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terça-feira, 11 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27410: Efemérides (472): Fotos da Festa do Fanado que decorreu em Tite no mês de Novembro de 1969 (Aníbal José Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)


1. Em mensagem de 5 de Novembro de 2025, o nosso camarada Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), enviou-nos algumas fotos da Festa do Fanado que decorria neste mês de novembro.

Caro Carlos Vinhal
Para uma próxima publicação, em anexo envio um pequeno texto e fotografias, com relação à Festa do Fanado, que costumava ocorrer durante o mês de Novembro na Guiné-Bissau.

Um forte abraço
Aníbal Silva



FESTA DO FANADO NA GUINÉ BISSAU EM 69/70

Genéricamente, o “Fanado”é um ritual de iniciação da vida adulta, praticado por rapazes (trata-se, entre outras coisas, da circuncisão) e raparigas (em alguns casos envolvendo a prática da excisão, criminalizada na Guiné-Bissau desde 2011) e era efetuado por várias etnias, variando a idade dos intervenientes, a periodicidade com que era praticado ou a sua duração.

Com o Fanado, os jovens tomavam consciência da sua função social e da sua personalidade, passando em algumas etnias, um período na floresta ou no mato, no cumprimento de uma série de cerimónias envoltas em grande secretismo de que não deviam falar quando regressassem e assumissem o seu novo papel na sociedade.

Este assunto está amplamente divulgado em 29 Postes deste Blogue, autoria de vários Tabanqueiros.

A minha vinda a terreiro a este tema, é simplesmente para dar a conhecer e partilhar as fotografias anexas, que tirei em Tite em Novembro de 1970, não sei se no início, se no fim da festa do Fanado.

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Nota do editor

Último post da série de 6 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27392: Efemérides (471): Convite do Presidente da Liga dos Combatentes, Tenente-general Joaquim Chito Rodrigues, para a cerimónia Comemorativa do 107.º Aniversário do Armistício da Grande Guerra e 51.º Aniversário do fim da Guerra do Ultramar, que se realiza no dia 18 de novembro de 2025, pelas 10h00, no Forte do Bom Sucesso, em Belém, Lisboa, durante a qual será condecorado, com a Medalha de Honra ao Mérito, grau Ouro, da Liga dos Combatentes, o nosso editor Luís Graça

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27388: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (113): Nunca desistir é a mensagem que pretendo transmitir aos camaradas que tenham em curso, ou venham a iniciar algum processo, para atribuição de incapacidade resultante de ferimentos sofridos em combate ou acidente, ocorridos durante a guerra colonial (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)

1. Em mensagem de 1 de Novembro de 2025, o nosso camarada Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), descreve-nos a sua odisseia para conseguir provar que o incidente de que foi vítima no dia 4 de Agosto de 1969 lhe provocou lesões oculares irreversíveis com consequências para toda a vida.


NUNCA DESISTIR

Nunca desistir é a mensagem que pretendo transmitir aos camaradas que tenham em curso, ou venham a iniciar um processo, relativamente à atribuição de incapacidade resultante de ferimentos sofridos em combate ou acidente, ocorridos durante a guerra colonial.

Volto a dizer “nunca desistir”, porque o processo que iniciei naquele sentido, foi uma autêntica odisseia.

Resultante das lesões oculares sofridas no incidente de 04 de Agosto de 1969 (ver Poste 26820), que originou um processo por ferimentos em combate, restaram sequelas. Porque anos mais tarde sentia desconforto e diminuição da visão, no dia 2 de Abril de 1991 entreguei na Secção de Justiça do DRM – Porto, um requerimento ao qual juntei um relatório médico, solicitando ser obervado no Hospital Militar do Porto, para verificação das sequelas e eventual atribuição de uma incapacidade.

Em 17 de Dezembro de 1992 fui presente à consulta de Oftalmologia no HMR1, tendo o especialista declarado “Não se encontra abrangido pela Tabela Nacional de Incapacidades pelo que não se justifica qualquer taxa de incapacidade. Deve ser enviado à Exma. JHI para os devidos efeitos”.

Em 12 de Janeiro de 1993 fui presente à JHI que me julgou “Pronto para todo o Serviço Militar” e portanto sem atribuição de qualquer incapacidade. Uma Junta Médica (JHI) é sempre constituída por três médicos, mas aqui só estive perante um Capitão, eventualmente médico, que não me observou, não dialogou comigo, limitamdo-se a comunicar o atrás referido.

