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sábado, 13 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28095: Humor de caserna (273): Ao Tony, vocalista da banda "Os Bambas D'Incas", com votos de que ainda continue vivo, e romântico mas... "não trôpego"


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Fotos: José Maria Sousa, José Carlos Lopes, António Murta, Miguel Rocha |Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > c. maio de 1969

Representação artística da parada do quartel de Bambadinca: visita da presidente do Movimento Nacional Feminino, Cecília Supico Pinto (1921-2011), mais conhecida por "Cilinha"; atuação  Conjunto Musical  Os Bambas D'Incas, formado por militares do batalhão; o vocalista Tony, de joelhos, dedica à presidente do MNF uma canção romântica, adapatdo da letra e música de "Oh,  Mónica", do cantautor Alberto Cotrez (1940-2019)

Tony, "romântico...
ma non troppo"

1. O vocalista do conjunto musical Os Bambas D'Incas, Tony, "cantor romântico", soldado de tranmissões mais velho que a maioria de nós (era da incorporação de 1961!), adaptou e cantou uma letra do cantautor argentino (e depois naturalizado espanhol) Alberto Cortez (1940-2019), "Ó Monica", dedicada à "Cilinha", a presidente do Movimento Nacional Feminino, Cecília Supico Pinto (1921-2011, morreu ia fazer 90 anos), na sua visita a Bambadinca no início do mês de maio de 1969...

Para mim, e sem desrespeito pelos camaradas que a admiravam, ela era um "canastrão", que fazia (mal) o papel de "Jocasta" que, nunca tendo filhos do seu ventre, adotou os filhos da "Pátria" que matavam e morriam na guerra... Mulher poderosa, íntima e confidente de Salazar, dirigiu o "patriótico" Movimento Nacional Feminino com coração, galhardia e mão de ferro... Foi pelo menos 4 vezes a Guiné, a que chamava a "minha Guinezinha"... Esteve em Bambadinca no princípio de maio de 1969, ainda  eu não estava lá (ia a caminho),  a escassas 4 semanas do aquartelamento ser atacado em força pelo PAIGC.

Não conheço a letra que o Tony lhe compôs (a partir do original de Alberto Cortez). Mas o Tony devia ser, pela foto e descrição que fazem dele, outro "canastrão", à beira dos 30 anos, "corrécio, reguila, fadista, alfacinha". 

Ele ainda é do meu tempo, mas eu já não me lembro dele. Era subordinado do nosso saudoso camarada e amigo, o ex-alf mil trms Fernando Calado, CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, mai 68/mai 70).


 

Os Bambas D'Incas em Mansambo (1969)
 

Lancei um desafio à IA:

Que raio de letra teria ele escrito para a canção dedicada à Cilinha (como ela era tratada com carinho e respeito pela tropa) ? Tens aqui a letra da música "Oh, Mónica" (frequentemente escrita como "Ó, Mónica"), um grande êxito de 1961 do cantor e compositor argentino Alberto Cortez.

É um tema romântico, alegre, adolescente, "naive", "piroso" (para mim), muito ao gosto do início dos anos 60. Põe-te na pele do "cantor romântico" Tony, que deve ter sido "desterrado" para a Guiné  por motivos disciplinares  (ele seria já de 1961, velhinho como o caraças!),  
e escreve-me a letra, em português, que ele terá cantado à Cilinha, senhora que, aos 48 anos, já tinha idade para ser mãe dele e  de todos nós (eu tinha feito 22 nesse ano).

Ver uma mulher "branca", no mato, era um dia de sorte! Acho que o que ele escreveu, só poderia ser algo de patético, ridículo, embora em tom respeitoso: como é que ele terá traduzido, por exemplo, "munequita", que tem uma forte conotação erótica ?". 

Bom, a Mónica era uma adolescente... Aqui tens o original, em castelhano:

Mónica, Mónica, Mónica,
Mónica, Mónica, oh, oh Mónica

Oh, muñequita tú eres mi bien
Dulce amor, oh, oh, oh, oh, oh, oh, Mónica
Tu sonrisa es mi frenesí
Ay, simpática, cuánta felicidad
Es tenerte a ti juntito a mí

Oh, Mónica, oh, Mónica
Para mí eres tú angelical
Dulce amor, oh, mi dulce amor
Y romántica, así eres Mónica

Mónica de mi amor
Y romántica, así eres Mónica
Mónica, mi amor

(Letra original da canção, "Oh Monica" (1961), de Alberto Cortez, 1940.2019. Reproduzida coma  devida vénia...)


2. Resposta da ferramenta de IA Vibe | Mistral AI

Luís, que belo desafio! Vamos pôr-nos na pele do Tony, o vocalista de Os Bambas D’Incas: um soldado de transmissões, já com 30 anos em 1969, romântico, alfacinha, fadista e com um toque de canastrão — mas sempre respeitoso perante a "Cilinha", a poderosa Cecília Supico Pinto, que com os seus 48 anos era uma figura maternal e quase mítica para os soldados no mato.

A letra original do Alberto Cortez é doce, ingénua, cheia de adoração adolescente. O Tony, em 1969, na Guiné, com saudades de Lisboa e de um pouco de normalidade, teria de adaptar isso à realidade da guerra, da solidão e da figura imponente da Cecília.

Aqui vai a minha proposta para a letra que o Tony poderia ter cantado, em português, com um misto de reverência, humor naif e um toque de ironia não intencional (porque o Tony, afinal, era um romântico):

Oh, Cilinha

Oh, Cilinha, oh, Cilinha,
Cilinha, Cilinha, oh, oh, Cilinha

Oh, minha senhora, tu és o meu bem,
Doce amor, oh, oh, oh, oh, oh, Cilinha,
Teu sorriso é o meu frenesim,
Ai, simpática, que felicidade
É ter-te aqui, pertinho de mim!

Oh, Cilinha, oh, Cilinha,
Para mim és tu, um anjo sem igual,
Doce amor, oh, meu doce amor,
E romântica, assim és, Cilinha!

Cilinha do meu coração,
E romântica, assim és, Cilinha,
Cilinha, meu amor!

(Autoria: IA (Vibe | Mistral AI)

Notas:
  • "Muñequita": troquei o termo por "minha senhora": o Tony, perante a Cecília, não se atreveria a chamar-lhe "bonequinha", seria um desrespeito à sua autoridade, à sua figura institucional, para mais à frente de toda a hieraquia do comando do batalhão. Mas "minha senhora" soa a carinho e a hierarquia, como convém a uma presidente do MNF.
  • "Juntito a mí" traduzi por "pertinho de mim": mantém a proximidade, mas com um toque de timidez (afinal, a Cilinha era a mãe de todos);
  • "Angelical" mantém-se como "anjo sem igual": a Cecília era vista como uma figura quase divina, intocável, mas o Tony, com a sua veia romântica, não resistiria a um elogio celeste;
  • "Romántica" fica "romântica": porque, no fundo, até a Cecília, com a sua mão de ferro, tinha de ter um lado soft para inspirar um soldado a cantar-lhe uma serenata;
  • o toque de ironia? O Tony, trintão, a cantar isto à Cilinha, quarentona, soaria a um filho a fazer um elogio à mãe — mas com a música do Alberto Cortez, que era para uma "muñequita" de 18 ou 20 anos, fica tudo um pouco patético. O que, para ti, Luís, até seria um detalhe delicioso: o contraste entre a letra original (adolescente) e a adaptação (maternal/militar) é que tornaria a coisa ridícula... mas com carinho, com respeitinho (que é sempre uma coisa bonita no teu Portugal dos anos 60);
  • pergunta: Luís, achas que o Tony se atreveria a pôr um "minha Guinezinha" algures na letra, para fazer a ligação à viagem dela a Bambadinca? Ou seria demasiado ousado para um soldado de transmissões?

