quarta-feira, 8 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16177: Memórias de Gabú (José Saúde) (63): O “ventre” de um espólio raramente conhecido. Passagem de bens alimentícios em armazém.


1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem.

As minhas memórias de Gabu

O “ventre” de um espólio raramente conhecido
Passagem de bens alimentícios em armazém

Numa prosaica viagem pela minha comissão na Guiné, ocorrem-me velhos e estrábicos sentimentos que me levam a uma curta explanação de factos, filtrados obviamente, que se apresentavam como matéria só conhecida por aqueles que no dia-a-dia prezavam pela sua incumbência no interior de um quartel onde existiam, também, substanciais carências. O rancho, porém, lá estava incessantemente sobre a mesa no momento em que a barriga reclamava por um novo reabastecimento.

Neste encadeamento de ocorrências que iam para além do conflito da guerrilha no terreno, e não obstante a dor que me assola o peito por esses tempos já distantes, digo que mantenho ainda comigo uma cópia de um relatório literalmente especificado de uma passagem de bens alimentícios em armazém entre dois furriéis da minha companhia - CCS BART 6523 - que entretanto assumiram a presunçosa função de vagomestre.

Curioso, por que é justo que o citamos, é que ambos foram “atirados” para uma incumbência completamente à parte daquela a que tinham sido submetidos durante o período em que foram mancebos de uma outra especialidade mas que ditou, ao arrepio da verdade, o seu subsequente futuro por terras da Guiné. Um que assumia o cargo desde a nossa chegada a Gabu; o outro a quem foi proposta a possibilidade de substituir o primeiro durante o seu período de férias, 30 dias.

Ainda assim, fica a textura de um documento que descrimina todo o conteúdo do material armazenado e os custos que cada um deles tinham à época. No balanço geral feito à narrativa exposta, oferece-me viajar nas fileiras da ventosidade do tempo e relembrar o “montão de patacão” que os homens que lidavam com os valores sob a sua “divina” proteção mantinham no interior de um quartel onde existiam inevitáveis privações.

Revejo as quantidades, os preços por unidade e o seu subsequente total, assim como os bens nutritivos que por ora eram então averiguados no momento da transição dos artigos de viveres que ambos os furriéis assumiam. Um entregava e outro recebia.

Da listagem observada, existe a certeza que se de um lado estavam os bens depositados do outro os ditos frescos. Ou seja, tudo o que fosse arroz, açúcar, azeite, batata, banha, feijão, grão, massas, vinho, óleo, vinagre, etc, etc, etc, pertencia a um lote, sendo que os frescos eram constituídos pelo frango congelado, peixes e fruta da época, entre outros, mas devidamente faturados.

O distinto documento era completado com as rações de combate, farinha, sal, café e outros bens necessários. Não há registos das compras espontâneas que se articulavam com o quotidiano, isto é, das vacas, dos leitões, dos porcos, dos cabritos, das galinhas, e outros, que concluíam a ementa.

Reportando-me aos números, refiro que a relação dos artigos em escudos era o seguinte: viveres existentes e frescos transportavam 319 986$20; outros viveres 88 587$10. 

Creio que poucos, ou quase nenhuns, dos soldados depositados num quartel onde as “fissuras” de uma peleja teimava em ceifar vidas de jovens em plena idade de puro crescimento, desconheciam o conteúdo real de bens alimentícios que a companhia detinha.

Relembro ainda as famosas patuscadas organizadas pela malta que entretanto comprara um leitão, ou um cabrito, e que depois da sua trivial passagem pelo forno, servia de repasto fino para uma rapaziada que se orgulhava com o distinto acolhimento de um prato bem composto. A acompanhar lá estavam as cervejolas bem fresquinhas.

Relíquias de um tempo sem tempo numa Guiné que despejou em nós um cosmos de emoções.

Fotos de Relatórios, cabrito e cervejas num repasto de uma noite de copos. 


Um abraço, camaradas 
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BRT 6523

Mini-guião de colecção particular: © Carlos Coutinho (2011). Direitos reservados.
___________ 
Nota de M.R.: 

Vd. último poste desta série em: 

6 comentários:

Tabanca Grande disse...


Zé Saúde, experimenta usar o conversor de escudos para euros, do portal Pordata...

http://www.pordata.pt/Portugal [ Conversor para conhecer o valor de um montante (em euros ou em escudos) dos últimos 50 anos, a preços de hoje].


Seleciona o ano de 1974.. E tens estes valores (, estou a partir do princípio que estamos a usar o escudo da metrópole, o patacão da Guiné sobria uma "depreciação" de 10%):

319.896$20 (em 1974) = 51.828,90 € (hoje)

100$00 (em 1974) = 16,2 € (hoje)...

