sábado, 11 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16192: Efemérides (230): O 10 de junho de 2016, em Belém: um herói vivo, cor inf cmd Raul Folques e um grupo de grã-tabanqueiros que não costumam faltar a este convívio de antigos combatentes, entre outros, António Fernando Marques, Arménio Estorninho, Carlos Silva, E. Magalhães Ribeiro, Fernando Jesus Sousa, Francisco Silva, João Carlos Silva, Joaquim Nunes Sequeira, José Nascimento, Mário Fitas, Miguel & Giselda Pessoa, e Silvério Lobo


Foto nº 1 > Um herói vivo, o cor inf comando ref Raul Folques, com os seus 76 anos, condecorado em 9/10/2015 com o Grau Oficial, com Palma, da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito.

Recorde-se, de acordo com o respetivo sítio Oficial, na Net,. que a "Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito é a mais importante Ordem Honorífica portuguesa", destinando-se "a galardoar méritos excecionalmente distintos no exercício das funções dos cargos supremos dos órgãos de soberania ou no comando de tropas em campanha. Da mesma forma, premeia feitos excecionais de heroísmo militar ou cívico e atos ou serviços excecionais de abnegação e sacrifício pela Pátria e pela Humanidade."


Foto  nº 2 > Mário Fitas e Raul Folques


Foto nº 3 > Raul Folques com duas crianças a quem o pai fez questão de apresentar e mostrar um "herói vivo", português, de Portugal... Na escola, já não se fala de heróis, muito menos vivos, e muito menos da "guerra do ultramar"... Temos dificuldade em lidar com o nosso passado recente em relação ao qual vai demorando o aparecimento de uma terceira via, mais suave, mais assertiva, mais despojada de emoções, entre  as duas leituras, redutoras e extremadas do "10 de junho", do nosso espectro político-ideológico, a da extrema direita (discreta nas habitualmente presente neste espaço simbólico)  e a da extrema esquerda (completamente ausente)...


Foto nº 4 >  O nosso coeditor e "ranger" Magalhães Ribeiro, membro, este ano, da organização do XXIII Encontro Nacional de Combatentes... Um dos "últimos soldados do império",  que continua a ser um combatente dedicado e generoso.


Foto nº  5 > O Magalhães Ribeiro, de Matosinhos, nunca falta ao 10 de junho em Belém... Não me lembro de nunca o ter visto nos anos anteriores, mesmo sendo eu presença irregular nestes eventos que, confesso, me deprimem, desde sempre: este ano já éramos menos, até por causa da ponte (longa, de 6ª feira a 2ª feira, em Lisboa)... 

Cada vez seremos menos, e daqui a dez anos, vamos todos em cadeira de rodas, os que tiverem o privilégio ou a sorte de lá chegar... Recordo sempre o provérbio popular que diz: "Muita saúde e pouca vida, que Deus não dá tudo"... Não foi Deus que disse que "a sorte protege os audazes". Usemos (,mas não abusemos de) a  sorte...

Entretanto, o mundo  pulou e avançou e já ninguém terá pachorra para ouvir falar da "guerra do ultramar".... Esta é que é a verdade "nua e crua"... Até lá, daqui a 10 anos, compete-nos continuar a viver, a sobreviver e a mostrar, aos mais novos, que fomos uma grande geração... que soube fazer a guerra e a paz!... Fizemos a guerra, os nossos representantes tinham que saber fazer a paz... Não a fizeram, não quiseram ou não a souberam fazer, tivemos nós, afinal,  que saber fazer a guerra e a paz... 

Quem, daqui a 100 anos, nos vai acusar de quem fomos incompetentes nos dois tabuleiros? Camaradas, não nos compete fazer parte do tribunal da história... Fomos nós que a fizemos, a história, não nos compete escrevê-la... Mas não cedamos à chantagem daqueles que nos querem calar, à esquerda, ao centro ou à direita... Acho que é isso que estas fotos querem dizer...


Foto nº 6 > O Núcleo de Sintra da Liga dos Combatentes, representado pelo nosso grã-tabanqueiro (nº 608)  Joaquim Nunes Sequeira... Pela 23ª vez, levando o guião do Núcleo de Sintra. A seu lado, o nosso "gandulo" Mário Fitas.


Foto nº 7 > João Carlos Silva, ex-1º cabo especialista MMA, da FAP (BA 6, Montijo, 1979/82), que nos dá a honra de se sentar à sombra do poilão da nossa Tabanca Grande, desde 22/2/2009.  Aqui com o  guião da AEFA - Associação dos Especialistas da Força Aérea.

Também encontrei o Victor Barata,  fundador, administrador e editor do blogue Especialistas da BA 12, Guiné 1965-74, e nosso grã-tabanqueiro da primeira hora, mas infelizmente esqueci-me de tirar uma foto com ele (e o irmão)... Transmitiu-me uma ideia que fica aqui registada: as relações entre os especialistas MMA, da BA 12, Bissalanca, com os pilotos, nomeadamente dos Fiat G-91,  eram boas, mas poderiam ter sido excelentes... É uma opinião.  Mas eu poderia dizer o mesmo: a distância (social), no Exército, entre os combatentes e os seus comandantes (nomeadamente a nível de batalhão) era, em  geral, muito grande e talvez perniciosa.

 Os nossos oficiais superiores, nomeadamente no exército, nunca perceberam que essa distância podia comprometer, irremediavelmente, o desempenho operacional. Com a exceção de Spínola, ao nível dos generais, e talvez das tropas especiais (BCP 12, fuzileiros, etc.), ninguém, percebeu ou estava interessado em perceber isso; que um líder é aquele que vai à frente, mostrando o caminho...

Nunca tive um comandante de batalhão que me mostrasse o caminho, e a única vez em que um tenente coronel alinhou ao meu lado, no mato, fui eu, fomos nós, que lhe mostrámos o caminho. Esse oficial superior chamava-se Polidoro Monteiro, mas contavam-se pelos dedos os líderes militares, os grandes comandantes operacionais, como o Raul Folques, o Alpoim Calvão ou o capitão Comando graduado Bacar Jaló ou o ten cor pqdt Araújo e Sá...  Ao nível dos graduados subalternos, milicianos (oficiais e sargentos), a seleção e a formação não terão sido menos desastrosas... Em suma, fomos todos entregues aos bichos... Ou melhor, e para não ser tão radical: às vezes, eu tive a sensação de que estávamos entregues aos bichos...


