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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27762: Documentos (59): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte II


Guiné > Região de Gabu  > Carta de Madina do Boé (1958) (Escala  1/50 mil)  (Esta carta ainda não  está disponível  "on line" no nosso blogue) > Posição relativa de Madina do Boé, a 12 km da fronteira da Guiné-Conacri, a sul. Era rodeada de pequenas colinas, que iam dos 100 aos 200 metros de altitude. A amarelo, algumas das cotas. Os rios eram sazonais. A região semidesértica, mas impraticável no tempo das chuvas. Sem qualquer povoação, no tempo da guerra. As poucas que haviam desapareceram.  Distâncias: Madina do Boé até à fronteira, a leste (Vendu Leidi) > 60 km; Cheche-Madina: 20 km; Cheche- Béli > 35 km.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026).



Guiné > Zona Leste > Região de Gabu > Setor de Boé > Madina do Boé > 1966 > Vista aérea do aquartelamento. Imagem reproduzida, sem menção da fonte, no Blogue do Fernando Gil > Moçambique para todos

Presume-se que a sua autoria seja de Jorge Monteiro (ex-cap mil,  CCAÇ 1416, Madina do Boé, 1965/67) ou de Manuel Domingues, membro da nossa Tabanca Grande, ex-alf mil da CCS/BCAÇ 1856, Nova Lamego, 1965/66 (autor do livro: "Uma campanha na Guiné, 1965/67").

Arquivo do  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2006).


Guiné >  Zona Leste > Região de Gabu > Canjadude > 1973 > Restos de uma autometralhadora Daimler no itinerário entre Canjadude e Cheche.



Guiné > Região de Gabu > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, "Os Tufas" (Bissau, Fá Mandinga, Nova Lamego, Beli e Madina do Boé, 1966-68) > 1967 > A "Fonte da Colina de Madina", construída em 1945, ao tempo do governador Sarmento Rodrigues. Foto do álbum do Manuel Coelho, o grande fotógrafo de Madina do Boé; aliás, um dos bravos de Madina do Boé, ex-fur mil trms, da CCAÇ 1580 (1966/68); natural de Reguengos de Monsaraz, vive em Paço d'Arcos, Oeiras; tem c. 50  referências no nosso blogue, ingressou na Tabanca Grande em 12 de julho de 2011).

Foto (e legenda): © Manuel Caldeira Coelho (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



José Martins (ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) | Sócio da Liga dos Combatentes nº 80.393 | Colaborador permanente da Tabanca Grande | Histórico do nosso blogue | Vai a caminho das 500 referências | VIve em Odivelas.


Madina do Boé: contributo para sua história

por José Martins

OS HOMENS

Falar de Madina do Boé é falar dos homens que ao longo do tempo, e muito concretamente entre maio de 1965 e 6 fevereiro de 1969, estiveram em quadrícula naquela parcela do território português, hoje independente, e sobre o qual flutuou a Bandeira de Portugal.


Consultando o terceiro volume da Resenha Histórica-Militar das Campanhas de África (1961-1974) (Dispositivo das Nossas Forças - Guiné), encontrei os seguintes elementos sobre as companhias que passaram/estiveram/permanecem para sempre, nos factos que constituem a história desta zona da atual Guiné-Bissau.

A primeira unidade a instalar-se em Madina do Boé, foi a Companhia de Cavalaria nº 702 – Batalhão de Cavalaria nº 705 - formada no Regimento de Cavalaria 7 em Lisboa (já extinto) que chegou à Guiné em julho de 1964 e ficou instalada em Bissau. 

Posteriormente foi transferida para Bula (Janeiro de 1965) e Contuboel (Março de 1965). Foi colocada em Madina do Boé em maio de 1965 onde permaneceu até abril de 1966, quando terminou a sua comissão de serviço.



A CCAV 702 foi substituída pela Companhia de Caçadores nº 1416 – Batalhão de Caçadores nº 1856 - formada no Regimento de Infantaria 1 e ainda instalado na Serra da Carregueira na região de Lisboa e onde, atualmente, se encontra o Regimento de Comandos, foi colocada em Nova Lamego em agosto de 1965. 

Posteriormente, em maio de 1966 foi substituir a CCAV 702 em Madina do Boé, onde permaneceu até abril de 1967, quando terminou a sua comissão de serviço.




A Companhia de Caçadores nº 1589 – Batalhão de Caçadores nº 1894, formada no Regimento de Infantaria 15, em Tomar (uma das unidades que mobilizou militares para a I Grande Guerra), chegou à Guiné em agosto de 1966, ficando instalada em Bissau. 

Daqui foi enviada para Fá Mandinga em dezembro de 1966 e para Madina do Boé, para substituir a CCaç 1416, em abril de 1967, onde permaneceu até janeiro de 1968, altura em que foi transferida para Nova Lamego, e, em março de 1968 foi enviada para Bissau onde permaneceu até maio de 1968, altura em que terminou a sua comissão de serviço.


CMIL 15

Em Pirada, em março de 1965, foi criada a Companhia de Milícias nº 15 que foi enviada em junho de 1967 para Madina do Boé para reforço das forças ali estacionadas. 

Não existe registo para onde foi transferida depois de retirada de Madina. Foi desactivada em dezembro de 1971.


A última unidade a permanecer naquela zona foi a Companhia de Caçadores nº 1790 – Batalhão de Caçadores nº 1933, formada no Regimento de Infantaria 15 em Tomar. 

Quando chegou à Guiné em outubro de 1967 ficou estacionada em Fá Mandinga. Daqui foi transferida para Madina do Boé em janeiro de 1968 onde permaneceu até 6 de fevereiro de 1969, seguindo nesta data para Nova Lamego e em abril de 1969 foi transferida para S. Domingos, onde se manteve até ao final da sua comissão de serviço em julho de 1969. 

Esta unidade tinha um destacamento em Beli, que foi mandado regressar e juntar-se à companhia em junho de 1968.


O LOCAL

Conheci Madina do Boé numa altura em que regressava ao aquartelamento do minha unidade, a Companhia de Caçadores nº 5 estacionada em Canjadude, indo de Nova Lamego onde tinha estado, já não me recordo, se em serviço ou no regresso de férias. Viajava numa Dornier e conheci o aquartelamento do ar. 

Sei que só aterrámos depois de dois bombardeiros T 6, que nos escoltaram a partir da altura do Rio Corubal, terem feito uma observação dos locais onde era normal estarem e/ou atacarem o aquartelamento os elementos do PAIGC. Íamos buscar o Padre Libório, alferes graduado capelão do Batalhão de Caçadores nº 2835, que tinha estado junto daquela unidade durante alguns dias.

As instruções do furriel que pilotava a aeronave foram precisas: "assim que o aparelho parar,  saltas e corres para junto dos abrigos".

Assim fizemos e, ao chegar junto dos militares que não tinham saído de junto dos abrigos, fomos recebidos com algumas dezenas de abraços e palmadas nas costas daqueles homens que, só muito raramente, viam alguém que não fossem os seus camaradas habituais. Das manifestações havidas, já não sei se foram de boas vindas ou de despedida, pois o tempo de permanência da DO em terra teria que ser mínimo.

Do local ficou-me a sensação de que era uma terra inóspita, sem população civil, e, portanto, apenas a teimosia de alguém que não sabe o que é “estar no terreno de operações” fazia permanecer tropas naquele local.

A guerra que travávamos tinha como primeiro objectivo captar a simpatia e apoio das populações, transmitir-lhe alguns ensinamentos, e, sobretudo, prepará-los para “Um Futuro numa Guiné melhor”. Neste cenário não havia razão para sacrificar aqueles homens ao isolamento e ao sofrimento da incerteza da sorte das armas.


