quarta-feira, 18 de julho de 2018

Guiné 61/74 - P18855: (De) Caras (116): "Meninos-soldados" ? Os do PAIGC, os da CCAÇ 12...



Foto nº 1 > Wikimedia Commons > ASC Leiden > Coutinho Collection > C40 > Walk from Candjambary to Sara > Guinea-Bissau > Military escort with rifle during trip [Militar – criança-soldado? – do PAIGC, armado de Kalashnikov (AK-47), durante uma escolta]. (*)

Foto de Roel Coutinho (1974),  da série PAIGC Military, Guinea-Bissau, Coutinho Collection 1973-1974 (vom a devida vénia...).



Foto nº 2 > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Contuboel > 1969 > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > > O Valdemar Queiroz, com os recrutas Cherno, Sori e Umarau Baldé  (que irão depois para a CCAÇ 2590 / CCAÇ 12). Estes mancebos aparentavam ter 16 ou menos anos de idade. Eram do recrutamento local.

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Estas duas fotos podem querer sugerir que tanto o PAIGC como nós usámos "crianças" na guerra... Pontualmente ? Em maior ou menor escala ?

Eu, o Valdemar Queiroz, o António Marques e outros camaradas que integram a nossa Tabanca Grande, que estivemos a dar instrução, entre abril  e julho de 1969 (eu só entre junho e julho de 1969),  a mancebos que depois foram integrar as futuras CART 11 / CCAÇ 11 e CCAÇ 12, sabíamos da existência de "djubis", de idade mal definida, recrutados com 16 anos ou menos anos de idade, "meninos de sua mãe" que depois se fizeram bravos soldados... 

Comentei, por outro lado, que achava estranho que um médico europeu, holandês, como o dr. Roel Coutinho, embora jovem e em "missão humanitária", não se tenha percebido, em 1973 e 1974, da utilização de meninos-soldados por parte do PAIGC (, pelo menos em escoltas militares, na evacuação de feridos...) e não tenha alertado para (ou  denunciado) esse facto... 

Em Contuboel, no Centro de Instrução Militar de Contuboel, também nenhum de nós se "apercebeu" dessa situação, ou "apercebeu-se" mas não lhe deu importância... Afinal, com mais meia dúzia de anos, nós também éramos "meninos.de sua mãe", à espera do batismo de fogo... Os nossos soldados do recrutamento local não tinham cédula pessoal nem bilhete de identidade, como era normal na África colonizada pelos europeus... Confiávamos nos recrutadores, nos régulos e nos chefes de posto... EmPortugal, nas Forças Armadas Portugueses só se aceitavam voluntários com a idade legal mínima de 16 anos....

O militar da foto nº 1, armado de Kalash, é uma criança, um adolescente!...O nosso editor Jorge Araújo ainda pôs um ponto de interrogação...   Infelizmente é uma situação em todas as guerras, e ainda hoje,  em especial em África... Naquela época, nós fechámos os olhos a casos como o do Umaru Baldé (**) e outros (o Cherno, o Sori...) e o PAIGC terá feito  o mesmo... Tudo o que vinha à rede era peixe... Ou, como diz o nosso povo, "o trabalho do menino é pouco, mas quem não o aproveita é louco",,,  (LG) (***)
_____________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 15 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18848: (D)o outro lado do combate (34): A logística nas evacuações dos feridos do PAIGC na Frente Norte: um itinerário até ao hospital de Ziguinchor (Jorge Araújo)

(**) Vd. poste de 26 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16525: (In)citações (100): As outras cartas da guerra... Do Umaru Baldé, da CART 11 e CCAÇ 12, para o Valdemar Queiroz (Parte I): "Filho único e menino, minha mãe chorou quando, em 12 de março de 1969, alferes me foi buscar a Dembataco para defender a pátria portuguesa"


[Carta sem data nem local, tem a foto do Umaru Baldé ao canto superior esquerdo]

AMOR NUNCA ACABA

Amor nunca acaba,
ninguém esquece dos passados ceja [seja] bem ou de mal,
eu me lembro de dia 12 de março de [19]69, quando foi [fui]
chamado para [a] vida militare [militar] Portugues[a]. 


Na verdade eu tinha pouco[s] anos de idade e eu era
único filho de o meu pai, e na verdade minha Mamãe
revoltou[-se], disse que eu não tenho [tinha] idade para ir na guerra, mas a pena [é que] Alferes que tinha vindo para nos levar, não podia ouvir esta revolta, Alferes disse-nos todos somos Portugueses, saímos [de] muito longe para defender [a] Pátria Portuguesa, antão [então], para povo saber que [em] Portugal não há raça nen [gente] de cores, todos [todo] cidadadão tem que ir cumprir serviço militar português.

