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terça-feira, 4 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26550: O melhor de ... Valdemar Queiroz (1945-2025) - Parte I: (i) na morte do Renato Monteiro (1946-2021); (ii) Guiro Iero Bocari, o meu epílogo da guerra




Foto nº 1A e 1 > Guiné > Zona leste > Região de Gabu > L5 (Nova Lamego) > Subetor de Paunca > Guiro Iero Bocari > CART 11 (1969/70) > Arruamento  principal da povoação... O Valdemar com os "djubis", os  miúdos, filhos ds soldados da CART 11.

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nº 2 > Guiné > Zona Leste  > Região de Bafatá > Contuboel > 1969 > CART 2479 (futura CART 11)  > O Renato Monteiro (1946-2021) à esquerda e o Cândido Cunha, à direita.

Foto: © Renato Monteiro (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Valdemar Queiroz  (1945-2025)
1. O Valdemar Queiroz (Afife, Viana do Castelo, 1945 - Agualva-Cacém, Sintra, 2025) (*) [ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, "Os Lacraus", Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70; membro da Tabanca Grande desde 16/2/2014, com mais de 200 referências do nosso blogue] foi autor da série "Memórias de um Lacrau", de que se publicaram 15 postes, de fevereiro a junho de 2014. 

Tinha um especial carinho pela Guiné, as suas gentes, o "chão fula", e sobretudo pelos seus soldados e suas famílias, que andavam sempre ele, com a casa às costas.... 

A sua CART 2479 (depois CART 11) e o seu grupo de combate passaram  por vários sítios do Leste: CIM de Contuboel, Nova Lamego, Paunca, Guiro Iero Bocari... 

O Cherno Baldé chamava-lhe Valdemar Queiroz "Embaló". 

Em jeito de homenagem, vamos fazer um apanhado de alguns dos seus "melhores apontamentos" dispersos pelo nosso blogue... Mais difícil é rastrear os seus comentários, curtos mas originais, em geral, certeiros mas elegantes,  e sempre bem humorados, comentários em que era mestre na arte da observação: não havia pormenores que lhe escapassem, e à volta disso era capaz de contar uma historieta... 

Para melhor suportar a  terrível doença de que sofria, bem como a solidão do seu apartamento na Rua de Colaride, em Agualva-Cacém, fez do nosso blogue uma fiel companhia, lendo e comentando o que se publicava diariamente... (até à véspera de morrer).

Nos últimos anos cinco anos, deixara de poder sair à rua e ir aos convívios dos "Lacraus"... O último terá sido em 2019, antes da pandemia, em 25 de maio (dia em que também se realizava o XIV Encontro Nacional da Tabanca Grande, a que ele obviamente nâo pôde ir,  com pena de ambos, e eu perdi a oportunidade soberana de lha dar um abraço ao vivo, 50 anos depois de termos estado juntos, por menos de 2 meses, no CIM de Contuboel, em junho/julho de 1969; foi também nessa altura que conheci outros "Lacraus":  Renato Monteiro (1946-2021), o Abílio Duarte, o Cândido Cunha, etc.


(i) Na morte de Renato Monteiro (1946-2021)

Data: sábado, 10/07/2021 à(s) 16:25
Assunto: Morreu o Renato Monteiro (**)

Morreu o meu querido amigo Renato Monteiro.

Morreu mais um dos nossos queridos camaradas,  também passou as passas de Piche e do Xime. 

Só soube agora  pelo telefonema do seu grande amigo Cândido Cunha, morreu no passado dia 7 de Julho de 2021. 

Ele telefonou-me no dia 27 do mês passado, que estava mal e ia para o hospital, mas pareceu-me ser mais uma crise de DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica), agora começo a pensar se não seria mesmo uma despedida. 

Morreu o Monteiro, nunca mais o ouviremos dizer:
 
Quando abrires
o teu armário,
das surpresas imprevistas,
não desistas, não desistas.
E se encontrares dentro dele
roupas velhas,
amachucadas,
desbotadas,
ou se  vires viscosa aranha
com peçonha no seu ventre,
olha para ela de frente,
que ela passa sem tocar-te.
Não desistas, não desistas.

Os meus sentidos pêsames à sua esposa Guida,  a quem ele no dia 18 de fevereiro de 1969 acenou com um lenço vermelho até deixarmos de ver Lisboa a caminho da guerra na Guiné.

Estou a chorar.

PS - Anexo uma foto do Monteiro com o seu grande amigo Cândido Cunha (vd. foto nº 2)


(ii)  Guiro Iero Bocari, o O meu epílogo da guerrra 

Data: 1 de Junho de 2014 às 22:49

Assunto: Uma grande fotografia que representa o meu epílogo na Guiné (***)

Caro Luís Graça:

Esta grande fotografia (vd. foto nº1)  é,  para mim,  o meu epílogo da passagem pela guerra na Guiné.

Com exceção de um ataque de mísseis 122 mm a Nova Lamego, eu nunca tive contacto direto ou com a ação de combate, ou ataques a aquartelamentos.

Eu tive muita sorte, mas é verdade. Eu nunca dei um tiro, a não ser a alguma rola.

Não quero dizer, com isto, que eu não fizesse muitas operações  ou de que a nossa CART 11 não tivesse problemas em combate, que os teve e graves, mas eu,  o ex-fur mil Valdemar Queiroz, por várias razões ou por sorte, nunca os tive...

Mas a  guerra não é só feita de  combates e eu estive lá. Esta fotografia retrata bem o que para mim foi (enganosamente) um epílogo de guerra: uma  tabanca sossegada, sem o mínimo vestígio de violências, eu em trajos civis passeando com crianças alegres (as crianças eram filhos dos nossos soldados e tinhamos acabado de jogar à bola).

Foi a minha última fotografia  tirada na Guiné, se calhar foi a primeira daquelas crianças na rua principal em Guiro Iero Bocari.

Inesquecível!

Valdemar Queiroz

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)



Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Carta de Paunca (1957) (Escala 1/50 mil) > Detalhes: posição relativa de Paunca, Paiama, Sinchã Abdulai e Guiro Iero Bocari, junto à fronteira com o Senegal.

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)

________

Notas do editor:

(*) Último poste da série > 1 de julho de 2021 > Guiné 61/74 - P22332: In Memoriam (397): Actor Carlos Miguel Bugalho Artur (1943-2021), ex-Fur Mil Amanuense do CMD AGR 1980 (Bafatá, 1967/68), falecido no dia 19 de Junho de 2021 (José Martins, ex-Fur Mil TRMS da CCAÇ 5)


(***) Vd. poste de 2 de junho de 2014 > Guiné 63/74 - P13226:Memórias de um Lacrau (Valdemar Queiroz, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70) (Parte XV): Uma grande fotografia que representa o epílogo da minha passagem pela guerra

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26317: Por onde andam os nossos fotógrafos ? (34): Jorge Pinto (ex-alf mil, 3.ª C / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74) - Parte IV




Fotos nº 1A e 1 > Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) >  " (...) Depois de 7/8 meses a vermos o céu sempre igual e a atmosfera amarelada com as poeiras vindas do deserto, os primeiros pingos grossos de chuva eram celebrados com grande alívio por nós e contagiante alegria pela criançada que aproveitavam as poças de água para se refrescarem, brincarem e encharcarem os adultos incautos"…





Foto nº 2A, 2B e 2   > Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > "(...) . Mesmo em cenário de guerra havia disposição para 'jogatanas' de futebol. Este campo foi construído durante período que vivi em Fulacunda. Havia ainda um outro campo térreo, que na época das chuvas ficava impraticável para futebol."... (Na foto 2B, o Jorge Pinto, é o do meio, o quarto a contar da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda)






Foto nº 3A  e 3 > Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) > Soldados construindo a capela cristã.... Claro, não podia faltar o "bioxene" aos carpinteiros, a trabalhar ao sol...