A RETIRADA

A saída da zona do Boé começou em junho de 1968, com o desmantelamento do destacamento de Beli, guarnecido por uma força destacada de Madina de Boé (CCAÇ 1790). 

Participei nessa operação, como pira já que ainda não tinha um mês de Guiné, para visitar os destacamentos de Canjadude e Cheche, locais que se encontravam guarnecidos por forças da CCAÇ 5, unidade em que fora colocado como Sargento de Transmissões.

A minha missão terminava no Cheche. Aí ficaria a aguardar o regresso da coluna que, depois de proceder ao desmantelamento de Beli e deslocar a guarnição para Madina do Boé, voltaria, pelo mesmo e único caminho, a Nova Lamego.

Presenciei o nervosismo, e porque não dizer o medo, do pessoal que ia em primeiro lugar, na jangada, ocupar posições na outra margem, para montar a segurança para a passagem do restante da coluna.

Só os meios aéreos poderiam antecipar dados que permitissem cambar o rio com relativa segurança.

Já não assisti ao regresso da coluna nem aos trabalhos da passagem para a margem norte do Corubal, pois a primeira crise de paludismo originou novo baptismo: a evacuação aérea para Nova Lamego. Dias mais tarde assisti ao regresso da coluna e, naturalmente, à descompressão das tropas utilizadas nessa operação.

Toda esta manobra obedecia a uma directiva, a nº 1/68, do Comandante Chefe recentemente empossado, o então brigadeiro António de Spínola, que previa o estabelecimento de uma grande base operacional na região do Cheche. 

Nessa região ficariam instaladas forças de intervenção, seria construída uma pista para aviões do tipo Dakota, além de uma jangada para a travessia do rio. As canoas, que seriam a estrutura base dessa jangada, passariam mais tarde por Canjadude, em mais uma das muitas colunas que por lá passaram, tendo como destino o Cheche.

Assim, mesmo sem que a base tivesse sido instalada, a guarnição de Madina do Boé seria retirada desse destacamento, numa operação montada e que seria realizada no início de fevereiro de 1969. 

A coluna constituída por cinquenta e seis viaturas foi escoltada, entre outras forças, por elementos da Companhia de Caçadores nº 2405 – Batalhão de Caçadores nº 2852,  forrmado no Regimento de Infantaria nº 2.

DESASTRE DO CHECHE

Constou, na altura, que tinha havido uma alteração na "ordem de operações". Previa-se que, aquando da travessia do Corubal, as últimas unidades a atravessar o rio seriam as de armas pesadas, ao contrário do que se verificou, que foram tropas de infantaria.

Imagino que, ao verem na outra margem do rio Corubal e para a qual se deslocavam, uma série de morteiros e canhões-sem-recuo prontos a responder a qualquer ataque, os militares tivessem descomprimido um pouco, podendo eventualmente ter tentado encher os cantis com água do rio, cuja falta se fazia sentir naquela altura do ano, desconhecendo que um Unimog, guarnecido por uma secção que eu próprio comandava, se encontrava muito próximo para reabastecer quem necessitasse, uma vez que a companhia retirada e as que haviam procedido à sua escolta, não entrariam no perímetro militar de Canjadude, não só por questões logísticas mas também operacionais.

A determinada altura, conforme se refere num filme realizado por José Manuel Saraiva, de 1995, e editado em cassete vídeo pelo Diário de Notícias, um som abafado, muito semelhante "à saída de uma morteirada ", teria gerado agitação entre os elementos que eram transportados na jangada, e eram bastantes. 

Da agitação resultou o desequilíbrio da jangada e a queda nas águas de uma parte substancial dos homens que estavam a ser transportados na mesma. O receio era de que tivessem sido seguidos à distância por forças IN e que as mesmas estivessem a preparar um ataque à jangada, que se deslocava lentamente.

A grande preocupação foi a ajuda aos que tinham caído à água, pois que transportavam consigo todo o equipamento normal numa missão de patrulhamento que, além da arma, do cantil e do bornal, munições de reserva não só para as armas ligeiras, mas também para as bazucas e para os morteiros.

Não foi só o equipamento individual que foi o responsável pelo afogamento de tantos homens. Os habitantes daquele rio também tiveram uma intervenção pouco amigável. Diz quem também esteve no centro daquele acontecimento, que as águas tomaram um tom avermelhado.

Naquela tarde de 6 de fevereiro de 1969, o Corubal roubou a todos e a cada um de nós, quarenta e sete amigos e camaradas dos quais, poucos, viriam a ser encontrados e sepultados nas margens do Rio Corubal.

OS HERÓIS/MÁRTIRES

É com emoção que, quando falo ou escrevo sobre este tema, me perfilo em continência, os meus lábios murmuram uma breve oração, e me curvo perante a memória daqueles que não voltaram e cujo espírito permanece sobre as águas do Rio Corubal (18 da CCAÇ 2405,  28 da CCAÇ 1790 e 1 civil guineense) (realce a amarelo, a companhia que retirou de Madina do Boé, a CCAÇ 1790; e a CCAÇ 2405, a azul marinho, uma das companhias que fez a escolta da coluna):


Furriéis Milicianos (n=2)

  • Carlos Augusto da Rocha, natural de Angústias – Horta – Açores – CCAÇ 1790
  • Gregório dos Santos Corvelo Rebelo, natural de Terra Chã – Angra do Heroísmo – Açores – CCAÇ 2405


Primeiros-cabos (n=7)
  • Alfredo António Rocha Guedes, natural de Vila Jusa – Mesão Frio – CCAÇ 2405
  • Augusto Maria Gamito, natural de S. Francisco da Serra – Santiago do Cacém – CCAÇ 1790
  • Francisco de Jesus Gonçalves Ferreira, natural de Tortosendo - Covilhã – CCAÇ 1790
  • Joaquim Rita Coutinho, natural de Samora Correia - Benavente – CCAÇ 1790
  • José Antunes Claudino, natural de Alcanhões - Santarém – CCAÇ 2405
  • José Simões Correia de Araújo, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
  • Luís Francisco da Conceição Jóia, natural de Alvor - Portimão – CCAÇ 1790

