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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Guiné 71/74 - P28331: Manuscrito(s) (Luís Graça) (294): Parabéns, Zé, ao km 78 da tua picada da vida, que também tem tido minas e armadilhas como a de todos nós...



José Ferreira Carneiro, n. 8/9/1948.
Candoz, Paredes de Viadores,
Marco de Canaveses


Região do Vinho Verde,  
Subregião de Amarante,
Quinta de Candoz


Começou a trabalhar cedo, 
aprendiz de ramadeiro, com o pai,
construtor de ramadas


Mobilizado para Angola, em rendição individual, em 1970/72, numa companhia, que guardava os cafezais,  em Camabatela, no norte de Angola, perto de Negage e de Quitexe (CCAÇ 313, do BCAÇ 13, sedeado em Vila Salazar)


Reformado, dedica dois dias por semana 
à Quinta de Candoz


Casada, em segundas núpcias, com a Teresa,
vive em Matosinhos, Padrão da Légua


As cubas para o vinho há muito que são de inox, 
mas ainda há velhos depósitos de cimento armado...


No outono adora apanhar cogumelos


Velha foto estilizada da família: pais (José Carneiro e Maria Ferreira, já falecidos) e irmãos, segundi a ordem de idade  (António, Rosa, Manuel; Nita, Zé e Alice)... O António esteve no Brasil, foi mobiizado para Moçambique, em 1964, onde foi gravemente ferido... A Nita, faleceu em 2023.


Sócia da Quinta de Candoz, com mais 3 irmãos (Rosa, Alice e Zé), a Nita foi em vida a alma da "casa"

A Quinta de Candoz tem  página na Net

A Alice ("Chita") sempre gostou muito deste maninho...


Na festa dos seus 70 anos, pai e filho (a mãe, a Carmen, morreu cedo)


A família também um blogue, A Nossa Quinta de Candoz



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça (2026)
Imagens: Arquivo dos Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné e A Nossa Quinta de Candoz
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


 
Ao Zé, no seu 78º aniversário


Nascido em Candoz, em Entre-Douro-e-Minho,
De empresa de seguros foi tesoureiro,
Mas começou por aprendiz de ramadeiro,
E agora engarrafador-produtor de vinho.

Técnico de gás, profissional liberal...
Homem dos sete ofícios, é um jeitosinho,
José Ferreira Carneiro, nosso maninho,
Também foi parar à guerra... colonial.

E esquecidas, do trabalho, as mazelas,
Setenta e oito anos já foram passados,
Nunca se queixando da perna nem das costelas.

... E tudo fazes por amor, a todos nós,
Os pais e a mana Nita sempre lembrados,
Mas  hoje, Zé, é tua a festa  em Candoz.

Quinta de Candoz,
8 de setembro de 2026, 
dia da festa de Nossa Senhora da Natividade do Castelinho,
Padroeira do concelho de Marco de Canaveses.


A família de Candoz, Porto, Matosinhos, Lourinhã e Lisboa




1. Não fala da guerra colonial. Não fala com emoção desse tempo. Passou, passou, o tempo da tropa e da guerra. Nunca se encontrou com nenhum camarada daquele tempo. Perdeu todos os contactos. Era de rendição inidvidual. Mas gostou de Camabatela e de Luanda.

Era 1º cabo de transmissões de infantaria, Andou na região do café, com a sua companhia mista de metropolitanos e angolanos (CCAÇ 313 / BCAÇ 13) a guardar as costas dos grandes fazendeiros do café. 

Nunca veio de férias. Pelo SPM, a mãe mandava-lhe os salpicões com que matava saudades de casa, a 8 mil quilómetros de distância.  

Mas não ficou na terra, Candoz, Paredes de Viadores, o apelo da cidade grande era maior. Mudou-se para o Porto. Lá podia estudar e fazer-se homem. Nunca gostou da escola. A professor estava alojada na casa dos pais. E batia-lhe à frente deles, e com a cumplicidade deles. Como é que ele haveria de gostar da escola ? Só depois da "peluda" é que fez o segundo ano da escola comercial (regime noturno).

Hoje já tem gmail, como qualquer português que se preze. Mas não faz parte da Tabanca Grande, até porque não esteve na Guiné. Por sorte, é cunhado do editor do blogue (e seu sócio... por estar casado com a Alice).

E é legalmente o produtor-engarrafador do nosso vinho "Nita".  Ele é o mais novo de seis. O caçula.

