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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

III - O que eu sei da guerra que estou a travar

Estou consciente que não disponho de tempo para manter este nível de pormenor, quando comecei a estruturar esta intervenção achei por bem pôr ênfase neste tempo de adaptação, dou-lhe um valor incalculável, foi nascendo o meu amor por aquelas gentes que tanto confiavam em mim, faltava-lhes tudo, exigiram-me que lhes desse o devido cuidado, tudo somado nasceu entre nós o respeito, a consideração, a lealdade. Eu estava ali para fazer a guerra, ou para travar os ímpetos do chamado inimigo, cedo descobri que tudo passava por mostrar às populações a moeda da lealdade do cuidado pelo Outro.

À cautela, supondo que irei viver num universo radicalmente diferente do que vivi em Lisboa, apetrechei-me de dois malões feitos em pinho, levei neles umas largas centenas de livros e discos de vinil e o gira-discos a pilhas. Nada sei da Guiné, quando ali desembarquei, nem do seu mosaico étnico, em que locais estão implantadas as tropas portuguesas e onde há guerrilha, li durante a viagem de barco um volume sobre a Guiné Portuguesa da autoria do então Comandante Teixeira da Mota, esclarecedor quanto a aspetos históricos, geográficos, antropológicos e etnográficos, mas era um livro de 1954, fiquei com uma ideia quanto à severidade do clima, e havia tornados e uma espantosa diversidade quanto a fauna e flora, mangais, vários tipos de floresta, palmares, lalas de água salgada, Savanas, não faltam macacos, cobras, ratos-voadores e uma espécie de abutres, alimentam-se de tudo.

Desembarcado em Bissau, ainda esperei ser convocado para uma reunião onde ficasse a saber que guerra de guerrilhas ali se vivia, nada aconteceu, fiquei entregue a mim próprio, ia diariamente a uma repartição do Quartel-General saber se tinha guia de marcha. Passeei-me por Bissau, o museu da Guiné surpreendeu-me, comprei um livro sobre os Mandingas, o jeito que me deu. Resta dizer que me mandaram apresentar no cais do Pidjiquiti na manhã de 2 de agosto, embarquei num barco com vários africanos, deram-me um garrafão de água e uma ração de combate. Fiz o estuário do Geba, havia um jovem que me ia explicando os locais, ali ao fundo é Jabadá, vamos parar em Porto Gole, anoiteceu, alguém me dirá em voz baixa que vamos passar perto de Ponta Varela, é ali que os barcos são atracados, o barco navega com toda a gente em silêncio, depois entrou num estreito leito do rio, sinuoso, mais adiante há luzes, primeiro o Xime mais adiante Bambadinca.

Algo me está a maravilhar, assim como descobri na recruta e na especialidade a energia física e o prazer da marcha, começo a entender agora que tenho capacidade de liderança, nestes primeiros três meses vamos fazendo patrulhas de reconhecimento, vou tirando notas do terreno percorrido, deslumbrei-me com os palmares de Gambiel e de Chicri, estou ciente de que aquelas obras são mais do que indispensáveis, não tenho ilusões quanto à insegurança em que vivemos. Vivo numa morança onde se pôs saibro no chão, foi pintada uma cama de ferro e feito um colchão de folhelho, mais tarde descobrirei que aquela cama pertenceu a um dos nossos maiores cartógrafos, Armando Cortesão. Converso regularmente com o régulo, com o chefe de tabanca, com o responsável religioso. Apareceu um jovem a oferecer-se para guarda-costas, o seu nome é Ieró, parece ser uso e costume haver tal intendência, Ieró explica-me o que é que pretende fazer: entregar a roupa suja à lavadeira e verificar o estado em que regressa; limpar o armamento e a limpeza da casa de nosso alfero, vai por aí fora falando das botas para engraxar, levar e trazer recados, e, súbito, diz algo que arrepia nosso alfero: se necessário pôr, protege com o seu corpo o seu comandante, deve estar preparado para dar a sua vida por ele.

Vive-se com o que a vida nos ensina: os graves problemas de saúde, sobretudo dos civis, as carências nutricionais das crianças, o imperativo das colunas de abastecimento; apanhou-se um grande susto, um dia em Mato de Cão, ouve-se um ronco medonho, depois as águas parecem estar a ferver em remoinho, deitam espuma para os lodos das margens, segue-se uma onda, então desatei a fugir colina acima, soldados a rirem-se, e eu a pensar que era um marmoto e os soldados a dizerem que não, é macaréu.

Multiplicam-se as tarefas, na secretaria do Batalhão entregam-me um processo de averiguações, uma criança, anos atrás, em Finete, acionou uma granada incendiária que tinha ficado num reboque militar, o seu corpo foi severamente atingido, como eu irei ver mais tarde, passei horas e horas a mandar deprecadas para muitos lugares de Portugal, o processo acabou em nada. Percorro aquelas matas, vejo estacas calcinadas, houve para ali vida, apercebo-me agora que vivo num território dividido, onde se deu um turbilhão demográfico, fugiu gente para muitos sítios, os que ficaram estão em Missirá e Finete, em Madina e Belel. É assim que se vive num território em guerra de guerrilhas.



IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida

Aproveito as idas a Mato de Cão para fazer patrulhamentos, quero descobrir os caminhos que as gentes de Madina e de Belel percorrem atravessando o Geba em diferentes sentidos. Iremos descobrir pirogas camufladas dentro do mato denso do tarrafe, para quem vai aos Nhabijões; junto do Geba estreito, frente à bolanha de Mero, na margem esquerda, encontramos indícios da sua passagem, desde carregadores de espingardas a bosta de vaca. Seguem-se emboscadas, o chamado inimigo terá os seus mortos e feridos, sofremos também com gente nossa acidentada, o Natal mais luminoso da minha vida será o de 1968, alegria irrepetível, gente de cá enviou vitualhas, houve festa para toda a população civil e para os contingentes de Missirá e Finete.

Em fevereiro de 1969 fui ao hospital militar de Bissau para ser operado, sofria de uma cartilagem atrás do joelho direito que me dava dores insuportáveis. Antes de ir, participei numa operação desastrosa onde se acidentou gravemente mais um amigo meu. Feita a operação, descubro que Missirá fora flagelada, o incêndio consumira cerca de dezasseis moranças, consegui apoios no Batalhão de Engenharia, não me irá faltar cimento, nem dinheiro para as madeiras, virão chapas onduladas, o essencial para que quando chegou a época das chuvas toda a gente tinha o mínimo de conforto e aproveitou-se a ocasião para renovar um bom número de abrigos.

Entretanto, não faltarão flagelações, a resposta será sempre pronta e enérgica. Tenho de abreviar, a contragosto. Participaremos também nas operações dos outros, deixei de ter medo da noite. Uma vez escrevi o seguinte: “Descobri que a floresta à noite tem outras expressões de vida, os estalos da madeira sobressaltam, o piar das árvores pode parecer de muito mau agoiro, um porco-do-mato pode assustar uma patrulha em marcha, há sons que se confundem, o pior são os gemidos das hienas, lembram o choro dos bebés; em emboscadas noturnas, sente-se o bafo do vizinho do lado, parece que estamos perdidos num oceano de sombras, já me habituei ao restolhar dos animais, quem está à noite na floresta em circunstância alguma pode perder de vista o camarada que segue à frente, já ouvimos falar no terror, no desespero que é estar perdido em território perfeitamente desconhecido.”