Foto nº 8 > A banda da GNR - Guarda Nacional Repúblicana, que abrilhantou a cerimónia


Foto nº 9 > Aspeto parcial dos participantes e do Monumento aos Combatentes do Ultramar


Foto nº 10 > O casal mais "strelado" do mundo: o Miguel e a Giselda Pessoa (atrás, de óculos)


Foto nº 11 > Da direita para a esquerda; o Francisco Silva, o "nosso" cirurgião ortopedista, o algravio Arménio Estorninho (ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, CCAÇ 2381, Ingoré, Aldeia Formosa, Buba e Empada, 1968/70),  mais outro camarada que veio com ele. e que esteve em Porto Gole com o Jorge Rosales (lamentavelmente, não fixámos o seu nome)


Foto nº 12 > Ao centro o Mário Fitas, nas pontas o José Nascimento (CART 2520) e o Arménio Estorninho (CCAÇ  2381)




Foto  nº 13 > O Silvério Lobo, mais um camarada da sua companhia (de quem também não fixei o nome mas que, segundo o Hèlder Sousa, é o Lino Rei, de Pinhal Novo)


Foto nº 13 > O José do Nascimento e o Arménio Estorninho, dois camaradas  do Barlavento algarvio, mais exatamente de Lagoa, que também é a terra do António Camilo. 


Foto nº 14  > O Fernando de Jesus Sousa,  bedandense,  DFA... > Depois de uma livro aubiográfico vai lançar um de poesia proximamente, lá para novembro,,,


Foto nº 15 > Carlos Silva e António Fernando Marques



Foto nº 16 > Luís Graça e António Fernando Marques, dois velhos camaradas da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, 1969/71)


Foto nº 17 > O guião da AVECO - Associação dos Veteranos Combatentes do Oeste, com sede na Lourinhã


Foto nº 18 > Em primeiro plano, o António Basto, um dos dirigentes da AVECO


Foto nº 19 > Acabadas as "hostilidades", reconfortada a alma, matadas as saudades, é preciso alimentar o corpo: o piquenique da malta da AVECO.

Lisboa, Belém, Forte do Bom Sucesso, Monumento aos Combatentes do Ultramar > XXIII Encontro Nacional de Combatentes >  10 de junho de 2016 > Alguns camaradas com quem falei e a quem fotografei...

Fotos (e legendas): © Luís Graça (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
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Guiné 63/74 - P16191: Efemérides (229): O 10 de junho de 2016, em Belém: diz o "alfero Cabral", sempre bendito entre as mulheres, que hoje era muito mais difícil a um homem escolher a arma e a especialidade...(Mário Fitas, ex-fur mil inf op esp, CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67)



Foto nº 1  > O nosso "alfero Cabral" na Marinha ? 


Foto nº 2 > O nosso "alfero Cabral" no Exército  ? 


Foto  nº 3 > O nosso "alfero Cabral" na Força Aérea« ? 


Foto nº 4 > O O nosso "alfero Cabral" na Milícia? 


"Foto com o ex alferes de artilharia Dr. Jorge Almeida Cabral e Maldu Jaló, natural de Catió,  e que combateu comigo no sul da Guiné, fazendo parte da Milicia do João Bacar. — em Belém, Lisboa, Portugal, forte do Bom Suceeso, 10 de junho de 2016".

Fotos do Mário Fitas (ex-fur mil inf op esp, CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67).


Fotos (e legendas): © Mário Fitas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

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Nota do editor:

Último poste da série > 9 de junho de 2016 >  Guiné 63/74 - P16181: Efemérides (228): Programa do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, dia 10 de Junho, em Leça da Palmeira

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16190: (In)citações (92): Uma troca trágica (Francisco Baptista, ex-Alf Mil)

1. Mensagem de 20 Maio de 2016, do nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72):


UMA TROCA TRÁGICA

Há cerca de cinco anos entrei numa confraria gastronómica, irregular, já que embora os seus associados se juntem para almoçar, todas as quartas-feiras, em restaurantes que vão variando, num raio de alguns quilómetros, com epicentro em Leça da Palmeira, não obedecem a nenhuma formalidade ou obrigação dessas confrarias existentes por esse país fora. Não há sede, não há estatutos, não há lugar ao pagamento de quotas, nem jóia de entrada, não há órgãos impostos ou eleitos, não há trajes próprios. Entra-se nela por uma porta larga, que nos abre qualquer um dos seus frequentadores, e a partir daí passamos a ter direito a frequentá-la quando quisermos e a levar os amigos que entendermos. Terá sido formada há algumas décadas por profissionais de um grande hospital, médicos, enfermeiros, técnicos, administrativos e outros amigos do exterior. Todos amantes da boa comida, da boa bebida e da “jolda” que é o convívio divertido e um pouco excessivo que as mães, as irmãs, as namoradas e esposas sempre censuraram nos jovens ou nos mais velhos, porque não querem entender esse aspecto “deles” que os afasta delas, e faz parte da sua natureza irrequieta, que se prolonga pela vida fora, que os junta em folguedos, que vão variando com a idade, onde as raparigas ou as mulheres não cabem. Talvez reminiscências dos tempos pré-históricos, quando eram caçadores e longe dos povoados e das mulheres, comiam à volta da fogueira o primeiro javali que caçavam. Os “Bandalhos”, nossos ilustres camaradas da Guiné, alguns tais como eu, sócios da Tabanca de Matosinhos, outros independentes, que eu estimo, respeito e admiro celebram e encenam muito bem essas festas.