Soldados (n=37) 
  • Abdul Embaló, natural de São José, Bissorã - CCAÇ 1790
  • Alberto da Silva Mendes, natural de Sande - Guimarães – CCAÇ 2405
  • Alfa Jau, natural da Guiné - CCAÇ 1790
  • Américo Alberto Dias Saraiva, natural de S. Sebastião da Pedreira - Lisboa – CCAÇ 1790
  • Aníbal Jorge da Costa, natural de Rossas – Vieira do Minho – CCAÇ 1790
  • António Domingos Nascimento, natural de Santa Maria - Trancoso – CCAÇ 2405
  • António dos Santos Lobo, natural de Favaios do Douro - Alijó – CCAÇ 1790
  • António dos Santos Marques, natural de Lorvão - Penacova – CCAÇ 2405
  • António Jesus da Silva, natural de Arazedo – Montemor-o-velho – CCAÇ 2405
  • António Marques Faria, natural de Telhado – Vila Nova de Famalicão – CCAÇ 1790
  • António Martins de Oliveira, natural de Rio Tinto - Gondomar – CCaç 1790
  • Augusto Caril Correia, natural de Santa Cruz - Coimbra – CCAÇ 1790
  • Avelino Madail de Almeida, natural de Glória - Aveiro – CCAÇ 1790
  • Celestino Gonçalves Sousa, natural de Poiares – Ponte de Lima – CCAÇ 1790
  • David Pacheco de Sousa, natural de Lustosa - Lousada – CCAÇ 1790
  • Francisco da Cruz, natural de Lebução - Valpaços – CCAÇ 2405
  • Indique Imbuque, natural de Farol, Bissorã  – CCAÇ 2405
  • Joaquim Nunes Alcobia, natural de Igreja Nova – Ferreira do Zêzere – CCAÇ 1790
  • Joel Santos Silva, natural de Guisande – Vila da Feira – CCAÇ 1790
  • José da Silva Coelho, natural de Recarei - Paredes – CCAÇ 1790
  • José da Silva Góis, natural de Meãs do Campo – Montemor-o-novo – CCAÇ 2405
  • José da Silva Marques, natural de Marmeleira - Mortágua – CCAÇ 2405
  • José de Almeida Mateus, natural de Santa Comba Dão – CCAÇ 1790
  • José Fernando Alves Gomes, natural de Carvalhosa – Paços de Ferreira – CCAÇ 1790
  • José Ferreira Martins, natural de Pousada de Saramagos – V. N. Famalicão – CCAÇ 1790
  • José Loureiro, natural de S. João de Fontoura Resende – CCAÇ 2405
  • José Maria Leal de Barros, natural de Vilela - Paredes – CCAÇ 1790
  • José Pereira Simão, natural de Salzedas - Tarouca – CCAÇ 2405
  • Laurentino Anjos Pessoa, natural de Sonim - Valpaços – CCAÇ 2405
  • Manuel António Cunha Fernandes, natural de Arão – Valença do Minho – CCAÇ 1790
  • Manuel Conceição Silva Ferreira, natural de Pombalinho - Santarém – CCAÇ 2405
  • Manuel da Silva Pereira, natural de Penude - Lamego – CCAÇ 1790
  • Octávio Augusto Barreira, natural de Suçães - Mirandela – CCAÇ 2405
  • Ricardo Pereira da Silva, natural de Serzedo ou selzedelo – Vila Nova de Gaia – CCAÇ 1790
  • Tijane Jaló, natural de Piche – Gabu – CCAÇ 1790
  • Valentim Pinto Faria, natural de Valdigem - Lamego – CCAÇ 2405
  • Victor Manuel Oliveira Neto, natural de Buarcos – Figueira da Foz – CCAÇ 2405

Civis (n=1)
  • Um caçador nativo não identificado

José Martins 
Janeiro de 2006

(Revisão / fixação de texto, negritos, realces, links, título: LG)
_________

Nota do editor L.G.

(1) Útimo poste da série > 22 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27760: Documentos (58): A retirada de Madina do Boé (José Martins, ex-fur mil trms, CCAÇ 5, "Gatos Pretos", Canjadude, 1968/70) - Parte I

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27741: Documentos (56): A retirada de Madina do Boé (José Jerónimo, ex-cap mil, cmdt, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Galomaro e Dulombi, 1968/70)



Guiné > Zona leste > Região de Gabu >  Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). > A travessia, em jangada, do Cheche (que ficava do outro lado, na margem direita).


Guiné > Zona leste > Região de Gabu  >Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). > Uma coluna logística: Madina do Boé-Cheche-Canjadude-Nova Lamego 


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). > Uma coluna logística: Madina do Boé-Cheche-Canjadude-Nova Lamego


Guiné > Zona leste > Região de Gabu >  Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). > Finalmente a rendição !


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  O interior do aquartelamento e da tabanca


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  Estreada Cheche- Madina do Boé > Um cemitério de viaturas


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  Discreta mas orgulhosa, a bandeira nacional.


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Boé > Madina do Boé > CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). >  A mascote da companhia.


Seleção de algumas das melhores fotos do álbum do Manuel Caldeira Coelho (ex-fur mil trms,  CCAÇ 1589 / BCAÇ 1894, Nova Lamego e Madina do Boé, 1966/68). 

A CCAÇ 1589 foi rendida em Madina do Boé, em 20Jan68 pela CCaç 1790 e em 12Fev68
no destacamento de Béli, tendo ambos os aquartelamentos sofrido fortes flagelações no periodo de Jun a Dez67.

Fotos (e legendas): © Manuel Caldeira Coelho (2011). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. A Op Mabecos Bravios, destinada a cobrir a retirada das forças estacionadas em Madina do Boé, que teve  um desfecho trágico para 46 camaradas nossos, da CCAÇ 2405 (Galomaro) e da CCAÇ 1790 (Madina do Boé), mais um civil guineense.

 Na história da unidade do BCAÇ 2852 (Bambadinca,1968/70) há uma versão do relatório dessa  operação de triste memória, relativa â participação da CCAÇ 2405 (Galomaro e Dulombi, 1968/70) que formava o Destacamento F (Cap II, pp. 36-38).

Vale a pena voltar a divulgar  esse texto, e integrá-lo agora na série "Documentos" (*)

Em fevereiro de 1969, a CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 estava sediada em Galomaro, com um pelotão em Samba Juli, outro em Dulombi e um terceiro em Samba Cumbera.  Na Op Mabecos Bravios foi comandada pelo cap mil inf Novais Jerónimo, tendo como oficiais subalternos os nossos camaradas Jorge Rijo,  Rui Felício e Paulo Raposo.  Julgamos que a autoria do relatório seja do cap mil José Jerónimo


A bordo do T/T Uíge > Final de julho de 1968 > CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (1968/70) > A caminho de Bissau > O grupo dos futuros "baixinhos de Dulombi...  Da esquerda para a direita, Victor David (1944-2024), Paulo Raposo, oficial da marinha mercante, Jorge Rijo e Rui Felício.  Não temos nenhuma foto do ex-cap mil inf José Jerónimo.

 Foto (e legenda): © Paulo Raposo (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


A retirada de Madina do Boé

por José Jerónimo, ex-cap mil, cmdt, 
CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852
 (Galomaro e Dulombi, 1968/70)


Iniciada a Op Mabecos Bravios, em 1 [de Fevereiro de 1969], com a duração de 8 dias, para retirar as nossas tropas de Madina do Boé. 

Entre vários destacamentos, tomou parte no Destacamento F a CCAÇ 2405 [ Comandante: cap mil José Miguel Novais Jerónimo; 1º Gr Comb – Alf mil at inf Jorge Lopes Maia Rijo; 3º Gr Comb  – Alf mil at inf Rui Manuel da Silva Felício; 4º Gr Comb – Alf mil at inf MA Paulo Enes Lage Raposo].

Desenrolar da acção:

Dia D [segunda feira, 2/2/1969].

O Dest F com o efectivo de 112 homens (4 oficiais, 10 sargentos e 98 praças - estão incluídos 1 secção de sapadores e 8 condutores auto), saiu de Galomaro em 1 de fevereiro de 1969, pelas 9.30h, e chegou a Nova Lamego por volta das 13.00h do mesmo dia, sem qualquer novidade.

Aqui fizeram-se os preparativos finais da organização da coluna que partiu às 5.30h do dia 2 [D]. 

Abro [o autor do relatório] um parêntesis para discordar do pormenor da organização da coluna:

Os meus condutores e mecânicos tiveram que conduzir e dar assistência técnica a viaturas que não lhe pertenciam e das quais desconheciam as mazelas. Daqui resultaram perdas de tempo inúteis e uma tremenda confusão resultante do facto de os atiradores terem guardado parte dos seus haveres e utensílios militares em viaturas que supunham pertencer às unidades e que, sem que se saiba porquê, foram trabalhar para unidades diferentes.