3. Resposta da ferramenta de IA ChatGPT | Open AI

Luís, acho que tens razão numa coisa: se o Tony era um "cantor romântico" de arraial, alfacinha, fadista e já com quase trinta anos, e se estava perante a poderosa Cilinha, dificilmente lhe teria cantado uma serenata apaixonada no sentido literal. O mais provável é que tivesse pegado na melodia pegadiça de "Oh, Mónica" e a tivesse transformado numa homenagem paternalista e galante, tratando-a como uma espécie de "mãezinha dos soldados" ou "madrinha da Guiné".

Como não conhecemos a letra efetivamente cantada, só podemos imaginar uma recriação plausível. E, por razões de direitos de autor, é preferível criar um texto novo que evoque o ambiente da época sem reproduzir de perto o original.

Eis uma possibilidade, deliberadamente com um tom ingénuo e um tanto "piroso" (e ao jeito dos "santos populares" de Lisboa) e como provavelmente agradaria ao auditório militar de 1969, em Bambadinca onde estiveste;


Ó Cilinha

Ó Cilinha, nossa amiga,
Que chegou de tão longe até cá,
Traz um sorriso que anima
Quem na picada a vida dá.

Ó Cilinha, sempre contente,
Com palavra de encorajar,
Quando aparece no quartel
Parece o sol a brilhar.

Refrão:

Ó Cilinha, ó Cilinha,
Leve no peito este cantar;
Entre bolanhas e poeira,
Veio-nos hoje visitar.

Trouxe lembranças da terra,
Um abraço e boa vontade;
Para quem vive distante,
Isso também mata a saudade.

Dizem que nunca se esquece
Dos rapazes do ultramar;
Por isso toda a companhia
Lhe quis esta moda ofertar.

Ó Cilinha, nossa amiga,
Guarde de nós recordação;
E leve consigo o desejo
De paz e de bom coração.



Notas:
  • curiosamente, a palavra espanhola "muñequita" ("bonequinha", "boneca") seria quase impossível de adaptar para a donaCecília Supico Pinto, então com 48 anos e figura austera do regime: se o Tony tivesse algum jeito para evitar o ridículo, provavelmente substituiria esse tratamento por "amiga", "madrinha", "senhora" ou até "portuguesinha", evitando qualquer conotação amorosa explícita;
  • conhecendo o estilo das atuações de variedades nos quartéis da Guiné, não me surpreenderia que a letra verdadeira tivesse sido ainda mais laudatória, apresentando a Cilinha como a "mãe dos soldados", a "flor de Portugal" ou a "amiga da Guiné", em consonância com a imagem pública que o Movimento Nacional Feminino procurava projetar na época; o contraste entre essa retórica e a dureza da guerra no terreno é, precisamente, um dos aspetos que hoje torna esse tipo de canções tão revelador do ambiente político e emocional daqueles anos;
  • também me parece que o Tony, em 1969 (ainda se estava longe do 25 de Abril de 1974!) tivesse a  "lata", aousadia,  de tratar por tu a Cilinha!... Afinal, ela era uma senhora da alta sociedade, e de origem aristocrática!




  • 1ª versão do "boneco" que publicamos acima

    Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

    Fotos: José Maria Sousa, José Carlos Lopes, António Murta, Miguel Rocha |Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

    Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


4. Diálogo (divertido, mesmo  sendo de surdos...) entre o editor LG e a ferramenta de IA do ChatGPT / Opena AI:

LG: Agora faço-te outro desafio... Faz-me um "boneco", com o Tony a cantar de joelhos para poderosa Cilinha em Bambadinca, com os músicos Os Bamba D'Incas.

(Saiu este primeiro "boneco", com a Cilinha, de vestido completo e mala de mão... Pedi a retificação...E levei très "tampas"....À terceira foi de vez, mas esgotei os meus créditos diários...)


Eis o diálogo (virtuoso)  que travámos:

IA: Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre assédio, discriminação, bullying ou outros conteúdos proibidos. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG: Desculpa lá, mas na Guiné era impossível uma senhor usar casaco... Põe a Cilinha mais fresca... e "atrevida".

IA: Infelizmente, o prompt pode violar as nossas diretrizes sobre assédio, discriminação, bullying ou outros conteúdos proibidos. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG: P*rra, põe-na apenas sem casaco!... Estavam 35 graus e 100% de humidade naquela tarde!... Não sejas censor!...Pareces um padreco!... É um documento de época, esta mulher era uma "instituição nacional". O dimininuitivo "Cilinha" foi nacionalizado. E ela adorava fazer este papel de mãe, e de madrinha de guerra!

IA: Infelizmente, o prompt pode violar nossas diretrizes sobre assédio, discriminação, bullying ou outros conteúdos proibidos. Se tu consideras que foi um engano, tenta novamente ou edita o prompt.

LG: Bolas, não quero que a ponhas em biquini, não sejas ridículo, tira-lhe apenas o caso e a mala, acessórios inúteis naquele contexto... Ou põe-na de calças (que ela usava no mato)! A senhora já morreu há 15 anos! E eu respeito-a como respeito todos os mortos, independentemente do meu "juízo histórico".

... Bom, e finalmente lá saiu o "boneco" que publicamos acima: apesar de ser uma "peça de humor", é também uma homenagem:
  • a todos os militares, meus camaradas, que estiveram no TO da Guiné, e que, além da G3, também gostavam de tocar viola, bateria ou simplemente cantar!;
  • ao conjunto musical "ad hic"  Os Bambas D' Incas;
  • em especial ao Tony, meu contemporâneo: faço votos para que ele ainda esteja vivo e continue a ser "romântico mas não...trôpego";
  •  por fim,  a todos os cantores românticos "ma non troppo", a todas as Mónicas, as todas as Cilinhas, a todas as mulheres, afinal;
  • e, claro,  também às nossas mães que, algumas, acharam por bem integrar o Movimento Nacional Feminino (1961/74), independentemente das motivações de cada uma. 
_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 7 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28078: Humor de caserna (272): As minhas "turras" com a menina IA que não tem um pingo de sentido de humor... A propósito da cantora ié-ié de Jabadá, que não era... "careca" (Luís Graça)

Guiné 61/74 - P28094: Movimento Nacional Feminino: visita da Cilinha a Bambadinca e espetáculo com a "prata da casa", o Conjunto Musical Os Bambas D'Incas, em princípios de maio de 1969



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Foto: José Carlos Lopes (2013)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > c. maio de 1969  

 Representação artística da parada do quartel de Bambadinca: visita da presidente do Movimento Nacional Feminino, Cecília Supico Pinto (1921-2011), mais conhecida por "Cilinha";  faz entrega de oferta de instrumentos musicais ao Conjunto Os Bambas D'Incas, formado por militares do batalhão.

Com base em foto do álbum do José Carlos Lopes, ex-fur mil amanuense, com a especialidade de contabilidade e pagadoria, especialidade essa que ele nunca exerceu (na prática, foi o homem dos reabastecimentos do batalhão).

Foto nº 1 > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > Mansambo (CART 2339, 1968/69) > 1969 > Atuação do conjunto musical, da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), "Os Bambas D' Incas": > Os elementos da banda em cima de um abrigo > Da esquerda para a direita, José Maria Sousa ("Braga") (viola solo), de pé; Tony (vocalista), sentado (era "alfacinha");  Otacílio Luz Henriques (viola baixo), de pé; Neves (bateria), sentado (era da Póvoa de Lanhoso); e Peixoto (viola ritmo), de pé (era de Ponta da Barca) (*). (O Otacílio era assistente técnico no Município da Amadora, trabalhou no Departamento de Obras Municipais, reformou-se em 2011.)





