Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Aldeia Formosa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Aldeia Formosa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28319: Foi há... (11): Sessenta anos que Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, 1912 - Bissau, 1983) escreveu, na prisão política de Caxias, essa pequena obra-prima do conto guineense, que é "O Cativeiro dos Bichos"



"Os animais mais fortes podem ser vencidos
pela audácia, coragem, inteligência e cooperação dos mais fracos" (Sabedoria da literatura oral africana)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Artur Augusto Silva (2006)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Trata-se uma "fabulosa fábula" (se nos é permitido o pleonasmo) do tempo em que os animais falavam. E é uma homenagem à literatura oral africana. E mais: é uma pequena obra-prima do conto guineense.

Recorde-se que na cultura dos mais diversos povos as fábulas (e demais contos populares) são também uma forma, indireta, de denunciar e criticar os abusos do poder dos mais fortes, incluindo as várias  formas de violência sobre os mais fracos.

Muitas destas narrativas incluindo as fábulas guineenses, encerram também lições segundo as quais os animais mais fortes, como o leão ou o "lobo" (hiena), podem ser vencidos pela "audácia", "coragem", "inteligência" e "cooperação" dos mais fracos.

Este conto foi escrito pelo advogado, defensor de presos políticos em Bissau, no início da década de 1960, Artur Augusto Silva (Ilha da Brava, Cabo Verde, 1912- Bissau, 1983), pai do nosso querido e saudoso amigo luso-guineense Pepito (Carlos Schwarz da Silva, Bissau, 1949- Lisboa, 2012) e marido da não menos querida e saudosa Clara Schwarz (Lisboa, 1915 - Oeiras, 2016), de origem judaica (pai polaco, e mãe russa, de Odessa) que consta de um livro de contos, escrito em 1966, na Prisão de Caxias, e editado a título póstumo pelos seus três filhos ("O Cativeiro dos Bichos", edição de autor, Bissau, 2006).

Era também uma contundente crítica, implícita, ao sistema colonial, à sua política, à sua justiça e à guerra. Mas quiçá, também, ao princípio da "luta armada de libertação", iniciada pelo PAIGC em 23 de janeiro de 1963. Artur Augusto Silva, tal como a esposa,  era um intelectual, anticolonialista, amigo do Amílcar Cabral. Podia ser um simpatizante do PAIGG, mas não um militante, nem necessariamente um defensor da "guerra justa", um partidário da "violência revolucionária" que degenerou em tragédia para aquela terra e aquele povo que ele tanto amava.

Recorde-se que na época era governador (e comandante-chefe) da Guiné o General Arnaldo Schulz, o mesmo que expulsou o autor da sua tão amada terra de adopção (onde vivia desde 1949), e que o mandou prender, à chegada ao aeroporto de  Lisboa,  em 26/8/1966,  através do longo braço armado da PIDE, "por  exercer atividade contra a segurança do Estado" (sic). (De resto, já era vigiado pela polícia política desde 1938.)  


O autor quando jovem,
em Lisboa...
Arnaldo Schulz  opôr-se-ia, depois,  ao seu regresso à Guiné: em ofício da subdelegação da PIDE de Bissau, de 19/12/1966, é transmitida ao Diretor-Geral da PIDE, em Lisboa,  a opinião do Governador de que "aquele Senhor não deve voltar à Guiné, pelo menos enquanto se mantiver o terrorismo" (sic).

Cidadão empenhado, africano nacionalista, jurista corajoso, jornalista e escritor de talento, cofundador do colégio-liceu de Bissau (em 1949),  membro do Centro de Estudos da Guiné, vogal do Conselho do Governo da Guiné (em 1964, já com o brigadeiro Arnaldo Schulz, como governador), amigo pessoal de Amílcar Cabral,  fez questão de defender presos políticos guineenses, muitos deles seus amigos "ou que passaram a sê-lo, acusados de sedição pela potência colonial"; mais concretamente, "foi defensor em 61 julgamentos, um deles com 23 réus, tendo tido apenas duas condenações".

Esteve preso 4 meses, em Caxia, às ordens da PIDE,  sem culpa formada. Em 23/12/1966, "por intervenção de Marcelo Caetano e de outros responsáveis políticos, que embora discordassem das suas ideias políticas,  o admiravam como homem de carácter, foi libertado". 

Proibido de regressar à Guiné, foi-lhe  fixada residência em Lisboa. (Pena que entretanto he será levantada, por decisão do Conselho de Ministros, em janeiro de 1970.)

Em 1967, Marcelo Caetano, seu professor, convidou-o para ir trabalhar "como advogado na Companhia de Seguros Bonança". 

Também Adriano Moreira o convidou para leccionar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU) (herdeiro da Escola Colonial, criada em 1906), "o que ele recusou, fazendo ver ao portador do convite a incoerência de o terem prendido pelas suas ideias sobre o colonialismo português e depois o convidarem para leccionar matérias relacionadas com Africa".

Em 1977, de visita à nova República da Guiné-Bissau, foi convidado pelo então Presidente Luís Cabral para trabalhar como juiz no Supremo Tribunal de Justiça. Foi professor de Direito Consuetudinário na Escola de Direito de Bissau. Faleceu em Bissau em 1983, com 70 anos. (Para saber mais, clicar aqui...)

2. Sessenta anos depois, é mais do que justo republicar (*), no nosso blogue,  este conto,“O Cativeiro dos Bichos” que não é apenas   uma sábia fábula africana tradicional, é também uma finíssima sátira política, uma deliciosa paródia judicial e uma subtil alegoria do colonialismo... Podemos ainda ver nele, subliminarmente,  uma espécie de autobiografia cifrada do próprio autor.  

Não tendo  sido publicado em vida (segundo julgamos), mas já a título póstumo (em 2006),  este (e outros  contos) tem  a singularidade de ter sido escrito há sessenta anos, na prisão política de Caxias, entre  setembro e dezembro de 1966, por um homem que conhecia muito bem a Guiné, a advocacia, a repressão política e o aparelho colonial.

É essa circunstância histórica, além do mérito literário, que dá a esta  fábula uma dimensão documental e política extraordinária. É um conto que descreve, ao fim e ao cabo, uma dupla prisão: a dos bichos presos pelo “bicho homem” e a do próprio autor que é "desterrado" para a metrópole pelo governador da Guiné, como "personna non grata"... (**)

Julgamos que esta dimensão escapou a muitos leitores, numa primeira leitura, há 20 anos... O poste P775 (publicado ainda no velho "Blogue-Fora-Nada") teve menos de 200 visualizações e nem um único comentário (*).

A IA fez, a nossa pedido, a sua leitura própria deste conto, ilustrando-o com um bela banda desenhada.