A coluna saiu de Nova Lamego para Canjadude com o pessoal totalmente embarcado e atingiu-se esta povoação por volta das 9.00h sem qualquer problema. 

A partir de Canjadude a coluna progrediu com guardas de flancos tendo o Dest F colaborado na guarda da retaguarda da coluna,  fazendo uma progressão apeada que não estava prevista.

Atingiu-se o Cheche [no rio Corubal, entre Canjadude e Madina do Boé] por volta das 17.00h (sempre com uma cobertura aérea excelente).

 Imediatamente os Dest D [CCAÇ 2403, cmdt, cap inf Hilário Peixeiro] e F fizeram a transposição do [Rio] Corubal e foram ocupar as posições estratégicas previstas.

 Já escurecia e o Dest D levava 1 minuto de avanço sobre o Dest F. Subitamente o 1º Pel [otão] revelou achar estranho algo que se passava à nossa direita, parecendo-lhes ter visto elementos estranhos. Por outro lado,  o guia assegurou tratar-se de turras pelo que a Companhia tomou posições de combate, lançando-se ao solo e imobilizando-se. 

Seguiram-se dois disparos rápidos de morteiro (os clarões foram facilmente visíveis quando as granadas saíram à boca da arma). Foram tiros curtos na direcção sudoeste, e os rebentamentos deram-se próximo do local que o Dest F iria ocupar daí a momentos.

O IN não voltou a manifestar-se mas obrigou-nos a uma vigilância nocturna permanente e a uma mudança de posição por volta das 23.00h.  Às 20.00h ouviram-se na direcção oeste dois tiros que me pareceram de arma nossa, fazendo fogo de reconhecimento.

D + 1   [terça feira, 3/2/1969]
 
Pelas 5.30h [do dia 3, D + 1] mandou-se um pelotão a Cheche buscar um pelotão do Dest E que fazia guarda imediata às viaturas e que eu devia levar até Madina.

Pelas 6.30h dirigi-me à zona do Dest E onde se organizou a coluna com o Dest F à frente e uma guarda de flanco avançada e o Dest D atrás igualmente com guarda de flanco. Iniciei o movimento guiado com carta e bússola porque a marcha foi feita a cerca de 200 metros (mínimo) da estrada. O meu objectivo era surpreender o IN pela rectaguarda tanto mais que os aviões me anunciaram haver possibilidade de sermos emboscados.

Cerca [ das 10.00h ] o Dest F sofreu um violento ataque de abelhas e teve que recuar cerca de um quilómetro para se reorganizar de novo. Um soldado, em consequência, ficou imediatamente fora de acção. Foi pedida a respectiva evacuação bem como a de outro soldado que apresentava sintomas de insolação. [ São nove baixas até aqui. ]  

As evacuações fizeram-se para Nova Lamego dos:

  •  1ºs cabos Carlos G. Machado, Agostinho R. Sousa;
  • e dos soldados José A. M. S. Ferreira, Manuel N. Parracho,  Benjamim D. Lopes,  Fernando A. Tavares,  Cândido F. S. Abreu,  António S. Moreira;
  •  e, para Bissau 1º Cabo Adérito S. Loureiro. [Omitem-se os nºos mecanográficos. L.G.]

 O héli desceu mais tarde para reabastecer o pessoal de água.

 Reiniciada a marcha, sofremos segundo ataque de abelhas que inutilizaram mais uma praça para quem teve de ser pedida nova evacuação.  [Dez baixas, até aqui-]

. Entretanto, eram 14.30h, e mais 2 soldados, esgotada a sua provisão de água, apresentavam sintomas de insolação. Foram evacuados conjuntamente com 2 praças do Dest D que apresentavam sintomas semelhantes (vómitos, intensa palidez, olhos dilatados, respiração frenética).  [14 baixas até aqui.]

O Dest D passou para a frente e reiniciou-se a marcha, sempre fora da estrada até à recta que leva a Madina. Nada mais se passou além do sofrimento intenso das tropas por via do calor. O Det D foi reabastecido de água. 

Atingimos Madina  [do Boé] por volta das 19.00h  [do dia 3] desligados do Dest D que prosseguiu a sua marcha quando F teve que parar para reajustar o dispositivo e tratar os mais debilitados (4 praças e 1 furriel).

Houve descanso em Madina e tomou-se uma refeição quente. 

D + 2   [quarta feira, 4/2/1969]

No dia 4 (D + 2) o Dest F dirigiu-se para [ Felo Quemberá,  ilegível] ocupando a posição 3 que se  atingiu sem dificuldade por volta das 11.00h. 

Alternadamente ocupou-se as posições 3 e 4 de acordo com o plano.


D + 3   [ quinta feira, 5/2/1969]

Em D + 3 [5 de fevereiro de 1969] por volta das 7.30h recebemos ordens do PCV [Posto de Comando Volante] para a abandonar a nossa posição e seguir ao encontro da coluna. 

Uma hora depois atingimos o campo de aviação de Madina onde fomos reabastecidos de água e r/c [rações de combate].

Pelas 9.00h a coluna pôs-se em movimento e meia hora depois 4 carros da rectaguarda tiveram um acidente. Não obstante, a coluna prosseguiu e o pessoal do Dest F mais os mecânicos resolveram a dificuldade.

Entretanto, o final da coluna pôs-se em movimento acelerado para apanhar as viaturas da frente e deixaram a guarda da retaguarda isolada no mato, num momento particularmente difícil em que precisávamos evacuar 2 soldados vencidos pelo esgotamento físico e nervoso (2 noites seguidas sem dormir, ataque de abelhas em D +1, intenso calor).

O Comandante da coluna ordenou que se fizesse a evacuação e o reabastecimento de água. Feitos estes, iniciou-se a marcha e a breve trecho tomámos contacto com a coluna e tudo correu normalmente até ao Cheche. A cobertura aérea pareceu-me impecável.

Próximo de Cheche recebi ordens para ocupar a posição que ocupara que tivera em D / D+1 porque o Exmo. Comandante da Operação [, cor inf Hélio Felgas,] entendeu dever poupar alguns quilómetros ao Dest F e D, bastante atingidos pela dureza dos respectivos percursos. 

Essa foi a razão porque não transpus o [Rio] Corubal em D + 3 [ 5 de Fevereiro] só o vindo a fazer em D + 4 [6 de Fevereiro] por volta das 9.00h.

D + 4   [sexta feira, 6/2/1969]

O IN continua sem se manifestar (ou sem se poder manifestar). 

Durante a transposição do Corubal a jangada em que seguiam 4 Gr Comb [da CCAÇ 2405 e da CCAÇ 1790], respectivos comandos e tripulação afundou-se espectacularmente acerca de um terço da largura do rio, provocando o desaparecimento de 17 militares do Dest F e grandes quantidades de material perdido.

 Por voltas das 10.00h de D+ 4 [6 de Fevereiro] saímos de Cheche para Canjadude que atingimos por volta das 16.30h com o pessoal deste Dest embarcado.


D + 5   [sábado, 7/2/1969]

Descansou-se e em D + 5 [7 de fevereiro] às primeiras horas a coluna pôs-se em movimento para Nova Lamego que foi atingida por volta das 11.00h. 

Às 12.00h as tropas ouviram uma mensagem do Exmo. Comandante-Chefe [, brig António Spínola,]  que se deslocou propositadamente para a fazer.

Permaneci em Nova Lamego para organizar a coluna do dia seguinte. 