Porque os problemas oculares continuavam, no dia 12 de Outubro de 2005 fiz novo “REQUERIMENTO PARA PEDIDO DE REVISÃO DE PROCESSO POR ACIDENTE/DOENÇA EM SERVIÇO” ao qual juntei novo relatório médico. Daqui resultou que passados 18 meses, no dia 30 de Maio de 2007, fui presente a uma JHI (Oftalmologia) e desta vez sim, na presença de três médicos, que após observação emitiram a seguinte decisão “H.M.R 1 – incapaz de todo o serviço militar, apto, parcialmente para o trabalho com 23,5 de desvalorização”, baseando-se nas seguintes lesões: epíforas e conjuntivites crónicas e bilaterais.

Julgava eu que passados mais alguns meses passaria a receber uma indemnização, cujo valor monetário desconhecia totalmente. Puro engano, o processo andou a saltar durante SETE ANOS E MEIO, de organismo em organismo, tais como: Ministério da Defesa; Direção de Justiça e Disciplina; Arquivo Geral do Exército; Direção de Saúde, Comissão Permanente Para Informações e Pareceres e finalmente a Repartição de Reserva Reforma e Disponibilidade.

É aqui que nunca devem desistir, pois, apesar da atribuição da incapacidade em Junta Médica, não é certo que venhas a receber qualquer pensão, ou então, não na totalidade da incapacidade atribuída.

Os vários organismos vão tentar tudo para não te darem a merecida desvalorização e é preciso estar atento e contestar os pareceres que vão emitindo, tais como: a inexistência de nexo causalidade entre as lesões diagnosticadas e o acidente sofrido; alterando a profissão de modo a que incapacidade seja reduzida para metade (1) e referindo que as sequelas das lesões sofridas não podem ser resultantes do acidente (2), mas sim de causa orgânica (doença).

• (1) - na vida civil fui empregado de escritório, mas classificado como carpintero neste processo. Como o empregado de escritório necessita mais da visão que o carpinteiro, logo aqui e segundo a Tabela Nacional de Incapacidades, que eu conhecia bem por motivos profissionais, a desvalorizção baixava para metade. Tive de contestar, o que logo originou atrasos de meses na resolução do caso.
• (2) – A Direção de Saúde disse que as sequelas das lesões tinham origem em doença bacteriológia e não traumática (acidente), o que tive também de contestar e daí mais uns meses de espera.

Foram sete anos e meio de muita luta, muita paciência, mas consegui ganhar o processo e a desvalorização na totalidade. Ver anexo NOTAS, onde tudo registava, tal como: telefonemas; contactos pessoais, cartas e emails, etc, num total de 11 páginas.

Para concluir o processo e começar a receber a pensão, faltava uma última etapa, uma Junta Médica na Caixa Geral de Aposentações, a entidade pagadora, que foi feita e posterior publicação no Diário da Républica.

A Pensão é paga a partir da data da realização da Junta Medica que determinou a incapacidade, pelo que tive direito a receber os retroativos dos sete anos e meio e depois passei a receber mensalmente, por débito em conta, através da CGA.

Uma última questão, só quem tem uma incapacidade igual ou superior a 30% é que é considerado Deficiente das Forças Armadas, que para além da pensão, tem outras regalias.

Arcozelo/Gaia
01 de Novembro de 2025
Aníbal Silva

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Notas do editor:

1 - Citando Aníbal José da Silva no seu Poste 26820 de 29 de Maio de 2025:

[...]
Chegado à base de Bissalanca segui de ambulância para o Hospital Militar. Fui colocado não sei onde deitado na maca. Não sabia se estava no chão ou em cima de qualquer coisa. Com a mão direita de fora da maca, tocava no que me rodeava e conclui que estaria no chão pois sentia uma superfície fria e lisa.

As pessoas passavam por mim mas não ligavam nenhuma. As dores nos olhos e o rubor na cara era escaldante. Comecei por insultar quem por mim passava, chamando-lhes filhos desta e daquela, até que alguém, creio que era um sargento pois chamaram-lhe assim, veio ter comigo e perguntou a outros o que é que aquele homem estava ali a fazer. Responderam que estava à espera do oftalmologista. Era uma segunda-feira e o médico devia ter ido passar o fim de semana à ilha dos Bijagós. Mas o sargento ordenou que eu fosse de imediato ao RX para a eventualidade de ter algum estilhaço no corpo, o que felizmente não se veio a confirmar. O médico chegou e mandou-me para a sala de observações, onde permaneci três dias.

