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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28236: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (45): O último candando

Portugal > s/ l > s/ d>  Tasca do Jacinto, retornado. Início da primavera, tempo de favas. Dois homens na casa dos setenta e muitos anos conversam à mesa, um copo de vinho tinto, um cesto de pão e um prato fumegante de favas suadas com chouriço e coentros. A luz entra pela janela, criando um ambiente quente e nostálgico. Ao fundo, uma parede caiada com fotografias antigas e um relógio parado. Estilo de aguarela realista, cores suaves, atmosfera de memória, amizade e passagem do tempo.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: O último candando (conto de Luís Graça, 2026)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


O último candando

por Luís Graça


− Eu era capaz de oferecer o meu lugar no reino dos céus por um prato de favas suadas!... Antes que se faça tarde…

− Tarde ?!... Estás com maus pressentimentos, ou quê  ? O que queres dizer com isso, Arsénio?... E, por favor, não blasfemes…

− Calma, senhor provedor, não invoquei o nome de Deus em vão… Também andei na catequese como tu, embora em África…

− Mas o teu catecismo não era o mesmo que o meu, aposto… 

− Olha, a mim quem me dera saber se tenho um lugar reservado no céu…

− É com essa que Deus nos trama… Mantém o suspense até ao fim… 

− Ah!, ah!, para ti, António, está mais do que reservado!... Vais lá estar  de pedra e cal,  à direita de Deus Pai!...  

− Obrigado, Arsénio, mas não gosto falar dessas coisas... Que história é essa, afinal,  das favas ?!

− É o que me estava mesmo a apetecer agora, um prato de favas suadas…

− Abriste-me o apetite. Também já ia… E estamos em março, é a altura delas. Vamos almoçar ao Jacinto... 

− Boa ideia, alinho nessa... Pode ser que a santa da Bia nos arranje favas.

  Nem que seja um pires de favinhas, como entradinha, com coentros e chouriço de porco preto alentejano…

− Sabes, tenho medo de me esquecer como se chamava o prato de favas suadas feitas pela minha mãezinha, com tanto amor e carinho…

− Ah! , a nha Bertinha, de saudosa memória…

− … E sobretudo medo de esquecer a delícia do seu sabor, os cheiros do almofariz da nossa cozinha, enfim, as memória que me vêm dos tempos da meninice em Angola.

− Ó engenheiro!..., estás com a doença do Alemão, ou quê ?!...

−  Só Deus e os médicos é que sabem… A tal doença que nenhum de nós ousa nomear. Mas acho que ainda não a tenho, meu caro António…  Os neurónios  por enquanto estão no sítio...

− Mas quem te pode garantir que a não vais apanhar, a dita cuja?...

− Cruzes, canhoto!... A única coisa que me aterroriza, mais do que a morte, é perder a memória, a identidade... e alguns dos cinco sentidos, como o gosto, o olfato, o tato... E, já agora, a tusa...

− Terror por antecipação, Arsénio… Mas essas reminiscências da infância, quando recorrentes, dizem os entendidos, podem muito bem ser o primeiro sintoma precoce da doença do Alemão…

− Achas ?!...

− Disse-me há tempos a neurologista do Santa Maria, que me acompanha...  Lembras-te das favas suadas da senhora tua mãe que Deus já lá tem, mas não do que comeste ontem…

− Tens razão… E não me lembro mesmo!... Fora de brincadeira, dizem que para lá caminhamos todos…

− As demências ?!... A menos que apareça, um dia destes, a tal droga milagrosa que nos há de salvar da amnésia total…

− Já não será para os dias que me restam…

− Não sejas tolo, Arsénio... E depois, não vês o cancro ?!... Todos os anos saem novos medicamentos inovadores.  Confia em Deus e na Ciência.

− Ah!, a indústria da doença: quem entra num hospital, já de lá não sai… Há um cerco médico, vê o meu irmão: já não lhe bastava ter que fazer hemodiálise três vezes por semana… E quando estava para fazer o transplante, zás!, tocou o gongo dos setenta anos!.. Tiraram-no logo  da lista.... 

− ... e ele desistiu de viver. Uma crueldade...  

− Porra, António, morreu aos setenta, à espera de um rim!... Velho, com bilhete de identidade vitalício!... 

− É agora o que nós somos, meu amigo. Duplos VV,  velhos vitalícios...A mim também me puseram o carimbo, quando arrumei as botas aos setenta!

Mas a ti ainda te fizeram uma festinha…com direito a uma salva de prata e uns versinhos recitados pelas criancinhas…  

− Até houve balões, coisa que eu sempre detestei.

− E o que é que tu querias mais, meu velho e caro amigo, dr. António Queiroz, agora dedicado e piedoso provedor da Santa Casa da Misericórdia da nossa parvónia ?!

− Gratidão, verdadeira gratidão… E não reverência cínica!...  No último dia de trabalho, dão-te um chuto no rabo.

− Mas ergueram-te um busto, em bronze, ah!, ah!..

− …um mamarracho, piroso, que está lá no átrio… Por mim, bem o mandava para o ferro-velho!

− Não sejas tonto, António, custou uma nota preta!… A mim, nem isso, nem salva de prata, nem versinhos, nem balões…  

− Oh!, pá, mas ainda não morreste, que eu me tenha dado conta!... Ou sou eu que já estou com a doença do Alemão ?!

− Não, ainda não morremos, nem tu nem eu!...Felizmente!... Ou melhor, eu já morri, da minha primeira vida. Morte social, que não é menos cruel que a morte física que me espera, um dia destes…

− Morte social ?!... Dizes bem. Foi por isso que eu também nunca mais lá voltei, à  IPSS que ambos ajudámos a criar, a acarinhar,  a crescer. E tu ainda mais, Arsénio, que andavas na política, tinhas bons contactos em Lisboa e puxavas os cordelinhos, quando era preciso mais umas c'roas...

− Sempre a pensar no interesse da terra do meu querido pai... Mas poucos já se lembram desses tempos!… E, sem memória, não há gratidão!

− Dizes bem:  sem memória, não há gratidão!... Essa é outra forma de doença do Alemão, a que dá no povo…

− … ingrato,  abusador,  cobarde, 
o Zé Povinho. Ao vilão dá-lhe o pé, toma-te a mão... É incapaz de um candando, um abraço de gratidão! Só sabe fazer um manguito... nas tuas costas.

− Mas tu também não tens lá ido, à nossa IPSS, nem na festa de Natal ?!...

− Nunca mais lá pus os pés. A minha vida social acabou há muito, desde que larguei a política.  

− Lembro-me sempre do tipo que eu fui substituir, o dr. Veloso, o professor do Colégio… No dia seguinte, depois de deixar o cargo, deu-lhe a veneta, quis ir matar saudades e foi lá cumprimentar a criançada, a velhada, a gajada… Ele era a delicadeza em pessoa. 

− Quem, esse palerma ?!... Desculpa lá, já estava xexé...

− Sabes o que é que eu ouvi, sem querer (a porta do gabinete estava entreaberta), da parte de um grupinho de senhoras (educadoras, auxiliares e até a nossa antiga secretária e assistente social) ?

− Não, mas imagino…

− Estavam na galhofa, e a cochichar entre elas, deu para ouvir: “O que é que o filho da puta do velho está aqui a fazer?!”…

− Assim, sem mais nem ontem ?! Filho da puta ?!

− Isso mesmo, e ainda dizem que nós, os homens, é que somos ordinários… E toda a gente a saber que tinha sido ele, o meu antecessor, quem estabeleceu (ou melhor, propôs, em Assembleia Geral) o limite dos setenta anos para o exercício de cargos diretivos. 