D + 6  [domingo, 8/2/1969]

Às primeiras horas de D + 6 [8 de Fevereiro] iniciei o movimento para Galomaro onde cheguei cerca das 10.30h.

Fonte: Extratos de: História da Unidade: Guiné 68-70. Bambadinca: Batalhão de Caçadores nº 2852. Documento policopiado. 30 de Abril de 1970. c. 200 pp. Classificação: Reservado. Cap. II. 36-38.

[Revisão / fixação de texto parênteses retos, negritos:  LGl

Nota de LG - Sabemos que,  a 10 de fevereiro de 1969, o 2º cmdt do BCAÇ 2852 (1968/70), o maj inf Manuel Domingues Duarte Bispo, deslocou-se de Bambadinca a Galomaro "onde assistiu a missa celebrada pelo capelão do BCAÇ 2856, por intenção dos desaparecidos na Op Mabecos Bravios"  (História da Unidade, Cap II, p. 46).

O nº (e a identificação) dos mortos (17) da CCAÇ 2405 não constam do relatório da Op Mabecos Bravios que acima se transcreve. 

Falta-nos o(s) relatório(s) de outras forças que participaram, na Op Mabecos Bravios: mas já foram publicados anteriormente outros depoimentos: Hélio Felgas, Paulo Raposo, Rui Felício  bem como do José Aparício (ex-cap inf, cmdt da CCAÇ 1790, que sofreu 29 mortos. 

Na realidade, na época esse tipo de baixas (mortos em acidente por afogamento) eram contabilizados sob a categoria do "desaparecidos".

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27733: Documentos (54): A retirada de Madina do Boé (José Aparício, ex-cap inf, cmdt CCAÇ 1790, Madina do Boé, 1967/68 + CECA, 2014)


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Setor de Boé > Madina do Boé: vista aérea, tirada de DO 27, c. 1967.  As tão faladas colinas do Boé... "O resto era deserto", diz o fotógrafo, Manuel Coelho, um dos bravos de Madina do Boé, ex-fur mil trms, da CCAÇ 1580 (1966/68) (natural de Reguengos de Monsaraz, vive em Paço d'Arcos, Oeiras; tem 47 referências no nosso blogue, ingressou na Tabanca Grande em 12 de julho de 2011).

Foto (e legenda): © Manuel Coelho  (2018). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar:  Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

 
1. Há operações que ficaram na nossa memória, por uma razão ou outra, em geral por más razões... A Op Mabecos Bravios (retirada do aquartelamento de Madina do Boé, sector L3, de 2 a 7 de fevereiro de 1969) é uma daquelas que  marcaram para sempre os combatentes da Guiné, que nela participaram ou que dela tiveram conhecimento, sendo seus contemporâneos. 

Marcou-nos a todos, aos daquele ano de 1969,  pela tragédia que ocorreu no rio Corubal, em Cheche, na derradeira travessia feita pela jangada de serviço. Durante a noite de 5 para 6 e ao longo da madrugada desse dia passaram por ela 55 viaturas, todas carregadas no limite, e algumas  centenas de homens.  À luz de holofotes, em condições precárias de segurança.


Mas faltam aqui ainda outras versões  sobre a retirada de Madinado Boé. Como se sabe, continua ainda haver  controvérsia sobre o  origem, as causas do acidente que provocou 47 vítimas mortais. 

2. Encontrámos esta versão,  que vamos reproduzir a seguir, no livro da CECA (2014), com o valioso testemunho do ex-comandante da infortunada CCAÇ 1790,  o então cap inf José Aparício, hoje cor inf ref, e antigo comandante geral da PSP de Lisboa.

Corrigimos as datas, que não estão corretas. Alterámos o topónimo usada pela CECA (Comissão para Estudo das Campanhas de África), embora na carta de Jábia o topónimo grafado seja Ché Ché. No nosso blogue temos usado a grafia Cheche (que tem mais de 7 dezenas de referências).

Já publicámos o depoimento do comandante da operaqção, o então cor inf Hélio Felgas (1920-2008). Publicámos também nesta série, "Documentos", o testemunho de dois ex-alf mil da CCAÇ 2405, o Paulo Raposo e o Rui Felício, nossos grão-tabanqueiros.

Continuará  a faltar-nos aqui o prometido testemunho do ex-alf mil José Luís Dumas Diniz, da CART 2338, responsável pela segurança da jangada que fazia a travessia do rio Corubal, em Cheche, aquando da retirada de Madina do Boé, e a quem competia cumprir as normas de segurança constantes da Ordem de Operaçáo, redigidas pelo cor inf Hélio Felhas, e superiorimente aprovadas pelo Com-Chefe que, de resto, fez várias visitas de héli, às NT,  ao longo da Op Mabecos Bravios.


Guiné > Região de Gabu > Carta de Jábia (1961) > Escala 1/50 mil > Posição relativa de Ché Ché (grafado também como Cheche), na margem esquerda do Rio Corubal. Pela carta, o rio aqui teria 150 metros de largura.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)






Guiné-Bissau > Região do Boé > Rio Corubal > 30 de junho de 2018 > Rampa de acesso, na margem direita... Lavadeiras e canoas no rio, Veja-se a cor da água, esverdeada, na época das chuvas. Em 6/2/1969, o destacamento de Cheche ficava do outro lado, na margem sul (ou esquerda). E não havia rampa nenhuma... Segundo a análise técnica destas fotos, com a ajuda de uma ferramenta de IA (ChatGPT), teríamos as seguintes medidas deste troço do rio, em 30/6/2018:

Largura: ~150 metros | Profundidade no centro do canal: ~5 metros | Profundidade junto às margens: 0,5–2 metros

Foto (e legenda): © Patrício Ribeiro (2018) Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


 A retirada de Madina do Boé

José Aparício (cap inf, cmdt, CCAÇ 1790, 
Madina do Boé, 1967/69) +  CECA, 2014)


Op Mabecos Bravios (de 2 a 7 de fevereiro de 1969)

Forças envolvidas:

Estas forças, com APAR [apoio aéreo], efectuaram uma escolta no itinerário Nova Lamego - Canjadude - Cheche - Madina do Boé ,  e regresso a Nova Lamego, pertencente à Zona Leste, Sector L3 [BCAÇ 2835].

Foi accionada mina A/C no cruzamento de Beli, sem consequências; e foram detectadas e destruídas 2 minas A/C entre Cheche e Canjadude. 

Durante a operação, Madina foi flagelada 4 vezes sem consequências.

No regresso, na travessia do rio Corubal, um acidente com a jangada que transportava forças de segurança da retaguarda, provocou a morte de 47 militares das NT (2 sargentos, 43 praças e 2 milicias).


Acidente no rio Corubal em 6 [e não 8] de Fevereiro de 1969 - Dados fornecidos pelo tenente-coronel José Ponces de Carvalho Aparício, à época Cmdt da CCaç 1790,  aquartelada em Madina do Boé.

" Na Guiné-Bissau nos anos 60 a travessia do Rio Corubal para a região do Boé era feita, como hoje, junto à povoação do Cheche  onde durante a guerra se encontrava ali em permanência uma força militar de um pelotão de infantaria, reforçado com uma secção de morteiros de 81 mm.

Esta travessia era então obrigatória para a rendição das forças militares portugueses estacionadas em Madina do Boé e Beli, e ainda para o reabastecimento daquelas forças que na época das chuvas (cerca de 6 meses) ficavam completamente isoladas.

Por isso, durante a época seca realizavam-se normalmente 2 colunas por mês, cada uma escoltada por uma companhia reforçada com um pelotão de autometralhadoras "Fox" ou "Daimler" e com protecção aérea permanente.