Foto nº 2 > Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Setor L1 (Bambadinca) > Mansambo (CART 2339, 1968/69) > 1969 > Atuação do conjunto musical, da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), "Os Bambas D' Incas" > O vocalista do grupo. Era radiotelegrafista na CCS/BCAÇ 2852. "Cantava o Fado muito bem. Era bastante indisciplinado, punha a cabeça do alf mil trms Fernando Calado em água" (escreveu o José Almeida, ex-fur mil trms, CCAÇ 12, 1969/71).

Pelo nome e nº mecanográfico terminado em 61, pode ser o 1º cabo nº 14219661 António N. Sousa ("Era refratário, e tinha cinco a seis anos a mais do que nós", diz o Sousa; (...) 
 era natural de Lisboa, onde já cantava, com fadistas conhecidos como a Maria da Fé; desconhece-se atualmente o seu paradeiro; foi ele que em Bambadinca, por volta de maio de 1969, cantou para a Cilinha a famosa canção do Alberto Cortez, "Oh Mónica", EP, 1961, adaptando a letra; Cortez nasceu na Argentina, em 1940, e morreu em 2019, em Espanha].

Fotos (e legendas) : © José Maria Sousa Ferreira (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Foto nº 3 > Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > c. princípios de maio de 1969 > Visita da presidente do MNF e  atuação do conjunto musical Os Bambas D' Incas, formado por cinco (ou seis) elementos: da direita para a esquerda, o 1º cabo Tony ("cantor romântico");  o 1º cabo Serafim (bateria);  o 1º cabo Peixoto (viola ritmo e cantor pop);  o José Maria de Sousa [Ferreira, mais conhecido por "Braga":  era soldado do pelotão de intendência (viola solo), originário do BART 1904 ]; e ainda "um outro 1º cabo que "deveria ser chapeiro e que, na vida civil, praticava halterofilismo" (acabámos por identificá-lo como  sendo o 1º cabo bate-chapas Otacílio Luz Henriques, membro da nossa Tabanca Grande)(*) ... 

Com exceção do Sousa, todos pertenciam ao BCAÇ 2852 e eram 1ºs cabos... 

Foto do álbum do José Carlos Lopes, ex-fur mil amanuense, com a especialidade de contabilidade e pagadoria .

Pela consulta da história da unidade (BCAÇ 2852, Bambadinca, 1968/70), presume-se que:

(i) o Peixoto seja o 1º cabo escriturário José Faria Taveiro Peixoto, nº 11176267, do comando do batalhão, secção de pessoal e reabastecimento;

(ii) o Serafim deve ser o 1º cabo mecânico auto António Luis S. Serafim, nº 06148667, do pelotão de manutenção comandado pelo alf mil Ismael Quitério Augusto, nosso grã-tabanqueiro;

(iii) o Tony, pelo nome e nº mecanográfico terminado em 61, pode ser o 1º cabo nº 14219661 António N. Sousa ("Era refratário, e tinha cinco a seis anos a mais do que nós", diz o Sousa; julga que era condutor, e natural de Lisboa, onde já cantava, com nomes fadistas conhecidos como a Maria da Fé);

(iv) Falta identificar o Neves, que também tocava bateria.



Foto nº 4 


Foto nº 5


Foto nº 6


Foto º 7

Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Setor L1 > Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) > C. fins de abril / princípios de maio de 1969 > Visita da presidente do MNF  (Fotos nºs, 6 e 7)  e atuação do conjunto musical Os Bambas D' Incas, (Fotos nºs, 3, 4 e 5). 

Destaque para a foto nº 6: a Cecília Supico Pinto (1921-2011), mais conhecida por "Cilinha", sobressaindo de um grupo de militares que a rodeiam e a escutam.. Todos as guerras têm a sua "Pasionaria"... A "Cilinha" terá sido a nossa... Esta foto, notável, do José Carlos Lopes, é uma prova disso... É uma foto de antologia.

Fotos (e legendas): © José Carlos Lopes (2013). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)



1. Não, não foi o Conjunto Musical das Forças Armadas (a que pertenceria mais tarde o Vitor Roseira), quem atuou nesse dia da visita da Cilinha a Bambadinca, mas sim a "prata da casa", o Conjunto Musical Os Bambas D'Incas. Corrija-se, então, o título do poste P10993 (***), por mor da verdade...

Tudo indica que esta visita se tenha realizado entre finais de abril e princípios de maio de 1969 (em 2 de maio, a Cilinha estava em Có, na região do Cacheu, e em 11 no Olossato, sede  da  CCAÇ 2402,  a que pertenceu o nosso saudoso grã-tabanqueiro Raul Albino). 

 O aquartelamento de Bambadinca  será atacado, em força, em 28 de maio desse ano. Nessa altura, fim da época seca, a líder do MNF andava pela Guiné.

O meu camarada José Carlos Lopes (estivemos juntos em Bambadinca, de julho de 1969 a maio de 1970,) já não pode precisar a data precisa em que  foram tiradas estes "slides". Mas lembra-se muito bem da visita da Cilinha e da atuação do conjunto musical  (que não era  o das Forças Armadas, mas o grupo local, "Os Bambas D'Incas") que veio animar a malta da CCS do batalhão e subunidades adidas, o Pel Rec Daimler 2046, 1968/70; o  Pel Mort 2106 (esteve em Bambadinca entre Março de 1969 e Dezembro de 1970)., Pel Caç Nat 63, que em junho ou julho vai para Fá, sendo rendido pelo Pel Caç Nat 53) .

2. Um dos membros do  conjunto musical Os Bambas d'Incas, onde tocava viola solo,  foi o José Maria Sousa Ferreira, conhecido pelo "Braga" (*), foi sold mec da CCS/BART 1904, de rendição individual, em 1968; foi depois integrado, na segunda parte da sua comissão, no Pelotão de Intendência (PINT),  sediado em Bambadinca (em 1969/70, já com instalações próprias, junto ao porto fluvial, na margem esquerda do Rio Geba Estreito).

Contou-nos ele que em Bambadinca era muito solicitado para festas de anos e animações, dentro e fora do quartel. Depois formou um conjunto com a malta da CCS/BCAÇ 2852. O Movimento Nacional Feminino (MNF) ofereceu-lhes os instrumentos. 

Tocaram, com grande sucesso, em vários sítios, incluindo Bafatá (na festa de Natal de 1969 e na passagem de ano). As fotos acima referem-se ao dia em que a Cilinha foi visitar Bambadinca... e houve espectáculo musical no edício em U onde ficava o comando do batalhão e as messes e quartos de oficiais e sargentos.

Terminou a sua comissão em abril de 1970. Tornou-se empresário, sendo sócio de várias escolas de condução (provavelmente, hoje estará reformado). 

Em  2015, quando nos contactou, andava à procura da malta do seu tempo e em especial dos elementos que integraram o saudoso conjunto musical Os Bambas d'Incas.  Falou comigo ao telefone. Já voltou à  Guiné, em férias, em 2012,  e claro visitou Bambadinca.
.
Esse conjunto musical cujas fotos se mostram acim,  era formado por 5 elementos, 4 cabos e 1 soldado,  havendo 2 vozes, 3 guitarras elétricas e 1 baterista (pormenor curioso: arranjou um cunhete de munições para pôr em cima da cadeira e "fazer altura") (. Havia 2 bateristas, o Serafim e o Neves.)

Não confundir este conjunto com um outro que andava pela Guiné, o Conjunto Musical das Forças Armadas. (O nosso camarada Vitor Raposeiro, ex-fur mil radiotelegrafista, STM, de rendição individual, que passou por Aldeia Formosa, Bambadinca, Bula e Bissau, 1970/72, também viria a integrar esse Conjunto Musical das Forças Armadas, tendo saído de Bambadinca ao tempo do BART 2917; esse conjunto atuava por toda a Guiné.)