− Das catraias era de esperar tudo, mas logo da nossa querida assistente social! … Afinal, António, quem vê caras, não vê corações…

Neste cenário faltava aqui eu, o terceiro pé da tripeça. Costumava encontrá-los, a estes "dois velhos marretas"  nos sítios habituais da pacata cidade de província onde então vivia: o barbeiro que falava mal de todos os governos, a tasca do Jacinto, o Café Central, o Museu Municipal, a Universidade Sénior, o Clube Náutico  e, claro, a IPSS, a associação privada de solidariedade social que era o orgulho da terra, e a que eles, os dois,  estiveram ligados desde a sua fundação.

Eu sabia da história de vida de ambos, mesmo sendo um estranho, para não dizer um “outsider”, chegado entretanto  do estrangeiro, mais exatamente do Luxemburgo, a minha segunda pátria.

O homem, o engº. Arsénio Marques, que temia a "doença do Alemão", o Alzheimer (sem nunca o nomear), morreu há pouco tempo. Não teve "funeral de Estado" mas o município  acabou por fazer-lhe uma discreta e cínica homenagem,  a título póstumo: numa sessão da assembleia municipal, foi aprovado por unanimidade  um voto de pesar pelo seu falecimento e foi-lhe atribuída  a medalha de ouro de mérito municipal.

  Tarde e a más horas, como se costuma dizer. Mas em Portugal é assim: a besta, na hora da morte, passa a bestial...

O outro, o dr. António Queiroz, que fora diretor da IPSS que geria várias creches, jardins de infância e lares de idosos em todo o concelho, e depois provedor da misericórdia local (o último cargo que exerceu, numa instituição mais virada para a saúde), está agora doente.  Sabia que sofria da doença de Parkinson, mas deixei-o de o ver, depois que passou a  residir  em Lisboa,  num lar da Misericórdia.

Ambos, o Arsénio e o António, eram do mesmo partido, mas com sensibilidades e experiências de vida muito diferentes.  O António era um típico advogado de província. E o Arsénio, bom...  É dele, de resto,  que eu quero falar: retornado, engenheiro técnico, empresário, autarca, dirigente partidário, figura grada da terra. 

Os seus mandatos como autarca a seguir ao 25 de Aril não terão sido pacíficos ou consensuais. A avaliação dependia muito das simpatias ou antipatias pessoais e partidárias. Diabolizado por uns, santificado por outros, não deixava ninguém indiferente.

A seu favor tinha a construção de todas as infraestruturas e equipamentos sociais que fizeram a terra dar "um salto para o século XX"… 

Abriu estradas e vias pedonais, pôs rotundas em todos os cruzamentos, construiu em altura na orla costeira, fez  a rede de saneamento básico, criou o parque industrial, ofereceu terrenos aos investidores de fora,  etc.  Ah!, e deu emprego a muita gente, na câmara e nos serviços municipalizados,  desenvolveu o turismo, etc. Em suma, "pôs a terra no mapa"... 
 
Os insultos grafitados nas paredes da câmara municipal irritavam-no solenemente… Chegou a contratar uma empresa de segurança para apanhar em flagrante delito os autores dos grafitos… 

Até tinha uma família, decadente mas ainda com brasão, de alcunha os "Távoras", que concitava os seus ódios de estimação por causa de um polémico processo de expropriação de terrenos.

 E com o padre da terra as suas relações também também eram de cortar à faca.  Um dia, o padre, que era dos tesos,    ostensivamente recusou  dar-lhe a comunhão quando soube que ele mantinha uma amante, mãe solteira, no concelho vizinho.

Só o conheci no ocaso da sua vida política. Era ainda um cacique à moda antiga... e perdia-se por um rabo-de-saia ou uma carinha laroca, diziam as más línguas.  Personalidade truculenta,  tinha uma frase lapidar, reveladora da sua repugnância quase atávica para o compromisso, a negociação e o consenso:

− Não se pode agradar a gregos e troianos, e quem os seus inimigos poupa, às mãos lhe morre.

Os pais do eng.º Arsénio Marques haviam-se conhecido em Cabo Verde. O pai fora expedicionário em São Vicente, durante a II Guerra Mundial. Cavador de enxada, tocador de concertina e poeta popular. A mãe era de Santo Antão, filha de pequenos comerciantes, neta de padre excomungado, e bisneta de um desterrado. 

Depois de cumprido o serviço militar, o pai do Arsénio fixou-se em Angola, empregando-se nos caminhos de ferro de Benguela. A mãe, depois de uns tempos no Continente,  aguardando a "carta de chamada", seguiu-lhe os passos. Ele nasceu em 1944. Foi a avó paterna, estremenha, que transmitiu à mãe, crioula, os segredos gastronómicos da família do continente, incluindo as famosas favas suadas.

Não sei muito da sua vida em África. Mas, perguntará o leitor: onde e como nos conhecemos, eu e o Arsénio Marques ?

Eu explico… mas primeiro tenho que falar um pouco de mim… Sou ribatejano da beira rio. Emigrei, "a salto", para o Luxemburgo, em meados dos anos 60, como outros jovens da minha geração, para fugir à tropa e à guerra colonial.  

Confesso que ainda hoje não sei por que razão é que escolhi uma  terra que não era minha, para voltar ao meu país natal e viver o meu último terço ou quarto de século de vida. Tinha sessenta e tal anos em 2009, uma razoável reforma (por comparação com os padrões portugueses da época) e umas boas economias (para quem tinha começado como eu a ganhar a vida como ardina…). Com isso comprei um apartamento à beira-mar, um T3  para receber filhos, netos e amigos e sobretudo poder contemplar o pôr-do-sol à beira do Atlântico com as Berlengas e o cabo Carvoeiro no horizonte.   

Fiquei viúvo relativamente cedo, aos 50 e tal anos. A mulher da minha vida morreu de cancro da mama. Era italiana, ou melhor napolitana.  

Tudo isto para explicar por que é que eu sou mais espetador do que ator, na terra que me acolheu, depois de regressar do Luxemburgo. Aqui estive ligado à animação sociocultural. E exerci, nos primeiros tempos, os mais diversos ofícios, tópicos do "imigra'  até chegar ... a autarca! 

Fixei-me nesta cidadezinha do Oeste Estremenho... Um dia, há muitos anos, vim cá com uma representação municipal e uma banda filarmónica.  Do meu município luxemburguês (que não  identifico, porque o país é uma aldeia). Na altura era aqui presidente da Câmara, o engº. Arsénio Marques. Estava no auge da fama, da glória e do proveito. 

Ele tratou-me muito  bem (a mim e aos meus munícipes). Ficámos amigos. Ou melhor, simpatizámos logo um com o outro. Desafiou-me a ficar ou a voltar, quando me reformasse. Ou sempre que me apetecesse.

No Luxemburgo sempre o tratei também muito bem,  fazendo jus à  tradição de hospitalidade do grão-ducado. Uma terra que ele também aprendeu a amar.  Sempre pusemos de lado as nossas diferenças políticas, ele situava-se mais à direita, eu mais à esquerda. Mas era um "charmoso", como dizia a minha mulher que ainda o chegou a conhecer.

Depois ele perdeu as eleições (ou já não podia legalmente concorrer a novo mandato, não sei ao certo). Ainda tentou uma carreira política a nível nacional, mas puseram-no na prateleira. 

Zangado com o seu partido, bateu com a porta e continuou a dedicar-se aos seus negócios.  E a comenda de Belém, que lhe haviam prometido,  nunca chegou em tempo útil, ter-lhe ia feito muito bem ao ego (e à saúde mental)...

No bom tempo, e graças aos amigos de Benguela, do Huambo e de Luanda, matou o galo da UNITA e engoliu o sapo do MPLA (quer dizer, a estrela,  que é bem  mais  indigesta)... Tinha amigos de um lado e do outro, gabava-se ele.

Fez alguns bons negócios, na área da engenharia, planeamento urbano e arquitetura, com um conhecido general que era do seu tempo de liceu, e considerado  um dos heróis da batalha do Cuito Canavale.