Os meses passam, os homens do meu pelotão dão-me claramente a saber que estão fartos de viver naquele ponto do mato, há mais de três anos que combatem em Missirá, fui forçado a pedir ao comando do batalhão transferência, não deixando de advertir os meus homens que não iríamos para melhor em Bambadinca. Tal como aconteceu.
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Notas do editor:

Vd. post de 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28014: Notas de leitura (1922): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1.º cabo aux enf, 2.ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte X: À falta de vaca, avançou o hipopótamo para o rancho

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27904: (De)Caras (247): Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494 (Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista)

Ex-1.º Cabo Radiotelegrafista António Castro


Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494

O dia 27 de janeiro de 1972 marcou a fronteira entre o que eu era e o que viria a ser. Embarquei por via aérea num avião dos TAM (transporte aéreo militar) DC 6 em Lisboa com a inquietação de quem parte para o desconhecido. O avião levantou voo pesado, como se carregasse não só homens, mas também os medos que cada um escondia no fundo do peito.
Douglas DC6 dos Transportes Aéreos Militares (TAM)
Créditos: Página dos Especialistas do AB4

A viagem até Bissau durou nove horas, uma travessia longa, silenciosa, feita de pensamentos que ninguém ousava partilhar. A meio do percurso fizemos uma paragem de cerca de uma hora na Ilha do Sal, em Cabo Verde. Aquela escala breve, entre o céu e o mar, parecia suspender o tempo - como se fosse o último momento de respiração antes do mergulho definitivo na guerra.

Foi ali, naquele pedaço de terra árida e luminosa, que escrevi e enviei à minha esposa o meu primeiro postal. As palavras eram simples, mas carregavam tudo o que eu não sabia dizer em voz alta: a saudade antecipada, a incerteza, a necessidade de manter um fio de ligação ao mundo que estava a deixar para trás.

Depois da escala, voltámos a levantar voo. O DC6 avançou sobre o Atlântico como se nos empurrasse para um destino inevitável. Quando finalmente aterrámos em Bissau, o ar quente e húmido recebeu-me como um aviso silencioso: a partir daqui, és outro.

Durante o mês que permaneci em Bissau, tive a sorte de ser acolhido na casa do 1.º Sargento, Manuel da Silva Caldas e da sua família. Ele era o chefe do STM (Serviço Telecomunicações Militares) no Agrupamento TRMS no Quartel de Santa Luzia, e abriu-me a porta como se eu fosse um filho que chegava de longe. Aquele lar improvisado, tão distante do meu, deu-me um chão firme num momento em que tudo era novo. A mesa partilhada, as conversas, a normalidade possível - tudo isso ajudou a suavizar o peso da guerra que se aproximava.
Bissau - 1972, 1.º sarg. Caldas em primeiro plano, eu, de costas

Fiquei um mês em Bissau, em estágio de radiotelegrafista. Era um tempo de adaptação, mas também de disciplina. Passava horas a fio a praticar grafia, o velho morse que se tornaria a minha segunda respiração. O som seco dos pontos e traços marcava o ritmo dos dias, como se cada mensagem fosse um pequeno exercício de sobrevivência.
Bissau 1972 - Agrupamento das TRMS

Ali aprendi não apenas a transmitir - aprendi a ouvir. A distinguir interferências, a reconhecer padrões, a perceber quando uma mensagem vinha limpa ou quando escondia urgência. E, acima de tudo, aprendi os procedimentos de segurança: como manter silêncio rádio, como evitar que uma falha minha colocasse homens em risco.

A fonia também fazia parte do treino, mas era a grafia que exigia mais de mim. A fonia era rápida; o morse era preciso. E na Guiné, a precisão salvava vidas.

Em 3 março de 1972, segui para o mato por via aérea. O avião era um Dakota, daqueles que tremiam como se carregassem memórias de todas as guerras anteriores. Aterrámos em Bafatá, e dali seguimos em coluna auto, com paragem em Bambadinca, onde o cheiro a poeira e gasóleo parecia anunciar que o interior da Guiné tinha regras próprias.

O destino final era o Xime. E o Xime não era apenas um aquartelamento - era um teste diário à resistência de cada homem.

Ali, entre o Geba castanho e a mata cerrada, aprendi que o silêncio nunca era silêncio. Havia sempre um rumor, um estalar, um pressentimento. E quando a noite caía, caía mesmo - pesada, espessa, cheia de sombras que pareciam mover-se sozinhas.

O posto de Transmissões, era num local sem segurança, sempre que éramos flagelados tínhamos de procurar um abrigo próximo. Operava em grafia (código morse) com o emissor receptor AN/GRC-9 e em fonia com o AVP-1 conhecido por banana e o TR-28 (Racal). Eu pertencia às Transmissões de Engenharia, e o meu trabalho era feito num posto fixo, dentro do aquartelamento. Não participava nas operações. Essas cabiam aos TRMS de infantaria, que saíam com o Racal (TR-28) e com o AVP-1, acompanhando os grupos de combate nas picadas, nas emboscadas, nos reconhecimentos.

O meu mundo era outro. Eu ficava no coração das comunicações, onde a guerra chegava em forma de sons metálicos, interferências, códigos e urgências. Fazia escuta permanente e transmitia quando era preciso - e era preciso muitas vezes.

Era ali, naquele posto fixo, que mantinha vivas as ligações com Bambadinca, Mansambo, Enxalé e Xitole. Era ali que recebia pedidos, alertas, relatórios, mensagens codificadas. E era dali que partiam as comunicações que podiam decidir se uma operação avançava, recuava ou pedia evacuação.

A guerra, para mim, não era a picada. Era o som seco do morse, a tensão da escuta, o silêncio que precedia uma mensagem urgente, a responsabilidade de não falhar. E, no fim, era a certeza de que, mesmo sem sair do aquartelamento, eu estava ligado a todos os que lá fora arriscavam a vida.

Para além de numerosos contactos com o inimigo no terreno em operações, emboscadas etc., no aquartelamento fomos muitas vezes flagelados com armas pesadas e ligeiras, nomeadamente Canhão s/recuo, morteiro 82 mm, RPG 7, RPG 2 e Foguetões.

A guerra molda-nos sem pedir licença. E quando chegou o dia 3 de abril de 1974, o dia do regresso, senti que deixava para trás uma parte de mim que nunca mais recuperaria.

Voltei por via aérea num Boeing 707, como tinha chegado. Mas o homem que regressou não era o mesmo que partira. Foram 26 meses e 7 dias na guerra da Guiné.
Boeing 707 da Força Aérea Portuguesa
Créditos: Página dos Especialistas do AB4

Hoje, tantos anos depois, sei que a CART 3494 não foi apenas uma unidade militar. Foi uma família improvisada, forjada no calor, na lama, no perigo e na necessidade absoluta de confiar uns nos outros.

E cada vez que nos juntamos, cada convívio, cada abraço, cada história repetida, é como se o rádio voltasse a ganhar vida - e a ligação entre nós se mantivesse tão forte como naquele tempo.

Porque, no fundo, a guerra passa, mas os homens que a viveram nunca se perdem uns dos outros.

