sexta-feira, 10 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16190: (In)citações (92): Uma troca trágica (Francisco Baptista, ex-Alf Mil)

1. Mensagem de 20 Maio de 2016, do nosso camarada Francisco Baptista (ex-Alf Mil Inf da CCAÇ 2616/BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72):


UMA TROCA TRÁGICA

Há cerca de cinco anos entrei numa confraria gastronómica, irregular, já que embora os seus associados se juntem para almoçar, todas as quartas-feiras, em restaurantes que vão variando, num raio de alguns quilómetros, com epicentro em Leça da Palmeira, não obedecem a nenhuma formalidade ou obrigação dessas confrarias existentes por esse país fora. Não há sede, não há estatutos, não há lugar ao pagamento de quotas, nem jóia de entrada, não há órgãos impostos ou eleitos, não há trajes próprios. Entra-se nela por uma porta larga, que nos abre qualquer um dos seus frequentadores, e a partir daí passamos a ter direito a frequentá-la quando quisermos e a levar os amigos que entendermos. Terá sido formada há algumas décadas por profissionais de um grande hospital, médicos, enfermeiros, técnicos, administrativos e outros amigos do exterior. Todos amantes da boa comida, da boa bebida e da “jolda” que é o convívio divertido e um pouco excessivo que as mães, as irmãs, as namoradas e esposas sempre censuraram nos jovens ou nos mais velhos, porque não querem entender esse aspecto “deles” que os afasta delas, e faz parte da sua natureza irrequieta, que se prolonga pela vida fora, que os junta em folguedos, que vão variando com a idade, onde as raparigas ou as mulheres não cabem. Talvez reminiscências dos tempos pré-históricos, quando eram caçadores e longe dos povoados e das mulheres, comiam à volta da fogueira o primeiro javali que caçavam. Os “Bandalhos”, nossos ilustres camaradas da Guiné, alguns tais como eu, sócios da Tabanca de Matosinhos, outros independentes, que eu estimo, respeito e admiro celebram e encenam muito bem essas festas.

Desse grupo inicial só já restam três, um técnico, um administrativo com mais de setenta anos e um empresário com quase noventa. O último médico, um camarada com grande sensibilidade poética e totalmente integrado no espírito do grupo pelas suas vivências passadas e recentes, morreu há seis meses, quando já todos pensávamos que tinha ultrapassado uma doença grave que o tinha atacado. Os outros foram saindo, a maior parte também empurrados pela morte, que a todos nos há-de levar para o mundo das trevas e do esquecimento ou para o céu, reservado aos crentes e felizardos. Dentre os amigos que o frequentam ou por já lá passaram, identifico, entre outros, dois médicos, um arquitecto, um técnico de engenharia, dois mecânicos, um chapeiro, dois motoristas, dois comerciantes com lojas abertas na baixa do Porto, o dono de um ginásio, dois enfermeiros, seis funcionários públicos, pequenos empresários, um lavrador, um padre, um cangalheiro, um antigo jogador de futebol, africano de Angola, um polícia, dois guardas-fiscais e um pequeno empresário analfabeto. Há um camarada da Guiné que afirma que em 1966 ele e outros estiveram perto de apanhar à mão o próprio Amílcar Cabral.

Dentre todos o mais assíduo é o amigo Figueira, que também poderia ser Nogueira, Cerejeira, Oliveira, Pereira, pelos seus hábitos de poupança, que por brincadeira, alguns (eu incluído) classificam de sovinice, pois todos esses nomes podem esconder antepassados judeus. O Figueira, um dos três fundadores que restam desta tertúlia, viúvo há dez anos, foi na vida adulta Chefe de Serviços nesse grande hospital. Justiça lhe seja feita, será poupado mas não é sovina, pois a casa dele está à sempre aberta a todos para prolongar o convívio depois dos almoços e tem sempre, nozes, figos, queijinhos ou outros acepipes para acompanhar um copo de vinho que ele oferece da garrafeira dele, ou que alguém leva. Por vezes, para festejar os anos de alguém ou outro acontecimento, os almoços são mesmo feitos, por alguns “cozinheiros” do grupo, na casa dele.

Pela sua simplicidade, naturalidade, boa disposição, bonomia e amizade, que sabe repartir sabiamente com todos, é muito apreciado e estimado e dá muita coesão a esse grupo anárquico, que não tendo um dirigente se revê no carácter e nas qualidades morais desse amigo que nunca quis ser director, sargento, capitão, general ou presidente de junta.