Desse grupo inicial só já restam três, um técnico, um administrativo com mais de setenta anos e um empresário com quase noventa. O último médico, um camarada com grande sensibilidade poética e totalmente integrado no espírito do grupo pelas suas vivências passadas e recentes, morreu há seis meses, quando já todos pensávamos que tinha ultrapassado uma doença grave que o tinha atacado. Os outros foram saindo, a maior parte também empurrados pela morte, que a todos nos há-de levar para o mundo das trevas e do esquecimento ou para o céu, reservado aos crentes e felizardos. Dentre os amigos que o frequentam ou por já lá passaram, identifico, entre outros, dois médicos, um arquitecto, um técnico de engenharia, dois mecânicos, um chapeiro, dois motoristas, dois comerciantes com lojas abertas na baixa do Porto, o dono de um ginásio, dois enfermeiros, seis funcionários públicos, pequenos empresários, um lavrador, um padre, um cangalheiro, um antigo jogador de futebol, africano de Angola, um polícia, dois guardas-fiscais e um pequeno empresário analfabeto. Há um camarada da Guiné que afirma que em 1966 ele e outros estiveram perto de apanhar à mão o próprio Amílcar Cabral.

Dentre todos o mais assíduo é o amigo Figueira, que também poderia ser Nogueira, Cerejeira, Oliveira, Pereira, pelos seus hábitos de poupança, que por brincadeira, alguns (eu incluído) classificam de sovinice, pois todos esses nomes podem esconder antepassados judeus. O Figueira, um dos três fundadores que restam desta tertúlia, viúvo há dez anos, foi na vida adulta Chefe de Serviços nesse grande hospital. Justiça lhe seja feita, será poupado mas não é sovina, pois a casa dele está à sempre aberta a todos para prolongar o convívio depois dos almoços e tem sempre, nozes, figos, queijinhos ou outros acepipes para acompanhar um copo de vinho que ele oferece da garrafeira dele, ou que alguém leva. Por vezes, para festejar os anos de alguém ou outro acontecimento, os almoços são mesmo feitos, por alguns “cozinheiros” do grupo, na casa dele.

Pela sua simplicidade, naturalidade, boa disposição, bonomia e amizade, que sabe repartir sabiamente com todos, é muito apreciado e estimado e dá muita coesão a esse grupo anárquico, que não tendo um dirigente se revê no carácter e nas qualidades morais desse amigo que nunca quis ser director, sargento, capitão, general ou presidente de junta.

Para além das grandes propriedades agrícolas que herdou dos pais, herdou também o sentido do dever, da honra, da palavra e a fé religiosa de um católico praticante e tradicional, cumpridor de todas as obrigações religiosas inerentes, sem nunca pôr em causa as verdades e dogmas da Igreja.

Não gosta de ler ou escrever, a televisão aborrece-o tal como a internete, tendo bastante habilidade manual, gosta de fazer alguns arranjos ou trabalhos de carpintaria, serralharia, de agricultura, em que foi criado, ou outros.

Com a idade a balançar entre os setenta e os oitenta, o que ele aprecia sobretudo é o convívio com os amigos e com as pessoas em geral, sem ser exigente em relação à riqueza ou à pobreza dos seus semelhantes, ou à condição social mais baixa ou mais elevada, é também muito tolerante em relação aos defeitos e manias de cada um. Frequenta outra confraria mais formal, que me parece reunir “os ilustres” duma grande freguesia, essa com sede, na qual mensalmente se reúnem para almoçar. É convidado ainda de uma outra confraria internacional ainda mais elitista, onde as senhoras dos importantes da sociedade gostam de mostrar os vestidos, os casacos, as carteiras e sapatos que estão na moda, e que nos passeios e banquetes que organizam, fazem uma recolha de dinheiro para ajudar os pobrezinhos de todo o mundo. Em festas anuais, S. João, Carnaval, Passagens de Ano e outras, junta-se muitas vezes com as famílias dos grandes lavradores do Porto e dos arredores, em grandes jantares de convívio.

Para além dos almoços de grupo, vou também almoçar uma vez por semana a sós com ele, pelo prazer da sua companhia e porque sei também que nessas horas sente muito a solidão em que ficou com a morte da sua companheira. Entre cinco e oito euros encontramos tascos ou restaurantes que servem uns almoços razoáveis com tudo incluído, outras vezes até cozinhamos em casa dele. Muitas vezes juntam-se ainda um ou dois amigos. Gosto de falar com ele sobre as coisas simples da vida como por exemplo os trabalhos agrícolas que fazíamos na nossa adolescência e juventude. Eu, filho de lavradores “remediados” de Trás-Os-Montes e ele filho e mais tarde genro, de lavradores abastados de duas grandes freguesias de Matosinhos.

A “Maínça” era, ainda assim se conserva, uma veiga extensa, de terra funda, onde não falta sequer um riacho que a atravessa, que além de milho, vinho, batatas, couves, feijões e outras hortaliças, produzia tantas cebolas e cenouras que ele, outro irmão e quatro trabalhadores contratados, passavam dias e dias a lavá-las e arranjá-las para serem transportadas diariamente em carros de bois para o mercado do Bolhão, no Porto, numa viagem que só na ida demorava mais de uma hora. Mais tarde a Câmara do Porto proibiu a circulação de carros de bois na cidade e o pai dele viu-se obrigado a comprar uma carrinha para fazer esse transporte.

Há algum tempo, num desses almoços, os dois a sós, falámos das andanças que ainda garotos tínhamos que fazer por terrenos distantes da povoação e os medos que isso provocava, pela solidão, por vezes agravada pelas trovoadas e outras vezes pela escuridão nocturna. Eu confessei que tive que fazer um grande esforço mental e psicológico para me adaptar a essas situações e vencer esses medos. Ele, que só raramente era sujeito a essas situações pareceu-me que nunca os conseguiu dominar razoavelmente. Talvez tenha sido por isso que eu aproveitei para lhe fazer uma pergunta que nunca lhe tinha feito sobre a tropa e a guerra do Ultramar.

Em resposta ele disse-me que no inicio de 1963 foi convocado para fazer a recruta e como não tinha dado as habilitações literárias que lhe poderiam ter dado acesso ao curso de sargentos milicianos, foi como soldado para o Regimento de Infantaria de Viana. Pela sua educação e pelo seu espírito cordato, que não terá passado despercebido aos seus superiores, depois da recruta e da especialidade foi colocado na secretaria do regimento, durante muito tempo a fazer, segundo disse, as ordens de serviço e outros trabalhos afins. Entretanto ao saber que iria ser mobilizado para Angola, falou com outro soldado do ano de 1962, que se prontificou a ir no seu lugar, a troco de cem contos que os seus pais disponibilizavam. Nesse tempo cem contos era uma grande quantia de dinheiro que daria para construir uma casa ou comprar um apartamento, portanto representavam um começo de vida aliciante para um jovem com poucos recursos. Na altura própria, os cem contos foram pagos ao seu camarada que acabou por embarcar para Angola no seu lugar.