Foto nº 4 > Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) >  O alf mil Jorge Pinto lendo a revista norte-americana "Time" (talvez esquecida por algum "velhinho" que tenha por ali passado: a revista é de  10 de maio de 1971).


Foto nº 5 > Guiné > Região de Quínara > Fulacunda > 3.ª CART / BART 6520/72 (Fulacunda, 1972/74) >  Capa da revista "Tine, edição de MAY 10, 1971: "How to cope with Japan's business | Sony's Akio Morita"-|  (Como lidar com os negócios do Japão | Akio Morita da Sony. )
 
Fotos (e legendas): © Jorge Pinto (2013). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagemcomplementar; Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.]


1. O Jorge Pinto [ex-alf mil, 3.ª CART/BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74; natural de Turquel, Alcobaça; professor do ensino secundário, reformado; membro da Tabanca Grande desde 17/4/2012, com 6 dezenas de referências no blogue ] tem o melhor álbum fotográfico sobre Fulacunda, região de Quínara, chão biafada. Pela qualidade técnica e estética bem como pelo interesse documental dos "slides" que tirou. 

Estamos a republicar, depois de reeditadas,algumas das suas melhores fotos (*).

________________

Nota do editor:

(*) Último poste da série > 21 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26296: Por onde andam os nossos fotógrafos ? (33): Jorge Pinto (ex-alf mil, 3.ª C / BART 6520/72, Fulacunda, 1972/74) - Parte III

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26157: Casos: A verdade sobre... (49): Os "djubis" da CART 11 e da CCAÇ 12, que foram soldados... (Luís Graça)



Umaru Baldé (c. 1953- c.2004, Bambadinca, meados de 1970
Foto: Benjamim Durães (2010)



Umaru Baldé (c. 1953-c. 2004), recruta do CIM Contuboel,
 c. março de 1969 

Foto: Valdemar Queiroz (2014)


1. Resposta do editor LG ao Valdemar Queiroz (*): 

Valdemar, obrigado pela tua preciosa "lembrança"... Reconheço estes putos ou pelo menos três, os que pertenceram à CCAÇ 12, e que fizeram a guerra comigo (*)...

Quanto ao Umaru Baldé (c. 1953- c. 2004), o "menino de sua mãe", tens aqui  duas fotos dele (uma é do teu álbum, o recruta Baldé, no CIM de Contuboel, com cara e corpo de "djubi"; a outra, um ano mais tarde,  de meados de 1970, tirada em Bambadinca, já com o BART 2917).

Vamos pô-lo a nascer por volta de 1953 para salvar a "honra do convento", isto é, para que a NT não sejam acusadas de recrutar crianças para a guerra, como acontecia com o PAIGC...

Soldado do recrutamento local, nº 82115869, o Umaru tirou a recruta   (com a CART 11) e a especialidade (com a CCAÇ 12), no CIM de Contuboel (um um um "oásis de paz", como eu lhe chamei, em junho de 1969). 

Foi exímio apontador de morteiro 60, soldado arvorado e depois 1º cabo at inf  da CCAÇ 2590 /  CCAÇ 12 (1969-1972), no 4º Gr Comb,  3ª secção [comandada inicialmente pelo fur mil 11941567 António Fernando R. Marques: DFA, vive hoje em Cascais, empresário reformado, membro da nossa Tabanca Grande].

O Umaru Baldé, que era de Dembataco (ou Demba Taco),  cresceu com a guerra: Demba Taco pertencia ao subsetor do Xime, um dos primeiros a conhecer a crueldade da guerra.  Foi recrutado em 12/3/1969,  como ele conta em carta pungente que te escreveu, trinta anos depois, já a viver na Amadora. 

Tirou a recruta no CIM Contuboel e fez o juramento de bandeira em Bissau, em cerimónia a que assistiu o gen Spínola.  Em junho e julho de 1969 fez a especialidade, já com os graduados da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12 como instrutores... Juntos formamos companhia e fizemos a IAO.  Em 18 de julho de 1969 ficámos à ordem do comando do sector L1, e fomos colocados em Bambadinca.  Seis dias depois tivemos o batismo de fogo em Madina Xaquili, que será abandonada, dois meses e tal depois, em outubro.

O Umaru Baldé fez a guerra  entre meados de 1969 e 1972,  foi depois colocado, nesse ano,  em Santa Luzia, Bissau, no quartel do Serviço de Transmissões, onde ficou até ao fim da guerra.  (Julgo que depois de ter sido ferido em combate, ainda na CCAÇ 12, que entretanto passará a unidade de quadrícula, colocada no Xime em março de 1973.)

Conheceu, em mais de metade da sua vida, a amargura e a solidão do exílio. Não sei se chegou a ter mulher e filhos.  Percorreu meia África, em busca de liberdade e seguranças. Veio a morrer, aos 50 anos,  em Portugal, no "terminal da morte", que era então o, hoje  já extinto,  Hospital do Barro, Torres Vedras (onde também, por ironia do destino,  viria a morrer Luís Cabral, uns anos depois, em 2009).

O "puto" Umaru,  como sempre o tratámos, contou apenas com o apoio e a ajuda de alguns dos seus antigos camaradas de armas, "tugas",  da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, mas também da CART 11 (como tu, Valdemar Queiroz,  e outros). 

Não posso confirmar, com rigor, o ano em que nasceu e o ano em que morreu. Nunca mais o vi desde que regressei a casa em 17 de março de 1971. Tenho uma foto com e com o Zé Carlos.

 

Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L1 > Bambadinca > CCAÇ 12 (1969/71) > Fevereiro de 1970 >  Região do Xime >   1º  Grupo de Combate, comandado pelo Alf Mil Inf Op Esp Francisco Moreira, no decurso da Op Boga Destemida, uma operação sangrenta...  A CCAÇ 12, que integrava a "nova força africana" (que era a menina dos olhos de Spínola) foi uma subunidade de intervenção, duramente usada e abusada pelo comando dos BCAÇ 2852 (1968/70) e BART 2917 (1970/72) 


Foto: © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados 
[Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



2. Aproveito para retomar aqui, com algumas alterações,  um comentário meu que já tem 18 anos sobre  "a lista dos Baldés" da CCAÇ 2590 / 12, e que publicitei, em 2006 (**), depois de ponderar os prós e os contras: eram 100 os "Baldés", que foram integrados na CCAÇ 2590 (futura CCAÇ 12), em Contuboel... Muito poucos deles estariam ainda vivos nessa altura. E hoje já não estará nenhum.