António Castro,
ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494
07ABR2026

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Nota do editor

Último post da série de 7 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27898: (De)Caras (246): Lembrando a participação do ex-Alf Mil Cav Francisco Gamelas, CMDT do PelRec 3089; do ex-1.º Cabo Bernardino Lima, Condutor/Apontador do PelRec 3083 e a minha como ex-CMDT do PelRec 2208, no Colóquio “O Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial: Perspetivas Locais e Globais”, levado a efeito, no dia 23 de Novembro de 2021, na Universidade do Minho (Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav)

quarta-feira, 25 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27856: Historiografia da presença portuguesa em África (522): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1964, 2.º semestre (80) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
O Boletim Oficial é um documento de leitura obrigatória para qualquer investigador que esteja focado na criação da colónia a partir da sua desanexação de Cabo Verde, o que aconteceu em 1879. Comecei este meu trabalho anos antes, considerei que era indispensável entender o significado dessa união Cabo Verde e Costa da Guiné, era assim que se tratava a Pequena Senegâmbia, convém não esquecer que Honório Pereira Barreto escreveu a sua memorável Memória sobre o Estado Actual da Senegâmbia Portuguesa em 1843. Agora que estamos em pleno conflito armado, o Boletim Oficial dá-nos a possibilidade de visualizar a extensão dos serviços, o funcionamento um tanto fictício do sistema económico e financeiro. E descobre-se que a Guiné tem um herói, o regedor de Porto Gole, Abna Na Onça, tanto quanto nos é dado a perceber é o primeiro bravo nascido na Guiné que enfrenta destemidamente as forças do PAIGC.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1964, 2.º semestre (80)


Mário Beja Santos

Este ano de 1964 regista uma continuidade de reforço de verbas, concessões de crédito, orçamentos suplementares, é a cortina de fumo para não dar notoriedade à desarticulação económica e aos tumultos demográficos que alteraram radicalmente a vida das populações principalmente no Sul, na região do Corubal, no Centro-Norte, com especial incidência na região do Morés. Deixaram de ser transitáveis eixos como Jugudul-Bafatá e Bissorã-Mansabá-Bafatá, o que exigiu o recurso aos transportes marítimos e aéreos, o porto de Bambadinca será fulcral para o abastecimento do Leste. Cresce o número de funcionários, que tanto podem ser professores, como médicos e enfermeiros. Descobre-se que há um herói guineense, virá a ser condecorado e mais tarde abatido por forças do PAIGC, Abna Na Onça. Tirando este destaque e a notícia de que é necessário importar muito arroz, o Boletim Oficial está discretamente longe da guerra.

No Boletim Oficial n.º 26, de 27 de junho, é aprovado o Estatuto do Corpo de Polícia de Segurança Pública da Guiné. Estamos agora em julho, no Boletim Oficial n.º 28, de 13 desse mês, pelo Decreto n.º 45785, reorganiza-se a atual Missão Permanente de Estudo e Combate à Doença do Sono e outras Endemias que passa a designar-se Missão de Combate às Tripanossomíases da Guiné, com duas finalidades: o combate e a profilaxia da doença do sono e o combate e profilaxia das tripanossomíases animais.

Abna Na Onça é o nome de um valente guerreiro que surge pela primeira vez no Boletim Oficial n.º 31, de 1 de agosto. Veja-se o teor das Portarias emanadas da Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil:
“Na madrugada do dia 4 de julho do corrente ano, o alferes de 2.ª linha e regedor de Porto Gole, Abna Na Onça, chefiando uma força de polícia administrativa atacou e destruiu um acampamento ilegal perto da povoação de Dembel.
Já no regresso à povoação de Porto Gole, conduzindo dezoito prisioneiros capturados no acampamento referido, a coluna que comandava foi surpreendida pelo inimigo, sendo duramente atingida pelo fogo desencadeado pelos terroristas emboscados.

Abna Na Onça enfrentou com valentia os assaltantes, conseguindo, embora bastante ferido, continuar a comandar os seus homens.
Demonstrou, o alferes de 2.ª linha Abna Na Onça, ter espírito de iniciativa, perfeito conhecimento dos seus deveres, dinamismo e patriotismo ao planear e pôr em execução a ação punitiva contra o acampamento ilegal de Dembel, cujo objectivo foi atingido, com êxito absoluto.
Demonstrou, igualmente, possuir qualidades de comando, autoridade, espírito de sacrifício e valentia quando da emboscada que sofreu.”

Foi promovido ao posto de tenente de 2.ª linha.

Segundo louvor:
“O 1.º Pelotão da Companhia da Polícia Administrativa, em serviço na área do Posto Administrativo do Porto Gole, levou efeito na madrugada de 4 do corrente, sob o comando do alferes de 2.ª linha e regedor Abna Na Onça, uma acção de polícia na região de Dembel, onde destruiu um acampamento terrorista.
Nesta operação incendiou dezoito barracas ilegais e grande quantidade de arroz. Abateu dois elementos terroristas e fez dezoito prisioneiros.

No regresso, suportou duro combate com um inimigo numeroso e fortemente armado que, emboscado, usufruía assim de enormes vantagens.
Todos os elementos do referido pelotão bateram-se com galhardia, demonstrando assim o seu alto grau de eficiência, disciplina e valentia.”

Conferiu-se louvor ao 1.º Pelotão pelos méritos demonstrados.

Terceiro louvor:
“Na emboscada sofrida pelo 1.º Pelotão da Companhia da Polícia Administrativa em serviço na área do posto administrativo de Porto Gole, na madrugada do dia 4 do corrente mês, quando regressava àquele posto, após ter efetuado com êxito um ataque ao acampamento terrorista, destacaram-se pela sua bravura, serenidade e espírito de iniciativa, os guardas Souleimane Seidi, João Fernandes, Armando Papo Seco e Amadu Bari.”
Pelos seus atos meritórios os quatro foram louvados.

Quarto louvor:
"No decurso da expedição conduzida com êxito pelo regedor Abna Na Onça, no combate que se travou entre a força da Ordem e os bandoleiros, os guardas António Gomes, Assalifam Té, Mussá Seidi e Aliu Baldé combateram até ao limite das suas forças, esvaindo-se em sangue dos ferimentos sofridos, caindo mortalmente."
Considerando ser justo dar público conhecimento da heroicidade destes guardas, eles foram louvados a título póstumo.

No Boletim Oficial n.º 45, de 7 de novembro, surge-nos o Diploma Legislativo n.º 1816:
“O imposto é um dever social de todo o cidadão para a satisfação de encargos do Estado no desenvolvimento das diferentes actividades de que todos beneficiam. Há determinadas isenções que não se justificam, em especial dos que exercem actividades remuneradas, que têm a restrita obrigação de contribuir para a colectividade. A partir de 1 de janeiro de 1965 todos os salários dos servidores do Estado, qualquer que seja o seu quantitativo, são passíveis de imposto de proventos.”

O Boletim Oficial n.º 48, de 28 de novembro, anuncia uma situação de graves irregularidades, e o Governador Arnaldo Schulz profere Despacho:
“Tendo alguns membros da direcção da Cooperativa dos Funcionários Públicos da Guiné solicitado ao Governo da província um inquérito às contas da referida Cooperativa, e, tendo esse inquérito revelado graves irregularidades que põem em risco o capital em giro, e um completo alheamento das suas funções por parte do Conselho Fiscal;
Considerando o importante papel de regulador de preços dos géneros de primeira necessidade desempenhado pela Cooperativa dos Funcionários Públicos junto do mercado local e as elevadas somas investidas na mesma, pelo Estado, sob a forma de subsídios, que precisam ser de melhor forma acauteladas;
Considerando ainda que a maior parte dos membros da direção eleita para o ano em curso pediu já a sua demissão; manda o Governador que a direcção da Cooperativa fique durante o período mínimo de dois anos a cargo de uma comissão administrativa.”