É trabalhador, é leal, é alegre, é efusivo, é generoso.  É uma "besta de trabalho". Tem às vezes azar com o "esqueleto". Já foi operado à coluna. Já partiu uma perna. E já teve uma ameaçozinho de AVC. 

Aqui vai, com todo o carinho que temos por ele,  eu, a Alice e demais família, um soneto para o nosso Zé, que só amanhã vai ter direito a festa e a rancho melhorado. Mesmo em dia de anos, há imprevistos.  E Candoz fica a 70 km do Padrão da Légua, já nio limte do distrito do Porto. 

Amanhã, é quarta feira, é dia de trabalho. É preciso preparar tudo para as vindimas, marcadas para os dois próximos fins-de-semana.  Mas vou ler-lhe, comn todo o gosto, este soneto e beber comn ele uma "champanha".

________________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 18 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28268: Manuscrito(s) (Luís Graça) (293): À Alice, oferta do livro "Luuanda: estórias", do José Luandino Vieira, com dedicatória, dactilografada, em francês, e datada de 17 de maio de 1975

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28326: (De) Caras (254): Fiquei tão emocionado que tive de parar de ler o texto... (João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70; a viver no Canadá desde fevereiro de 1974)


Excerto da BD que lhe dedicámos (*)



João Bonifácio,
Có, natal de 1968

1. Em resposta à mensagem que lhe mandámos, ao João Bonifácio, com data de 27/08/2026, 12:59:

João, agora és herói de BD (*).  Não leves a mal a brincadeira, nem as imprecisões. Infelizmente não tenho uma foto tua atual... É uma pequena homenagem dos teus amigos e camaradas da Guiné...

Saúde e longa vida que tu mereces tudo. Luís.


2. Mensagem do John Bonifacio (ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70;  a viver no Canadá desde fevereiro de 1974)


Data - sábado, 29/08/2026, 08:06
Assunto - Viva o nosso John Bonifacio
 
 
Em Oshawa são 1.38 da manhã,  de 29 de agosto, quase 7 da manhã em Lisboa. Bom Dia para o Luís e todos os que colaboram na manutenção deste formidável blogue, que sem grande esforço nos transporta para um período que ainda hoje é lembrado em reuniões de jantares embora com cada vez menos camaradas e famílias.

Nao penso ser apropriado abordar os motivos da falta de comparência. Todos nós sabemos que a idade, as distâncias e transportes, portagens e saúde geral, marcam ou limitam a nossa maneira de estar na vida. Tal como eu que estou longe, apenas desejo que no dia 5 deste mês, o jantar da CCAÇ 2402, possa ser um bom e saudável convívio de amigos.

Caro Luis: muito grato pelo esforço demonstrado na minha história de vida. Como eu diria em Bula, quando chegámos â Guine, em circunstância alguma  um militar não chora. Tal não é verdade, pois eu fiquei tão emocionado que tive de parar de ler o texto, que eu e a minha esposa estávamos a ler. 

Posso dizer que é uma historia normal e cheia de drama em alguns casos. Quando se emigra para um país, onde já vivam familiares ou amigos, as dificuldades de adaptação são muito menores. Se assim for, e se juntar o conhecimento da língua desse país, então ficamos mais tranquilos, pois não necessitamos de andar com o tradutor às costas.

Quando eu cheguei ao Canadá em fevereiro de 1974, ainda haviam muitos portugueses a chegar para trabalhar. Em geral,  e como ja referi, as dificuldades são apenas proporcionais às qualificações e à atitude de querer vencer. Hoje, e por erros até dos governos, não há chegadas de portugueses. Nem estes nem outros de origens diferentes. 

Com o respeito que cada um merece, hoje vive-se numa mão de obra barata, de famílias que chegam a Toronto oriundas dos países do Médio Oriente. Antes desta invasão humana, uma casa custava menos de 400 mil dólares. Hoje a mesma casa custa quase um milhão de dólares. Nesta tempestade financeira, existem pessoas que compraram há anos uma casa por 300 mil e venderam em alta por 1 milhão. E aqui podemos ver a diferença.
 
Agora e o mais resumido possível, vou indicar ao Luís que o trabalho que fiz no Rédio Clube Português foi ajudar os dois apresentadores, sendo responsável pela tradução de todas as notícias. Estas eram lidas em períodos de hora a hora, normalmente por mim e os blocos de noticias com dois a apresentar, mas em que eu fazia o desporto do Canadá, de Portugal e do mundo. Eram todos muito profissionais e um trabalho onde se aprende a estar em cima do conteúdo da noticia.