Também chegou a ter, a meias, com esse general, uma empresa de construção civil e obras públicas. Nunca falei muito com ele sobre esses tempos. Mas sei que o sócio passou-lhe a perna. E o capítulo de Angola acabou também por fechar-se na vida dele. 

Para mais, e para seu grande desgosto,  ele nunca chegara a conseguir obter a nacionalidade angolana,  apesar de lá ter nascido e vivido. Falava da sua terra com grande paixão e saudade.  

Sei que fez a tropa (e a guerra) na Guiné.  Não posso dar muitos pormenores, porque sou um zero à esquerda nessas matérias.  Julgo que  fora alferes miliciano e pertencera à arma da engenharia militar. 

Tanto quanto me lembro das nossas conversas, ele não deixava de simpatizar com o Amílcar Cabral, filho de pai cabo-verdiano. Mas achava um disparate a ideia de unidade entre a Guiné-Bissau e Cabo-Verde. 

 O Arsénio tinha uma costela cabo-verdiana, pelo lado da mãe que, garantia ele, era bisneta de uma escrava e de um desterrado... 

− E eu trisneto, com muita muita honra, sem qualquer complexo... Tive pena que Cabo Verde tivesse entrado, em 1975, na  paranoia da dipanda (#), a reboque  da demagogia do PAIGC. Arrepiaram caminho, anos mais tarde, que a euforia revolucionária  não enche barriga...
 
Eu aqui não quis comentar, nem nunca disse que tinha tido amigos cabo-verdianos que apoiavam o PAIGC no Luxemburgo... Depois meteram a viola no saco, quando se deu o golpe de Estado do 'Nino' Vieira, em 1989, se bem recordo... Foi o fim de muitas ilusões... "A segunda morte do pai das nossas nacionalidades", chorava um dos meus amigos que era cantor, com discos editados  na Holanda... 

Nos últimos anos, senti o meu amigo Arsénio Marques mais alquebrado, para não dizer deprimido:  o fogo do seu vulcão havia-se extinguido, e "a terra do seu pai" já não era mais a mesma para ele...  

Queixava-se que, no fundo, havia uma velha e surda discriminação contra os retornados e os mestiços, como ele. O seu antigo partido nunca mais recuperara o poder local, nem o antigo autarca era chamado para nada... O sonho de voltar a Angola estava cada vez mais distante, e em Cabo Verde também já não se sentia em casa, embora um dos seus filhos explorasse lá um pequeno hotel de charme.    Tinha outro filho, esse com uma prole numerosa, a viver em Roterdão, nos Países Baixos. 

O nosso convívio, por outro lado,  também se foi espaçando,  com o tempo, e com as viagens, a visitar filhos e netos... Mas a amizade ficou.  Pertencíamos a mundos muito diferentes, mas respeitávamo-nos.  Incentivei-o a escrever as suas memórias. Mas a escrita não era o seu forte. 

− Escrever, o quê ? Para quem ?... Sempre fui um homem de ação, não de  pensamento... Tu é que és um homem de letras... Sei fazer contas, de somar, subtrair e pouco mais...

Vi-o, pela última vez, na festa dos seus 80 anos. Moeu o juizo do Jacinto, e obrigou a Bia a fazer-lhe um muamba de galinha e um calulu. Tiveram que ir a Lisboa, ao Martim Moniz, abastecer-se dos produtos angolanos, que não havia na terra. Éramos uns vinte e tal à mesa. A tasca ficou por nossa conta.  E nada de gente graúda. Houve música de Cabo Verde, de Angola e até da Guiné-Bissau. Discursos, no fim, muito contidos. Nada de política. Fiquei com pele de galinha. E dei-lhe um caloroso candando, à despedida. Um "quebra-costelas", como dizem os alentejanos.

Divorciado, não tinha muitas amizades no fim da sua vida. O irmão caçula, antigo professor primário, esse, também já tinha partido. Para minha grande surpresa e desgosto, o Arsénio  suicidou-se com um tiro nas têmporas, na casa da amante.  Uma coisa premeditada. Na véspera, ainda me mandara uma mensagem, premonitória, por telemóvel: "Gostei de te conhecer. Um último candando" (##). 

Devia ter desconfiado. E ter-lhe telefonado. Não quis incomodá-lo. Nunca imaginei que ele pudesse fazer uma coisa dessas. Afinal, não foi a doença do Alemão que o matou. Prefiro, em todo o caso, pensar que  ele partiu para a sua última viagem, desencantado mas lúcido... Foi cremado, nos arredores de Lisboa. Eu e mais uns tantos amigos e conhecidos (um dúzia, se tanto) fomos-lhe retribuir o candando. O último.

Luís Graça
Agosto de 2026

Nota do autor: Qualquer semelhança com a realidade, é mera coincidência

(#) Dipanda, corruptela de indepência (de Angola).

(##) Candando, do quimbundo = abraço.
______________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 11 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28171: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (44): O país que via passar os comboios

sábado, 18 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28192: Humor de caserna ( 280): Treze sextilhas e um refrão para o nosso mano Jaime Silva, agora octogenário (Luís Graça)


Porto Santo > 2 de outubro de 2024 > Jaime e Laura

Foto (e legenda): © Luís Graça (2026). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


Vinheta nº 11 da BD dedicada ao Jaime Silva, que no passado dia 17 de julho celebrar o seu 80º aniversário


1. Mail que enviei ao Jaime Silva, esta manhã, às o9:08

Jaime: toma lá a(s) foto(s) que serviu/ram para fazer a vinheta 11 da tua BD...Mando também uma foto da Dina, 2017...Por limitações técnicas, não pude mandar mais do que 3 ou 4 fotos para a geração gráfica feita por IA, sob "prompting" meu (e orientação editorial: tens que lhe fornecer o guião)..


Uso a IA dos pobrezinhos (sem assinatura, a versão Pro ou Plus)..Por exemplo, não tinha nenhuma foto do teu pai... E das tuas manas, só da Esmeralda...Mas é preciso aprender a trabalhar com estas ferramentas... E gastar um bom par de horas para fazer "brincadeiras" como esta (que é uma homenagem à tua pessoa, espero que não tenhas levado a mal)...

Tem "corte, costura, borracha, emendas"... Fico admirado como a IA "aprende" também comigo, com os humanos... Já temos uma relação de "grande cumplicidade" e, mesmo em modo gratuito (não Plus) dão-me mais tempo de "antena" (no interesse deles, porque lhes ponho questões difíceis...e sou muito crítico; há uns tempos atrás não me fariam "bonecos" que pudessem violar a privacidade, como é o caso presente...esta vinheta nº 11, por exemplo, mas não identifico a Laura, não uso o seu nome profissional, ou o apelido...)

Ontem, foi bonita a festa, mano!...Um número redondo, muito amor, amizade, companheirismo, camaradagem, alegria...Três gerações...Poesia e música, no fim. E um jantar em cheio, com arroz de sapateira, saborosíssima e abundante com a assinatura do "chef" Inocêncio (ex-Café Nicola, Lourinhã).

Parabéns, tens uma bela família!... E amigos, bons (onde me incluo). Luís


2. Aqui vão os versinhos que foram ontem cantados (com esceção das estrofes 10 e 11) com a música da cançãoo tradicional açoriana, "Pona aqui o seu pezinho...". Músicos: Rogério Ferreira (voz e viola),Francisco (Xico) Costa (cavaquinho), Pinto de Carvalho (bandolim e voz), Leonor Ferreira, Esmeralda Costa, Maria do Céu Pintéuse Luís Graça (vozes)-


Sextilhas e um refrão para o nosso mano Jaime, agora octogenário

1. Nasci em quarenta e seis,
Não valia cinco réis,
Seria um gato esfolado,
Que o Zé Rei, nosso vizinho,
Me tratava por Jaiminho,
E me queria, adotado.