Na altura, podia parecer fastidiosa, inútil, irrelevante... a minha lista de Baldés...    Mais: até imprudente, podendo pôr em risco a liberdade e a segurança dos nossos antigos camaradas guineenses,  os sobreviventes, os que ainda estariam vivos (como, por exemplo, o José Carlos Ussumane Baldé, o único 1º cabo que existia no meu tempo).

Não pensava o mesmo , em 2006: podia ter (ou vir a ter) algum interesse documental, historiográfico, eu sei lá... Podia facilitar a pesquisa de informação, de testemunhos, de depoimentos...E quanto a ajustes de contas, infelizmente já tinham sido feitos sob o regime de Luís Cabral...

Entendia que era um pequeno, modestíssimo, gesto de elementar justiça para com aqueles guineenses que lutaram ao nosso lado, que fizeram parte da CCAÇ 12 e, portanto, da 'nova força africana'  com que sonhou Spínola e que tanto atemorizou o PAIGC (eles e não apenas a "tropa especial", com destaque para os Comandos Africanos).

Infelizmente, uma grande parte deles (quantos, exactamente?) já não estariam vivos em 2006. Uns tinham sido fuzilados, como o Abibo Jau, logo em 1975, outros andaram fugidos, a maior parte terá morrido de morte natural, que a sua esperança de vida era muito menor que a nossa, em 1969...

Eu estava à vontade para publicar essa lista: sempre critiquei a africanização da guerra da Guiné, embora longe de imaginar que, no dia seguinte à nossa retirada, começasse a caça aos "traidores", aos "contra-revolucionários", aos "mercenários", aos "colaboracionistas", aos "cães dos colonialistas", aos "cachorros dos tugas"...

Eu já não estava lá, em agosto de 1974, quando foi extinta a CCAÇ 12 e as demais subunidades da "nova força africana" (incluindo a CCAÇ 11, herdeira da CART 11). E, confesso que, desde que cheguei, em março de 1971, e até ao final da década de 70, pus uma tranca à porta da "memória da guerra". E só no princípio de 1980, comecei a tentar "exorcizar os fantasmas da guerra colonial" (sic) (uma expressão minha, que paga direitos de autor...).

Em 1969, ainda estava vivo o Amílcar Cabral e eu, na metrópole,  admirava-o, em abstrato,  intelectualmente, pelo pouco tinha lido dele (náo tenho pejo em admito-lo hoje). 

Achava que na Guiné, depois da independência, "abadá a guerra e feita a paz", tudo seria diferente, e não aconteceriam os ajustes de contas que se verificaram noutras revoluções ou guerras civis, na Rússia, na China, na Espanha franquista, na França depois da libertação, na Argélia, em Cuba, etc. Pobre de mim, ingénuo...

Mas, por outro lado, também fui cúmplice da integração destes "putos" no nosso exército: mesmo sendo  da especialidade de armas pesadas, e não fazendo  parte formal, organicamente,  de nenhum dos quatro grupos de combate da CCAÇ 12, acabei como vulgar atirador de infantaria, já que a companhia não tinha instalações a defender e  era de intervenção ("uma companhia de nharros, carne de canhão", rosnávamos nós, entre os dentes, sempre que saíamos para o mato...).

Participei, por isso, em muitas das operações em que estes participaram, fui testemunha da sua coragem e do seu medo, dormi com eles nas mais diversas situações, incluindo nas suas tabancas, transportámos às costas os nossos feridos e os nossos mortos... 

Foram meus camaradas, em suma.

Alguns (ou até bastantes) vieram das milícias, a maior parte já tinha alguma experiência de combate. E quanto à sua origem geográfica, os nossos camaradas guineenses da CCAÇ 12 (originalmente, CCAÇ 2590), eram oriundos do chão fula e em especial dos regulados do Xime, Corubal, Badora e Cossé, com exceção de um mancanhe, escolarizado,  oriundo de Bissau (que se fartou de levar "porradas", por ser "reguila" e "indisciplinado").

“Todos falam português mas poucos sabem ler e escrever", lê-se na história da CCAÇ 12. (O que só era verdade 21 meses depois de os termos conhecido e instruído em Contuboel, em junho e julho de 1969: nunca tiveram tempo sequer de ter aulas regimentais, o português que aprenderam, a falar e a escrever foi connosco.)

Foram incorporados no Exército como "voluntários" (sic), acrescentou o escriba (fui que escrevi a "história da unidade"), para branquear a insustentável (historicamente falando) situação dos jovens fulas, condenados a aliarem-se aos tugas e a pagarem a fatura do "colaboracionismo" no dia a seguir à nossa partida... 

Mas devo acrescentar: mal ou bem, a tropa e a guerra acabaram por ser um "modo de vida" para muitos deles... Teria o Umaru Baldé alguma alternativa ? Seguramente que não. O Salazar, o Tomás, o Caetano queriam-nos,  a todos,  heróis ou... mortos!
___________

Notas do editor:

(*) Ultimo poste da série : 14 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26153: Casos: A verdade sobre... (48): Os "djubis" da CART 11 e da CCAÇ 12, que foram soldados... (Valdemar Queiroz)

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26153: Casos: A verdade sobre... (48): Os "djubis" da CART 11 e da CCAÇ 12, que foram soldados... (Valdemar Queiroz)


Guiné > Região de Bafatá > Contuboel > CIM - Centro de Instrução Militar > Março de 1969 > Recruta dos futuros soldados das futuras CART 11 e da CCAÇ 12 > Samba Baldé (Cimba), nº mec 82110969... Futuro Ap Metr Lig HK 21, 3º Gr Com 3º Gr Comb [Comandante: alf mil inf 01006868 Abel Maria Rodrigues [bancário reformado, Miranda do Douro], 1ª secção [fur mil at inf Luciano Severo de Almeida, já falecido]...  De origem fula.


Guiné > Região de Bafatá > Contuboel > CIM - Centro de Instrução Militar > Março de 1969 > Recruta dos futuros soldados das futuras  CART 11 e da CCAÇ 12 > Salu Camara, nº mec 82103469. Provavelmente de origem futa.fula. Integrou a CART 11.


Guiné > Região de Bafatá > Contuboel > CIM - Centro de Instrução Militar > Março de 1969 > Recruta dos futuros soldados das futuras  CART 11 e da CCAÇ 12 >  Sori Baldé, nº mec 82111069,  De origem futa. Integrou a CCAÇ 12, como sold at inf. Pertenceu O 4 º Gr Comb [ comandante: alf mil  at cav  10548668 José António G. Rodrigues, já falecido, vivia em Lisboa], 3º secção [1º Cabo 00520869 Virgilio S. A. Encarnação, vive em Barcarena]... [O Valdemar Queiroz identifica-o, erradamente, como sendo o Tijana Jaló, esse sim, devia pertencer à CART 11, mas com outro nº mecanográfico... Estou bem recordado do Sori Baldé, um dos meus soldados, quando estive no 4º Gr Comb.]