Para além das grandes propriedades agrícolas que herdou dos pais, herdou também o sentido do dever, da honra, da palavra e a fé religiosa de um católico praticante e tradicional, cumpridor de todas as obrigações religiosas inerentes, sem nunca pôr em causa as verdades e dogmas da Igreja.

Não gosta de ler ou escrever, a televisão aborrece-o tal como a internete, tendo bastante habilidade manual, gosta de fazer alguns arranjos ou trabalhos de carpintaria, serralharia, de agricultura, em que foi criado, ou outros.

Com a idade a balançar entre os setenta e os oitenta, o que ele aprecia sobretudo é o convívio com os amigos e com as pessoas em geral, sem ser exigente em relação à riqueza ou à pobreza dos seus semelhantes, ou à condição social mais baixa ou mais elevada, é também muito tolerante em relação aos defeitos e manias de cada um. Frequenta outra confraria mais formal, que me parece reunir “os ilustres” duma grande freguesia, essa com sede, na qual mensalmente se reúnem para almoçar. É convidado ainda de uma outra confraria internacional ainda mais elitista, onde as senhoras dos importantes da sociedade gostam de mostrar os vestidos, os casacos, as carteiras e sapatos que estão na moda, e que nos passeios e banquetes que organizam, fazem uma recolha de dinheiro para ajudar os pobrezinhos de todo o mundo. Em festas anuais, S. João, Carnaval, Passagens de Ano e outras, junta-se muitas vezes com as famílias dos grandes lavradores do Porto e dos arredores, em grandes jantares de convívio.

Para além dos almoços de grupo, vou também almoçar uma vez por semana a sós com ele, pelo prazer da sua companhia e porque sei também que nessas horas sente muito a solidão em que ficou com a morte da sua companheira. Entre cinco e oito euros encontramos tascos ou restaurantes que servem uns almoços razoáveis com tudo incluído, outras vezes até cozinhamos em casa dele. Muitas vezes juntam-se ainda um ou dois amigos. Gosto de falar com ele sobre as coisas simples da vida como por exemplo os trabalhos agrícolas que fazíamos na nossa adolescência e juventude. Eu, filho de lavradores “remediados” de Trás-Os-Montes e ele filho e mais tarde genro, de lavradores abastados de duas grandes freguesias de Matosinhos.

A “Maínça” era, ainda assim se conserva, uma veiga extensa, de terra funda, onde não falta sequer um riacho que a atravessa, que além de milho, vinho, batatas, couves, feijões e outras hortaliças, produzia tantas cebolas e cenouras que ele, outro irmão e quatro trabalhadores contratados, passavam dias e dias a lavá-las e arranjá-las para serem transportadas diariamente em carros de bois para o mercado do Bolhão, no Porto, numa viagem que só na ida demorava mais de uma hora. Mais tarde a Câmara do Porto proibiu a circulação de carros de bois na cidade e o pai dele viu-se obrigado a comprar uma carrinha para fazer esse transporte.

Há algum tempo, num desses almoços, os dois a sós, falámos das andanças que ainda garotos tínhamos que fazer por terrenos distantes da povoação e os medos que isso provocava, pela solidão, por vezes agravada pelas trovoadas e outras vezes pela escuridão nocturna. Eu confessei que tive que fazer um grande esforço mental e psicológico para me adaptar a essas situações e vencer esses medos. Ele, que só raramente era sujeito a essas situações pareceu-me que nunca os conseguiu dominar razoavelmente. Talvez tenha sido por isso que eu aproveitei para lhe fazer uma pergunta que nunca lhe tinha feito sobre a tropa e a guerra do Ultramar.

Em resposta ele disse-me que no inicio de 1963 foi convocado para fazer a recruta e como não tinha dado as habilitações literárias que lhe poderiam ter dado acesso ao curso de sargentos milicianos, foi como soldado para o Regimento de Infantaria de Viana. Pela sua educação e pelo seu espírito cordato, que não terá passado despercebido aos seus superiores, depois da recruta e da especialidade foi colocado na secretaria do regimento, durante muito tempo a fazer, segundo disse, as ordens de serviço e outros trabalhos afins. Entretanto ao saber que iria ser mobilizado para Angola, falou com outro soldado do ano de 1962, que se prontificou a ir no seu lugar, a troco de cem contos que os seus pais disponibilizavam. Nesse tempo cem contos era uma grande quantia de dinheiro que daria para construir uma casa ou comprar um apartamento, portanto representavam um começo de vida aliciante para um jovem com poucos recursos. Na altura própria, os cem contos foram pagos ao seu camarada que acabou por embarcar para Angola no seu lugar.