Cada coluna era constituída por um elevado número de viaturas, cerca de 20 a 30, carregadas com munições e reabastecimentos.

A travessia do rio Corubal era então feita por uma jangada constituída por uma plataforma sobre 2 canoas; um longo cabo ligando 2 pontos fixos instalados em cada margem corria numa roldana instalada na plataforma; a impulsão necessária para mover a jangada era dada pela força braçal dos militares puxando manualmente o cabo. Como segurança do movimento, uma embarcação "Sintex",  com motor fora de bordo, acompanhava lateralmente cada movimento de vaivém, pronta para qualquer emergência.


Em fevereiro de 1969 após a decisão do Comando-Chefe da Guiné de abandonar todo o Boé [Directivas n° 1/68 de 1 jun, 20/68 de 25 jul e 59/68 de 26 dez do Cmdt-Chefe] - sendo que  Beli já tinha sido abandonado meses antes retirando para Madina do Boé todas as forças ali estacionadas - foi desencadeada a Op Mabecos Bravios sob o comando do agrupamento nº 2957 [cmdt: cor inf Hélio Felgas]. 

Uma enorme coluna com cerca de 50 viaturas pesadas escoltadas por 2 Companhias de Caçadores 
 [,CCAÇ 2403 e CCAÇ 2405]  , e dois pelotões de autometralhadoras  [Pel Rec Daimler 1258, reduzido], e com apoio aéreo permanente, chegou a Madina do Boé na tarde de 07 de fevereiro de 1969 [lapso do autor, deve ser 4 e não 7] [, perfazendo cerc de 40 km].

Por decisão do comandante da operação, o número de dias previsto para a sua realização foi reduzido de vários dias, para libertar os meios aéreos empenhados.

Em vez da corda inicial, o movimento da embarcação era garantido pelo "Sintex" com motor fora de bordo amarrado à jangada, do lado de jusante do rio, e operado por um sargento de Marinha requisitado para o efeito. A velha jangada esteve sempre acostada na margem direita.

Nas travessias do rio durante a noite, com as viaturas foram também indo passando secções dos militares empenhados. 

No início da manhã de 6 [e não na tarde de 9]  de Fevereiro de 1969, na última e fatídica viagem, embarcaram a parte que restava dos militares das CCaç 2405 e da CCaç 1790, cerca de 80 a 90 militares  [na realidade, eram 4 Gr Comb, dois de cada subunidade, no máximo 120 homens].

A meio do rio, uma aceleração brusca do motor do "Sintex" fez erguer a frente de bombordo da jangada; tendo sido dada logo ordem para reduzir a velocidade, a jangada fez o movimento pendular inverso, desta vez mergulhando ligeiramente no rio a frente de estibordo, as canoas ficaram cheias de água mas o tabuleiro ficou flutuando, com os militares a bordo com água pelos tornozelos.

Chegados à margem direita, ao proceder-se à contagem constatou-se a falta de 47 militares das duas Companhias.

O Comandante da Operação 
 [cor inf Hélio Felgas] não permitiu que as duas Companhias [CCAÇ 1790 e CCAÇ 2405] permanecessem no Cheche para tentarem recuperar o maior número de corpos possíveis, seguindo por isso logo para Nova Lamego.

O acidente em causa deu origem de imediato a um Auto de Corpo de Delito, e a longas e complexas averiguações, incluindo todos os aspectos da operação, que em 1970 terminaram em julgamento em Lisboa no 3.° Tribunal Militar Territorial.

O julgamento durou várias sessões e que terminou com a absolvição do único réu, o alferes miliciano,  comandante do Destacamento estacionado no Cheche [pertencente à CART 2338, Fá Mandinga, Nova Lamego, Canjadude, Buruntuma, Pirada, 1968/69,  o José Luís Dumas Diniz] ".
__________

Fonte: Excertos de: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da Actividade Operacional: Tomo II - Guiné -  Livro I  (1.ª edição, Lisboa, Estado Maior do Exército, 2014),
pp. 353-355. 
 
(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos, itálicos,  título: LG)


2. Não havia nenhum major  (*) no Cmd Agrupamento nº 2957, a quem coube o planeamento e execução da Op Mabecos Bravios.  O Cmd Agr 2957 era uma estrutura leve, com no, topo, um coronel (Hélio Felgas) e um CEM (Chefe de Estado Maior), que na época devia ser o ten cor cav Manuel Xavier Ferreira Coelho

Ficha de unidade:

Comando de Agrupamento n.º 2957
Identificação Cmd Agr 2957
Unidade Mob: RAL I - Lisboa
Cmdt: Cor Inf Hélio Augusto Esteves Felgas | Cor Art José João Neves Cardoso
CEM: TCor Cav Emanuel Xavier Ferreira Coelho | TCor Inf Artur Luís Félix Teixeira da Silva
Divisa: -
Partida: Embarque em 09Nov68; desembarque em 15Nov68 | Regresso: Embarque em 19A9070

Síntese da Actividade Operacional

Em 18Nov68, rendendo o CmdAgr 1980,assumiu a responsabilidade da zona
Leste, com sede em Bafatá, e abrangendo os sectores de Bambadinca, Bafatá e
Nova Lamego e depois os novos sectores, então criados, com a consequente
reformulação dos respectivos limites, em Piche, em 24Nov68 e em Galomaro,
em 07Nov69. 

De 11Mar69 a 11Out69 e de 26Jul69 a 06Nov69, foram ainda constituídos,
transitoriamente, na zona Leste, o COP 5 e COP 7, respectivamente e
criado, em 26Jun70, o COT1.

Desenvolveu a sua actividade de comando e coordenação dos respectivos
batalhões e das forças atribuídas de reforço, planeando, impulsionando e controlando a respectiva actuação que foi, essencialmente, de patrulhamento, reconhecimento e de contacto com as populações e de acções sobre grupos inimigos infiltrados, com destaque para as operações "Lança Afiada", "Baioneta Dourada" e "Nada Consta", entre outras. 

Em 02/07Fev69, planeou e executou a operação"Mabecos Bravios", respeitante à evacuação dos aquartelamentos de Madina do Boé, Béli e Ché-Ché.

Em 01Ag070, já na fase de sobreposição com o Cmd Agr2970, passou a integrar
o CAOP Leste, então organizado por despacho ministerial de 20Jun70, pelo
que foi extinto e o seu pessoal recolheu a Bissau, a fim de aguardar o embarque de
regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa nº  121 - 2ª Div/4ª Sec., do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pág. 35.
______________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 13 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27730: Documentos (53): A retirada de Madina do Boé (Rui Felício, ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70) 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27726: Documentos (52): A retirada de Madina do Boé (Paulo Raposo, ex-alf mil, MA, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852, Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70)


Guiné > Zona Leste > Região do Boé > Cheche > 6 de Fevereiro de 1969 > A jangada, de reserva, com sobreviventes da tragédia de Cheche, no Rio Corubal, na retirada de Madina do Boé.

Foto (e legenda): © Paulo Raposo (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Paulo Raposo. Op Lança Afiada (Sector L1,
Bambadinca, 8-19 de março de 1969)


1. O Paulo Raposo (Paulo Enes Lage Raposo, de seu nome completo, hoje empresário hoteleiro, Hotel da Ameira, Montemor-o-Novo, onde realizámos o I Encontro Nacional da Tabanca Grande, em 20o6) tem cerca de 7 dezenas de referências no nosso blogue. Vive em Évora, segundo a sua página do Facebook.

Ingressou na Tabanca Grande, juntamente com o Rui Felício, em 12/2/2006.