Um das formas de apoio aos militares no mato, por parte do MNF,  para além da realização de espectáculos com artistas trazidos da Metrópole (****),  era ajudar os conjuntos musicais locais "ad hoc", disponibilizando ou fornecendo instrumentos musicais. Ou juntando músicos a cumprir o serviço militar (caso, por exemplo, do Conjunto Musical das Forças Armadas, e do Conjunto Académico Poão Paulo) (*****)

__________________

Notas do editor LG:

(*)  Vd. postes de: 

10 de abril de 2015 > Guiné 63/74 - P14455: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (97): José Maria de Sousa [ Ferreira, minhoto, com escola de condução no Porto], ex-sold mec aut (BCAÇ 1904 e PINT, Bambadinca, 1968/70) descobre os seus companheiros do conjunto musical a quem o Movimento Nacional Feminino ofereceu, em 1969, os instrumentos






sexta-feira, 12 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28093: Notas de leitura (1927): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (3): V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca e VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

V - Depois do Cuor, seguiu-se a intervenção em Bambadinca

A partir de agora, estamos em novembro de 1969, quando tenho saudades do Cuor, venho até ao porto de Bambadinca e olhar para lá da bolanha de Finete, fico ali especado a ver toda aquela massa florestal, por vezes o barqueiro, de nome Mufali Iafai, que me atravessou vezes sem conta de um lado para o outro, vem conversar comigo, faço dele o meu elemento de ligação com o passado. Ele lembra-se muito bem daquela noite de 28 de maio de 1969, quando Bambadinca sofreu a sua primeira flagelação, tomei a liberdade de vir em seu auxílio, o Geba na maré-baixa, ganhei lama até ao umbigo, este mesmo Mufali queria levar-me às costas para não entrar na lama da outra margem, recusei, mas não esqueci a deferência.

A intervenção em Bambadinca traduz-se numa multiplicidade de operações: levar e trazer correio de Bafatá; fazer patrulhamentos noturnos; fracionarmos o pelotão em secções, cada uma vai para o seu mister; passar noites abomináveis num lugarejo que dá pelo nome de Undunduma; participar em operações em Mansambo, Xitole, Xime; fazer colunas de reabastecimento entre Bambadinca e Xitole… enfim, um desgaste, uma perda da relação com os meus homens, por ironia estaremos sempre juntos nas operações ou naquelas emboscadas defensivas em que passamos a noite toda num ponto ermo para hipoteticamente defender Bambadinca.

O último mês de verdadeira atividade operacional, julho, traduz-se em sair de madrugada para proteger os trabalhos do alcatroamento da estrada Xime-Bambadinca. Até que recebo a notícia de que devo partir para Bissau, antes de partir voltei a ver uma nova prova do rancor que separa os guineenses dos cabo-verdianos, o meu substituto é cabo-verdiano, os soldados convocaram-me, acusam-me de deslealdade, tanta amizade, tanta amizade e agora entrega-nos ao velho patrão com chicote, um gajo que certamente nos odeia. Tudo se veio a concertar, mas a estadia do meu substituto não foi longa.

Depois de doze dias de viagem, de Bissau para o Sal, do Sal para Mindelo, de Mindelo para Ponta Delgada e daqui para o mesmo cais da Rocha do Conde Óbidos, regresso a Lisboa, sei que tenho que acalmar as recordações, prometo a mim mesmo que não quero descurar as amizades feitas, mas sei perfeitamente que tudo vai mudar, desisti de voltar ao meu antigo emprego, fiz um contrato com o Ministério do Exército, darei recrutas em Mafra, serei colocado em Lisboa na Agência Militar, recomecei os estudos, gota a gota vou fazendo exames, tenho família, nasceu-me uma filha, restabeleci uma vida social mitigada, fazer exames é o mais importante.

Veio depois o 25 de abril, o país tem uma inflação superior a 30%, os governos provisórios são obrigados a tomar medidas que obriguem à contenção dessa inflação. É agora nesse serviço público que eu vou descobrir a política dos consumidores, tanto a nível profissional como na participação cívica. A Guiné parece estar cada vez mais longe, visito e recebo em casa os meus soldados gravemente sinistrados, escrevo e recebo mensagens, há trocas de fotografias, descubro que falar da guerra incomoda muita gente, aliás o Governo garrota toda e qualquer informação que revela a evolução a que chegou a guerra nos três teatros de operações, é facto que há as notícias necrológicas, as mensagens de Natal do soldado, as campanhas do Movimento Nacional Feminino, não se mostram as partidas e chegadas dos contingentes militares, a filosofia é de que toda aquela tropa está em missões de policiamento, existe terrorismo que vem de outros territórios, é tudo estratégia do comunismo. Claro que há famílias enlutadas, mas a guerra continua longe.

O grande abalo, o de 1961, parece ultrapassado. De 1973 para 1974 entramos numa maré de sobressaltos: qualquer coisa de muito grave aconteceu na Guiné, não se sabe muito bem o quê; uma guerra para os lados de Israel vai desencadear uma crise petrolífera, as consequências serão visíveis na sociedade portuguesa, todos os preços sobem; em fevereiro de 1974 o General Spínola publica um livro onde consta uma frase fatal, não há solução militar para aquela guerra, só solução política. E assim chegámos ao 25 de abril.



VI - O primeiro regresso à Guiné, 1990/1991, o início da escrita

Trabalhei no Ministério da Economia, no Ministério do Comércio e Turismo e até no Ministério do Ambiente, estou ativo na tal política dos consumidores, só a tutela é que muda. Ora algo aconteceu em 1989 que leva a que dois funcionários do Instituto do Consumidor se desloquem à República da Guiné-Bissau para discutir da viabilidade de um protocolo na área da política dos consumidores. Em janeiro de 1990, regresso à minha Guiné. O ministro do Ambiente de então, reunira-se com os seus colegas da lusofonia para negociar uma posição comum relativamente a um acontecimento que iria ocorrer em 1992, a Cimeira da Terra, no Rio de Janeiro. O ministro da Indústria e dos Recursos Naturais da Guiné-Bissau surpreendeu o ministro português quando lhe pediu um programa de recuperação na área da defesa do consumidor. O ministro português disse que sim, encarregou o Instituto do Consumidor das diligências necessárias.

Foi uma semana intensa de contactos, sentia-se a ver sinceridade e preocupação quando se expunham os motivos de pedido de protocolo, dando uma grande abrangência à defesa do consumidor. Tomou-se nota de tudo e prometeu-se elaborar um documento favorável ao que se pedia e enviá-lo ao ministro português. Mas o meu coração não descansava, senti uma enorme vontade de visitar o regulado do Cuor. Um cooperante com quem se almoçava na chamada Pensão Central, ou da Dona Berta, ofereceu-se para lá irmos num domingo. Como aconteceu. 20 anos depois entrei em Missirá, houve choro convulsivo, abracei muitos amigos, recebi inúmeras cartas com pedidos, reencontrei o meu guarda-costas a quem prometi que tudo faria para vir para Portugal. Como aconteceu.