Minha mamãe chorou, disse ai, meu Deus, tenho meu filho único
que vai me deixar para ir morrer na guerra. 

Esta data era[foi] dia  de tristeza i [e] lágrimas para [o] povo de Demba Taco e Taibatá, na  verdade ficámos até às 4 horas das tarde [até] entramos no [bas] viaturas militares para Bambadinca.

Eu com a pouca idade que eu tinha, o que podia fazer ? Todo como homem, que sou, quando foi [fui] na recruta [em Contuboel], foi [fui] o melhor apontador de morteiro 60 [...] Depois,  na especialidade foi [fui] levado para mesmo na primeira companhia [que] foi na CCAÇ 2590 [/] CCAÇ 12] onde nunca esqueço [o] sufrimento [sofrimento] que sofri para [pela]
Minha Pátria Portuguesa, na Guiné Portuguesa.

Na verdade, [em] dois anos e alguns meses que fez [fiz] como operacional, fez [fiz] 78 operações no mato do Xime, [na] zona do Xitole e até [em] Medina [Madina] do Boé, ao lado de Ganjadude [Canjadude]. Na minha companhia,  durante dois anos só sofremos 5 soldados [mortos], 4 pretos e um vranco [branco].
Depois fui transferido para Bissau como primeiro cabo, onde fui colgado [colocado] no comando das transmissões [, quartel de Santa Luzia,] até ao fim de[da] guerra em 1974. [...]




(***) Último poste da série > 13 de julho de  2018 > Guiné 61/74 - P18843: (De) Caras (115): O João Rocha (1944-2018), em Bissau e em Brá, nos primeiros tempos do BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70) (Fernando Calado)

9 comentários:

Anónimo disse...

Pois é, este Poste e respectivo manuscrito nem precisa de comentários, está tudo lá, como se diz, a imagem vale por mil palavras. Eu cheguei a ver meninos - para mim eram homens maiores do que eu - quer do Gabu, quer em São Domingos, tínhamos duas Companhias de Caçadores Nativos. No Coment.

Mas isto não acabou aqui na nossa Guiné, basta lembrarmo-nos dos diamantes de sangue, da Serra Leoa, eram meninos de 10 e 12 anos, penso eu de que... e alguns até eram treinados para matar os próprios familiares...

Também o Hitler nos últimos momentos da sua guerra, foi buscar meninos de 14 anos ou menos, para mandar para as frentes de batalha, como carne de canhão...

E ficamos por aqui.

Nós tínhamos todo o mundo contra nós, parece que tinham inveja de conseguirmos aguentar uma guerra em 3 frentes com uma população diminuta. Claro que as populações indígenas da Guiné, como portugueses que eram, tinham que defender também a sua pátria, por muito que custasse â mãezinha, também cá custava muito às nossas mãezinhas ver filho a partir para a guerra para muito longe, e nunca mais voltar!

VT/.

Anónimo disse...

Este menino grande da foto 2, o primeiro da esquerda, é o mesmo da nossa Tabanca, o Cherno Baldé?
E o nosso tropa é mesmo o Valdemar Queiroz que anda sempre a pegar comigo?

Ali parecia bom rapaz, mas os anos não perdoam, não quero dizer que não o seja agora, é como eu, a gente ficou passado da tola, nada a fazer, por mim falo.

VT/.

Tabanca Grande disse...

Virgílio, não é o Cherno Baldé, o nosso colaborador permanente, gestor de projetos, que deve ter hoje 57/58 anos... Estes putos, que fizeram a recruta com o Valdemar Queiroz e outra malta da CART 2479, vieram depois para a minha companhia, CCAÇ 2590/CCAÇ 12... Demos-lhes a instrução de especialidade, em junho/julho de 1969... Deviam ter nascido em 1953/54, teriam portanto 15/16 anos...

Quanto a ti, eu e o Valdemar, somos todos...bons rapazes e melhores camaradas!... Nunca esqueçamos o enfoque especial deste blogue, que é de partilha de memórias, e não "arma de arremesso"... Um abraço para todos, Luis

Valdemar Silva disse...

Como é visível na minha foto, o Umaru Baldé, o 1º da lado drt. da foto, é mais baixo que eu (1,68m)e aparenta ter 15-16 anos. Anos mais tarde, em 1999/2000, quando nos encontramos na Amadora, ele era bem mais alto que eu e mediria mais de 1,80m. Os outros também eram muito jovens e o Cherno Baldé não é o mesmo que nos presenteia com os seus escritos no nosso blogue.
Quanto ao resto e por muito civilizados que sejam os povos, nas guerras as crianças sempre foram utilizadas como soldados, mas quer me parecer que nesta foto do puto do PAIGC seja 'mais para o fotografia', a arma é boa demais para a sua idade.

