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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"



"Os animais mais fortes podem ser vencidos
pela audácia, coragem, inteligência e cooperação dos mais fracos" (Sabedoria da literatura oral africana)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Artur Augusto Silva (2006)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Trata-se uma "fabulosa fábula" (se nos é permitido o pleonasmo) do tempo em que os animais falavam. E é uma homenagem à literatura oral africana. E mais: é uma pequena obra-prima do conto guineense.

Recorde-se que na cultura dos mais diversos povos as fábulas (e demais contos populares) são também uma forma, indireta, de denunciar e criticar os abusos do poder dos mais fortes, incluindo as várias  formas de violência sobre os mais fracos.

Muitas destas narrativas incluindo as fábulas guineenses, encerram também lições segundo as quais os animais mais fortes, como o leão ou o "lobo" (hiena), podem ser vencidos pela "audácia", "coragem", "inteligência" e "cooperação" dos mais fracos.

Este conto foi escrito pelo advogado, defensor de presos políticos em Bissau, no início da década de 1960, Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, Cabo Verde, 1912- Bissau, 1983), pai do nosso querido e saudoso amigo luso-guineense Pepito (Carlos Schwarz da Silva, Bissau, 1949- Lisboa, 2012) e marido da não menos querida e saudosa Clara Schwarz (Lisboa, 1915 - Oeiras, 2016), de origem judaica (pai polaco, e mãe russa, de Odessa) que consta de um livro de contos, escrito em 1966, na Prisão de Caxias, e editado a título póstumo pelos seus três filhos ("O Cativeiro dos Bichos", edição de autor, Bissau, 2006).

Era também uma contundente crítica, implícita, ao sistema colonial, à sua política, à sua justiça e à guerra. Mas quiçá, também, ao princípio da "luta armada de libertação", iniciada pelo PAIGC em 23 de janeiro de 1963. Artur Augusto Silva, tal como a esposa,  era um intelectual, anticolonialista, amigo do Amílcar Cabral. Podia ser um simpatizante do PAIGG, mas não um militante, nem necessariamente um defensor da "guerra justa", um partidário da "violência revolucionária" que degenerou em tragédia para aquela terra e aquele povo que ele tanto amava.

Recorde-se que na época era governador (e comandante-chefe) da Guiné o General Arnaldo Schulz, o mesmo que expulsou o autor da sua tão amada terra de adopção (onde vivia desde 1949), e que o mandou prender, à chegada ao aeroporto de  Lisboa,  em 26/8/1966,  através do longo braço armado da PIDE, "por  exercer atividade contra a segurança do Estado" (sic). (De resto, já era vigiado pela polícia política desde 1938.)  


O autor quando jovem,
em Lisboa...
Arnaldo Schulz  opôr-se-ia, depois,  ao seu regresso à Guiné: em ofício da subdelegação da PIDE de Bissau, de 19/12/1966, é transmitida ao Diretor-Geral da PIDE, em Lisboa,  a opinião do Governador de que "aquele Senhor não deve voltar à Guiné, pelo menos enquanto se mantiver o terrorismo" (sic).

Cidadão empenhado, africano nacionalista, jurista corajoso, jornalista e escritor de talento, cofundador do colégio-liceu de Bissau (em 1949),  membro do Centro de Estudos da Guiné, vogal do Conselho do Governo da Guiné (em 1964, já com o brigadeiro Arnaldo Schulz, como governador), amigo pessoal de Amílcar Cabral,  fez questão de defender presos políticos guineenses, muitos deles seus amigos "ou que passaram a sê-lo, acusados de sedição pela potência colonial"; mais concretamente, "foi defensor em 61 julgamentos, um deles com 23 réus, tendo tido apenas duas condenações".

Esteve preso 4 meses, em Caxia, às ordens da PIDE,  sem culpa formada. Em 23/12/1966, "por intervenção de Marcelo Caetano e de outros responsáveis políticos, que embora discordassem das suas ideias políticas,  o admiravam como homem de carácter, foi libertado". 

Proibido de regressar à Guiné, foi-lhe  fixada residência em Lisboa. (Pena que entretanto he será levantada, por decisão do Conselho de Ministros, em janeiro de 1970.)

Em 1967, Marcelo Caetano, seu professor, convidou-o para ir trabalhar "como advogado na Companhia de Seguros Bonança". 

Também Adriano Moreira o convidou para leccionar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU) (herdeiro da Escola Colonial, criada em 1906), "o que ele recusou, fazendo ver ao portador do convite a incoerência de o terem prendido pelas suas ideias sobre o colonialismo português e depois o convidarem para leccionar matérias relacionadas com Africa".

Em 1977, de visita à nova República da Guiné-Bissau, foi convidado pelo então Presidente Luís Cabral para trabalhar como juiz no Supremo Tribunal de Justiça. Foi professor de Direito Consuetudinário na Escola de Direito de Bissau. Faleceu em Bissau em 1983, com 70 anos. (Para saber mais, clicar aqui...)

2. Sessenta anos depois, é mais do que justo republicar (*), no nosso blogue,  este conto,“O Cativeiro dos Bichos” que não é apenas   uma sábia fábula africana tradicional, é também uma finíssima sátira política, uma deliciosa paródia judicial e uma subtil alegoria do colonialismo... Podemos ainda ver nele, subliminarmente,  uma espécie de autobiografia cifrada do próprio autor.  

Não tendo  sido publicado em vida (segundo julgamos), mas já a título póstumo (em 2006),  este (e outros  contos) tem  a singularidade de ter sido escrito há sessenta anos, na prisão política de Caxias, entre  setembro e dezembro de 1966, por um homem que conhecia muito bem a Guiné, a advocacia, a repressão política e o aparelho colonial.

É essa circunstância histórica, além do mérito literário, que dá a esta  fábula uma dimensão documental e política extraordinária. É um conto que descreve, ao fim e ao cabo, uma dupla prisão: a dos bichos presos pelo “bicho homem” e a do próprio autor que é "desterrado" para a metrópole pelo governador da Guiné, como "personna non grata"... (**)

Julgamos que esta dimensão escapou a muitos leitores, numa primeira leitura, há 20 anos... O poste P775 (publicado ainda no velho "Blogue-Fora-Nada") teve menos de 200 visualizações e nem um único comentário (*).

