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sábado, 18 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28193: Os nossos seres, saberes e lazeres (741): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (262): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 7 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Cheguei prevenido a Gjirokastër, era tudo menos uma aventura desportiva, mas que impõe atividade física a um octogenário, impõe, não há avenidas retilíneas, o casario sobre e desce em cascata, todo o cuidado é pouco para evitar quedas, nesta cidade de charme onde pontificam o branco e o cinzento. Os guias recomendam que se visite a casa natal do mais influente escritor albanês do século XX Ismail Kadaré, que não é fácil de encontrar neste dédalo vertical. A casa Skenduli, a tal que é dotada de 9 chaminés, 4 portas e 64 janelas exige alguma forma física, mas acaba por resgatar a energia despendida com as panorâmicas esplêndidas que dela se desfrutam. Aqui deixo as últimas imagens, não hesito em dizer que quero voltar, já apanhei o furgão para Sarandë, junto do Mar Jónico, tenho mais belezas deslumbrantes à minha espera, que convosco vou partilhar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (262):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 7


Mário Beja Santos

Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, como se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade. Foi uma visita de dois dias, bem arrependido fiquei por aqui ter estacionado tão pouco tempo. Mais uma razão de fundo para aqui voltar e ver o que já foi visto com os mesmos olhos deslumbrados.

Este livro intitulado Indignidade da Albanesa Lea Ypi, investigadora e professora universitária, foi uma das minhas companhias preferidas, assegurou-me que na Albânia atual é possível ter acesso aos arquivos dos serviços secretos dos tempos ditatoriais, e acompanhar a pesquisa que a autora faz de familiares seus perseguidos pelo regime de Enver Hoxha. Mergulhamos na vida de um pedaço da península balcânica desde a atmosfera do império otomano, da Grécia e da Albânia libertadas, vamos ler os relatórios das pessoas encarregadas de vigiar diariamente os avós da autora, assistiremos à detenção e prisão do avô e ao trabalho servil da avó, tratados um como traidor outra como hostil à República Popular Socialista. Leio este feito literário denso e comovente ao mesmo tempo que me vou deparando com as marcas da paranoia desse regime, as suas obras de realismo dito socialista e a vida da Albânia de hoje que procura desenfreadamente entrar na União Europeia cometendo todas as asneiras do turismo de massas, deslumbrados que estão pela corrida de investimentos a esta nova pérola do Mediterrâneo. Felizmente que o povo se começa a mobilizar contra a ganância destes investidores sem escrúpulos, que contam com a complacência política interna.
Percorro os últimos andares da Casa Zekate, construída em 1811, é o expoente máximo das casas-torre em Gjirokastër. Destaca-se pela sua fachada imponente com torres gémeas, tetos de madeira esculpida e uma vista deslumbrante sobre o Vale do rio Drino. Irei depois visitar a casa Skenduli, uma mansão do século XVIII com 64 portas, 44 janelas e 9 lareiras. Não deixo de me deslumbrar com esta cidade de pedra que, curiosamente, nada tem de uniforme nem de monótona, talvez por se dispor numa quase escadaria, num amplo anfiteatro, rodeada de vegetação, salpicada de branco e cinzento.
Um pormenor do quarto onde não falta chaminé, uma janela de vidros coloridos para induzir tranquilidade e até a cama de um bebé.
Outro quarto de família, prima pelo conforto e pela ausência de adornos.
Aqui sim, prima o luxo, dispõe de uma atmosfera requintada, nele se podem fazer casamentos, acolher as visitas, é uma decoração tipicamente otomana.
Outra lembrança do realismo dito socialista, uma exaltação aos libertadores que em 1944 fizeram a vida negra aos exércitos alemães em retirada, no fim desse ano Enver Hoxha e o seu partido comunista encetaram caminho para o controlo absoluto da Albânia, um regime que levou ao isolamento total, cortando primeiro as relações com os jugoslavos, que tinham ajudado o partido comunista albanês durante as lutas de libertação, cortaram relações com os soviéticos e mais adiante com os chineses, era tudo gente revisionista, inimigos da pátria albanesa. Foi assim até 1991, depois, como mostram os filmes, o regime caiu e deixou pouquíssimas saudades.
Há sempre um ângulo novo para explorar nesta Gjirokastër feiticeira. Numa rua a meio da colina pude captar a ligação entre a Gjirokastër medieval e a Gjirokastër que começou a sobressair desde o regime comunista, é indiscutível que esta ligação não é patrimonialmente ostensiva. Mas, francamente, o que mais me enche a alma é esta cercadura de montanhas e o verde vicejante por toda a parte, um diálogo permanente entre o património natural e o edificado.
No piso do alojamento em que me encontro, apanho de frente a entrada da mesquita que escapou às destruições decretadas depois de 1967, quando o regime decretou que a Albânia era uma sociedade ateia. A mesquita teve muitas operações, até foi escola de circo e de artes performativas. Visitei o seu interior, fizeram-se obras ganhou dignidade, é um templo em funções.
Volto-me para o outro lado neste mesmo piso em que fotografei a mesquita, agora é a vez de mostrar a rua principal do grande bazar, povoada de tapetes Kilim, nítida influência turco-otomana, muitas recordações para turistas, diferentes restaurantes para diferentes bolsas, ao fundo o castelo com a torre do relógio e uma proeminente montanha.
Imagem de um outro ângulo da cidade, à esquerda está a casa Skenduli, temos um denso povoamento até ao cume da montanha.
Visita ao museu etnográfico, antes houve aqui a casa em que nasceu em Enver Hoxha. Podemos ver o berço que lhe é atribuído.
Apresentações de indumentárias albanesas típicas.
A casa Skenduli, que visitei na companhia do seu proprietário. Confesso que o pormenor que mais me fascinou é esta impressionante fachada de uma casa fortaleza, povoada de compartimentos desde a cave ao último andar.
Duas imagens só para fazer alusão ao itinerário que se segue, Serandë e Butrint, esta última Património da Humanidade, aqui vos mostro um anfiteatro romano e as ruínas da casa de Esculápio, o médico mais famoso da antiguidade. É bem verdade que vim emocionado de Gjirokastër, um tanto frustrado por não ter visitado as ruínas de Adrianópolis, que foi grega e depois refundada pelo imperador Adriano, como igualmente não visitei o bunker reservado às altas figuras do partido comunista, na previsão de um ataque nuclear. Mais uma razão para voltar. Já estou na penúltima etapa desta viagem que há tanto ambicionava fazer, como sempre viajei de furgão de Gjirokastër até Sarandë. Pois tenho muito para vos contar.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 11 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28172: Os nossos seres, saberes e lazeres (740): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6 (Mário Beja Santos)

