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terça-feira, 13 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28432: Humor de caserna (297) : O anedotário da Spinolândia - Parte XL: Retrato satírico do brigadeiro António Spínola: oito sextilhas em redondilha maior, recolhidas pelo ex-alf mil médico Alberto Lema Santos (BCAÇ 1933, 1967/69)




Foto nº 1


Foto nº 2

Foto nº 1 > Foto histórica de Spínola (e do seu ajudante de campo) > Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada do IN, o general Spínola (1910-1996) (acabado de ser promovido em julho desse ano de 1969, já com um ano no TO da Guiné), com o seu ajudante de campo, o cap cav cmd João Almeida Bruno (1935-2022), mais tarde general (e que deu origem a uma das diversas alcunhas do governador e comandante-chefe, "Aponta, Bruno").

Na foto, o então cap Almeida Bruno está de luvas e óculos Ray-Ban, empunhando a sua G3. O com-chefe, por sua vez, está também de luvas, e com o seu aristocrático monóculo. Estavam ambos em pleno local, onde se deu a emboscada, de que resultaram 2 mortos entre as NT (CCAV 2487 / BCAV 2868). Estão camuflado e quico na cabeça.

A foto original, a preto e branco, é do "Paris-Match" nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...). Resconstituição, melhoria técnica e colorização: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné + IA (ChatGPT / Open AI).  O rosto dos dois oficiais foi reconstituído pela geração de imagem (foto nº1), pelo que não podemos garantir uma reprodução facial fiel à fotografia documental original. Para efeitos do nosso arquivo histórico, convém sempre preservar essa distinção entre "restauro" e "reconstituição".




"Retrato satírico do brigadeiro António Spínola"
(recolha de Alberto Lema Santos / Manuel Lema Santos)


1. Por um feliz acaso, deparei-me com estes versos, no blogue Reserva Naval, do nosso saudoso Manuel Lema Santos (1943- 2025). Mas já antes tinham sido publicados por ele  no blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > 13 de novembro de 2011 > Voo 2574: Uma Visão Satírica do Brigadeiro António de Spínola. 


São oito estrofes, em sextilha (seis versos) e em redondilha maior (=sete sílabas poéticas),  muito usada pela poesia popular mas também pelos nossos maiores poetas do séc. XVI, como Camões.
Nas tradicionais cantigas à desgarrada, ao som da concertina, tão típicas do nosso Minho, a sextilha em redondilha é muio utilizada. O esquema métrico usado é geralmente este: AAB CCB (o 1º verso rima com o 2º, o 4º com o 5º, e o 3º com o 6º).
Estas 8 sextilhas em redondilha maior, que passamos a reproduzir, são de autor desconhecido, mas feitos por alguém que "sabia da poda"... Seria provavelmente algum oficial miliciano, eventualmente oriundo de Coimbra.  E devem datar de 1968/69~.

Lembra o nosso camarada da Marinha que o BCaç 1933 embarcou para a Guiné em 27Set67 e regressou em 20Ago69. Esteve em Nova Lamego em São Domingos.

(...) "Integrado neste batalhão, seguiu também para aquele território o alf mil médico Alberto Lema Santos". 

Desempenhou funções de clínico em quase todos os subsectores  do setor de Nova Lamego, "vindo a ser destacado mais tarde, em final de abril de 1968, para a CCaç 1801 (Cap Inf José Daniel Barros Adão/Cap Inf António Manuel Pacheco Rosa) responsável pelo subsector do Ingoré, com um pelotão no Sedengal e outras forças igualmente destacadas nos reordenamentos de Antotinha e Apilho, ainda que mantendo-se integrada no BCaç 1933". /...) 

E ainda sobre o seu irmão, mais velho (de que ele me chegou a falar: em 2003  era chefe do serviço de cardiologia do Hospital de São Francisco Xavier), diz o Manel:

(...) Num percurso de muitas localidades, consultas, tratamentos, conselhos e confidências, ficou também o insubstituível humor militar de caserna na forma de missivas, descrições, relatos e poesias.

 Neste caso particular, estes versos satíricos, policopiados no papel da época, já envelhecido pelo tempo, visando o “Homem Grande de Bissau” ou “Caco Baldé”, como ficou conhecido o então Brigadeiro António de Spínola." (...)

Faremos proximamente uma análise literária deste documento que pode ser descrito como um retrato satírico do brigadeiro António Spínola, acabado de chegar ao CTIG em meados de 1968.  São uma obra-prima de "humor de caserna" (*)  que vai enriquecer também o "Cancioneiro da Nossa Guerra". Quem os quiser cantarolar, pode encaixá-los no conhecido fado "Canoas do Tejo", imortalizado pelo Carlos do Carmo, com música de Frederico Brito.