2. "Ponha aqui o seu menino,
Vou-lhe dar outro destino,
Nesta casa de fartura,
Irá ser o meu herdeiro,
Não me falta é dinheiro,
O que me falta é ternura".

3. Mas a minha catequista
P'ra ficar com Deus benquista
Mandou-me p'ro seminário
E o meu pai, seu jornaleiro,
Pôs o filho em primeiro
E livrou-me do seu calvário.

4. Deus olhou-me e sorriu:
"Este, padre não saiu,
Vai p'ra Angola, mobilizado,
Dilatar o império e a fé"...
Safei-me d'ir p'ra Guiné,
Castigo mais desgraçado.

5. Ó minha mãe, vou partir
Mas prometo que torno a vir,
Não tens que pagar promessa;
Paraquedista não chora,
Tem também a sua hora,
Mas seus medos não confessa.

6. Voltei vivo à minha terra,
Sem mostrar a cruz de guerra;
A Fátima tive qu' ir,
Minha mãe e mana a pé,
Eu atrás, sem grande fé,
Com vontade de fugir.

7. Boina verde, subi aos céus,
Sonhos cumpri e são meus,
Professor fui, com prazer;
Em Fafe fiz a morada,
Casei com a Dina adorada,
Reaprendi a viver.

8. Nasceram Pedro e Sofia,
Minha maior alegria,
Hoje cada um doutor;
Se algum diploma alcancei,
Foi o orgulho que conquistei
Por lhes valer tanto amor.

9. Aos fafenses mostrei valor,
Também fui vereador,
Do desporto e da cultura;
Orquestras e andebol
Foram a clave de sol
Das minhas lutas n' altura.

10. Veio a dura despedida, 
Com a Dina a perder a vida,
Depois do Alzheimer sofrer;
Fiquei só, sem grande alarde,
Quem ama nunca é cobarde,
Há o ganhar e o perder.

11. Cupido, maroto e fino,
'Inda arrumou o destino
Deste jovem do Seixal;
Veio a Laura, de mansinho,
Dar mais pica ao meu caminho,
Com conversa de coisa e tal.

12. Gosto muito de falar,
De cavaquinho tocar,
Além do golfe, qu' é burguês,
Sou do signo Caranguejo,
A saúde é o qu' mais desejo,
E até me chamam Marquês.

13. Se Deus me der mais uns anos,
Quero vivê-los, meus manos,
Com juízo e coração;
Não quero entrar pr'a História,
Não me tirem a memória,
E nem, já agora,... a t*são!


Refrão / Coro


Põe aqui o teu pezinho,
Devagar, devagarinho,
Que já és octogenário,
Obrigado p'la amizade,
E esta bela irmandade
No dia de aniversário.




17 de julho de 2026

_________________

Nota do editor LG:

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28123: Humor de Caserna (276): No dia em que faz 82 anos, o luso-americano (e nosso camarada, régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona) João Crisóstomo recebe das mãos de Aristides Sousa Mendes a Comenda da Ordem da Liberdade...


  • Tradução (PT): (No interior do acolhedor apartamento de João e Vilma em Queens, Nova Iorque) / JOÃO: 82 anos! Muitas memórias fantásticas... mas alguns assuntos pendentes...

  • Tradução (PT/EN): (Exterior, com vista para a Sede da ONU em Nova Iorque) / ARISTIDES (visão): Hoje não, senhores! A minha consciência tem um encontro marcado... / Career Diplomats



  • Tradução (EN): ARISTIDES: Happy Birthday, João! For Foz Côa, for East Timor, for me... this should have arrived a long time ago! / Commendation of the Order of Liberty


    Tradução (EN): JOÃO (limpando uma lágrima): Aristides?! The best gift of all. But the greatest reward was being able to fight.

      

    Fonte:
    Prompting e orientação editorial: Luís Graça
    Textos e imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
    Geração gráfica assistida por IA:
    Google (2026). Gemini (versão de 22 de junho de 2026) [Grande modelo de linguagem].



    1. O nosso amigo e camarada João Crisóstomo é membro da nossa Tabanca Grande desde 26 de julho de 2010, sentando-se à sombra do nosso poilão sob o nº 432 (somos já 915, entre vivos e mortos); é régulo da Tabanca da Diáspora Lusófona (Queen, NY) e membro também da Magnífica Tabanca da Linha (Algés, Oeiras)...  Tem cerca de 3 centenas de referências no nosso blogue.

    Foi combatente na Guiné, em 1965/67, ex-alferes miliciano atirador de infantaria, CCAÇ 1439 (Xime, Bambadinca, Enxalé, Porto Gole e Missirá, 1965/67).

    Nasceu em Torres Vedras, A-dos-Cunhados, em 22 de junho de 1944. Está na terra do Tio Sam desde 1975, primeiro como emigrante, e depois naturalizado norte-americano. Vive em Queens, Nova Iorque,  é casado em segundas núpcias em 2013 com a esloveno-americana Vilma.  É pai de 1 filha e de 1 filho, e avô de 3 netos. Vem a Portugal mais do que uma vez por ano. Está "retired" mas não "inativo"...

    Já fez de tudo, desde mordomo a empresário da restauração... João Crisóstomo foi mordomo da antiga primeira-dama Jacqueline Kennedy Onassis, que o inspirou e a ser um ativista de grandes causas, culturais e sociais, que iriam marcar e mudar o mundo, como:
    • "Save the Coa Site Movement, USA” (Defesa das Gravuras Rupestres de Foz Coa, EUA) (1995);
    • Aristides de Sousa Mendes (1996);
    • LAMETA (Luso-American Movement for East- Timorese Autodetermination) (1998)
    • Dia da Consciência  (2004, 17 de junho);
    • Encerramento de Consulados Portugueses (2006);
    • Luso-Americano refém das FARC na Colômbia (2008);
    • Colaboração com a ASTIL:  Construção da Escola São Francisco de Assis, Timor-Leste,. Liquiçá, Manatti, Boebau, (2017-2018).
    Em suma, é uma vida com muitas causas. 

    João Crisóstomo, também conhecido como o "senhor Timor", é católico praticante, de espírito ecuménico, com uma relação privilegiada com o Vaticano e representantes das três grandes religiões monoteístas, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo,

    Nos últimos 30/40  anos,  esteve presente  em todas as grandes causas que atrairam o interesse geral das comunidades luso-americanas da costa leste dos Estados Unidos e que, de um modo ou de outro, também se situavam dentro do círculo alargado dos direitos humanos ou dos interesses,  declarados ou não, do país onde nasceu, Portugal.

    Foi o vencedor do Prémio Tágides 2023 na Iniciativa “Portugal no Mundo”, por todas as iniciativas que desenvolveu em prol da Ética e da Integridade.

    Em resultado da elevada dedicação a causas justas recebeu já as seguintes distinções (além do Prémio Tágides, 2023):
    • 1998 - International Rock Art Congress Award (USA)
    • 2001 - Angelo Roncalli Medal, International Raoul Wallenberg Foundation;
    • 2001 - Outstanding Service to Society Award, Edison State College;
    • 2002 - Visas for Life Award;
    • 2004 - “Aristides Sousa Mendes Medal” da International Raoul Wallenberg Foundation (IRWF);
    • 2005 - Luis Martins de Sousa Dantas Medal, IRWF;
    • 2005 - Recognition Certificate, Government of Canada.

    Se pudéssemos atribuir-lhe uma condecoração em nome do seu (e nosso) país de origem, Portugal, ele seria há muito Comendador da Ordem da Liberdade. Faz hoje 82 anos (*).

    Numa BD bem humorada (**), a nosso pedido, a IA do Gemini / Google pô-lo a receber das mãos do Aristides de Sousa Menses (Cabanas de Viriato, Carregal do Sal, 1885 - Lisboa, 1954) a Comenda da Ordem da Liberdade que  já deveria ter recebido há uns anos atrás. Ele já fez mais por Portugal e a Lusofonia do que muitos diplomatas de carreira... 