Portugal > Alcobaça > São Martinho do Porto > Estrada do Facho > Casa do Cruzeiro > c. 1957 > O pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), com os filhos, da esquerda para a direita, João, Iko (Henrique, já falecido) e Pepito (Carlos) (1949-2012). Cortesia de João Schwarz da Silva, que nos diz que a data deve ser "provavelmente 1957"... Teria então o Pepito (nascido em Bissau, em 1949) os seus oito anos... Esta casa será durante alguns anos, até à morte do Pepito, a sede da saudosa Tabanca de São Martinho do Porto...

Foto (e legenda): © João Schwarz da Silva (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




Guiné-Bissau > Bissau > Capa  do livro de contos, de Artur Augusto Silva, "O Cativeiro dos Bichos"  (edição de autor, Bissau, 2006 ). Na realidade, tratou-se de uma edição dos três filhos do autor, Henrique, João e Carlos Schwarz, em homenagem à memória, ao talento e ao exemplo cívico do seu pai, Artur Augusto Silva (1912-1983), que viveu na Guiné-Bissau, de 1949 a 1966, e depois, de 1976 até à data da sua morte. Trata-se de uma antologia. Um dos contos que estáo livros é justamente este, "O cativeiro dos bichos" (pp, 


Conto "O Cativeiro dos Bichos"

por Artur Augusto Silva 

(Ilha da Brava, Cabo Verde, 
1912- Bissau, 1983)



A história que ides ler foi-me contada na tabanca de Quebo, no sertão da terra dos fulas, por um homem chamado Umarú Só, velho para além de toda a idade e que por ser velho e sábio conhecia os segredos do mundo e as suas maravilhas.

Vou narrá-la por palavras minhas, porque sei que não me perdoariam o uso daquele estilo floreado, exuberante, por vezes difuso mas sempre poético, que os fulas usam para contar uma história.

Houve um tempo em que todos os seres viviam na mais foi perfeita harmonia e a paz reinava por toda a parte. Isto passou-se antes de ter nascido uma garça chamada Macute e que ficará para sempre como o anjo mau que perverteu o mundo.

Foi o caso que numa manhã de sol, quando as manadas de búfalos pastavam nas lalas verdejantes de Bambadinca, uma garça ainda nova e inexperiente, ao esburgar com o bico as carraças de um búfalo, picou-o profundamente, o que o levou a dar um sacão com a cauda, sacão que apanhou a garça e a fez cair !

As coisas teriam ficado por aqui se não fora a garça Macute que, de longe, presenciou o caso e,  porque queria tornar-se raínha das aves, logo engendrou um plano que a conduzisse à satisfação dos seus desejos.

Andou de terra em terra convocando uma grande reunião de todos os bichos que voam,  para tomarem conhecimento da maior afronta que jamais fora praticada sobre um ser vivente.

Chegado o dia da reunião, ali se encontrou toda a bicharada que povoa os ares, desde a águia-real, de peito branco e palavra e bico adunco, até ao colibri que é mais pequeno que a pequena flor.

Vieram os papagaios vestidos de cinzento e peitilho vermelho, vieram todos os patos, desde o marreco ao ferrão, vieram as galinhas, incluindo as perdizes e as galinhas da Guiné,  todas louçãs na sua vestimenta preta de bolas brancas, vieram os mergulhões de longo bico,  plumagem verde, azul, preta e branca, veio toda a casta de pardalada que enxameia os céus, vieram as abetardas no seu voo lento e majestoso e, por fim, chegaram as borboletas no seu voo saltitante e colorido.

Reunidos todos, a garça Macute declarou que era necessário escolher um presidente que dirigisse os trabalhos mas, quando esperava ser investida no cargo, teve a desilusão de ver que optavam pela águia-real.

A águia-real soltou três assobios e declarou aberta a assembleia. Logo a garça Macute levantou uma questão prévia:

– Vejo aqui as nossas boas amigas, as avestruzes, mas afigura-se-me que elas não são aves. Com efeito, desde que que o mundo é mundo, não há notícia de que uma avestruz tenha voado. Elas fazem parte dos bichos que andam e, por isso, não devem tomar parte da nossa reunião.

Todas as garças grasnaram em sinal de assentimento e estabeleceu-se um certo burburinho, prontamente reprimido pelo presidente que declarou ir pôr po caso à votação. 
A coruja, sábia reconhecida por todos, pediu a palavra e disse:

– O problema posto pela nossa companheira, a garça, não é novo e muitas têm sido as opiniões ventiladas sem que se chegue a qualquer conclusão. Se é verdade que a avestruz tem asas, não é menos certo que nunca se serve delas para voar. Em minha opinião, devem ser classificadas entre os bichos que andam e não entre os que voam.

Como, após tão sábio resumo, ninguém quisesse usar da palavra, a águia pôs o caso à votação, e por maioria esmagadora foi decidido que as avestruzes não eram aves, mas sim bichos que andam.

Então a águia convidou a garça a dizer do motivo da reunião, e Macute começou:

– As aves são neste mundo em que vivemos, os animais mais nobres e mais valentes. Nunca uma de nós sofreu qualquer vexame ou insulto sem que imediatamente respondesse. Ora, devo dizer-vos que é com o coração oprimido de indignação e raiva que vos vou contar que há dias, na bolanha de Bambadinca, uma de nós, precisamente uma garça, foi vítima de agressão por parte de um búfalo. Devo acrescentar que o caso não pode ficar assim e por isso proponho que se declare guerra sem quartel a todos os bichos que andam.

Uma vozearia infernal atroou os ares e os abutres eram, de entre todas as aves, quem mais grita fazia, apoiando tão dignos sentimentos.

Um pardalito que estava presente, voltou-se para um jagudi que deu mostras de grande contentamento e ainda disse:

– O que vocês querem é que haja guerra para poderem comer a carne dos que morrem.

Logo o jagudi, gritando traidor, deu-lhe uma sapatada em três tempos o engoliu.

– Calma! Calma! – gritava a águia-real, receosa de não ter mão na assembleia.

Serenados um pouco os espíritos, a águia deu a palavra ao primeiro orador inscrito, o periquito. Este começou por dizer que a afronta fora grave mas, em seu entender, deveria averiguar-se primeiro se as coisas se tinham passado conforme o relato da garça, porque não via razão para que um búfalo magoasse uma garça, sem qualquer razão. Propunha, pois, uma comissão de inquérito.

O papagaio, segundo orador, citou alguns precedentes em que o comportamento dos bichos que andavam, para com os bichos que voam, demonstrava crueldade e propôs que o caso fosse levado ao conhecimento do bicho homem que possui discernimento mais do que suficiente para resolver o conflito.

As corujas apoiaram e depois de muitos oradores terem falado, foi resolvido levar o caso ao bicho homem. Formada a comissão que se avistaria com o bicho homem, dissolveu-se a assembleia, no meio de grande excitação.

