sábado, 11 de dezembro de 2010

Guiné 63/74 - P7421: Blogpoesia (95): Malefícios da água não potável (Manuel Maia)

1. Mensagem de Manuel Maia* (ex-Fur Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4610, Bissum Naga, Cafal Balanta e Cafine, 1972/74), com data de  10 de Dezembro de 2010:

Caro Carlos,
Aqui seguem mais umas quantas sextilhas subordinadas ao título acima referenciado,pra editares se assim entenderes.

abraço
manuelmaia


MALEFÍCIOS DA ÁGUA NÃO POTÁVEL

Num corpo com gordura a liquefazer-se,
em dia de "assa canas", soe dizer-se,
garganta pede cervejinha fresca...
Acção Temor, Tagana, nunca soube,
Rinoceronte, Trio d`oitos, coube
aos grupos da Terrível soldadesca...


As pernas pedem pausa no andar,
cansadas de jornadas de estafar,
três dias nesses matos a ração...
Vazio está o cantil de água filtrada,
do sumo das rações não resta nada,
e há um rio de água suja ali à mão...


A sede é nesta fase, irracional,
e a amarela água que faz mal
bebida foi à falta de melhor...
Bem dentro do cantil, "empastilhada",
desfeita no tal líquido e agitada,
bebê-la foi apenas mal menor...


De volta à base, "whisky prevenção",
ao " paludismo e toda a criação",
foi alvo dum "ataque" inusitado...
Em dose tripla ou mais, o "tratamento",
matou a bicharada no momento"
deixando o pessoal mais descansado...


Queixaram-se intestinos e vísicula,
do tratamento choque ante a canícula,
anti parasitário inigualável...
Dois dias chá de tília, e sopa branca,
uns LM e o problema estanca,
mostrando uma eficácia assinalável...


A simples "caganeira" popular,
soltura ou diarreia, "outro falar",
definem desarranjo intestinal...
Pastilhas LM, abrangentes,
p`rós calos, tosse, dores até p`rós dentes,
protegerão a fauna do local...

__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 9 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7412: Efemérides (58): 1.º aniversário do lançamento do livro História de Portugal em Sextilhas, de Manuel Maia

Vd. último poste da série de 6 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7390: Blogpoesia (94): Pesadelo (Manuel Maia)

Guiné 63/74 - P7420: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (33): Tradutora pede ajuda ao nosso blogue para as expressões zone-call e clock-code, usadas em especial pela artilharia (José Martins)

1. Mensagem de José Marcelino Martins* (ex-Fur Mil Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), com data de 23 de Novembro de 2010, para a qual pedimos a atenção dos camaradas:

Caros Camaradas e Amigos

A prova de que não somos só nós, os antigos combatentes, a visitar o nosso blogue, são os vários pedidos que recebo, sobre os mais variados assuntos.

A satisfação que sinto ao receber esses pedidos,  não é porque se me dirigem, mas porque reconhecem nos combatentes uma fonte de informação que é útil a outros que não passaram pela nossa experiência.

O caso presente é/foi iniciado com um mail que me foi dirigido, por uma senhora, tradutora de profissão, que me colocou umas questões técnicas, mas a que não sei responder, de que transcrevo:

“Antes de mais nada, o meu pedido de desculpas por 'invadir' assim a sua caixa de correio. Mas preciso de ajuda de alguém que perceba de transmissões militares e encontrei-o na Net.

“Passo a explicar: sou tradutora e estou a traduzir um romance que se passa em França, durante a Primeira Guerra. O herói é um observador e utiliza dois códigos na transmissão das observações.”

Pensando que esta nossa leitora pretendia conhecer alguns procedimentos de transmissões, falei-lhe como se processavam as mensagens quer entre “unidades em quadrícula” e entre estas e as forças em operação e como eram processadas as mesmas, utilizando não só a criptografia convencional, mas também aquela que “emanava” das nossas mentes, permitindo conversações cifradas utilizando, muitas vezes “linguagem clara e coerente”.

Mas não era estas explicações que se pretendiam:

“ E eu não faço a mínima ideia de como é que isto se diz em português. Será que pode ajudar-me? Estamos a falar de sinais 'zone-call' e 'clock-code'. Este último tem uma tabela (chart) que ele consulta para emitir as referências. Isto diz-lhe alguma coisa?

A designação zone-call, pela pesquisa que fiz na Net, pareceu-me tratar-se de coordenadas já que, iniciada em 1916, durante a I Grande Guerra, menciona a divisão de um mapa em áreas e, estas, em sub-áreas. Quanto à designação clock-code e recorrendo à mesma fonte, é um método de cálculo mental de divisão de um ângulo entre zero e sessenta graus, apresentando uma tabela, no texto consultado.

É assim, desta forma, que dirijo ao todos os camaradas, especialmente aos artilheiros, tertulianos ou não, um pedido de ajuda, já que se trata de “observação de tiro de artilharia” dado que, na altura em que decorre a história que o livro conta, pois trata-se de uma história passada na I Grande Guerra, ainda não havia aviões de combate.

Resumindo: a questão que nos é colocada é saber qual a tradução das expressões zone-call e clock-code, para português.

Agradeço antecipadamente A TODOS, A COLABORAÇÃO POSSÍVEL.
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 25 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7331: Em busca de... (149): Pedido de informação sobre a naturalidade de Vitorino António Marques (José Sampaio/José Martins)

Vd. último poste da série de 4 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7378: O Mundo é Pequeno e a nossa Tabanca... é Grande (32): Estava no Cantanhez, no dia 1, e fiquei emocionado com o vosso poste de parabéns que só agora, em Bissau, posso agradecer (Pepito)

Guiné 63/74 - P7419: (Ex)citações (119): O destino marca a hora ? (Jorge Picado, ex-Cap Mil, 1970/72)

1. Comentário de Jorge Picado ao Poste P7401 [, O Jorge, foto à esquerda,  foi Cap Mil da CCAÇ 2589/BCAÇ 2885, Mansoa, CART 2732, Mansabá e CAOP 1, Teixeira Pinto, 1970/72):


 Camarigo Luís Graça:


Referes uma situação em que a "tua montada", e não sei quantas antes, passou e a seguinte "voou", dizendo que tinha sido sorte, a tua.


Ora, quantos de nós tivemos sorte, uma vez..., n vezes, enquanto outros nem uma vez a tiveram?


Foi por essas situações de "sorte", do "acaso" ou seja lá de outra coisa, que às tantas, lá na Guiné, me comecei a interrogar e a "filosofar" comigo. Será isto o destino? Será que o destino está mesmo traçado? Será que ao nascer a nossa vida já está de facto pré-definida? Podem crer que a partir de algumas situações que ocorreram comigo e que me levaram a esses questionamentos interiores, passei a acreditar nesse determinismo.


Quanto às vias de comunicação, a que chamas "estrada", sempre que escrevo algo sobre as paragens que pisei, uso "itinerário", com excepção dos percursos, Bissau-Mansabá e Bissau-Teixeira Pinto-Bachile, onde uso "estrada", uma vez que eram asfaltadas e dignas desse vocábulo. Todas as outras por onde circulei, não passavam de "picadas".


Os abastecimentos, a logística em geral, das NT movimentavam e ocupavam de facto muitos efectivos. Mesmo no Sector de Mansoa, quando lá estive, isso era uma realidade.


Por Mansoa passavam, várias vezes por mês, colunas de abastecimentos para Bissorã e Olossato, em que o pessoal da CCaç 2589,  destacado em Braia e no Infandre,  tinha de assegurar a limpeza do itinerário até ao alto de Namedão, bem como a segurança com emboscadas nos pontos "mais vulneráveis". 