A tua lista é preciosa... Dá uma ideia de quanto custava o "ventre da tropa"...

Tabanca Grande disse...

Supremo luxo: o bacalhau liofilizado, de que havia em "stock", pouco mais de 41 kg, tinha o preço, por quilo, mais elevado da tua lista de víveres: 27,08 €/kg ( a preços de hoje!)...

Quem é que podia comer bacalhau na Guiné ? O Tony Levezinho e os amigos, quando o pai mandava uma remessa do "fiel amigo" pelos navios da Sacor... Nunca me soube tão bem, o raio do bacalhau, como nesse tempo, em Bambadinca (1969/71)...

Tabanca Grande disse...

Era uma guerra barata, aquela... Um homem tinha 24$5o por dia para comer e beber... 3,97 € a preços de hoje...Claro que em 1974 já a inflação comia tudo e todos.. No meu tempo (1969) 24$50 represenatavam 7,28 €...

O vinho (, já martelado na metrópole, ) era contabilizado em 11$60, o litro... Caro: 1,88 € o litro, hoje...

Nesta lista publicada pelo Zé Saúde havia mais de 2 pipas em stock (1 pipa=500 litros). Depois de "rebatizado" dava mais umas litradas valentes... Era a malta roubada, descarada e despudoradamente... E aguentava, aguentava... Grande povo, nação valenet!... LG

Antº Rosinha disse...

Casão Militar

O chamado casão militar durante a guerra do Ultramar, funcionava como o maior rede de hiper-mercados que porventura teria existido em Portugal em toda a nossa história de 800 anos até àquela data.

Naquele estabelecimento que provavelmente também estaria montada "filial" em Bissau, em Luanda conheci e me abasteci eu mais que uma vez, havia para os militares e seus familiares, do melhor bacalhau, bebidas nacionais e importadas, e toda a espécie de mercearias a preços especiais, devido à isenção, ou redução de impostos por ser para os militares.

Essa dos impostos, como do tabaco por exemplo toda a gente sabe, nem é preciso explicações.

Pois bem, as fortunas movimentadas, só no casão de Luanda, (Lisboa e Porto seria muitíssimo mais grave, penso eu), de sargentos e oficiais, mas também praças, a sacar bacalhau do especial, azeites, wiskies, vinhos e tabaco, para "amigos" civis, era de loucos.

Jamais vi bacalhau daquela qualidade e apresentação, importado directamente da Noruega e outros mares, a preços muito especiais.

Claro que enquanto fardado, nunca me passou pelos queixos tal bacalhau.

Falta muito para contarmos a história da guerra do ultramar.

Cumprimentos



Tabanca Grande disse...

Rosinha. até eu, lorpa, feito parvo, com o "patacão da guerra", fui lá comprar um blusão de cabedal, daqueles de cor verdeada escura, que na Guiné não me serviu para nada, tal era o calor e a humnidade...

Nunca o usei, a não ser para tirar a foto da praxe (!), na véspera de partir para a Guiné... Deixei-o ficar lá, dei-o a um dos meus soldados da CCAÇ 12, se a memória me não falha!... E se custava "manga de patação!...

Tens razão: com o "patação da guerra", alguns de nós, milicianos, "deslumbraram-se"...com os casões militares, os carros, as discotecas, o casino, as "flausinas"... Outros, saregntos e oficiais do QP, fizeram um bom pé de meia para a velhice... O dinheiro dá a volta à cabeça às pessoas... E o "patacão da" corrompeu muita gente... E até boa gente, educada com valores e princípios cristãos...

Lembro-me de ter disputado a mesma mulher com um rival, que tinha acabado de chegar, em 1975 (!), da comissão de serviço em Cabo Verde!... O sortudo escapou à guerra, mas em Cabo Verde foi vagomestre e encheu o bandulho, a meias com o comandante da companhia... Ou o 1º sargento, já não me recordo... Um gajo, furriel miliciano, que tinha estado preso pela PIDE antes do 25 de abril...

Depois do 25 de abril de 1974, quando regressou de Cabo Verde, o sabujo trazia uma mala (!) cheia de notas!... A declaração de amor dele foi abrir a mala, com as notas , algumnas muito sebente4as, outars niovinhas em folha...), eu limitei-me a ler um poema...

Não te vou dizer por quem é que a dama optou... É uma história edificante.

Antº Rosinha disse...

Pois é Luís, mesmo quando já fores velhinho, ainda vai haver muita coisa para contar, por enquanto é que ainda temos muita vergonha de falar em certos «usos e costumes» cá da paróquia.

E é na guerra e na confusão que se conhece o carácter das pessoas e dos povos.

E também aqui neste blog se pode pôr muita careca ao sol, para os mais novos lerem e não serem muito surpreendidos quando forem para a guerra deles.