O papagaio, como falador de grandes conhecimentos, presidia à comissão de queixa, a qual se dirigiu ao bicho homem para fazer as suas lamúrias.

Ouviu o bicho homem as mágoas da passarada e ali jurou que iria investigar, para que se fizesse inteira e completa justiça. Voltassem daí a sete dias, para ouvir a sua resolução.

A passarada retirou-se em boa ordem e o bicho homem ficou a esfregar as mãos de contente porque em sua cabeça surgira um plano. Mandou o bicho homem chamar o rei dos bichos que andam e que é, contra o que se pensa, o elefante.

Veio este acompanhado de numeroso séquito do qual fazia parte o seu melhor conselheiro, o macaco. 
Exposto o motivo da convocação, logo ali declarou o elefante que as intenções da bicharada que anda,  eram pacíficas e que nunca, até aquele momento, qualquer dos seus súbditos fizera mal a outrem, facto que devia ser do conhecimento do bicho homem que tudo sabe.

– Na verdade, na verdade – retorquiu o homem. – Mas há uma queixa e é necessário saber quem tem razão. Parece-me que seria melhor que os bichos que andam, nomeassem um delegado e os que voam, outro, para trazerem a minha presença, as alegações de cada parte e as provas a produzir...

Todos concordaram e ficou estabelecido que daí a sete dias e se realizaria o julgamento do caso.

Sete dias passados e à hora marcada, reuniu-se a grande assembleia e o bicho homem, dizendo que ambas as partes lhe mereciam o maior respeito e consideração e que, assim, não podia dar a direita a um e a esquerda a outro, propôs que o representantre de cada parte ocupasse a direita durante meia hora e que a primeira posição fosse tirada à sorte.

Constituído o Tribunal, entraram o macaco como advogado, dos bichos que andam e mais vinte e sete testemunhas, logo seguido pelo papagaio, representante dos bichos que voam, com vinte e cinco testemunhas.

Historiou o homem o diferendo em poucas palavras e pediu ao papagaio, como advogado da parte acusadora, que dissesse da sua justiça.

Falou o papagaio com perfeita dicção e clareza, citando vários confrades seus e algumas palavras que ouvira aos homens, o que lhe valeu aplausos até dos bichos que andam.

Empertigou-se o macaco, abriu os braços como já vira em comícios do bicho homem e analisou, um por um, os argumentos do papagaio e a sua queixa. Falou no amor, na justiça, na piedade, em todos os sentimentos nobres e a tal ponto comoveu a bicharada que voa, fez chorar um pardal estouvado e brincalhão como todos os pardais.

Exposta a questão, iniciou o bicho homem a audição das testemunhas e quer as de acusação, quer as de defesa, declararam nada saber do assunto.

Concedida novamente a palavra aos advogados, estes excederam-se em citações: foram épicos, heróicos, patéticos, fizeram chorar a assembleia e, logo a seguir fizeram-na rir desabridamente e foi numa das suas tiradas mais sublimes que o macaco, demonstrando rara intuição científica, classificou o homem de seu primo. O chimpanzé que estava seguindo a peroração nos menores detalhes, comentou em à parte: primo, mas degenerado.

Depois desta afirmação solene do macaco, os jornais e revistas que o bicho homem publica, começaram-na citando obstinadamente, pelo que hoje é ponto assente a existência de tal parentesco.

O bicho homem suspendeu a sessão por uma hora, ao cabo da qual reentrou para ler a sentença. Era uma longa peça de considerandos e que começava por afirmar que "em virtude de se não ter provado a queixa dos bichos que voam, mas convindo fazer justiça, profiro a seguinte sentença: 

– Julgo a acusação improcedente mas, tendo em atenção que a paz é um dever indeclinável de todos os espíritos sãos, e para poder reservá-la, determino que me sejam entregues como reféns e para garantia da paz futura, um animal de cada uma das espécies que voam que e andam.

Eliminava magnanimamente custas, dada e manifesta pobreza das partes.

Todos animais, tanto os que voam como os que andam, aplaudiram delirantemente tão sagaz decisão e só o macaco, fiado no parentesco com o bicho homem, quis recorrer da decisão, alegando que "começara a escravatura".

Ninguém o quis ouvir, a decisão ficou sem recurso (recurso para quem? perguntava o papagaio) e o bicho homem começou encaminhando a bicharada para currais e capoeiras previamente instalados por sua indústria.

A verdade é que com o correr dos anos as palavras do macaco tiveram plena comprovação, pois o bicho homem nunca mais soltou nenhum dos reféns e porque estes se reproduziam e o bicho homem não tinha com que alimentá-los, passou a comer deles cada vez com mais apetite.

Se acontecia alguém perguntar ao homem a razão de tão prolongado cativeiro, respondia: 

– Como querem que eu os liberte se ainda ontem vi um milhafre pilhar um rato e comê-lo em três tempos? É com sacrifício, com muito grande sacrifício,  que dou de comer à bicharada, mas mesmo com sacrifício devo manter a minha palavra honrada e a minha justiça proverbial.

E prosseguindo:

– É certo que ensinei os bois a trabalhar para mim; é certo que como a carne dos bichos e uso das suas penas e da sua pele em utensílios que fabrico, mas não é menos verdade que todos devem conhecer a minha isenção. Estou esperando que os bichos consigam uma promoção social que os habilite a entrar no concerto dos seres civilizados para, então, lhes dar a liberdade que eu desejo mais do que eles.

Se a história é verdadeira, não posso assegurá-lo pois que os factos passaram-se há muitos anos e não conheci o bicho homem que fez tal justiça; mas, porque Umarú Só é pessoa séria, incapaz de inventar, estou em crer que eles se verificaram conforme a narrativa.

(Prisão de Caxias, 1966)

(Revisão / fixação de texto, notas: LG)
___________________________

Notas do editor LG:


(*) Vd. poste de  20 de maio de 2006 > Guiné 63/74 - P775: Antologia (38): O cativeiro dos 

bichos de Artur Augusto Silva (Luís Graça)


(**) Último poste da série : 26 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27955: Foi há... (10): 80 anos: teias que o império tecia: em 25 de abril de 1946, o N/M Quanza que "deu a volta ao mundo", regressou a Lisboa, trazendo tropas expedicionárias de Timor... e os dois netos, menores, órfãos, do heróico "liurai" Dom Aleixo Corte-Real (1886-1943), que foram entregues à Casa Pia

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28087: Tabanca Grande (581): O superintendente, na situação de reforma, Isaías Teles, e presidente do Núcleo de Oeiras / Cascais da Liga dos Combatentes, que foi alf inf na CCAÇ 1591 (Mejo, Aldeia Formosa e Buba, 1966/68), senta-se a partir de hoje à sombra do nosso poilão, no lugar nº 915


Superintendente, na reformado,  Isaías Fernando Ferreira Teles: (i) nasceu em 28 de fevereiro de 1946, em Bragança; (ii) vive em Linda-A-velha, Oeiras; (iii) é membro da Magnífica Tabanca da Linha; (iv) é presidente da direção do Núcleo de Oeiras / Cascais da Liga dos Combatentes, desde 2013; (v) tem página no Facebook; (vi) passa a sentar-se à sombra do nosso simbólico poilão, no lugar nº 915.