Foi alf mil at inf, MA, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Mansoa, Galomaro e Dulombi, 1968/70), comandandio o 4º Gr Comb. 

Em março de 2006, ofereceu-nos uma cópia de uma brochura, manuscrita,  com o seu testetemunho  como  antigo combatente na Guiné (Parte I)  e a sua visão, mais propriamente política e geoestrátégica, da "guerra de África" (Parte II).

 O documento, policopiado, de 65 páginas, foi elaborado em 1977,  com o processo de descolonização ainda fresco fresco, na memória dos portugueses. Da primeira parte, publicámos 18 postes.

O seu relato da retirada de Madina do Boé e do desastre  de Cheche merece ser aqui destacado, na série "Documentos", em texto com revisão e fixação nossos. 

É nossa intenção reunir na série "Documentos" textos já publicados no nosso blogue, mas que estão dispersos em várias séries... E eventualmente outros, a publicar, da autoria de camaradas nossos que viveram, no terreno, esta tragédia. Começámos com o depoimento do comandante da Op Mabecos Bravios, o então cor inf Hélio Felgas (1920 - 2008).


A retirada de Madina do Boé

por Paulo Raposo


Paulo Raposo
Madina do Boé ficava junto à fronteira da Guiné-Conacri.  A companhia que lá estava [CCAÇ 1790] era flagelada quase todos os dias. Como estavam distantes, a sua capacidade ofensiva tinha sido praticamente anulada pelo IN.

O Comando-Chefe resolveu retirar aquela guarnição. Para a retirada, foi montada uma operação de grande envergadura [Op Mabecos Bravios]

Mais uma vez a nossa companhia [CCAÇ 2405]
foi chamada para tomar parte nessa operação, comandada superiormente pelo então cor inf Hélio Felgas [Comandante do Comando de Agrupamento 2957, de Bafatá]. (**)

Todas as companhias que tomavam parte nesta operação reuniram-se no quartel de Nova Lamego [a meio caminho, entre Bafatá e a fronteira leste, com a Guiné-Conacri]. Lá chegámos todos por fim [em 1 de fevereiro de 1969, domingo], jantámos uma ração de combate e dormimos sabe Deus como. 

Como a operação tinha 10 dias de duração, quando passámos por Bafatá a caminho de Nova Lamego, deitei no correio uma aerograma para os meus pais, para não ficarem preocupados com a ausência de notícias durante aquele período. O aerograma era muito singelo e a minha mãe desconfiou de algo.

Desde que eu embarcara, os meus pais escreviam-me todos os dias, além de outros amigos. Era coisa que melhor nos sabia, receber notícias de casa, quando estávamos a sofrer toda aquela adversidade.

No dia seguinte formou-se a grande coluna e largámos para Madina do Boé. [O cap Hilário Peixeiro, cmdt da  da CCAÇ 2403, diz  que  a enorme coluna partiu às 5h30, a caminho de Cheche, tendo atingido Canjadude às 9h00.]

Mais uma vez a Força Aérea tinha deslocado muitos meios para protecção. Estavam sempre no ar, a acompanhar a coluna, dois T6, fora os helis que andavam no seu vai-vem.

Chegados ao Cheche, junto ao Rio Corubal [por volta das 17h00], encontrámo-nos com um destacamento a nível de grupo de combate, comandado pelo alferes Diniz [José Luís Dumas Diniz, pertencente à CART 2338, Fá Mandinga, Nova Lamego, Canjadude, Buruntuma, Pirada, 1968/69 ].

Para a travessia do rio havia uma jangada, que levava um carro pesado de cada vez. Nós fomos os primeiros a passar para montar a segurança no outro lado da margem. Por ali passámos a noite enquanto os carros da coluna iam atravessando o rio. 

No dia seguinte  [3, terça feira], fizemos a pé o percurso até Madina do Boé. Foram 40 kms.

Aquela estrada parecia um cemitério de Unimogs e de GMCs. Até Madina havia para cima de 15 carros destruídos por efeito das minas. 

Geralmente o carro da frente, nas colunas, era chamado o arrebenta-minas. Ia cheio de sacos de areia para absorver a onda de choque da explosão da mina. O condutor, um voluntário, ia por sua vez, sentado em cima de um saco de areia. O problema às vezes era a falta de protecção das pernas.

Logo de manhã um T6, que nos sobrevoava, avisa-nos que havia IN à frente e portanto que devíamos ter cuidado. Por aqueles lados a vegetação era pouco densa e não havia população.

Em determinada altura sofremos um ataque de abelhas do mato. Foi terrível! O alferes Jorge Rijo [da CCAÇ 2405, cmdt do 1.º Gr Comb] foi o mais massacrado. As abelhas não o largavam, ele bem pedia ajuda, mas ninguém se aventurava. Coitado, mal recomposto lá continuou. Bem podia ter pedido uma evacuação, mas não o fez.

À medida que o dia ia avançando, o cansaço, a fome e a sede iam dando cabo de nós. A noite começou a cair e,  tal como é costume em África, caiu depressa. 

Foi nesta altura que nos começámos a desagregar, uns paravam, outros não, e foi assim que lá fomos chegando ao quartel de Madina do Boé. Entrávamos em pequenos grupos. Se o inimigo andasse por ali, tinha-nos apanhado à mão.

O capitão José Aparício, que comandava o aquartelamento, foi-nos espalhando pelos abrigos, recomendando para só nos deslocarmos entre abrigos pelas valas que por lá havia.

Como a cozinha já tinha sido desmantelada, deram-nos apenas uma sopa que nos soube muito bem. 

Os abrigos, onde dormimos no chão, eram muito abafados, devido a terem umas aberturas muito pequenas. Mais uma noite de primeira.

No dia seguinte  [4 de fevereiro, quarta feira], e com a luz do dia, é que nos apercebemos dos pormenores daquele aquartelamento. Eles viviam como toupeiras. As partes laterais dos abrigos tinham uns troncos de palmeiras deitados para se protegerem quando respondiam ao fogo em caso de ataque.

Estes troncos estavam todos queimados por cima. Nos ataques mais prolongados que tinham tido, e que foram muitos, as armas faziam tanto fogo e ficavam tão quentes que queimavam os troncos de palmeira.

Ainda rebentados da véspera, não nos deram descanso e lá nos mandaram ainda mais para Sul, precisamente para junto da fronteira, para fazer protecção avançada. 

Ali passámos 24 horas  [no dia 5, quinta feira], tempo necessário para as viaturas chegarem e serem carregadas com tudo o que a Companhia tinha.

Estas 24 horas foram passadas no maior silêncio pois o inimigo andava por perto. No nosso rádio bem o ouvíamos, em francês, a incitarem-se para nos atacarem.

No exterior e à volta de Madina do Boé, havia vários abrigos feitos e utilizados pelo inimigo para estarem mais protegidos quando lançavam qualquer ataque ao aquartelamento de Madina.

Por fim veio o regresso [dia 6, sexta feira].

De madrugada deram-nos ordem para fechar a coluna que já estava a serpentear a estrada. 

Se a nossa companhia [CCAÇ 2405] fechava a coluna, o meu grupo de combate [o 4.º, da CCAÇ 1790foi o último. 

Foi assim que a posição de Madina do Boé foi abandonada.

A nossa progressão até ao Rio Corubal, os mesmos 40 kms, foi novamente penosa, embora não tão perigosa uma vez que íamos todos em bloco.

Recordo-me que a coluna à vinda tinha levantado várias minas e, curiosamente, no regresso levantaram-se mais umas tantas, lá colocadas entretanto pelo inimigo.