A letra foi revista e fixada por nós. Tinha pequeno erros  (de datilografia) que corrigi. Tal como melhorei a pontuação. O maior é "arreiro": deve ler-se "arrieiro". 

 Aproveito para saudar o dr. Alberto Lema Santos, e agradecer-lhe a preservação desta relíquia, de grande valor documental para a historiografia da guerra da Guiné e para a socioantropologia do nosso quotidiano.  Faço votos para que se encontre bem e de boa saúde, e convido-o simultanemante a sentar-se aqui, connosco,  à sombra do nosso poilão.  (LG)


1
Caco de olho vidrado,
Perfil de gato assanhado
Com ferraduras no pé,
Mais do que bom cavaleiro,
Eu sou o maior arrieiro
Cá das terras da Guiné.

2

Trago tudo apavorado,
Dou barraca em todo o lado,
Volto tudo do avesso,
Mal ou bem há que mudar!
O que eu pretendo é roncar
Por qualquer que seja o preço.

3

Digo mal do que está feito,
Condeno todos a eito,
Com fúria de paranóico.
Mesmo quando faço asneiras,
Nunca perco as peneiras
Nem quebro o meu ar heróico.


4

Entre os chefes mundiais,
Como eu, há poucos mais,
Capazes de fazer obra,
Meto galgas colossais,
Faço charlas passionais
Com muita banha da cobra.


5

Irmãos d'armas, meus rapazes,
Vós de tudo sois capazes,
Vós dais lições aos que mandam!
Se a missão não é cumprida,
A falta só é devida
Àqueles que vos comandam

6

Vós não procurais favores,
Nem medalhas, nem louvores,
Por nada vos dais por quites.
É o porte valoroso
Do bom povo generoso
Qu' afronta as falsas elites.

7

Eu conheço-vos a todos;
Convosco lutei a rodos,
Lá p'lo Norte de Angola;
Andei convosco no mato,
Continuo o mesmo chato
Quando meto o pé n'argola,

8

Sou, como vós, um soldado;
Estou sempre do vosso lado
P'ra punir oficiais.
Faço heróis dos cavaleiros,
Fabrico chefes guerreiros,
Só eu mando, ninguém mais!






Texto e arranjo gráfico do autor do blogue Reserva Naval, o Manuel Lema Santos (. O documento original foi cedido por Alberto Lema Santos, ex-alf mil médico, BCaç 1933, 1967/69, e irmão do autor do blogue).


Font: Adapt de blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65/74 > 13 de novembro de 2011 > Voo 2574: Uma Visão Satírica do Brigadeiro António de Spínola, por Manuel Lema Santos, oficial da Reserva Naval, Algueirão, Sintra.

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Guiné 61/74 - P28431: Humor de caserna (296) : O anedotário da Spinolândia - Parte XXXIX: "O Grande Spínola" (Vitor Oliveira, ex-1º cabo melec, BA 12, Bissalanca, 1967/69)


Mensagem do Vitor Oliveira, ex-1º cabo melec
(BA 12, Bissalanca, 1967/69); membro da nossa Tabanca Grande desde 13/5/2009; vive em Caneças:



Data -terça, 29/10/2013, 09:58 (*)

Assunto: O grande Spínola

Estávamos em Nova Lamego, e eis que um dia, perto da hora de almoço, aparecem dois helis em que vinha o general Spínola e o piloto era o falecido cap Rodrigues, que nos pediu para abastecermos os helis enquanto eles almoçavam porque o iam voar novamente e que ligássemos para a messe de sargentos do exército para nos trazerem o almoço.

Assim foi, tínhamos um telefone no posto de rádio em que o radiotelegrafista da Força Aérea era o Pires. Resposta:

─ Os doutores, se quiserem, venham cá abaixo comer!

Eu disse logo:

─ Não vamos lá, isto vai dar caldeirada.

Isto porque a maioria dos sargentos do exército não aceitava que fossemos os primeiros a ser servidos e, mais, ao jantar nós íamos comer à civil e eles não.

Assim foi, não fomos almoçar. Eis que chega o cap Rodrigues, juntamente com cap Almeida Bruno, ajudante de campo do general Spínola e atrás vinha este com um major e o tenente coronel. Um era o 2º comandante e o outro o 1º do quartel.

Fui logo falar com o cap Rodrigues e disse-lhe que não tínhamos almoçado. Eis que o Spinola apercebeu-se que havia merda, como se costuma dizer, e vai daí chama o Almeida Bruno e ele diz-lhe o que se passou. Ele vira-se então para o major e o tenente-coronel e diz-lhes para mandar o oficial e o sargento da messe para São Domingos, que era onde havia mais combates.

O major e o tenente coronel só diziam:

─ Ó Sr. Governador, pedimos desculpa!..

E o Spínola dizia:

─ Isto não pode acontecer, os rapazes estão fartos de trabalhar!