Quanto às colunas para Mansabá, não havia necessidade de picar a estrada, mas montar a segurança, pelo pessoal destacado em Cutia, quase no limite da zona, visto haver um cruzamento com um dos carreiros IN Sara/Canjambari-Morés.


Abraços
Jorge Picado


PS - Quando me refiro ao pessoal da CCaç 2589 (Mansoa, Braia, Infandre e Cutia), quero indicar todo aquele que dependia desse comando e não apenas o da subunidade orgânica.

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Nota de L. G.:

Último poste da série > 10 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7415: (Ex)citações (118): A propósito do vídeo da ORTF sobre a Op Ostra Amarga: "As imagens que vi, foram uma espécie de murro no estômago e cimentaram a admiração que nutro por todos aqueles que sentiram o silêncio bem no meio do capim" (Miguel Sentieiro)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Guiné 63/74 - P7418: Memória dos lugares (116): As colunas logísticas ao Xitole e Saltinho no tempo do Paulo Santiago (1970/72) e do Joaquim Mexia Alves (1971/73)

1. Comentário do Paulo Santiago (ex-Alf Mil, Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72)  ao poste P7401 (*):

Nos primeiros meses que passei no Saltinho, as colunas logísticas ainda seguiam esse itinerário: Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho.

Houve uma, não sei a data, onde andei com o [Pel Caç Nat] 53, entre Xitole-Ponte dos Fulas. Lembro-me da chegada ao Saltinho da malta da CCAÇ12, onde no primeiro Unimog 404 vinha o Alf Mil Carlão, e comentavam os camaradas da  [CCAÇ] 2701, que ele não gostava de apanhar...pó.

Assim é possível que ainda tenha encontrado, no bar do Saltinho, o Henriques, o Humberto, o Levezinho... sei lá, era muito piriquito na altura.

Depois abriu-se uma picada que aproveitou o carreiro dos dgilas, e as colunas logísticas para o Saltinho passaram a ter o itinerário Galomaro-Duas Fontes-Chumael-Saltinho. Este percurso, até
ao fim da minha comissão, era seguro, não havia picagem... era percorrido, com frequência, pelos camiões do Jamil e do Rachid [, os dois comerciantes do Xiotole, de origem libanesa]...




Guiné > Zona leste  > Região de Bafatá > Os longos e tortuosos caminhos para se chegar ao Saltinho, no Rio Corubal... Em Agosto de 1969, foi reaberto o troço Mansambo-Xitole-Saltinho, passando o Saltinho a ser abastecido a partir de Bambadinca... Mais tarde, o Saltinho (que pertencia ao Sector L5, Galomaro)  passou a ser abastecido por Galomaro com o aproveitamento do carreiro dos djilas (Saltinho - Chuamel-Duas Fontes)... Todo o abastecimento do Leste passava pelo eixo rodoviário principal  Xime -Bambadinca - Bafatá - Nova Lamego...  A distância entre Bambadinca e o Saltinho era de 55 km; e entre Bambadinca e Bafatá, 30 km; e entre Saltinho e Galomaro, cerca de 50 km; Galomaro e Bafatá distavam entre si à volta de 25 km...  (LG)


2. Comentário ao poste P7401 (*), da autoria do Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Esp, CART 3492, (Xitole/Ponte dos Fulas), Pel Caç Nat 52  (Ponte Rio Udunduma, Mato Cão) e CCAÇ 15 (Mansoa), 1971/73:

Caros camarigos: Tal como já referi noutro comentário, estas colunas no tempo do BART 3873, faziam-se sem problemas, mas apenas com muito pó e cansaço, sobretudo daqueles que montavam segurança, pois era um dia inteiro no mesmo local.

Aí, nessa estrada e por causa de uma coluna levantei uma mina conforme descrevo aqui:
http://pontedosfulas.blogspot.com/2008/06/1-mina-do-bart-3873.html (**)
e que os editores podem aproveitar se quiserem, embora me pareça que há uns anos talvez tenha havido um poste sobre isso.

Refiro também, (e também acho que já o tinha feito), a realização de uma coluna da CART 3492, (por causa, salvo o erro, de um funeral de um guineense), pela estrada Saltinho/Galomaro que estava fora de uso há já largo tempo.

Todos consideravam uma temeridade tal coluna mas ordens... são ordens. O meu tio Jamil Nasser, que tudo sabia, tentou dissuadir-me de fazer tal coluna, ao que eu obviamente não acedi. No dia da coluna lá estava ele com duas camionetes carregadas, colocando-se como passageiro também. (***)

Tirando o cansaço, nada mais aconteceu!

Grande e camarigo abraço para todos
Joaquim Mexia Alves
______________

Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de  8 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7401: A minha CCAÇ 12 (10): O inferno das colunas logísticas Bambadinca - Mansambo - Xitole - Saltinho, na época das chuvas, 2º semestre de 1969 (Luís Graça)



(**)  Reproduzido, com a devida vénia, do blogue Xitole > 9 de Junho de 2008 > A> primeira mina do BART 3873 ? 

No início da nossa estadia no Xitole e,  salvo o erro, logo na primeira coluna vinda de Bambadinca à qual a nossa Companhia montou segurança, calhou-me, a mim, e ao meu pelotão, como não podia deixar de ser, o ponto mais afastado do Xitole,  para montar segurança à dita cuja.

Se bem me lembro era junto a um pequeno pontão, (não me lembro do nome, Jagarajá?), pois a partir daí era terreno da Companhia de Manssambo [, a CART 3493, 1972/73]. Aí chegados,  enquanto colocava o pessoal na mata, os guias e picadores foram picando a estrada junto ao pontão e chamaram-me porque tinham detectado uma mina.

As penas de periquito ainda esvoaçavam por todo o lado e, cheio de sangue na guelra, decidi levantar a mina. Mandei afastar os que estavam mais perto e lancei-me ao trabalho, não me lembrando agora se tive alguma ajuda no início. Depois de escavar a coisa, passou-se à parte mais difícil que era desarmar o detonador, para depois, pelo sim pelo não, puxar a dita mina com uma corda, não fosse o diabo tecê-las.
A mim pareceu-me que tudo isto demorou uma eternidade, mas segundo me disseram até foi rápido. Sei que suei rios de água e não era por causa do calor.

Lembro-me de pensar em desistir a meio e rebentar com aquilo, mas o orgulho e o pensar o que é que o pessoal vai dizer, levaram-me a continuar e acabar o trabalho.

Ao que sei, foi a primeira mina levantada no Batalhão [BART 3873, Bambadinca,1972/1974]. Na minha fraca memória, vem-me à ideia que deixámos uma qualquer mensagem de ronco no sítio da mina. Enfim, gabarolices!

Diziam que pagavam não sei o quê pelas minas levantadas, mas não me lembro de ter recebido nada. Mais tarde e já no Pel Caç Nat 52, com o clima e outras coisas, cometia a rematada estupidez louca de ir pisando o caminho à frente do Pelotão, o que os soldados africanos muito apreciavam, só me valendo o facto de Deus nunca estar distraído.

Envio prova fotográfica do feliz evento [, imagem acima,], chamando a atenção para a qualidade da revelação da fotografia, feita num estúdio de um qualquer curioso militar no Xitole, do qual não lembro a identificação.

Joaquim Mexia Alves

Nota: Se esta história não está bem contada, e eu estou para aqui armado em "herói", peço que a rectifiquem, pois a memória já não é o que era.