Estacionámos na margem sul [ou esquerda], do rio Corubal, nós e a companhia de Madina [CCAÇ 1790], durante toda a noite para protecção. 

Durante a noite a jangada foi transportando para a outra margem todas as viaturas. Já de madrugada [do dia 6 de fevereiro de 1969, sexta feira] e,  passados todos os carros, foi a nossa vez de atravessar o rio.

Como tínhamos por hábito rodar as nossas posições assim que parávamos, a nossa companhia [CCAÇ 2405] passou para a frente da de Madina  [CCAÇ 1790], e o meu grupo de combate, por sua vez, passou para a frente da minha companhia.

Com o meu grupo de combate na frente, a companhia dirigiu-se para a jangada para fazer a travessia. A jangada já estava praticamente cheia e só coube o meu grupo.

Para trás ficaram dois grupos da minha companhia [CCAÇ 2405, o 1.º do alf Rijo e o 3.º, do alf Felício] e toda a companhia de Madina [CCAÇ 1790]. (***)

Durante a travessia aproveitámos para nos lavarmos um pouco e encher o cantil de água. Uma vez terminada a travessia, a jangada regressou para ir buscar o resto do pessoal.

Como ninguém quis ficar para trás, entre os que estavam do outro lado do rio, entraram juntos na jangada, para a última travessia.

Aqui facilitou-se. Eu estava do outro lado e assisti a tudo.

A jangada, ainda a poucos metros da margem, adornou para um dos lados (nascente) e atirou à água vários rapazes. Por falta de peso de um dos lados, a jangada adornou de repente para o outro lado, atirando outros tantos rapazes à água.

Depois disto a jangada ficou meio submersa. A meu lado estava um major (****)  que deitou as mãos à cabeça e disse: 

- Deus meu!

Como não vi ninguém a gritar ou a esbracejar, pensei para mim que talvez se tivessem afogado um ou dois rapazes. A jangada que estava de reserva, foi por duas vezes buscar o pessoal [vd. foto acima].

No Cheche estavam no chão dois helis que levantaram voo, nada podiam fazer ou ajudar.

Uma vez formadas as companhias, é que demos conta da extensão da tragédia: 45  homens afogados de ambas as companhias [na realidade, 47: 19 da CCAÇ 2405 e os restantes 28 da CCAÇ 1790, incluindo um assalariado civil].

Com as botas, o peso da cartucheira, das granadas e ainda a responsabilidade de não perder as armas, aqueles rapazes à medida que iam entrando na água, iam logo para o fundo, agarrando-se uns aos outros.

Pelo menos um dos rapazes da nossa companhia estava em França a trabalhar e regressara a Portugal só para cumprir o seu dever. Ali ficou.

A minha mãe,  assim que soube da notícia associou com o meu aerograma e ficou muito aflita. Telefonei-lhe de Nova Lamego para a descansar.

Acabada esta operação, quiseram responsabilizar pelo sucedido o capitão José Aparício e o alferes miliciano José Luís Dumas Dinis (*****).

Quem lá estivesse, tinha feito o mesmo. Só quem está metido nelas é que sabe da sua vida.

Acho que as ambições do brigadeiro Spínola aqui funcionaram em pleno. Ele não quis ficar com aquela nódoa na sua folha de serviço, pois já devia aspirar a voos mais altos, com Caetano no poder e Tomás no fim de um mandato.

Deixo aqui um pormenor que dá bem a ideia das voltas que o mundo dá.

Na sequência do 11 de março de 1975, Spínola segue para o Brasil, exilado. Com o general Eanes na Presidência é combinado o seu regresso a Portugal. Quem é que o vai buscar ao aeroporto? O ten cor Aparício, comandante distrital da PSP de Lisboa. Acasos do Destino.

Regressámos à nossa rotina das tabancas em autodefesa.

Extractos de: Raposo, P. E. L. (1997) - O meu testemunho e visão da guerra de África.[Montemor-o-Novo, Herdade da Ameira]. Documento policopiado. Dezembro de 1997. 27-31.

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, negritos, título : LG)
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Notas de L.G.

(*) Vd. poste de 7 de junho de 2006 > Guiné 63/74 - P854: O meu testemunho (Paulo Raposo, CCAÇ 2405, 1968/70) (10): A retirada de Madina do Boé

(**) Último poste da série : 9 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27717: Documentos (51): A retirada de Madina do Boé (Hélio Felgas, maj-gen, 1920-2008)

(***) "A Companhia de Madina [a CCAÇ 1790] seria a última a fazer a travessia, juntamente com dois Gr Comb da CCAÇ] 2405" (vd. poste P27717, com o depoimento de Hélio Felgas).

José Aparício, cmdt da CCAÇ 1790, por sua vez, fala em 80/90 homens (o que é pouco para 4 Gr Comb):

(...)  "No início da manhã de 6 [e não na tarde de 9] de Fevereiro de 1969, na última e fatídica viagem, embarcaram a parte que restava dos militares das CCaç 2405 e da CCaç 1790, cerca de 80 a 90 militares." (...)

A lotação máxima da jangada, em teoria, eram 50/60  homens  equipados (com armas, cartucheiras, cantis, camuflado, botas); mas estava preparada para "aguentar" 10 toneladas, diz o Hélio Felgas no seu depoimento.

O Rui Felício diz que foram 4 grupos de combate (no áximo 120 homens), a embarcar na jangada na última travessia.

(...) "As jangadas eram consideradas muito seguras e incapazes de se voltarem ou afundarem, desde que não fossem excessivamente carregadas.

Calculava-se que aguentariam um peso de dez toneladas. Mas para maior segurança a Ordem de Operação proibia que fossem transportados mais de 50 homens de cada vez. " (...)  (vd. poste P27717, com o depoimento de Hélio Felgas).

(****) Há dúvidas sobre quem seria este major....   O 2.º Comandante da Operação?  Se sim, estava na margem norte, com o Paulo Raposo. O Rui Felícío diz que houve uma major que deu ordem ao alf Felício para levar toda a gente (4 Gr Comb) na última viagem. Mas, mais tarde, admitiu que podia estar a fazer confusão. Na última travessia haveria apenas dois oficiais, com posto acima de alferes: o cap inf José Aparício (CCAÇ 1790) e o cap mil  inf José Jerónimo (CCAÇ 2405).

O Hélio Felgas não refere o nome de nenhum 2.º cmdt da operação. Poderia ser o maj inf  Cristiano Henrique da Silveira e Lorena, 2º cmdt e comdt do BCAÇ 2835 (Nova Lamego, Sector L3, que incluía o subsetor de Madina do Boé, 1968/70)?

 (*****) O único que foi julgado (e, felizmente, absolvido), no 3.º Tribunal Militar Territorial de Lisboa, em 1970, era o elo mais fraco da cadeia de comando, o alf mil José Luís Dumas Diniz, da CART 2338. (O gen António Spínola, em 1970,  testemunhou a seu favor).

Segundo o testemunho do Rui Felício, o major, 2.º cmdt da Op Mabecos Bravios (de que ele não sabia o nome) "puxou dos galões" e teria obrigado  o alf Diniz a autorizar que fosse  toda a gente (4 Gr Comb) na última travessia, com o argumento de que já era tarde... Esta versão foi depois revista pelo Rui Felício. As pressões sobre o Diniz só podiam ser de um dos dois  capitães. Ou de todo pessoal que estava impaciente por embarcar. Para esclarecer este ponto (fundamental), teríamos que ter acesso os autos do processo judicial.