1. O ex-alf inf, CCAÇ 1591 (Mejo, Aldeia Formosa e Buba, 1966/68), oficial do exército, da arma de infantaria, Isaías Teles, hoje superintendente da PSP, na situação de reforma, fez também comissões de serviço em Angola e Moçambique; em 1989 transitou para os quadros da PSP; finalmente senta-se connosco à sombra do poilão da Tabanca Grande.

Através do Núcleo de Oeiras da Liga dos Combatentes, recebemos há mês e meio atrás uma mensagem sua, com um texto da sua autoria sobre a viagem que fez à Guiné-Bissau, ainda antes da pandemia, em 2018, e que vamos publicar em próximo poste.

Data - 22/04/2026, 16:12
Assunto - Partir Mantenhas

Camarada e Amigo,

Conforme a nossa conversa no último almoço da Magnifica Tabanca da Linha, junto em anexo um Tema Relato por mim escrito referente a uma ída à Guiné Bissau nos princípios de 2018.

Com um abraço.
Isaías Teles


Ficam assim reunidos os requisitos para a sua apresentação à Tabanca Grande, que já peca por tardia.




Oeiras > Galeria-Livraria Municipal Verney > 4 de março de 2017 > 15h00-16h30 >Sessão de lançamento do livro de fotografia, da autoria de nosso grão-tabanqueiro Jorge Ferreira, "Buruntuma: algum dia dia serás grande!... Guiné, Gabu, 1961-63" (edição de autor: Oeiras, 2016; impressão: Jotagrafe - Artes Gráficas Lda)...

O presidente da direção do Núcleo de Oeiras-Cascais da Liga dos Combatentes, Isaías Fernando Ferreira Teles, superintendente reformado, esteve presente, e teve a gentileza de oferecer ao nosso blogue o livro "Olhares sobre a Guiné e Cabo Verde" (org., Manuel Barão da Cunha e José Castnho Paes) (Linda A Velha: DG Edições; e Porto; Caminhos Romanos, 2012, 389 pp. (Coleção Fim do Império, 9).

Foto (e legenda): © Luís Graça (2017). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. Nada com o como esta data, simbólica, 0 10 de junho de 2026, para apresentar à Tabanca Grande mais um antigo combatente da Guiné, .e com ele "partir mantenhas".

É uma figura de destaque com uma longa e prestigiada carreira militar e policial em Portugal. Atualmente, desempenha funções como Presidente da Direcção do Núcleo de Oeiras/Cascais da Liga dos Combatentes, eleito para o triénio de 2025/28 .

Sob a sua liderança, o núcleo tem mantido uma atividade notável no apoio social aos antigos combatentes e na preservação da sua memória coletiva,   promovendo conferências, homenagens locais e encontros de confraternização. É 
uma função que reflete o seu empenho contínuo em honrar e apoiar aqueles que, como ele, serviram Portugal em tempos de guerra e paz.




Guiné > R3gião de Tombali > Mejo > CCAÇ 1591 > c. 1067 > O alf inf Isaías Teles



Guiné > R3gião de Tombali > Mejo > CCAÇ 1591 > c. 1067 > Vista exterior da porta de armas.   A CCAÇ 1591 foi colocada em Mejo em 23 de outubro de 1966, "para intensificação da actividade bo corredor de Guileje". Era comandada pelo cap inf Luís Carlos Loureiro Cadete (que foi instrutor de alguns de nós, no CISMI, Tavira)

Em meados de 1967, a  CCaç 1591 (-) estava sediada  em Aldeia Formosa, Em 17Jun67, por rotação com a CCaç 1622, assumiu a responsabilidade do subsector de Aldeia Formosa, com os seus pelotões distribuídos por Cumbijã, Colibuia e temporariamente em Chamarra e Contabane. 

Mejo seria "desmilitarizado" em 1969, no início do "consulado" de governador e comandante-chefe António Spínola, a par de Beli, Madina do Boé, Ché Che, Contabane, Colibuia, Cumbijã, Ponte Baiana, Gandembel, Sangonhá, Cacoca, Cachil e Ganjola (Região de Tombali, Zona Sul), Gubia (Região de Quínara, Zona Sul) e ainda Banjara (Região de Bafatá, Zona Leste).


Fotos (e legendas): © Isías Teles (2026). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Mais alguns marcos da sua história de vida:
  • Isaías Teles nasceu em Bragança, em 1946, tendo efectuado os estudos secundários nos Liceus de Vila Real e Bragança;
  • em 1966 concluiu o curso da Academia Militar (Infantaria); em 1984 o Curso Geral de Comando e Estado-Maior; em 1994 o Curso de Auditor de Defesa Nacional;
  • cumpriu três comissões no Ultramar: na Guiné (1967); em Moçambique (1970-1972); em Angola (1973-1975),
  • na Guiné foi alferes de infantaria na CCAÇ 1591, em Fulacunda, Mejo, Aldeia Formosa e Buba, onde forjou laços de camaradagem que perduram até hoje;
  • das variadas funções que desempenhou salientam-se ainda as de Comandante do Batalhão Operacional do Regimento de Infantaria de Queluz (1983-1985);
  • foi para a PSP (Polícia de Segurança Pública)em 1985, onde estive até 1989, em comissão de serviço;
  • nesse ano passou a integrar os quadros da PSP no posto de intendente,
     sendo promovido a superintendente em 1994;
  • em 1998 passou à situação de reforma;
  • missões Internacionais: comandou o Contingente da Polícia Portuguesa nas forças da ONU (CIVPOL) em Moçambique, em 1994;
  • exerceu ainda  o cargo de Diretor de Segurança do Primeiro-Ministro (1990–1991), Comandante do Corpo de Segurança Pessoal da PSP (1995–1998) e assessor do Secretário de Estado da Defesa Nacional (2002–2004);
  • é condecorado com as Medalhas de Mérito Militar de 2.ª e 3.ª Clases, Defesa Nacional de 2.ª Classe, Comemoratíva das Campanhas de África, Ouro de Comportamento Exemplar, das Nações Unidas e é Comendador da Ordem do Rio Branco, do Brasil;
  • é autor do livro de memórias, "De Bragança a Macau" (Lisboa: Âncora Editora, 2025, 200 pp.) (Coleção "Fim do Império").

