quarta-feira, 18 de julho de 2018

Guiné 61/74 - P18856: Historiografia da presença portuguesa em África (124): 1917: O BNU na Guiné e as convulsões republicanas (1) (Mário Beja Santos)


A Catedral de Bissau numa imagem de 1954, na obra de propaganda “Fotografias Guiné, Início de um Governo”, referente à chegada à Guiné do Governador Mello e Alvim.


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Fevereiro de 2018:

Queridos amigos,
Na documentação avulsa existente no Arquivo Histórico do BNU encontrei uma interessantíssima documentação saída do punho do Inspetor João Jacinto David que viera de Angola para analisar a situação do BNU em Bolama e observar de perto a instalação da filial de Bissau.
Apercebeu-se de várias coisas: os azedumes à volta do Governador Andrade Sequeira, que não terá deixado grandes estimas na Guiné naquele período de inquéritos a Teixeira Pinto e em que Abdul Indjai é já publicamente tratado como um vilão; e o gerente Moreira, de Bolama, parecia agir por conta própria, intimidava, o inspetor David faz-lhe a cama.
E há tumultos republicanos por aquelas bandas, como iremos ver mais adiante.


1917: O BNU na Guiné e as convulsões republicanas (1)

Beja Santos

Em 1917 o inspetor David vem de Benguela até Bolama, cabe-lhe inspecionar as contas e o funcionamento dessas instalações e apurar o que se está a fazer para instalar a agência de Bissau. É um período de enorme agitação: o governador, o Tenente-Médico Andrade Sequeira confronta-se com Teixeira Pinto e Abdul Indjai, a Liga Guineense divide-se em fações, perante a atitude do governador, Abdul Indjai é responsabilizado pelo chamado massacre de Bor, terá atraído uns régulos que mandou chacinar. A desunião entre republicanos também é evidente. Chegará um novo governador, o Coronel Manuel Maria Coelho. Convém não esquecer que em princípios de 1916 Portugal entrara na I Guerra Mundial.


Foi no Arquivo Histórico do BNU que encontrei algumas peças que melhor clarificam a história do Banco a partir de 1902 e revelam as lutas encarniçadas entre diferentes fações, tudo graças à profusa documentação que o Inspetor João Jacinto David vai enviando para Lisboa.




Vejamos os dados históricos que o Inspetor regista sobre o BNU no seu relatório:

“Durante os sete anos decorridos desde 20 de setembro de 1902, data em que foi aberta a agência, até 31 de dezembro de 1909, estiveram os negócios da agência confiados aos empregados do negociante A. S. Gouveia. No decurso daquele período de tempo, sofreu o Banco o prejuízo de 16 contos, sem que a agência prestasse qualquer serviço de especial apreço.
Reconhecendo a Exma. Gerência que semelhante situação era inconveniente e prejudicial aos interesses do Banco, resolveu, em louvável acerto, escolher o Sr. Victorino José Pereira para vir desempenhar o cargo de gerente.
Assumiu as funções do seu cargo em janeiro de 1910, instalando a agência em um modesto e mesquinho quarto no rés-do-chão do prédio onde funciona a Repartição de Fazenda, e por esta cedido gratuitamente por algum tempo.
Sendo deprimente e insuficientíssima uma tal instalação, deliberou a sede mandar construir um prédio para uso exclusivo da sua agência, adquirindo-se para o efeito em setembro de 1912 dois talhões de terreno em bom local.
Em abril de 1914, ajustou-se por escritura de empreitada com o carpinteiro António dos Santos e o pedreiro José Gaspar Júnior a construção do prédio por 19 contos. Mas quando a obra ia adiantada e o prédio estava em vias de conclusão (março de 1915), abateram as paredes, arrastando o telhado e destruindo quase todo o trabalho feito!
Não dispondo os empreiteiros de recursos para suportar o prejuízo, viu-se o Banco, pela força das circunstâncias, na necessidade de reconstruir o prédio à sua custa, despendendo quase o dobro da quantia primitivamente ajustada e gasta”.

A documentação do Inspetor David traz observações do maior interesse. Vejamos o que ele escreve de Bolama para Lisboa em 12 de março de 1917:
“Governador da Província Sequeira. Está ausente da província desde julho do ano passado e creio que não voltará a ocupar o cargo, tantas e tão sérias são as irregularidades apuradas na sindicância aos seus actos a que está procedendo o Governador-Coronel Manuel Maria Coelho. Pelo menos, assim me foi afirmado por pessoa de confiança e da intimidade do Coronel Coelho.
O Governador Sequeira foi um fraco que se deixou dominar por completo pelo círculo que o rodeava constantemente, nele incluído o Secretário do Governo Sebastião Barbosa. Operando todos juntos, tiveram a habilidade de intrigar o governador com quase toda a gente.
Para se avaliar do procedimento do Sr. Sequeira, bastará dizer que só agora estão sendo publicadas por ordem do Sr. Coelho as portarias dimanadas do Governo Central com data de Abril do ano passado, em que o Governador Sequeira é censurado asperamente e se dá razão a funcionários por ele perseguidos.
Parece-me que a uma autoridade dotada destes predicados que obriga o Governo a mandar à Província um oficial superior do Exército para sindicar dos seus actos falta autoridade moral para censurar ou se queixar seja de quem for, desde que se colocou uma situação deprimente de todos conhecida”.