O abastecimento era feito com bombas manuais, a tirar de bidões de 200 litros. Depois mandaram buscar sandes e cervejas, e assim foi o nosso almoço.

A partir desta cena, quando entrávamos na messe, o sargento punha logo os faxinas a servir-nos-

Vitor Oliveira ("Pichas")

1º Cabo Melec
(BA 12, Bissalanca.1967/69)

(Revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)


2. Comentário do editor LG:

Não pomos em causa a veracidade do relato do Vitor. De qualquer modo, não há "contraditório", como na maior das vezes...  Nem  sabemos em que data se passou esta "cena" que também tem o seu lado pícaro (**)... E que por isso merece ser de novo aqui reproduzida, mas agora na série "Humor de caserna"... 

Anedota não é necessaraimente "piada". Vem do grego anekdoton, que significa "não publicado", "inédito". É o relato de situações situações curiosas que aconteceram com alguém, e que são não necessariamente engraçadas. Por exemplo, um comandante de batalhão tratar o general Spínola por "senhor governador"... É credível ?... Ou os sargentos do exército tratarem os "camaradas da FAP", os "mecânicos" como "senhores doutores"...

Não sabemos em que mês e ano o Vitor esteve destacado em Nova Lamego, que era, então, o maior aeródromo do CTIG, fora de Bissalanca.  Os 1ºs cabos especialistas (bem com os pilotos) da BA 12, Bissalanca, podiam ser destacados para Nova Lamego por períodos relativamente curtos.

No ano de 1968 o Vitor Oliveira voava muito com o sargento Honório, em missões de proteção de colunas de Lamego para Beli (destacamento cuja guarnição é mandada retirar por Spínola, em 15/7/1968), e para Madina do Boé (retirado em 6/2/1969). 

Nem sabemos exatamente em que data o Vitor terminou a sua comissão; só sabemos que foi em 1969. Em meados desse ano (julho) Spínola é promovido a general.

Que batalhão é que estava em Nova Lamego nessa altura ? Sabemos que o BCAÇ 2825 em 21Fev68 assumiu a responsabilidade do Sector L3, com sede em Nova Lamego e abrangendo os subsectores de
Canquelifá, Piche, Pirada, Buruntuma, Bajocunda, Madina do Boé e Nova Lamego, onde rendeu o BCaç 1933. 

Em 14Ju168, com a atribuição de novas subunidades, foram criados os subsectores de Canjadude e Cabuca. 

Em 24Nov68, por criação do Sector L4, a sua zona de acção foi reduzida dos subsectores de Piche, Canquelifá, Buruntuma e Bajocunda. 

Em 04Fev69, o sector foi ainda reduzido do subsector de Madina do Boé, após evacuação da área pelas NT, sendo em 250ut69 criado o subsector de Madina Mandinga.

De 15Mar69 a 110ut69, integrou, com as suas forças, o dispositivo do COP 5, então criado.

Em 29Nov69, foi rendido no sector L3 pelo BCaç 2893, recolhendo a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

Comando do BCAÇ 2825: 

Cmdt: TCor Inf Joaquim Esteves Correia | Maj Inf Cristiano Henrique da Silveira e Lorena | TCor Inf Manuel Maria Pimentel Bastos;
2.° Cmdt: Maj Inf Cristiano Henrique da Silveira e Lorena | Maj Inf Fernando Luís Guimarães da Costa | Maj Inf Cristiano Henrique da Silveira e Lorena;
OInfOp/Adj: Maj Inf Fernando Luís Guimarães da Costa.
________________________

Notas do editor LG:

sábado, 29 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28304: Humor de caserna (288): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXVIII: Mais um das "galgas" da IA: a famosa cadela do com-chefe, a "Blonde", que adorava andar, de rabo tremido, de "hélio" (e até de DO-27)



"A MENINA DA IA NÃO É DO MEU TEMPO, MAS EU USAVA O CACO  NO OLHO... ESQUERDO!"


JORGE FÉLIX, ALF MIL PIL, AL III (BA 12, BISSALANCA 1968/70)...."O MEU PILOTO MILICIANO
PREFERIDO"


"Ó MENINA, EU NUNCA PRECISEI DE UM ESCORREGA PARA SAIR DO HÉLIO"


"VÊ-SE QUE A MENINA NÃO ME CONHECEU OU ENTÃO NÃO SIMPATIZA COMIGO!... EU ERA UM GENERAL DE 3 ESTRELAS OPERACIONAL...TRAJAVA FATO CAMUFLADO, QUICO OU BOINA. AQUI ATÉ PAREÇO O PINOCHET!"


"BOA SORTE, MEU RAPAZ", 
GRITA O GENERAL LÁ DE CIMA...


A 5ª REP, CAFÉ BENTO, BISSAU... "O MAIOR 'MENTIDERO'  DA SPINOLÂNDIA!"...