A IA fez, a nossa pedido, a sua leitura própria deste conto, ilustrando-o com um bela banda desenhada.



Portugal > Alcobaça > São Martinho do Porto > Estrada do Facho > Casa do Cruzeiro > c. 1957 > O pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), com os filhos, da esquerda para a direita, João, Iko (Henrique, já falecido) e Pepito (Carlos) (1949-2012). Cortesia de João Schwarz da Silva, que nos diz que a data deve ser "provavelmente 1957"... Teria então o Pepito (nascido em Bissau, em 1949) os seus oito anos... Esta casa será durante alguns anos, até à morte do Pepito, a sede da saudosa Tabanca de São Martinho do Porto...

Foto (e legenda): © João Schwarz da Silva (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné-Bissau > Bissau > Capa  do livro de contos, de Artur Augusto Silva, "O Cativeiro dos Bichos"  (edição de autor, Bissau, 2006 ). Na realidade, tratou-se de uma edição dos três filhos do autor, Henrique, João e Carlos Schwarz, em homenagem à memória, ao talento e ao exemplo cívico do seu pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), que viveu na Guiné-Bissau, de 1949 a 1966, e depois, de 1976 até à data da sua morte. Trata-se de uma antologia. Um dos contos que estáo livros é justamente este, "O cativeiro dos bichos" (pp, 


Conto "O Cativeiro dos Bichos"

por Artur Augusto Silva 

(Ilha da Brava, Cabo Verde, 
1912- Bissau, 1983)



A história que ides ler foi-me contada na tabanca de Quebo, no sertão da terra dos fulas, por um homem chamado Umarú Só, velho para além de toda a idade e que por ser velho e sábio conhecia os segredos do mundo e as suas maravilhas.

Vou narrá-la por palavras minhas, porque sei que não me perdoariam o uso daquele estilo floreado, exuberante, por vezes difuso mas sempre poético, que os fulas usam para contar uma história.

Houve um tempo em que todos os seres viviam na mais foi perfeita harmonia e a paz reinava por toda a parte. Isto passou-se antes de ter nascido uma garça chamada Macute e que ficará para sempre como o anjo mau que perverteu o mundo.

Foi o caso que numa manhã de sol, quando as manadas de búfalos pastavam nas lalas verdejantes de Bambadinca, uma garça ainda nova e inexperiente, ao esburgar com o bico as carraças de um búfalo, picou-o profundamente, o que o levou a dar um sacão com a cauda, sacão que apanhou a garça e a fez cair !

As coisas teriam ficado por aqui se não fora a garça Macute que, de longe, presenciou o caso e,  porque queria tornar-se raínha das aves, logo engendrou um plano que a conduzisse à satisfação dos seus desejos.

Andou de terra em terra convocando uma grande reunião de todos os bichos que voam,  para tomarem conhecimento da maior afronta que jamais fora praticada sobre um ser vivente.

Chegado o dia da reunião, ali se encontrou toda a bicharada que povoa os ares, desde a águia-real, de peito branco e palavra e bico adunco, até ao colibri que é mais pequeno que a pequena flor.

Vieram os papagaios vestidos de cinzento e peitilho vermelho, vieram todos os patos, desde o marreco ao ferrão, vieram as galinhas, incluindo as perdizes e as galinhas da Guiné,  todas louçãs na sua vestimenta preta de bolas brancas, vieram os mergulhões de longo bico,  plumagem verde, azul, preta e branca, veio toda a casta de pardalada que enxameia os céus, vieram as abetardas no seu voo lento e majestoso e, por fim, chegaram as borboletas no seu voo saltitante e colorido.

Reunidos todos, a garça Macute declarou que era necessário escolher um presidente que dirigisse os trabalhos mas, quando esperava ser investida no cargo, teve a desilusão de ver que optavam pela águia-real.

A águia-real soltou três assobios e declarou aberta a assembleia. Logo a garça Macute levantou uma questão prévia:

– Vejo aqui as nossas boas amigas, as avestruzes, mas afigura-se-me que elas não são aves. Com efeito, desde que que o mundo é mundo, não há notícia de que uma avestruz tenha voado. Elas fazem parte dos bichos que andam e, por isso, não devem tomar parte da nossa reunião.

Todas as garças grasnaram em sinal de assentimento e estabeleceu-se um certo burburinho, prontamente reprimido pelo presidente que declarou ir pôr po caso à votação. 
A coruja, sábia reconhecida por todos, pediu a palavra e disse:

– O problema posto pela nossa companheira, a garça, não é novo e muitas têm sido as opiniões ventiladas sem que se chegue a qualquer conclusão. Se é verdade que a avestruz tem asas, não é menos certo que nunca se serve delas para voar. Em minha opinião, devem ser classificadas entre os bichos que andam e não entre os que voam.

Como, após tão sábio resumo, ninguém quisesse usar da palavra, a águia pôs o caso à votação, e por maioria esmagadora foi decidido que as avestruzes não eram aves, mas sim bichos que andam.

Então a águia convidou a garça a dizer do motivo da reunião, e Macute começou:

– As aves são neste mundo em que vivemos, os animais mais nobres e mais valentes. Nunca uma de nós sofreu qualquer vexame ou insulto sem que imediatamente respondesse. Ora, devo dizer-vos que é com o coração oprimido de indignação e raiva que vos vou contar que há dias, na bolanha de Bambadinca, uma de nós, precisamente uma garça, foi vítima de agressão por parte de um búfalo. Devo acrescentar que o caso não pode ficar assim e por isso proponho que se declare guerra sem quartel a todos os bichos que andam.

Uma vozearia infernal atroou os ares e os abutres eram, de entre todas as aves, quem mais grita fazia, apoiando tão dignos sentimentos.

