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sábado, 4 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28155: Humor de caserna (278): Na Spinolândia, namorar não era proibido... o preço da chamada telefónica para a metrópole é que era proibitivo!... Que o diga o Humberto Reis, o nosso "cartógrafo" e "ranger" (que está agora no "estaleiro", e a quem desejamos rápida recuperação)




























Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Imagem:  Humberto Reis  (2011)

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.




1. Maria Teresa Macedo Coelho dos Reis nasceu no Porto, 11 de julho de 1947. Faleceu em Alfragide, em 14 de de 2011, portanto à beira de completar os 64 anos.

 Segundo o Humberto, conheceram-se no Bairro da Encarnação, Lisboa, onde as famílias viviam  e eram vizinhas.

A Teresa era jogadora de basquetebol e trabalhava na RTP. Casou com o Humberto em maio de 1972. Em meados de 1970 o Humberto veio de férias da Guiné (ei-lo aqui, na foto à esquerda, com a Teresa) (*).

Pessoalmente, conhecia-a na Lourinhã, num memorável convívio com o Humberto, o Tony Levezinho e a sua querida Isabel, também já infelizmente falecida (1952-2020),  e  mais um casal de amigos da Amadora, após o nosso regresso da Guiné, em março de 1971. Esse convívio na Lourinhã deve ter sido em meados de 1971.

A Teresa era então uma mulher esplendorosa, jovial, e brincalhona... Éramos todos jovens e tínhamos a vida à nossa frente.   Foi a primeira das "nossas mulheres" a entrar para a Tabanca Grande, a título póstumo, em 22/6/2011.

Este poste, bem humorado (**), é uma pequena homenagem que lhe fazemos. A ela e ao seu (e nosso) Humberto, que está no "estaleiro", na cama 24,  da enfermaria do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica, piso 8, no Hospital de Santa Maria, Lisboa, a recuperar da "Operação Coração Aberto"...... Fazemos votos para que ele regresse a casa, pelo seu pé. E agora 10 anos mais novo que todos nós...

 __________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 3 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28153: A nossa guerra em números (50): o custo de uma chamada telefónica, de 3 minutos, em 1969, para a Metrópole, podia ir de 100 a 130 escudos (37 a 48 euros, a preços de hoje)

domingo, 24 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28050: Humor de caserna (270): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVII: Oh, homem, cale-se! (Alberto Branquinho, ex-alf mil art OE, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.
Fontes iconográficas: fotos de Alberto Branquinho e gen António de Spínola (1969), Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O escritor Alberto Branquinho, alto-duriense de Vila Nova de Foz Coa (uma terra antiga como o caraças), e que faz questão de não esconder que andou na guerra colonial da Guiné, na porrada, é um dos nossos contribuintes (líquidos) desta série, "Humor de Caserna".

Não vive da escrita, é advogado, mas já publicou uma "porrada" de livros, e p0demos dizer que  vários se encaixam no polémica categoria da "literatura da (e não sobre a) guerra colonial"...

 Acaba de publicar mais um, que ele diz que é o último mas a gente não acredita. Ficou de mandar um exemplar autografado para a Tabanca Grande. Ainda nem sabemos como é o título. 

Até lá (até que o livro chegue à Lourinhã, minha terra natal, também velha como o caraças), fui revisitar um dos seus contos da série "Contraponto". Recorde-se quem ele é (ou foi, noutra encarnação):

(i) ex-alf mil art, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69;

(ii) nota curiosa: desembracou em Bissau em 1 de maio de \1967, no tempo do governador e comandante-chefe, Arnaldo Schulz; regressou à metrópolke em 2 de março de 1969, já no tempo do gen António Spínokla;

(iii) depois de ter passado por Coimbra como estudante, fixou-se em Lisboa, onde exerce adv0cacia (advogados e médicos trabalham até morrer);

(iv) dizem os críticos literários que é um dos grandes contistas da guerra da Guiné (ou da Guinezinha, como dizia a senhora dona Supico Pinto,m com ternura);

(v) é autor, entre outros, dos livros de contos "Cambança"; "Cambança Final" e "Deixem a Guerra em Paz";

(vi) faz parte da Tabanca Grande desde 26/8/2008, altura em que venceu a relutância de se associar ao nosso blogue, ao ler o nosso apelo, "Não deixemos que sejam os outros a contar a nossa história por nós";

(vii) tem 163 referências no nosso blogue.