Guiné > Região de Bafatá > Contuboel > CIM - Centro de Instrução Militar > Março de 1969 > Recruta dos futuros soldados das futuras CART 11 e da CCAÇ 12 > Mamadu Jaló, nº mec 821179669, De origem futa. Integrou a CCAÇ 12, como sold arvorado. . Pertenceu ao 1 º Gr Comb 3ª secção [fur mil at inf 19904168 António Manuel Martins Branquinho, reformado da Segurança Social, Évora, já falecido]


Guiné > Região de Bafatá > Contuboel > CIM - Centro de Instrução Militar > 1º trimestre de 1969 > Recruta dos futuros soldados das futuras CART 11 e da CCAÇ 12 > Alceine Jaló, nº mec 82114669, De origem futa ou futa-fula. Pertenceu à CART 11.



Guiné > Região de Bafatá > Contuboel > CIM - Centro de Instrução Militar > Narço de 1969 > Silhueta do recruta Umaru Baldé, natural de Dembataco, regulado de Badora, setor L1 (Bambadinca), nº mec 82115869.

Fotos (e legendas): © Valdemar Queiroz (2020). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Contuboel > CIM - Centro de Instrução Militar  > c. março / abril de 1969 > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > > O Valdemar Queiroz, com os recrutas Cherno Baldé, Sori Baldé e Umarau Baldé (que irão depois para a CCAÇ 2590 / CCAÇ 12).

Estes mancebos aparentavam ter 16 ou menos anos de idade. Eram do recrutamento local. Os da CCAÇ 12 eram fulas, oriundos do chão fula e em especial dos regulados do Xime, Corubal, Badora e Cossé.

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Região de Bafatá > Bambadinca > Umaru Baldé (c. 1953-2004), soldado do recrutamento local,  nº 82115869, tirou a recruta e a especialidade no CIM de Contuboel. Foi apontador de morteiro 60, soldado arvorado e depois 1º cabo infantaria da CCAÇ 12 (1969-1972). Foi depois colocado, em Santa Luzia, Bissau, no quartel do Serviço de Transmissões, até ao fim da guerra. Conheceu, em mais de metade da vida, a amargura  e a solidão do exílio. Veio morrer a Portugal onde teve grandes camaradas e amigos, solidários, que o ajudaram.

Foto: © Benjamim Durães (2010). Todos os direitos reservados . [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



1. Reedição de mensagem do Valdemar Queiroz [ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70], só publicada quase cinco meses depois, por lapso dos editores (*):

Data: terça, 5/11/2019, 23:22

Assunto: O que será feito dos 'Putos-Soldados' do CIM de Contuboel

O que será feito dos 'Putos-Soldados'?

Passaram 50 anos que muitos 'putos' foram chamados prá tropa e receberam instrução militar em Contuboel.

Alguns apresentaram-se descalços, com as suas roupas usadas habituais e notava-se que eram muito jovens, mas diziam que tinham 18 anos.

Soube-se mais tarde que houve situações de recrutamento forçado, mas na maioria apareceram com vontade ser soldados. 'Manga de ronco' e 'manga de patacão' que lhes iria acontecer.

Não sabemos, eu não sei nem me lembro de contarem, como foram contactados e por quem (régulo/chefe de tabanca), e se lhes foi dito que iriam ser soldados para entrarem directamente na guerra, que eles já tão bem conheciam.

Não sei se vieram assentar praça, como um serviço militar obrigatório se tratasse, com a diferença de serem ainda menores, ou como uma espécie de voluntariado forçado (ideias de Spínola a fazer lembrar o recrutamento de crianças pelos nazis no final da guerra?).

E assim se formaram a CART 11 e a CCAÇ.12.

Também não soubemos se queriam ser soldados para fazerem guerra contra os 'bandidos' ou para ajudar (como já acontecera em séculos anteriores) os portugueses na guerra contra, neste caso, o PAIGC que queria a independência da Guiné.

Mas, a guerra acabou. Felizmente a guerra acabou.

Os 'putos-soldados' deixaram de ser soldados do Exército Português e passaram, automaticamente, à peluda da sua desgraça. 

Muitos houve que fugiram para não serem sumariamente executados, muitos outros não tiveram essa sorte e foram assassinados, os restantes resignaram-se voltando, já homens, às suas tabancas para serem o que já tinham sido. Foi sempre assim quando acabam as guerras.

E passados 50 anos o que será feito daqueles que conseguiram sobreviver?

Os que eram mais jovens devem ter, agora, 66/67 anos de idade. O que será feito deles?

Julgo que eram todos Fulas e maioritariamente eram das regiões de Gabu/Piche, os da CART 11, ou de Bambadinca/Xime, os da CCAÇ.12.

O Alceine Jaló era do meu Pelotão, casou-se muito novo com uma bajuda (Saco ou Taco?) e levou-a com ele para Guiro Iero Bocari. As mulheres e os filhos dos nossos soldados também dormiam connosco nas valas e aí aguentavam quando havia ataques à tabanca.

O que será feito deles?

Gostava muito de saber deles e peço um favor muito especial ao nosso grande amigo Cherno Baldé de tentar saber se eles ainda são vivos.

Como curiosidade com os 'putos', havia quatro soldados arvorados, e frequentavam a escola de cabos, em cada Pelotão sendo a escolha feita entre eles e um da nossa escolha. Dos quatro do meu Pelotão o da nossa escolha recaiu no Saliu Jau por ser impecável, mas deu algum recusa por parte dos restantes por o considerarem 'ser djubi mesmo pra cabo'.

Valdemar Queiroz

PS - Anexo fotos de alguns 'putos-soldados' , falta a do Umaru Baldé, talvez o 'puto mais puto', e que me foi oferecida quando estive com ele na Amadora.

(Revisão / fixação de texto, negritos: LG)


2. Comentário do editor Luís Graça:


Vá temos falado sobre este tema, que nos é caro, tanto ao Valdemar quanto a mim e outros camaradas do blogue, o caso dos "meninos-soldados", que estiveram de um lado e do outro, do PAIGC e nas NT  (**). 

No nosso caso, podemos (e devemos) perguntar se houve "ética" (e respeito pela legalidade) no seu recrutamento...

Eu, o Valdemar e outros gradudados da CART 2479 / CART 11,  e da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12 fomos instrutores destes putos, no CIM de Contuboel e eles estiveram sob as nossas ordens na guerra, uns na regiáo de Gabu, setor de Nova Lamego, outros região de Bafatá, setor L1 (Bambadicna). 

Foram extraordinários soldados e grandes camaradas, estes "meninos-soldados" que, no fina,l da guerra, tiveram um destino cruel. O mesmo que tiveram os comandos africanos cujo drama volta agora à ordem do dia,  retratado em reportagem de investigaçáo jornalística (do jornal digital "DivergenTE"), depois publicada em livro e POR FIM em documentário (de longa metragem), que está nas salas de cinema (***).

Em próximo poste serão publicados  comentártios dos nossos leitores sobre este(s) caso(s) (****).
 