Um pardalito que estava presente, voltou-se para um jagudi que deu mostras de grande contentamento e ainda disse:

– O que vocês querem é que haja guerra para poderem comer a carne dos que morrem.

Logo o jagudi, gritando traidor, deu-lhe uma sapatada em três tempos o engoliu.

– Calma! Calma! – gritava a águia-real, receosa de não ter mão na assembleia.

Serenados um pouco os espíritos, a águia deu a palavra ao primeiro orador inscrito, o periquito. Este começou por dizer que a afronta fora grave mas, em seu entender, deveria averiguar-se primeiro se as coisas se tinham passado conforme o relato da garça, porque não via razão para que um búfalo magoasse uma garça, sem qualquer razão. Propunha, pois, uma comissão de inquérito.

O papagaio, segundo orador, citou alguns precedentes em que o comportamento dos bichos que andavam, para com os bichos que voam, demonstrava crueldade e propôs que o caso fosse levado ao conhecimento do bicho homem que possui discernimento mais do que suficiente para resolver o conflito.

As corujas apoiaram e depois de muitos oradores terem falado, foi resolvido levar o caso ao bicho homem. Formada a comissão que se avistaria com o bicho homem, dissolveu-se a assembleia, no meio de grande excitação.

O papagaio, como falador de grandes conhecimentos, presidia à comissão de queixa, a qual se dirigiu ao bicho homem para fazer as suas lamúrias.

Ouviu o bicho homem as mágoas da passarada e ali jurou que iria investigar, para que se fizesse inteira e completa justiça. Voltassem daí a sete dias, para ouvir a sua resolução.

A passarada retirou-se em boa ordem e o bicho homem ficou a esfregar as mãos de contente porque em sua cabeça surgira um plano. Mandou o bicho homem chamar o rei dos bichos que andam e que é, contra o que se pensa, o elefante.

Veio este acompanhado de numeroso séquito do qual fazia parte o seu melhor conselheiro, o macaco. 
Exposto o motivo da convocação, logo ali declarou o elefante que as intenções da bicharada que anda,  eram pacíficas e que nunca, até aquele momento, qualquer dos seus súbditos fizera mal a outrem, facto que devia ser do conhecimento do bicho homem que tudo sabe.

– Na verdade, na verdade – retorquiu o homem. – Mas há uma queixa e é necessário saber quem tem razão. Parece-me que seria melhor que os bichos que andam, nomeassem um delegado e os que voam, outro, para trazerem a minha presença, as alegações de cada parte e as provas a produzir...

Todos concordaram e ficou estabelecido que daí a sete dias e se realizaria o julgamento do caso.

Sete dias passados e à hora marcada, reuniu-se a grande assembleia e o bicho homem, dizendo que ambas as partes lhe mereciam o maior respeito e consideração e que, assim, não podia dar a direita a um e a esquerda a outro, propôs que o representantre de cada parte ocupasse a direita durante meia hora e que a primeira posição fosse tirada à sorte.

Constituído o Tribunal, entraram o macaco como advogado, dos bichos que andam e mais vinte e sete testemunhas, logo seguido pelo papagaio, representante dos bichos que voam, com vinte e cinco testemunhas.

Historiou o homem o diferendo em poucas palavras e pediu ao papagaio, como advogado da parte acusadora, que dissesse da sua justiça.

Falou o papagaio com perfeita dicção e clareza, citando vários confrades seus e algumas palavras que ouvira aos homens, o que lhe valeu aplausos até dos bichos que andam.

Empertigou-se o macaco, abriu os braços como já vira em comícios do bicho homem e analisou, um por um, os argumentos do papagaio e a sua queixa. Falou no amor, na justiça, na piedade, em todos os sentimentos nobres e a tal ponto comoveu a bicharada que voa, fez chorar um pardal estouvado e brincalhão como todos os pardais.

Exposta a questão, iniciou o bicho homem a audição das testemunhas e quer as de acusação, quer as de defesa, declararam nada saber do assunto.

Concedida novamente a palavra aos advogados, estes excederam-se em citações: foram épicos, heróicos, patéticos, fizeram chorar a assembleia e, logo a seguir fizeram-na rir desabridamente e foi numa das suas tiradas mais sublimes que o macaco, demonstrando rara intuição científica, classificou o homem de seu primo. O chimpanzé que estava seguindo a peroração nos menores detalhes, comentou em à parte: primo, mas degenerado.

Depois desta afirmação solene do macaco, os jornais e revistas que o bicho homem publica, começaram-na citando obstinadamente, pelo que hoje é ponto assente a existência de tal parentesco.

O bicho homem suspendeu a sessão por uma hora, ao cabo da qual reentrou para ler a sentença. Era uma longa peça de considerandos e que começava por afirmar que "em virtude de se não ter provado a queixa dos bichos que voam, mas convindo fazer justiça, profiro a seguinte sentença: 

– Julgo a acusação improcedente mas, tendo em atenção que a paz é um dever indeclinável de todos os espíritos sãos, e para poder reservá-la, determino que me sejam entregues como reféns e para garantia da paz futura, um animal de cada uma das espécies que voam que e andam.

Eliminava magnanimamente custas, dada e manifesta pobreza das partes.

Todos animais, tanto os que voam como os que andam, aplaudiram delirantemente tão sagaz decisão e só o macaco, fiado no parentesco com o bicho homem, quis recorrer da decisão, alegando que "começara a escravatura".

Ninguém o quis ouvir, a decisão ficou sem recurso (recurso para quem? perguntava o papagaio) e o bicho homem começou encaminhando a bicharada para currais e capoeiras previamente instalados por sua indústria.

A verdade é que com o correr dos anos as palavras do macaco tiveram plena comprovação, pois o bicho homem nunca mais soltou nenhum dos reféns e porque estes se reproduziam e o bicho homem não tinha com que alimentá-los, passou a comer deles cada vez com mais apetite.

Se acontecia alguém perguntar ao homem a razão de tão prolongado cativeiro, respondia: 

– Como querem que eu os liberte se ainda ontem vi um milhafre pilhar um rato e comê-lo em três tempos? É com sacrifício, com muito grande sacrifício,  que dou de comer à bicharada, mas mesmo com sacrifício devo manter a minha palavra honrada e a minha justiça proverbial.