O Governador escolheu para presidente da referida comissão o Dr. Artur Augusto da Silva.

No Boletim Oficial n.º 50, de 16 de dezembro, temos o texto da Portaria n.º 1687. É designado o dia 17 de dezembro para a abertura das operações de comercialização da mancarra em toda a província, estabelecendo-se os preços de compra ao produtor e ao intermediário.

O Boletim Oficial n.º 52, de 26 de dezembro, publica um aviso referente à unificação das carreiras regulares de transportes coletivos de passageiros entre Bissau-Safim porto e Bula-João Landim, o concessionário por cinco anos é António Brites Palma.

No Suplemento do Boletim Oficial n.º 52, com data de 29 de dezembro, temos a Portaria n.º 1694 em que, a propósito da necessidade de promover a importação de arroz para o abastecimento público e impedir que o preço de venda desse arroz não ultrapasse o limite da tabela em vigor para o corrente ano, é autorizada a isenção de direitos até quinhentas toneladas de arroz de origem nacional.

Arnaldo Schulz, Governador e Comandante-Chefe da Guiné, numa alocução televisiva em fevereiro em 1968, em breve regressará a Lisboa, fez uma comissão de quatro anos.
Imagem extraída do filme Anos de Guerra – Guiné 1963-1974, realização de José Barahona, https://www.youtube.com/watch?v=mfSwSzRl9bM
Mancebo Felupe com um dos seus penteados característicos: cabelo empastado em azeite de palma e lama, formando uma carapuça, guarnecida de discos metálicos em cruz; no topo, um carro vazio de linha
Dançarino com a máscara Nimba
Rapariga Felupe com a dentadura limada
Armadura do tubarão serra
Mulher Pajadinca

Estas cinco imagens foram retiradas de números da Revista do Centro Cultural da Guiné Portuguesa, 1964

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 18 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27834: Historiografia da presença portuguesa em África (521): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1964, 1.º semestre (79) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 24 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27853: (De)Caras (246): Memórias do meu braço direito no Pel Caç Nat 52, em Missirá e Bambadinca: O Furriel João Manuel Sousa Pires (Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Setembro de 2025:

Queridos amigos,
Foi mais um reencontro, moramos em ruas paralelas, ambas a desaguar na Avenida de Roma ou no Campo Pequeno. Encontramo-nos muitas vezes na rua, sempre com promessas de reencontro, desta vez aconteceu, pedi-lhe para trazer os seus álbuns e que me desse licença para tirar algumas imagens, falei-lhe do blogue, ele é assumidamente info excluído, prometi-lhe que no dia da publicação lhe iria telefonar, ele encontraria uma solução para ver as imagens. Devo-lhe imenso, como explico no texto, foi de uma dedicação sem limites, confessou-me que fez muitas vezes um esforço enorme para não se zangar com a minha hiperatividade, com tantas obras nos quartéis de Missirá e Finete, emboscadas e aquelas malditas viagens quase diárias a Mato de Cão. Agora somos octogenários, um tanto especiais, não falámos das maleitas, mas das lembranças da Guiné.

Um abraço do
Mário



Memórias do meu braço direito no PEL CAÇ NAT 52, em Missirá e Bambadinca:
O Furriel João Manuel Sousa Pires


Mário Beja Santos

Quando cheguei a Missirá e Finete, em 4 de agosto de 1968, os meus colaboradores diretos no Pelotão de nativos eram os Furriéis Saiegh e Ferreira, estavam de partida até ao final do ano. No ano seguinte, a conta-gotas, chegaram os furriéis Sousa Pires, Luís Casanova e Pina.

Depois de muitas promessas para encontros prometidos, em 4 de setembro de 2025 houve nova troca de recordações ao vivo, antes pedi-lhe para trazer os seus álbuns e licença para fotografar algumas imagens, o que me foi concedido.

Voltei a dizer em João Sousa Pires que lhe estava profundamente grato, dera-me uma ótima colaboração, apoiara-me em momentos decisivos, por exemplo, contava sempre com ele para as contas e pagamentos, a burocracia dos autos de abate, a resposta expediente, até as escalas de serviço. Nunca esqueci o apoio indefetível que me deu quando caí na cama e o médico do Batalhão, David Payne Pereira, determinou que eu ficasse vários dias no estaleiro, socorri-me do Sousa Pires para mandar correio à família; também ele me apoiou do princípio ao fim quando me foi aplicada uma pena de dois dias de prisão simples, esbracejei junto de todas as instituições militares possíveis, isto independentemente de, na data em que era punido, o comandante do Agrupamento de Bafatá me louvava e me dava como exemplo pela mentalidade ofensiva e de liderança das forças a meu cargo.

O João Sousa Pires desembarcou em Bissau em setembro de 1968, foi colocado temporariamente na CCS do Quartel-general, deram-lhe trabalho no Serviço Postal Militar, só mais tarde é que foi despachado para o regulado do Cuor, começou aí uma cooperação que forjou a minha estima e elevada consideração pelo apoio que dele recebi.

Só nesta conversa é que me apercebi que ele estivera mobilizado para Moçambique, nas marchas finais, numa noite escura como breu espetou-se no arame farpado de uma propriedade rústica, estatelou-se e fraturou o ombro, hospitalização no Porto, regresso a Tavira e daqui mobilização para a Guiné. Fez-me companhia em Bambadinca até qualquer coisa como junho de 1970, foi então destacado para a secretaria do BART 2917, eu regressei em agosto e ele em outubro. Foi com maior satisfação que lhe redigi um louvor que lhe foi dado pelo Comandante do Batalhão.

Fotografei algumas imagens alusivas aos nossos tempos, tenho muito orgulho que fiquem no blogue:

Este era o nosso balneário primitivo, espaço tenebroso, aquelas chapas afiadas ensanguentaram muita gente, meses depois o Batalhão de Engenharia forneceu um novo conjunto de bidões e mandou material para renovarmos o balneário, entretanto chegou sanita e criou-se um espaço sanitário que acabou com a degradação da fossa. Quando fui castigado com dois dias de prisão simples, bem aleguei, mostrando cópias da documentação que mandava para Bambadinca, que pedia materiais para renovar o quartel, grande parte dos abrigos estavam podres, nada feito. Foi preciso haver a destruição de 19 de março de 1969 e eu ter ido a Bissau para fazer uma operação que me permitiu uma conversa com o Capitão Rui Gamito e o Alferes Emílio Rosa, ganhei uma carrada de materiais e duas grandes amizades, entre os benefícios veio o novo balneário.
Este espaço era conhecido pelo nome pomposo de parada, por detrás do Sousa Pires estava o abrigo do morteiro 81 e as suas granadas encaixotadas, era aqui que eu trabalhava nas noites de flagelação auxiliado pelo Cabo António da Silva Queirós, ele metia uma braçadeira resistente às altas temperaturas e ali estávamos até a força do PAIGC nos deixar em paz.
Não escolhi esta fotografia por mero acaso. O Sousa Pires pousou para a fotografia no limite do porto de Bambadinca o que permite ver ao fundo uma canoa no Geba a caminho da bolanha de Finete, havia depois um caminho acidentado com cerca de quatro quilómetros, enchíamos o burrinho (Unimog 411) com os nossos haveres, primeira paragem Finete, dezasseis quilómetros depois Missirá. Quando voltei pela primeira vez a Missirá, vinte anos depois, tinham encerrado aquele caminho, tudo se resolvera com uma ponte a atravessar até Bambadinca, chegava-se a Finete de autocarro, mota, bicicleta, automóvel, camião, mas nada de atravessar a bolanha de Finete.
Não é a primeira vez que aqui se publica esta imagem, não escondo que me comovo profundamente quando a revejo. É dia de Natal de 1969, no ano anterior, nesse mesmo dia, vivi a festa mais emocionante que a vida me proporcionou, irrepetível. Neste ano estamos na ponte do rio Undunduma, um dos sítios mais horríveis pelas condições deploráveis, pelos riscos de ali estar sem os meios de defesa combatíveis. Fui tomar banho ao rio, chegou o condutor com a comida e também se foi molhar, é ele que está à direita. Estes são os meus fiéis companheiros, Sousa Pires está no centro, o Alferes encolheu-se, não se quer mostrar em cuecas, exibe despudoradamente a patorra de quem calça 45, feliz pela companhia, tristonho na relembrança, a generalidade destes homens já partiu para as estrelinhas, mas eles só morrerão quando deles não se falar, por isso deixei o nome de todos eles escrito num dos meus livros.
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Nota do editor

Último post da série de 22 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27845: (De)Caras (245): cap inf Carlos Alberto Cardoso, cmdt, CCS/BCAÇ 1933 (Nova Lamego e S. Domingos, 1967/69): levou a esposa, tal como pelo menos três outros oficiais

Guiné 61/74 - P27851: Esposas de militares no mato (2): Bambadinca, ao tempo do BART 2917 - Parte II

 

Guiné > Zona Leste > Bafatá > "Foto tirada no dia 30 de Março de 1971 em Bafatá, onde o grupo foi jantar, para celebrar os meus 24 anos. Na foto, e da esquerda para a direita temos:
  • Leão Lopes (de perfil) (ex-fur mil, BENG 447) e ex-esposa Lucília
  • Benjamim Durães (ex-fur mil , CCS/ BART 2917);
  • Fernando Cunha (soldado, condutor do Comandante do BART 2917);
  • Rogério Ribeiro (1º cabo enfermeiro, CCS/BART 2917);
  • Braga Gonçalves  (ex-alf cav, CCS/BCAÇ 2917) e ex-esposa Cecília
  • Isabel e o marido José Coelho (furriel enfermeiro, CCS/BART 2917); e
  • 1º cabo José Brás (condutor do 2º Cmdt)

O Leão Lopes era de Cabo Verde, ex-fur mil, BENG 447 (e hoje figura pública no seu país, ex-ministro da cultura, deputado,  escritor, pintor, cineasta, presidente da OGN Atelier Mar, professor universitário, etc., segundo refere o Benjamim Durães no poste P4399 (*).

O José Alexandre Pereira Braga Gonçalves, ex-alf mil cav, não fazia parte originalmente do BART 2917, tendo vindo de Bissu, para subtituir o tenente SGE Armindo Torres Teixeira, Chefe da Secretaria do BART 2917 (que foi em 18 jan 71  para Bissau).

Foto (e legenda): © Benjamim Durães (2009). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 


1. Em Bambadinca, ao tempo do BART 2917 (1970/72), e da CCAÇ 12 (1969/73, mudar-se-ia depois para o Xime no 1º trimestre de 1973) sempre houve senhoras, esposas de militares, a residir no aquartelamento, que estava separado das duas tabancas, Bambadinca  e Bambadincazinho (reordenamento) por um perímetro de arame farpado.  Pertencia à circunscrição (e mais tarde concelho) de Bafatá. 

Era um posto administrativo importante. Em 1968 teria 2 mil almas. Hoje deve 15 ou 20 vezes mais. 

Tinha escola primária (4 classes), e casa para a professora (que era de origem cabo-verdiana, a D. Violete Aires da Silva). Tinha capela, que servia uma pequena comunidade cristã. 

Havia pelo menos 3 estabelecimentos comerciais (Casa Gouveia, Rendeiro e José Maria). Tinha mercado (indígena) e fontenário público (a nascnte de água era a um escasso quilómetro). Havia ainda estação dos CTT. Era possível ligar para Portugal, embora as ligações fossem morosoas. 

Tinha uma pista de aviação, mais tarde alargada para os T-6. Tinha estrada alcatroada (para o Xime, a sudoeste; e Bafatá e Nova Lamego, a nordeste), e ligação, por estrada terra batida para o sul (Mansambo,  Xitole e Saltinho). 

A escola e o edifício do posto administrativo, bem com as respetivas casas de habitação, ficavam dentro do perímetro militar. Tal como o Depósito de Água.

O aquartelamento possuia, desde 1968, boas instalações, construídas pelo BENG 447, no que diz respeito a edifícios de comando, messes e dormitórios para oficiais e sargentos. Tinha uma posição privilegiada num promontório, situado entre o rio Geba, a norte, e a bolanha de Bambadinca a sudeste

Era um dos melhores sítios, no interior da Guiné, para se viver, só superado talvez por Mansoa (mais próximo de Bissau, a 60 km, por estrada alcatroada) e seguramente por  Bafatá (segunda cidade da província, uma cidadezinha colonial, encantadora,  segura, limpa, cuidada, em 1969/71, conhecida por "Princesa do Geba"). 

Havia colunas todos os dias de Bambabinca para Bafatá, a 30 km. Nesse tempo, nunca houve nenhuma emboscada ou mina na estrada Bambadinca- Bafatá.

Bambadinca, além de sede de batalhão, tinha um destacamento de intendência e outro do BENG 447. Estava em curso, em Nhabijões, a construção do maior ou de um dos maiores reordenamentos da provincia. 

Era a porta de entrada no Leste. O seu porto fluvial, complementando o do Xime, era vital para o abastecimento do Leste. Havia ligações diárias entre o Xime e Bissau, de "barco turra".

Com a chegada da CCAÇ 2590/CCAÇ 12, em 18 de junho de 1969, Bambadinca tornou-se uma terra segura. O último (e único) ataque ocorrera em 28/5/1969, como resposta  á Op Lança Afiada (8-18 mar 1969).

De acordo com a legenda da foto acima, no 1º trimestre de 1971, Bambadinca teria a viver lá quatro esposas de militares: as 3 senhoras acima mencionadas mais a esposa do of op info major inf Barros e Basto. 

A Helena, mulher do alf mil Carlão, já havia regressado a Portugal em 17 de março de 1971, com o marido e os demais camaradas da CCAÇ 12.

Provavelmente o mais ilustre dos ex-militares que aparecem na foto acima, datada de Bafatá, 30 de março de 1971, é o Leãoo Lopes, na altura fur mil BENG 447, e entretanto figura pública na sua terra, Cabo Verde.

Escreveu ele, em resposta a um mail do Benjamim Durães, de 19/5/2009, com o convite para o 4º Encontro-Convívio da CCS do BART 2917, a realizar no ano seguinte, em Coruche, no dia 27 de março:

Leão Lopes

Caro Durães,

Ainda me visto de Leão Lopes, apenas isso. Mas o ex-camarada de Bambadinca envaidece-me e é uma grande honra responder por ele.