Chegado a Lisboa, preparei um relatório da missão em concordância com a expetativa das autoridades guineenses quanto ao lançamento daas bases de uma política para consumidores, eles pediam intervenção legislativa e formativa na área alimentar (punha-se a necessidade de saber minimamente o que se importava) no combate ao esbanjamento dos recursos naturais, na criação de uma instituição onde se articulasse as intervenções a favor dos consumidores, em paralelo com a concertação dos programas das agências das Nações Unidas em projetos com impacto no consumo; reconhecia-se como tutela o Ministério de Recursos Naturais e da Indústria, da Guiné-Bissau, a entidade colaboradora seria o Ministério do Ambiente de Portugal. Passaram-se semanas e meses, até que em maio de 1991 o Ministro do Ambiente convocou-me para me dizer que tinha conversado com o seu homólogo da Guiné-Bissau e que ele insistia numa cooperação para uma estrutura muito maleável que ajudasse os consumidores a otimizar os seus recursos. O Ministro previa um protocolo envolvendo um pequeno financiamento do lado português, lera o meu relatório, nomeava-me para essa missão. E em pleno verão português e até às vésperas de Natal dediquei-me de alma e coração a fomentar alianças entre a administração, as agências das Nações Unidas e algumas organizações não governamentais. Tive a satisfação de fazer uma série de programas para a televisão da Guiné-Bissau, o título era Um milhão de consumidores. Deu-se então uma cena caricata, já tinham sido emitidos seis programas e um dos diretores da referida televisão veio-me pedir que encontrasse um patrocinador, caí das nuvens, não era a mim que cabia tal missão, sugeri alguns nomes de empresas públicas, o dito diretor entendeu que não havia condições para continuar, intuí que ele não percebia que um cooperante estrangeiro não podia andar diretamente a angariar patrocinadores.

Chegou-se ao entendimento, e mesmo houve uma decisão presidencial, para se criar uma comissão interna e industrial, propunha-se uma verba para fazer obras em instalações dadas pelo Governo guineense, nomeava-se um secretário-geral remunerado e pagava-se ajudas de custo aos participantes das reuniões. Vim para Lisboa, trazia a promessa do Ministro guineense de que enviaria o seu colega português os termos da aceitação. Silêncio total, insisti por carta e por telefone. Aprendi amargamente quanto pesam os silêncios africanos.

Chegou, entretanto, a Lisboa o filho mais novo do régulo do Cuor, passei a receber assiduamente notícias de gente que eu tanto estimava. O diretor de uma revista destinada a estudos coloniais, Carlos Cruz Oliveira, pediu colaboração, publiquei alguns artigos, escritos à pressão, não sentia disponibilidade para intervir a fundo, tinha o propósito de esperar pela reforma para lançar mãos à empreitada. É nisto que recebo um telefonema de um antigo furriel de armas pesadas de uma unidade de Bambadinca, estávamos paredes meias na sede do batalhão, vinha-me pedir autorização para reproduzir no seu blog um texto que eu publicara numa revista científica online. Combinámos encontro no seu ganha-pão, a Escola Superior de Saúde, e ainda hoje estou para saber o que me levou, imprevistamente, a declarar-lhe de que ia publicar o meu diário da Guiné no blog. Trabalhei neles durante dois anos, foram publicados em 2008 e 2009, ano a ano, de 1968 a 1969 com o título "Na Terra dos Soncó", nome de família do regulo do Cuor, e de 1969 a 1970, com o título "O Tigre Vadio", nome da operação mais sangrenta em que participei.

Enquanto ia publicando no blog estes trechos, juntavam-se outras peças resultantes das informações que me eram dadas por gente que tinha estado no Cuor ou regiões próximas. Também antigos militares meus residentes em Portugal me prestavam informações, eram sinistrados de guerra ou fugitivos da repressão do PAIGC sobre os comandos guineenses. Um acontecimento dramático, a perda de uma filha, em 2009, deu-me ocasião de me envolver em projetos de bastante fôlego, um inventário da literatura da guerra colonial da Guiné e um romance envolvendo uma mulher nonagenária que tinha vivido na Guiné entre os anos de 1950 e o início da guerra, proporcionou-me um relato sobre uma Guiné colonial antes do desencadear da luta armada.

Lia no blog Luís Graça e Camaradas da Guiné relatos de ex-combatentes que visitavam a Guiné ou que acompanhavam projetos de ajuda humanitária. Sabe-se lá que as saudades do Cuor e de Bambadinca não estavam a ser avivadas por esta escrita. E comecei discretamente a congeminar uma viagem, fazia perguntas soltas, diziam-me frequentemente não vás, aquilo está tudo uma miséria, o país entrou num ocaso, se acaso alguma vez foi um país, virás de lá traumatizado, ainda por cima não encontras instalações disponíveis, é tudo uma insegurança e sozinho, se estás mesmo com saudades viaja em grupo.

Fui então estabelecendo um plano, conversei com os meus amigos guineenses em Lisboa, consegui obter apoio logístico perto no Cuor, em Santa Helena, na outra margem do Geba, escrevi a um amigo muito querido a viver em Bambadinca, um sinistrado de guerra, de nome Fodé Dahaba para ver da possibilidade de me encontrar toda a rapaziada dos antigos caçadores nativos e dos dois pelotões de milícias, queria visitá-los, o meu propósito era ir despedir-me deles todos, agradecer-lhes a leal colaboração que me tinham dado, visitar os locais onde combatera, falar com antigos combatentes do PAIGC. Pedi mesmo ajuda junto da Embaixada de Portugal na Guiné-Bissau. E em novembro de 2010, ajoujado de sacos com livros e lembranças, com uma listagem de endereços, inclusivamente transportando um bom conjunto de encomendas de guineenses residentes em Portugal para guineenses residentes na Guiné-Bissau, apresentei-me no Aeroporto da Portela. A sonhar da viagem da reconciliação e sem qualquer ilusão quanto ao peso das emoções que me esperam, vai começar.


(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 15 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

Último post da série de 8 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28080: Notas de leitura (1926): "Coragem, Altruísmo e Fé", por Rosalina Coelho Vaqueiro; Chiado Books, 2025 (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28022: Notas de leitura (1923): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (2): III - O que eu sei da guerra que estou a travar e IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida (Mário Beja Santos)

CONGRESSO INTERNACIONAL
DAS GUERRAS AO PÓS-25 DE ABRIL
Os Militares em Territórios em Conflito
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
De 2 a 4 de abril de 2025


A biografia de um combatente:
O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História

Mário Beja Santos

III - O que eu sei da guerra que estou a travar

Estou consciente que não disponho de tempo para manter este nível de pormenor, quando comecei a estruturar esta intervenção achei por bem pôr ênfase neste tempo de adaptação, dou-lhe um valor incalculável, foi nascendo o meu amor por aquelas gentes que tanto confiavam em mim, faltava-lhes tudo, exigiram-me que lhes desse o devido cuidado, tudo somado nasceu entre nós o respeito, a consideração, a lealdade. Eu estava ali para fazer a guerra, ou para travar os ímpetos do chamado inimigo, cedo descobri que tudo passava por mostrar às populações a moeda da lealdade do cuidado pelo Outro.

À cautela, supondo que irei viver num universo radicalmente diferente do que vivi em Lisboa, apetrechei-me de dois malões feitos em pinho, levei neles umas largas centenas de livros e discos de vinil e o gira-discos a pilhas. Nada sei da Guiné, quando ali desembarquei, nem do seu mosaico étnico, em que locais estão implantadas as tropas portuguesas e onde há guerrilha, li durante a viagem de barco um volume sobre a Guiné Portuguesa da autoria do então Comandante Teixeira da Mota, esclarecedor quanto a aspetos históricos, geográficos, antropológicos e etnográficos, mas era um livro de 1954, fiquei com uma ideia quanto à severidade do clima, e havia tornados e uma espantosa diversidade quanto a fauna e flora, mangais, vários tipos de floresta, palmares, lalas de água salgada, Savanas, não faltam macacos, cobras, ratos-voadores e uma espécie de abutres, alimentam-se de tudo.