Quanto às pequenas empresas: eu tinha algumas escritas e fazia outras para um contabilista encartado. Era um trabalho que requeria pormenor, mas que era em Portugal o meu mundo.
 
Nas agências de viagens eu gastei mais tempo, porque trabalhei em três, onde controlava tudo na agência e ainda ajudava a processar reservas, não só para Portugal como para outros pontos do mundo, incluindo as ilhas para o sul dos EUA.

Finalmente o nosso Oshawa Portuguese Club (OPC)... Foi fundado em 1 de fevereiro de 1978, inicialmente por mim, um familiar e um amigo, e depois ficámos maiores devido a termos representantes distritais de Portugal, Açores e Madeira. 

Todos os sábados haviam os bailes com boa música com a presença de grupos muito bons que tínhamos em Toronto. Atualmente somos menos associados, devido à imigração não existente, envelhecimento e pessoas que nos deixaram. Promovemos jantares, bailes, noites de Fado, temos um grupo folclórico e enchemos casa no verão durante a Fiesta Week, onde todos os clubes fazem o melhor para terem uma presença digna no desfile de ranchos e carros alegóricos. 

Foi uma honra ter fundado o OPC, como foi sempre uma alegria imensa em apresentar 5 festivais da Miss Portugal, dentro dos moldes profissionais. Também participei como Pai Natal, apresentei ranchos e artistas que nos visitavam. Também fui relações públicas durante a Fiesta Week, pois era habitual sermos visitados pelas entidades locais.´

 Caro Luis: cheguei ao fim. Obrigado pela atenção dispensada e podes modificar ou encurtar o texto se assim achares bem.. A ideia é esclarecer, mas sente-te livre de poder fazer o que for bom para o nosso blogue. O mesmo se achares que é longo e se acrescenta ou não algo para os que pensam emigrar.

Como já disse antes, aos futuro emigrantes, é preciso dar tempo ao tempo. No fim, tudo ficará bem. Felicidades a todos os nossos camaradas e dirigentes do Blogue. (**)

Joao G Bonifacio
Ex-Furriel Mil do SAM
Guine 1968/70
CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851


(Revisão / fixação de texto: LG)
______________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 27 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28299: (De) Caras (252): João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70): história de vida um emigrande no Canadá, em BD

(**) Último poste da série > 2 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28313: (De) Caras (253): Manuel Joaquim (ex-fur mil arm pes inf, CCAÇ 1419, Bissorã e Mansabá, 1965/67): escreveu-nos o último mail há 4 anos, por razões de saúde do foro oftalmológico deixou de poder ler o blogue... Temos de arranjar outra maneira de o blogue chegar até ele...

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28296: Tabanca da Diáspora Lusófona (44): A minha ida para o Canadá, em fevereiro de 1974 (João Bonifácio, ex-fur mil SAM, CCAÇ 2402, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)









Capa da brochura "Memórias da CCAÇ 2402 (Guiné 1968/1970), Volume II", mimeog", 2008, páginas inumeradas,il. (Coordenação: Raul Albino, 1944-2020).


Ele foi um dos colaboradores deste II Volume, juntmente com o ex-cap inf Vargas Cardoso, também já falecido em 2023,  e de outros camaradas como o Carlos Sacramemto, Carlos Santiago, Carlos Costa, Joaquim Ramalho, Maurício Esparteiro, António Maria Veríssimo, António Fangueiro da Silva, e o próprio Raul Albino. O João Bonifácio é membro da nossa Tabanca Grande desde 1 de dezembro de 2006.

Em homenagem ao Raul Albino, ex-alf mil da CCAL 2402, que nos deixou em plena pandemia  (, aliás foi o próprio João Bonifácio que nos deu a triste notícia),  reproduzimos no poste P21652 dois aponatmentos sobre o Natal de 1968 e de 1969, da autoria do João, incluidos naquela brochura.

As fotos de cima (e as legendas) são do João G. Bonifácio, ex-fur mil SAM, da CCAÇ 2402 (Có, Mansabá e Olossato, 1968/70), a viver no Canadá (Oshawa, Ontario).

Fotos (e legendas): © João Bonifácio (2008. Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]






A história da minha ida para o Canadá, em 1974

por João Bonifácio

Vamos ver como vou ser justo, porque tanto o Luís como o João Crisóstomo querem saber como é que eu vim parar ao Canadá. 