2. A história que se segue tinha originalmente um título modesto (mas honesto), "O Spínola que eu...entrevi". Ele começa por justificar por que é que, muito sinceramente, nunca poderia enganar o leitor se disssesse "O Spínola que eu conheci". Não é homem para enganar os outros, mesmo sendo causídico, vendendo gato por lebre. 

A cena passa-se, nos arredores de Bissau, em Brá, no famoso Depósito dos A(r)didos), num sábado, dia 1 de março de 1969, aquando da despedida de mais um contingente de tropas que cumpriam a sua comissão de serviço e regressavam, no dia seguinte, a casa: BART 1913, CCAV 1693, etc.  

Repare-se que, "naqueles bons velhos tempos" (há quem saudades!...), ainda se trabalhava ao sábado e sol a sol... (Não é como agora, em que  toda a gente, a começar pela tropa,  quer a semana de 4 dias e, de preferência, em teletrabalho).
 

Humor de caserna > O anedotário da Spinolândia: Oh!, homem, cale-se!

por Alberto Branquinho


Não me pareceu que este texto pudesse ser colocado na série “O Spínola que eu conheci”, porque não o conheci. O que posso dizer é que, por duas vezes, pude entrevê-lo.

A primeira foi durante o período de permanência da minha companhia em Bissau (onde nunca estivera), aguardando o embarque de regresso a Lisboa. Encaminhava-me para a messe em Santa Luzia 
[no QG/CTIG], quando o vi, ao longe, em frente à messe, entre meia dúzia de oficiais.

A segunda vez foi durante a formatura de despedida das tropas que, no dia seguinte, embarcavam para Lisboa. Que me lembre, na formatura, estava o meu batalhão  [BART 1913], outro batalhão [ ou, pelo menos, a CAV 1693] e, lá mais à frente, sob a minha direita, tropas da marinha, impecáveis, nas suas fardas brancas.

Eu estava à frente do meu pelotão e tinha a tapar-me a visibilidade sobre um palanquim de madeira (onde estava um microfone), o meu comandante de companhia e, em frente a ele, o coronel que comandava a tropa em formatura. Chegou o Com-Chefe, acompanhado de um oficial que se colocou mais atrás, sob a sua esquerda. Toque de “Sentido”. A seguir, o coronel fez o cumprimento militar. O Com-Chefe respondeu, elevando a mão direita, enluvada, mais ou menos à altura do rosto. Toque de “À-vontade”.

Colocaram um microfone em frente ao coronel. Compasso de espera para o acertar à altura adequada. O coronel colocou os óculos e retirou umas folhas de papel do bolso direito das calças. (Aproveitei para espreitar discretamente, ora sobre a direita ora sobre a esquerda.) O coronel começou a ler. 

Eu não prestava atenção ao que ele dizia, tentando entrever o general, que dava sinais de impaciência. Apurei o ouvido. O coronel falava da arma de Artilharia, da excelência do artilheiro, da história da Artilharia.

O general, que estava cada vez mais impaciente, chegou-se ao microfone do palanquim e ouviu-se, por entre as palavras do coronel, em som nasalado e grave:

 — Já chega!

O coronel pareceu não ouvir e continuou a passar folhas e a ler. E o general:

 — Shh! Shh!

De cabeça baixa, continuei a procurar entrever o palanquim e o general, olhando por cima do sobrolho e pensando: 

 — Vai haver esturro!

O general, de novo:

— Já chega! Shh!