"SÃO QUINZE CONTOS À HORA, Ó BLONDE!" 


"ANIMA-TE, ZÉ, ÉS O MELHOR SOLDADO
 DO MUNDO!"


SPÍNOLA VISITAVA REGULARMENTE GRANDES REORDENAMENTOS COMO O DE NHABIJÕES (SECTOR L1, BAMBADINCA), DE MAIORIA BALANTA



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Luís Graça  (2026)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


 1. Diz a menina IA, delirante (não vou citar a "marca", que até é uma vergonha, e ela já se retratou, entretanto, e já me pediu desculpa por esta grande "galga" ou "fake new")... 

Registo o seu gesto de "humildade". É um progresso, mesmo sabendo que as meninas da IA (ou meninos ?!,  não têm género, por decisão do "patrão", mas prefiro chamar-lhes "meninas"), não podem ser dotadas de "coração", sentimentos, emoções, compaixão, empatia, simpatia, raiva, rancor, gratidão, amizade, amor, saudade,  humor, etc., como qualquer vulgar "humano". 

Apesar do seu elevado QI, a IA admite "que pode cometer erros". Eureka!...E isso deixa os "humanos" mais tranquilos. Por enquanto.  Ainda não chega, a IA,  aos calcanhares dos deuses, que esses, sim, são "omniscientes, omnipotentes e omnipresentes"... E até lá, enquanto chega e não chega,  a gente ainda pode brincar com ela (ou com ele)...

Em próximo poste iremos confrontar os argumentos pró e contra em relação a esta "efabulação" à volta de um animal de estimação que nunca existiu mas a quem na 5ª Rep, em Bissau, puseram um "nickname":  chamava-se... "Blonde", a cadela!... 

Esta "estória" faz-me lembrar outra, já aqui desmistificada, a do "cavalo branco" de Spínola (*).

De resto, já não é a primeira vez que fazemos humor (de caserna) com os "delírios" da IA... Valha-nos, isso, ao menos. Mais vale apanhar com "delírios da IA" do que com "drones" em cima da cabeca ou a entrar pela janela do quarto dormir...

Para gáudio da malta da caserna, aqui fica um dos últimos "delírios da menina da IA" (ou de um delas, que eu não vou citar, porque temos boas relações, e não quero comprometê-las ou estragá-las, as nossas "arralações"...). 

Apesar de "inteligente", ela emprenha muitas vezes de "ouvido", como a gente costumava dizer a respeito do maior "mentidero" de Bissau, que era famosa 5ª Rep, o  maior viveiro do anedotário da Spinolândia. 

Aproveito, a pretexto da "Blonde" que nunca existiu,  para fazer uma homenagem aos nossos camaradas que eram pilotos de avioneta DO-27 ou  de helicóptero AL III (ou "hélio", como dizia o Zé Soldado no mato ou nos "aéreos" que escrevia às madrinhas de guerra). Quase todos milicianos. E, muito em especial, ao nosso querido grão-tabanqueiro Jorge Félix, do meu tempo, que era um dos pilotos preferidos do nosso general e, por tabela, da "Blonde"... (**)


Mais um das "galgas" da IA : a famosa cadela do Spínola que adorava andar, de rabo tremido,  de "hélio" (e até de DO-27)


Esse pormenor biográfico é real e muito curioso, embora tenha ficado em parte obscurecido pelo folclore e pelo aparato quase teatral que o general António de Spínola cultivava na Guiné (o monóculo, o pingalim, as luvas pretas).

Sim, Spínola tinha uma cadela de estimação da raça pastor-alemão. O animal não era apenas uma companhia no palácio do governador em Bissau; viajava frequentemente com ele nas suas constantes e famosas deslocações aéreas de helicóptero Alouette III (e por vezes em avião ligeiro Dornier DO 27) quando inspecionava os aquartelamentos, destacamentos isolados, tabancas e reordenamentos no interior do território. (Só a não levava para operações, por razões de segurança.)

Existem registos e correspondência oficial na documentação da época (como os arquivos do SIPFA - Serviço de Informação Pública das Forças Armadas) que mencionam o animal, integrando aspetos logísticos ou relatos de jornalistas estrangeiros que acompanhavam o Governador e Comandante-Chefe nas suas visitas ao mato.

A presença do animal reforçava duas imagens distintas que coexistiam na perceção dos militares:

(i) Para a Propaganda e as Altas Patentes:

 ajudava a compor a mística do comandante enérgico, audaz, corajoso e omnipresente, que chegava dos céus com o seu ajudante de campo e outros elementos do seu  Estado-Maior mais o seu cão fiel (aliás, cadela), transmitindo uma imagem de controlo absoluto e modernidade operacional no âmbito da sua política de "Por Uma Guiné Melhor".