sábado, 11 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28172: Os nossos seres, saberes e lazeres (740): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Junho de 2026:

Queridos amigos,
Iniciei a visita à cidade museu de Gjirokastër, Património da Humanidade, possui uma das fortalezas mais imponentes de toda a península balcânica, casas de arquitetura otomana que cortam a respiração, tudo em pedra, um singelo museu etnográfico onde até se guarda o berço do ditador Enver Hoxha, nasceu neste local, Gjirokastër é também a terra natal do maior escritor albanês do século XX, Ismail Kadaré, preferi andar um tanto à solta a contemplar a cidade em pedra, possui uma mesquita bem curiosa que quando o regime de Enver Hoxha decidiu que a Albânia era um país ateu, em 1967, foi transformada em escola de artes circenses. Ainda houve a tentação de ir visitar o parque arqueológico de Adrianópolis, fundada pelo imperador Adriano, mas o deslumbramento de toda aquela pedra pesou mais alto, ainda tenho imagens para vos mostrar.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (261):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 6


Mário Beja Santos

Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido, no decurso desta viagem; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, graças a nova viagem em furgão chegou-se a Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, como se mostrou; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade.

Chega-se à cidade e lembra o que me aconteceu quando se chega a Bérgamo, a parte de baixo é igual a todas as outras, toma-se um táxi e em dado momento ganha-se a perceção que entrámos num mundo antigo, ruas de Bazar engalanadas com tapetes Kilim, a grande mesquita, poupada aos acontecimentos de 1967, quando o regime de Enver Hoxha decretou que a Albânia era um país ateu, destruíram-se templos ou converteram-se em ginásios, escolas de circo e muito mais coisas. É em povoações como Gjirokastër que sentimos uma Albânia que tem um dos povos mais antigos da Europa. Aqui subsistem vestígios de uma fortaleza imponente do século XIII, não deixa de nos assombrar que em torno desta cidadela se expande uma cidade singularíssima em pedra, que se iniciou nos primeiros anos do século XIV. Com a ocupação otomana, tornou-se um centro administrativo, aqui residia o Paxá. A cidade começou a crescer no século XVII e teve o seu desenvolvimento final no século XIX, tal como a conhecemos hoje.

A vista não se cansa de olhar para esta urbanização, possui bairros próprios, mas a unidade urbana salta à vista. Casas em pedra, ruas em pedra. Obviamente que o edifício de maior grandeza é a cidadela, teve benfeitorias até à década de 1810, ao tempo de um senhor feudal que deixou marca, Ali Paxá de Tepelena. O mercado coberto foi no passado um dos conjuntos arquitetónicos mais importantes da cidade, veio depois aa ser reconstruído em finais do século XIX no local onde hoje o encontramos, o grande bazar. É evidente que o visitante vem condicionado pelo que vem escrito nos guias, dão destaque ao património otomano, casas de vários andares, construídas em terreno rochoso, com características na distribuição interna, o ponto máximo do refinamento é o quarto de acolhimento dos hóspedes, o interior das outras divisões é de grande sobriedade. Preferi andar um tanto à deriva, tive a sorte de ficar num lugar perto do grande bazar e comecei a incursão pela fortaleza que possui dois museus, preferi cirandar e viver a atmosfera nesta cidade museu. O andar à deriva fez-me perder a visita a um dos bunkers que o regime mandou fazer na década de 1970, quando se supunha, que dentro daquela paranoia das invasões e de guerra termonuclear, que era determinante salvar a vida aos quadros comunistas. Sobre este assunto, limito-me a reproduzir fotografias do interior dessa construção da Guerra Fria.