´


3. Comentário do editor LG:

Meu caro Isaías Teles, ficamos honrados com a tua presença entre nós. Que seja também um lembrete do que fomos, do que somos e do que continuamos a ser: uma Tabanca Grande onde muito simplesmente partilhamos memórias (e afetos). 

Um alfabravo de boas- vindas, do Luís Graça em nome de todos os amigos e camaradas da Guiné (vd. aqui a lista alfabética).

PS - As regras por que nos regemos são conhecidas, e podem aqui ser lembradas.

Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné: Política editorial


As opiniões aqui expressas, sob a forma de postes ou de comentários, assinados, são da única e exclusiva responsabilidade dos seus autores, não podendo vincular o proprietário e editor do blogue, bem como os seus co-editores e demais colaboradores permanentes.

O nosso blogue é também uma Tabanca Grande. Originalmente, chamámos-lhe Tertúlia. Tabanca é um termo mais apropriado: nela cabem todos os amigos e camaradas da Guiné. Cabemos todos com tudo o que nos une, e até com aquilo que nos pode separar (religião, política, futebol; nacionalidade, naturalidade, idade, etnia, cor da pele; antigo posto, arma, especialidade; habilitações literárias, profissão, etc.)

Neste espaço, de informação e de conhecimento, mas também de partilha e de convívio, decidimos pautar o nosso comportamento (bloguístico) de acordo com algumas regras ou valores, sobretudo de natureza ética:

(i) respeito uns pelos outros, pelas vivências, valores, sentimentos, memórias e opiniões uns dos outros (hoje e ontem);

(ii) manifestação serena mas franca dos nossos pontos de vista, mesmo quando discordamos, saudavelmente, uns dos outros (o mesmo é dizer: que evitaremos as picardias, as polémicas acaloradas, os insultos, a insinuação, a maledicência, a violência verbal, a difamação, os juízos de intenção, etc.);

(iii) socialização/partilha da informação e do conhecimento sobre a história da guerra do Ultramar, guerra colonial ou luta de libertação (como cada um preferir);

(iv) carinho e amizade pelo nossos dois povos, o povo guineense e o povo português (sem esquecer o povo cabo-verdiano!);

(v) respeito pelo inimigo de ontem, o PAIGC, por um lado, e as Forças Armadas Portuguesas, por outro;

(vi) recusa da responsabilidade colectiva (dos portugueses, dos guineenses, dos fulas, dos balantas, etc.), mas também recusa da tentação de julgar (e muito menos de criminalizar) os comportamentos dos combatentes, de um lado e de outro;

(vii) não-intromissão, por parte dos portugueses, na vida política interna da actual República da Guiné-Bissau (um jovem país em construção), salvaguardando sempre o direito de opinião de cada um de nós, como seres livres e cidadãos (portugueses, europeus e do mundo);

(viii) respeito acima de tudo pela verdade dos factos;

(ix) liberdade de expressão (entre nós não há dogmas nem tabus); mas também direito ao bom nome;

(x) respeito pela propriedade intelectual, pelos direitos de autor... mas também pela língua (portuguesa) que nos serve de traço de união, a todos nós, lusófonos.

PS - Defendemos e garantimos a propriedade intelectual dos conteúdos inseridos (texto, imagem, vídeo, áudio...).

Em contrapartida, uma vez editados, não poderão ser eliminados, tanto por decisão do autor como do editor do blogue, mesmo que o autor decida deixar de fazer parte da Tabanca Grande.

Qualquer outra utilização desses conteúdos, fora do propósito do blogue (ou da nossa página no Facebook), necessita de autorização prévia dos autores (por ex., publicação em livro).

Luís Graça & Camaradas da Guiné
31 de Maio de 2006, revisto em 7 de Abril de 2025
______________

Nota do editor LG:

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27958: Humor de caserna (260): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXII: o cheirinho a roupa lavada (Joaquim Costa, ex-fur mil Arm Pes Inf, CCAV 8351/72, Cumbijã, 1972/74)


Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Contuboel > Rio Geba > 1969 > Uma belíssima foto de uma lavadeira, em contraluz. O Valdemar Queroz atribuiu os créditos fotográficos ao seu "irmão siamês" Cândido Cunha.

Foto (e legenda): © Cândido Cunha / Valdemar Queiroz (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar. Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa > Visita do General Spínola >  "Eu (o primeiro do grupo à esquerda a seguir ao sentinela) e o meu pelotão prestando honras militares ao General (ao centro) com o seu pingalim e à direita o comandante do quartel, na altura, mais conhecido pelo “Baga Baga”  [cmdt do BCAÇ 3852 (Aldeia Formosa, 1971/73), ten cor inf  José Fernando Oliveira  Barros Basto, que sucedeu ao o ten cor  inf António Afonso Fernandes Barata].

Foto (e legenda): © Jaoquim Costa (2021). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Joaquim Costa, ex-fur mil Armas Pesadas Inf, CCAV 8351/72,
"Tigres do Cumbijã" (Cumbijã, 1972/74


A roupa do Furriel pequenina: o cheirinho a lavdo e engomado

por Joaquim Costa

 Com a nossa chegada a Aldeia Formosa as mulheres locais acorreram em grupos à procura dos “periquitos” oferecendo os seus préstimos para a lavagem da roupa.

O dia da lavadeira era o mais esperado da semana no quartel. Vinham em rancho com os seus trajes coloridos, com a trouxa de roupa à cabeça e uma alegria contagiante nos rostos. Aguardavam impacientes junto ao sentinela a autorização para entrarem no quartel, o que geralmente acontecia ao meio da tarde, e era vê-las entrar em grande algazarra, de sorrisos rasgados, dispersando-se pelo quartel como rebanho comunitário acabado de chegar, do monte, ao povoado. (...)

Cada lavadeira lavava a roupa de vários militares mas nunca trocava uma única peça que fosse. Achava extraordinário como fixavam o nome de todos os militares e suas patentes. Mais extraordinário porque de 2 em 2 anos estes eram substituídos por outros, e assim sucessivamente ao longo dos anos. (...)

Certo dia, a minha lavadeira chegou com uma grande trouxa de roupa à cabeça lavada e já separada pelos diferentes donos. Colocou-a junta à porta da caserna dos furriéis e ficou à espera que aparecesse alguém para a entregar. Como não apareceu ninguém foi à procura. Entretanto, chega um colega que pega na trouxa e começa à procura, na tentativa de encontrar as suas peças. Deixou tudo numa grande desordem e não encontrou nada seu, nem podia já que esta não era a sua lavadeira.

Quando esta chega, quase ao mesmo tempo que nós (eu e mais dois camaradas, sem certezas julgo que o Carlos Machado e o António Gouveia), a rapariga fica muito preocupada e, ao mesmo tempo, indignada com o que fizeram à sua trouxa de roupa, desfazendo-se em desculpas com receio de ser despedida por desleixo.