Ah! eu nunca me passei da tola e continuo a ser um bom rapaz.
Valdemar Queiroz

Tabanca Grande disse...

Foto nº 1: Podes ter razão, Valdemar, uma "pose" para a fotografia... O puto nao traz cartucheiras nem usa a farda dos guerrilheiros do PAIGC... Pode ser que viesse so a acompanhar o ferido. e na ocasiao desse um ajuda a alguem da escolta, no transporte da arma... E possivel... Ab, LG

Anónimo disse...

Caro Camarada Valdemar,

Porque tenho estado ausente, por motivos profissionais, não me foi possível participar, em tempo útil, no debate do poste anterior. Vou fazê-lo oportunamente em novo texto, aprofundando um pouco mais o que ficou escrito.

Quanto "ao puto do PAIGC e à sua arma... boa demais para a sua idade", acredita (se quiseres) que a foto traduz a actividade daquele jovem, e a sua divulgação é, para mim, uma forma de denúncia da realidade daquele tempo que o Dr. Roel Coutinho fez questão de gravar, fazendo-a incluir no seu álbum de memórias (1973-1974), agora tornado público.

Um abraço para o colectivo tertuliano.

Jorge Araújo.

Antº Rosinha disse...

O doutor e treinador português Carlos Queiroz, como treinador da selecção portuguesa de sub 20, (1989/90/91 queixou-se publicamente que a selecção da Nigéria adversária de Portugal, já eram velhos demais para jogarem naquela categoria.

Claro que houve reacções contra ele, (FIFA e Nigéria) mas como Queiroz era moçambicano, podia falar à vontade porque sabia que pouca gente o poderia contradizer porque ele sabia que os registos em África, naqueles tempos e ainda hoje, não são muito fiáveis.

E tal como nós aqui vemos pelas fotos quem era maior ou menor de 20, também os jornalistas exibiram fotos de jogadores nigerianos, e alguns eram gajos de barba bem rija.

Mas também eles podiam afirmar à vontade que tinham menos de vinte, com as mesmas razões.

Quando do 25 de Abril, só um partido habitava em Angola com o seu exército ou parte dele, que era a UNITA e alguns tropas deles se deixaram ver por brancos e negros, ao natural.

Mais de 30 ou 40 (um pelotão?), eram todos bem novinhos, por estarem muito magros pareciam meninos 13/14 anos os mais velhos, uma arma menor que a Kalash, 2 0u 3 balas cada.

No entanto, escondidos e envergonhados (impressão minha instantânea)no mato, como eu os vi, e falei, não tenho dúvida que bem comandados, deviam ser perigosíssimos.

Não deve ter escapado nenhum em 30 anos de guerra que se seguiram, contra cubanos e FAPLA.





Tabanca Grande disse...

Só agora dei conta que a foto nº 1, do dr. Roel Coutinho, aparece na Wikipédia, para ilustrar a entrada sobre "criança-soldado"... Legenda (sem referência ao autor da foto): "Escolta militar com fuzil AK-47 durante o caminho, Guinea-Bissau. Criança-soldado do PAIGC, 1974."

Segundo este artigo, "criança-soldado é o termo que refere-se a menores que estão ativamente envolvidos em guerras e outros conflitos armados. Atuam não somente em combates, mas também servindo como cozinheiros, espiões, carregadores ou mensageiros.(...)

Este tipo de organização existe principalmente na África e em países em guerra civil, onde não há organização legal para os exércitos.

Um dos relatos mais conhecidos de criança-soldado está no livro 'A Long Way Gone: Memoirs of a Boy Soldier', escrito por Ishmael Beah, um ex-combatente de Serra Leoa.

O Conselho de Segurança da ONU estima um número de 300 mil crianças-soldados espalhadas por pelo menos 86 países. (...)

https://pt.wikipedia.org/wiki/Crian%C3%A7a-soldado

Anónimo disse...

Ali parecia bom rapaz, mas os anos não perdoam, não quero dizer que não o seja agora, é como eu, a gente ficou passado da tola, nada a fazer, por mim falo.

Pois quando escrevi isto, queria referir-me somente a mim, passado da tola, mas bom rapaz, ainda.

Vamos acabar de vez com estes atritos, eu não tenho jeito para isso e a minha cabeça está mesmo passada, aliás pode ver-se.
VT/.