As histórias são quase todas semelhantes. Nem tudo correu bem, e eu nem queria acredita ter servido o exército por 37 meses ( 21 meses e quatro dias npo CTIG). Na verdade eu até nem precisava de emigrar, estando bem empregado. 

Creio que o descontentamento de tudo o que se estava a desenrolar em Portugal, fez com que eu assim decidisse ir para o Canadá. Sair de Portugal foi na verdade o mesmo que deixar tudo e todos a chorar de saudade, mesmo antes de embarcar. Em 15 de fevereiro viajei na TAP para Toronto.

A Montreal chegamos atrasados e por isso estivemos à espera de um avião da Air Canada. À chegada a Toronto, e já numa hora tardia, tínhamos à espera uma tempestadade de neve, frio e uns amigos que nos foram esperar ao aeroporto. 

No dia 16 de fevereiro eu fazia anos. Quando acordei e espreitei pela janela, tudo era um manto branco de neve e as ruas completamente vazias. Também aqui não foi fácil, pois entrámos no Canada no meio de uma depressão económica. Fui ultrapassando estas pequenas/grandes tormentas e fui trabalhar para uma fábrica de sofás, onde não estive muito tempo..

Mudei para o Hospital de Oshawa onde estive 26 meses. Aqui melhorei o inglês e até me ajudou a adaptar ao convívio com pessoas de várias etnias.

No hospital aprendi muito. Do hospital mudei para a Chrysler, na indústria automóvel, onde tínhamos um vencimento bastante bom e com todos os benefícios inerentes, negociados pelo sindicato. Com trabalho extra até arrecadava um cheque semanal muito positivo. 

A minha vida mudava todos os dias. Durante este período fiz escritas de pequenas empresas, trabalhei em duas agências de viagens e um dia até fiz radio em Toronto, a 50 kms da minha morada. A rádio foi a cereja no topo do bolo. Fiz anúncios, notícias e conheci artistas de Portugal e do Brasil.

A idade não perdoa e a certa altura eu comecei a fazer menos. Mudei para a GM Canada onde desempenhei varias tarefas desde a montagem, à inspeção e preparação de documentos para exportação. Cheguei ao fim com 30 anos de serviço e fiz a maior asneira possivel. Vendi tudo e fui embora para a terra do sol.

Portugal já não era o mesmo, e ao fim de um ano e pouco embrulhei tudo e regressei ao Canadã. Todos os meus planos e desejos cairam por terra. Isto aconteceu em marco de 2011 e agora tudo mudou. 

Consegui uma reforma muito confortável e com um pacote de benefícios invejável. Praticamente nada pago na saúde. Contudo o custo de vidaé levado, mas vamos gerindo tudo com calma. É uma vida diferente, e notamos que não ha imigração como na Europa. 

Agora temos os filhos de portugueses que cresceram e constituíram familia.  Tive a honra de formar o Clube Portugues de Oshawa em fevereiro de 1978, com a ajuda de uns amigos, é lá que ainda passamos horas de convívio,

Hoje posso dizer que estou integrado e,  como estudei em Beja, estou bem com o inglês e o francês, para além do meu português que me tem ajudado a fazer traduções e que me faz muito orgulhoso. 

Como gosto de ajudar, estou bem em lidar com o departamento de desemprego, de impostos e finançaas, serviços de saúde e sociais, onde a ajuda aos menos afortunados é muito apreciada. 

Esta é a história da minha vinda para o Canadá. Para os que ainda sonham emigrar, apenas sugiro que deixem o tempo ajudar a adaptação. Com o tempo tudo fica bem. O Canada não é Portugal. Cada um com as sus próprias valências e motivações de futuro risonho. 

Portugal é apenas o resultado da falta de cuidado. Incêndios, desmoronamentos, acidentes e crime sem razãoo, e muitas dificuldades de todo o género. Estou à espera de melhorar um pouco para poder ir até Lisboa. 

Obrigado a todos os que lerem este testamento e também que respondam ao que não gostarem. Ao Luís e João por favor bebam um cafe a meio deste desabafo. Fiquem bem e até breve.