[ Revisão / fixação de texto / bold a cor: L.G.]


(***) Último poste da série Memória dos lugares > 30 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7360: Memória dos lugares (114): Fajonquito, fotos de Sérgio Neves, ex-Fur Mil Mec Auto da CCAÇ 674, 1964/66 (3) (Constantino Neves)

Guiné 63/74 - P7417: Operação Tangomau (Mário Beja Santos) (4): 20 de Novembro, de Bambadinca para o Bairro Joli

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Dezembro de 2010:

Malta,
O traçado da estrada, a partir de Jugudul, está substancialmente modificado. Toda aquela recta que vai até Finete foi afastada do Geba. Ao princípio desorientei-me, os meandros do rio estavam longe, apareciam difusos.
Em Mato de Cão, vi-me rodeado de casas, quase em cima da encosta, senti que a confusão era total. Depois tudo se esclareceu, mas foi preciso andar muito à pata, subir e descer Mato de Cão, Chicri, Gambaná, Finete. Irão ser dias irrepetíveis. Haverá até um momento, conversando com o Sr. Biloche, um ilustre empreendedor de Finete, em que cheguei mesmo a apalavrar uma casa para o Jorge Cabral.
Há coisas que acontecem só na Guiné.
Quanto ao dia que que aqui se fala, começou e acabou bem. Entreguei bacalhau e azeite de Avis em duas moradas.
A minha amizade com o Fodé crescera em Missirá, à mesa, comendo bacalhau cozido com batatas. Era indispensável regressar com bacalhau, se as plantas precisam de água, aquela amizade tinha que ser regada, na circunstância solene, com bacalhau.

Um abraço do
Mário


Operação Tangomau (4)

Beja Santos

20 de Novembro: De Bambadinca para o Bairro Joli

1. A primeira incursão da manhã está reservada ao local em que funcionou o QG, o Quartel-General, a respectiva messe de oficiais e um conjunto de instalações onde se albergavam os oficiais do quadro permanente e milicianos. É um amanhecer abafado, depois latejou o calor e agarrou-se às casas, à estrada e aos corpos. O Tangomau está furioso, não repararam o duche da casa de banho, já fez as malas, deixou a bagagem no quarto, tal como combinou com a encarregada de recepção, esta desfaz-se em sorrisos tal como se desfaz em promessas quando fala nas reparações, há três dias consecutivos. O Tangomau inflecte à esquerda e sobe a antiga estrada de Santa Luzia, vai à procura, de acordo com a sua memória, dos locais onde teve reuniões, onde recebeu guias de marcha, onde se apresentou nos momentos em que chegou a Bissau, onde comeu e dormiu, até onde viu cinema.

2. Esta estrada de Santa Luzia é a mesma Pansao N’Isla de que já se falou, liga o antigo QG até Amura e Bissau Velho. O que vai encontrando pelo caminho tem pouco a ver com a realidade de há 40 anos: há cantinas, estofadores e até uma agência funerária com um jogo de matraquilhos à frente. Sente-se a decomposição dos edifícios da era colonial, algumas organizações não-governamentais procederam a restauros antes de ali se instalarem. Há hortas e, um pouco antes de chegar à guarita que assinala a chegada ao QG, emerge, muito populoso, o Bairro de Santa Luzia. O Tangomau limita-se a ficar especado à entrada das instalações do Quartel-General, o edifício principal está esventrado, foi num daqueles gabinetes que explodiu a bomba que matou um chefe de Estado-Maior das Forças Armadas da República da Guiné-Bissau, numa espiral de ajustes de contas que culminou com o assassinato de Nino Vieira, e ainda não se sabe se findou, em definitivo. Não se pode entrar, o Tangomau não pode rever os sítios pode onde andou em 1991, quando ali trabalhava diariamente como cooperante do Ministério da Indústria e dos Recursos Naturais.

Embrenhou-se em Santa Luzia e deu consigo a visitar em primeiríssima mão o hotel Azalai que maquilhou as instalações do antigo QG e do antigo hotel 24 de Setembro. O que era a messe de oficiais e as salas de convívio ainda é perceptível no traçado exterior, nada mais. A fisionomia dos bangalós está modificada, há ajardinamentos novos, adaptaram-se ruas, o Tangomau deambula surpreso por tanta novidade e chega à antiga piscina onde turistas tostam ao sol. Sem dificuldade maior, logo identificou o espaço onde, há mais de 40 anos, era possível estar ali sentado nas noites de cinema. E até aconteceu uma coisa curiosa, o Tangomau regressou ao passado e recordou um filme desempenhado por Rod Steiger, uma criação admirável de um usurário que acabou vítima da sua concupiscência pelo dinheiro, num bairro esconso de Nova Iorque, talvez o Bronx.

Nada há mais a ver, ele ainda anda à procura de uma instalação tipo armazém onde funcionava o Vaticano III, era um albergue de passagem para milicianos, aí se despediu da Guiné, entregaram-lhe um lençol roto, fora obrigado a aceitar, não vale a pena esmiuçar as peripécias, já em Portugal um agente da PSP bateu-lhe à porta e foi imperativo: ou pagava 17 escudos e 50 centavos pelo lençol danificado. O Vaticano III desapareceu, não faz parte dos equipamentos do hotel Azalai, paz à sua alma.

Segue-se a descida da estrada de Santa Luzia, depois inflexão para a Praça dos Heróis Nacionais, faz-se uma paragem para beber uma bica na Pastelaria Dias & Dias. Como não há pejo em contar, o Tangomau fez um estranho escrutínio de livros para lhe fazerem companhia nesta viagem. Desta vez, nada mais nada menos que “Novas Cartas Portuguesas”, por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, 9.ª edição, anotada por Ana Luísa Amaral.
O café não é dos melhores, mas o regresso à leitura deste livro é compensador, marca a pausa antes de descer a Baixa de Bissau até ao Pidjiquiti. A primeira vez que leu as “Novas Cartas”, sentiu-se inseguro: não era um romance, havia ali um amontoado de cartas, poemas, confissões sobre o corpo feminino, alguma crueza sobre relações sexuais, tudo a pretexto das cartas seiscentistas de Soror Mariana Alcoforado. Já lá vão quase 40 anos, o brado que a obra teve, a sua imediata proibição e os interrogatórios da PIDE às autoras, o processo judicial, podem hoje ser vistos como ridículos, anacrónicos, pois então. Voltar a mergulhar nesta obra é menos importante para apurar a consolidação da igualdade de género e mais para sentir um incontestável apuro literário, pois estas três autoras souberam escrever a seis mãos coisas tão belas, assim:

“Um vinho velho que adormeceu há séculos, amodorrado nos frascos postos em fila, com as suas pesadas rolhas de vidro trabalhado.
Eis, meu amor, a morte à qual tu afinal não pertences:
desço sozinha, ambiciosamente, pela vertigem, e descanso enfim nos degraus escondidos debaixo das árvores:
enormes degraus de pedra carcomida, escavada pelos anos, de onde a minha cabeça pende e onde os cabelos se espalham ainda aquecidos e vivos. Agarro com as mãos as tuas mãos que já me desprendem para o vácuo.
Nas ancas tenho ainda a marca dos teus dedos; a marca da tua boca, o traço molhado da língua, dos teus dentes.
Desço:
macio deve ser o chão que as árvores conservam com a sua seiva.
Não necessariamente meu amor sem ti a liberdade ou a pressa de morte no meu corpo.”