O gerente de Bolama, nestes relatos, aparece como um cafajeste. O inspetor David junta ao seu relatório uma carta recebida em 5 de maio de 1917 do comerciante João Baptista Pimentel. Vale a pena proceder à sua leitura:
“Com o devido respeito e consideração, tenho a honra de levar ao conhecimento de V. Ex.ª. um facto que se deu há pouco tempo, entre mim e o actual gerente dessa agência.
Indo eu no dia 2 do corrente a essa agência fazer um depósito da mesada da minha família, fui convidado pelo Sr. Gerente Moreira a falar com ele no seu gabinete.
Julgando eu que o referido gerente pretendesse falar comigo acerca de qualquer assunto comercial, acedi ao convite. Sem mais nem menos fez-me esta pergunta: ‘o senhor quer fugir ao contrato que fez com o Carvalho?’.
Porquê? – respondi-lhe eu.
Porque fez com o Carvalho um contrato de 150 toneladas de mancarra que não quer cumprir.

Então esclareci o caso, dizendo-lhe que tinha combinado em Bissau com o Sr. Carvalho (gerente da casa comercial Salomão, Pereira, Neves & Cª.) fornecer-lhe 150 toneladas de mancarra, sob a condição de não adiantar dinheiro suficiente para a compra desse produto, e que não tendo o Sr. Carvalho cumprido com o que me prometera, resolvi não lhe entregar senão a quantidade de mancarra equivalente ao débito que, antes da aludida combinação, eu tinha com a firma Salomão, Pereira, Neves & Cª.

Depois do Sr. Moreira reconhecer que eu estava resolvido a não entregar as 150 toneladas de amendoim ao Sr. Carvalho, apresentou-me um livro dizendo: ‘Sabe o que é isto?’ – ‘Olhe: isto é o livro negro, todo o nome que para aqui vier perde crédito no Banco, se o seu figurar aqui não só o Banco lhe corta o crédito como também a Casa Gouveia, a Companhia Agrícola dos Bijagós e Jansens.

A maneira autoritária e descortês com o que Sr. Moreira me dirigiu esta ameaça, levou-me a dizer-lhe que enquanto tivesse braços não precisava dos seus favores, nem do Banco nem de qualquer casa comercial que pusesse em dúvida a minha honestidade. Mais lhe disse ainda que não devia favores ao Banco nem tão pouco a ele, ao que me respondeu dizendo que eu devia favores ao Banco pois tinha levantado dinheiro aí.
Fiz-lhe então ver que pelo facto de essa agência me aceitar letras não me considerava devedor de favores do Banco, mas sim ao sacador.

Nunca julguei, Sr. Inspetor, que o Sr. Moreira na qualidade de gerente pudesse arvorar-se em advogado de qualquer estabelecimento com o fim de me censurar ou vexar.
A má vontade do Sr. Moreira para comigo vem de longe, porque, possuindo eu bens no valor superior a 6 contos, não tem aceitado letras de valor de 150 escudos quando me prontifico a servir de sacador. V. Ex.ª., crendo, pode examinar os documentos existentes nos arquivos dessa agência para se certificar que nunca foi protestada qualquer letra minha.

Em 1916 paguei nessa agência 7.800 escudos; de janeiro a abril do corrente ano paguei ao Banco mais de 6 contos de fornecimentos enviados de Lisboa, apesar da grande crise que atravessa esta Província.
O actual gerente, ao que parece, jurou aos seus manes vingar-se de mim.
De quê? – Não sei.
Desculpe-me V. Ex.ª. a incorrecção das frases e o incómodo que lhe dei, prendendo por alguns momentos a sua atenção”.

A partir de junho, nos documentos enviados pelo inspetor David, o gerente Moreira será posto num banco de réus.

(Continua)
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Nota do editor

Último poste da série de 11 de julho de 2018 > Guiné 61/74 - P18835: Historiografia da presença portuguesa em África (123): Sobre as fortalezas da Guiné e da África Oriental, pelo Capitão Henrique C. S. Barahona; Typographia do Commércio, 1910 (Mário Beja Santos)

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