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Notas do editor:

(*) Vd. poste de  10 de março de 2020 > Guiné 61/74 - P20720: (De)Caras (147): O que é feito destes 'putos-soldados' da CART 11 e da CCAÇ 12 ? (Valdemar Queiroz)

(***)  13 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26149: Agenda cultural (868): Por ti, Portugal, eu juro!: documentário, de Sofia Palma Rodrigues e Diogo Cardoso (Portugfal, 2024, 98 minuto), sobre o drama dos Comandos Africanos da Guiné... Estreia mundial no doclisboa 2024, e agora nos Cinema

(****) Último poste da série > 26 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25777: Casos: a verdade sobre... (47) "Fogo amigo", Xime, 1/12/1973: o obus 14 cm m/43 usava a granada HE (45 kg) com alcance máximo de 14,8 km... (Morais Silva, cor e prof art AM, ref; ex-cap art, instrutor 1ª CCmds Africanos, Fá Mandinga, adjunto COP 6, Mansabá, cmdt CCAÇ 2796, Gadamael, 1970/72)

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Guiné 61/74 - P25182: Capas da Vida Mundial Ilustrada (1941-1946) - Parte V: "São 31 as crianças que a benemérita Creche do Alto do Pina enviou este ano [em agosto de 1944] para a Parede, onde ficaram instaladas no Sanatório de Santana. Quinze dias de sol, de luz, de liberdade, de pão certo!" (Foto Serôdio)





Legenda: "São 31 as crianças  que a benemérita Creche do Alto do Pina enviou este ano para a Parede, onde ficaram instaladas no Sanatório de Santana. Quinze dias de sol, de luz, de liberdade, de pão certo!" (Foto Serôdio)


1. Estas duas instituições pertenciam à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa... Era assim a Lisboa de há 80 anos, no auge do Estado Novo, onde o sol, a luz, a liberdade, o pão (certo)... não eram para todos/as... 

Alguns de nós, antigos combatentes da Guiné (entre 1961 e 1974),  já tinham nascido, outros estavam a nascer, mas a maior parte estava para nascer... E mesmo dez anos depois, em 1954, quantos de nós sabíamos o que era uma "colónia de férias", ou mesmo era dizer "quinze dias de sol, de luz, de liberdade, de pão certo"... ?!  Vinte anos depois, isso, sim, iríamos conhecer a "colónia de férias" da Guiné...

Apesar da censura aos jornais da época (imposta desde o 28 de Maio de 1926 até  ao 25 de Abril de 1974), podemos sempre (re)ler, nas linhas e nas entrelinhas,  a nossa história através desta e doutras publicações, felizmente guardadas e disponibilizadas (em papel e em formato digital) pela Hemeroteca Digital de Lisboa / Câmara Municipal de Lisboa.
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Nota do editor:

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Guiné 61/74 - P25140: Capas da Vida Mundial Ilustrada (1941-1946) - Parte III: 45 crianças, refugiadas (e provavelmente judias), polacas, alemãs, austríacas e uma russa, embarcam em agosto de 1941 no "Mousinho" a caminho da América



Legenda; "Depois de alguns dias de permanência em Lisboa e na Parede, partiram para a América do Norte 45 crianças, polacas, alemãs, austríacas, e uma russa, fugidas aos horrores da guerra. A foto mostra-nos algumas das mais pequeninas refugiadas no momento em que embarcavam a bordo do "Mousinho".






Legenda: "Um aspeto da entrada para o 'Mousinho' das 45 crianças refugiadas que há dias chegaram a Lisboa e seguiram para a América"



1. O drama dos refugiados de guerra é de ontem e é de hoje, é de todos os tempos, de todas as guerras.  Por Lisboa, última porta para a liberdade, passaram muitos refugiados durante a II Guerra Mundial.  Não se sabe como é que estas crianças chegaram a Portugal. O mais provável é terem sido acolhidas pela Comunidade Israelita em Lisboa, que mantinha uma cantinha económica, um albergue e um hospital... E entre os membros ilustres e solidários dessa comunidae, destaque-se o avò do nosso querido amigo Pepito (1949-2012), o eng. Samuel Schwarz (1880-1953), e irmáo do nosso João Schwarz da Silva, que vive em Paris e é membro da nossa Tabanca Grande.

Orfãs ?  Muito provavelmente judias (a avaliar pelo fenótipo de algumas). A "Vida Mundial Ilustrada" omite essa informação, não por  razões éticas ou de segurança, mas mais provavelmente por imposição da omnipotente e farisaica censura do regime... 

Sabemos que o regime de Salazar teve dois pesos e duas medidas em relação aos judeus. Por exemplo, em relação aos judeus com nacionalidade portuguesa, sefarditas, ou seus descendentes, na Holanda, nos Balcãs, na Turquia, na África do Norte..., muitos poderiam ter sido salvos... e não o foram...

Nesta foto, as crianças parecem  estarem  enquadradas por elementos da PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), antecessora da PIDE (Polícia Internacional e Defea do Estado)...

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Notas do editor:

2 de fevereiro de 2024 > Guiné 61/74 - P25128: Capas da Vida Mundial Ilustrada (1941-1946) - Parte II: embarque de tropas expedicionárias para os Açores, em maio de 1941

29 de janeiro de 2024 > Guiné 61/74 - P25120: Capas da Vida Mundial Ilustrada (1941-1946) - Parte I: embarque de tropas expedicionárias para Cabo Verde, em junho de 1941.... "Partiram alegres e confiantes"...

sábado, 16 de dezembro de 2023

Guiné 61/74 - P24962: Capas da Gazeta das Colónias (1924-1926) (3): Amboim, Angola: crianças pilando café

 

Angola - Indígenas de Amboim descascando café

Fonte: Capa da Gazeta das Colónias: quinzenário de propaganda e defesa das colónias, Ano II, nº 26, Lisboa, 25 de setembro de 1925. Diretor: Leite de Magalhães; editor: Joaquim Araújo; propriedade: Empresa de Publicidade Colonial Lda.

O então diretor, António Leite de Magalhães, foi major do exército, governador da Guiné entre 1927 e 1931.





Por este anúncio, de página inteira, ficamos a saber que em 1925 a Companhia Nacional de Navegação, SARL tinha já uma importante frota: 

  • 14 paquetes (os mais pequenos, com menos de 4 mil toneladas, só faziam serviço de cabotagem);
  • 5 vapores de carga;
  • 3 rebocadores (no Tejo);
  • o maior dos paquetes, em termos de arqueação bruta (c. 9 mil toneladas), era o "Nyassa".

A CNN fazia transporte de passageiros e mercadorias para os portos da Afríca Ocidental e Oriental. Era conhecida anteriormente pela sigla ENN (Empresa Nacional de Navegação a Vapor para a África,  Portuguesa, ou Empresa de Navegação Nacional, 1899-1918), e teve o monopólio das rotas para as colónias, até 1922, ano em que foi criada a empresa concorrente, a  Companhia Colonial de Navegação, com sede em Angola.