João Bonifácio
ex-fur mil do SAM
CC2402 / BCAÇ 2851
(Có, Mansabá, Olossato, 1968/70)

Oshawa, Ontario, Canada (***)

(Fica a c. 60 km, a nordeste de Toronto, capital da província de Ontario)
___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd- pposte de 26 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28295: Tabanca da Diáspora Lusófona (43): From John (Crisostomo), USA, to John (Bonifacio), Canada


(***) Vd. poste de 1 de dezembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1331: Blogoterapia (9): Quando a Pátria não é Mátria para ti (João Bonifácio, Canadá, ex-fur mil vagomestre, CCAÇ 2402 / BCAÇ 2851, Có, Mansabá e Olossato, 1968/70)

(...) O ex-alf mil Raul Albino fez o favor de me enviar este site, e eu, quando posso, procuro rever toda a Guiné, através das exposições de todos os nossos ex- camaradas, a todos os níveis.

Depois de finda a minha comissão, como Furriel Miliciano do SAM (vulgo,vagomestre), e após um pequeno período de descanso e adaptação, regressei a Lisboa com a minha esposa e filho, onde reatámos as nossas vidas.

Não foi longa a minha estadia em Portugal, uma vez que a desilusão que sofri ao regressar... Assim, ao ver que o futuro seria complicado para os filhos, decidi pedir autorização para sair de Portugal, com destino ao Canadá.

Se na altura eu me sentia ofendido com o meu próprio país, bem pode imaginar quando na Amadora me pediram 1500 escudos em selos, para selar a minha desvinculação a Portugal. 

Saí de Portugal a 15 de fevereiro de 1974, mas já sabia que alguma coisa se iria em breve passar. Mas era tarde, eu havia decidido que, depois de 37 meses no exército e 21 meses e 4 dias na Guiné, devia merecer mais um pouco de compreensão. (...)

(...) Comentário de L.G.:

Meu caro João /My dear John:

(...) Fico muito sensibilizado com a tua mensagem… Eu sei que a Pátria não foi Mátria para ti, foi madrasta... E eu sou o primeiro a ser solidário contigo, eu que decidi ficar na terra que me viu nascer... Sei que isso não te vai servir de consolo, mas não imaginas o rol de reclamações que recebo neste pequeno canto da blogosfera!... 

Enfim, o importante é que hoje estejas bem, nesse grande país que eu admiro… Mas as tuas raízes, a tua identidade, o teu passado estão aqui, estão connosco… Nenhum de nós terá futuro, se não souber preservar e até alimentar o passado. A Guiné marcou-nos a todos, com o seu ferrete... Mas foi em português, na língua de Camões, que exprimimos os sentimentos mais nobres ou dissémos os palavrões mais horríveis. 

João: não adianta. Não se escolhe a Pátria, não se escolhem os pais nem os irmãos, não se escolhe a língua materna... Mas dessa ao menos eu tenho (e tu tens, nós temos) orgulho... É em português, e em bom português, que comunicamos na blogosfera, neste blogue, na nossa tertúlia, nesta caserna virtual onde todos cabemos, de Lisboa a Bissau, de Viana do Castelo a Toronto, de Coimbra a Luanda.  (...) 

domingo, 16 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28263: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (46): Muita honra e pouca glória...




















Prompt
original e composição editorial: Luís Graça.
Colaboração: João Rodrigues Lobo
Imagens e texto: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné | Luís Graça (2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


Muita honra e pouca glória...

por Luís Graça

A pátria fora-lhe ingrata. Falava dela como se fosse uma mãe. Que abria o regaço. Que acolhia "filhos e enteados" . No meio da confusão. Dos tiros, dos golpes de Estado, das greves, das revoluções, das guerras.  Uma mãe nem sempre atenta, serena, lúcida, justa. Metendo por vezes todos no mesmo saco, "os bons e os maus". 

E continuava o seu solilóquio: mãe que retribuía com amor, com bonomia, com "benesses e tabefes" (sic), os sacrifícios que faziam por ela. Incluindo o supremo sacrifício da vida. Até à última gota de sangue.

 Sim, jurara perante  a "nossa bandeira verde-rubra", mesmo sendo "monárquico" ... Rituais que hoje se perderam, já não havia serviço militar obrigatório,  juramento de bandeira... Nem verdadeiro patriotismo.  Podiam julgá-lo antiquado mas ele ainda dava valor a esses símbolos. E  "à palavra dada".

Fora educado por professores e capelães, desde o Colégio Militar à Escola do Exército,  segunda a velha máxima: "É doce morrer pela pátria!"...

Doce ?!... Diziam  que sim mas era coisa que a  "alegre mocidade"  do seu tempo não levava muito a sério.  Aos 10, 15,  20 anos ninguém pensava na morte.