Castelo de Gjirokastër, imagem retirada do site Tripadvisor, com a devida vénia. O castelo serviu de prisão durante o regime comunista, hoje a então área prisional foi transformada no museu dos armamentos.
Tanque italiano Fiat L6/40, de 1940, a generalidade destes tanques foi destruída em batalha, este exemplar foi encontrado na costa sul da Albânia, é uma peça de museu. Imagem retirada na visita ao museu dos armamentos.
Imagem da parte histórica de Gijirokastër, e, lá em baixo, coberto pela nuvem, a parte nova da cidade. A imagem é tirada do castelo, um dos mais velhos da Península Balcânica, parece um navio, como se procura mostrar noutra imagem, tem poderosas muralhas, uma área museológica, no seu interior realiza-se de cinco em cinco anos um altamente prestigiado Festival Mundial do Folclore, dado que a cidade é um centro de canto tradicional polifónico.
Vista aérea do Castelo de Gjirokastër
A torre do relógio do Castelo, a omnipresente envolvência das montanhas
Realiza-se neste local um dos mais importantes festivais de folclore de todo o mundo, de 5 em 5 anos
A Casa Zekate é uma das preciosidades do património otomano, construída entre 1811 e 1812, a casa pertencia a um dos servidores do Paxá. Na sua imensidade, dispunha de divisões para guardar os alimentos, entre a cave e o rés-de-chão, estábulos, o andar para os servidores e um amplo espaço para os proprietários. Impressiona com o seu aspeto de casa fortaleza.
Quarto dos proprietários
Quarto dos hóspedes
Na impossibilidade de aqui se mostrar o interior de todas as divisões, nomeadamente dos terceiro e quarto andares, divisões com muitíssimo interesse pela lógica de ocupação do espaço, pois há casas de banho com banhos turcos, salas de estar, espaços de convívio, etc. veja-se uma cama no terceiro andar, por baixo da escada.
Vista do quarto andar que permite ver a lógica de uma urbanização um tanto uniforme, transita-se sempre por chão empedrado.
Museu etnográfico de Gjirokastër, um pormenor
Duas imagens do bunker da Guerra Fria em Gjirokastër

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28157: Os nossos seres, saberes e lazeres (739): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5 (Mário Beja Santos)

Guiné 61/74 - P28171: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (44): O país que via passar os comboios





Coimbra B, Estação da CP, 25 de março de 2004.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto:  Luís Graça  (2004)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

 

Contos com mural ao fundo: O país que via passar os comboios

por Luís Graça


25 de março de 2004. 14:13h.Coimbra B. Estação da CP. Deprimente. Como todas as estações B do mundo. Como todas as estações da CP. B, de 2ª classe. B, segunda letra do alfabeto. 

Todas as estações de caminho de ferro do mundo são deprimentes. Abres talvez uma exceção para os apeadeiros. São bonitos, os apeadeiros. Ou eram bonitos os apeadeiros da CP. Quando havia o cavador, o burro, o boi e a vaca do presépio, a junta de bois, a charrua. O camponês, o Zé Povinho, camponês e burro. Besta de carga. A horta, a saída direta para os campos. As hortas. Os azulejos azuis  e amarelos da Viúva Lamego. E as quatro estações do ano.

O termo apeadeiro eternece-te, faz-te lembrar os tempos em que se ia às hortas. Tu já não és desse tempo. Mas os alfacinhas iam às hortas dos saloios. Benfica, Porcalhota, Pontinha, Sintra, Caneças, Colares ... Faziam piqueniques, cantavam o fado. Davam vivas à República. E morras ao Rei e ao Papa. E ao Capital. E bebiam vinho pelo palhinhas.

Gostas do termo apeadeiro. E da ideia de ir passear às hortas ao domingo. Quando ainda não havia semana inglesa. E trabalhava-se de sol a sol. Ia-se às hortas ao domingo. Em família, de comboio. Ronceiro, o comboio. Ronceira, a vida da gente.

Leste isso algures numa história qualquer sobre os comboios que unificaram o país de norte a sul. Há uma dívida de gratidão para com os comboios. E para com os homens dos comboios. E os engenheiros das estradas e pontes. E os operários que as construíram.  