Postal da Empresa Nacional de Navegação a Vapor para a África Portuguesa (ENN)
Portugal. 2 de janeiro de 1899. Imagem do domínio público. Cortesia da Wikimedia Commons

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Nota do editor:

Vd. postes anteriores da série:


15 de dezembro de 2023 > Guiné 61/74 - P24958: Capas da Gazeta das Colónias (1924-1926) (1): Os "angolares", indígenas de São Tomé

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Guiné 61/74 - P24527: De volta às montanhas de Liquiçá, Timor Leste, por mor da Escola de São Francisco de Assis, em Boebau (4.ª estadia, 2023): crónicas de Rui Chamusco / ASTIL (excertos). Parte VII: 26, 28, 29 de abril, 1, 2, 3, 4 ,5, 10, 16 de maio de 2023... “Cada criança que nasce é sinal de que Deus ainda não está zangado com a humanidade”...


Timor Leste > Dili  > Palácio do Governo _ 2023 > Foto do Jornal Tornado, "on line" (Jornal global para a lusofonia), 23 de junho de 2023 (com a devida vénia) 


1. Continuamos a publicar alguns excertos das crónicas que o nosso amigo Rui Chamusco (76 anos, professor de educação musical reformado, do Agrupamento de Escolas de Ribamar, Lourinhã, natural de Malcata, concelho de Sabugal, cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste) nos mandou, na sequência da sua 4.ª viagem àquele país lusófono (março-maio de 2023).

Esteve lá já 4 vezes, em 2016, 2018, 2019 e agora em 2023, no àmbito da construção, organização e funcionamemento da Escola de São Francisco de Assis, em Boebau, ;Manati, município de Liquiçá. Desta vez, juntou-se a ele um casal da Lourinhá, ela, professora de educação especial, já com uns bons anos passados em Macau, e ele, contabilista, reformado.

O Rui Chamusco, o "abô" Rui, é juntamente com a família luso-timorense Sobral um dos grandes pilares deste projeto de solidariedade com o povo timorense. É um exemplo inspirador, de amor à lusofonia e de solidariedade para com o povo de Timor Leste, que merece ser conhecido pelos mossos leitores. Além disso, há aspetos da história, da geografia e da cultura timorenses que nos são totalmente desconhecidos.

Para os leitores que se queiram associar a este projeto, aqui fica a conta solidária da Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste (ASTIL)

IBAN: PT50 0035 0702 000297617308 4

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De volta às montanhas de Liquiçá, Timor Leste, por mor da Escola de São Francisco de Assis, em Boebau (4ª estadia, 2023):
crónicas de Rui Chamusco
/ ASTIL (excertos) (*)

Parte VII -26, 28,  29 de abril, 1, 2, 3, 4 ,5, 10, 16 de maio de 2023 



26.04.2023, quarta feira - "Em cada esquina um amigo / Em cada rosto igualdade"...


Ainda em rescaldo do 25 de Abril, hoje tivemos o privilégio de ir receber ao aeroporto Nicolau Lobato os nossos amigos e vizinhos da Lourinhã - o casal João e Maria João Picão. 

Foi uma alegria partilhar beijos e abraços, depois da longa viagem que os trouxe até cá, até este país irmão que alguns temos a sorte de conhecer, mas que muitos outros assim o desejariam também. 

A colega Maria João é educadora com larga experiência no ramo, e sempre manifestou a vontade de visitar a Escola São Francisco de Assis, em Boebau/ Manati e de aí trabalhar alguns dias com as crianças e as cuidadoras do pré-escolar. Para a semana lá iremos nós cumprir a missão. E, como o homem não deve separar o que Deus uniu, vai marido, vai mulher e vamos todos a caminho da montanha.

Para surpresa minha tive conhecimento através deste casal que, a residir na Praia da Areia Branca, na Lourinhã, está o Dr. Pedro Serrano. Quando ouvi o seu nome estranhei e perguntei: “Pedro Serrano? Do Porto? Filho do Dr. Joaquim Serrano?!...

” Sim!” responderam de imediato. Então não é que nos anos 65-70, sendo eu estudante de Teologia no Seminário dos Capuchinhos no Amial (Porto), dei aulas de guitarra ao Pedro, agora sr. doutor, que então era estudante de medicina. Ou seja tão perto um do outro, ambos a residir na Lourinhã, e tão longe, pois nunca mais nos vimos nem tivemos noticias um do outro. Vai ser bonito, quando eu chegar à Lourinhã e bater à sua porta! Obrigado , amigos Picão. (...)


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2023 > "Só eu sei por quê. Mas esta despedida da escola, dos lugares, das crianças e das gentes de Boebau custou-me muito. Que seja o que Deus quiser."


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2023 > Transporte coletivo, uma "anguna"


Timor Leste > Liquiçá > Manati > Boebau > 2023 > A "pickup" da AstilMB (Associação de Amigos Solidários com Timor Leste de Manati / Boebau).

Fotos (e legenda): © Rui Chamusco (2023). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




28.04.2023, sexta feira  - Solitário ou Solidário?

Quem puder entender que entenda. Assim vai a administração pública neste país. Assim vai a segunda língua oficial em Timor Leste.

É pela quarta vez que temos de vir a Balide, ao edifício da Administração Pública / Serviço de Registos de Veículos Motorizados, a fim de fazermos o registo de propriedade da pick-up em nome da AstilMB (Associação de Amigos Solidários com Timor Leste de Manati / Boebau). 

Muito tempo, muito suor no corpo, muita falta de paciência que nos espera. Mas tem de ser, e “o que tem de ser tem muita força". O que vale é resiliência e a competência do Eustáquio.

E, quando pensávamos que o dossiê já estava quase todo bem, eis que o Eustáquio vem até mim e pergunta: “Tiu, é Associação de Amigos Solidários ou Solitários?” “Solidários” respondi. “Então aqui está escrito Solitário”. 

Ficai danado quando confirmei o que me dizia. Praguejei, chamei nomes e não sei quantas coisas mais. Então se no preenchimento dos nossos papéis estava “Solidários” porque é que “inteligências superiores” escreveram “Solitários”, que é precisamente o contrário. 

Incompetência? Não percebem o português? E vai daí, mais voltas, mais papéis e uma vontade enorme de dar um murro na mesa em sinal de protesto.

Ainda relacionado com este acontecimento, deu para ver os esquemas utlizados para resolver estes assuntos, depressa e bem. Como em todo o lado, quem tiver “cunhas” e conhecimentos, depressa resolve o problema. Há serviços tolerados, mas que têm de ser pagos, com distribuição da importância estabelecida pelos diferentes intervenientes. Todos comem do mesmo. Alguns destes “brokers” (não sei se é nome da marca da camisola ou se é mesmo o nome técnico por que são identificados) são conhecidos e movimentam-se à vontade no átrio de espera, passam de guichê (loket) em guichê  dando andamento ao dossiê, enquanto o proprietário do veículo espera calmamente num sítio qualquer combinado ou até é feito por telemóvel.

Nós, embora pudéssemos pagar a importância que eles levam, não quisemos alinhar neste esquema mafioso e, portanto, não nos podemos queixar dos tormentos por que passamos.


29.04.2023, sábad0 - Companhia Picão & nós

Foi um dia bem passado. Em boa companhia, João e Maria João Picão e nós (Eustáquio, Adobe e eu), visitamos os sítios mais icónicos de Dili: Lahane, cemitério de Santa Cruz, Escola Portuguesa Ruy Cinatti, Catedral, canto do Artesanato, mercado e largo de Tassi Tolo, monumento a João Paulo II (que maravilhosa paisagem sobre o mar!...), Timor Plaza, igreja de Motael, monumento aos jovens resistentes, Páteo, Bairro Pité, Ailok Laran. 