Não imaginas a emoção que ainda sinto por este reencontro. Já ninguém poderá duvidar que eu também lá estive. Vocês existem e a memória colectiva também. Eu próprio duvidei por vezes desta parte da minha história, quando alguns episódios vividos se confundiam com uma projecção ficcional não tendo por perto quem mos pudesse reavivar, corrigir, confirmar.

Imagina que eu me lembro sempre do nosso capelão Arsénio Puim, do dia em que a PIDE o levou, da minha / nossa revolta. E como eu gostaria de o reencontrar para lhe dar o abraço que não pude dar-lhe nesse dia. A PIDE tinha-me levado antes o Joãozinho e mais outros dos melhores operários nativos que eu tive no destacamento de engenharia. Destes nunca mais soube.

Há alguns anos estive em Bambadinca e, nas ruínas do que foi nosso quartel, encontrei Mariana, a nossa lavadeira, que me avivou na memória muita coisa difusa e talvez esquecida. Por exemplo, que eu pintei o retrato de um camarada. Quem seria?

Sim, lembro-me de alguns de vocês. De ti, do Braga Gonçalves, do Coelho, do Brás. Lembro-me do Vinagre, de Coruche (?) com quem fiz algumas traquinices,  inventando coisas para driblar o tempo. Chegamos a ser sócios numa moto e nunca contei a ninguém que por um triz teriam hoje que me juntar aos homenageados no minuto de silêncio dos vossos encontros. Sabem dele?

Ainda canto Zeca Afonso e as músicas popularizadas por Adriano Correia de Oliveira que nos ajudavam a resistir e a manter a moral acima de tudo.

As minhas condolências pelo Rebelo.

Parabéns a Luís Graça pelo blog. Um belíssima iniciativa, um belo slogan, um esforço de trabalho imenso.

Um dia destes, numa das minhas passagens por Portugal, tentarei abraçar-vos. Muito obrigado pela fotografia e por me teres procurado e achado.

Até breve, Leão Lopes


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Espectacular vista aérea do aquartelamento, tirada no sentido leste-oeste, ou seja, do lado da grande bolanha de Bambadinca.

Foto do arquivo de Humberto Reis (ex-Fur Mil Op Esp, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

Foto: © Humberto Reis (2006).  Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné] 

Legenda:  do lado esquerdo da imagem, para oeste, era a pista de aviação (1) e o cruzamento das estradas para Nhabijões (a oeste), o Xime (a sudoeste) e Mansambo e Xitole (a sudeste). Vê-se ainda uma nesga do heliporto (2) e o campo de futebol (3).

A CCAÇ 12 começou também a construir um campo de futebol de salão (4), com cimento roubado à engenharia,  nas colunas logísticas para o Xitole.De acordo com a fotografia, em frente, pode ver-se o conjunto de edifícios em U: constituía o complexo do comando do batalhão (5) e as instalações de oficiais (6) e sargentos (8), para além da messe e bar dos oficiais (8) e dos sargentos (9).

Apesar do apartheid (leia-se: segregação socio spacial) que vigorava, não só na sede dos batalhões, como em muitas unidades de quadrícula, uns e outros, oficiais e sargentos, tinham uma cozinha comum (19).

Do lado direito, ao fundo, a menos de um quilómetro corria o Rio Geba, o chamado Geba Estreito, entre o Xime e Bafatá. O aquartelamento de Bambadinca situava-se numa pequena elevação de terreno, sobranceira a uma extensa bolanha (a leste). 

São visíveis as valas de protecção (22), abertas ao longo do perímetro do aquartelamento que era todo, ele, cercado de arame farpado e de holofotes (24). A luz eléctrica era produzida por gerador... Junto ao arame farpado, ficavam vários abrigos (26), o espaldão de morteiro (23), o abrigo da metralhadora pesada Browning (25).

 Em 1969/71, na altura em que lá estivemos, ainda não havia artilharia (obuses 14).

A caserna das praças da CCS (11) ficava do lado oeste, junto ao campo de futebol (3). Julgava-se que o pessoal do pelotão de morteiros e/ou do pelotão Daimler ficava instalado no edifício (12), que ficava do outro lado da parada, em frente ao edifício em U. Mais à direita, situava-se a capela (13) e a secretaria da CCAÇ 12 (14). Creio que por detrás ficava o refeitório das praças.

Em frente havia um complexo de edifícios de que é possível identificar o depósito de engenharia (15) e as oficinas auto (16); à esquerda da secretaria, eram as oficinas de rádio (17). 

Do lado leste do aquartelamento, tínhamos o armazém de víveres (20), a parada e os memoriais (18), a escola primária antiga (19) e depósito da água (de que se vê apenas uma nesga). 

Ainda mais para a direita o edifício dos correios, a casa do administrador de posto, e outras instalações que chegaram a ser utilizadas por camaradas nossos que trouxeram as esposas para Bambadinca (foi o caso, por exemplo, do Alf Mil Carlão, nosso camarada da CCAÇ 12, e mais tarde, o major BB, o Fur Mil Leão Lopes, do BENG 447, o Fur Mil Enf Coelho, da CCS/BART 2917).

Esta reconstituição foi feita pelo Humberto Reis, completada por mim (LG) e pelo ex-1º cabo cripto GG (Gabriel Gonçalves), todos os très da CCAª 12 (1969/71).


3. Comentário do editor LG:

 Apesar do nosso amável convite (*), o Leão Lopes nunca chegou a responder-nos, por isso, e com pena nossa,  não integra a nossa Tabanca Grande, onde "todos cabemos com tudo o que nos une e até com o que nos pode separar"... 

Não sei se ele já está reformado.  Mas como artista total que é (escritor, pintor, cineasta), não deve estar parado. Se por acaso o Leão Lopes nos ler, fica a saber que o convite continua de pé. 

Sentir-nos-íamos honrados e sobretudo felizes com a tua presenção,  Leão Lopes. E irias engrossar a presença dos amigos e camaradas da Guiné, que são filhos de Cabo Verde. Já temos malguns, mas não tantos quantos gostaríamos.

Na verdade, tínhamos uma saudável curiosidade em saber como era, para ti,  trabalhar em Bambadinca, em 1970/72, no destacamento do BENG 447 e,  ao mesmo tempo,  viver, um pouco à parte da tropa, sendo  casado (na altura com a Lucília) (**). Mantenhas.
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Notas do editor  L.G.:


quinta-feira, 19 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27836: Antologia (101): "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", a publicar brevemente (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Março de 2026, trazendo em anexo um texto intitulado "Agradecimentos e Dedicatória", no qual reproduz as razões curriculares que o conduziram ao lançamento do seu próximo livro "Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo II, Da Pequena Senegâmbia à Guiné Portuguesa", cuja data de lançamento será anunciada oportunamente.