Há uma dívida de gratidão, a final, ao Zé Povinho da cidade e dos campos. Pela sua pachorra e paciência. Há uma dívida de gratidão ao engenho e à obra. Ao Fontes. Ao Pereira. Ao Melo. Ao fontismo.  O nome português do capitalismo, leste algures, nas sebentas de história.

Naquele tempo parava-se em todas estações e apeadeiros. E havia tempo, não havia pressa. Não havia stresse naquele tempo, julgavas tu. Colhiam-se papoilas vermelhas no meio do trigo. Não havia tempo para se ter stresse. Morria-se cedo. Até os reis e os regicidas. A esperança média de vida é um artefacto estatístico. Ou nascia-se tarde, fora de horas, sem tempo de ver crescer filhos e netos.

Mas não havia ainda bombas nos comboios. Ao alcance de um qualquer toque de telemóvel.    Que as novas tecnologias quando nascem, (não)  são agora para todos.  

Mentes: há oitenta e tal anos atrás, na França ocupada, os ferroviários também punham bombas. Nas linhas de caminhos de ferro. Sob os carris. Matavam os seus postos de trabalho em nome da liberdade.  

Punham bombas para fazer descarrilar os comboios. Sabotagem. Resistência ao ocupante nazi. Vive la France. Hoje seriam caçados como terroristas internacionais. E julgados no Tribunal Internacional de Haia. Les partisans.

Não és ferroviário nem resistente nem terrorista.  Estás na estação de Coimbra B. Coimbra merecia, pelo menos, uma estação A. Este país, bom aluno da Europa, devia merecer uma letra A. Nem que fosse uma estação de comboios. Coimbra A. Ninguém gosta de ficar em segundo lugar, mesmo no pódio. 

Ouves uma voz gritante, no altifalante: Alfarelos. Com paragem não se sabe  onde. Nunca soubeste, ao certo, onde ficava Alfarelos. Se é que existe no mapa. Mas deve existir. Nunca lá foste. Aprendeste de cor e salteado a dizer todas as linhas do caminho de ferro. E todos as estações e apeadeiras. Na tua 4ª classe. Mesmo que nunca tivesses andado de comboio. Nasceste à beira-mar. Alfarelos é algures no teu país profundo. Assim como Freixo de Espada à Cinta. Que ninguém conhece. Nem onde fica."Isso é para lá de Freixo de Espada à Cinta",diz-se no Algarve.

Vieste de boleia. Muito obrigado. De Viseu. Aguardas o Alfa Pendular para Lisboa. Aliás, Lisboa SA. Deve chegar às 15:16h.
── Lisboa, Santa Apolónia ?
── Não, Lisboa, Sociedade Anónima!
 
Corriges o caixa d'óculos e boné de pala por detrás do guiché. Não, não queres Santa Apolónia. Queres a Estação de Lisboa Oriente. E depois... o que diria o Zé (Cardoso Pires)!
── Lisboa, SA!

Pergunta o míope, caixa de óculos, por detrás do bunker,  e que  fala em nome da CP.
── Conforto ou turística ?

Olha para ti, como se te quisesse tirar as medidas. Ou adivinhar a tua secreta conta bancária.
──  2ª classe, se faz favor!
──  Turística...

... 2ª classe, por defeito. Para quem não ostenta sinais exteriores de riqueza. Classe B.

E tu a pensar ingenuamente que já não havia 2ª classe. Comboios de 2ª classe.  
Gente de 2ª classe. País de 2ª classe no desconcerto das nações. (Ah!, velho José Rodrigues Miguéis, e a tua gente ainda  de 3ª classe. Nos porões nauseabundos dos cargueiros, que rumavam ao Novo Mundo. Às Américas. Aos Brasis.)

Deves ter percebido mal. Os comboios e a CP também se democratizaram. Agora só há conforto e turística. No alfa pendular de todas as emoções e condições. O Portugal SA já não é mais classista.
── Vê-se mesmo que o senhor é um utente acidental da CP. Já não há 2ª classe, meu caro senhor.

Tens tempo. Ou penses que tens tempo. Nada como esperar um comboio  numa estação de tipo B. Para saber o que é isso de ter tempo. É bom ter tempo. Uma hora de avanço. Nada de stresse. Não penses na morte. Nem no barqueiro de Caronte. Que o stresse pode matar como uma bala de Kalash.

Pedes uma sandes manhosa no bar da esquina. Bebes uma topázio que é uma cerveja local. Compras o Zé Cardoso Pires no quiosque. A república dos corvos. Um livro de contos. Colecção Mil Folhas, do jornal 
Público. Cinco euros.   

Deambulas no cais de embarque  Como o prisioneiro no pátio da prisão. E lês a única coisa interessante que está afixada na parede da estação de Coimbra B. Alguém mandou afixar. Crês tu que em bronze (és mau em metais): 

"Neste cais da estação de Coimbra, embarcou,
No dia 15 de Maio de 1982, 
Sua Santidade, o Papa João Paulo II".

