Bambadinca/Imbecilburgo, 29 de janeiro de 1971: Alá não passou por aqui,
por Luís Graça
Vinte e quatro anos:
ocorreu-te, de repente, que hoje fazias anos,
e que por mera curiosidade
era o teu segundo aniversário nestas terras da Guiné,
e, por sinal, o teu terceiro na tropa,
coincidindo com o terceiro da era do marcelismo,
a tão deseja "primavera política" de Lisboa,
uma treta que durou a vida de uma borboleta.
Vinte e quatro anos, vividos mal,
vinte e um meses de tropa-macaca,
entre o Geba e o Corubal,
vida de cão rafeiro, pisa-capim, vira-minas,
de macaco-cão, saltando do chão e do baga-baga
para a copa da árvore dos teus desenganos.
Tempo de miserabilismo,
tempo do salve-se quem puder,
tempo de calculismo e de cinismo.
"Desenfiado", é a secreta palavra de ordem,
que circula pelos três corpos da Nação,
nobreza, clero e povo em armas.
É uma farsa grotesca
esta guerra que ninguém quer ganhar,
a não ser o tempo que corre contra ti.
Aqui vive-se sem calendário,
com pouca ética e dignidade,
não se apurando perdas e danos,
não se distinguindo dias da semana,
os sábados, os feriados, os dias do Senhor,
as chuvas e o calor,
as formigas e as abelhas,
os bons, os maus e os safados,
a fome e a sede.
Se há resistência, ela é invisível e muda,
e o tempo que conta
é o que falta para a peluda.
És um cão, um cão danado, apanhado na rede.
O tempo é pura aritmética,
soma de momentos,
de dias riscados na parede, suja, mimética,
da tua caserna.
Se um ano aqui é uma eternidade,
dois é o inferno.
O teu corpo fede,
tresanda a tarrafe, a suor
cheira a morte, cheira a merda,
a luto, a perda,
a da tua juventude, a dos teus ideais.
És um pobre fantasma de Quinhentos,
que perdeu o norte
e os demais pontos cardeais,
a idade,
a inocência,
a quietude,
a autoestima,
a praça-forte,
o astrolábio,
as Índias,
a caravela,
a rota,
a proa,
a pose,
a árvore genealógica,
as coordenadas de Lisboa,
mais um incunábulo dos Lusíadas,
a Peregrinação, do Fernão Mentes Minto,
a história trágico-marítima dos teus antepassados Maçaricos,
o ritmo,
a rima,
o ADN,
o pedigree,
os esgares de morte do Nuno Tristão
a cruz,
o cruzeiro,
o estandarte,
a espada,
a valentia do "capitão-diabo", o Teixeira Pinto,
e até o jeito de matar do Afonso de Albuquerque,
para além da arte e da ciência de marear,
no macaréu do Geba,
às portas das bolanhas do Corubal.
Mais prosaicamente, na Guiné
o dia dos teus anos é uma rodada
de uísque ou de cerveja
pr’os teus camaradas no bar de sargentos.
No fundo, o teu dia é um pretexto
para a autocomiseração,
ou para um voo até às galáxias da metafísica,
que é sempre melhor, chiça!,
que ouvir o silvo de uma granada, em teu redor,
que é coisa bem mais real e mortífera,
é a quilha do barco da morte.
Com sorte,
talvez o amável Zé da Ila,
de nós todos o menos reguila,
pegue na viola (1) e te cante a Pedra Filosofal (2)…
Talvez a malta toda junta,
às tantas da noite, africana, pestífera, mortal,
te cante, e suficientemente alto,
com vozes guturais e desafinadas,
para que Eles, os gajos, te oiçam, mesmo ali ao lado,
no bar dos oficiais…
Eles não sabem nem sonham
que o sonho comanda a vida
e sempre que um homem sonha,
a vida pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança…
Seguramente
um dia como os outros, sem mais nada,
seguramente mais um dia de solidão,
com ou sem o poema do Gedeão
e a música do Manuel Freire,
a tua canção favorita,
a tua balada querida
e que tu sabes que irrita os teus Cães Grandes…
Ninguém te vai dar os parabéns,
só por fazeres anos:
ainda não ganhaste nada,
nem sequer o direito a outra vida.
De resto, estás sempre só,
mesmo quando segues,
em bicha de pirilau,
coberto de suor e pó,
com o teu pelotão,
às ordens de Bissau,
para montar segurança à Tecnil
que está a construir
a nova estrada de Bambadinca-Xime (3).
Enfim, mais um dia da tua condição, triste e vil,
de uma guerra a que sempre chamaste crime,
porque não era a tua, se fosse preciso entrar numa
para defender a tua liberdade e a dos teus,
mas da qual és actor, cúmplice,
quiçá testemunha sublime,
guerra que tem dor e tem horror,
mas de que os teus camaradas não falam por pudor.