E prosseguindo:

– É certo que ensinei os bois a trabalhar para mim; é certo que como a carne dos bichos e uso das suas penas e da sua pele em utensílios que fabrico, mas não é menos verdade que todos devem conhecer a minha isenção. Estou esperando que os bichos consigam uma promoção social que os habilite a entrar no concerto dos seres civilizados para, então, lhes dar a liberdade que eu desejo mais do que eles.

Se a história é verdadeira, não posso assegurá-lo pois que os factos passaram-se há muitos anos e não conheci o bicho homem que fez tal justiça; mas, porque Umarú Só é pessoa séria, incapaz de inventar, estou em crer que eles se verificaram conforme a narrativa.

(Prisão de Caxias, 1966)

(Revisão / fixação de texto, notas: LG)
___________________________

Notas do editor LG:


(*) Vd. poste de  20 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - P775: Antologia (38): O cativeiro dos 

bichos de Artur Augusto Silva (Luís Graça)


(**) Último poste da série : 26 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27955: Foi há... (10): 80 anos: teias que o império tecia: em 25 de abril de 1946, o N/M Quanza que "deu a volta ao mundo", regressou a Lisboa, trazendo tropas expedicionárias de Timor... e os dois netos, menores, órfãos, do heróico "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), que foram entregues à Casa Pia

sábado, 8 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28248: As nossas geografias emocionais (68): Bambadinca, meu amor ! (Torcato Mendonça, 1944 - 2021)


1. O Torcato Mondonça  (1944- 2021) vivia debaixo de terra, num "bunker", em Mansambo, um quartel construido de raiz, a pá e pica, pelos valentes "Viriatos", da CART 2339 (Mansambo, 1968/69).

Ir "desopilar" a Bambadinca, a 30 km de distância, a norte, sede do batalhão, BCAÇ 2852 (1968/70), era uma dos poucos luxos que se podiam permitir os graduados da CART 2339. Só se viajava em coluna. E podia haver maus encontros pelo caminho.

Em Mansambo não havia população, a não ser meia dúzia de civis, guias das NT, e suas famílias. Não havia bajudas, para distrair a vista. Nem casas comerciais p'ra gastar o patacão da guerra . Não havia rio, para a gente se lembrar do rio da nossa aldeia. Não havia a tasca do Zé Maria. Não havia a delegação do Bataclã de Bafatá. Toda a gente vivia como as toupeiras: debaixo de terra.

 Mansambo era um "campo fortificado" dos tugas, dizia a Maria Turra. Havia uma fonte manhosa e perigosa, fora  do perímetro do arame farpado. Para se ir á água e á lenha era conveniente levar a G3... Havia 3 obuzes 10,5, marca Krupp, do tempo da II Guerra Mundial. 

Em Mansambo um gajo ficava mais "cacimbado" do que em Bambadinca ou Bafatá. Aqui sempre havia um "cheirinho de civilização". E até se podia fingir que hoje era domingo, e brincar aos dias santos em que "fechava" a guerrra e a malta vestia um par de jeans  e um camisola Lacoste de contrafacção, e até calçava o sapatinho de pala para se ir comer um bife com batatas fritas e ovo a cavalo por 20 pesos, na Transmontana (!), em Bafatá. 

É interessante reler este excerto, da autoria do saudoso Torcato Mendonça, e ver como Bambadinca. é descrito, ou recordado: a crer no cronista de Mansambo, havia lá tudo, como se fossse uma cidadezinha do "faroeste" das Américas. Havia correio todos os dias, bebidas frescas, e até a "casa da Mariquinhas"... onde um tuga podia sonhar que dormia com a sua amada em lençóis de linho. Mm pósz 

O Humberto Reis chamava ao nosso quarto em Bambadinca o quarto das putas e com muita propriedade: não por que a gente as levasse para lá, mas sim por que levámos vida de putas: trabalhávamos de noite e dormíamos de dia... 

O melhor de Bambadinca, a 30 metros acima do mar ? Eram as vistas... 

Via-se quilómetros em redor, o que na Guiné, chata, plana, encharcada, opressiva,  era um luxo...Via-se e ouvia-se: quando Mansambo era atacado, à noite, sem a gente lhe poder valer...

Cidade, dizes tu, saudoso camarada ?! Ilusão de ótica, a tua... Algumas centenas de militares (tugas e guineenses), em Bambadinca, com 20 ou pouco mais anos, patacão no bolso, muita testosterona e ganas de viver ( e nenhuma de morrer), tinham necessariamente que animar a economia local e regional...

Ainda hoje te dizem, com alguma nostalgia e sinceridade, sem acinte, sem rancor, quando por lá passas, armado em turista, máquina de filmar ou fotografar a tiracolo: "Tuga, pai di nós"...

Coitado do Amílcar, daria voltas no panteão nacional da Amura se ouvisse tal heresia. 

Retenho algumas frases tuas, Torcato, foi bom rever a tua prosa,  castiça, tu que eras meio alentejano e meio algarvia, e que foste viver para o Fundão, por amor.

(...) " a cidade mais desejada"
(...) "Só a agora soube da existência da mestre-escola,  professora D. Violete"
(...) "Nessa morança pernotei algumas noites"
(...) "Dormia-se bem, mais fresco, mais... melhor"
(...) "a minha pouca roupa civil estava guardada (...) numa arrecadação que a companhia tinha no batalhão (...)
(...) "bem guardada por um soldado básico e esperto como um rato" ;
(...) "porquê Bambadinca, meu amor? Pois, porque, além de se fazer o dito, era local de boa cama e boa mesa, bar de bebida fresca".





Guiné > Região de Baftá > Setor L1 > Bambadinca > 1970 > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) Vista aérea do aquartelamento e posto administrativo de Bambadinca (que pertencia ao município de Bafatá) > Vista aérea, obtida de helicóptero: em primeiro plano o edifício do comando e as instalações de oficiais e sargentos. 