Foi iniciado o tratamento prescrito, que consistia na lavagem dos olhos várias vezes ao dia e mesmo durante a noite, mais umas injeções não sei para quê. Ao fim da tarde desse dia, ouvi passos que vinham na minha direção. Abeiraram-se da cama e uma voz perguntou: “Rapaz de onde és e o que te aconteceu?”. Reconheci logo a voz do General Spínola e resumidamente respondi. O acompanhante habitual do general era o Capitão Almeida Bruno, que me perguntou se eu sabia com quem estava a falar. Respondi que era o General Spínola e ele o Capitão Almeida Bruno. No dia seguinte voltaram a visitar a sala de observações, tomando conhecimento dos que chegaram nesse dia. Era do conhecimento geral, que desde sempre, os dois ao fim da tarde iam ao hospital quase todos os dias. De madrugada entrou alguém na sala a gemer e a berrar. Era uma parturiente que horas mais tarde deu à luz uma bebé.

O barbeiro do hospital, de dois em dois dias, ia-me fazer a barba e eventualmente aparar o cabelo. Para ir ao refeitório, nos primeiros dias, era acompanhado pelo cabo enfermeiro, que me ensinou a fazer o percurso sozinho. Saía da porta da enfermaria, dava quatro passos em frente atravessando o corredor e tocava na parede, virava à esquerda e caminhava uns tantos passos ao longo da parede até ao início da escada, depois à direita, descia seis degraus, contornava o patamar e descia mais seis degraus até à entrada do refeitório. Quando entrava diziam, lá vem o ceguinho, quem é que lhe vai dar a sopa na boca e cortar o bife? Obviamente que meter a sopa na boca era exagero, era uma brincadeira, mas o restante sim, precisava de ajuda. No trajeto inverso contava os mesmos degraus e dava os mesmos passos. Na cama não podia estar de barriga para cima, porque a deslocação de ar provocado pelas enormes pás das ventoinhas colocadas no teto, ao bater nas pálpebras agravava as dores.

[...]

2 - Último post da série de 27 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27358: O nosso blogue como fonte de informação e conhecimento (112): Através do nosso blogue, na pessoa do camarada Manuel Domingos Ribeiro, soubemos do falecimento do Fur Mil Art Silva da CART 6552/72 (João Ferreira / Manuel Domingos Ribeiro / Carlos Vinhal)

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27316: Viagens à Guiné-Bissau: Amizade e Solidariedade (Armando Oliveira e Ricardo Abreu) (3): Vila de Fulacunda (Aníbal Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)

1. Em mensagem de 13 de Outubro de 2025, Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), enviou-nos a terceira reportagem das "Viagens à Guiné-Bissau: Amizade e Solidariedade", levadas a efeito pelos nossos camaradas Armando Oliveira e Ricardo Abreu.


VIAGENS À GUINÉ BISSAU: AMIZADE E SOLIDARIEADE

Na viagem à Guiné Bissau de 2017, depois da visita à Missão Católica de Tite, os camaradas Armando Oliveira e Ricardo Abreu rumaram a Fulacunda, onde entregaram medicamentos no Centro de Saúde Victoriano Costa e outras dádivas à população, com quem confraternizaram longamente.


III - VILA DE FULACUNDA

Fulacunda é um sector da região administrativa do Quinara, na área sul da Guiné-Bissau, com 917,3 Km2 e uma população aproximada de 1300 habitantes.
A área circundante de Fulacunda abriga o Parque Natural das Lagoas de Cufada, constituído pelas lagoas de Biorna, Bedasse e a própria Cufada, sendo um importante santuário da vida selvagem da Guiné-Bissau.

Situa-se entre os dois grandes rios da região, o Rio Grande de Buba e o Rio Corubal e representa a maior reserva de água doce da Guiné-Bissau. Na zona do Parque existem 36 tabancas onde vivem cerca de 3500 pessoas, pertencentes a diversas etnias, designadamente Beafadas, Balantas, Fulas e Mandingas.