O artista não quis desqualificar a estação nem a cidade. Coimbra B ?!...  
O que diria a corte papal! Os grandes deste mundo! E os turistas que visitam a cidade dos doutores! E os vindouros! E até os arqueólogos daqui a mil anos.

Mas lá está a tabuleta. Para a história. Para o viajante distraído, apressado. Ou se calhar para ninguém. Só para a História. Mesmo que já não haja  História com H grande daqui a mil anos.

Afinal, quem lê neste país ? Para mais, placas de bronze. Afixadas em estações B da CP. Aliás, quem lê neste país ? Um dia um arqueólogo, um historiador ou um antiquário desaparafusa a placa e leva-a para casa, para o museu ou para a loja de antiguidades. Ou para a feira da Ladra.

Não, nada acontece em Coimbra B. Mas por aqui passou um peregrino. João Paulo II. Um dia,  em 1982. Por aqui passou Jesus Cristo, na pessoa do seu representante na terra. Diziam que era polaco. Nunca lhe viste o passaporte diplomático ou a certidão de nascimento. És mau em metais e em teologia. Mas esta é a tua leitura. Pede desculpa à CP. E aos edis.  E aos lentes de Coimbra. E, claro,  a Sua Santidade.

Chega o Alfa. Just in time. Como na linha de montagem automóvel pós-taylorista da AutoEuropa. Entras no Alfa e sentes-te quase europeu. Na ponta mais ocidental da Europa acidental. Com o Mondego aqui ao lado. Comparado com os grandes rios da Europa, só pode ser de 2º ou 3ª classe. o rio. Admiras a eficiência das sociedades pós-tayloristas e cosmopolitas. A tua nunca chegou a conhecer o Sr. Taylor, n
em os seus principles of scientific managementProvinciana e ronceira, a tua terra, lá diria o Eça.

Acelera o Alfa. Tens uma secreta vertigem suicidária pela alta velocidade. Dás por bem empregues os teus 17 euros, IVA incluído à taxa de 5%. Isto faz bem à tua autoestima. Uma voltinha no carrossel da tua infància, na feira de setembro, custava uma moedinha.

Faz bem ao teu ego que não pode ser grande num país que vê passar os combóios.  Sobretudo depois da sandocha manhosa e da topázio morna que engoliste, de pé, ao balcão, do bar manhoso da estação.
── Quanto vai dar ?
──  Chega aos 200 ou mais! ── d
iz-te um puto de brinco na orelha...

Não apostaste. Nem gostas de apostas. Deixaste de ser solidário. Não compras a lotaria nem jogas ao totobola. Que te desculpe a Santa Casa da Misericórdia. E os pobrezinhos que ela sustenta há séculos.
── Umas cartas para passar o tempo ?

Respondes que não, obrigado. Que não tens vícios, não jogas, não apostas, não fumas.  Tens livros para ler. Trabalhos de alunos para rever.

Abranda o Alfa lá para os lados da Albergaria dos Doze.  Regressas à idade média da tua memória pátria. O caminho de Santiago. As albergarias. Já em  terra que foi dos mouros. La folie meutrière de la réligion. Alá é grande e tem muitos profetas. Eram bons hortelãos, os mouros e os moçárabes. 
── Chega à tabela. 
Dezassete e seis na Estação do Oriente, em ponto 
──diz-te o pica, orgulhoso.
── Até que enfim que os comboios partem e chegam à tabela, na nossa terra.

Ficas sempre com um pontinha de  inveja quando vais a Amesterdão e a Leiden. Quando ias à Holanda, que agora já não vais. Queres dizer, ao estrangeiro de fora.
── Vai desejar tomar alguma coisa ? 
── pergunta,  no futuro próximo, o homem do chá-café-laranjada...
── Um Prozac, por favor.
── Lamento, mas já não temos. Esgotou-se.
── Sim ?
── Esgotou-se na última viagem que fizemos ao inferno. 11 de março último. Do ano da graça de 2004. Estação de Atocha. 
── Atocha ?
── Sim, Atocha, Madrid...Não lê os jornais ?!

Respondes que não, não lês jornais nem vês tekevisão. Esclareces que acabas de chegar do Kavaquistão.
── En Madrid existen dos estaciones principales de tren: Chamartín y Atocha. Ambas son estaciones de trenes de largo recorrido y de cercanías...
── Muchas gracias
── respondes tu, que não sabias do caso.

Não sabias. Não vais a Madrid há anos.  Estás de costas para a Europa.
── Atocha está situada en la zona sur de la ciudad, muy cercana al centro. Desde ella salen todos los trenes de largo recorrido que van a levante y al sur de España.

O homem teve pena da tua ignorância.
──También algunos trenes de los que pasan por la estación se dirigen luego a Chamartín. Y luego a destinos en la mitad norte de la península. Dentro de la estación hay otra estación llamada Puerta de Atocha desde donde sale el tren de alta velocidad (AVE) que va a Andalucía...
── Muchas gracias!
── repetiste.