−  "Dulce et decorum est pro patria mori"... É a divisa do brasão de armas da Academia Militar que sucedeu à Escola do Exército...

− Ah!,  sim, doce e honroso  −  repetiu o coronel com um sorriso amargo. 

−  Teríamos  que saber o que pensam os mortos de todas as guerras.

−  Não pensam nada, meu caro.

E quis mostrar este ponto de vista com a sua experiência,  justamente de antigo combatente da "guerra de África".

A... , oitenta e tal  anos. Feitas as contas por alto   devia ter nascido por volta de 1933 ou 32. "Monárquico mas liberal",  por tradição familiar. Alentejano do Alto Alentejo (fazia questão de frisar).  Descendente do Visconde de V...

Coronel de cavalaria, tirocinado,  na situação da reforma. Cruz de guerra de terceira classe por feitos em combate no teatro de operações da Guiné. Viúvo, pai de um filho,  avô de dois  netos (que ele mal conhecia) . 

− O primeiro soldado que vi morrer na Guiné, e logo  nos meus braços,  só me balbuciou entre golfadas de sangue: 'Ai, meu ca...pi...tão, ... qu' eu... es...tou  fo...di...do! '

Hoje, concluia o coronel, havia várias formas de morte para um antigo combatente.  Tudo menos doce e honroso. A sua (e da sua geração) era  também a da amargura,  da ingratidão,  do abandono e do esquecimento. 

Falava de si e dos seus homens que "morreram para nada"  e que iam morrendo todos os dias,  um pouco por toda a parte, em Portugal, na diáspora lusófona, na Guiné, em Angola,  em Moçambique e por aí fora.

− Sinto-me  órfão da Pátria!... Sofro de  claustrofobia... Afinal fui criado no Portugal do Minho a Tiimor.

 O seu filho (o único que tinha) nunca o compreendera nem aceitara a sua opção de vida,  a carreira militar. Pouco conviveu com ele.  Fizera-lhe falta o pai nos anos mais decisivos da formação da sua personalidade. 

Quando o filho nasceu, em 1958, estava o pai  em Goa na sua primeira comissão de serviço no Ultramar.  Como alferes. Faria mais três comissões, duas como capitão  e outra como  como major.

E quando o filho  arranjou uma bolsa de estudo em 1976 para  ir frequentar uma  universidade nos EUA, o pai tinha acabado de regressar de  Moçambique, uns meses antes. (Fora um dos "últimos soldados do império", fez questão de lembrar, já com o posto de major, desempenhando funções de oficial de informações e operações, num batalhão,  cargo em que já não saía para o mato.)

O filho acabou por ficar lá, nos EUA. "Até hoje" .  E lá casara "com uma americana, rica,  de origem nipónica" . 

Tinha um grande desgosto: os seus netos não falavam português. Tinham  vindo a Portugal todos juntos uma única vez,  por ocasião da morte da mãe, sogra e avó. 

− Eu era um estranho para eles... E, como  pai,  fiquei com a certeza de que tinha perdido o meu único filho para sempre. 

De facto, não voltaria a visitar o pai  em  Portugal. Foi ele que os foi visitar à Califórnia. Os netos nada sabiam sobre Portugal, um pequeno país que  ficava completamente fora do seu radar, dos seus interesses e das suas  preocupações. 

E confirmava o seu pessimismo com o facto de,  a partir de 1975,  "termos ficado reduzidos à geografia do início do século XV, antes da conquista de Ceuta em 1415".

 Agora o que mais lhe gostava era sobretudo a solidão da viuvez e da velhice. Uma vez por ano juntava-se aos "seus rapazes" (sic),  com quem lutara na Guiné durante mais de 2 anos (contando com o tempo  inicial de formação da companhia, em Estremoz).

Adorava a sua "família militar"  com  quase  o mesmo amor que tinha pela sua família biológica. 

−  Juntos chorámos os nossos mortos e cuidámos  dos nossos feridos.

Faziam um encontro anual todos os anos desde o início de 90 mas, duas décadas depois, faltava-lhe já o ânimo e as pernas começavam a claudicar, obrigando-o a arranjar desculpas de mau pagador para não comparecer. Invocava a saúde ou a falta dela, "cada vez mais remendada".

Confidenciou-te que, sobretudo, não queria perder o seu orgulho, a sua dignidade,  a sua pose de "oficial e cavalheiro"  que sempre cultivara. Já não se gostava de se ver ao espelho. E muito menos fardado. 

 Não me leve  a mal  se lhe disser que sempre tive sorte com as mulheres... 