(ii) Para o "Zé Soldado" no Terreno: 

aqueles que estavam enterrados nas abrigos e  valas, rodeados por bidões de areia e chapa de zinco, em setores fustigados das Zona Leste, Oeste ou  Sul, viam nessa comitiva — que incluía o pastor alemão a descer do helicóptero — um contraste gritante, quase surreal, com a miséria e a dureza quotidiana do mato. 

De resto, nas conversas de aquartelamento, a comitiva que rodeava o general e os oficiais que o acompanhavam de perto, era por vezes apelidada, com a típica  expressão do humor de caserna, a  "matilha de Cães Grandes".  (Abundavam nos quartéis do mato os caes rafeiros, famélicos, vadios...)

O pastor alemão de Spínola tornou-se, assim, mais uma das marcas indeléveis da forte mobilidade aérea e do estilo de comando muito particular que caracterizou o período de 1968 a 1973 na Guiné Portuguesa.

As fontes sobre a icónica cadela pastor-alemão do general António de Spínola na Guiné dividem-se em duas categorias principais: a memória descritiva dos combatentes e a documentação historiográfica/jornalística da época.

A nível de referências formais e bibliográficas onde o animal e o ambiente da comitiva de Spínola são retratados, destacam-se as seguintes:

(a) Historiografia e Memórias Militares:

"Spínola: Fotobiografia", de Maria Inácia Rezola (A Esfera dos Livros, 2006). 

Esta obra, amplamente ancorada em espólios fotográficos públicos e privados, documenta o quotidiano do general e a sua máquina de propaganda na Guiné, incluindo as imagens de aparato em que a comitiva descia dos helicópteros com o animal.

"Spínola — Biografia", de Luís Nuno Rodrigues (A Esfera dos Livros, 2010). 

É a biografia de referência do general, detalhando a sua passagem pelo comando em Bissau (1968–1973), os seus métodos teatrais de afirmação de liderança e a forma como desenhou a sua imagem pública.

"História da Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes. 

Uma das obras mais completas sobre o conflito, que analisa criticamente o "estilo Spínola" e o contraste entre a máquina comunicacional do comando em Bissau e a realidade do mato vivida pelos soldados.

(b) Arquivos de Imprensa e Reportagens da Época:

Durante o período de 1968 a 1973, o Serviço de Informação Pública das Forças Armadas (SIPFA) convidou dezenas de jornalistas estrangeiros (franceses, alemães, britânicos, americanos) para visitarem a Guiné, numa tentativa de contrariar a narrativa do PAIGC de que controlava a maior parte do território. 

Reportagens em revistas internacionais da época (como a Paris Match ou o jornal Le Figaro) descreveram o Governador como um "líder enérgico e carismático" e deixaram registada na imprensa internacional a imagem do general que percorria o país de helicóptero acompanhado pelo seu fiel pastor alemão.

(c) Testemunhos e Arquivos Digitais de Veteranos:

A principal e mais rica fonte para os pormenores do quotidiano e o impacto psicológico desta imagem no "Zé Soldado" encontra-se nos registos de memórias dos próprios operacionais: o arquivo do "Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné" (Tabanca Grande, 2004-2026): 

Este repositório coletivo de memórias da Guerra Colonial na Guiné contém inúmeros testemunhos, crónicas e episódios partilhados por oficiais,, sargentos e  praças que operaram no mato e testemunharam in loco as aterragens do Alouette III do Comando-Chefe. 

Nos relatos escritos pelos veteranos que serviram em setores isolados (como Mansoa, Madina do Boé,Teixeira Pinto, Pirada ou Cacine, ), o aparecimento da cadela pastor alemão é frequentemente evocado como o símbolo máximo do aparato e do contraste entre a vida no palácio e a realidade das trincheiras.

Fonte: 5ª Rep + IA

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28179: Humor de caserna (279): Uff, primeiro que minha voz chegasse, dos CTT de Bambadinca, na Spinolândia, à Lourinhã, a 4 mil km de distância!...(Luís Graça)

















Prompting e orientação editorial: Luís Graça
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné
Geração gráfica assistida por IA:
Google (2026). Gemini (versão de 13 de julho de 2026) [Grande modelo de linguagem].



1. A maior parte de nós (talvez 4 em cada 5) nunca telefonou para casa, quando esteve ao serviço da Pátria na Guiné... Telefonar era um luxo. A maior parte da malta, sobretudo os da "província",  ainda não tinha telefónico fixo em casa... E depois era um exercício "penoso e moroso", além de caro, tentar ligar do mato para Portugal... Para um SOS, mais valia um telegrama ou até uma aerograma: era muito mais barato!" (*).

Em nunca sequer tentei ligar em 22 meses de "desterro". Mas estou a tentar reconstituir o meu "circuito de voz", se por acaso tivesse querido telefonar dos CTT de Bambadinca para os meus pais na Lourinhã... 