Começámos a separar as nossas peças, tentando acalmar a simpática e eficiente lavadeira. Ela, um pouco mais calma e já com um sorriso nos olhos, tira as nossas mãos de cima da roupa e começa ela a distribuir: esta é do Carlos, esta é do António, esta é do furriel 'Pequenina'... esta é do Carlos, esta é do António, esta é do furriel 'Pequenina'….

Nem de propósito, este foi o dia em recebemos, pela primeira vez, a visita do “grande chefe” (General Spínola) a quem prestei honras militares com o meu pelotão com a farda bem lavada e engomada e o que fez Spínola retardar o gesto da continência,  dado o cheiro agradável a roupa lavada!... (**)

(Seleção, revisão / fixação de texto, título, negritos: LG)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27581: Humor de caserna (230): A justiça do Cherno Rachide: quando roubar um vitela em Aldeia Formosa (Quebo) saía caro (Arménio Santos, ex-fur mil, SIM- Serviço de Informações Militares, 1968/70)


Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca) > CCAÇ 12 (1969/71) > Destacamento da Ponte do Rio Udunduma > Uma manada de vacas, cambando o Rio Udunduma, perto de Sambilate e Nhabijões... Possivelmente pertencentes a um notável fula da região (Amedalai, por exemplo, que era a tabanca mais perto)... Só com muita relutância os fulas vendiam cabeças de gado à tropa... Aliás, era preciso ir longe, a Sonaco, já perto da fronteira com o Senegal, comprar gado para alimentar o ventre da tropa... O gado era, tradicionalmente, um "sinal exterior de riqueza", um símbolo de "status" social, dizia a ideologia da "psico"... Com a política spinolista  "Por uma Guiné Melhor" passaram a reprimir-se abusos das NT, como o roubo de vitelos, leitões, cabritos, galinhas... "pró petisco"... Os desgraçados dos balantas é que tinham fama de serem ladrões de gado...

Foto (e legenda): © Humberto Reis (2006). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Esta é uma história deliciosa, já aqui contada pelo Arménio Santos, aquando da sua apresentação à Tabanca Grande, em 8/11/2009.

 O Arménio Santos, furriel miliciano, especializado em Informações e Acção Psicológica, esteve destacado em Aldeia Formosa/Quebo, entre outubro de 1968 e novembro de 1970.

Esteve em rendição individual e, como responsável pelo SIM - Serviço de Informações Militares, trabalhou com os, então, major Carlos Azeredo, tenente-coronel Carlos Hipólito e os majores Pezarat Correia e Mexia Leitão. Bem  como com o Cherno Rachide...

Fez a recruta na EPC (Santarém), em julho de 1967 e a especialidade em Reconhecimento e Informações no CISMI  (Tavira), em etembro de 1968.

Bancário, do BPA e do Millennium BCP, foi presidente do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, bem como deputado, com uma longa carreira,  na Assembleia da República, pelo PSD, e Secretário-Geral dos TSD – Trabalhadores Social Democratas. Nasceu em Vagos, em 1945,  reside em Oeiras. Tem página no Facebook. É membro também da Magnífica Tabanca da Linha.
 

A justiça do Cherno Rachid: quando roubar um vitela em Aldeia Formosa (Quebo) saía caro

por Arménio Santos

Aldeia Formosa era um aquartelamento onde se concentravam muitos efectivos militares. Primeiro era o COSAF – Comando Operacional do Sector de Aldeia Formosa [a partir de janeiro de 1968, posteriormente COP1, a partir de agosto] e depois passou a sede de Batalhão  [BCAÇ 2834, responsável pelo sector S2], tinha várias unidades de milícias nativas e era placa giratória de tropas especiais envolvidas em operações na zona de Guilege – Gadamael – Salancaur, no Sul.

Havia, portanto, muitos militares.

O rancho nem sempre era famoso. Pelo contrário. E quando havia oportunidade para fazer um churrasco, especialmente furtivo, para além de se variar do prato habitual, era uma oportunidade fantástica para confraternizar, esquecer os riscos e o isolamento em que se vivia e partilhar pedaços da vida pessoal e familiar de cada um.

Só que o churrasco nem sempre era conseguido pelas melhores vias. Algumas vezes lá ia uma vitela, um porco ou um cabrito à “revelia” do dono. O que era furtado,  tinha outro gosto.

Num desses casos, o Cherno Rachid, o chefe religioso dos Fulas, cuja influência ultrapassava as fronteiras da Guiné-Bissau e era reconhecida desde a Gâmbia à Costa do Marfim, com quem eu trabalhava estreitamente mercê da minha função, e com o qual as tropas portuguesas tinham as melhores relações, mandou o Bubacar Jaló chamar-me que desejava falar comigo.

Pensei que se tratava de mais um dos muitos contactos que tínhamos sobre as actividades do IN ou sobre os problemas na Tabanca.

Quando cheguei percebi logo que o assunto teria de ser outro. O Cherno Rachid não estava sozinho, como era normal naqueles casos de trabalho, estava rodeado por um grupo de “Homens Grandes” e uma bajuda. Bastante bonita, por acaso.

Que assunto pretendia tratar o Cherno Rachid? Simplesmente que eu resolvesse o problema de um dos “Homens Grandes” presentes, que tinha ficado sem uma vitela no dia anterior e que tinha sido comida no quartel.

Que provas tinha o “Homem Grande”?

A bajuda foi a fonte da informação, ingenuamente. Era lavadeira do Delfim, que era dos lados de Matosinhos, a quem ele dera um enorme pedaço de vitela, para ela e para a família, e a quem se vangloriara da sua façanha.

A bajuda tentou dizer alguma coisa, mas os olhos do Cherno e dos outros mantiveram-na no silêncio, tal como eu também não a questionei. Ela estava ali porque o marido, um dos “Homens Grandes” presentes, também tinha comido do naco de carne que o Delfim deu à bajuda. Só que - e aqui é que está o problema - a vitela que o Delfim tinha desviado era, nem mais nem menos, do “Homem Grande” da sua lavadeira.

Postas as coisas neste pé, falei com o Delfim.

Não havia outra coisa a fazer senão remediar o que ele e os seus amigos fizeram. O Delfim não negou e pagaram o triplo do valor normal da vitela, para exemplo.

O Cherno Rachid esteve presente quando acompanhei o Delfim a sua casa, para ele entregar o dinheiro ao dono da vitela.

Esse sentido de justiça foi registado pelo chefe religioso, o Delfim não gostou de pagar aquilo que já considerava uma “conquista”, mas, por mais estranho que pareça, ficou amigo do “Homem Grande” a quem desviara a vitela e ainda mais amigo ficou da sua bajuda lavadeira.

Só a mim o Delfim passou a chamar-me o “turra branco”. Mas também por pouco tempo. Umas cervejas e a camaradagem trouxeram ao de cima os traços de amizade que só num ambiente daqueles são cimentados.