    (**) Último postde da série > 18 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28110: Humor de caserna (275): E se os portugueses nunca tivessem chegado ao Brasil?

    terça-feira, 3 de março de 2026

    Guiné 61/74 - P27789: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - XI (e última) Parte: Conclusão

    Guiné > Região de Tombali > Catió > CCS / BART 1913 (Catió 1967/69) > Cerimónia militar em fevereiro de 1968, por ocasião da imposição à CART 1689 da Flâmula de Honra (ouro) do CTIG (Comando Terriorial Independente da Guiné), atribuída em julho de 1967, com a presença das entidades civis e população.

    Foto do álbum do nosso saudoso Victor Condeço (1943-2010) > "Militares, civis da administração, correios e comerciantes. Da esquerda para a direita, [?], de costas, o Cap Médico Morais (1), o comandante, ten cor Abílio Santiago Cardoso (2), quatro funcionários dos Correios e Administração (3), os comerciantes srs. José Saad e filha (4), Mota (6), Dantas e filha (5), Barros (7), depois o electricista civil Jerónimo (8), e o alf grad capelão Horácio  Fernandes (9)".

    Ao canto superior direito pode ler-se a seguinte inscrição: "A nossa intervenção em África é resposta a um desafio que nos lançaram e a afrontas que não podemos esquecer' ".  

    Foto (e legenda): © Victor Condeço (2007).  Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

    1. Chegámos ao fim desta série, baseada na reprodução de  excertos da dissertação de mestrado em ciências da educação, pela Faculdade de Psicologia e Ciências das Educação da Universidade do Porto (1995), da autoria do nosso grão -tabanqueiro Horácio Fernandes, nascido em Ribamar, Lourinhã, em 1935, que foi nosso camarada como capelão militar no CTIG (BART 1913, Catió,  1967/69), e que faleceu no passado mês de novembro de 2025,  aos 90 anos.



    Horácio Fernandes
    (1935-2025)
    No capº IV daquele trabalho académico, ele narra e comenta a história de vida de Francisco Caboz, seu "alter ego". Trata-se, pois, de uma autobiografia, que em 30 páginas, a duas colunas, cobre a sua infância, adolescência, juventude e idade adulta até 1972, o ano em que, prestes a fazer 37 anos, regressa ao estado laical e constituiu família, passando a viver no Porto.

    Nos dez  postes anteriores já publicados (*), ele fala-nos, sucintamente, de:

    (i) a sua terra natal, "Arribas do Mar" [leia-se Ribamar, da Lourinhã], bem como as 3 figuras da família que o marcaram:  
    o pai (José Fernandes Nazaré), a mãe (Elvira Neto) e o avô materno,  o sacristão da freguesia, o Ti João das Velas de Santa Bárbara;

    (ii) como foi criando raízes a ideia de ser padre: o avô materno, sacristão, e a professora primária acabaram por ser as pessoas que mais pesaram nessa decisão;

    (iii) a entrada no Colégio Angélico (leia-se, Seráfico, na altura Montariol, em Braga, a mais de 300 km de distância da sua terra natal), e os "quatro cenários" onde se vai desenrolar a sua vida de "angélico" (ou seja, até ao 5º ano, correspondente hoje ao 9º ano de escolaridade): a camarata, o refeitório, a sala de aulas, o salão de estudo, e onde vigorava o panoptismo;

    (iv) os mecanismos de vigilância dos internos e os rituais de punição por parte dos prefeitos;

    (v) o 6.º ano, quando passou a ser noviço (Convento do Varatojo, Torres Vedras, já ao pé de casa);

    (vi) seguiu-se o Coristado de Filosofia (em Leiria, no seminário de São Francisco / convento da Portela);

    (vii) e depois de Coristado de Teologia (no Seminário da Luz, Carnide, Lisboa), até à ordenação sacerdotal (em agosto de 1959).

    (viii) no início do 2º semestere de 1967, foi chamada para fazer, na Academia Militar, o 1º curso de capelães militares;

    (ix)  foi mobilizado para a Guiné, em rendição individual, como capelão militar, sendo colocado no BART 1913 (Catió, 1967/69);

    (x) a sua vocação sacerdotal começou a ser  abalada com a sua passagem pelo sul da Guiné.

    Terminada a comissão, em finais de 1967, andou ainda na marinha mercante (transporte de tropas e navios petroleiros), como capelão, até deixar o sacerdócio em 1972.

    Casou, passou a viver no Porto. Teve 3 filhos. Estava reformado da Inspeção Geral de Educação onde trabalhou 25 anos na zona norte. Em 2006, aos 70 anos, doutorou-se em ciências da educação pela Universidade de Salamanca, Espanha.

    Reencontrámo-nos, por volta de 2015, na Tabanca de Porto Dinheiro, Lourinhã, ao fim de 57 anos de vidas completamente separadas. 


    2. Achámos que era uma história de vida que merecia ser conhecida dos nossos leitores. Um verdadeiro testemunho de uma época que ainda coincide, em parte, com a nossa.

    Considerámos tratar-se de um trabalho académico, relevante não só para a história da capelania castrense como também para o conhecimento do ensino confessional ministrado em seminários diocesanos e regulares, onde se formava o clero católico ao tempo da Ditadura Militar e Estado Novo (1926-1974).

    Imagem acima, do lado direito: capa do livro do Horácio Fernandes, publicado 14 anos depois da sua dissertação de mestrado (1995): ""Francisco Caboz: a construção e a desconstrução de um padre" [Porto: Papiro Editora, 2009, 185, (7) pp. ISBN 978-989-636-446-5].(O livro está esgotado.)


    História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - XI (e última) Parte: Conclusão 

    por Horácio Fernandes

    6. - A desconstrução do habitus. O Trânsfuga.

    De novo, e no fim deste desenvolvimento autobiográfico, se coloca a questão de saber qual a relevância científica da descrição fenomonológica de uma vida.

    Defendemos (vd. cap 3° da dissertação de mestrado) que a individualidade, não só  não  esgota as explicações estruturais - Francisco é produto de uma construção social em contexto salazarista - como estas podem ser enriquecidas pela análise daquela.

    Francisco não se deixou dilacerar, como porventura conviria a uma autobiografia mais épica (mas menos real), prioritariamente por dilemas políticos, ou por dilemas teológicos. 

    O trânsfuga, em que o tornaram e em que se tornou, era constituído por uma contradição que não lhe parecia insuperável, mas que as normas institucionais tornaram insuperáveis, entre a busca da sua identidade pessoal e a sua identidade profissional. Contradição essa, constituída prioritariamente por um cadinho de sensibilidades e afectos que ele, por excesso, não conseguia conter, dentro do «ego» que pensou ser o seu, durante 26 anos.

    Nos últimos tempos de Capelão Militar, Francisco andava em grande perturbação. Por um lado o habitus (**) predispunha-o e quase o obrigava a regressar à instituição. Por outro, achava que após a experência de uma vida diferente, a força das suas representações esmorecera e já não iria assumir a sua missão, apaixonadamente. 

    Abandonar, para ele, também era um terrível obstáculo, pois uma terrível frase não só o matraqueava, como se entranhara nele: tu es sacerdos in aeternum (tu és sacerdote para sempre).

    - 133 - 


    O habitus,  como dupla personalidade que é, resiste sempre a qualquer reconstrução que contra si se faça. A reconstrução de Francisco não foi fácil.

    Lançado em pleno mundo que aprendera a anatematizar, Francisco vê-se, com raras excepções, mal amado como padre e apenas tolerado, como companheiro de viagem.