Com a ajuda da IA, e depois de muitas "calinadas" de parte a parte, lá chegámos a esta BD  que resulta de várias versões, colagens e emendas... A IA nunca contou com a sabotagem dos postos telegráficos por parte do partido do senhor engenheiro Amílcar Cabral, que era agrónomo mas devia perceber alguma coisa de telegrafia e telefonia com fios (de cobre), proque os mandou cortar... Eu, pela minha parte, que não sou engenheiro nem muito menos percebo de transmissões, estava piamente convencido de que em 1969 havia cabos submarinos  a ligar a Guiné à nossa terra (à beira-mar plantada). Fiz confusão, o meu pai é que foi para o Mindelo, Cabo Verde, em 1941, para guardar os cabos submarinos...(**)

Em 1969, não havia nenhum cabo submarino ligado à Guiné, nem telegráfico, nem muito menos coaxial.

O cabo submarino que existia em Bolama,  lançado em 1893 pela companhia britânica West African Telegraph Company,já tinha sido abandonado e desativado décadas antes (o tráfego comercial de cabos telegráficos para aquela zona da costa africana foi sendo progressivamente desligado à medida que as estações de rádio entraram em cena na primeira metade do século XX). E cabos coaxiais submarinos na Guiné?|... Nunca existiram até ao fim da guerra.

O circuito histórico exato de 1969 era o seguinte: as comunicações de Bambadinca para a Lourinhã dependiam a 100% da via aérea (rádio) na sua primeira e mais longa etapa.

O verdadeiro percurso daquela chamada era este:

~
A antena de rádio mais alta de Bambadinca, c. 1969/70.
Vista aérea
Foto: Humbert Reis / Arquivo do Blogue Luís Graça
& Camaradas da Guiné
i)  O salto local (Bambadinca ➔ Bissau)


Como os postes telegráficos da rede civil terrestre tinham sido cortados e sabotados pelo PAIGC logo no início do conflito, o posto dos CTT de Bambadinca dependia de um posto emissor de rádio HF (instalado no quartel, dentro do perímetro de arame farpado, pior razóes de segurança)

A minha voz saía de Bambadinca pelo éter e era captada em Bissau pela estação central dos CTT.



(ii) O grande salto transatlântico (Bissau ➔ Lisboa via Rádio Marconi)

Aqui entra  a  tecnologia da época. A central de Bissau não injetava nada num cabo submarino. O sinal era retransmitido por potentes emissores de onda curta (HF) da Companhia Portuguesa Rádio Marconi (CPRM) instalados na Guiné.

A minha voz viajava por propagação ionosférica;  as ondas de rádio subiam, batiam na ionosfera (a camada alta da atmosfera), faziam ricochete e voltavam a descer, cruzando os 4 mil quilómetros de distância em frações de segundo até serem captadas pelas gigantescas antenas de receção da Marconi em Portugal (como a mítica Estação de Receção de Alfragide ou de Vendas Novas).

(iii) A rede terrestre (Lisboa ➔ Lourinhã)

Só quando o sinal de rádio vindo de Bissau aterrava nas antenas da Marconi em Portugal Continental é que ele era transformado em sinal elétrico de linha telefónica:

A Marconi passava a chamada para a rede dos CTT em Lisboa.

A partir de Lisboa, a chamada seguia pelos cabos aéreos de cobre ou feixes hertzianos terrestres nacionais, subindo pela Estremadura até chegar à central manual dos CTT da Lourinhã, onde a telefonista finalmente completava a ligação para o destinatário.

2. Porque é que era tão difícil e instável a ligação Guiné-Portugal ?   Uma verdadeira "lotaria"!

Não havia a estabilidade de um cabo submarino debaixo de água. Dependia-se inteiramente do estado do tempo e da atividade solar. Se a ionosfera estivesse instável, a chamada "caía", o ruído estático tapava a voz e os operadores tinham de ficar horas à espera que a frequência "abrisse".

Havia pouquíssimos canais de rádio disponíveis na Marconi para o tráfego civil/militar simultâneo, o que gerava as célebres listas de espera de dias nos postos dos CTT do mato.

Afinal, o único fio que nos unia, a nós militares,  à metrópole era, ironicamente, invisível e passava pelas ondas de rádio (e não por nenhum cabo submarino, como alguns de nós pensávamos).

(Pesquisa: LG + Fundação Portuguesa das Comunicações + IA (Gemini / Google)
Condensaçáo, revisã / fixação de texto, negritos: LG)

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Notas do editor LG.:

(*) Último poste da série > 4 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28155: Humor de caserna (278): Na Spinolândia, namorar não era proibido... o preço da chamada telefónica para a metrópole é que era proibitivo!... Que o diga o Humberto Reis, o nosso "cartógrafo" e "ranger" (que está agora no "estaleiro", e a quem desejamos rápida recuperação)

(**) Em 1941,  diz a IA/Google, os cabos submarinos amarrados na zona do Mindelo (ilha de São Vicente, Cabo Verde) pertenciam a duas empresas principais: a Western Telegraph Company (de capital britânico) e a Italcable (de capital italiano). 