Lagoa de Cufada

RUMO A FULACUNDA
Partida de Tite em veículo da Missão conduzido por uma freira e com o Armando pronto a fazer a reportagem
Entrada em Fulacunda
Centro de Saúde Victoriano Costa
Freira da Missão de Tite em visita à enfermaria
Ricardo e Armando na entrega de medicamentos, conteúdo de duas malas
Outras dádivas para além dos medicamentos
O Ricardo cumprimenta o Malan, ex-militar e deficiente das Forças Armadas
Com o ex-guia de Fulacunda (62 a 74) Francisco Mamadu Mané
Juventude Fulacundense

EDIFICADO MILITAR AO ABANDONO
Secretaria
Messe de Oficiais
Cantina e refeitório
Messe de Sargentos
Sala de: convívio, aulas e ténis de mesa

EDIFICADO DA POPULAÇÃO
Fontanário
Edifício onde o administrador (civil) recebia os Fulacundenses que lhe iam apresentar problemas e o pedido de resolução dos mesmos.
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Nota do editor

Último post da série de 7 de outubro de 2025 > Guiné 61/74 - P27292: Viagens à Guiné-Bissau: Amizade e Solidariedade (Armando Oliveira e Ricardo Abreu) (2): As hortas do Ricardo Abreu (Aníbal Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Guiné 61/74 - P27292: Viagens à Guiné-Bissau: Amizade e Solidariedade (Armando Oliveira e Ricardo Abreu) (2): As hortas do Ricardo Abreu (Aníbal Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)

1. Em mensagem de 30 de Setembro de 2025, o nosso camarada Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), enviou-nos mais um trabalho referente às viagens de amizade e solidariedade à Guiné-Bissau.


VIAGENS À GUINÉ BISSAU: AMIZADE E SOLIDARIEADE

II - AS HORTAS DO RICARDO ABREU

O Ricardo Abreu, ex-militar, sapador de minas e armadilhas da CCS do BART 6520/72, tem um orgulho enorme nos produtos da terra, que cultiva na sua horta e quintal, situada na freguesia de Canidelo-Gaia.

Nas seis viagens que já fez à Guiné (1999 a 2024), como não podia tratar do seu quintal e para não perder o hábito, abriu uma sucursal na Guiné e criou duas hortas. Uma em Tite, junto à estrada que vai para Bissássema, onde ensina os jovens da escola da Missão Católica a fazer sementeiras e a cultivar hortaliças, que depois são consumidas na cozinha da Missão. A outra localiza-se em Bissau nas imediações do Restaurante Machado, propriedade da D. Teresa (foto 4), a quem presta o mesmo voluntariado que em Tite. Em cada viagem que faz à Guiné, o Ricardo leva novas sementes para renovar o stock.

Comparando as fotografias, as de Bissau tiradas no ano 2010 e as de Tite em 2024, verifica-se que a horta desta última é mais modesta que a da D. Teresa de Bissau.

É pena que o rio Geba não possa contribuir com as algas que o Ricardo costuma utilizar para adubar as suas terras, em Canidelo-Gaia, de modo a aumentar a produção e qualidade dos produtos semeados em Tite.

O Ricardo e as suas algas

HORTA DE BISSAU

HORTA DE TITE
(continua)
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Nota do autor

Último post da série de 30 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27272: Viagens à Guiné-Bissau: Amizade e Solidariedade (Armando Oliveira e Ricardo Abreu) (1): Missão Católica e Hospital de Tite (Aníbal Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27133: Efemérides (465): 21 de Julho, Dia da Arma de Cavalaria, comemorado em 1970, em Nova Sintra, com rabanadas (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre)


1. Em mensagem de 24 de Julho de 2025, o nosso camarada Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), enviou-nos uma efeméride do dia 21 de Julho de 1970, Dia da Arma de Cavalaria, passado em Nova Sintra.


O 21 de JULHO – DIA DA ARMA DE CAVALARIA e as RABANADAS, têm algo em comum?

Aparentemente não, mas será conveniente ler o texto que se segue.

Prestei serviço militar na Guiné de 01 de Março de 1969 a 22 de Dezembro de 1970, integrado numa Companhia de Cavalaria, a 2483, denominada por Cavaleiros de Nova Sintra, que pertencia ao BCAV 2867, sediado em Tite.

