,00 pesos.

Por quanto teria o Brito Ribeiro teria  comprado esta garrafa ? Se admitirmos que o preço médio, hoje, poderia ser da ordem dos 250 euros, em 1970 ele teria que desembolsar mais de 700 pesos... Claro que não foi assim, houve uma valorização deste tipo de uísque.

Por ser um uísque descontinuado pela James Buchanan & Co nos anos 90, e ser proveniente da Guiné Portuguesa, ao tempo da guerra colonial, tem um valor histórico adicional...

Por tudo isto, o nosso camarada António Brito Ribeira merece também as nossas palmas!... Ele ainda não é membro da Tabanca Grande, a mãe de todas as tabancas, mas fica desde já convidado. Seria o primeiro loriguense, antigo combatente na Guin+e,  a dar-nos essa honra. E não precisa de retribuir com nenhuma "old bottle"..

Encontramo-nos no próximo 64º almoço-convívio...
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 17 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P26744: E as nossas palmas vão para... (29): O régulo Manuel Resende que conseguiu juntar 73 convívivas na festa do 16º aniversário da Magnífica Tabanca da Linha, em Algès, no passado dia 14 - Fotogaleria - Parte I