Bambadinca (em mandinga, "cova do lagarto") ficava numa pequena elevação ou morro, sobranceiro à extensa bolanha (a leste, à direita da imagem) e ao rio Geba (a norte), e de que vê uma nesga, ao fundo do lado esquerdo. 

Nesta altura, por volta do 1º trimestre de 1970, Bambadinca albergava mais de 400 militares (incluindo a CCS/BCAÇ 2852, prestes a terminar a sua comissão, mais um companhia de intervenção, a CCAÇ 12, 1 pelotão de morteiros, 1 pel rec daimler, 1 pel caç nat, mais 1 pelotão de intendência (embora este tivesse instalações próprias, junto ao porto fluvial de Bambadinca, na margem esquerda do Rio Geba Estreito).  

Bambadinca tinha 2 tabancas (Bambadinca e Bambadincazinho), com um total de 2 mil habitantes, sem contar com as tabancas, ribeirinhas, em redor. Um militar para cada 5 civis.

Nos arredores, estava em curso o grande reordenamemto de Nhabijões (c. 300 casas/moranças e equipamentos sociais: escola, posto sanitário,  mercado, baloba, mesquista, lavouro, fontenário...

Bambadinca tinha 7 casas comerciais e um porto fluvial (onde chegavam os " barcos turras"), destacamento da intendência, escola, posto administrativo, igreja, missa,  estação dos CTT, posto sanitário...  A nordeste, a 30 km, por estradas alcatroada, ficava Bafatá (sede de concelho), que será pouco depois elevada a cidade.

O Humberto Reis tem as melhores fotos aéres  da zona leste, região de Bafatá (incluindo Bambadinca, e os seus subsectores: Xime, Mamsambo, Xitole)  





 
Guiné > Zona leste > Setor L1 (Bambadinca) > Mansambo>  1970 > Foto aérea de Mansambo a que o PAIGC "campo fortificado de Mansambo"... O aquartelamento foi construído de raiz pelos bravos da CART 2339 (1968/69), "Os Viriatos", ao tempo do BCAÇ 2852 (1968/70)... Deixaram apenas de pé, uma árvore, um poilão, para servir de mira aos artilheiros do PAIGC.

Sobre Mansambo temos de 370 centenas de referências... e 2 centenas das quais sobre a CART 2339. Sobtre Bambadinca, temoso dobro (c. 740)

Fotos do arquivo do nosso "cartógrafo-mor", o Humberto Reis (ex-fur mil  op esp,  CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71)

Fotos: ©  Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legemdagem: Blogue Luís Graça & camaradas da Guine]


Bambadinca, Meu Amor

por Torcato Mendonça (1944-2021)


(...)   Sem dúvida era para mim a cidade mais desejada. Curiosamente, hoje olho para uma foto aérea e, se não tem legenda, de pouco me lembro. O pequeno aeródromo ali, as messes, bares e quartos de oficiais e sargentos acolá, mais um ou outro edifício e pronto.

A igreja... fui lá uma vez assistir à colocação do Bessa no caixão. Escola, o posto administrativo, a tasca de A ou B, não sei. Memórias perdidas. Só agora soube da existência do mestre-escola, Professora D. Violete.

Recordo a tabanca e uma morança, à direita de quem desce a rampa da estrada na direcção do porto, Missirá, Fá ou Bafatá – essa,  a grande cidade.

Nessa morança pernoitei algumas noites. Certamente por lotação esgotada nas instalações dos oficiais. Dormia-se bem, mais fresco, mais... melhor.

Mas é bonito ver hoje fotos de militares à civil. Calças, camisas brancas e, pasme-se, sapatos reluzentes. 

Deus meu e por todas as virgens, não me recordava! 

Creio que a minha pouca roupa civil devia estar na arrecadação que a Companhia [a CART 2339,Mansambo, 1968/69] tinha no Batalhão, em Bambadinca [o BCAÇ 2852, 1968/70].  Estava bem guardada por um soldado básico e esperto como um rato. Bela especialidade: básico !

Para que queria eu roupa civil em Mansambo e por outros lados onde me aquartelava? 

Claro que tinha botas, vários tipos e formatos, umas quantas t-hirts brancas (brancas?), chinelos de plástico e panos de fulas e outras peças de vestuário para alguma falta. O resto era verde ou camuflado. Bem bom.

Mas porquê Bambadinca, eu, amor? Pois, porque, além de se fazer o dito, era local de boa cama e boa mesa, bar de bebida fresca. 

Por vezes o líquido era tão fresco, deslizava tão docemente goela abaixo, que, no regresso a Mansambo, os olhos viravam detectores de minas e ala que é sempre em frente. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos: LG)

________________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 10 de dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3592: Do Fundão, com insónias: Bambadinca, meu amor... (Torcato Mendonça)

(**) Último poste da série > 24 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28130: As nossas geografias emocionais (67): o monumental depósito de água de Bolama (conhecido localmente como "castelo")

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28240: Nomadizações de um marginal secante (Luís Graça) (14): as alucinações do soldado básico de Bambadinca que, em pânico, jurou ter visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado











O "básico de Bambadinca" que  viu elefantes junto ao  arame farpado

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Esta é uma das histórias pícaras que trago da Guiné, e mais exatamente de Bambadinca, onde comecei por estar adido ao BCAÇ 2852...O quartel sofreu um ataque em força na noite de 28  de maio 
de 1969, âs 00h25, que ficou na memória dos seus militares (e em especial da CCS - Companhia de Comando e Serviços). 

 Eu e os meus camaradas da CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, ainda não estávamos lá, estávamos a bordo do T/T Niassa, já no estuário do rio Geba,  à espera de desembarcar no dia seguinte, em Bissau. 

Mas dias depois, em 2 de junho, passaríamos por lá, a caminho do CIM de Contuboel... Ainda "cheirava a pólvora". E o pessoal andava com os "nervos à flor da pele"... 

Em meados de junho tinha havido um falso alarme: em resposta a um alegado novo ataque dos "turras", gastaram-se milhares de munições...