(Revisão / foxação de texto, parênteses retos, título: LG)
_______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 26 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27573: Humor de caserna (229): "Uma ginjinha!... Pois dar de beber à dor é o melhor"... já lá dizia o A. Marques Lopes (1944-2024), em Barro, junto à fronteira com o Senegal, no Natal de 1968

domingo, 28 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27580: Casos: a verdade sobre... (62): Al-Hajj Cherno Rachide Jaló (1906-1973)... O itinerário das colunas que levaram, de Bambadinca a Aldeia Formosa / Quebo, os fiéis que foram à cerimónia fúnebre do imã (Paulo Santiago)


Guiné > Carta Geral da Província (1961) (Escal 1/500 mil) > Percurso (a amarelo) que seguiram os fiéis do Cherno Rachide que foram ao seu funeral em setembro de 1973:  Bambadinca - Xitole - Cambessê - Uria Candi - Cambança do Rio Corubal - Aldeia Formosa / Quebo. A vermelho, o troço  de estrada que estava interdito: Saltinho - Rio Mabiá - Contabane - Aldeia Formosa / Quebo. 

As distâncias quilométricas são mais ou menos as seguintes (hoje em dia): Bambadinca-Xitole: 30  km; Xitole-Saltinho, 20 km; Saltinho-Quebo: 20 km. No nosso tempo, e na época das chuvas, com risco de minas e emboscadas, uma coluna Bambadinca-Xitole-Saltinho podia levar um dia ou até mais... O troço Mansambo - Xitole-Saltinho esteve interdito cerca de um ano (set 1968/ set 69).

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. Comentário do Paulo Santiago  (ex-alf mil, cmdt Pel Caç Nat 53, Saltinho 1970/72) (*):

O  poste do Luís fala numa coluna militar para levar os fiéis do Cherno Rachid, de Bambadinca a Aldeia Formosa (Quebo). 

Direi que seriam duas colunas. Assim,as viaturas saídas de Bambadinca seguiam em direcção ao Xitole,e aqui seguiam em direcção ao Saltinho.

Passada a tabanca de Cambessê,  a última do Xitole, poucos quilómetros  andados aparecia a tabanca de Uria Candi onde se cortava à direita por uma picada até atingir o rio Corubal, onde de canoa se cambava  para a outra margem onde estariam viaturas de Aldeia Formosa.

Uma vez, em  que fui a Aldeia Formosa, saí do Saltinho indo até à cambança e na outra margem tinha o pessoal de Aldeia.

O trajeto Saltinho-Rio Mabiá-Contabane estava minado pelas NT e pelo IN.








Guiné > Zona Leste > Setor L1 > Bambadinca > BCAÇ 2852 (1968/70) e CCAÇ 12 (1969/71) > Visita que o Cherno Rachide fez a Bambadinca, no início de janeiro de 1970...  As fotos devem ser de 10 de janeiro.

Fotos do álbum do ex-fur mil at inf Arlindo Roda, da CCAÇ 12 . Sem legenda. (Infelizmente as fotos do meu camarada Arlindo Roda não trazem legendas, local, data, etc.)... 

A personagem  de azul escuro  e "gorro" preto, assinalada a amarelo, tudo indica que seja o Cherno Rachide, a presidir a um encontro com os seus fiéis do regulado de Badora e outras paragens, que se deslocaram a Bambadinca para o cumprimentar, rezar com ele,  ouvir os seus conselhos, etc.. 

 Um seu "adjunto", vestido de branco e também com um gorro preto, segurando um lenço,  recolhe oferendas ao imã (moedas, "pretas" e "brancas", poucas notas, nozes de cola). O Cherno Rachide na altura teria 63 anos. Morreria  3 anos depois.

Recordo-me de as NT lhe terem armado uma tenda, no recinto do quartel de Bambadinca, para ele receber condignamente não só as autoridades locais, civis e militares, como também os seus fiéis...  O chão era coberto por tapetes. O gen Spinola deve ter mandado assegurar o seu transporte e acomodação. A ele e ao seu séquito.

Ele virá a falecer, em Aldeia Formosa, onde residia, em setembro de 1973, em dia que não podemos precisar.  

Na altura, o comandante do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) terá  organizado uma coluna de transporte  para os muçulmanos do sector L1  poderem ir prestar-lhe ( ao imã)  a última homenagem em Aldeia Formosa / Quebo.

No meu tempo ( 1969/71) o troço Saltinho- Contabane - Aldeia Formosa estava interdito, logo a partir da Ponte do Saltinho, sobre o rio Corubal... O transporte até Aldeia Formosa teria que ter segurança militar e seguir outro trajeto, como sugere  o Paulo Santiago, que conheceu bem o terreno  (esteve lá em 1970/72 e voltou lá em 2005 e 2008).

Foto: © Arlindo Roda (2010). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


2. De acordo com a História do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74), há uns tantos pontos a destacar no mês de setembro de 1973:

(i) choveu intensamente, e as populações, nomeadamente, os balantas, ocupam-se dos trabalhos agrícolas (cultivo das bolanhas);

(ii) começou para os muçulmanos o Ramadão (de 27 de setembro a 26 de outubro de 1973); 

(iii) o comando do BART 3873 propõe, à Rep ACAP, que dois dos  mais prestigiados ( e "fiéis") régulos do sector L1, o do Xime e o de Badora, sejam escolhidos para a viagem de peregrinação aos lugares santos do Islão, a expensas do governo da província (o critério era sempre o apoio à "causa nacional");

(iii) o PAIGC escolheu, estranhamente (?), a data de 24 de setembro de 1973 (em plena época das chuvas e a 3 dias do início do Ramadão), para proclamar unilateralmente a independência da Guiné-Bissau (em local que ainda hoje é objeto de grande controvérsia, mas que a sua descarada propaganda teimou em dizer durante décadas que tinha sido... em Madina do Boé!) 

(iv) estranhamente, não: a 28ª sessão ordinária da Assembleia Geral da ONU acabava de se iniciar em 18 de setembro de 1973, e logo nesse dia as "duas Alemanhas", a República Federal da Alemanha (Ocidental) e a República Democrática Alemã (Oriental) foram admitidas simultaneamente como Estados-membros da ONU;

(v) morreu o Cherno Rachide (ou Rachid) de Aldeia Formosa / Quebo e o comando do BART 3873 prontificou-se a organizar uma coluna de transporte para os "muitos fiéis muçulmanos" (sic)  do setor L1 (Bambadinca) que quisessem assistir às cerimónias fúnebres; nesta altura, estava em Aldeia Formosa o BCAÇ 4513 (1973/74)-

As NT sempre deram grande importância à "lealdade" dos fulas e da sua elite dirigente, a quem o Amílcar Cabral chamava, com profundo desprezo, os "cães dos colonialistas".  Nunca saberemos ao certo qual o papel que o Al-Hajj Cherno Rachide  Jaló (1906-1973) desempenhou  na "nossa guerra" (***). 