Desembarcado em Bissau, ainda esperei ser convocado para uma reunião onde ficasse a saber que guerra de guerrilhas ali se vivia, nada aconteceu, fiquei entregue a mim próprio, ia diariamente a uma repartição do Quartel-General saber se tinha guia de marcha. Passeei-me por Bissau, o museu da Guiné surpreendeu-me, comprei um livro sobre os Mandingas, o jeito que me deu. Resta dizer que me mandaram apresentar no cais do Pidjiquiti na manhã de 2 de agosto, embarquei num barco com vários africanos, deram-me um garrafão de água e uma ração de combate. Fiz o estuário do Geba, havia um jovem que me ia explicando os locais, ali ao fundo é Jabadá, vamos parar em Porto Gole, anoiteceu, alguém me dirá em voz baixa que vamos passar perto de Ponta Varela, é ali que os barcos são atracados, o barco navega com toda a gente em silêncio, depois entrou num estreito leito do rio, sinuoso, mais adiante há luzes, primeiro o Xime mais adiante Bambadinca.

Algo me está a maravilhar, assim como descobri na recruta e na especialidade a energia física e o prazer da marcha, começo a entender agora que tenho capacidade de liderança, nestes primeiros três meses vamos fazendo patrulhas de reconhecimento, vou tirando notas do terreno percorrido, deslumbrei-me com os palmares de Gambiel e de Chicri, estou ciente de que aquelas obras são mais do que indispensáveis, não tenho ilusões quanto à insegurança em que vivemos. Vivo numa morança onde se pôs saibro no chão, foi pintada uma cama de ferro e feito um colchão de folhelho, mais tarde descobrirei que aquela cama pertenceu a um dos nossos maiores cartógrafos, Armando Cortesão. Converso regularmente com o régulo, com o chefe de tabanca, com o responsável religioso. Apareceu um jovem a oferecer-se para guarda-costas, o seu nome é Ieró, parece ser uso e costume haver tal intendência, Ieró explica-me o que é que pretende fazer: entregar a roupa suja à lavadeira e verificar o estado em que regressa; limpar o armamento e a limpeza da casa de nosso alfero, vai por aí fora falando das botas para engraxar, levar e trazer recados, e, súbito, diz algo que arrepia nosso alfero: se necessário pôr, protege com o seu corpo o seu comandante, deve estar preparado para dar a sua vida por ele.

Vive-se com o que a vida nos ensina: os graves problemas de saúde, sobretudo dos civis, as carências nutricionais das crianças, o imperativo das colunas de abastecimento; apanhou-se um grande susto, um dia em Mato de Cão, ouve-se um ronco medonho, depois as águas parecem estar a ferver em remoinho, deitam espuma para os lodos das margens, segue-se uma onda, então desatei a fugir colina acima, soldados a rirem-se, e eu a pensar que era um marmoto e os soldados a dizerem que não, é macaréu.

Multiplicam-se as tarefas, na secretaria do Batalhão entregam-me um processo de averiguações, uma criança, anos atrás, em Finete, acionou uma granada incendiária que tinha ficado num reboque militar, o seu corpo foi severamente atingido, como eu irei ver mais tarde, passei horas e horas a mandar deprecadas para muitos lugares de Portugal, o processo acabou em nada. Percorro aquelas matas, vejo estacas calcinadas, houve para ali vida, apercebo-me agora que vivo num território dividido, onde se deu um turbilhão demográfico, fugiu gente para muitos sítios, os que ficaram estão em Missirá e Finete, em Madina e Belel. É assim que se vive num território em guerra de guerrilhas.



IV - O conhecimento da morte, Missirá devastada, o desafio de lhe dar nova vida

Aproveito as idas a Mato de Cão para fazer patrulhamentos, quero descobrir os caminhos que as gentes de Madina e de Belel percorrem atravessando o Geba em diferentes sentidos. Iremos descobrir pirogas camufladas dentro do mato denso do tarrafe, para quem vai aos Nhabijões; junto do Geba estreito, frente à bolanha de Mero, na margem esquerda, encontramos indícios da sua passagem, desde carregadores de espingardas a bosta de vaca. Seguem-se emboscadas, o chamado inimigo terá os seus mortos e feridos, sofremos também com gente nossa acidentada, o Natal mais luminoso da minha vida será o de 1968, alegria irrepetível, gente de cá enviou vitualhas, houve festa para toda a população civil e para os contingentes de Missirá e Finete.

Em fevereiro de 1969 fui ao hospital militar de Bissau para ser operado, sofria de uma cartilagem atrás do joelho direito que me dava dores insuportáveis. Antes de ir, participei numa operação desastrosa onde se acidentou gravemente mais um amigo meu. Feita a operação, descubro que Missirá fora flagelada, o incêndio consumira cerca de dezasseis moranças, consegui apoios no Batalhão de Engenharia, não me irá faltar cimento, nem dinheiro para as madeiras, virão chapas onduladas, o essencial para que quando chegou a época das chuvas toda a gente tinha o mínimo de conforto e aproveitou-se a ocasião para renovar um bom número de abrigos.

Entretanto, não faltarão flagelações, a resposta será sempre pronta e enérgica. Tenho de abreviar, a contragosto. Participaremos também nas operações dos outros, deixei de ter medo da noite. Uma vez escrevi o seguinte: “Descobri que a floresta à noite tem outras expressões de vida, os estalos da madeira sobressaltam, o piar das árvores pode parecer de muito mau agoiro, um porco-do-mato pode assustar uma patrulha em marcha, há sons que se confundem, o pior são os gemidos das hienas, lembram o choro dos bebés; em emboscadas noturnas, sente-se o bafo do vizinho do lado, parece que estamos perdidos num oceano de sombras, já me habituei ao restolhar dos animais, quem está à noite na floresta em circunstância alguma pode perder de vista o camarada que segue à frente, já ouvimos falar no terror, no desespero que é estar perdido em território perfeitamente desconhecido.”

Os meses passam, os homens do meu pelotão dão-me claramente a saber que estão fartos de viver naquele ponto do mato, há mais de três anos que combatem em Missirá, fui forçado a pedir ao comando do batalhão transferência, não deixando de advertir os meus homens que não iríamos para melhor em Bambadinca. Tal como aconteceu.

(continua)

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Notas do editor:

Vd. post de 8 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28001: Notas de leitura (1920): A biografia de um combatente: O que experimentei na guerra da Guiné e como continuo a estudar a sua História (1): I - À guisa de apresentação do ex-combatente e II - Foi assim que cheguei ao Cuor (Mário Beja Santos)

Último post da série de 13 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28014: Notas de leitura (1922): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1.º cabo aux enf, 2.ª C/BART 6521/72 (Có, 1972/74) - Parte X: À falta de vaca, avançou o hipopótamo para o rancho

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27904: (De)Caras (247): Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494 (Sousa de Castro, ex-1.º Cabo Radiotelegrafista)

Ex-1.º Cabo Radiotelegrafista António Castro


Memórias da ida para a Guerra da Guiné integrado na CART 3494

O dia 27 de janeiro de 1972 marcou a fronteira entre o que eu era e o que viria a ser. Embarquei por via aérea num avião dos TAM (transporte aéreo militar) DC 6 em Lisboa com a inquietação de quem parte para o desconhecido. O avião levantou voo pesado, como se carregasse não só homens, mas também os medos que cada um escondia no fundo do peito.
Douglas DC6 dos Transportes Aéreos Militares (TAM)
Créditos: Página dos Especialistas do AB4

A viagem até Bissau durou nove horas, uma travessia longa, silenciosa, feita de pensamentos que ninguém ousava partilhar. A meio do percurso fizemos uma paragem de cerca de uma hora na Ilha do Sal, em Cabo Verde. Aquela escala breve, entre o céu e o mar, parecia suspender o tempo - como se fosse o último momento de respiração antes do mergulho definitivo na guerra.

Foi ali, naquele pedaço de terra árida e luminosa, que escrevi e enviei à minha esposa o meu primeiro postal. As palavras eram simples, mas carregavam tudo o que eu não sabia dizer em voz alta: a saudade antecipada, a incerteza, a necessidade de manter um fio de ligação ao mundo que estava a deixar para trás.