Emerso nesta prosa poética, neste género literário gongórico, excessivo do princípio ao fim, atém-se menos às teorias feministas e mais à plenitude deste encontro de mulheres, à análise de percurso e de processo e à expressão literária singular que faz com que “Novas Cartas Portuguesas” continue a ser uma obra singular, impar, na literatura portuguesa.

3. Entrando por uma rua lateral de Baixa de Bissau, o Tangomau encontra-se numa praça onde esteve outrora a estátua de Honório Pereira Barreto, dali o apearam depois da independência, sabe-se lá com que acusações, e talvez na ignorância de que sem este governador nado e criado na Guiné as fronteiras da actual República da Guiné-Bissau poderiam ser outras, a hora é imprópria para dissertações históricas e moralidades. Regista um edifício denominado Centro Cultural Francês, entra e bisbilhota, confidencia para os seus botões que tem ali atmosfera para passar para o caderno as suas impressões de viagem. Não hoje, quando regressar de Bambadinca. E segue para o Pidjiquiti, caminha pelo esporão do cais, há barcos a atracar, outros a partir, as gaivotas esvoaçam, ouve-se nitidamente o bulício das negociações do peixe.


Aquele cais é um pólo de atracção. Poucos são os livros sobre literatura da guerra colonial que não tenham começado aqui. Deste cais avista-se agora o terminal cargueiro que destruiu a panorâmica da antiga marginal. Há um ponto do Pidjiquiti que é inultrapassável, tem a ver com enfiamento da Avenida Amílcar Cabral, é um traçado linear, de cá para lá permite uma vista desafogada, consegue até esquecer as ruínas permanentes de tantos edifícios. Seguindo pela sua esquerda, o Tangomau progride, em passo estugado, para a Embaixada de Portugal, são perto de 13 horas, é ali que vai almoçar a convite do Sr. Embaixador.

4. O interior da Embaixada tem decoração personalizada, o Tangomau percorre as salas com um copo de gin na mão, aguarda a chegada do diplomata, vê retratos (seguramente dos seus familiares), obras de arte criteriosamente escolhidas. António Ricoca Freire aparece e confirma que é o responsável por aquele desenho de interiores, introduziu cores, mudou os conteúdos das paredes, estão ali os seus haveres, que o acompanham em todas as suas missões, leva uns bons anos a atravessar África.

O Tangomau não vai falar da cooperação militar, nem científica e técnica, jurídica ou agrícola, na saúde ou na segurança social. Conta o que viveu naquelas paragens há 40 e há 20 anos atrás, como ofereceu os seus livros referentes à comissão militar ao Sr. Embaixador, sente-se desvanecido quando este lhe fala empolgado do primeiro volume cuja leitura está praticamente concluída.

Conta ao que vem, parece um paradoxo esta despedida, afinal tem 65 anos, tirando uns problemas no joelho direito nada de grave tem no cadastro, que se saiba. É verdade que tem havido uma verdadeira razia entre os seus soldados, não há ano que passe que não cheguem notícias de óbitos. Só raramente lhe chegam boas notícias, olhe, mal chegou a Bissau e quando se mostrou compungido com a morte do Benjamim Lopes da Costa, antigo primeiro-cabo que em momento desvairado até lhe chamou “branco assassino”, alguém observou: “Nada disso, está vivo e bem vivo, reformou-se, pode encontrá-lo no bairro da Ajuda”.

Para ser preciso, conversava ele à mesa da sala de jantar, já se tinha comido uma sopa de feijão encarnado com uns olhinhos de azeite, a que se seguira uma estupenda lasanha de carne, repetira, sem vergonha, sentia-se mentalizado para as dificuldades que se adivinhavam a partir de Bambadinca, viera, confessou, não só para se reconciliar e até espanejar os últimos fantasmas mas para encontrar a encenação do final de um livro que tem entre mãos. É uma conversa ciciada, são dois interlocutores cúmplices, um que revela um segredo, outro que tem como profissão absorver e filtar os segredos dos outros. Nos jardins ouve-se o piar das aves entre o sombreado de poilões e cajus.

Até que alguém vem avisar que o Sr. Sabino está pronto para partir.
António Ricoca Freire acompanha o expedicionário à porta, augura-lhe a plenitude dos sucessos, pede-lhe prudência e reclama que pretende informação dos resultados.

Recolhe-se a bagagem da Pensão Lobato, está confirmado que a casa de banho continua a aguardar reparação, e de Bissau, por via de Bissalanca, Safim, Nhacra, Jugudul, sempre o jipe a dançar entre o alcatrão esburacado, comentando o Sr. Sabino o cultivo do arroz pam-pam, um arroz de sequeiro muito apreciado no chão manjaco, chega-se àquela recta que passa pelo Enxalé, Saliquinhé, Mato de Cão, Gambaná, Finete, a estrada agora enviesa em torno da bolanha, já se passou a ponte sobre o Geba, segue-se pela Bantajã Mandinga, de certeza que ali à direita é o caminho para Fá, já junto a Bambadinca é certo e sabido que temos Santa Helena, mas vamos estrada fora, inflecte-se à esquerda, contorna-se o velho porto e até a estrada que o Tangomau fez vezes sem conta, subindo ou descendo a pé, e lá no alto avista-se um arremedo de mercado ou feira, pergunta-se onde vive Fodé Dahaba, um adolescente entra no jipe e encaminha os viajantes para a morada demandada.

Diga-se em abono da verdade que o reencontro é comovente, há gente entre os Dahaba, os Fati e os Sanhá que lacrimejam ou incitam à coragem, entre gritos e clamores, nisto de reencontros o chorar é explícito, consentido, partilhado.
O Sr. Sabino a tudo isto assiste estupefacto, ninguém viera até hoje à Embaixada para se lançar nos braços de antigos combatentes, preparado para calcorrear lugares ermos, manda a sabedoria da vida que há sempre uma primeira vez para ver e até acreditar no que os olhos vêem.


O Príncipe Samba, o meu querido amigo Albino Amadu Baldé, que vive em Sinchã Indjai, perto do Xitole, deixou ao Tangomau esta carta amorosa. Foi o suficiente para que, na manhã seguinte, a caravana dos camaradas da Guiné se deslocasse ao Xitole… É tão bom que alguém nos escreva uma carta tão bonita!

5. A carta enviada há semanas atrás é lida em voz alta, como se de edital se tratasse. As viaturas são apresentadas, o Tangomau olha transido para duas viaturas semiarruinadas, com carências impossíveis mesmo numa Roménia ou Bulgária: vidros esmagados, partidos e presos com fita-cola; farolins desaparecidos; capôs boquiabertos, mostrando o interior arruinado; bancos esfarrapados, adaptáveis a qualquer contingente, e mais que se sabe acerca de viaturas que se movem por milagre. No mínimo, o Tangomau aguarda que esse milagre dure todo tempo da estadia. Fodé dá ordens para o dia seguinte:

“Amanhã o Calilo vai-te buscar às 8 da manhã, há milícias de Finete que querem falar contigo, depois vamos visitar a minha família aqui, seguimos depois para Amedalai. Depois vamos ao Xime e a Ponta Varela. É impossível irmos à Ponta do Inglês, a estrada está cheia de água. A mesma coisa entre Amedalai e Demba Taco. Tem paciência”.