O dia 21 de Julho de 1970 foi passado no mato, em Nova Sintra, dia esse que esteve efetivamente ligado às rabanadas. Isto porque no reabastecimento mensal de géneros frescos, os tais que só davam para três dias, sobraram algumas dúzias de ovos, poucas, que não davam sequer para meio ovo por militar numa refeição. Para que os ovos fossem repartidos igualmente por todos (uma companhia tem mais ou menos 160 homens), resolvi mandar fazer rabanadas e desta forma comemorar a data festiva do Dia da Cavalaria, tanto mais que eu fazia nesse dia 24 anos.

O padeiro, o José Manuel Bicho teve um trabalho extra ao fazer o pão, tipo cacete e os homens da cozinha o Gonçalves e o Gonzaga, auxiliados pelos seus ajudantes deram início à “Operação Rabanada”. As fatias de pão estiveram de molho em vinho tinto, como convém e depois for embebidas em ovo batido. Na cozinha ao ar livre, iniciou-se a fritura das ditas.

Deviam ser umas três da tarde e o pessoal juntou-se à volta das fritadeiras e não arredou pé, lambendo os lábios com o cheiro da iguaria.

Mas de repente tudo mudou. Os rapazes do PAIGC vieram participar na festa, dando inicío a uma flagelação ao quartel, a uma hora não muito habitual, porque era no final do dia que costumavam visitar-nos. Ouvidos os primeiros tiros da célebre arma automática, por todos conhecida por “costureirinha”, pois tinha um matraquear parecido com uma máquina de costura, bem como o som caractrístico da saída das granades de morteito e do canhão sem recuo, disparadas longe do arame farpado, os esfomeados bateram em retirada procurando refúgio nos abrigos e nas valas onde, por vezes, resultava equimoses na cabeça e uns arranhões nos braços.

Na ânsia da fuga, o pessoal bateu com as pernas nas compridas pegas das fritadeiras, tombando-as, originando que o petisco caísse no pó do chão de terra da cozinha. Durante a flagelação ouviam-se as granadas das armas pesadas do PAIGC a silvar o céu, cruzando o aquartelamento, indo cair e rebentar com estrondo lá para os lados da bolanha. Contrariamente a outras flagelações desta vez não acertaram no alvo. Foi um susto que durou perto de dez minutos, não tendo havido feridos ou danos materiais.

Passda a tempestade veio a bonança com a malta a regressar ao local do crime (junto das fritadeiras). Só que rabanadas limpas e comestívéis havia poucas, porque a grande maioria ficou polvilhada de pó de terra, parecendo canela e até esmagadas devido à debandada. Mas ainda assim os mais gulosos e corajosos pegaram as rabanadas do chão e com todo o cuidado tiraram a terra envolvente e com meio dúzia de sopradelas, passaram a ter um petisco delicioso, sempre acompanhado por uma ou mais garrafas de cerveja de 0,66.

Terminada a festa foi tempo de tomar banho e aguardar as cinco da tarde para o jantar. Findo este, o pessoal ficou na conversa, próximos dos abrigos, prontos para o que desse e viesse, por vezes sob o magnífico luar africano, contando anedotas e discutindo os jogos de futebol, ou escrevendo à família, aos amigos, à namorada ou madrinha de guerra. Também, por vezes, ansiosos aguardavam o regresso dos camaradas que haviam saído para um patrulhamento.

Como curiosidade refiro que o Dia da Cavalaria, a nível de Batalhão foi celebrado em Jabadá, onde se encontravam os camaradas da CCAV 2484, os Dragões de Jabadá.

Aníbal Silva

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Nota do editor

Último post da série de 4 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27087: Efemérides (464): 4 de agosto de 1969, o "adeus às armas", ou o dia em que o T/T Uíge apitou.... seis vezes, antes de zarpar (Virgílio Teixeia, ex-alf mil, SAM, CCS / BCAQÇ 1933, Nova Lamego e São Domingos, 1967/69)

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27114: Blogpoesia (806): Versejar em Nova Sintra - 3: "Nova Sintra", pelo Cap Fonseca e Silva da CCS/BCAV 2867 (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Alimentação)

Vista aérea de Nova Sintra

1. Em mensagem de 1 de Julho de 2025, o nosso camarada Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), enviou-nos alguns versos alusivos a Nova Sintra.
Publicamos hoje "Nova Sintra", da autoria do (então) Capitão Fonseca e Silva da Companhia de Comando e Serviços do BCAV 2483.