Nenhum de nós, antigos combatentes da Guiné, alguma vez pôs a vista em cima de um elefante, solitário ou em manada, durante a guerra... 

Nem sequer a malta que esteve em Gandembel e Ponte Balana, entre abril de 1968 e janeiro de 1969. A malta da CCAÇ 2317 (Gandembel, Ponte Balana, Buba e Nova Lamego, 1968/69), os "Gandembéis", de que fizeram parte o Idálio Reis, o Joaquim Gomes Soares, o João Barge, o Júlio Madaleno ... 

Eles  bem como outros camaradas de outras subunidades (o Hugo Guerra, o Alberto Branquinho,  o José Ferreira da Silva, o José Teixeira,  o Mário Gaspar, etc.) que, direta ou indiretamente,  foram bravos atores e/ou testemunhas desta   "odisseia", a vida e morte de Gandembel e  Ponte Balana (sem esquecer os páras do BCP 12). 

Mas,  nessa altura,  se ainda havia elefantes na Guiné, que iam e vinham banhar-se no rio Balana, devem ter sido "desalojados" e corridos para a Guiné-Conacri pelas tropas do 'Nino' Vieira  e pelas NT,  que travaram combates violentos no decorrer da  Op Bola de Fogo (8 a 14 de abril de 1968) e depois,  ao longo da ocupação, construção, defesa e abandono do aquartelamento de Gandembel e do destacamento de Ponte Balana, que se saldou por 372 ataques e flagelações do IN, em menos de nove meses (**).

 O elefante, tal como nós, não gosta de tiros. E tem, como nós,  um medo que se pela  das minas e armadilhas... Fugiu da Guiné, fugiu de Angola, fugiu de Moçambique...

Na história não-oficial da guerra da Guiné (1961/74), o único tuga que garantidamente  viu elefantes com "os dois olhos que a terra há de comer" foi...o "básico de Bambadinca", em junho de 1969.

É uma história que não é para rir. Não a ponho na série "Humor de caserna". A mim, inspira-me pena e compaixão. E é nesse sentido que orientei, editorialmente, a BD que encomendei ao meu artista gráfico de serviço.

O "básico de Bambadinca" não pode ser alvo de piada, chacota  ou risota na caserna; já não bastava ele ser gozado por toda a gente, até pelos "djubis", faxinas da cozinha  que o ajudavam nas tarefas mais sujas em troca dos restos do rancho. Não, não é o "bobo" da caserna, é apenas a personagem de uma pequena tragédia. 

Eu próprio comecei por sorrir, na altura,  em junho de 1969, perante a ideia absurda de uma manada de elefantes junto ao arame farpado do quartel de Bambadinca... 

Hoje acabo por reconhecer que aquele meu pobre camarada (cujo nome nunca fixei) estava simplesmente aterrorizado, com os nervos feitos num oito. É aí que reside a força da história (que, de resto, já aqui tinha contado).

O seu nome não fica para a história, mas, tanto quanto me lembro, pertencia à da CCS/BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70), e para mais numa altura em que ainda havia o receio do "turra" voltar a atacar o aquartelamento...

Dele  se contava que,  um dia, quando estava de sentinela, acordou às tantas da noite todo o quartel e as tabancas à volta (Bambadincazinho e Bambadinca), aos tiros de G3 em posição de rajada...

Perante o estremunhado oficial de dia (ou  sargento de dia, a quem competia fazer a ronda pelos postos de sentinela do vasto perímetro do quartel),   jurou, em pânico, que tinha visto uma manada de elefantes junto ao arame farpado...

Feito o reconhecimento do local, pela manhã, ninguém encontrou (nem podia encontrar) vestígios da manada de elefantes ao serviço dos "turras"...

Como explicar estas "alucinações"  do pobre do soldado "básico de Bambadinca" ?


2. Sabemos que, em contexto de guerra, mum quartel do mato, às tantas da noite, em África, é possível ter "alucinações" destas.. 

Para mais, tratando-se de um "soldado básico" que , por definição, não era operacional, suponho até quer era um simples ajudante de cozinha... Mas que tinha apanhado um cagaço do caraças aquando do ataque de 28 de maio de 1969...

É um  tema fascinante e complexo, que não tem sido abordado no blogue:  em 
contextos extremos, ou situações-limite, em ambientes de alta tensão, como a guerra, o isolamento, o cansaço, a insolação, a desidratação ou  até a subnutrição, prolongadas, enfim, em situações de  exaustão física e mental, ou de privação sensorial (como a escuridão total do mato à noite),   etc.,  o cérebro humano pode gerar alucinações hipnagógicas (na transição para o sono) ou hipnopômpicas (ao acordar), ou até alucinações sensoriais completas.

Estes fenómenos não teriam sido incomuns no nosso tempo, no CTIG. Estão documentados (e estudados) noutros teatros de operações, sendo comuns, por exemplo, em  soldados envolvidos em missões prolongadas:
 combatentes em guerras (como a do Vietname ou os conflitos modernos no Médio Oriente) relatam casos de alucinações visuais e auditivas, especialmente em ambientes de isolamento, combates prolongados, falta de sono, grande sofrimento físico e psíquico, promiscuidade, desconforto e vulnerabilidade  dos  "bunkers", etc.

Outra situação comum é a privação sensorial: no mato, à noite, a ausência de estímulos visuais claros pode levar o cérebro a "preencher lacunas" com imagens ou sons imaginários: o som do vento, a trovoada, os relâmpagos, a chuva, o piar de "aves agoirentas", os ruídos provocados por animais noturnos, ou a simples fadiga... podem distorcer a perceção da realidade.

O stress agudo e  o pânico fizeram o resto: o "básico de Bambadinca" (possivelmente castigado com umas noites nos postes de sentinela) estava em estado de hipervigilância. Nessa situação,   qualquer estímulo ambíguo (um ruído, uma sombra) pode ser amplificado pelo cérebro como uma ameaça real; a G3 em rajada sugere uma reação de pânico instintivo, onde a mente, já em alerta máximo, "vê" o que teme (neste caso, elefantes, que na Guiné-Bissau eram nativos e simbolizavam um perigo real, ainda que totalmente improvável naquele contexto, na zona leste, em Bambadinca).