O Tangomau tem paciência. Já cumprimentou meio mundo, como não tem o caderno à mão não fixou nomes que se irão tornar tão comuns como Braima, Madjo, Aliu, Fatu ou Nhalim. Calilo no que resta de uma Renault Express leva-o até ao Bairro Joli, é em casa da família Semedo que se vai aboletar. É melhor ficar por aqui. É que muito há a dizer sobre o Bairro Joli e esta quinta que Inácio Semedo ergueu com tanto amor, muito antes da guerra. O importante é saber que a bola de fogo paira sobre os palmares de Finete quando ele é acolhido no Bairro Joli. E por hoje, ponto final.
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Notas de CV:

(*) Vd. Postes de:

7 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7397: Operação Tangomau (Mário Beja Santos) (3): O segundo dia em Bissau
e
9 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7410: Operação Tangomau (Álbum fotográfico de Mário Beja Santos) (2): Dia 20 de Novembro de 2010

Guiné 63/74 - P7416: Os Nossos Seres, Saberes e Lazeres (24): Primeira parte do filme do meu tempo de tropa (Alcides Silva)

1. Mensagem de Alcides Silva (ex-1.º Cabo Estofador, CCS/BART 1913, Catió, 1967/69), com data de 13 de Novembro de 2010:

Amigos,
Envio um pequeno vídeo com o início de tropa até ao Natal de 1967 já na Guiné.
Não passa de uma pequena história do tempo passado imaginada por fotografias. Entretanto vou preparar a 2.ª parte com imagens até ao fim do tempo do Ultramar.
Se entenderem inserir no Blog podem faze-lo porque o vídeo está livre.

Um abraço à Tabanca Grande
Alcides

Para aceder ao filme, clicar aqui
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 10 de Junho de 2010 > Guiné 63/74 - P6570: Parabéns a você (120): Alcides Silva, ex-1.º Cabo Estofador da CCS/BART 1913 (Editores)

Vd. último poste da série de 7 de Agosto de 2010 > Guiné 63/74 - P6833: Os Nossos Seres, Saberes e Lazeres (23): José Brás, há muitos anos, elemento activo do Grupo de Forcados de Vila Franca

Guiné 63/74 - P7415: (Ex)citações (118): A propósito do vídeo da ORTF sobre a Op Ostra Amarga: "As imagens que vi, foram uma espécie de murro no estômago e cimentaram a admiração que nutro por todos aqueles que sentiram o silêncio bem no meio do capim" (Miguel Sentieiro)

1. Miguel Sentieiro, professor de educação física, em Torres Novas, filho de um camarada nosso (o ex-Cap Cav, hoje coronel reformado, comandante da CCAV 2485, José Sentieiro) enviou-nos, em tempos (9 de Fevereiro de 2007),  o seguinte comentário, inserido no poste P2249 (*), e que achámos oportuno agora divulgar...  Aliás, é estranhamente o único comentário que lá consta, ao fim destes 3 (três) anos...
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Guiné > Região do Cacheu > Bula > BCAV 2862 (1969/70) > 18 de Outubro de 1969 > Imagem da reportagem Guerre en Guinée, que passou na televisão francesa, a ORTF,  em 11 de Novembro de 1969, no programa Point Contrepoint [, Ponto Contraponto].

Foto: INA - Institut National de l' Audiovisuel (2006) /  Cópia pessoal de Virgínio Briote 
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Na altura,  o detalhadíssimo relato do making of deste vídeo, da ORTF, sobre a Op Ostra Amarga (um poste meu e do Virgínio Briote, que custou muitas horas de trabalho, de pesquisa, de contactos com alguns dos protagonistas,  e de edição), passou completamente despercebido por parte (ou pelo menos não mereceu a devida atenção) dos nossos camarigos e demais membros da nossa Tabanca Grande (*)... 

Estranhamente, têm-nos chegado à nossa caixa de correio, se não todos os dias, pelo menos com alguma regularidade, nestes últimos meses, mails de tipo Spam com avisos do tipo "Vídeo nunca visto sobre a guerra colonial na Guiné, feita por uma equipa da televisão francesa" ou "Guiné - Guerra colonial - Vídeo nunca antes divulgado"... 

E depois acrescenta-se mais detalhes, incompletos, imprecisos ou até errados: "Cenas arrepiantes... É o único filme feito na Guiné que apanhou uma sequência real de guerra. Os jornalistas franceses que seguiam nesta patrulha, mandada executar para que eles tomassem conhecimento com o dia a dia das NT estacionadas em Bula [, CCAV 2487, pertencente ao BCAV 2862, Bula, 1969/70], um pouco a N do Rio Mansoa, apanharam um 'cagaço', mas registaram algo que mais nenhum registou. Se não estou errado, ia também uma jornalista" [,Geneviève Chauvel,]  (...). 

E acrescenta o autor do último mail que recebi: (...) "A emboscada que as NT sofreram, não estava 'no programa', mas isto era o que podia acontecer sempre que se saía para o mato (...). O Spínola, com a seu ajudante de campo (era ainda o Almeida Bruno) e o Cmdt do Batalhão de Bula [, ten cor Morgado,] foram lá, mal tiveram conhecimento do que tinha acontecido" (...).

Na altura, em Fevereiro de 2007, eu e o Virgínio Briote fizemos a tradução da sinopse do filme (que é falado em em francês), de cerca de 14 minutos (mais exactamente 13' 58''), e incluímos um link para o sítio onde está alojado, o INA: Guerre en Guinée  [ Guerra na Guiné]: Carregar aqui para ver o filme; estamos autorizados pelo INA  a inserir um link do filme mas não a disponibilizá-lo directamente no blogue; o Virgínio pagou, do seu bolso, o direito a télecharger o filme, para uso pessoal...). Já revi este notável documento várias vezes e sempre com a mesma emoção... No sítio do INA, este vídeo tem mais de 37 mil visualizações...





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Foto à direita: De costas, o Capitão de Cavalaria José Maria Sentieiro, comandante da CCAV 2485, que por impedimento do comandante da CCAV 2487, foi encarregue de dirigir a Op Ostra Amarga. Imagem obtida momentos após a emboscada que custou dois mortos à CCAV 2487. Cópia da imagem do Paris-Match, nº 1071, de 15 de Novembro de 1969 .
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2. Comentário do Miguel Sentieiro (*)
Caro Luis Graça:
Não sou um camarada da Guiné, mas graças a si consegui decifrar melhor o video que o meu pai (José Sentieiro) me facultou há pouco tempo. Tenho 39 anos e não tinha nem tenho a perfeita noção do que todos vocês passaram na guerra colonial. 
O DVD que vi, facultou-me provavelmente a imagem mais esclarecedora que algum dia vi da guerra. Os grandes planos das caras dos homens após a emboscada e o silêncio entrecortado por gritos de dor, não surgem nas grandes produções americanas sobre a guerra do Vietname que todos estamos habituados a ver. 
As imagens que vi, foram uma espécie de murro no estômago e cimentaram a admiração que nutro por todos aqueles que sentiram o silêncio bem no meio do capim. 





Um abraço, Miguel Sentieiro






Os 2 Gr Comb da CCAV 2487, comandados pelo Cap Cav José Sentieiro sofrean uma emboscada do IN na região de Pecuré, a noroeste de Bula,sofrendo 2 mortos e 1 ferido. (**)


[ Revisão / fixação de texto / bold a cor / título: L.G.]
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Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de  8 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2249: Vídeos da guerra (2): Uma das raras cenas de combate, filmadas ao vivo (ORTF, 1969, c. 14 m) (Luís Graça / Virgínio Briote)

Vd. também os postes relacionados:

 8 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2250: Vídeos da guerra (3): Bastidores da Op Ostra Amarga ou Op Paris Match (Bula, 18Out1969) (Virgínio Briote / Luís 

Graça)

15 de Dezembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2351: Vídeos da Guerra (6): Uma Huître Amèrepara a jornalista francesa Geneviève Chauvel (Virgínio Briote / Luís Graça)

(**) Sobre este Batalhão, BCAV 2868:

Mobilizado pelo RC 7, partiu para a Guiné em 23/2/1969 e regressou a 30/12/1970. Esteve em Bissau e Bula. Era comandado pelo Ten Cor Cav José Machado Alves Morgado. Unidades de quadrícula:  CCAV 2485, 2486 e 2487.