−  Não de todo, coronel. Como se costuma dizer, a sorte dá muito trabalho.

Mas o contrário não era  verdadeiro : as mulheres nunca terão tido sorte com ele.  Casou tarde, não teve um casamento feliz e enviuvou cedo.

Gabava-se de,  nesse tempo, nunca ter dado uma "porrada"  em nenhum dos seus homens. Soubera sempre resolver os conflitos,  mesmo os mais graves,  do foro disciplinar, com frontalidade e bom senso,  contrariamente à tradição da sua arma, a cavalaria. Tinha camaradas que ainda usavam, na mesmo na Guiné, o "murro da ordem" para prevenir males maiores.

  Mais valia um bom  murro nos queixos do que uma nódoa na caderneta, achavam eles. E,  se calhar, pensando bem, hoje até teriam  razão.

E lembrava-se de uma situação, grave, em que, passados mais de quarenta anos, reconhecia  que agira mal. Um dos seus cabos fora acusado de violar a sobrinha do régulo e comandante do pelotão de milícias.  Era a rapariga mais linda da tabanca. 

O então capitão fez tudo o que sabia e podia para que a "bronca" não chegasse aos ouvidos do general Spínola, o "Homem Grande de Bissau". O cabo era um dos seus melhores homens como operacional e inclusive tinha chegado a ser proposto como candidato ao Prémio Governador da Guiné.   

− Tive uma conversa séria com ele... Comecei por lhe enumerar as virtudes,  como militar e até como  homemk, acabando nos defeitos e na "borrada" que lhe ia estragar o resto da vida.... Acabou por  dar-se como culpado, com a desculpa esfarrapada de que "ela era linda de morrer" e que "um homem não era de pau"...Além disso, era a sua lavadeira e teria havido livre consentimento...  Encostei-o à parede: "Põe-te no teu lugar: e se ela fosse tua irmã ?"... Não tugiu nem mugiu...

O então capitão castigou o cabo,  obrigando-o a pagar uma reparação à família da bajuda, uma vaca que lhe custou um mês de pré. E retirou-lhe, obviamente,  a candidatura ao Prémio Governador da Guiné... 

Ao régulo calou-lhe a boca com a oferta, por parte da companhia, de uns valentes sacos de arroz para  o pelotão de milícias. Fora-lhe sempre leal. Soube mais tarde que também ele fora, infelizmente, fuzilado pelo PAIGC. 

−  Quanto ao cabo, ficámos amigos para a vida.

 Na sua  casa em Oeiras, aonde ele te convidara um dia para te mostrar o seu  "velho  álbum das glórias", ficarás a conhecer um pouco melhor a sua história de vida e a sua origem sociofamíliar.

Sim,  fora preparado para defender a pátria numa época em que o patriotismo ainda estava na ordem do dia. Tinha treze anos quando a II Guerra mundial  acabara. "Lá em casa eram todos anglófilos" . Depois veio a Guerra Fria,  passaram todos  a ser anticomunistas. 

Era da geração do "Deus, Pátria e Família". A "Santissima Trindade" do Estado Novo. Nunca fora homem (nem miliitar) de ligar à política.  Nem nunca questionara o beco sem saída da guerra em África. 

 Infelizmente, só sabia obedecer aos meus superiores hierárquicos, e dar ordens aos meus homens.

Por outro lado, a sua família sempre fora de proprietários e militares, que serviram três regimes (Monarquia constitucional, República e Estado Novo).  

No passado tinham chegado a ser grandes produtores de trigo e cortiça.  Mas  eram sempre mais os filhos e as filhas  do que as mães. Para os descendentes do Visconde de V... , a solução de vida terá sido "Coimbra, o seminário e a carreira de armas".

Gostava de falar do passado da família paterna, mas havia ali uma relação de amor-ódio ancestral   que tu não te achavas no direito de  esmiuçar, nas conversas que mantiveras com ele antes da pandemia. Uma das ocupações do coronel  era então a da reconstituição da árvore genealógica da família.

Tinha especial prazer em falar do "passado de luz e sombra" (sic)  do Visconde de V..., o patriarca da família, onde começava a "primeira geração": dali  para trás não se sabia mais nada, havia o "silêncio dos arquivos" , restava apenas uma fita de seda azul, "sinal de exposto" na Misericórdia de Lisboa. 