Pelo conhecimento que tenho dele, atrevo-me a afirmar que ele teve realmente muito medo da guerra do ultramar e a sua estratégia, ao não dar as habilitações literárias, foi no sentido de conseguir, no caso de ser mobilizado, a troca mais barata, que seria sempre entre soldados, possivelmente já com o apoio dos pais. Penso ainda que só revela este facto da vida dele quando confrontado com uma pergunta directa sobre a sua vida militar, além do mais porque as consequências foram trágicas para o camarada que fez a troca. Segundo afirmou, um outro camarada disse-lhe que esse jovem que teve a ambição honesta de ganhar cem contos para um começo de vida mais desafogado, morreu numa emboscada, no território dessa Angola imensa, no norte, no leste ou no sul, não sabe precisar. Disse-me por fim que terá mesmo morrido pois, palavras dele “cheguei a escrever-lhe uma carta e nunca obtive resposta”. Conhecendo a sua religiosidade, penso que ainda hoje se continua a lembrar dele nas orações que faz ao Deus dos cristãos.

Cá ou lá, todos tivemos medo. Dos que nunca embarcaram nos cais dos lenços brancos do adeus, alguns fugiram, outros desertaram, outros pagaram para ser substituídos, como este meu amigo. Dos que partiram, ainda houve alguns que desertaram e outros que se mutilaram, outros aguentaram por vezes com os nervos à flor da pele, outros tiveram premonições de morte e morreram, outros tiveram falsas premonições de morte e regressaram, outros morreram em grande sofrimento, outros sem um ai deixaram cair a cabeça no meio do mato ou do capim e adormeceram para sempre. Eu, que estive lá, não julgo ninguém, a psicologia da guerra e dos medos é uma matéria difícil para compreensão e análise de um qualquer curioso.

Gosto muito do meu amigo Figueira e gostaria também de saber que o camarada que o substitui em Angola ainda será vivo e feliz no meio dos filhos e dos netos, na casa que tinha construído algures com cem contos. A nossa vida com o passar de alguns anos marca o início da nossa morte que se vai anunciando logo após a juventude pelo envelhecimento físico, com o aparecimento de rugas, cabelos brancos, as calvícies mais ou menos acentuadas, com entradas à frente, ao meio da cabeça (parece uma coroa de padre) como no meu caso ou carecas quase totais, os órgãos internos vão enfraquecendo com a progressão dos anos e nós vamos disfarçando essas falhas com remédios e mezinhas no silêncio sigiloso dos consultórios médicos. As marcas das nossas falhas, dos nossos êxitos, das nossas fraquezas, da nossa energia, dos nossos erros, dos nossos crimes, das nossas virtudes, dos nossos pecados, dos acontecimentos fastos e nefastos ficam registados na página branca da nossa alma e irão adoçar ou atormentar a nossa vida futura. Não sei avaliar em que medida a morte desse nosso camarada, que morreu numa emboscada em Angola, ficou registada na memória espiritual do meu amigo Figueira, mas atendendo à bondade e humanismo do seu carácter, é natural que o tenha marcado com uma cicatriz que ainda magoa.
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Nota do editor

Último poste da série de 25 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16134: (In)citações (91): "Um gajo não sabe o que foi a guerra colonial", diz Marcos Cruz, filho do Dr. Adão Cruz, um dos médicos do BCAÇ 1887 (Francisco Baptista, ex-Alf Mil)

Guiné 63/74 - P16189: E as nossas palmas vão para ... (12): Patrício Ribeiro, o "pai dos tugas", empresário em Bissau, português com P grande, que esperamos um dia destes ver condecorado no 10 de junho pelo presidente da República Portuguesa de todos os portugueses


Guiné-Bissau > Região do Oio  > Farim,  2014 > O Patrício Ribeiro,com o o filho, os dois rostos da empresa Impar Lda  

Fotos: © Patrício Ribeiro (2014). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]

1. O nosso grã-tabanqueiro Patrício Ribeiro, de 68 anos de idade, português de Águeda, vivido, crescido, educado e casado em Angola, Nova Lisboa / Huambo, antigo fuzileiro naval, que retornou ao "Puto" depois da descolonização, fixando-se entretanto na Guiné-Bissau, há 3 décadas, país onde fundou a empresa Impar Lda, líder na área das energias alternativas, é daqueles portugueses da diáspora que nos enchem de orgulho e nos ajudam a reconciliarmo-nos com nós mesmos e afugentar o mau agoiro dos velhos do Restelo como aquele que acabei de ouvir em Belém, esta manhã, no XXIII Encontro Nacional de Combatentes. (Diga-se, de passagem, contrastando, no conteúdo, no espírito e na forma, com os discursos positivos, portadores de esperança no futuro e de afirmação da capacidade dos portugueses, tanto do prof João Caraça como do presidente da República, no Terreiro do Paço, nas cerimónias oficiais do 10 de junho).

O Patrício Ribeiro é um homem discreto, que cultiva o "low profile", não precisando de se pôr em bicos de pés para mostrar que é alto e grande.  A diplomacia (política e económica) portuguesa ainda não o descobriu. E se calhar ele já fez mais por Portugal e pela Guiné-Bissau do que muitos diplomatas de carreira para quem ir parar a Bissau não é uma honra, ´é antes um percalço, senão mesmo um castigo...

Desconheço se as autoridades portuguesas alguma vez reconheceram e agradeceram o seu papel (heróico!) durante a guerra civil guineense de 1998/99,  quando o Patrício se meteu numa canoa, 30 km pelo mar dentro, à procura da fragata Vasco da Gama!..,

A epopeia deste navio de guerra (e  de outros meios navais envolvidos) tem vários heróis, um deles chama-se Patrício Ribeiro e ao fim de quase duas décadas está na altura do palácio de Belém se dar conta da existência deste "obscuro" empresário português que, antes de ser um empresário, de resto, de sucesso, é um, português com P grande. (Acrescente-se que foi uma das operações mais bem sucedidas, das nossas Forças Armadas, a do resgate de cerca de 3500 refugiados, portugueses, guineenses e de outras nacionaldiades (**). Era embaixador de Portugal na Guiné-Bissau o nosso camarada e grã-tabanqueiro Francisco Henriques da Silva, que teve um papel de relevo na ligação com os militares portugueses. Esta operação faz agora 18 anos!).