Vê-se que o homem do chá-café-laranjada é viajado.
── Só faço a península ibérica.
── Ah!, a jangada de pedra...
── Perdão ?!... Sabe, nasci no Entroncamento, filho e neto de ferroviários. Os comboios estão-me na massa do sangue... Mas a Espanha para mim es pura emoción. Uma tragédia horrível, aquela...
── E não tem medo do futuro dos comboios ?
── Não... Com os aviões passou-se o mesmo. Piratas do ar. Bombas... Enfim, um homem tem que ganhar a vida. De qualquer jeito.
── Deixe, a vida continua... O terrorismo, as guerras, tudo isso  passa.
 
Acabas por pedir-lhe um compal de maçã. Para te distraíres da conversa sobre Atocha. Não  penses mais  em bombas nas casas de banho das carruagens dos comboios. Não tem graça nenhuma um gajo morrer. E muito menos pulverizado na minúscula casa de banho de um comboio. Sob uma bomba-relógio. 

Não costumas pedir compal de maçã. Não sabes por que razão pediste o raio do compal.   Que é coisa rara, tomar o comboio. E muito menos pensar em bombas. Houve um tempo em que pensavas em minas. Anticarro. Antipessoais. Minas. Bailarinas. O ballet da morte. Debaixo das Berliet, GMC, Unimog. E dos teus pés.

Nasceste numa terra onde não passavam comboios. É um estranho sentimento, esse, que te acompanha desde pequeno. Mas o compal de maçã até não é mau. E dizem que vale mais do que uma chávena de café  para te tirar o sono. Antes de partires às 3 da manhã, para a Ponta do Inglês.
── Ponta do Inglês ?!...

Ali na Foz do Corubal. A 4 mil quilómetros de distância. Na aldeia gflobal. Aonde não chegava o obus do Xime. Que era de 10.5 cm de diâmetro. Era curto, e tenso, o tiro do obus.

Saíste cedo da casa de teus pais,  ainda menino e moço! É a voz do sangue,  o teu lado de marinheiro que nunca foste. Em boa verdade, detestas os entroncamentos. Rodo ou ferroviários. As picadas. Os trilhos. Os cruzamentos. Detestas o Entroncamento. Da primeira vez que lá passaste. Meia de dúzia de casas mal caiadas. Uma feixe de linhas e cheiro a óleo e a sucata. 

Mas tens a nostalgia dos cais de embarque. A nostalgia do mar e da maresia. Uma palavra que mexe comigo. Cais. Cais de embarque. Cais de partida. Niassa. Rocha Conde de Óbidos. Num comboio que veio da noite, silencioso e triste. Do Campo Militar de Santa Margarida. Destino: Lisboa. Com carga para outro destino: Bissau. Mercadoria=carne para canhão, alguém escreveu, a spray. Na calada da noite. Um grafito na última carruagem. Na primavera de 1969. Numa outra primavera que não chegou a haver.
── ... Política, meu estúpido!

A primavera política do Marcelo Caetano. Eras jovem. E não vias a luz ao fundo do túnel do Rossio. Nem muito menos as luzes da cidade-luz. Paris. Perdeste o último comboio para Paris. Com o teu amigo que queria ser pintor. Fernando Nobis. Com paragem, talvez em Atocha. Sabias lá o nome da estação. Nuncas saído do teu país vigiado. Para visitar o Greco, o Velasquez, o Goya, os grandes de Espanha que estão no Prado...
── És doido, ou quê ?! 
Com a Pide à perna, mais os carabineiros da Guardia Civil!

Fazia sol e frio em Viseu. O país profundo. O país que mexe, dizem-te. Gostas sempre de ler os jornais da terra quando estás no hotel. Duas estrelas, o hotel.  
Novo, a cheirar a tinta. Mobiliário reles. Decoração de mau gosto. 
Bom serviço. Comida caseira.  Faces rosadas da moça do bar. Mas faz frio à noite.
── Voyeurismo!  ── pensa ela, a rapariguinha do bar.

Oito páginas, entre notícias locais e os pequenos anúncios classificados. Duas páginas de anúncios pessoais. Cor de rosa.
"A brasileira do bumbum"... "A universitária que faz oral"..."A mulatchinha dengosa"...

Linguagem de código. A semiótica da solidão. Do sexo triste e solitário.
── Ah!, mas Viseu, como cresceu, meu Deus!

E Deus que andava distraído. Não sabes se cresceu bem... Não és de cá. O Politécnico.  O túnel de Viriato. Os colóquios. Os debates.  As ideias.
 Os intelectuais e artistas que vêm de fora. O comércio. O fórum, que há-de vir. A Grande Área Metropolitana de Viseu. Quase 400 mil. O orgulho de se ser do Kavaquistão. E onde mandam os que aqui lá estão.