Agradecimentos e dedicatória

Permita-me o leitor que reproduza no Tomo II as razões curriculares que me conduziram a este empreendimento, tal como as escrevi na obra anterior:

O país que é hoje a Guiné-Bissau foi o local onde combati entre 1968 e 1970, matéria que tratei em dois volumes diarísticos, agradecendo penhoradamente as lições recebidas do povo amável com quem convivi, nomeadamente nos regulados do Cuor e Bambadinca; motivado por conhecer melhor os antecedentes deste território em décadas anteriores, meti mãos a um outro empreendimento, uma digressão um tanto romanesca à volta das memórias de uma nonagenária que casou com um administrador colonial, nos alvores da década de 1950 e conheceu os primeiros sinais da insurreição, assim escrevi A Mulher Grande; participante regular naquele que é, sem margem para dúvida, o blogue mais influente para antigos combatentes na então Guiné Portuguesa, Luís Graça & Camaradas da Guiné, senti impulso de ali regressar para me despedir dos meus soldados guineenses, e assim urdi A Viagem do Tangomau; ao longo desses anos de íntima relação com a realidade guineense, fui também procurando ler tudo quanto era literatura da guerra colonial, fundamentalmente do lado português – assim nasceu Adeus, Até ao Meu Regresso.

Os anos passavam, a Guiné continuava sempre presente, no coração, na memória, no desejo de melhor compreender o seu passado e até os seus tempos atuais. Em parceria, enveredei numa tentativa de fazer o arco cronológico entre dados fundamentais da Guiné Portuguesa até à Guiné-Bissau, assim nasceu o livro Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro. Estava dado o balanço para intensificar as pesquisas, nos anos seguintes apareceram as História(s) da Guiné Portuguesa e História(s) da Guiné-Bissau.

Quis um feliz acaso que batesse à porta do então Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória) em busca de um livro ricamente ilustrado, fui não só compensado por o ter folheado demoradamente como surgiu a oportunidade de ter acesso a documentação inédita, e assim escrevi Os Cronistas Desconhecidos do Canal de Geba: O BNU da Guiné. A saga teve uma nova deriva, encontrei num alfarrabista o livro de um poeta popular, antigo combatente na Guiné, ali fez comissão entre 1963 e 1965, o seu poema galvanizou-me e deu-me a ideia de escrever um livro em que ia respondendo taco a taco às suas itinerâncias desde a recruta à passagem à disponibilidade, de novo aproveitei referências da imensa literatura produzida sobre aquela guerra, desde romance, conto, novela, poesia, memórias, e nesta parceria foi dada à estampa Nunca Digas Adeus às Armas.

Mais recentemente, novo surto para a deriva romanesca, desta feita na cidade de Bruxelas dois cinquentões apaixonam-se, ele vai regularmente a esta sede europeia, ela é intérprete e aceita o repto de passar a escrito as memórias de guerra, cronista amorosa num romance feito fundamentalmente de cartas, Rua do Eclipse, a Guiné atravessa-se nas suas vidas, do princípio ao fim.

Quando tudo levava a crer que estavam esgotados os filões sobre a Guiné, apareceu de rompante um projeto um tanto ambicioso: elaborar, por seriação do século XV ao século XX, um género de antologia com peças umas determinantes outras possuidoras de vigor testemunhal, sobre a presença portuguesa desde o tempo em que os navegadores e cartógrafos denominavam a região por nomes inconclusivos e até bizarros como Etiópia Menor, Rios da Guiné de Cabo Verde, Terra dos Negros ou Senegâmbia, termo que curiosamente foi usado e abusado até ao século XIX, sobretudo para referir uma costa ocidental africana entre o Cabo Verde e a Serra Leoa. Devo advertir o leitor que muitos outros textos aqui poderiam caber, mas creio não ter omitido intencionalmente nenhum que me tenha parecido essencial para a natureza desta obra de divulgação.

Esta antologia decorre de um processo laborioso, escrevi bastantes textos, de forma avulsa e um tanto ao corroer da pena no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, recebi sugestões de mãos amigas, caso dos investigadores António Duarte Silva e Eduardo Costa Dias, um sem número de sugestões; jamais poderia esquecer as ajudas ou propostas de leitura que recebi da Helena Teotónio Pereira, então à frente da biblioteca do CIDAC, um espaço onde há relevante documentação histórica, e o mesmo podia dizer dos incentivos que tive no Arquivo Histórico do Banco Nacional Ultramarino (de saudosa memória); não esqueci a estimulante parceria que tive a felicidade de encontrar para escrever Da Guiné Portuguesa à Guiné-Bissau: Um Roteiro e também naquele outro livro a quatro mãos Nunca Digas Adeus às Armas.

Sendo eu um infoexcluído, tive a dita de receber uma admirável prestação na colaboração de Linda Sioga, vai para mais de três anos que andamos em belíssima colaboração intermediada pelo Skype/Teams. Naturalmente que agradeço e a junto a esta dedicatória.

Este livro, tal como o anterior, é dedicado a todos aqueles que se iniciam num estudo das relações luso-guineenses, seja em que local for; bem gostaria de lhes ser útil, porventura abrindo-lhes portas, dando-lhes dicas, o que aqui aparece ordenado pela cronologia de há muito foi investigado, ou nunca obteve tratamento público, caso dos documentos que consultei nos Reservados da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa. Dedico, igualmente, o livro a duas figuras da Biblioteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, Helena Grego e José Carlos Silva; ao longo de todos estes anos em que frequento tais instalações históricas, possuidoras de fascinante documentação, eles tudo têm feito para ter acesso a livros, revistas, relatórios, e, fundamentalmente, a papelada que consta dos Reservados, aqui encontrei textos fervilhantes ou esclarecedores, que o leitor agora vai encontrar deste período histórico em análise dos séculos XIX e XX.

A minha dívida com estes bibliotecários é impagável. Tanto mais que quando disse à Dr.ª Helena Grego que chegara ao fim da linha, nada mais havia para remexer nos arquivos, depois deste tomo II, ela desenganou-me: “Nem pense, agora vai começar a ler o Boletim Oficial do Governo Geral de Cabo Verde e depois o Boletim Oficial da Guiné, Colónia e Província, tem ali trabalho para os próximos anos.”
É o que presentemente está a acontecer, pelas minhas contas será o adeus neste vasculhar que levo à presença portuguesa na Guiné entre meados do século XV e primeiro quartel do século XXI.

"Guiné, Bilhete de Identidade, Tomo I, A Presença Portuguesa na Senegâmbia", de Mário Beja Santos, lançado em Setembro de 2024(*)
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Nota do editor

(*) Vd. post de 10 de janeiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26371: Agenda cultural (876): Apresentação do livro "Guiné, Bilhete de Identidade", de Mário Beja Santos, dia 13 de Janeiro de 2025, pelas 14h30, na Livraria Municipal Verney, Rua Cândido dos Reis, 90 - Oeiras

Último post da série de 20 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27652: Antologia (100): Uma caçada ao elefante em... Canjambari há mais de 100 anos (Conto publicado em "O Mundo Português", em 1936, da autoria de Artur Augusto Silva, 1912-1983)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27744: Humor de caserna (239): "Cuando sali de Cuba...": alguém se lembra desta canção para "desmoralizar cubanos"? (Alberto Branquinho, contista)


Alberto Branquinho: ex-alf mil art,  CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69; advogado, escritor, duriense de Foz Coa, a viver em Lisboa, depois de ter passado por Coimbra como estudante. Um dos grandes contistas da guerra da Guiné


1. O carnaval e a guerra nunca se deram bem... A guerra não fechava para Carnavais, Natais, Páscoas, Domingos, Dias Santos... Lembro-me de uma violentíssima emboscada que apanhámos, a CCAÇ 12, no subsetor do Xime, numa segunda feira de Carnaval, em 9 de fevereiro de 1970.