No ambiente estranho e hostil da Guiné, eram frequentes relatos de soldados (nomeadamente metropolitanos) que confundiam sons de animais com movimentos inimigos, ou que viam figuras humanas em sombras. 

Sabe-se que o cérebro "em modo de sobrevivência" dá prioridade, atenção máxima, à deteção de ameaças, mesmo que isso implique... "falsos positivos", falsos alarmes ..

Eu próprio experimentei (eu e todos os demais camaradas que me acompanharam),  durante a Op Tigre Vadio (3 dias, 30/3-1/4/1970, na península de Madina /Belel, regulado do Cuor, no regresso ao Enxalé), uma situação de desidratação extrema, e com ela o conhecido fenómeno (ótico) da "miragem do deserto"  que rapidamente se transformou em alucinação psicológica real...

E porquê o pobre do "básico", pergunta o leitor  ?

O facto de ser um ajudante de cozinha (e não um operacional, e que, para mais, a cumprir um "castigo"
) é revelador: tinha menor preparação (física e psicológica) para lidar com a tensão de uma sentinela, na noite de África; estava menos familiarizado com a G3; não saía para o mato, não estava integrado em nenhum grupo de combate, etc. 

 Recorde- que o soldado básico era o que só tinha feito a recruta , não tirara qualquer especialidade   por falta de aptidões, físicas ou intelectuais ( ou por qualquer outra razão : saúde,  disciplina, etc. ). 

Não servindo para "atirador", era colocado nos "serviços de apoio" de uma subunidade (alimentação, material, etc.)
 
Nestas circunstâncias, o seu cérebro poderia estar mais suscetível a distorções, por falta de interação ou validação da realidade com outros.
 
Recorde-se que, mesmo numa CCS (Companhia de Comandos e Serviços), em quartéis do mato, como Bambadinca, sede de batalhão, os não-operacionais (escriturários, mecânicos, etc.)  estavam escaladas para, regularmente, fazer o serviço de guarda (e os graduados, as respetivas rondas). E havia sempre escassez de efetivos, daí também o recurso aos "básicos".

Elefantes em Bambadinca ? A Guiné-Bissau tinha (e ainda tem) elefantes, embora em números muito  reduzidos , e apenas num corredor transfronteiriço,  na região de Tombali, que hoje faz parte do Complexo Dulombi-Boé-Tchetche. (**)

 Durante a guerra, avistamentos esporádicos destes paquidermes não eram, teoricamente, de todo impossíveis, mas uma manada junto ao arame farpado de um quartel como Bambadinca, na zona leste, seria de todo improvável. 

Esta evidência vem  reforçar a hipótese de alucinação.

A experiência extrassensorial do nosso "básico" também terá a ver com a "expectativa cultural":  tal como muitos outros militares metropolitanos, ele ouviu, desde a escola, contar histórias sobre elefantes, lesões e  outros animais emblemáticos de África. Todavia, e a menos que já tivesse visitado o Jardim Zoológico de Lisboa, nunca tinha vista ao vivo e a cores um elefante, um leão, um leopardo, um jagudi. Nem sequer um macaco!

A G3 em rajada é outro detalhe crucial. É uma resposta automática,  resultante do  treino militar. E a reação a uma ameaça percebida é imediata. Se o "básico" acreditou que via elefantes (ou "turras"), o instinto de disparar para alertar o quartel seria natural.

Por outro lado, sabemos que o pânico é contagioso em grupo ou multidão: o som dos tiros, às tantas da noite, acordava o pessoal todo.

  Já não me recordo dos pormenores da história, mas tudo indica que,  nessa noite, houve quem puxasse da G3 e desatasse aos tiros para o arame farpado...  

Esta história terá acontecido em junho de 1969, em que  ainda se vivia sob o medo  de um novo ataque ao quartel.  Bambadinca nunca seria atacada ou flagelada no meu tempo (julho de 1969 / março de 1971). Mas os ataques e flagelações aos aquartelamentos e destacamentos no sector L1,  num raio de 30 ou mais quilómetros,  eram audíveis (e até visíveis ) à noite.

Também não é preciso recordar que estávamos num conflito armado, onde a tensão se fazia sentir.   
O cansaço, a monotonia e a sensação de isolamento (a Guiné ficava a 4 mil  km de Lisboa) criavam um terreno fértil para a síndrome do combatente, e inclusive para o que hoje chamaríamos de PTSD - Perturbação de Stress Pós-Traumático ( em português ), podendo-se manifestar sob a forma de ansiedade, insónias e alucinações. "Estar apanhado do clima" era a expressão de caserna equivalente...

Na Guiné, havia pouca mobilidade: o nosso soldado "básico" permaneceu quase dois anos no mesmo sítio. Enfim , este é um caso clássico de alucinação induzida pelo stress.

 De qualquer modo, justiça se lhe faça: o "básico de Bambadinca" não mentiu nem inventou,  o seu cérebro, em condições extremas, criou uma perceção falsa, mas para ele, naquele momento, era 100% real.  

Em conclusão, em estado de fadiga e de hipervigilância, o cérebro pode "projetar" os nossos  medos.  O barulho de galhos partidos ou o vento a mover a vegetação, os cães vadios ou até uma simples hiena à cata de comida podiam ser interpretados como o deslocar de animais de grande porte como uma manada de elefantes. (***)
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Notas do editor LG:

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28179: Humor de caserna (279): Uff, primeiro que minha voz chegasse, dos CTT de Bambadinca, na Spinolândia, à Lourinhã, a 4 mil km de distância!...(Luís Graça)

















Prompting e orientação editorial: Luís Graça
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 13 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].