Je m’en passe, je m’en fous,
escrevias tu no teu diário de um tuga,
Como quem diz:
aqui não há lugar para a fuga,
nem sequer te podes dar ao luxo
de um mísero voo raso
sobre a cerca de arame farpado
ou sobre o ninho de metralhadoras
que varre a pista de aviação,
como um vulgar jagudi
que é uma pássaro feio mas é livre,
e tão ou mais importante do que tu
no seio da criação.
sob uma mina anticarro,
à saída do reordenamento de Nhabijões (4),
mas estás vivo, ó tuga,
graças talvez à mezinha que te deu
um mauro, um marabu, em Sinchã Mamadjai (5)...
E há dois meses livraste de ser cortado ao meio
meu grande safado,
poderias desejar hoje do que estar vivo,
aos vinte e um meses de Guiné ?
És um sortudo, ó português,
Sim, a sorte de acordar, de manhãezinha,
com o dedo grande do pé a mexer,
responde o Marquês, sem acento circunflexo,
que nesse dia treze de janeiro de setenta e um
teve o azar, coitado,
sentado na parte traseira, da GMC,
de ir parar, em mau estado,
em estado de coma,
ao Hospital Militar Duzentos e Quarenta e Um.
Dois anos lá.
Pobre tuga, pobre nharro, pobre turra:
na Guiné, longe do Vietname,
em plena guerra fria,
com russos e americanos a redesenhar
o mapa-múndi e o novo tratado de Tordesilhas,
há muito ano que vos chupam o tutano!
Aqui faz-se poesia, de barriga vazia,
o corpo exangue,
só com o cavername,
a pele e o osso,
a morte na alma.
Resta-te a consolação da escrita e da leitura,
além do teu uísque com água de Perrier.
Eis o poema, que escreveste,
com ternura de raiva e raiva de ternura,
O Tempo que Faz em Imbecilburgo
é um soldado, fardado, de camuflado,
verde oliva, desbotado,
um número mecanográfico,
uma peça da engrenagem,
que na sua essência cumpre ordens,
às vezes com coragem,
outras com lúcido medo,
é isso que lhe dói, neste cenário.
que não é cinematográfico,
mas também pouco conforme
com o Regulamento de Disciplinar Militar:
não é um mercenário,
nem um caso psiquiátrico,
não é o homem-aranha
nem o super-homem,
não é nenhum deus do Olimpo,
nem nenhum herói da resistência,
nem muito menos do 10 de junho:
saiu, de noite, (mal) armado,
com os pés descalços dos seus 'nharros',
para a impossível Missão do Sono,
em Bambadincazinha,
guardar as costas dos senhores de Bambadinca,
fazendo contas à sua vidinha
que também anda pela rua da amargura.
Ah! como o tempo (não) passa
enquanto um gajo ajusta contas
com o tempo que já passou,
vinte e quatro, contados em anos
do calendário gregoriano,
no ano da graça de mil novecentos setenta e um.
Mas é o presente que importa
ou que importava
porque já não é mais presente mas passado
o tempo transcorrido,
por estas terras e águas do Geba,
como reles miliciano.
Insistes no presente do indicativo
porque é o presente minuto
que import-export
para a gente ainda ter tempo
de ganhar um lugar (cativo)
no futuro próximo (se o houver).
no teu 'Herr' Spínola,
nos teus 'nharros',
ou, do outro lado, no Cabral, o sedutor,
que até chegou a ser teu herói, revolucionário,
romântico ma non troppo,
ou no 'Nino', teu turra de estimação,
vestido à cobói e armado de RPG
no delirante imaginário dos tugas.
Podias mesmo acreditar na transmigração
das almas mortas em combate,
para o Panteão Nacional,
se não fora essa ideia (fixa)
do passado, glorioso, perdido,
sabendo-se que o dinheiro
e as armas compram tudo
exceto o direito à eternidade,
e muito menos à liberdade.
Se te portares bem, meu sacana,
na reta final da tua comissão,
enquanto esperas a tua rendição individual,
ainda corres o risco de apanhar um louvor
do comandante do batalhão,
- ah!, que ironia! -
sob proposta do teu capitão,
à beira de ser promovido a major,
não por façanhas e valentia,
mas por seres o escriba-mor
da história oficiosa... da tua companhia
Post scriptum:
não passou por aqui,
disse-te uma vez um homem-grande
da tabanca de Saré Ganá (7)
Luís Graça (2006). Revisto em 29/1/2026.
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Notas do autor:
(1) Furriel Sousa, da CCAÇ 12, madeirense, carinhosamente conhecido pela alcunha do Zé da Ila (Ilha da Madeira): Vd post de 8 de Julho de 2006 > Guiné 63/74 - P945: 'Gente feliz com lágrimas': o Zé da Ilha, o furriel Sousa, madeirense, da CCAÇ 12
(2) Pedra Filosolal, letra de António Derdeão e música de Manuelo Freire
(4) 13 de janeiro de 1971
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Último poste da série >~16 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27638: Manuscrito(s) (Luís Graça) (282): Habeas corpus... que (man)tenhas o corpo, que ainda grita e levita!





