Mas a guerra até se dava bem com o humor. Ou o humor com a guerra. De um lado e do outro. Do lado de cá, há pelo menos pequenas grandes histórias que não se podem perder. 

Esta se calhar é uma delas. É do nosso Alberto Branquinho, exímio contista que eu ando a ler e reler com gosto. Recorde-se as suas duas principais séries, que o tempo não vai engolir:  "Não venho falar de mim... nem do meu umbigo" e "Contraponto"... 

Para além da sua colaboração na nossa série "Humor de caserna", é autor também de vários livros (em prosa e em verso) que o consagram como escritor da guerra colonial. Guerra que ele viveu e conheceu por dentro como poucos.

Já que, de vez em quando falamos de cubanos (que também fizeram a sua perninha no TO da Guiné, e que eram uns cobóis do caraças), esta estória vem a propósito. Não sei se é uma estória sem agá. Nem importa. Tiro o quico a este capitão que tinha, pelo menos, um grande sentido de humor: quem é que se lembraria de uma coisa destas, para "desmoralizar cubanos" ?(*)
 
"Cuando sali de Cuba…"

por Alberto Branquinho

Falávamos, há alguns dias, num grupo de amigos, da canção “Lily Marleen” [(interpretada por Lale Andersen], as várias versões que a letra teve (para além do original alemão), em inglês - inglês/inglês e inglês/americano (porque não havia entre eles nem há acordo ortográfico…) - e que era, languidamente, ouvida dos dois lados do campo de batalha [durante a II Guerra Mundial].

Falou-se, então, também das emissões radiofónicas, que, já no fim da Segunda Grande Guerra, os americanos faziam para desmoralizar as tropas alemãs, onde incluíam essa canção (acção psicológica sobre o IN…), cantada por outra Marleen – Marlen Dietrich, actriz alemã… ao serviço por Hollywood.

Lembrei-me, então, que, no meu tempo de Guiné, se falava de um capitão que, quando o quartel era atacado, colocava no prato do gira-discos (dentro do abrigo?) uma canção cubana que os amplificadores de som, colocados junto ao arame farpado, difundiam para o exterior:

(…)
“Cuando salí de Cuba,
Dejé mi vida dejé mi amor,
Cuando salí de Cuba,
Dejé enterrado mi corazón.”
(…) (**)

Alguém se recorda e pode confirmar?

Dão-se alvíssaras a quem encontrar onde e quem, porque convinha que fosse verdade para, também, termos a nossa história para a História.


(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, itálicos, nota de rodapé: LG)
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Notas do editor LG:


(**) "Cuando sali de Cuba" (1967), de Luis Aguilé, cantor de origem argentina, muito popular no seu tempo (1936-2009). Naturalizou-se espanhol. 

"Cuando sali de Cuna" tornou-se uma expécie de hino nostálgico dos anticastristas no exílio. De certo modo, é a antítese da famosa Guantanamera

Ambas  as canções  eram populares no anos 1969/71, no CTIG,  sendo cantadas, e acompanhadas à viola, fora de contexto, a 7 mil quilómetros longe de Havana, no bar de sargentos de Bambadinca, a altas horas da noite, por gente noctívaga, que não gostava de "cães grandes"... nem dos "internacionalistas cubanos" que vieram dar um ajudinha ao Amílcar Cabral. A ambiguidade das letras  e a força da música eram como o atestado multiuso:  davam muito jeito...(***)

Sobre a canção do Luis Aguilé (1967):

(...) En la década de los 50 adquirió enorme éxito en la Cuba de Batista, donde logró un disco de oro, pero el estallido de la la revolución castrista le empujó a abandonar la isla. En recuerdo a su partida compuso un éxito mundial, 'Cuando salí de Cuba', que se convirtió en el favorito de los exiliados cubanos.

Dicen que en realidad se la dedicó a una novia secreta que tuvo allí, a la que amó con locura y, paradójicamente, había sido antes amante de Fidel Castro. "Dejé mi vida, dejé mi amor, dejé enterrado mi corazón", decía la letra. Aguilé era cercano políticamente a la derecha.

El artista contaba que, cuando decidió dejar la isla, tuvo un grave problema, pues el gobierno revolucionario promulgó una ley que impedía cambiar dólares y sacar dinero del país. En ese momento se produjo una curiosa anécdota con el mítico Ernesto Che Guevara, con el que coincidió en el ascensor de un hotel ocupado por las tropas castristas y le pidió ayuda. Se reunieron y, sorprendentemente, el Che, admirador de la música de Aguilé, le permitió rescatar su dinero con un considerable descuento ya que de los 16.000 dólares que poseía solo pudo llevarse 1.500, pero el artista lo consideró un buen trato, pues la mayoría huían con lo puesto. (...)

(...) Sus canciones rehuían la política y los temas sociales, solían tratar temas intrascendentes, donde se remarcaba el optimismo y la alegría de vivir. Pero hizo excepciones como la mencionada Cuando salí de Cuba, una bella balada impregnada de nostalgia que se convirtió en el himno del exilio cubano . Asimismo, muy critico con el régimen populista de Hugo Chaves, le dedicó el tema Señor presidente, que fue censurado en Venezuela y algún otro país iberoamericano y se conoció como "La canción prohibida de Aguilé".(...)


(***) A letra, parodiada, da "Guantanamera"  deu origem a um canção de caserna, que também fazia parte do reportório da rapaziada do bar de sargentos de Bambadinca, onde náo havia discriminação de classes: entrava a nobreza, o clero e o povo... 

Foi o GG, o 1º cabo cripto da CCAÇ 12, Gabriel Gonçalves (a quem também chamávamos o "Arcanjo Gabriel", e que tocava viola e cantava divinamente, era  também comnhecido como o "Joselito") quem me deu informação sobre o autor da letra, o Aurélio Pereira:

(...) Henriques: Ainda bem que te lembras da música. O Aurélio Pereira (n. 1947) é um camarada de Leiria do curso de escriturário no RAL 4. Para que conste trata-se do conhecido e conceituado técnico de futebol do SCP, para as camadas jovens, pois passaram por ele nomes como: Figo, Simão, Quaresma, Ronaldo, estes os mais conceituados. Que pena o Aurélio não ser do SLB. Um abraço, GG. (...)

Confesso que não sabia que o autor da letra da canção "Isto é Tão Bera" era um nome glorioso do nosso futebol (dizem até que foi o maior caçador de talentos futebolísticos do mundo (...)

Recorde-se, por outro lado, que a "Guantanamera" é uma canção patriótica cubana com letra do poeta José Martí (1858-1895) (herói da independência de Cuba), com música de Joselíto Fernández (1929).

ISTO É TÃO BERA

(Letra de Aurélio Pereira / música Guantanamera)

I
Eu sou um pobre soldado
E esta farda é o fim,
Andando assim mascarado
Todos se riem de mim.

As minhas moças-meninas
São as malvadas faxinas.

(Refrão)

Isto é tão bera,
Ai é tão bera, tão bera,
Isto é tão bera,
Ai é tão bera, tão bera.

II
Logo de manhã cedo
Toca para levantar,
Se não acordas é certo
Logo vais estar a lerpar.

Mais um minuto na cama
Lá vai o fim-de-semana.

(Refrão)


III
Era um rapaz engraçado
E de carinha mimada,
Sempre tão bem penteado
Mas levou a carecada.

Agora está como o fel
Nem quer sair do quartel.

(Refrão)
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