Pelo conhecimento que tenho dele, atrevo-me a afirmar que ele teve realmente muito medo da guerra do ultramar e a sua estratégia, ao não dar as habilitações literárias, foi no sentido de conseguir, no caso de ser mobilizado, a troca mais barata, que seria sempre entre soldados, possivelmente já com o apoio dos pais. Penso ainda que só revela este facto da vida dele quando confrontado com uma pergunta directa sobre a sua vida militar, além do mais porque as consequências foram trágicas para o camarada que fez a troca. Segundo afirmou, um outro camarada disse-lhe que esse jovem que teve a ambição honesta de ganhar cem contos para um começo de vida mais desafogado, morreu numa emboscada, no território dessa Angola imensa, no norte, no leste ou no sul, não sabe precisar. Disse-me por fim que terá mesmo morrido pois, palavras dele “cheguei a escrever-lhe uma carta e nunca obtive resposta”. Conhecendo a sua religiosidade, penso que ainda hoje se continua a lembrar dele nas orações que faz ao Deus dos cristãos.

Cá ou lá, todos tivemos medo. Dos que nunca embarcaram nos cais dos lenços brancos do adeus, alguns fugiram, outros desertaram, outros pagaram para ser substituídos, como este meu amigo. Dos que partiram, ainda houve alguns que desertaram e outros que se mutilaram, outros aguentaram por vezes com os nervos à flor da pele, outros tiveram premonições de morte e morreram, outros tiveram falsas premonições de morte e regressaram, outros morreram em grande sofrimento, outros sem um ai deixaram cair a cabeça no meio do mato ou do capim e adormeceram para sempre. Eu, que estive lá, não julgo ninguém, a psicologia da guerra e dos medos é uma matéria difícil para compreensão e análise de um qualquer curioso.

Gosto muito do meu amigo Figueira e gostaria também de saber que o camarada que o substitui em Angola ainda será vivo e feliz no meio dos filhos e dos netos, na casa que tinha construído algures com cem contos. A nossa vida com o passar de alguns anos marca o início da nossa morte que se vai anunciando logo após a juventude pelo envelhecimento físico, com o aparecimento de rugas, cabelos brancos, as calvícies mais ou menos acentuadas, com entradas à frente, ao meio da cabeça (parece uma coroa de padre) como no meu caso ou carecas quase totais, os órgãos internos vão enfraquecendo com a progressão dos anos e nós vamos disfarçando essas falhas com remédios e mezinhas no silêncio sigiloso dos consultórios médicos. As marcas das nossas falhas, dos nossos êxitos, das nossas fraquezas, da nossa energia, dos nossos erros, dos nossos crimes, das nossas virtudes, dos nossos pecados, dos acontecimentos fastos e nefastos ficam registados na página branca da nossa alma e irão adoçar ou atormentar a nossa vida futura. Não sei avaliar em que medida a morte desse nosso camarada, que morreu numa emboscada em Angola, ficou registada na memória espiritual do meu amigo Figueira, mas atendendo à bondade e humanismo do seu carácter, é natural que o tenha marcado com uma cicatriz que ainda magoa.
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Nota do editor

Último poste da série de 25 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16134: (In)citações (91): "Um gajo não sabe o que foi a guerra colonial", diz Marcos Cruz, filho do Dr. Adão Cruz, um dos médicos do BCAÇ 1887 (Francisco Baptista, ex-Alf Mil)

4 comentários:

Tabanca Grande disse...

Francisco, já tinha saudades dos teus textos e dessa sensibilidade telúrica que é marca genética e cultural de um grande transmontano, exilado na cidade grande.

És um notável contador de histórias e um fino observador da vida e das gentes que a povoam. Com um pouco mais de trabalho de artesão da escrita podes, se souberes entrar pela ficção dentro, transformar este texto num grande conto.

Pelo meu convívio, de há 40 anos, com as gentes do Norte (, muito menos rico e intenso do que o teu, resumindo-se às épocas de Natal, Páscoa e férias grandes...), também conheço algumas figuras das antigas "Bouças" (hoje, Matosinhos) que foram (ou descendem de) grandes e médios “lavradores”. gente de teres e haveres...

Com o crescimento do monstro urbano, a urbanização dos terrenos, passaram a viver dos "rendimentos"... Outros passaram de proprietários rurais a urbanos, e hoje têm,. nalguns casos, dezenas de "rendeiros"... Enfim, continuam a ter "património" (o que nem sempre quer dizer "liquidez")... Filhos, netos, sobrinhos ou afilhados, mais o fisco, vão dar cabo do que resta desse "património" (que no antigamente se media por muitos carros de milho e hoje são "prédios de rendimento").