Patrício, senhor futuro comendador, espero poder abraçar-te, feliz e com lágrimas, no próximo 10 de junho de 2017. A ti, e ao João Crisóstomo, o "nosso agente em Nova Iorque".


2. A história de vida deste bairradino, herdeiro dos nossos melhores de antanho, está aqui resumida numa recente reportagem da RTP Notícias, e do seu correspondente em Bissau, Luís Fonseca,  que, "na contagem decrescente para o 10 de Junho encontrou um português que ajuda a resolver os constantes problemas de falta de eletricidade", enquanto "a Guiné-Bissau vive um período de instabilidade política com consequências no dia a dia da população"-

http://www.rtp.pt/noticias/mundo/portugues-resolve-problemas-de-eletricidade-na-guine_v924011

Obrigado, Patrício, aqui ficam os teus contactos;

Patricio Ribeiro
IMPAR Lda
Av. Domingos Ramos 43D - C.P. 489 - Bissau , Guiné Bissau
Tel,00245 966623168 / 955290250
www.imparbissau.com
impar_bissau@hotmail.coma
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Notas do editor:

(*) Último poset da série > 1 de fevereiro de 2016 > Guiné 63/74 - P15694: E as nossas palmas vão para... (11): Catarina Gomes, a nossa amiga jornalista do "Público" que venceu o Prémio Rei de Espanha, na categoria imprensa escrita, com o trabalho "Quem é o filho que António deixou na Guerra?"... (Trata-se da segunda parte de um trabalho, iniciado em 2013, sobre os "Filhos do Vento")

(**) Vd. Guiné em Tróia a ferro e fogo A operação que levou a Marinha à Guiné, em 1998, é mais do que uma memória: é um exercício militar para testar a capacidade de reacção rápida. Correio da Manhã, 18/02/2007.

Guiné 63/74 - P16188: Nota de leitura (846): “Jornada de África”, por Manuel Alegre, versão de 2003, edição conjunta da Visão e Publicações Dom Quixote (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 28 de Julho de 2015:

Queridos amigos,
As incursões de Manuel Alegre pela guerra saldaram-se em poesia de primeiríssima água e neste romance histórico, documental e apologético, um frente a frente entre o épico e o ético ocupa todo o espaço, o espectro de Alcácer Quibir é omnipresente, sufocante.
Romance autobiográfico? Parece não subsistirem dúvidas. Há para ali parágrafos descomunais, um camoniano póstumo, combativo e altivo. Um brado contra a besta apocalíptica, uma explicação por ter feito uma guerra e partido depois para a denunciar, como se estivesse a preparar a libertação de Portugal e as suas colónias.

Um abraço do
Mário


Jornada de África, por Manuel Alegre

Beja Santos

Não é a primeira, e não será a última vez, que se sai deliberadamente do território da guerra da Guiné para visitar outros, às vezes a comparação é útil e não faz bem desconhecer alguns arrojos literários que têm vindo a engrandecer todo este subgénero que continua a dar provas de vida prolongada e de um envelhecimento vivacíssimo.

Manuel Alegre, reconhecido unanimemente, é autor do mais extraordinário poema até hoje publicado “Nambuangongo, meu amor”. Mas não foi só na lírica que Manuel Alegre se exprimiu sobre a guerra, há um romance histórico de que não nos podemos abstrair, “Jornada de África”, que teve a sua primeira edição em 1989, e a versão que hoje mostramos é de 2003, edição conjunta da Visão e Publicações Dom Quixote.

A dimensão épica entrecruza-se com a ética, o escritor giza todo o seu trabalho exibindo uma pauta de valores, assumindo os seus ideais, esgrimindo pelas suas damas, acalorando-se quando vê o patriotismo ameaçado. “Jornada de África” é seguramente um romance histórico, é uma viagem pelas lutas nacionalistas africanas com destaque para Angola; temos aqui um romance onde se rendilha uma elaborada ficção em muita realidade e porventura havemos de contar com dados autobiográficos, aquela Coimbra dos anos 60, aquela vida estudantil, aquela atividade oposicionista são testemunhos presenciais do autor da “Praça da Canção”.

Tudo vai ser urdido em torno de uma outra jornada em África, a de D. Sebastião e com quem ele viveu e com ele morreu no desastre de Alcácer Quibir. Esta jornada também tem nobreza, uma outra nobreza e uma outra fidalguia de sentimentos. Tudo começa em Dezembro de 1960, o chefe da PIDE em Angola foi visitar Salazar, informou-o de que está iminente uma comoção e um tumulto sociais sem precedentes, Salazar sentencia que é preciso deixar andar, impõem-se sacrifícios, o país tem que ser despertado e o Ocidente tem que se definir. O herói chama-se Sebastião e vai para a guerra, descobre Luanda na companhia de amigos, como Jorge Albuquerque Coelho. Passado e presente são obra de imisção, desembarca na Ilha de Luanda e:
“Vem-lhe à memória o ritmo de uma prosa antiga, é a Relação do Naufrágio da Nau Conceição de que era capitão Francisco Nobre, a qual se perdeu nos Baixos de Pero dos Banhos aos 22 dias do mês de Agosto de 1555”. Sendo um romance histórico, vai ilustrando factos relevantes para o desencadear da guerra, caso do ataque de 4 de Fevereiro. Sebastião vê viaturas e socorre-se de imagens poéticas: cavalos destemperados, cavalos à solta pela picada fora, tal como jipes e jipões, unimogues e GMC’s.