A CCAV 2485 esteve em Cacheu, Bula, Ponta Augusto  de Barros, Bula, Pete e Bula. Era comandado pelo Cap Cav  José Maria de Campos Mendes Sentieiro.

A CCAV 2486 passou por Teixeira Pinto, Bula, Pete e Bula.  Foi comandada pelo Cap Cav João Soares de Sá e Almeida e pelo Alf MIl Inf  JoséManuel Duarte Fernandes.

Por fim, a CCAV 2487  esteve em Cacheu, Bula, Ponta Augusto  de Barros, Bula, Ponta Augusto  de Barros e Bula. Comandantes: Cap Mil Cav  João Caetano de Almeida de Lima Quintela e Cap QEO José António Caiomoto Duarte

Guiné 63/74 – P7414: Controvérsias (115): Os BCAÇ 4612: Um de 1972 e outro de 1974 (Agostinho Gaspar)


1. O nosso camarada Agostinho Gaspar, ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas da 3ª CCAÇ do BCAÇ 4612/72, Mansoa, 1972/74, enviou-nos a seguinte mensagem/esclarecimento:
Camarigos tertulianos e leitores do blogue,

Lendo e relendo os comentários dos postes P7393 e 7388, deste blogue, verifiquei que há muitas dúvidas, quanto à existência de dois batalhões com o mesmo número.

Não venho em defesa do nosso camarigo Magalhães Ribeiro, mas sim responder a alguns comentários que estão um pouco longe da verdade e com certas dúvidas quanto à informação prestada.
O BCAÇ 4612/72 (digo72) esteve instalado em Mansoa, desde Novembro de 1972 a Agosto de 1974 (a CCS e a 3ª CCAÇ – a que eu pertencia -, ficaram estacionadas em Mansoa, a 1ª CCAÇ esteve em Porto Gole e a 2ª CCAÇ no Jugudul).
O meu BCAÇ 4612/72 foi rendido, já com a comissão cumprida, em Agosto de 1974, pelo BCAÇ 4612/74 (repito74).
Parece um pouco estranho ter o mesmo número, só o ano foi mudado.
Se alguns dos camarigos tiverem alguma explicação para esta repeição do número, porque estamos a falar de dois Batalhões diferentes, era bom que nos esclarecesse.
Recorrendo à relação de pessoal do meu batalhão, daqueles que embarcaram juntos, nela não consta o embarque de um dos comentaristas que assinou: Manuel Ramires.
Não o conheço e muito menos ouvi falar dele.
Seria dos piras do 4612/74?
Será algum pombo correio desviado de algum pombal, para tapar algum buraco em Mansoa?
Manuel Ramires, se pertenceste mesmo ao mansoanca BCAÇ 4612/72, dá um passo em frente e fala-nos sobre a tua estadia em Mansoa, para que eu, com todo o meu respeito, te possa estender a mão para o cumprimento de mansoanca para mansoanca.




Emblemas das duas CCS. À esquerda, o emblema da CCS do BCAÇ 4612/72 e, à direita, o emblema da CCS do BCAÇ 4612/74
Um abraço,
Agostinho Gaspar
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Nota de M.R.:
Vd. último poste desta série em:

Guiné 63/74 - P7413: Parabéns a você (185): Fernando Barata, ex-Alf Mil da CCAÇ 2700, Dulombi, 1970/72 (Tertúlia / Editores)

1. De acordo com o alerta do Facebook, hoje, 10 de Dezembro de 2010, está de parabéns o nosso camarada Fernando Barata*, ex-Alf Mil da CCAÇ 2700, Dulombi, 1970/72.

Assim, não pode a Tabanca deixar de vir aqui saudar o nosso camarada Barata, desejando-lhe um agradável dia de aniversário junto de seus familiares e amigos.

Que esta data seja festejada por muitos anos, plenos de saúde e alegria, são os votos dos editores deste Blogue e dos restantes camaradas.


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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 4 de Fevereiro de 2007 > Guiné 63/74 - P1494: Tabanca Grande: Fernando Barata, ex-Alf Mil da CCAÇ 2700 / BCAÇ 2912

Vd. último poste da série de 9 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7408: Parabéns a você (184): Agradecimento de Jorge Teixeira (Portojo), ex-Fur Mil do Pel Canhões S/R 2054

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Guiné 63/74 - P7412: Efemérides (59): 1.º aniversário do lançamento do livro História de Portugal em Sextilhas, de Manuel Maia

1. Mensagem de Manuel Maia* (ex-Fur Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4610, Bissum Naga, Cafal Balanta e Cafine, 1972/74), com data de  9 de Dezembro de 2010:

Carlos,
Se puderes (peço desculpa por fazê-lo tão em cima) gostaria que editasses este pequenino texto de uma só sextilha àqueles que mais contribuiram para que o meu livro fosse um facto.

Falta-me o mail do Luís Graça e o do Hélder Valério. Vou mandar-te já a seguir o do editor, sr. Adelino.
Não sei se poderás acrescentá-los.

De qualquer forma eles sabem que estão, juntamente com vocês aqui enumerados, no lote dos bons amigos.

Abraço
manuelmaia


Zé Brás, Vinhal, Valério e Luís,
Rosales, Belarmino, Zé Dinis
o grande Vasco, editor Adelino...
Faz hoje um ano e grato, aqui vos digo,
sextilhas deste vosso camarigo,
sem vós seriam mero desatino...


2. Recordemos então o lançamento da História de Portugal em sextilhas, de autoria do nosso camarigo Manuel Maia, no dia 9 de Dezembro de 2009, no Restaurante Milho Rei, por gentileza dos nossos camaradas da Tabanca de Matosinhos.

Os volumes da História de Portugal em Sextilhas, expostos na sala.
Foto JT

Belarmino Sardinha e a esposa Antonieta assinam o quadro de honra da Tabanca de Matosinhos.
Foto de JT.

Vasco da Gama tentando usar da palavra.
Foto JT

Hélder Sousa, Manuel Maia e José Manuel Matos Dinis no momento em que se cantavam os parabéns ao Jorge Teixeira.
Foto de BS

Manuel Maia agradecendo emocionado a manifestação de amizade de que estava a ser alvo.
Foto JT
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 6 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7390: Blogpoesia (94): Pesadelo (Manuel Maia)

10 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5441: Agenda cultural (50): Apresentação do livro História de Portugal em Sextilhas, de Manuel Maia, na Tabanca de Matosinhos

Vd. último poste da série de 8 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7404: Efemérides (57): Cerimónia da transição da soberania nacional na Guiné (4) (Magalhães Ribeiro)

Guiné 61/74 - P7411: PAIGC - Quem foi quem (10): Amélia Araújo, conhecida coloquialmente, entre a tropa portuguesa, como a Maria Turra, locutora da Rádio Libertação (Nelson Herbert)

1. Comentário de Nelson Herbert ao poste P7393 (*)


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(...) "Estiveram presentes nessa cerimónia os militares da CCS do Batalhão 4612/74 comandada pelo Major Ramos de Campos, o Cmdt do mesmo batalhão, Cor  António C. Varino, um bi-grupo de combate do PAIGC,  um grupo de pioneiros do mesmo partido, Amélia Araújo (Maria Turra), Ana Maria Cabral (viúva de Amílcar Cabral) (...), vários comandantes dos sectores norte, centro e sul do PAIGC  e suas mulheres, o comissário político do PAIGC,  Manuel Ndinga,  e em representação do CEME do CTIG o Ten Cor Fonseca Cabrinha.  (....)" [Eduardo Magalhães Ribeiro] (**)
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Maria Turra... era a Amélia Araújo, angolana de origem, casada com o militante e dirigente politico do PAIGC, José Araújo, que até ao 14 de Novembro de 1980 foi um dos altos responsáveis do PAIGC na Guiné.