Depois da escala, voltámos a levantar voo. O DC6 avançou sobre o Atlântico como se nos empurrasse para um destino inevitável. Quando finalmente aterrámos em Bissau, o ar quente e húmido recebeu-me como um aviso silencioso: a partir daqui, és outro.

Durante o mês que permaneci em Bissau, tive a sorte de ser acolhido na casa do 1.º Sargento, Manuel da Silva Caldas e da sua família. Ele era o chefe do STM (Serviço Telecomunicações Militares) no Agrupamento TRMS no Quartel de Santa Luzia, e abriu-me a porta como se eu fosse um filho que chegava de longe. Aquele lar improvisado, tão distante do meu, deu-me um chão firme num momento em que tudo era novo. A mesa partilhada, as conversas, a normalidade possível - tudo isso ajudou a suavizar o peso da guerra que se aproximava.
Bissau - 1972, 1.º sarg. Caldas em primeiro plano, eu, de costas

Fiquei um mês em Bissau, em estágio de radiotelegrafista. Era um tempo de adaptação, mas também de disciplina. Passava horas a fio a praticar grafia, o velho morse que se tornaria a minha segunda respiração. O som seco dos pontos e traços marcava o ritmo dos dias, como se cada mensagem fosse um pequeno exercício de sobrevivência.
Bissau 1972 - Agrupamento das TRMS

Ali aprendi não apenas a transmitir - aprendi a ouvir. A distinguir interferências, a reconhecer padrões, a perceber quando uma mensagem vinha limpa ou quando escondia urgência. E, acima de tudo, aprendi os procedimentos de segurança: como manter silêncio rádio, como evitar que uma falha minha colocasse homens em risco.

A fonia também fazia parte do treino, mas era a grafia que exigia mais de mim. A fonia era rápida; o morse era preciso. E na Guiné, a precisão salvava vidas.

Em 3 março de 1972, segui para o mato por via aérea. O avião era um Dakota, daqueles que tremiam como se carregassem memórias de todas as guerras anteriores. Aterrámos em Bafatá, e dali seguimos em coluna auto, com paragem em Bambadinca, onde o cheiro a poeira e gasóleo parecia anunciar que o interior da Guiné tinha regras próprias.

O destino final era o Xime. E o Xime não era apenas um aquartelamento - era um teste diário à resistência de cada homem.

Ali, entre o Geba castanho e a mata cerrada, aprendi que o silêncio nunca era silêncio. Havia sempre um rumor, um estalar, um pressentimento. E quando a noite caía, caía mesmo - pesada, espessa, cheia de sombras que pareciam mover-se sozinhas.

O posto de Transmissões, era num local sem segurança, sempre que éramos flagelados tínhamos de procurar um abrigo próximo. Operava em grafia (código morse) com o emissor receptor AN/GRC-9 e em fonia com o AVP-1 conhecido por banana e o TR-28 (Racal). Eu pertencia às Transmissões de Engenharia, e o meu trabalho era feito num posto fixo, dentro do aquartelamento. Não participava nas operações. Essas cabiam aos TRMS de infantaria, que saíam com o Racal (TR-28) e com o AVP-1, acompanhando os grupos de combate nas picadas, nas emboscadas, nos reconhecimentos.

O meu mundo era outro. Eu ficava no coração das comunicações, onde a guerra chegava em forma de sons metálicos, interferências, códigos e urgências. Fazia escuta permanente e transmitia quando era preciso - e era preciso muitas vezes.

Era ali, naquele posto fixo, que mantinha vivas as ligações com Bambadinca, Mansambo, Enxalé e Xitole. Era ali que recebia pedidos, alertas, relatórios, mensagens codificadas. E era dali que partiam as comunicações que podiam decidir se uma operação avançava, recuava ou pedia evacuação.

A guerra, para mim, não era a picada. Era o som seco do morse, a tensão da escuta, o silêncio que precedia uma mensagem urgente, a responsabilidade de não falhar. E, no fim, era a certeza de que, mesmo sem sair do aquartelamento, eu estava ligado a todos os que lá fora arriscavam a vida.

Para além de numerosos contactos com o inimigo no terreno em operações, emboscadas etc., no aquartelamento fomos muitas vezes flagelados com armas pesadas e ligeiras, nomeadamente Canhão s/recuo, morteiro 82 mm, RPG 7, RPG 2 e Foguetões.

A guerra molda-nos sem pedir licença. E quando chegou o dia 3 de abril de 1974, o dia do regresso, senti que deixava para trás uma parte de mim que nunca mais recuperaria.

Voltei por via aérea num Boeing 707, como tinha chegado. Mas o homem que regressou não era o mesmo que partira. Foram 26 meses e 7 dias na guerra da Guiné.
Boeing 707 da Força Aérea Portuguesa
Créditos: Página dos Especialistas do AB4

Hoje, tantos anos depois, sei que a CART 3494 não foi apenas uma unidade militar. Foi uma família improvisada, forjada no calor, na lama, no perigo e na necessidade absoluta de confiar uns nos outros.

E cada vez que nos juntamos, cada convívio, cada abraço, cada história repetida, é como se o rádio voltasse a ganhar vida - e a ligação entre nós se mantivesse tão forte como naquele tempo.

Porque, no fundo, a guerra passa, mas os homens que a viveram nunca se perdem uns dos outros.

António Castro,
ex-1.º Cabo Radiotelegrafista da CART 3494
07ABR2026

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Nota do editor

Último post da série de 7 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27898: (De)Caras (246): Lembrando a participação do ex-Alf Mil Cav Francisco Gamelas, CMDT do PelRec 3089; do ex-1.º Cabo Bernardino Lima, Condutor/Apontador do PelRec 3083 e a minha como ex-CMDT do PelRec 2208, no Colóquio “O Regimento de Cavalaria N.º 6 na Guerra Colonial: Perspetivas Locais e Globais”, levado a efeito, no dia 23 de Novembro de 2021, na Universidade do Minho (Ernestino Caniço, ex-Alf Mil Cav)

quarta-feira, 25 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27856: Historiografia da presença portuguesa em África (522): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1964, 2.º semestre (80) (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 3 de Outubro de 2025:

Queridos amigos,
O Boletim Oficial é um documento de leitura obrigatória para qualquer investigador que esteja focado na criação da colónia a partir da sua desanexação de Cabo Verde, o que aconteceu em 1879. Comecei este meu trabalho anos antes, considerei que era indispensável entender o significado dessa união Cabo Verde e Costa da Guiné, era assim que se tratava a Pequena Senegâmbia, convém não esquecer que Honório Pereira Barreto escreveu a sua memorável Memória sobre o Estado Actual da Senegâmbia Portuguesa em 1843. Agora que estamos em pleno conflito armado, o Boletim Oficial dá-nos a possibilidade de visualizar a extensão dos serviços, o funcionamento um tanto fictício do sistema económico e financeiro. E descobre-se que a Guiné tem um herói, o regedor de Porto Gole, Abna Na Onça, tanto quanto nos é dado a perceber é o primeiro bravo nascido na Guiné que enfrenta destemidamente as forças do PAIGC.

Um abraço do
Mário



Província da Guiné Portuguesa
Boletim Oficial da Guiné, 1964, 2.º semestre (80)


Mário Beja Santos

Este ano de 1964 regista uma continuidade de reforço de verbas, concessões de crédito, orçamentos suplementares, é a cortina de fumo para não dar notoriedade à desarticulação económica e aos tumultos demográficos que alteraram radicalmente a vida das populações principalmente no Sul, na região do Corubal, no Centro-Norte, com especial incidência na região do Morés. Deixaram de ser transitáveis eixos como Jugudul-Bafatá e Bissorã-Mansabá-Bafatá, o que exigiu o recurso aos transportes marítimos e aéreos, o porto de Bambadinca será fulcral para o abastecimento do Leste. Cresce o número de funcionários, que tanto podem ser professores, como médicos e enfermeiros. Descobre-se que há um herói guineense, virá a ser condecorado e mais tarde abatido por forças do PAIGC, Abna Na Onça. Tirando este destaque e a notícia de que é necessário importar muito arroz, o Boletim Oficial está discretamente longe da guerra.