Estabelecem-se contactos entre oficiais, o capitão Garcia tem a lição bem estudada, explica aos neófitos os porquês daquela guerra subversiva, haverá troca conflituosa de palavras entre ele e Sebastião. Mesmo Alcácer Quibir faz parte de senha e contrassenha para encontros clandestinos, e depois a unidade de Sebastião vai fazer instrução operacional para lado dos musseques, esperava-os uma mina. Estamos em 1962, o autor procura enquadrar o que se está a passar em Angola com factos e feitos em certos pontos do globo. Somos informados da elevada tensão entre o General Venâncio Deslandes e Adriano Moreira. Lázaro Asdrúbal, o chefe da PIDE em Angola, volta à cena, fala-se em interrogatórios, torturas bestiais. Sebastião vai para a guerra, nas Sete Curvas morre-lhe um amigo, levou um tiro de quem só alveja oficiais. Os desastres repetem-se, os amigos morrem ou ficam estropiados. Os diálogos são trepidantes, as relações sexuais intensas, tal como no sonho camoniano também existe uma Bárbara que se irá apaixonar por Sebastião. E em 1 de Novembro de 1962 Sebastião escreve de Nambuangongo a Bárbara, é um mistério descortinar se estamos perante um trecho épico ou um magnífico volteio poético:
“Camões decassilaba-se em mim. Até por carta ele se assobia. Ninguém voltará a escrever o português assim. Tudo nele canta: as consoantes e as vogais, o com e o que. Na sua escrita há índias e naufrágios, o Tejo, a despedida, Portugal a partir-se em cada sílaba, infantas, putas, prisões baixas. Aquele ver quanto a vaidade em nós se encerra e nos próprios quão pouca. Tanta guerra, tanto engano. Ele peregrinou-se na vida e na palavra, de certo modo Nambuangongo já estava nele. E aquelas guerras nossas que nesta guerra desaguam. Por isso assobia em mim ao fazer desta, junto a um duro monte, porém não seco.
Há aqui uma loja onde se matam sedes, raivas, medos. Uma igreja, casernas improvisadas, ruínas, restos. Tudo cercado por arame farpado.
Nambuangongo é um lugar símbolo. Se reparares, a própria palavra soa como um dítono, um intervalo entre dois sons, o da vida e o da morte. Aqui se está suspenso e o tempo todo cabe num só tom e num só som: tiro ou mina. Em certas noites silva: então é um morteiro.
Tenho de ti um desejo que é mais do que esta dor de querer entrar em ti e não poder. Gostaria de me meter no aerograma e aterrar de repente onde tu sabes. Faz de conta que vou de corpo inteiro, a alma já está contigo”.

Estaria preparada uma sublevação de militares a favor de Venâncio Deslandes, foi descoberta, os conspiradores recambiados para outros lugares. Sebastião está debaixo de olho da PIDE. Subitamente, Sebastião passou a preocupar a hierarquia, descobriu que o Capitão Gouveia durante uma operação cometeu atrocidades, matando velhos, mulheres e crianças indefesos. Um tenente-coronel conciliador alvitra que ele vá fazer uma operação militar, terá tempo para esclarecer dentro de si se deve incriminar o Capitão Gouveia. Manuel Alegre acelera a ação, todos os personagens estão em movimento, vai num jipe a caminho de Quipedro e a seu lado alguém lhe entrega uma folha de papel onde está escrito: “Há outro Portugal, não este. E sinto que tinha que passar por aqui para o encontrar. Não sei se passado, não sei se futuro. Não sei se fim ou se princípio. Sei que sou desse país: um país que já foi, um país que ainda não é”. E eclode uma emboscada, os guerrilheiros do MPLA cercaram o grupo de Sebastião, eles lançam-se para a frente, os guerrilheiros retiram, provisoriamente. E tudo recomeça e Sebastião avança sozinho, a sua tropa está desorientada, o nosso alferes já não se vê. Nunca mais voltará a ser visto.

E assim termina este romance enigmático, uma jornada catastrófica, um homem que não quebra a espinha, que não aliena valores, um democrata que não recusou fazer a guerra e que não esconde a ninguém que aquela guerra é uma doença. E desaparece, tal como o outro Sebastião, em Alcácer Quibir.
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Nota do editor

Último poste da série de 6 de junho de 2016 Guiné 63/74 - P16170: Nota de leitura (845): Estudos Sobre a Economia do Ultramar, por José Fernando Nunes Barata, publicado em 1963 pela Biblioteca do Centro de Estudos Político-Sociais (Mário Beja Santos)

Guiné 63/74 - P16187: Caderno de Poesias "Poilão" (Grupo Desportivo e Cultural dos Empregados do Banco Nacional Ultramarino, Bissau, Dezembro de 1973) (Albano de Matos) (15): "País Natal", de António Baticã ferreira (nascido, em 1939, no Cachungo, médico)



Guiné > Bissau > Julho de 1972 > Duas crianças na avenida narginal, junto ao cais do Pidjiguiti. Foto  nº 48 do álbum fotográfico de Francisco Gamelas,ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Cachungo / Teixeira Pinto, 1971/73).

Foto (e legenda): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Detalhe da capa da brochura Caderno de Poesias "Poilão", edição limitada a cerca de 700 exemplares, policopiados, distribuídos em dezembro de 1973 e  fevereiro de 1974, em Bissau. (*)

In: Caderno de Poesias "Poilão". Bissau: Grupo Desportivo e Cultural (GDC) dos Empregados do Banco Nacional Ultramarino, dezembro de 1973. (Cadernos de Poesia). Policopiadp,  p. 33.



1. Quando  o  então tenente de artilharia Albano de  Matos, do BA 7 e dedois do QG/CTIG, natural de Castelo Brancp.   dá as mãos a Aguinaldo de Almeida, caboverdiano, empregado do BNU -  Bissau e responsável pelo respetivo Grupo Desportivo e Cultural (GDC)   para lançar uma coleção de poesia, de que o o "Poilão" foi o 1º e único número, estava longe de imaginar que esta edição, artesanal, policopiada, ia ter algum impacto na pacatíssima vida cultural da pequena capital da Guiné, em dezembro de 1973, a escassos meses do  fim da guerra. O "Poilão" acabou por ser a primeira ou uma das primeiras antologias de poesia guineense. Albano de Matos já explicou o "making of" do "Poilão":


(...)  Nos inícios do mês de Dezembro de 1973, ao ler o jornal «Voz da Guiné», deparei com um escrito de Agostinho de Azevedo, alferes miliciano, creio que chefe de redacção do jornal, insinuando que não havia poesia na Guiné. Respondi com um escrito, «O Despertar da Guiné», dizendo que havia poesia na Guiné e que, em breve, iríamos ter um Caderno de Poesias, com o título de «Poilão», a designação de uma árvore sagrada na Guiné. Depois da publicação do primeiro número, seriam publicados cadernos de poesia de um só autor.