Outros locais interessantes já tínhamos visitado em dias anteriores: Cristo Rei, Praia da Areia Branca. Houve tempo para tudo, até para dar uns passinhos de dança ao toque do acordeão e do violino. E como o “loro mono” (pôr do sol) já se foi, lá fomos nós também levar estes amigos à casa onde pernoitam, em Bidau. (.
 

01.05.2023, segunda feira  - Semana especial

Começa hoje a semana esperada, em que a educadora Maria João, o seu esposo João Picão, o Eustáquio e eu prometemos passar em Boebau, promovendo atividades e ensinamentos na ESFA - Escola São Francisco de Assis “Paz e Bem”. 

Como sempre, as viagens de ida e volta para Boebau causam-nos sempre alguma ansiedade devido às dificuldades do caminho e às peripécias por que teremos de passar. E lá vamos nós “cheios de pica”, desta vez também de Picão (família Picão). 

Em Ai Pelu fizemos uma pequena paragem a fim de recebermos as ofertas que a professora Cristina nos entregou para a ESFA, pois, devido ao atraso com que chegámos, já não lhe foi possível ir connosco até Boebau. Obrigado, professora, pelas bolas e pelo saco de arroz que nos entregou!

Chegámos, sem incidências de percurso, ao princípio da tarde e, como os alunos ainda estavam de férias, foi ocasião de mostrar em pormenor aos nossos amigos vindos de Portugal a Escola e a Casa dos professores onde ficamos alojados. Ainda que com condições mínimas, este espaço permite-nos alguma privacidade e descanso.

E, perante os condicionamentos a que o casal Picão fica sujeito (por exemplo: 2 colchões individuais terem de dormir 3 pessoas), o João Picão sai-se com esta: “O melhor é juntar os dois colchões e dormir por turnos”. Ora toma lá esta!... Coitado, não teve outro remédio que dormir agarradinho á esposa, saindo de vez em quando do leito conjugal para bater com o costeado no chão, ou então roçado à parede. “Ó Costa! A vida costa!”


01.05.2023, segunda feira  - Lagartos, Teques, Toquês, aves e outros répteis

Se já o colchão era tão exíguo, agora são as bichezas cá do sítio que assustam os visitantes. Podem entrar onde quiserem porque todas as casas timorenses têm aberturas suficientes que lhes permitem a entrada. Sobretudo os Teques (osgas) que são presença constante em qualquer espaço. Depois de se taparem alguns buracos, não restava outra alternativa a de não ser fechar os olhos e deixar-se dormir, talvez com sonhos mirabolantes que incluam estas novas experiências.

Mesmo em frente da casa, está uma manga, uma árvore de uns três metros de altura, que serve de poleiro para galos e galinhas da vizinhança. É impressionante os voos rasgados de baixo para cima, ao pôr do sol, e do alto para baixo, ao nascer do sol. É de notar também a hierarquia que respeitam. Primeiro os maiores (galos e galinhas) e depois por ordem decrescente, os mais pequenos. Todos em voo rasgado. Depois cantam, fazem a alvorada, até que aparece alguém com uma mão cheia de milho para onde correm apressados. Logos que os galináceos desarvoram do sítio, chega a reboada das aves mais pequeninas, na sua maioria pardais ou outra espécie qualquer.


02.05.2023, terça feira - Escola, hino da escola 
e fortes emoções

De manhazinha, toca a levantar. Às oito horas estamos a caminho da escola, e quando chegamos (8.15h) já as crianças povoavam o átrio da mesma. Muitas saudações, muitos beija-mão, muitos sorrisos. 

Uma grande alegria de rever estes rostos de crianças e adultos, que já fazem parte da minha vida. O carinho que manifestam sobretudo ao abô Rui emociona-me, e às vezes até me faz chorar. (Sim, porque os homens também choram.) 

Depois da entrada organizada, onde cada criança nos saúda (Bom dia professor! Bom dia, professora!), cantámos o hino da escola. Um momento indescritível devido ao entusiasmo com que estas crianças cantam. E eu também vi a Maria João com a lágrima no canto do olho. (Sim, porque as mulheres também choram.)

Quem não estava nada à espera era o João, que foi mandado chamar, a fim de impor o tais de boas vindas às visitas. Creio que ele também se emocionou. Foi o que eu senti no abraço que nos demos.

Foi uma manhã repleta de coisas boas, em que educadores e educandos participaram de alma e coração.

De tarde, fomos visitar a família do Bô Zé e a família do senhor Francisco, pois tinha o donativo dos padrinhos para lhe entregar. Um momento único que muito nos interpelou, pela simplicidade e generosidade com que nos receberam e partilharam o espaço da sua humilde habitação. Que São Francisco olhe também por este Francisco de Boebau!


02.05.2023, terça feira  - O inesperado acontece


Já noite, sentados à soleira da porta, aparece a família Francisco (o próprio, a esposa e o filho Joel) que trazia ao colo um bonito galo, talvez o rei da capoeira, e que eu pensava que seria para vender, com certeza para a luta de galos que por Timor é habitual.

Surpresa! Afinal este galo não é para vender, não. É para oferecerem ao abô Rui, por que lhe estão muito gratos pelo que tem feito por eles. Fiquei sem palavras. E ainda que eu me escusasse a recebê-lo, argumentando que não era necessário, que eu não o podia levar para Portugal, etc, etc... não houve outra alternativa que aceitá-lo e trazê-lo para Ailok Laran, para a casa do Eustáquio, que é onde ele vai ficar, mas com um pedido meu: “por favor não matem este galo. Deixem-no cantar até morrer”. Tenho a certeza de que irão respeitar a minha vontade.

Mas o galinheiro foi crescendo, através de novas ofertas do Cesáreo, do Bô Zé, do Sr. Manuel (antigo comandante de guerrilheiros no tempo da invasão indonésia). Ou seja, quem quer galinhas,  venha até Boebau, e faça por merecê-las.


03.05.2023, quarta feira - Vida dura,  a da montanha!...

Hoje aconteceu aos outros. A angunan do Silvestre, que vai e vem todos os dias transportando pessoas com os seus bens e haveres, de Manati até Liquiçá, estava a tardar em chegar. Com alguma preocupação, tentamos saber o que se passava, pois nunca mais chegava. A Adelina que estava nesta viagem de ida e volta ficou de nos fazer algumas compras, e esperávamos por ela a todo o instante. Por isso pedimos ao Nico, seu marido, que a contatasse. 

Foi então que ela explicou: “ a angunan não pode passar, devido a obras no caminho. Teve de ficar do lado de lá, e nós vamos todos a pé”. Mais de uma hora, de noite, com o peso das compras aos ombros ou na mão. Alguns ainda fomos ao seu encontro, mas já pouco caminho fizemos. Pela luz das pilhas de gente a falar, pdressa nos demos conta que estavam muito perto, quase a chegar. É assim a vida nas montanhas. De repente, surge algo de imprevisto e toca a desenrascar nem que seja fazer o caminho a pé.