O coronel continuou. Acabou. Dobrou e guardou as folhas.

Ouviu-se o toque de “Sentido” e, logo a seguir, o coronel fez continência. O general respondeu, com um gesto, fazendo oscilar o pingalim sobre o seu lado direito. Então recuou um pouco, ficando, assim, visível, olhou o oficial que o acompanhava 
[talvez oi ajudante de campo, o "Aponta, Bruno"] e que estava à sua esquerda e, com o pingalim apontando o microfone, disse em voz bem audível, mais ou menos isto:

 — Diz lá umas palavras aos rapazes sobre o significado deste ato, que voltam para as famílias, para as mulheres, para os filhos… que era o que o senhor coronel devia ter feito.

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, título, negritos: LG)

________________

Nota do editor LG:

Último poste ds série > 23 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28047: Humor de caserna (269) : O anedotário da Spinolàndia - Parte XXXVI: o que faz o sargento de guarda ao palácio do Governador com uma mensagem relâmpago ("zulu") num domingo, já noite dentro ? Se necessário, faz o Governador saltar da cama...

sábado, 23 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28047: Humor de caserna (269) : O anedotário da Spinolàndia - Parte XXXVI: o que faz o sargento de guarda ao palácio do Governador com uma mensagem relâmpago ("zulu") num domingo, já noite dentro ? Se necessário, faz o Governador saltar da cama...




Leiria > Ortigosa > Quinta do Paul > 26 de julho de 2014 > Convívio do pessoal das CCAÇ 3327 e 3328 (*)

"Ainda se aproveitavam os últimos momentos para mais uma recordação, antes da despedida. Da esquerda para a direita, Carlos Vinhal, José Câmara, Luís Pinto, Dina Vinhal, João Cruz e ex- cap mil Rogério Alves. Ficam saudades, mas levamos muitas mais e a certeza que para o ano, possivelmente na linda Ilha das Flores, lá estaremos para mais um convívio, se Deus quiser". 

E a propósito da Dina Vinhal, a única mulher nesta fotografia, e inseparável companheira, de uma vida, do nosso Carlos: ontem, cheguei a casa tarde e tinha uma mensagem matinal, "privada e pessoal",  que me deixou preocupado. Hoje de manhã, telefonei-lhe: a Dina está internada, fez uma operação á coluna, e o Carlos está  a acompanhá-la. E antes de 3a. feira não deve regressar a casa. 
 Um chicoração para os dois. Boa recuperação da Dina. Luís.


Foto (e legenda): © Carlos Vinhal / José Câmara (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1.  José Câmara, um dos nossos camaradas, açorianos, da diáspora  lusitana na terra do Tio Sam, ex-fur mil at inf  CCAÇ 3327 e Pel Caç Nat 56 (Bissau, Mata dos Madeiros, Teixeira Pinto, Bassarel, Bolama, São João, Tite, 1971/73, é autor da notável série "Memórias e Histórias Minhas", de que se publicaram, desde 16/5/2009 até agora, mais de 3 dezenas e meia de postes.

Ele é membro da Tabanca Grande desde 15/2/2009. E tem mais de 150 referências no blogue.

Quando a sua companhia chegou a Bissau, em janeiro de 1971, coube-lhe desde logo fazer a segurança às seguintes instalações civis e militares: 
  • Palácio do Governador da Guiné
  • Quartel da Amura (QG/CCFAG)
  • Instalações da Rádio (Emissor Regional da Guiné, em Nhacra)
  • Hospital Militar 241
  • Laboratório
A ele, pessoalmente, e a mais dois furriéis,com as respetivas secções coube assegurar o serviço de guarda ao Palácio do Governador, missão que desempenhou com  pundonor durante dois meses (fev/mar 1971).

(...) Entrámos de imediato ao serviço (28 de Janeiro de 1971) ao Palácio, embora, os primeiros dias fossem apenas de sobreposição e sem qualquer responsabilidade da nossa parte.