No Grupo Desportivo de Cultural do BNU, conheci guineenses e cabo-verdianos que faziam poesias e pedi originais para colaboração em «Poilão», que ainda guardo no meu arquivo. Juntei 24 poemas de 4 poetas da Guiné, 3 de Cabo Verde e 4 de Portugal.

De modo artesanal, fiz 300 exemplares do caderno. Dactilografei os poemas, imprimi-os em duplicador, dobrei as folhas e agrafei-as em capa de cartolina, esta impressa em tipografia, com desenho do poilão da autoria de um alferes miliciano, do Batalhão de Transmissões.


Os 300 exemplares do Caderno de Poesias «Poilão», editado pelo Grupo Desportivo e Cultural do Banco Nacional Ultramarino, esgotaram-se na noite do lançamento. Sem preço de capa, cada pessoa dava a importância que queria. O preço por unidade foi de 20$00 a 100$00.

Por minha proposta, o dinheiro angariado foi doado à Leprosaria da Cumura, nas proximidades de Bissau. Preparei, então, mais 400 exemplares que se esgotaram num dia. Havia apetência para a Poesia na Guiné. Eu apercebi-me desse facto. (...) 

António Baticã Ferreira, nascido no Cachungo (Texeira Pinto), em 1939, estudou em França (, onde fez o liceu em Paris), e formou.se em medicina, na Suiça, na Universidade de Lausana, Sabemos que exerceu a atividade no Hospital de Santa Maria. Não sabemos se vive em Portugal. E se continua a escrever. O Albano de Matos disse-me que conheceu o guineense Baticã Ferreira, médico, "na Sociedade da Língua Portuguesa, que lhe publicou uma colectânea de poesia  (*Poesia & Ficção")-


De  qualquer modo, António Baticã Ferreira é um dos quatro poetas guineenses presentes nesta antologia. Reproduzimos aqui o seu poema, "País Natal". Na altura era já um poeta e escritor com obra publicada.

Tanto quanto sabemos (ou podemos presumir), era filho (ou parente) do régulo Joaquim Baticã Ferreiar, uma das figuras com peso político no tempo dos últimos governadores da Guiné (Arnaldo Schulz, António Spínola e Bettencourt Rodrigues).

Joaquim Baticã Ferreira foi miseravelmente fuzilado, sem julgamento,  em 10 de março de 1976, pelo PAIGC, no seu próprio chão, o chão manjaco, na presença da sua própria família.  Dizem que enfrentou o pelotão de fuzilamento com grande bravura e dignidade.

É bom, chamar os bois pelos cornos: isto passou-se no tempo  de Luís Cabral, um líder fraco, que foi incapaz de segurar os "irãs maus" do seu movimento, numa altura em que aparentemente ele tinha todas as condições, internas e externas, para fazer da Guiné-Bissau um país novo que fosse orgulho da África, da Humanidade e da Lusofonia...

Em contrapartida, os Baticã Ferreira continuam a ser, na Guiné-Bissau, uma família ilustre, dando exemplos de liderança esclarecida, que é o que a Guiné-Bissau precisa hoje, "a par do pão para a boca"... LG
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Nota do editor:

Último poste da série > 10 de junho de  2016 > Guiné 63/74 - P16186: Caderno de Poesias "Poilão" (Grupo Desportivo e Cultural dos Empregados do Banco Nacional Ultramarino, Bissau, Dezembro de 1973) (Albano de Matos) (14): dois poemas ("Letargia da carne" e "Escravidão", de Armando Lopes, natural do Porto)

Guiné 63/74 - P16186: Caderno de Poesias "Poilão" (Grupo Desportivo e Cultural dos Empregados do Banco Nacional Ultramarino, Bissau, Dezembro de 1973) (Albano de Matos) (14): dois poemas ("Letargia da carne" e "Escravidão", de Armando Lopes, natural do Porto)



Detalhe da capa da brochura Caderno de Poesias "Poilão", edição limitada a cerca de 700 exemplares, policopiados, distribuídos em fevereiro de 1974, em Bissau. (*)

A obra é editada em dezembro de 1973, por iniciativa do Grupo Desportivo e Cultural (GDC) dos Empregados do Banco Nacional Ultramarino (A história do GDC dos Empregados do BNU remonta à a 1924).



1. Considerada a primeira antologia da poesia guineense, esta edição (hoje rara) deve muito à carolice, ao entusiasmo, à dedicação e à sensibilidade sococultural de dois homens: 

(i) o Aguinaldo de Almeida, caboverdiano, funcionário do BNU, infelizmente já falecido; era o coordenador da secção cultural do Grupo Desportivo e Cultural dos Empregados do BNU - Banco Nacional Ultramarino, Bissau; 

e (ii) o nosso camarada Albano Mendes de Matos (hoje ten cor art ref; tenente art, GA 7 e QG/CTIG, Bissau, 1972/74; "último soldado do império", é natural de Castelo Branco, e vive no Fundão; é poeta, romancista e antropólogo) [, foto a seguir, em Bissau, em 1972/73].

A antologia reune 24 poemas de 11 poetas (guineenses, caboverdianos e metropolitanos, neste caso militares em servi no TO da Guiné, em 1973-74).




Albano Mendes de Matos (hoje ten cor art ref; tenente art, GA 7 e QG/CTIG, Bissau, 1972/74). Há dias soubemos notícias dele.. Aqui vai um excerto de uma mensagem de 16 de maio último: 

Caro Luís: há um ano que ando nos médicos. Duas operações à coluna, fisioterapia, pé pendente... Mas está a passar. Conduzo o carro e faço a vida normal.

O Valdemar Rocha morava em Padrão, Rebordosa, mas creio que actualmente reside em Gondomar. Vou comunicar-lhe. Aqui vai o Endereço do Valdemar [...]  O Jales está em Mondim de Basto, creio que na Câmara. Endereço do Jales de Oliveira [....]. Só há uns 3 anos tive contactos com o Jales.