 O que é feito do RI 14 ? Não sabes ? O glorioso  Regimento de Infantaria ?! A guerra acabou, baby. Foi bom para a cidade. A tropa. O  regimento. Sempre animava o comércio.
── Ruas, estás de granito!  ── diz o grafito. (Ruas é o chefe da tribo, presumes).

Nada como um bom grafito na terra do Grão Vasco:
── Apreciem o lado empreendedor dos beirões. 
── Só falta a Universidade, que mais de 10 mil estudantes do politécnico  já cá temos.
── Tiraram-nos a Faculdade de Medicina, os sacanas da Covilhã.

Outro lóbi beirão, o da Covilhã. Registas o orgulho dos  miúdos e miúdas da Associação de Estudantes  da Escola Superior de Enfermagem de Viseu que realizam anualmente as suas jornadas. E que já andam de capa e batina. Para quando chegar a universidade.

O país mexe. Viseu mexe. O país profundo mexe. O Kavaquistão mexe. Os jovens deste país mexem. Mesmo com capa e batina, vestidos de preto como o corvo do Zé (Cardoso Pires).

16:30h. Passaste o corpo pelas brasas. Perdeste um pedaço de mundo. 
Revisitaste outros infernos. Xime. 
Ponta do Inglês. 
── O Alfa vai a 140, ó puto.

Temperatura: 19º interior. 20º exterior. Lês no tabelau de bord.

── Mas agora abranda. 129, 101, 74, 52... Parou.


Uma placa com um S, outra com um M. Não percebes nada da sinalética dos comboios. Obras. Modernização da linha. Tens um pensamento piedoso e nobre para com os trabalhadores anónimos que constroem as novas linhas dos caminhos de ferro do futuro. Ucranianos. Africanos. Guineenses. Imigras. Clandestinos. Não se lhes vê nem a cara nem o passaporte. Podiam estar a trabalhar na estufas de Almeria. O inferno na terra. Mas aí são magrebinos. O novo proletariado do século XXI.

Desces na Oriente. O empresário a teu lado puxa do telemóvel.
── Mandem alguém da empresa vir buscar-me.
── Eh, cara, dá o Benfica na esporte tê vê.

E de novo o Alfa em marcha... A paisagem muda. A paisagem industrial da bacia do Tejo. A ocupação selvagem da lezíria. Mataram os campinos e o gado bravo. E os flamingos. E as ostras. Les petites portugaises.  O branqueamento de dinheiro que vai por essa nova Lisboa do Próximo Oriente. Depois da Exzpo-98. A luxuriante estação do Oriente. A ostentação dos ricos. Calatrava.

Just in time. 17:06h. Chegaste. Balanço do cliente que, enganado, pensava que já fosse o TGV.
── O TGV é que era!

Não, não  é o TGV, meu caro senhor. Um dia há de chegar. Assegura o caixa d'óculos da CP. E boné de pala. E mangas de alpaca. Sempre ficas mais tranquilo. Não é o TGV. Mas há de chegar um dia. Mesmo que passe ao largo da Coimbra B. A 300 à hora. Mas por ti, não desgostaste. De viajar no Alfa Pendular. Turística, claro. De Coimbra B a Lisboa SA.  

Tiveste tempo para (des)arrumar algumas ideias.

── O país que via passar os comboios...

E o puto tinha razão:
──
Na ponta final, o Alfa Pendular dá mesmo os 210.

Um dia ainda vais ter orgulho na CP. E na terra onde nasceste à beira-mar. E onde nunca viste sequer passar os comboios. Os comboios não passavam na tua terra. Nem ainda chegam a Viseu. 

Um abraço aos Viriatos. Até para o ano. Voltarás, se te convidarem. Virás de autocarro. Expresso. Por esses ipês acima. Com regresso de comboio. Se não sabotarem o comboio que pára em Coimbra B. 

E prometes ao barman que não te esquecerás de Atocha. Sobretudo não esquecerás Atocha. Nem a Ponta do Inglês. Quando voltares a Coimbra B. Outra vez. Não esquecerás as bombas de Atocha. Nem as minas e armadilhas da Ponta do Inglês. Muito menos os RPG. E as Kalash. E o jagudi da morte que te espreitava do alto do poilão.