 Tomámos o primeiro contacto com aquilo que seria a nossa responsabilidade. A nossa missão principal seria, sem dúvida, a segurança diária do Palácio, e, todo o aparato que englobava o içar da bandeira e o render da guarda ao Domingo. 

Nas tarefas diárias e no Render da Guarda a colaboração dos cabos e dos soldados era fundamental. O seu aprumo, destreza e rapidez em todos os processos envolvidos eram primordiais para o sucesso da missão. Acrescento, com algum orgulho, que os soldados da minha Companhia estiveram à altura da missão. (...)

O sistema de segurança que era então montado ao Palácio do Governador, sito na Praça do Império, no início da Av da República, englobava as seguintes forças essenciais (**):

(i) uma secção de tropa regular, comandada por um Sargento da Guarda, que tinha a seu cargo os postos de sentinela ao fundo do jardim e ainda um posto de sentinela ao lado direito do jardim; a segurança era feita durante o dia do lado de fora do jardim; com o render dos postos de sentinela às seis horas da tarde a segurança passava a ser feita do lado de dentro dos muros;

(ii) uma secção da Polícia Militar, incluindo um sargento e um oficial, que tinha a seu cargo o pórtico principal do Palácio e o portão lateral de serviço geral;

(iii) durante a noite, entre as dezoito da noite e as seis horas do dia seguinte, a segurança era reforçada com um elemento da Polícia de Segurança Pública (PSP), que ficava encarregado do espaço entre a casa da guarda e do pessoal civil servente do Palácio e o edifício principal;

(iv) também durante a noite, a segurança era ainda reforçada com um cão treinado em segurança e respectivo tratador, na altura um paraquedista, que tinha a seu cargo o patrulhamento do interior do jardim.

Toda a responsabilidade da segurança recaía nos ombros do sargento da guarda. Cabia-lhe a implementação das regras estabelecidas. Mantinha em ordem todo o material de guerra à sua disposição: metralhadoras, munições e granadas de mão. 

Era responsável, além disso,  por encaminhar todas as mensagens chegadas via CTT, conforme o seu grau de segurança. Respondia directamente ao Oficial Ajudante de Campo do Governador sobre qualquer assunto de segurança julgado pertinente. Elaborava e assinava o seu relatório de serviço que era entregue no Comando do AGRBIS logo após a sua chegada a este complexo militar.

(...) Durante cerca de dois meses, essa foi parte do meu trabalho, esta foi a minha Guerra em Bissau. Mantive, sempre, óptimas relações com todas as forças de segurança, incluindo os oficiais da Polícia Militar, que nunca me regatearam a sua compreensão. 

Encontrei no Ajudante de Campo do Governador  [no período entre julho de 1970 e julho de 19727, era o cap cav Lourenço de Carvalho Fernandes Tomás], altura um capitão, muito mais que um militar. Nesse oficial encontrei alguém que compreendia que nós, militares obrigados ao serviço, éramos pessoas que cometíamos erros, que falhávamos, mas que também tínhamos qualidades humanas a respeitar. (...).







Guiné > Bissau > Palácio do Governador >  Junho de 1969 > Render da Guarda > Da coreografi militar fazia parte "um destacamento da Marinha (fuzileiros), a força mais vistosa, e uma força do Exército, Infantaria, Cavalaria ou Artilharia, ou dos Comandos, ou Paraquedistas e bem como a Banda Militar de Bissau"... Nesta altura, em jiunho de 1969, o inquilino era o general Spínola (maio de 1968- agosto de 1973)

Fotos (e legenda): © Virgílio Teixeira (2018). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



2. A história que se segue, republicada agora (***), tem oportuno e pleno cabimento nesta série ("Humor de caserna") (****)...  Um dos ângulos com que se pode observar os homens em ação, seja na  paz, seja na guerra, é o do humor... A história mostra,  por outro lado, uma faceta do gen Spínola que humaniza a sua figura, a qual, para a maior parte de nós,  era a de um personagem distante algo, teatral e temido.