Há uns anos, a professora Inocência Mata, de São Tomé, fez uma apresentação de «Poilão», no Centro Nacional de Cultura, numa sessão sobre Literatura Africana de Expressão Portuguesa. Ofereci-lhe o Caderno.

Vou enviar-te uns apontamentos de Angola e Guiné, que me serviram na apresentação do meu livro «Meninos de Mucanda», no Programa «Fim do Império», na Livraria Verney, em Oeiras.
Grande abraço do Camarada Albano Mendes de Matos.


O Luís Jales de Oliveira é membro da nossa Tabanca Grande desde 21 de janeiro de 2008. Foi  fur mil trms inf,  Agrup Trms de Bissau e CCAÇ 20 (Bissau e Gadamael Porto, 1972/74). Continua a escrever e a publicar. Falaremos dele (e dos seus livros) muito em breve. (***)




O Albano Mendes de Matos era sócio da UDIB - União Desportiva Internacional de Bissau


2. Hoje publicamos mais dois poemas. desta antologia: são de Armando Lopes, sobre o qual sabemos que era "estudante, natural do Porto", de passagem pela Guiné, onde estava a cumprir o serviço militar (no GA 7), tal como Valdemar Rocha e Jales de Oliveira. Não sabemos qual o seu paradeiro atual.



Recorde-se que o editor literário desta antologia e ele próprio poeta,  Albano Mendes de Matos, passou pelo  GA 7 e QG/CTIG, Bissau, no período de 1972/74, como tenente da arma de artilharia: foi o "último soldado do império" (**); é  natural de Castelo Branco, vive no Fundão. 



 


Armando Lopes, pp. 30-32




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Guiné 63/74 - P16185: Parabéns a você (1094): Alcides Silva, ex-1.º Cabo Estofador do BART 2913 (Guiné, 1967/69)

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Nota do editor

Último poste da série de 9 de Junho de 2016 Guiné 63/74 - P16178: Parabéns a você (1093): Ernesto Duarte, ex-Fur Mil Inf da CCAÇ 1421 (Guiné, 1965/67)

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16184: Convívios (753): XII Encontro do pessoal da CART 1742 ("Os Panteras"), realizado no passado dia 28 de Maio, em Creixomil - Guimarães (Abel Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Abel Santos (ex-Soldado Atirador da CART 1742 - "Os Panteras" - Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69), com data de 7 de Junho de 2016, a propósito do XII Convívio do pessoal da sua Unidade:



XII Encontro da CART 1742 (OS PANTERAS) 
Nova Lamego/Buruntuma 1967/1969

28 de Maio - Creixomil - Guimarães

Apesar da intempérie que se abateu no dia 28 de Maio último na parada do Pavilhão Multiusos de Guimarães, o pessoal da CART 1742 respondeu à chamada do oficial de dia, camarada José Ribeiro, para dar início ao 12.º convívio, cuja chama ao longo dos anos continua acesa com bastante intensidade.

Este ano tivemos a grata surpresa de voltar a rever um camarada Adão que nunca tinha participado, e que desta vez nos honrou com a sua presença. Também pela primeira vez "esteve presente" o furriel Nogueira, representado pelo seu filho, o que para nós foi motivo de uma grande satisfação e alegria, já que a malta nutria por ele um carinho especial. Que descanse em paz.

Em relação ao Adão, conhecido pelo "Valha-me Deus" por ser muito religioso, foi um dos muitos soldados Portugueses que ficaram estropiados, hoje usa uma prótese na perna direita por ter sido vítima da explosão de uma mina anti pessoal, incidente que ocorreu em Janeiro de 1969, durante um reconhecimento na zona de Buruntuma/Camajabá, da qual a CART 1742 era responsável, incluindo a Ponte Caium. O Adão desviou-se do trilho em que estava posicionado, depois de ouvir lá na frente o alerta de mina, acidente que ao ser ainda hoje recordado por este homem, faz correr lágrimas pelo rosto dos seus camaradas e amigos de então.

Depois da chamada da tropa pelo oficial de dia, a companhia deslocou-se em passo de corrida (viaturas) para a Igreja Paroquial de Creixomil, na qual foi celebrada missa pelo Pároco local em memória de todos os combatentes falecidos na guerra do Ultramar Português.

Dali o pessoal dirigiu-se-se para o local do repasto, que já se fazia tarde, onde fomos obsequiados com um lauto manjar minhoto.

Foi mais uma jornada de salutar convívio, e de afirmação castrense, entre camaradas que outrora, lá na terra longínqua da Guiné Portuguesa, se bateram pela sua Pátria, dignificando a sua Bandeira com sangue, suor e lágrimas, que ainda hoje, rebeldes, descem pelas faces como que recordando tempos idos, na qual ainda meninos e moços se transformaram em homens.

Abel, Rui e esposa, Hilário

Mendes, Correia e ao fundo o Peixoto

Olha que quatro, Abel, Maurício, Neto e Oliveira atrás

Alípio, Abel e Barbosa

 O eterno feminino

Foto de família

Hilário, Viola, Nogueira Filho, Adão, Lopes e Alves

Um aspecto da sala, com o Guilherme e esposa

Alferes Figueiredo sempre presente, com a filha

Filho do Furriel Nogueira

Bolo Comemorativo

De salientar ainda a presença das nossas esposas, mães dos nossos filhos, que também sofreram, connosco e em silêncio, as agruras da guerra. Para elas um beijinho de reconhecimento.

Para finalizar o encontro, já o fim do dia se aproximava, foi entregue a todos os camaradas o certificado de presença e uma peça do artesanato local, por sua vez a Junta de Creixomil associando-se ao acto, entregou um guião da sua Freguesia. Para estes autarcas o nosso bem-haja.

Certificado de presença no Encontro

Peça de artesanato

Guião da autarquia de Creixomil

Vivam os Combatentes de Portugal.

Abel Moreira dos Santos
Ex-Soldado At Art da CART 1742 - "Os Panteras" 
Nova Lamego e Buruntuma, 1967/69
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Nota do editor

Último poste da série de 3 de junho de 2016 Guiné 63/74 - P16162: Convívios (752): 11º Convívio da CCaç 1426, 9 de Julho, no Seixal (Fernando Chapouto)