1. A maior parte de nós (talvez 4 em cada 5) nunca telefonou para casa, quando esteve ao serviço da Pátria na Guiné... Telefonar era um luxo. A maior parte da malta, sobretudo os da "província",  ainda não tinha telefónico fixo em casa... E depois era um exercício "penoso e moroso", além de caro, tentar ligar do mato para Portugal... Para um SOS, mais valia um telegrama ou até uma aerograma: era muito mais barato!" (*).

Em nunca sequer tentei ligar em 22 meses de "desterro". Mas estou a tentar reconstituir o meu "circuito de voz", se por acaso tivesse querido telefonar dos CTT de Bambadinca para os meus pais na Lourinhã... 

Com a ajuda da IA, e depois de muitas "calinadas" de parte a parte, lá chegámos a esta BD  que resulta de várias versões, colagens e emendas... A IA nunca contou com a sabotagem dos postos telegráficos por parte do partido do senhor engenheiro Amílcar Cabral, que era agrónomo mas devia perceber alguma coisa de telegrafia e telefonia com fios (de cobre), proque os mandou cortar... Eu, pela minha parte, que não sou engenheiro nem muito menos percebo de transmissões, estava piamente convencido de que em 1969 havia cabos submarinos  a ligar a Guiné à nossa terra (à beira-mar plantada). Fiz confusão, o meu pai é que foi para o Mindelo, Cabo Verde, em 1941, para guardar os cabos submarinos...(**)

Em 1969, não havia nenhum cabo submarino ligado à Guiné, nem telegráfico, nem muito menos coaxial.

O cabo submarino que existia em Bolama,  lançado em 1893 pela companhia britânica West African Telegraph Company,já tinha sido abandonado e desativado décadas antes (o tráfego comercial de cabos telegráficos para aquela zona da costa africana foi sendo progressivamente desligado à medida que as estações de rádio entraram em cena na primeira metade do século XX). E cabos coaxiais submarinos na Guiné?|... Nunca existiram até ao fim da guerra.

O circuito histórico exato de 1969 era o seguinte: as comunicações de Bambadinca para a Lourinhã dependiam a 100% da via aérea (rádio) na sua primeira e mais longa etapa.

O verdadeiro percurso daquela chamada era este:

~
A antena de rádio mais alta de Bambadinca, c. 1969/70.
Vista aérea
Foto: Humbert Reis / Arquivo do Blogue Luís Graça
& Camaradas da Guiné
i)  O salto local (Bambadinca ➔ Bissau)


Como os postes telegráficos da rede civil terrestre tinham sido cortados e sabotados pelo PAIGC logo no início do conflito, o posto dos CTT de Bambadinca dependia de um posto emissor de rádio HF (instalado no quartel, dentro do perímetro de arame farpado, pior razóes de segurança)

A minha voz saía de Bambadinca pelo éter e era captada em Bissau pela estação central dos CTT.



(ii) O grande salto transatlântico (Bissau ➔ Lisboa via Rádio Marconi)

Aqui entra  a  tecnologia da época. A central de Bissau não injetava nada num cabo submarino. O sinal era retransmitido por potentes emissores de onda curta (HF) da Companhia Portuguesa Rádio Marconi (CPRM) instalados na Guiné.

A minha voz viajava por propagação ionosférica;  as ondas de rádio subiam, batiam na ionosfera (a camada alta da atmosfera), faziam ricochete e voltavam a descer, cruzando os 4 mil quilómetros de distância em frações de segundo até serem captadas pelas gigantescas antenas de receção da Marconi em Portugal (como a mítica Estação de Receção de Alfragide ou de Vendas Novas).

(iii) A rede terrestre (Lisboa ➔ Lourinhã)

Só quando o sinal de rádio vindo de Bissau aterrava nas antenas da Marconi em Portugal Continental é que ele era transformado em sinal elétrico de linha telefónica:

A Marconi passava a chamada para a rede dos CTT em Lisboa.

A partir de Lisboa, a chamada seguia pelos cabos aéreos de cobre ou feixes hertzianos terrestres nacionais, subindo pela Estremadura até chegar à central manual dos CTT da Lourinhã, onde a telefonista finalmente completava a ligação para o destinatário.

2. Porque é que era tão difícil e instável a ligação Guiné-Portugal ?   Uma verdadeira "lotaria"!

Não havia a estabilidade de um cabo submarino debaixo de água. Dependia-se inteiramente do estado do tempo e da atividade solar. Se a ionosfera estivesse instável, a chamada "caía", o ruído estático tapava a voz e os operadores tinham de ficar horas à espera que a frequência "abrisse".

Havia pouquíssimos canais de rádio disponíveis na Marconi para o tráfego civil/militar simultâneo, o que gerava as célebres listas de espera de dias nos postos dos CTT do mato.

Afinal, o único fio que nos unia, a nós militares,  à metrópole era, ironicamente, invisível e passava pelas ondas de rádio (e não por nenhum cabo submarino, como alguns de nós pensávamos).

(Pesquisa: LG + Fundação Portuguesa das Comunicações + IA (Gemini / Google)
Condensaçáo, revisã / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG.:

(*) Último poste da série > 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28155: Humor de caserna (278): Na Spinolândia, namorar não era proibido... o preço da chamada telefónica para a metrópole é que era proibitivo!... Que o diga o Humberto Reis, o nosso "cartógrafo" e "ranger" (que está agora no "estaleiro", e a quem desejamos rápida recuperação)

(**) Em 1941,  diz a IA/Google, os cabos submarinos amarrados na zona do Mindelo (ilha de São Vicente, Cabo Verde) pertenciam a duas empresas principais: a Western Telegraph Company (de capital britânico) e a Italcable (de capital italiano). 

A ilha assumiu grande importância geoestratégica durante a Segunda Guerra Mundial devido à sua infraestrutura de comunicações: (i) Cabos Britânicos: eram os mais antigos e numerosos, sendo perados pela Western Telegraph Company: aziam as conexões cruciais do Império Britânico ligando Portugal continental (Carcavelos), Madeira, Brasil, e a costa ocidental de África;  (ii) Cabos Italianos: operados pela Italcable, cabos ligavam a Itália à América do Sul, passando por Cabo Verde (com amarração na praia da Matiota).