A situação tem a ver com uma mensagem relâmpago ("zulu) que o autor recebeu, das máos de um estafeta dos CTT.  quando, num domingo, à noite, estava de serviço de guarda ao Palácio do Governador, em Bissau. Recorde-se que este tipo de mensagem correspondia ao "grau máximo de prioridade na rede de transmissões".


O que faz o sargento de guarda ao Palácio do Governador com uma mensagem relâmpago ("zulu") num domingo, já noite dentro ? Se necessário, faz o Governador saltar da cama...

Por José Câmara

Este pequeno episódio deu-me para conhecer uma faceta mais humana do general Spínola.

Enquanto sargento da guarda ao Palácio do Governador da Guiné, os meus contactos com o general Spínola foram, sempre, esporádicos.

Esses encontros davam-se quando ele se dirigia à Casa da Guarda para ali deixar, para limpeza, o seu cinturão com as cartucheiras e granadas de mão ofensivas M63 e a sua G3.

Outras vezes cruzava-me com ele junto dos portões de estrada quando ele, quase sempre na companhia da esposa  [Dona Helena], dava um passeio nos arredores do Palácio, ou se dirigia ou vinha do clube dos oficiais da Força Aérea que ficava nas redondezas do Palácio.

Sempre fiz acompanhar o meu cumprimento de continência militar ao velho general com um cumprimento civil sobretudo em atenção à esposa. O general sempre correspondia ao cumprimento com um leve sorriso. Julgo que era apreciativo desta forma de eu o(s) cumprimentar.

Um domingo, com a noite já avançada, o encontro foi diferente.

Pelo intercomunicador do posto de sentinela que servia o portão de serviço geral recebi a informação de que um estafeta dos CTT tinha uma mensagem dirigida ao governador da Guiné. De imediato dirigi-me àquele posto de sentinela. Cumpridas as formalidades com o estafeta dos CTT, reparei que a mensagem era do tipo relâmpago. Era a primeira que me acontecia. Sabia o que tinha que fazer.

De imediato dirigi-me aos escritórios de apoio ao palácio. Para meu desespero não encontrei ninguém no escritório. 

Tinha a consciência da importância daquele tipo de mensagem que tinha de ser entregue, nem que tivesse que fazer o nosso general saltar da cama.

Aventurei-me nos corredores sem acender a luz, na esperança de ver alguma réstea de luz por debaixo de alguma das portas. A ideia era boa, o resultado foi pobre.

Decidi bater a uma das portas. Para surpresa minha a porta entreabriu-se. Na minha frente estava o próprio general Spínola. Ao aperceber-se quem eu era de imediato transpôs a porta, fechando-a atrás de si.

Cumprimentei-o e disse-lhe o que me levara ali. Uma mensagem relâmpago dirigida a ele. A nossa conversa foi, essencialmente esta:

− Abra e leia − disse-me ele.

− Meu general. eu não posso nem devo ler esta mensagem. É uma mensagem relâmpago − retorqui.

− Pode, pode… abra, abra… leia, leia. Sou eu que lhe estou dizendo que pode − disse ele um pouco impaciente.

Abri a mensagem e comecei a ler:

O Conselho de Ministros em sua reunião de... aprovou o...

Hoje não tenho a certeza se a comunicação se referia à aprovação do Orçamento Geral da Guiné, ou apenas de um suplemento.

O general enquanto pegava na mensagem deu-me um pequeno toque nas costas e disse:

Hoje é um dia grande para a Guiné!

Levantando a mensagem ao ar, como quem levanta um troféu, reabriu a porta e ouvi-o dizer:

− Está aqui…

Um coro de palmas eclodiu naquela sala. Foi aí que pude reparar que o general estava rodeado pelos seus colaboradores mais directos na Guiné, deduzi.