A ilha assumiu grande importância geoestratégica durante a Segunda Guerra Mundial devido à sua infraestrutura de comunicações: (i) Cabos Britânicos: eram os mais antigos e numerosos, sendo perados pela Western Telegraph Company: aziam as conexões cruciais do Império Britânico ligando Portugal continental (Carcavelos), Madeira, Brasil, e a costa ocidental de África;  (ii) Cabos Italianos: operados pela Italcable, cabos ligavam a Itália à América do Sul, passando por Cabo Verde (com amarração na praia da Matiota).

sábado, 4 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28155: Humor de caserna (278): Na Spinolândia, namorar não era proibido... o preço da chamada telefónica para a metrópole é que era proibitivo!... Que o diga o Humberto Reis, o nosso "cartógrafo" e "ranger" (que está agora no "estaleiro", e a quem desejamos rápida recuperação)









 



















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Imagem:  Humberto Reis  (2011)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.




1. Maria Teresa Macedo Coelho dos Reis nasceu no Porto, 11 de julho de 1947. Faleceu em Alfragide, em 14 de de 2011, portanto à beira de completar os 64 anos.

 Segundo o Humberto, conheceram-se no Bairro da Encarnação, Lisboa, onde as famílias viviam  e eram vizinhas. Os pais do Humberto tinham também casa em Albergaria dos Doze, Pombal.

A Teresa era jogadora de basquetebol e trabalhava na RTP. Casou com o Humberto em maio de 1972. Em meados de 1970 o Humberto veio de férias da Guiné (ei-lo aqui, na foto à esquerda, com a Teresa) (*).

Pessoalmente, conhecia-a na Lourinhã, num memorável convívio com o Humberto, o Tony Levezinho e a sua querida Isabel, também já infelizmente falecida (1952-2020),  e  mais um casal de amigos da Amadora, após o nosso regresso da Guiné, em março de 1971. Esse convívio na Lourinhã deve ter sido em meados de 1971.

A Teresa era então uma mulher esplendorosa, jovial, e brincalhona... Éramos todos jovens e tínhamos a vida à nossa frente.   Foi a primeira das "nossas mulheres" a entrar para a Tabanca Grande, a título póstumo, em 22/6/2011.

Este poste, bem humorado (**), é uma pequena homenagem que lhe fazemos. A ela e ao seu (e nosso) Humberto, que está no "estaleiro", na cama 24,  da enfermaria do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica, piso 8, no Hospital de Santa Maria, Lisboa, a recuperar da "Operação Coração Aberto"...... Fazemos votos para que ele regresse a casa, pelo seu pé. E agora 10 anos mais novo que todos nós...

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 3 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28153: A nossa guerra em números (50): o custo de uma chamada telefónica, de 3 minutos, em 1969, para a Metrópole, podia ir de 100 a 130 escudos (37 a 48 euros, a preços de hoje)

domingo, 24 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28050: Humor de caserna (270): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVII: Oh, homem, cale-se! (Alberto Branquinho, ex-alf mil art OE, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
Fontes iconográficas: fotos de Alberto Branquinho e gen António de Spínola (1969), Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O escritor Alberto Branquinho, alto-duriense de Vila Nova de Foz Coa (uma terra antiga como o caraças), e que faz questão de não esconder que andou na guerra colonial da Guiné, na porrada, é um dos nossos contribuintes (líquidos) desta série, "Humor de Caserna".

Não vive da escrita, é advogado, mas já publicou uma "porrada" de livros, e p0demos dizer que  vários se encaixam no polémica categoria da "literatura da (e não sobre a) guerra colonial"...

 Acaba de publicar mais um, que ele diz que é o último mas a gente não acredita. Ficou de mandar um exemplar autografado para a Tabanca Grande. Ainda nem sabemos como é o título. 

Até lá (até que o livro chegue à Lourinhã, minha terra natal, também velha como o caraças), fui revisitar um dos seus contos da série "Contraponto". Recorde-se quem ele é (ou foi, noutra encarnação):

(i) ex-alf mil art, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69;

(ii) nota curiosa: desembracou em Bissau em 1 de maio de \1967, no tempo do governador e comandante-chefe, Arnaldo Schulz; regressou à metrópolke em 2 de março de 1969, já no tempo do gen António Spínokla;

(iii) depois de ter passado por Coimbra como estudante, fixou-se em Lisboa, onde exerce adv0cacia (advogados e médicos trabalham até morrer);

(iv) dizem os críticos literários que é um dos grandes contistas da guerra da Guiné (ou da Guinezinha, como dizia a senhora dona Supico Pinto,m com ternura);

(v) é autor, entre outros, dos livros de contos "Cambança"; "Cambança Final" e "Deixem a Guerra em Paz";

(vi) faz parte da Tabanca Grande desde 26/8/2008, altura em que venceu a relutância de se associar ao nosso blogue, ao ler o nosso apelo, "Não deixemos que sejam os outros a contar a nossa história por nós";

(vii) tem 163 referências no nosso blogue.