25/3/2004. Revisto em julho de 2026
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Nota do editor LG:

Último poste da série > 25 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27150: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (43): Oficial e cavalheiro

sábado, 4 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28157: Os nossos seres, saberes e lazeres (739): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5 (Mário Beja Santos)

Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Amanhã a partida é em direção a Gjirokastër, embora as expectativas sejam enormes quanto ao que esta cidade museu oferece, não deixamos Përmet absolutamente nada desapontados, logo a viagem de furgão a partir de Korçë pelos meandros montanhosos, por vezes os desfiladeiros, vistos da estrada, parecem ser fendas de abismo até que, inopinadamente, surge aquele rio de caudal instável, o Vjosa, quem vai dentro do furgão faz comentários sobre o que vai fazer, há ali gente que veio para fazer rafting, há escaladores, ciclistas, gente mais madura que veio a sonhar com bacias de água quente, perto de Përmet. Deu-me para fazer passeios a pé a saborear o Vjosa e quando me meti para o interior atinei com uma igreja ortodoxa, cheia de espiritualidade, rodeada de um belo jardim. Por ali andei tempo suficiente até fazer horas para jantar, depois de dar o último passeio a pé e procurar adormecer acreditando que Gjirokastër é única no mundo... e afinal é.

Um abraço do
Mário



Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (260):
Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 5


Mário Beja Santos


Mostrar-vos a miniatura do mapa da Albânia não é um puro acaso, nasce da preocupação de vos dar conhecimento quanto ao itinerário seguido; houve partida em furgão de Tirana até Pogradec, para admirar o Lago Ohrid, seguiu-se depois para Korçë, há quem lhe chame uma pequena Paris, é, no mínimo, bonita e cosmopolita; mais adiante, nova viagem em furgão até Përmet, esperava uma maravilhosa igreja ortodoxa, vão ver; e daqui rumou-se para a espantosa Gjirokastër, um justificado Património da Humanidade, temos depois a última viagem até ao sul, já no mar Jónico, em Sarandë, visita ao Lago Butrint e o sítio arqueológico respetivo, também e justificadamente Património da Humanidade. Saiu-se de Korçë, num furgão cheio de gente com ar desportivo, só quando começarmos a flanquear o rio Vjosa, que nos acompanhará até Përmet, é um rio associado a um parque natural entre a Grécia e a Albânia, e então vemos a que se destinam as tais atividades desportivas, desde rafting a passeios pedestres, procura de águas termais, ciclismo, etc. De Korçë a Përmet são escassas dezenas de quilómetros, vamos sempre com os olhos em cima das majestades montanhas, dos desfiladeiros, do estranhíssimo caudal do Vjosa, umas vezes tumultuoso, outras vezes quase reduzido a um fio de água.
Importa recordar que 70% da Albânia são montanhas e florestas, o espetáculo cénico preenche a nossa atenção, com estes desencontros cumeadas com neve, zonas umas vezes densamente arborizadas, outras vezes calvadas, superfícies que devem tentar escaladores, com os abismos ao fundo.
Os famosos banhos termais de Përmet, estou um pouco fora da cidade, é uma das suas atrações turísticas, lembra as caldeiras das ilhas açorianas, imagem retirada do site Adventure Albania
A lindíssima ponte Kadiut nos arredores de Përmet
Rafting no rio Vjosa, um rio que acompanhou quase toda a viagem de Korçë até Përmet
Chega-se a Përmet, ainda não se perguntou onde fica o nosso alojamento e somos confrontados com o libertador de Përmet, fala-se em 24 de maio de 1944. Como nunca se conseguem obter informações no turismo, procura-se meter conversa com os passantes, alguém cheio de orgulho disse que esta escultura é original, há réplicas espalhadas por outras cidades, mas sim, esta é única.
Confesso que a grande atração que senti em Përmet foi uma igreja ortodoxa onde encontrei duas legendas, igreja do Santo Parashqevi, é uma basílica coberta de arcos e cúpulas esféricas, data de 1776 está classificada como monumento cultural de primeira categoria. 22 metros de comprimento, 16 de largura e 8 de altura, três naves com cúpulas, estão ligados o santuário, o nártex e o altar; igreja construída com pedra pomes e argamassa de cal. O telhado está coberto com pedras brancas e o interior decorado com frescos. O iconóstase (parede coberta de ícones que separa o santuário da igreja propriamente dita) é esculpido em madeira, os frescos são cenas das escrituras, o autor é um pintor vindo de Korçë.
Encontrei esta imagem antiga, data do tempo em que não estava cercada por belos jardins, como agora. Curiosamente, encontrei uma transcrição que descreve exatamente a igreja, mas que lhe chama igreja da Sexta-Feira Santa.
Frescos antigos, a aguardar limpeza, conservação e restauro
Púlpito de requintada beleza
Outra perspetiva da área de culto
Um aspeto da cúpula, também a pedir intervenção
Iconóstase
Sala com ícones
Porventura a imagem da Virgem Maria, mas não excluo a possibilidade de ser uma santa da igreja ortodoxa albanesa
Imagem tirada da entrada tendo por fundo o iconóstase
Mesmo com iluminação deficiente é possível verificar que por cima das colunas temos pintura à volta da cúpula, com frescos ao fundo.

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 27 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28136: Os nossos seres, saberes e lazeres (738): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (259): Uma amostra do País das Águias, a Albânia entre Tirana e Butrint/Saranda - 4 (Mário Beja Santos)