    As representações que tinham sustentado e alimentado o seu longo percurso de domesticação começaram a desvanecer-se: 

    • foi o sonho de ser missionário que ficou desfeito, depois de observar in loco a irracionalidade da Guerra Colonial, a exploração do homem preto pelo branco e a aversão dos professores mais evoluidos a tudo o que fosse vestígio do colonialismo;
    • foi a excelência simbólica da missão de administrador do sagrado, que afinal não era reconhecida pela maior parte dos homens com quem vivera;
    • era a sacralidade da própria instituição divina, a Igreja, tão permeável às «cunhas» e compadrios, e indiferente às injustiças praticadas, na Guerra que apadrinhava.

    Estes dilemas não o dilaceravam, nem foram ocasião próxima de tomar uma atitude épica de rompimento. Mentiria, se o empolasse agora. Os dilemas políticos não foram a causa próxima do seu rompimento com a instiuição. Contudo, ajudaram-no a descrer.

    Francisco precisava de estar apaixonado por alguma coisa, ou por alguém. Fragilizadas as suas representações, abriu-se um vazio que precisava de ser preenchido A instituição, mergulhada como toda a Igreja, no aggiornamento (vd. cap 2º da dissertação) dos anos 60, debatia-se numa crise de identidade e as deserções multiplicavam-se.

    - 134 -

    Francisco era um apaixonado e estava a viver os seus 15 anos. As suas irmãs e demais pessoas, que o conheceram na altura da Missa Nova, descreviam-no como um místico, que quando se ordenou vivia o sagrado intensamente em todos os seus gestos. Quando tomou a peito que os alunos fizessem boa figura no liceu, levou até ao sacrifício esse objectivo. Quando se propôs ajudar a sua família, custeando os estudos de suas irmãs, não se poupou a esforços e fê-lo.

    Agora, estava numa encruzilhada. Na sua penúltima viagem no «Niassa», carregado de tropas para a Guiné, teve ocasião de conversar com um angélico, não trânsfuga, que lhe contou o seguinte:

    Em 1969, quando acabou a Comissão Militar, Francisco confídenciou-lhe que estava desamorado daquilo em que se empenhara e acreditara e se estava a inclinar para outra paixão. Confidenciara-lhe que era um poço de afecto e que se apaixonava com toda a facilidade, faceta que até aí nunca experimentara. Agora, queria viver a vida que não o deixaram viver durante 13 anos e queria vivê-la intensamente. 

    Confessou-lhe, então, que mais cedo ou mais tarde preencheria esse vazio. Ainda não individualizara esse afecto, mas quando se apaixonasse, não hesitava em pedir a redução ao estado laical. Sentia-se bem entre as raparigas, embora as suas reacções fossem como os de um jovem imaturo de 15 anos. Por um lado, o 'habitus' a inibi-lo e a lembrar-lhe que o seu compromisso com o sagrado era eterno. Por outro, um instinto quase irresistível para amar.

    - 135 -

    Tal como na construção da sua vocação, entra então em cena uma terceira personagem: o seu Prior. É com a sua intervenção que é possível estabelecer negociações entre o 'habitus', a dupla personalidade incutida durante 13 anos pelo Seminário e o agora Francisco de 36 anos, há já quase quatro anos, praticamente fora da instituição. E, novamente, a questão da influência das pessoas singulares na vida das pessoas, se coloca com toda a pertinência (cap. 2º).

    Na boa lógica do filho pródigo, as hierarquias tentam reconvertê-lo à causa, e prometem-lhe mesmo, não uma grande festa, com a matança de um carneiro, mas uma parcela do poder, cujo significado ainda é maior. Como persiste em recusar regressar, arrependido, à casa paterna, consideram-no Trânsfuga.

    É a lógica do ensino confessional, no tempo do regime salazarista, cuja estrutura organicista permanecia intacta. Se fosse fiel à domesticação, seria bem-aventurado; se não se subordinasse, seria amaldiçoado. A ordem discursiva, essa, serpenteia ao sabor das circunstâncias políticas: ora pede perdão, ora se autolegitima para esconjurar o demónio da racionalidade.

    - 136 - 

    CONCLUSÃO

    Um dos propósitos centrais deste trabalho foi o de explorar a hipótese de saber se é possível ou não penetrar sociologicamente as experiências de vida de alguém, a partir dessas próprias experiências e não apenas, como a sociologia tradicional procede, a partir das estruturas macro-sociais, enquanto instância explicativa.

    No final deste percurso de investigação queremos haver construído uma resposta à pergunta que na "Introdução" (da dissertação) formulámos:

    «Como penetrar sociologicamente as experiências de Francisco Caboz que cresceu e foi enformado pelo sistema do ensino salazarista, pelo subsistema do ensino confessional, foi domesticado e interiorizou o 'habitus sacerdotal', foi ungido na sua 'missão' simbólica, e se transformou em 'trânsfuga' e regressou ao quotidiano profano?».

    Resposta porventura não definitiva, primeiro porque as próprias vidas também não o são, depois porque não há olhar, científico ou não, que esgote totalmente o seu objecto.

    Admitimos que outros olhares, outra metodologia teria feito falar a história de Francisco Caboz de outro modo. Todavia, acreditamos ser esta, de todas elas, uma forma de o fazer que menos exaure a própria história de Francisco de possíveis significações e resultados.

    Num tempo de mudança de paradigma de cientificidade, em que as distinções entre as Ciências da Natureza e as Ciências Sociais e Humanas são postas em causa (cfr. Sousa Santos, "Para uma Ciência Pós-Moderna", 1979), num tempo em que o modelo positivista da cientificidade, mais do que criticado, tende a ser suplantado por modelos em que a própria cientificidade se intromete substancialmente na própria objectividade científica; finalmente, num tempo em que a literatura e a arte em geral se vê desafiada num potencial de nova cientificidade, ou cientificidade diferente, optamos por um método que possuindo a marca da História e dos seus cuidados metodológicos, possui uma espessura ficcional clara. (Nisbet, 1976: 16). Isto no que concerne à questão da pertinência sociológica da História de Vida de Francisco.

    Quanto à segunda interrogação: «quais os processos de domesticação/interiorização do habitus no ensino confessional e sua articulação com os vectores educativos do sistema salazarista?», esses processos, no Seminário tradicional, pretendiam plasmar uma representação de homem em que se miscegenavam as visões febris dos anacoretas do deserto africano, a dualidade maniqueísta medieval e os arroubos simbólicos reinventados pelos hagiógrafos (cf. Rodrigues, 1933).

    Centravam-se no aniquilamento do «homem velho», reconstrução do «homem novo» e inteira subjugação do self ao colectivo institucional. Consistiam na ritualização de todos os momentos e a subordinação destes ao Regulamento, num sistema panóptico, sem permitir que a racionalidade profana questionasse a sacralidade dos processos. 

    - 137 - 

    Obtinha-se, assim,uma dupla personalidade que obedecia cegamente ao rito inculcado e interiorizado. Tudo em nome dos valores simbólicos que constrangiam as subjectividades com dupla violência (Bourdieu, 1978).

    Relativamente à articulação com o ensino salazarista, se todo o ensino reflecte a matriz social do regime (Bourdieu, 1978), o ensino confessional exercia funções de complementariedade e articulação, em relação ao sistema de ensino público salazarista:

    • Complementariedade, na medida em que, subsidiado em grande parte pela clientela eclesiástica e «benfeitores», supria as lacunas do ensino público salazarista para os meios rurais, seleccionava os melhores, os vocacionados, na mesma lógica do sistema, incutindo-lhes o habitus para reproduzir a permanência irracional do mesmo constructum simbólico;
    • Articulação, porque embora tutelado pelas instâncias internacionais da Igreja mas não certificado, através de diploma, reproduzia os administradores do sagrado para difundir em todo o Império a Trilogia simbólica que constituía a essencialidade do regime e a subordinação do Outro.

    Mais do que orientado pela lógica das conjunturas político-económicas internacionais, a Ditadura autolegitimou-se simbolicamente e enformou a Nação pela matriz sistémica do ensino confessional de que o Ditador fora quer reprodutor, quer paladino. 