Mas tivera sorte, esse enjeitado, para viver e sobreviver numa época  tão conturbada como a das invasões francesas, a da fuga da corte para o Brasil,  a do fim da sociedade senhorial, e a das guerras civis liberais.

Na casa oitocentista  de Paço d' Arcos, de piso térreo, ainda estava dependurado da parede, um mau quadro, a  óleo,  com o retrato do futuro Visconde. Daqueles que ainda se encomendavam a pintores académicos antes da  chegada do "daguerreótipo". Ostentava já alguns sinais de riqueza, os  botões dos punhos de renda e o relógio de bolso, com um grosso cordão, tudo em ouro de lei.

Havia enriquecido o seu património com a compra em leilão de "bens de mão morta" . Ninguém sabia como, ainda jovem,  conseguira arranjar os "cabedais, para poder licitar uma tão vasta propriedade no Alto Alentejo. Foi dos primeiros a modernizar um latifúndio que até então só dava "caça e sobro".  

Sabe-se que fora um bravo soldado de Dom Pedro IV e correligionário de Dona Maria II. Ter-se-á afastado da política com a Patuleia, onde foi um feroz opositor dos Cabrais. Foi nobilitado já no tempo de Dom Luís. Filantropo, abriu uma escola na sede do concelho, no Alto Alentejo,  ainda antes das escolas do Conde Ferreira.  

 O coronel falava com mais conhecimento de causa da 4ª geração, do seu avô , que era bisneto do Visconde, e que terá sido um dos que mais ajudaram a delapidar o património familiar, com o vício do jogo, das amantes e dos cavalos.

− O meu pai, nascido uns anos antes  da República, não teve outro remédio se não seguir a tropa. E eu, idem, aspas...

Fez questão de ir buscar uma garrafa de uísque velho, uma preciosidade ainda do tempo da Guiné. Agora raramente bebia. Era para abrir na festa dos  90 anos. Com o seu filho e netos. Se lá chegasse... Mas já não tinha qualquer esperança de que eles se quisessem associar a essa efeméride, e ter a maçada de vir de propósito, de tão longe, da Califórnia.

− O que vale um herói da Pátria aos 90 anos ?!... Se nem sequer a família mais próxima se lembra dele ?!

Fizeste um "tchim-tchim" com o dono da casa, cada um longe de imaginar que aquele seria o seu último encontro. Umas semanas depois veio a pandemia e o confinamento... E o coronel  A...,  morreria uns meses depois. Ia fazer 87 anos. Ainda se falaram ao telefone. Recordas as suas últimas palavras:

− Fui de cavalaria mas nunca gostei de cavalos... Fui spinolista, na Guiné,   por conveniência mas também  por convicção... Fui partidário da sua política "Por uma Guiné Melhor"... O senhor marechal, que eu conheci em Angola, já coronel, fez o favor de ser meu amigo, deu-me apoio a nível moral,  operacional e logístico. Visitou-me duas vezes, na Guiné. Não esqueço esses favores.  Como não esqueço o seu papel no 25 de Abril.

Como não esquecera a cena, caricata, do general Spínola escangalhado a rir, com o monóculo na mão (o que era raro nele), e a chamar-lhe  "grande nabo" quando ele, ingenuamente, lhe contou que tivera uma queda desastrada e desastrosa  de cavalo na Escola Prática de Santarém. 

 Sou coronel tirocinado mas  fiquei às portas do generalato.  Desconheço as razões. Mas considero-me injustiçado. Nunca fui militar político. 

E esclareceu-te que no 25 de Abril ("notícia completamente inesperada", recebida no norte de Moçambique) estivera "de bico calado", à espera que a ordem regressasse aos quartéis, depois de restituída a liberdade aos portugueses.

 Como regressa sempre. O meu pai esteve envolvido  no 28 de maio de 1926. Ainda  era um jovem cadete imberbe. E arrependeu-se. Não beneficiou nada com isso. O golpe de Estado acabou por ir contra as suas ideias de monárquico liberal. Mas eu sempre me considerei um simples servidor da Pátria, como o Salgueiro Maia, a quem cheguei a dar instrução, e a quem não posso deixar de bater a pala, mesmo que eu não tenha aderido ao Movimento.... Pela sua coragem (que eu não tive) e pelo seu papel na História.  E a minha vida resume-se a isso, tal como a dele, que também foi mal tratado em vida: Muita honra e pouca glória!...

Luís Graça, agosto de 2026

Aviso legal: Os factos aqui narrados são verdadeiros. Mas qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. 

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 3 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28236: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (45): O último candando