2. A história que se segue tinha originalmente um título modesto (mas honesto), "O Spínola que eu...entrevi". Ele começa por justificar por que é que, muito sinceramente, nunca poderia enganar o leitor se disssesse "O Spínola que eu conheci". Não é homem para enganar os outros, mesmo sendo causídico, vendendo gato por lebre. 

A cena passa-se, nos arredores de Bissau, em Brá, no famoso Depósito dos A(r)didos), num sábado, dia 1 de março de 1969, aquando da despedida de mais um contingente de tropas que cumpriam a sua comissão de serviço e regressavam, no dia seguinte, a casa: BART 1913, CCAV 1693, etc.  

Repare-se que, "naqueles bons velhos tempos" (há quem saudades!...), ainda se trabalhava ao sábado e sol a sol... (Não é como agora, em que  toda a gente, a começar pela tropa,  quer a semana de 4 dias e, de preferência, em teletrabalho).
 

Humor de caserna > O anedotário da Spinolândia: Oh!, homem, cale-se!

por Alberto Branquinho


Não me pareceu que este texto pudesse ser colocado na série “O Spínola que eu conheci”, porque não o conheci. O que posso dizer é que, por duas vezes, pude entrevê-lo.

A primeira foi durante o período de permanência da minha companhia em Bissau (onde nunca estivera), aguardando o embarque de regresso a Lisboa. Encaminhava-me para a messe em Santa Luzia 
[no QG/CTIG], quando o vi, ao longe, em frente à messe, entre meia dúzia de oficiais.

A segunda vez foi durante a formatura de despedida das tropas que, no dia seguinte, embarcavam para Lisboa. Que me lembre, na formatura, estava o meu batalhão  [BART 1913], outro batalhão [ ou, pelo menos, a CAV 1693] e, lá mais à frente, sob a minha direita, tropas da marinha, impecáveis, nas suas fardas brancas.

Eu estava à frente do meu pelotão e tinha a tapar-me a visibilidade sobre um palanquim de madeira (onde estava um microfone), o meu comandante de companhia e, em frente a ele, o coronel que comandava a tropa em formatura. Chegou o Com-Chefe, acompanhado de um oficial que se colocou mais atrás, sob a sua esquerda. Toque de “Sentido”. A seguir, o coronel fez o cumprimento militar. O Com-Chefe respondeu, elevando a mão direita, enluvada, mais ou menos à altura do rosto. Toque de “À-vontade”.

Colocaram um microfone em frente ao coronel. Compasso de espera para o acertar à altura adequada. O coronel colocou os óculos e retirou umas folhas de papel do bolso direito das calças. (Aproveitei para espreitar discretamente, ora sobre a direita ora sobre a esquerda.) O coronel começou a ler. 

Eu não prestava atenção ao que ele dizia, tentando entrever o general, que dava sinais de impaciência. Apurei o ouvido. O coronel falava da arma de Artilharia, da excelência do artilheiro, da história da Artilharia.

O general, que estava cada vez mais impaciente, chegou-se ao microfone do palanquim e ouviu-se, por entre as palavras do coronel, em som nasalado e grave:

 — Já chega!

O coronel pareceu não ouvir e continuou a passar folhas e a ler. E o general:

 — Shh! Shh!

De cabeça baixa, continuei a procurar entrever o palanquim e o general, olhando por cima do sobrolho e pensando: 

 — Vai haver esturro!

O general, de novo:

— Já chega! Shh!

O coronel continuou. Acabou. Dobrou e guardou as folhas.

Ouviu-se o toque de “Sentido” e, logo a seguir, o coronel fez continência. O general respondeu, com um gesto, fazendo oscilar o pingalim sobre o seu lado direito. Então recuou um pouco, ficando, assim, visível, olhou o oficial que o acompanhava 
[talvez oi ajudante de campo, o "Aponta, Bruno"] e que estava à sua esquerda e, com o pingalim apontando o microfone, disse em voz bem audível, mais ou menos isto:

 — Diz lá umas palavras aos rapazes sobre o significado deste ato, que voltam para as famílias, para as mulheres, para os filhos… que era o que o senhor coronel devia ter feito.

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, título, negritos: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste ds série > 23 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28047: Humor de caserna (269) : O anedotário da Spinolàndia - Parte XXXVI: o que faz o sargento de guarda ao palácio do Governador com uma mensagem relâmpago ("zulu") num domingo, já noite dentro ? Se necessário, faz o Governador saltar da cama...