No Boletim Oficial n.º 26, de 27 de junho, é aprovado o Estatuto do Corpo de Polícia de Segurança Pública da Guiné. Estamos agora em julho, no Boletim Oficial n.º 28, de 13 desse mês, pelo Decreto n.º 45785, reorganiza-se a atual Missão Permanente de Estudo e Combate à Doença do Sono e outras Endemias que passa a designar-se Missão de Combate às Tripanossomíases da Guiné, com duas finalidades: o combate e a profilaxia da doença do sono e o combate e profilaxia das tripanossomíases animais.

Abna Na Onça é o nome de um valente guerreiro que surge pela primeira vez no Boletim Oficial n.º 31, de 1 de agosto. Veja-se o teor das Portarias emanadas da Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil:
“Na madrugada do dia 4 de julho do corrente ano, o alferes de 2.ª linha e regedor de Porto Gole, Abna Na Onça, chefiando uma força de polícia administrativa atacou e destruiu um acampamento ilegal perto da povoação de Dembel.
Já no regresso à povoação de Porto Gole, conduzindo dezoito prisioneiros capturados no acampamento referido, a coluna que comandava foi surpreendida pelo inimigo, sendo duramente atingida pelo fogo desencadeado pelos terroristas emboscados.

Abna Na Onça enfrentou com valentia os assaltantes, conseguindo, embora bastante ferido, continuar a comandar os seus homens.
Demonstrou, o alferes de 2.ª linha Abna Na Onça, ter espírito de iniciativa, perfeito conhecimento dos seus deveres, dinamismo e patriotismo ao planear e pôr em execução a ação punitiva contra o acampamento ilegal de Dembel, cujo objectivo foi atingido, com êxito absoluto.
Demonstrou, igualmente, possuir qualidades de comando, autoridade, espírito de sacrifício e valentia quando da emboscada que sofreu.”

Foi promovido ao posto de tenente de 2.ª linha.

Segundo louvor:
“O 1.º Pelotão da Companhia da Polícia Administrativa, em serviço na área do Posto Administrativo do Porto Gole, levou efeito na madrugada de 4 do corrente, sob o comando do alferes de 2.ª linha e regedor Abna Na Onça, uma acção de polícia na região de Dembel, onde destruiu um acampamento terrorista.
Nesta operação incendiou dezoito barracas ilegais e grande quantidade de arroz. Abateu dois elementos terroristas e fez dezoito prisioneiros.

No regresso, suportou duro combate com um inimigo numeroso e fortemente armado que, emboscado, usufruía assim de enormes vantagens.
Todos os elementos do referido pelotão bateram-se com galhardia, demonstrando assim o seu alto grau de eficiência, disciplina e valentia.”

Conferiu-se louvor ao 1.º Pelotão pelos méritos demonstrados.

Terceiro louvor:
“Na emboscada sofrida pelo 1.º Pelotão da Companhia da Polícia Administrativa em serviço na área do posto administrativo de Porto Gole, na madrugada do dia 4 do corrente mês, quando regressava àquele posto, após ter efetuado com êxito um ataque ao acampamento terrorista, destacaram-se pela sua bravura, serenidade e espírito de iniciativa, os guardas Souleimane Seidi, João Fernandes, Armando Papo Seco e Amadu Bari.”
Pelos seus atos meritórios os quatro foram louvados.

Quarto louvor:
"No decurso da expedição conduzida com êxito pelo regedor Abna Na Onça, no combate que se travou entre a força da Ordem e os bandoleiros, os guardas António Gomes, Assalifam Té, Mussá Seidi e Aliu Baldé combateram até ao limite das suas forças, esvaindo-se em sangue dos ferimentos sofridos, caindo mortalmente."
Considerando ser justo dar público conhecimento da heroicidade destes guardas, eles foram louvados a título póstumo.

No Boletim Oficial n.º 45, de 7 de novembro, surge-nos o Diploma Legislativo n.º 1816:
“O imposto é um dever social de todo o cidadão para a satisfação de encargos do Estado no desenvolvimento das diferentes actividades de que todos beneficiam. Há determinadas isenções que não se justificam, em especial dos que exercem actividades remuneradas, que têm a restrita obrigação de contribuir para a colectividade. A partir de 1 de janeiro de 1965 todos os salários dos servidores do Estado, qualquer que seja o seu quantitativo, são passíveis de imposto de proventos.”

O Boletim Oficial n.º 48, de 28 de novembro, anuncia uma situação de graves irregularidades, e o Governador Arnaldo Schulz profere Despacho:
“Tendo alguns membros da direcção da Cooperativa dos Funcionários Públicos da Guiné solicitado ao Governo da província um inquérito às contas da referida Cooperativa, e, tendo esse inquérito revelado graves irregularidades que põem em risco o capital em giro, e um completo alheamento das suas funções por parte do Conselho Fiscal;
Considerando o importante papel de regulador de preços dos géneros de primeira necessidade desempenhado pela Cooperativa dos Funcionários Públicos junto do mercado local e as elevadas somas investidas na mesma, pelo Estado, sob a forma de subsídios, que precisam ser de melhor forma acauteladas;
Considerando ainda que a maior parte dos membros da direção eleita para o ano em curso pediu já a sua demissão; manda o Governador que a direcção da Cooperativa fique durante o período mínimo de dois anos a cargo de uma comissão administrativa.”

O Governador escolheu para presidente da referida comissão o Dr. Artur Augusto da Silva.

No Boletim Oficial n.º 50, de 16 de dezembro, temos o texto da Portaria n.º 1687. É designado o dia 17 de dezembro para a abertura das operações de comercialização da mancarra em toda a província, estabelecendo-se os preços de compra ao produtor e ao intermediário.

O Boletim Oficial n.º 52, de 26 de dezembro, publica um aviso referente à unificação das carreiras regulares de transportes coletivos de passageiros entre Bissau-Safim porto e Bula-João Landim, o concessionário por cinco anos é António Brites Palma.

No Suplemento do Boletim Oficial n.º 52, com data de 29 de dezembro, temos a Portaria n.º 1694 em que, a propósito da necessidade de promover a importação de arroz para o abastecimento público e impedir que o preço de venda desse arroz não ultrapasse o limite da tabela em vigor para o corrente ano, é autorizada a isenção de direitos até quinhentas toneladas de arroz de origem nacional.

Arnaldo Schulz, Governador e Comandante-Chefe da Guiné, numa alocução televisiva em fevereiro em 1968, em breve regressará a Lisboa, fez uma comissão de quatro anos.
Imagem extraída do filme Anos de Guerra – Guiné 1963-1974, realização de José Barahona, https://www.youtube.com/watch?v=mfSwSzRl9bM
Mancebo Felupe com um dos seus penteados característicos: cabelo empastado em azeite de palma e lama, formando uma carapuça, guarnecida de discos metálicos em cruz; no topo, um carro vazio de linha
Dançarino com a máscara Nimba
Rapariga Felupe com a dentadura limada
Armadura do tubarão serra
Mulher Pajadinca

Estas cinco imagens foram retiradas de números da Revista do Centro Cultural da Guiné Portuguesa, 1964

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 18 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27834: Historiografia da presença portuguesa em África (521): A Província da Guiné Portuguesa - Boletim Oficial da Colónia da Guiné Portuguesa, 1964, 1.º semestre (79) (Mário Beja Santos)