Há quem, como o José Teixeira,  defenda a opinião de que os ataques e flagelações a Aldeia Formosa eram dirigidos para o aeródromo e  o quartel das NT, e nunca para a tabanca (onde residia o imã). E que, por outro lado, um seu sobrinho seria "cabo de guerra" na região, pelo lado do PAIGC (comandante de bigrupo, ou coisa parecida). 

Em conversa há dias com nosso camarada Arménio Santos (ex-fur mil, Rec Inf, Aldeia Formosa, 1968/70), que "trabalhou"  com o Cherno Rachide, no campo da informação e acção psicológica (e que, portanto, o conheceu bem), percebi que este dossiê ainda está longe de estar encerrado de todo. 

Oxalá apareçam mais histórias e testemunhos sobre o Cherno Rachide, cujo sucessor, o seu filho,  Al-Hajj Amadú Dila Djaló, será depois deputado pelo PAIGC, a seguir à independência, na Assembleia Nacional Popular. Contradições ? Realismo político ? O(s) poder(es) tem (têm) horror ao vazio. Sempre. Em toda a parte.


3. Excertos da H. U. (História da Unidade) | BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) - Cap. II: 17º fascículo: setembro de 1973 , pp. 67/68/69 (***)







4. Excertos da história do BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, 1973/74) (Transcrição, para suporte digital: Fernando Costa) (****)

CAPÍTULO II > ACTIVIDADE NO TO DA GUINÉ > 4º Fascículo (período de 1Set a 30Set73)

(...) Verificou-se no período o falecimento do Cherno Rachid, chefe religioso de extraordinário prestígio no meio muçulmano, cuja perda abalou muita a população, receando-se não ser fácil encontrar quem o substitua com o mesmo prestígio e a mesma devoção à Causa Nacional (sic) (***).

No dia 29Set73 regista-se a chegada à Província do novo Governador e Comandante-chefe, General Bettencourt Rodrigues, que substituiu nos cargos o General António Spínola. (...)

5º Fascículo (período de 1Out a 31Out73)

(...) Durante o período continuaram a deslocar-se a Aldeia Formosa, em virtude do falecimento do Cherno Rachid, várias autoridades tradicionais, algumas estrangeiras, entra as quais se destaca o Cherno Aliu Cham, do Senegal.

Sekuna, filho do Cherno Racxhid, foi eleito, em assembleia dos "Homens Grandes", sucessor de Cherno Rachid.

Por motivo do acto eleitoral no dia 28 (*****),  e a festa do Ramadão nos dias 28 e 29, efectuaram-se diversas colunas a Buba, Nhala, Rio Corubal, para transporte da população. (...)

04Out73

(...) O Cmdt recebe a visita de todos os "Homens Grandes" da região que vêm comunicar que, reunidos em assembleia, elegeram Sekuna, filho do Cherno Rachid, como seu sucessor. 

Exprimem todo o seu apoio e lealdade à Causa Nacional. Este mesmo facto é comunicado à Rep ACAP, para ser transmitido a Sua Excelência Comandante-Chefe. (...)

09Out73

(...) Esteve presente no Comando do Batalhão, a apresentar os seus cumprimentos de despedida, o Cherno Aliu Cham, da Rep Senegal., e que agradeceu todo o apoio prestado quando do falecimento do Cherno Rachid e todo o apoio sanitário que continua a ser dado em todos os postos fronteiriços da Rep Senegal.(...)


28Out73

(...) Processou-se o acto eleitoral  (*****) e iniciaram-se as festas do Ramadão, que trouxeram a Aldeia Formosa muita população de Buba, Nhala e Saltinho. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, LG)
________________

Notas  do editor LG:

(*) Vd. poste de 23 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27564: (In)citações (283): Em louvor dos Postos Escolares Militares e do Cherno Rachide (Cherno Baldé, Bissau)

(***) Vd. poste de 23 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27565: Casos: a verdade... (61): Aldeia Formosa / Quebo é atacada ou flagelada pelo menos 7 veses em 1969 e 1971, em pleno consuklado Spinolista: em 7/3/69, 8/3/69, 21/3/69, 9/7/71, 11/7/71, 31/7/71, 12/8/71... E continuou a ser atacada ou flagelada em 1972... Faz sentido continuar a considerar o Cherno Rachid como um "agente duplo" ?

(****) Vd. poste de 27 de janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5716: Morte e sucessão do Cherno Rachide, ao tempo do BCAÇ 4513, em Set / Out 1973 (Fernando Costa)

(*****) Recorde-se que em  28 de outubro de 1973 realizou-se, em Portugal, as últimas eleições legislativas sob a égide do Estado Novo. 

Acção Nacional Popular (ANP), partido único do regime "recauchutado" (sucessor da União Naci0nal), elegeu todos os deputados para a Assembleia Nacional (150), num escasso 1,4 milhóes de votos, enquanto a Oposição Democrática boicotou o processo, denunciando a falta de liberdade e condições para eleições sérias e justas, num contexto de crescente contestação política e social do regime.  Seis meses depois aconteceu o 25 de Abril de 1974. O Estado Novo caiu de podre, sem honra nem glória. A Assembleia Nacional foi imediatamente dissolvida.

Pelo "círculo eleitoral da província ultramarina da Guiné", e para a" XI Legislatura da Assembleia Nacional! foi eleitos dois deputados Leopoldino de Almeida e Benjamim Pinto Bull, com menos de 12,2 mil votos.

Por sua vez, o Ramadão de 1973 (ano 1393,  no calendário islâmico) começaria a 27 de setembro  (quinta-feira) e terminaria  a 26 de outubro de 1973 (sexta-feira). 

O Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, foi celebrado a 27 de outubro de 1973. (A Guerra do Yom Kippur, também conhecida como a Guerra do Ramadão, começou a 6 de outubro de 1973, coincidindo com o 10º dia do Ramadão.)

O Eid al-Fitr marca o fim do jejum do mês sagrado do Ramadão.  É uma celebração de gratidão a Deus pela força para completar o jejum.  Centra-se muito na caridade (Zakat al-Fitr), no uso de roupas novas e em orações comunitárias logo pela manhã.

Náo confundir com o Eid al-Adha (Tabaski ou a "festa do carneiro", na Guiné-Bissau). Celebra a devoção de Abraão (Ibrahim) e o sacrifício de um cordeiro em lugar do seu filho. Quase todas as famílias que têm condições,  sacrificam um animal (geralmente um carneiro) e dividem a carne em três partes: uma para a família, outra para amigos e vizinhos, e outra para os pobres. Ocorre cerca de dois meses e meio após o fim do Ramadão.