    As hierarquias eclesiásticas foram cúmplices desta ditadura por terem ofertado o ditador, alimentado-a ideologicamente e à sombra dela se instalarem, à excepção de algumas vozes individuais discordantes, sobretudo da política social (D. António, Bispo do Porto, 1958). As hierarquias perderam a voz, depositando-a nas mãos do regime, em troca dos favores temporais.

    Nos anos 60, factores endógenos e exógenos põem em causa o funcionamento pedagógico dos Seminários. O número de vocacionados regride com a certificação liceal imposta, a representação social do padre diminui e as mudanças inerentes ao aggiornamento da Igreja abalam as estruturas panópticas do Seminário tradicional. A crise estende-se à própria classe eclesiástica que começa a pôr em causa não só os processos de inculcação do 'habitus', como a legitimidade do próprio 'habitus' sacerdotal. As deserções multiplicam-se e os grandes Seminários esvaziam-se, procurando novos paradigmas pedagógicos.

    Finalmente a História de Vida de Francisco Caboz revela que o micro pode dialectizar com o macro, mas não se esgota nele. Enformado pelas práticas rituais, e conformado por elas, até à «missão», vê-se depois confrontado com o seu self, quando, ultrapassadas as barreiras panópticas «deixa de ser profissional a tempo inteiro do rito» (Saud, 1975). Paulatinamente, vai sendo destruturado o 'habitus' interiorizado, até à libertação dos «instrumentos de censura, e auto-controlo que produziam, sem exame crítico, explícito, mensagens conforme a ortodoxia» (Ibidem).

    Em termos de ganhos sociológicos, adiantamos que ao partir da não hipóstase do social e do político, ao substancializá-los em sistemas de agência humana, pretendemos quer completar os «buracos negros» que a sociologia de teor estruturalista sempre deixa em aberto, enquanto formação discursiva quer sublinhar a não reificação das estruturas sociais.

    - 138 - 

    Com a história de Francisco Caboz pretendemos haver mostrado que o salazarismo não criou apenas salazaristas, que as determinações estruturais deixam margem de acção suficiente para a agência humana se instalar e que o próprio salazarismo, enquanto Weltanchaung [visão do mundo, em alemão], não pode ser reduzido a um mimo do fascismo italiano ou nazismo alemão. Aí, uma outra, muito peculiar, história de vida, teria de se contar, a do próprio Salazar, a do Prefeito do Colégio da Via Sacra. Mas isto seria uma outra Dissertação (cf. 1º capítulo).

    Efectivamente, o próprio salazarismo, acreditamos nisso, poderia ver alguns dos seus «buracos negros» preenchidos - histórica e sociologicamente - se com as análises macro se cruzassem as análises micro. O nosso contributo, para a compreensão sociológica do salazarismo, parece concentrar-se aí, por uma dupla via: a via do salazarismo, esclarecido pelo seminarismo de Salazar e a via de uma criança que se fez homem e trânsfuga num Seminário e ambiente de tipo salazarista.

    - 139 - 


    Fonte: Excertos da dissertação de mestrado do Horácio Neto Fernandes, "Francisco Caboz: do angélico ao trânsfuga, uma autobiografia". Porto: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. 1995, pp. 133-139 (A dissertação, orientada pelo Prof Doutor Stephen R. Stoer, já falecido, está aqui disponível em formato pdf).

    (Revisão/ fixação de texto, negritos, links, parênteses retos, título: LG)
    _______________

    Notas do editor LG:

    (*) Último poste da série > 23 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27763: História de vida de um capelão militar: Horácio Fernandes / Francisco Caboz (1935-2025) - Parte X: A desconstrução do padre, que ainda andou nos navios da marinha mercante (T/T Niassa e petroleiros)

    (**) Habitus: conceito central da teoria sociológica do francês Pierre Bourdieu (1930-2002). Em termos sucintos, efere-se a um sistema de disposições duradouras ( esquemas de perceção, pensamento, ação e avaliação ) que são incorporadas pelos indivíduos através da socialização (família, escola, grupo social, etc.) e que orientam as suas práticas e escolhas de forma inconsciente e adaptativa. Ou por outra palavras,m é a interiorização da estrutura social que molda a forma como agimos, pensamos e sentimos, reproduzindo (ou transformando) as desigualdades e hierarquias do campo social onde nos inserimos.

    Pierre Bourdieu esteve na Argélia durante a guerra colonail  como parte do serviço militar obrigatório. Recusou ir como oficial miliciano,  prestou serviço como simples soldado na área administrativa. Depois da desmobilização, tornou-se professor e investigador na Universidade de Argel (1958–1960). Foi durante este período que realizou trabalho de campo etnológico entre os cabilas, um subgrupo do  povo bérbere,  experiência que fundamentou a sua obra "Sociologie de l’Algérie" (1958) e que marcou  a sua transição da filosofia para a sociologia e antropologia.

    sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

    Guiné 61/74 - P27776: In Memoriam (572): João Gomes-Pedro (1939- 2026), ex-alf mil médico, BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68): "a guerra deu-me uma preparação brutal para a vida"

    1. O prof doutor João Gomes-Pedro (foto ao lado, do Notícias Magazinbe, de 5/6/2017, da autoria de Jorge Simão)  morreu recentemente, no passado dia 16 do corrente, aos 86 anos.

    É justo fazermos-lhe aqui uma pequena homenagem (*), por três ou quatro ou três razões:

     (i) é uma figura de referência da medicina, da saúde e do ensino em Portugal. 

    (ii) teve um papel inovador no desenvolvimento da pediatria em Portugal;  

    (iii) pelas suas mãos passaram muitos dos nossos filhos e netos;

    (iv) mas o que poucos sabem é que também fez a guerra colonial, como jovem médico no BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68), o mesmo batalhão a que pertencia o dr. Adão Cruz, nosso grão-tabanqueiro, alf mil médico, CCAÇ 1547, Bigene, 1966/68) (*), mas também o Domingos Gonçalves, ex-alf mil, CCAÇ 1546.

    A importância que a Guiné teve nas suas opções futuras foi destacada por ele em entrevista que deu ao Notícias Magazine  (que sai com o Jornal de Notícias e Diário de Notícias),  em 5 de junho de 2017 (**),  

    A entrevista acaba por ser um retrato fascinante da sua vida e obra, sendo a experiência na guerra colonial (1966-1968), na região do Óio, algo que muito valorizou por ter moldado o seu percurso como homem,  pediatra e professor.

    Também ele sentiu, como qualquer um de nós, ao desembarcar naquela terra verde-rubra, um choque térmico e emocional: "Não consigo ficar aqui nem umas horas". Também bebeu a água do Geba e do Cacheu ... Mas a saudade do filho recém-nascido (Tiago) e a responsabilidade familiar (especialmente para não desiludir a mãe) e a paixão pela carreira médica levaram-no a assumir a missão.

    Notável foi o seu envolvimento com as populações: organizou consultas para crianças locais, inclusivamente aprendeu fula (algumas palavras e expressões em fula, imaginamos...),  para comunicar diretamente com as famílias (desconfiava que os tradutores não transmitiam tudo), e confessou que enfrentou epidemias de sarampo com mortalidade elevadíssima.

    Trabalhou, em Farim, com escassez de medicamentos, instalações inadequadas e recursos limitados, co.o qualquer outro médico. De resto. Tinha-se licenciado em 1962.  A guerra ensinou-lhe a resiliência e a importância da empatia, lições que transportou para a pediatria: "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida" (sic).

    A pediatria acabou por ser a sua paixão e  missão. Uma paixão que nasceu da relação com Jácome Delfim (seu padrinho de casamento) e do sogro, também ele pediatra. Mas foi a experiência na Guiné que solidificou o seu compromisso com os direitos da criança e a abordagem holística e humanista.