Com a ruptura do projecto Unidade..., a família Araújo parte para Cabo Verde, onde José Araújo assume as pastas de ministro da educação e mais tarde da justiça... José Araújo faleceu há uns anos em Cabo Verde...


A Amélia Araújo continua ainda hoje a residir em Cabo Verde (...).


Para um trabalho de pesquisa,versando a Rádio Libertação, tenho inclusive agendado,  para breve,uma entrevista a propósito com a Amélia Araújo... (**)


Nelson Herbert
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Notas de L.G.:


(*)  Vds. poste de 6 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7393: Efemérides (55): Cerimónia da transição da soberania nacional na Guiné (2) (Magalhães Ribeiro)


(**) Vd. poste de 6 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7388: Efemérides (54): Cerimónia da transição da soberania nacional na Guiné (1) (Magalhães Ribeiro)


(***)  Ainda sobre a Maria Turra, Maria Turra, a locutura da Rádio Libertação, do PAIGC... Seguramente a locutora mais popular... entre os militares portugueses... vd. postes de


7 de Fevereiro de 2008 > Guiné 63/74 - P2510: Estórias do Juvenal Amado (2): O boato: nós, o Sardeira e a Maria Turra (J. Amado, CCS/BCAÇ 3873, Galomaro, 1972/74)

 11 de Janeiro de 2008> Guiné 63/74 - P2430: História de vida (9): Um dia negro, na estrada Galomaro - Saltinho (Juvenal Amado, CCS/BCAÇ 3872)


1 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2235: Maria Turra, a locutora do PAIGC, que faz(ia) parte do vosso imaginário, era(é) a Amélia Araújo (Diana Andringa)



(...) 1. Mensagem da Diana Andringa, respondendo a dúvida nossa sobre a identidade da famosa Maria Turra que faz(ia) parte do imaginário dos soldados portugueses que estiveram no TO da Guiné... Para uns era a mulher e depois viúva do Amílcar Cabral; para mim, seria uma angolana que aparece no filme As Duas Faces da Guerra... Afinal, era (é) tão somente a Amélia Araújo, diz a Diana... (LG)

Ui, que confusão!

Maria Turra era (é, porque está viva, em Cabo Verde) Amélia Araújo, natural de Angola, casada com o cabo-verdiano José Araújo, esse já falecido. No filme ouvimos a voz dela, em nova, a anunciar a emissão da Rádio Libertação e filmámo-la este ano, a ler, em estúdio, uma mensagem de Amílcar Cabral aos soldados portugueses.

A mulher do dr. Manuel Boal - outro natural de Angola - era Maria da Luz (Lilica) Boal, nascida em Tarrafal de Santiago. Essa sim, dirigiu a Escola Piloto em Conacri, trabalhou nos manuais escolares, etc. Filmámo-la em casa, em Cabo Verde, tal como o marido.

Tanto os Araújo como os Boal estavam em Portugal em 1961 e fizeram parte do grupo que, nesse ano, fugiu de Portugal, com o apoio de oganizações protestantes, do qual muitos se foram juntar aos movimentos de libertação dos respectivos países. O dr. Boal começou por se juntar em Leopoldville ao MPLA para, mais tarde, quando este foi forçado a saír da cidade, ir ter com a mulher a Dakar e colaborar com o PAIGC.

Quanto ao dr. Mário Pádua - que desertou do Exército colonial em Angola e veio a ser médico do PAIGC, no Hospital de Ziguinchor, onde tratou o soldado Fragata - não sei se era casado na altura. (...) Saudações, Diana (...)



27 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2223: A nossa Tabanca Grande e as Duas Faces da Guerra (12): A minha luta diária com a Maria Turra, no HM241 (Carlos Américo Cardoso)


(****) Último poste da série PAIGC - Quem foi Quem3 de Abril de 2010 > Guiné 63/74 - P6102: PAIGC - Quem foi quem (9): Abdú Indjai, pai da Cadi, guerrilheiro desde 1963, perdeu uma perna lá para os lados de Quebo, Saltinho e Contabane (Pepito / Luís Graça)

Guiné 63/74 - P7410: Operação Tangomau (Álbum fotográfico de Mário Beja Santos) (2): Dia 20 de Novembro de 2010

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Dezembro de 2010:

Malta,
Peço desculpa pela demora no envio do meu registo referente ao dia 20 de Novembro.

Aproveito para pedir uma alteração: sempre que se escreve Azulai deve constar Azalai. Procurei escrever todos os nomes alusivos à imagem. Nem sempre andava bem dormido, por vezes a mente vagueava por outros sítios, peço desculpa por certas imprecisões.
Agora vou acabar o relato do dia 20, em que me aboletei no Bairro Joli, por incrível que pareça fiquei num 2º balcão a olhar para a bolanha de Finete, a avistar os palmeirais de Chicri e a supor que, um pouco mais à frente, e se eu estivesse num 20º andar, era possível desfrutar os meandros do Geba frente a Mato de Cão.
A partir de 21 acabou-se o turismo vadio, as passeatas erráticas. O déspota do Fodé vai tomar conta de mim, do Bambadincazinho até ao Xime, e daqui até ao Xitole. Depois procurei emancipar-me, já era tarde, mas ainda fugi de casa deste pai tirano, andei de motocicleta pelos territórios do antigo inimigo. Eu vou contar…

Um abraço do
Mário


OPERAÇÃO TANGOMAU - ÁLBUM FOTOGRÁFICO (2)

Dia 20 de Novembro de 2010

Antes de partir para a Embaixada de Portugal, onde almoçou, o Tangomau percorreu o Cais do Pidjiquiti. Dada a hora, havia pouco movimento. Mas por este cais passaram quase todos aqueles que desembarcaram nos paquetes que saíam da Rocha do Conde de Óbidos. Hoje é um puro espaço destinado a pescadores e chegadas e partidas de transporte fluvial. O Tangomau encontrou uma vedeta militar, mas é completamente interdito registar equipamentos militares de todos os tipos, formas e feitios…

A estrada de Santa Luzia tornou-se multiusos: tem comércio, edifícios de habitação, pequena indústria, sedes de ONG, serviços. Não passava pela cabeça do Tangomau encontrar uma agência funerária com matraquilhos à porta. Dito e feito, lazer e passamento sincronizados…

Estava interdito fotografar o edifício do Estado-Maior General das Forças Armadas, reduzido a escombros. Fotografou-se uma relíquia, uma guarita de controlo na estrada que dava acesso ao quarteirão da messe de oficiais e respectivos alojamentos. De referir que o muro do QG está lá, de pedra e cal

A messe de oficiais transformou-se no vestíbulo e recepção do Hotel Azalai, o último grito hoteleiro da Guiné-Bissau. O Tangomau cirandou e gostou. Afinal, até encontrou vestígios de bangalós e da piscina. Para que conste.