É gente boa, católica, conservadora, e que gostava de fazer férias na "rias bajas" da Galiza... E a história que contas, do teu amigo, que se safou de ir parar a Angola, em 1963, por um punhado de 100 contos de réis, não é singular. Em todas as terras, há, sempre houve, histórias dessas... Como hoje há o fenómeno das "barrigas de aluguer", também havia no passado quem estava disposto, a pagar, pelo outro, o "imposto de sangue" que a Pátria exige aos seus filhos, de vez em quando... Mediante, naturalmente, uma compensação monetária que, para um pobre, podia ser “a sorte grande”… De resto, uma das funções dos filhos dos pobres era morrer na vez dos filhos dos ricos…

Dizes bem, cem contos na época era bastante dinheiro: pelo conversor da Pordata, 100 mil escudos em 1963 daria hoje mais de 41 mil euros... Mas para teres uma ideia do que era o bicho da inflação (que, com a guerra colonial, apressou a agonia do Estado Novo), dez anos depois, os pais do teu amigo teriam que duplicar as notas de conto para livrar o primogénito de ir parar a Guileje, Gadamael, Guidaje ou Canquelifá… É que 100 contos, em 1973, já só valiam cerca de 21,5 mil euros…

Tens aqui o conversor da Pordata – Base de Dados Portugal Contemporâneo... E, claro, aproveita as festas do São João, que um cristão também tem direito a folgar... E como a vida é curta, para a gente a poder viver (na primavera) e a reviver (no outono)!... Ab. Luis Graça

http://www.pordata.pt/Portugal

JD disse...

Olá Francisco!
Folguei por ter lido mais uma delícia da tua pena. Nós, rapazes da mesma geração, de norte a sul somos atraídos por diferentes convívios nas origens, mas que exigem sempre celebração nas mesas dos almoços. Ora, no que respeita aos convívios do pessoal que passou pela Guiné, o Luís Graça está com uma grande responsabilidade prosélita, pois encaminha-nos através das diferentes tabancas para o mesmo fim convivial.
Ainda havemos de fundar a confraria da tabanca ad-hoc, a que funcionará como porto de abriga de cada vez que um sulista se dirija ao norte, ou de quando um nortenho demande as terras do sul. É só criar um calendário, onde cada um se inscreva nos locais de destino, e os camaradas destas localidades que queiram participar, vão identificar as tascas mais adequadas para recebimento dos visitantes, e dessa maneira providenciar oportunos encontros e confraternizações, nem que seja por apenas uma hora de disponibilidade.
O que quero acentuar nesta tua descrição, é a grande simplicidade e humanismo das tuas narrativas, e faço-o com conhecimento de causa, pois já tive a felicidade de me deslocar contigo a diferentes lugares de comezaina e bebericagem, por sinal muito recomendáveis, e vi como os teus olhos brilham pela camaradagem que emprestas a cada momento, preocupado com a boa impressão que possa influenciar o interlocutor mastigante. E com essa proverbial facilidade comunicativa, vou aqui referir ter passado por maravilhosos momentos, onde as conversas fluíram com toda a naturalidade que imaginar se possa, qual religião que os homens cultivam com agrado e expontaneidade.
Deixa-me aqui registar como aprecio essas tuas qualidades de generosidade e grandeza espiritual, e por isso envio-te um grande abraço
JD

Anónimo disse...

Como gostaria de escrever assim!
Não é só saber escrever, é uma certa bonomia nas palavras, uma permanente condescendência ou contenção na abordagem dos pecadilhos alheios. E esta fuga ao discurso sentencioso e justiceiro torna os teus textos absolutamente cativantes. Afinal, quem somos nós para julgarmos os medos dos outros e a forma como os contornaram ?

Um abração

Carvalho de Mampatá

Tabanca Grande disse...

Caros camaradas, António e José:

É bom ler os vossos comentários de apreço e de incentivo. O Francisco Silva precisa de acreditar no seu talento. E a melhor forma é através do "feedback" (positivo) dos seus camaradas.

Brunhoso e a nossa Tabanca Grande já têm mais um escritor. O Francisco tem talento, agora só tem que favor prova de disciplina e continuidade. A escrita (er arte em geral) é 10% de inspiração e 90% de transpiração...

Espero que ele continue a alimentar a série sobre a sua terra, Brunhoso:

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/Brunhoso