    Seria ele quem viria a introduzir, nos anos 80, em Portugal, a consulta pré-natal de pediatria, defendendo que o vínculo entre pais e bebé começa ainda no útero. 

    Foi pioneiro na abordagem centrada na família, inspirado por médico norte-americano  Berry Brazelton (1918-2018), e na valorização do comportamento e da afetividade, e não só da doença.   

    Rompendo com séculos de preconceitos em relação às crianças, defendia que o bebé tem direito a uma consulta antes de nascer, pois já ouve, vê e distingue vozes no útero.

     O prof doutor João Gomes-Pedro usou os avanços da neurociência para validar cientificamente o que a intuição e Brazelton á lhe diziam: os bebés comunicam desde o nascimento.

    Criou também uma "via verde" no consultório para adolescentes, onde podiam falar de tudo (namoros, cursos, dúvidas existenciais).

    Enfim, deixa um legado importante: a Fundação Brazelton-Gomes Pedro, criada por ele e por Brazelton em 2010, que tem como missão formar profissionais em "Ciência do Bebé e da Família", defendendo que a felicidade da criança depende da confiança e competência dos pais.

    Era um médico e um homem de primeira grandeza: sempre disponível, atendia chamadas a qualquer hora ("Doutor, parece que vai estar sol, acha que ponha um chapéu à menina logo de manhã?"). 

    Para ele, a pediatria era "brincar com crianças" e descobrir quem é cada uma, para além dos sintomas.

    Criticava o stress da sociedade moderna e os índices altos de separação divórcio em Portugal, alertando para o impacto negativo nas crianças do disfuncionamento familiar. Defendia a igualdade parental e a importância do afeto na construção da resiliência.

    Mesmo após a jubilação como professor catedráti
    co, e diretor do Departamento da Criança e da Família da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, continuava a trabalhar 10 horas por dia, e mantinha ligações afetivas com pessoas que acompanhava desde bebés (muitos já adultos, voltavam só para conversar).

    É autor de diversas obras relevantes nas áreas da pediatria e neuropediatria.

    Eis algumas frases que destacamos da sua entrevista de 2017 ao JN:
    • "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida."
    • "O pediatra tem de ser um detetive do comportamento, não só da doença."
    • "O grande objetivo é a felicidade da criança."
    • "Os pais são os grandes mestres da natureza do seu bebé."
    Em suma, e como lição para os antigos combatentes, João Gomes-Pedro transformou o trauma da guerra numa força para humanizar a medicina.

     A Guiné ensinou-lhe que "a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas culturas" - lição que aplicou ao cuidar de cada criança como um universo único.

    2. Eis alguns excertos dessa entrevista ao Notícias Magazine, em 2017 (*)

    (...) JN - Quando acabou o curso, em 1965, estava prestes a ser pai. Com a paternidade, passou a olhar para a pediatria de outra perspetiva?

    JGP - O nascimento de um filho, ainda por cima quando o pai não é suficientemente maduro – só tinha 23 anos – é um marco decisivo e mudou essencialmente a minha sensibilidade.

    Pouco meses depois de ser pai, fui para a Guiné, para a guerra colonial. Lembro-me de aterrar, sair do avião, sentir o bafo de calor e pensar «não consigo ficar aqui nem umas horas».

    No mato não havia nada, mas eu organizei uma consulta específica para crianças e fiz questão de aprender a falar fula, porque desconfiava que o enfermeiro-tradutor não relatava tudo o que os pais me contavam. A mortalidade era elevadíssima, em dois anos «apanhei» duas epidemias de sarampo.

    A guerra, à qual pensei fugir, deu-me uma preparação brutal para a vida. Desde logo pelas saudades que tinha do meu filho Tiago, sempre presente nas minhas descobertas.

    JN - Porque não fugiu?

    JGP - A razão essencial foi a de saber do desgosto que causaria à minha mãe, com quem tinha uma relação muito forte. O não poder regressar a Portugal era um imperativo a par da responsabilidade de já ter uma família. Percebi também que seria o fim de uma carreira de médico em Portugal. Uma carreira sonhada. Por isso, decidi assumir a guerra.

    A Guiné foi uma experiência importantíssima na minha vida. Percebi que a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas diferentes culturas. Foi um tempo em que estudei e aprendi muito com as populações e com os meus companheiros de batalhão.

    JN - Na Guiné viveu seguramente momentos terríveis. 

    JGP - Muitos. Surgiram-me, no posto clínico de Farim, três soldados com queimaduras extensíssimas, provocadas pela explosão de uma mina, que se agarraram a mim, a gritar de dor, chamando pelas suas mães, pedindo-me aos gritos que não os deixasse morrer.

    JN - Pediatria, a carreira sonhada. Fale-me dos primeiros tempos dessa carreira. JGP - Tenho pensado nisso, agora que tenciono deixar a clínica, em 2018.

    JGP - Lembro-me da minha primeira consulta privada. Vi a primeira criança, uma rapariga com 7 anos, numa clínica da Baixa, onde trabalhavam vários médicos à espera que alguém batesse à porta. Um dia, entrou uma senhora à procura de um pediatra. A miúda tinha umas manchas, talvez alergia. Vi-a mais uma ou duas vezes. 

    Nessa altura, a pediatria ia apenas até aos 10 anos, mas não me importava. Passei a ver crianças muito mais velhas. A adolescência ganhou um capítulo essencial da pediatria que na altura não tinha. Foi em 1968, já vão lá 49 anos. O pediatra era um médico que aplicava apenas a metodologia clássica. (...)

    (O resto desta entrevista é obrigatório ler, aqui, para se perceber a importância que este nosso camarada da Guiné  (, camarada, apesar da deferência com que tratávamos os alferes milicianos médicos.... ) teve na mudança de paradigma da pediatria em Portugal. Recomendo a sua leitura aos pais e avós... (Declaração de interesse: conheci-o pessoal mas circunstancialmente, há maais de vinte anos, na Faculdade de Medicina de Lisboa,  já era uma sumidade, mas eu não sabia que  tinha estado na Guiné.)

    3. Segundo o  testemunho do nosso camarada Domingos Gonçalves (ex-alf mil  CCAÇ 1546/BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68), o batalhão tinha três médicos, sendo João Gomes-Pedro um deles. 

    "Como pessoa, apenas posso referir que era um homem excepcional."

    (...) "Na altura, era ainda clínico geral, mas já se destacava pela sua competência e humanismo, mesmo em condições extremamente precárias. Apesar das dificuldades, ele e os outros os médicos do batalhão conseguiam 'fazer milagres' e davam assistência não só aos militares, mas também às populações civis locais." (...)

    O Domingos Gonçalves testemunha que o João Gomes-Pedro organizou consultas específicas para crianças na Guiné.

    Os outros dois médicos chamavam-se: um Carlos Alberto, e outro, Adão [Cruz, nosso grão-tabanqueiro].

    (...) As condições em que trabalhavam eram precárias, quer no que respeita a instalações, quer no que respeita a medicamentos, ou outro material médico. Regra geral, mesmo não sendo santos, às vezes conseguiam fazer milagres. Num relatório sobre diversas matérias, o comandante do batalhão a que pertenci, queixava-se.

    " No Serviço de Saúde há grandes atrasos na recepção dos medicamentos, e o não fornecimento de vários produtos requisitados, o que perturba o fornecimento da assistência, que é ainda prejudicada pelas deficientes instalações dos postos de saúde." (...)

    Será que alguém mais se lembra dele ? O Domingos Gonçalves, sim. O dr. Adão Cruz também se deve lembrar do colega.

    (Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto: LG)
    ___________________

    Notas do editor LG:

    (**) Publicada originalmemnte no Notícias Magazine > João Gomes Pedro, o homem que revolucionou a pediatria em Portugal | Entrevista de Alexandra Tavares-Teles | Foto de Jorge Simão | 5 de junho, 2017 às 01:41