04.05.2023, quinta feira  - Instrumento da paz: 
encontro com os desavindos

Ouvi dizer da rivalidade existente, em Boebau, de dois dos meus primeiros amigos, que até são familiares, e que por incompreensão um do outro, até já se ameaçam violentamente (aqui em Timor a arma mais utilizada é a catana). 

Não conforme com esta atitude de vingança mútua, pedi ao Eustáquio que os avisasse de que eu queria ter um encontro com eles. A minha dúvida era se eles aceitariam esse encontro.

À hora marcada, na Escola São Francisco de Assis “Paz e Bem”, aí estava eu, o Eustáquio e os dois desavindos. Como o katuas do grupo pedi a palavra para lhes dizer o motivo desta reunião, apelando à nossa amizade, ao espírito de Paz e Bem de Francisco de Assis, padroeiro da nossa escola, à necessidade de nos perdoarmos uns aos outros nem que seja 70 vezes 7, à concórdia e à união. 

Por sua vez o Eustáquio, pessoa que eles muito estimam e consideram, também lhes falou ao coração. As minhas palavras finais foram:” A decisão é vossa. Mas, eu ficarei muito triste se tiver de partir para Portugal sabendo que vós continuais em guerra. Pelo contrário, ficarei muito, muito contente se perdoarem um ao outro e fizerem as pazes”. 

Dada a palavra a cada um, ambos manifestaram, até com emoção e com lágrimas, que estavam dispostos a perdoar. E agradeceram ao abô Rui ter proporcionado este encontro, pois já há muito tempo que o desejavam, mas ninguém os ajudava a encontrar e perdoar.

Abraçaram-se, perdoaram e até parece que ficaram mais aliviados. Esperemos que este acordo de paz seja duradoiro, e que São Francisco lhes sirva de exemplo e proteção. Quanto a mim, estou feliz por ser, à semelhança de Francisco de Assis, um instrumento de paz.


04.05.2023, quinta feira  - “Cada criança que nasce é sinal...”

“Cada criança que nasce é sinal de que Deus ainda não está zangado com a humanidade”.

Talvez o habitante mais novo de Boebau. Nasceu a noite passada. Os pais, dois jovens que moram mesmo à nossa beira, foram pais pela primeira vez. Agora são quatro, porque vivem em casa da avó paterna.

E, como a criança apresentava bastante fraqueza devido à mãe não produzir o leite suficiente para o amamentar, foi convocada a família com relevo para o irmão mais velho, a fim de fazerem o ritual prescrito para esta situações. A crença desta gente faz-nos pensar e repensar. Acredita quem quiser…

À família, aos pais e à criança, que Deus os proteja. Que o menino cresça em estatura, sabedoria e graça. Parabéns Zé, esposa e menino!


05.05.2023, sexta feira  - Meninas que leem tão bem!

A Adelina, que trabalha na ESFA e ajuda na preparação da liturgia na igreja (capela), transbordava alegria e alguma vaidade ao contar-nos o que as pessoas diziam das meninas Titânia,  alunas da nossa escola, depois de lerem as leituras na missa do domingo passado. 

“Quem são aquelas meninas que leem tão bem?” Pois, estas meninas frequentam o 4º ano do ensino primário da Escola São Francisco de Assis em Boebau. Até nós nos envaidecemos com estes elogios. O que quer dizer que, apesar das dificuldades que a nossa escola enfrenta, nomeadamente com contratação de professores credenciados, o nível de ensino tem-se distinguido pelas boas prestações que alunos e professores têm demonstrado. 

Por vezes, a boa vontade e a dedicação ao trabalho valem mais que canudos e diplomas. Parabéns, meninas e “professores” ! Continuem a fazer o melhor que souberem. O nosso apoio nunca lhes irá faltar...


05.05.2023, sexta feira - Um “adeus” sentido

Só eu sei por quê. Mas esta despedida da escola, dos lugares, das crianças e das gentes de Boebau custou-me muito. Que seja o que Deus quiser.

À hora combinada lá estamos nós de partida, rumo a Dili. Talvez a viagem menos penosa das que fizemos de Boebau/Liquiçá, percorrendo outros caminhos. Mas, como diz o ditado, “todos os caminhos vão dar a Roma”. Por isso a chegada ao destino processou-se dentro da normalidade.

Obrigado, Maria João e João Picão,  pela vossa disponibilidade e generosidade. É dando que se recebe, e penso que depois de tudo o que destes a esta gente também vos sentireis “de alma cheia” com esta experiência radical. “Adeus! Adeus! Adeus, Maria João”, cantavam as crianças, com música do Avé de Fátima. Inesquecível!...


10.05.2023, quarta feira - Em digressão

Merecido ou não, resolvemos dar uma volta turística por Timor-Leste. A comitiva destes dias (Eustáquio, Maria João, João Picão e eu) partiu de Dili rumo a a Baucau, Los Palos, Tutuala e Com, à procura das paisagens e das pessoas maravilhosas deste país. 

Se não fora as estradas com péssimo piso que tivemos de percorrer, diríamos que este passeio teria sido o máximo. Mas, feitos os descontos desta carência, podemos dizer que valeu bem a pena. Foram três dias maravilhosos. 

Então a estadia em Com, roçou a imagem do paraíso na terra. Que beleza de mar, que esplendor do sol poente e do sol nascente, que delicadeza destas gentes! Mais a mais, Com é terra que viu nascer Kon Santana, um dos heróis da resistência que sucedeu a Xanana Gusmão após a sua prisão pelas forças indonésias. 

Com foi também o palco principal para observar o fenómeno natural do eclipse solar que ocorreu no passado mês de abril. Observadores de todo o mundo (até dois portugueses) instalaram-se aqui para contemplar esta maravilha. Não estranho nada a atitude contemplativa de Francisco de Assis ante o Irmão Sol e o cântico que compôs chamando irmãs a todas as criaturas.

Depois foi o caminho do regresso, percorrendo as estradas (?) que nos conduziram a Dili.


16.05.2023, terça feira - Alvorada ou Desgarrada?

Ao ouvir todos os dias, logo de manhãzinha, o canto dos galos fico a pensar no termo correto: Alvorada ou Desgarrada?

Ainda que o seu canto pareça ser uma repetição, cada vez que os ouço cantar encontro nuances em cada resposta que me encantam e me dão vontade de entrar também no desafio. Então o meu Xico, que posso observar bem perto, enche bem o peito de ar, estica-se todo e bota lá de dentro um vozearão que o faz campeão, solista principal, desta alvorada matinal. À hora certa, aí está ele a desafiar. Já tentei responder-lhe, mas ele vence sempre, é mais forte do que eu, canta bem melhor do que qualquer um. “O nosso galo é bom cantor”, diz a canção. Foi feito para cantar. Por isso já deixei expresso o meu desejo, a minha ordem que, enquanto ele assim cantar não o podem vender e muito menos matar. Pois “quem canta, o seu mal espanta”.

“...ó do qui ri qui - có ró có - cá rá cá / Festa como a nossa no mundo não há!”

(Seleção / revisão e fixação de texto / negritos / subtítulos: LG)

(Continua)
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