Uma messe de oficiais reciclada. Era um espaço de lazer com sofás, armários, bilhar, mesas para escrever. Falando por si, o Tangomau expediu aqui várias dezenas de aerogramas. Agora mudou de look e natureza. Assim tivesse acontecido com muitíssima outra arquitectura do período colonial.

Foi piscina dos oficiais, dos hóspedes do Hotel 24 de Setembro, aparece agora retocada para a inauguração do Hotel Azalai. Tem beleza e quem organizou este espaço foi feliz com o traçado do meio envolvente.

Cerca envolvente do Hotel Azalai. É melhor que os hóspedes fiquem defendidos de ver o Bairro de Santa Luzia degradado, havia ali casas bem bonitas, agora campeia a fealdade.

Os caldos Maggi estão a fazer furor na Guiné. O Tangomau encontrou esta publicidade quando descia a Pansao N’Isla a caminho da Baixa de Bissau. Até a mulher do Fodé Dahaba mandou o Tangomau comprar uma caixa das grandes para preparar a mafé no almoço de confraternização, em 25 de Novembro: vários quilos de arroz e de carne, especiarias, incluindo caldos Maggi. Seguramente que a mulher do Fodé Dahaba é uma estrela!

Isto é o estado actual do Mercado Central de Bissau. O embaixador Henriques da Silva garante que houve destruições no conflito político-militar 1998-1999. O que disseram ao Tangomau é que houve um incêndio há alguns anos atrás. Com guerra ou incêndio, perdeu-se um espaço que dava muita vida à Baixa de Bissau. O comércio faz-se à volta deste espaço, mas não é a mesma coisa.

Estado actual do Restaurante Pelicano, tinha uma vista esplendorosa sobre o Ilhéu do Rei. Fica numa encosta que dá acesso à fortaleza da Amura. No blogue, temos registado um postal com o interior do Restaurante Pelicano. Paz à sua alma!

Guarita do edifício do Comando da Defesa Marítima da Guiné. O Tangomau nunca esquecera este pormenor, viera aqui em Junho de 1969, tinha encontro marcado com o comandante Avelino Teixeira da Mota, acabaram por jantar num barco pejado de fuzileiros que iam de madrugada fazer um golpe de mão no Baio, perto do Burontoni. Hoje, o edifício pertence à Armada da Guiné-Bissau. O Tangomau, quando visitou a Ponta do Inglês, quis ir ao Burontoni e ao Baio, mas era uma grande distância, a luz caminhava para o ocaso. Mais uma razão para voltar à Guiné…

Quando o Tangomau se apresentou em Bambadinca (mais propriamente no Bambadincazinho) tinha o Fodé à espera, com uma cartilha interminável de recomendações. Ei-lo aqui, sorridente, tinha o “irmãozinho” para dar ordens, o Fodé é o mais sinuoso mandão ao cimo da terra. A seu lado, no comité de recepção, Madiu Colubali, antigo soldado milícia de Missirá e Aidja, a primeira mulher de Fodé, o ser mais paciente que o Tangomau conhece…

Fotos: © Mário Beja Santos (2010). Direitos reservados.
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 7 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7397: Operação Tangomau (Mário Beja Santos) (3): O segundo dia em Bissau

Vd. primeiro poste da série de 5 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7384: Operação Tangomau (Álbum fotográfico de Mário Beja Santos) (1): Dias 18 e 19 de Novembro de 2010

Guiné 63/74 - P7409: Contraponto (Alberto Branquinho) (20): A granada de morteiro que veio jantar

1. Mensagem do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-Alf Mil de Op Esp da CART 1689, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), com data de 7 de Dezembro de 2010, com o seu habitual Contraponto:

Caríssimo Carlos Vinhal

Aí vai o Contraponto (20) - a história de uma "partida" de uma granada ou de uma granada que não (se) partiu.

Com um abraço do
Alberto Branquinho


CONTRAPONTO (20)

A GRANADA DE MORTEIRO QUE VEIO JANTAR

Aconteceu na nova Messe de oficiais do Batalhão, de construção recente. Era coberta de chapas de zinco, assentes numa estrutura de barras de ferro que faziam as quatro águas. No interior tinha um tecto falso em contraplacado de madeira.

O jantar estava a ser iniciado. O capelão já tinha feito a oração prévia (ritual que tinha introduzido logo no dia da sua chegada). Os que não o acompanhavam aguardavam, de pé, que terminasse.

Sentados já, começaram as conversas habituais.

O soldado que servia à mesa já circulava com a grande terrina metálica da sopa, segurando-a com a mão esquerda por uma das asas e encostando-a ao tronco, no lado esquerdo. Com a robusta concha militar colocava no prato de cada um a dose desejada, respeitando posições e galões.

Num repente pararam as conversas.

- POOU!! POOU!! POOU!!

Três “saídas”!!! Sabe-se lá se de canhão, se de morteiro pesado.

Voou a terrina da sopa, mais a concha, mais a sopa, ao mesmo tempo que todos corriam para os seus postos e responsabilidades, tentando alcançá-los antes de as granadas rebentarem, que sabe o diabo onde seria.

As “saídas” continuavam em bom ritmo: - POOU!! POOU!! POOU!! POOU!!.....

Uns, sem missão especial, correram directamente para as valas e abrigos, outros iriam, antes disso, buscar as G3 e carregadores, outro para os morteiros, um para os canhões, posto de rádio e… os mais “afortunados” tinham que se armar, esperar o ajuntamento dos seus pelotões atrás de uma parede que estivesse em oposição ao fogo e, depois, sair a correr, debaixo do fogo, pela porta de armas, para ir ”cortar” itinerários no exterior, que davam acesso às tabancas próximas.

Entretanto, começavam a rebentar as primeiras granadas (umas perto, outras longe e, talvez, uma ou duas dentro do quartel) e instalava-se um pandemónio de correrias e gritos por todo o lado.

Depois de o ataque acabar e serenado o ambiente, inspeccionadas valas e abrigos, de lanternas na mão, feita inspecção ao terreno, visitado o posto socorros, feito o “inventário e balanço”, o pessoal, em geral, quase retomava a normalidade.
Os que estavam fora, depois de fazerem reconhecimento das tabancas e reportarem através do “rádio-banana”, recebiam ordem para recolher.

Os oficiais começaram a regressar à Messe para “comer qualquer coisa”. Notaram uma forma escura no chão, a cerca de metro e meio da cadeira do Comandante do Batalhão.

Aproximaram-se. Era uma granada de morteiro, que, caindo de lado, se anichara no cimento, com a empenagem bem cravada no chão. Olhando o tecto de madeira prensada, lá estava o buraco que tinha feito. Teria, também, furado (sem rebentar) a chapa de zinco da cobertura.

O alferes sapador olhou-a cuidadosamente, andando à volta dela e desarmou-a.

Chegado o Comandante, mandou colocar a granada no local.

Foi feita uma caixa de madeira com tampo de vidro, que ficou a tapá-la.
Foi em Catió.
Lá ficou. O pessoal dos Batalhões seguintes tê-la-ão visto.

Felizmente não (se) partiu e… ficou para jantar.

Alberto Branquinho
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 30 de Novembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7361: Contraponto (Alberto Branquinho) (19): Já que se falou de heróis