VERSEJAR EM NOVA SINTRA - 3

NOVA SINTRA

Em largo de areia e terra,
No meio de mata cerrada,
Vivem homens em buracos
Na corrida do tempo passado!

Fazendo dum sorriso
Uma boa e larga anedota!
Fazendo duma palavra dada
Conversa para dias e anos!

Em casa de chapa e tronco
Vivem homens de olhos encovados,
Sempre os mesmos, meses e meses,
Na amizade sã dos deserdados.

Olhando outros em local farto
De quartos limpos em parede caiada,
Não olham com inveja ou enfado,
Mantêm a noção de camarada!

Na singeleza destas quadras
Vai o amor de um poeta pelintra
Que sentiu o que outra devia sentir
Em terras de Nova Sintra.

Autor
Capitão Fonseca e Silva


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Breve história sobre a razão de ser destes versos

O Capitão Fonseca e Silva foi o Comandante da CCS do meu Batalhão, o BCAV 2867, que esteve sediado em Tite nos anos 69/70.
Por divergências havidas com o Comandante do Batalhão, Tenente Coronel Trinité Rosa, o Capitão como castigo ou punição foi desterrado durante duas semanas para o quartel de Nova Sintra. Pela leitura das duas últimas quadras conclui-se que os versos lhe são dirigidos.
De referir que o Comandante do Batalhão nunca passou qualquer noite em Nova Sintra, bem como o Capitão de Operações do Batalhão, o médico e até o Padre. O único que lá esteve durante uma semana foi o 2.º Comandante, o Major Martins Ferreira.

Aníbal Silva
Arcozelo/Gaia 01 de Julho de 2025

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Nota do editor

Último post da série de 5 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27093: Blogpoesia (805): Versejar em Nova Sintra - 2: "Despedida de Nova Sintra", por Manuel Gouveia de Oliveira, Soldado Atirador (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Alimentação)

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27093: Blogpoesia (805): Versejar em Nova Sintra - 2: "Despedida de Nova Sintra", por Manuel Gouveia de Oliveira, Soldado Atirador (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Alimentação)


1. Em mensagem de 1 de Julho de 2025, o nosso camarada Aníbal José Soares da Silva, ex-Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483 / BCAV 2867 (Nova Sintra e Tite, 1969/70), enviou-nos alguns versos alusivos a Nova Sintra.
Publicamos hoje a "Despedida de Nova Sintra" da autoria do Soldado Atirador Manuel Gouveia de Oliveira, o "Xabregas".



VERSEJAR EM NOVA SINTRA - 2

Não me recordo de haver muitos militares a fazer versos e a havê-los não os davam a conhecer.
Eventualmente enviavam as suas “obras” à mãe, à esposa, à namorada, ou à madrinha de guerra.

Mas recordo com muita saudade o amigo Xabregas, sempre bem disposto e risonho, soldado atirador de Cavalaria de seu nome completo Manuel Gouveia de Oliveira que, sobre qualquer tema ou pretexto, repentinamente fazias as suas quadras. De várias que ele compôs, partilho com os camaradas do blogue, as duas únicas que tive a oportunidade de guardar.



DESPEDIDA DE NOVA SINTRA

Dezassete chegam bem para quem tem
Esta missão cumprida
Por isso eu digo agora chegou a hora
De merecermos a partida

Vamos todos pra Bissau, que já não é mau
E dormir
descansadinhos
Vamos entregar a farda camufleda
Porque já somos velhinhos

Adeus Nova Sintra, nunca mais quero voltar
Saudade são meus desejos
Mas tu não leves a mal.

Adeus Bissau, também não quero voltar
Quero ir para a mimha terra
Quando a missão terminar.

Marchando na escuridão, em paliçadas
Em qualquer operação
Sempre unidos e velozes as nossas vozes
Nunca disseram que não

Adeus Nova Sintra
Colunas a S. João
Adeus Mata do Jorge
Uanadim e Brandão


Autor
Manuel Gouveia de Oliveira
Soldado Atirador de Cavalaria
CCAV 2483

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Nota do editor

Último post da série de 29 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27068: Blogpoesia (804): Versejar em Nova Sintra - 1: "Marcha de Nova Sintra", por Manuel Gouveia de Oliveira, Soldado Atirador (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Alimentação)