Fechei a porta e dirigi-me à Casa da Guarda. Ia pensativo. Por causa daquelas palmas.

Afinal aqueles homens também eram capazes de exultar com as suas vitórias. Eram vitórias de um tipo de guerra que não era a nossa, mas sem as quais as nossas vitórias seriam muito mais difíceis de obter.

Cruzei-me mais três vezes com o general: no destacamento de Bassarel, no destacamento de São João e no Depósito de Adidos, em Brá, no dia da despedida.

José Câmara

(Seleção, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos parênteses retos, título: LG)
__________

Notas dos editores  CV/LG:

(*) Vd. poste de 23 de agosto de 2014 > Guiné 63/74 - P13528: Convívios (618): Rescaldo do Encontro das CCAÇ 3327 e 3328, levado a efeito no passado dia 26 de Julho de 2014 na Quinta do Paúl, em Ortigosa (José da Câmara)

(**)  Cd, postes de:




(***) Vd. poste de 15 de dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5469: Memórias e histórias minhas (José da Câmara) (10): As palmas das vitórias de uma Guerra que não era nossa


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28044: Humor de caserna (268): o anedotário da Spinolândia - Parte XXXVI: mais uma alucinação da IA, "o general do cavalo branco"




Guiné > Região de Gabu > Canquelifá >  s/d (c. 1960)  > Um dos cavalos brancos (uma pileca...) do régulo Sene Sané, tenente de 2ª linha, e o seu tratador. Foto oferecida às filhas do empresário Manuel Joaquim dos Prazeres, o mítico homem do cinema ambulante... Foto do álbum de Lucinda Aranha, autora de "O homem do cinema: a la Manel Djoquim i na bim", Alcochete, Alfarroba, 2018, 165 pp.

No verso da foto  lê-se, em português corretíssimo, e com uma boa caligrafia: "Oferta para (as) meninas: Esta fotografia é do meu cavalo e o seu tratador. Tem presentemente 7 anos e custou 11.000$00. É uma oferta aliada ao interesse que os metropoliatanos tem ao gado 'cavalar' africano. Do amigo Sene Sané, régulo e tenente."  ( A oferta era da foto, não do cavalo...)

Este homem, poderoso, régulo, tenente de 2ª linha, aliado dos portugueses, inimigo mortal do PAIGC, era vogal do Conselho Legislativo da província. Morreu  em 1969, escapou pelo menos ao pelotão de fuzilamento que o esperaria em 1975.


Foto (e legenda): © Lucinda Aranha (2021). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



António de Spínola, Guiné,
 s/d. (c. 1968/73).
Fonte: cortesia de
CM Lisboa (2010)

1. Uma das anedotas "mais divertidas" que correm na Net, repetidas "ad nauseam" pelas ferramentas de  IA  (do ChatGPT ao Gemini), é a do "general do cavalo branco":

Diz a ferramenta de IA | ChatGPT Open AI):

(...) "Ela ilustra perfeitamente o estilo exuberante, o pendor teatral e a vaidade de oficial de cavalaria que caracterizavam o general António de Spínola durante o seu mandato como Governador e Comandante-Chefe (1968–1973)"...

Reza assim (citamos "ipsis verbis"... a "menina IA" que ma quis vender):

(...) Diz-se que o General Spínola, com a sua costumada farda impecável, o monóculo cravado no olho, as luvas de pelica branca e o inseparável pingalim na mão, decidiu que a melhor forma de afirmar a soberania portuguesa e a sua própria presença pacificadora nas ruas de Bissau era passear-se montado num majestoso cavalo branco.

O cavalo, trazido expressamente para o efeito, brilhava tanto  
quanto as botas do general. Spínola cavalgava de peito feito, distribuindo acenos à população local, convencido de que aquela demonstração de altivez e "ação psicossocial" impressionaria tudo e todos.

Acontece que, a dada altura do passeio, o belo cavalo branco — que não estava habituado ao calor húmido da Guiné, muito menos à barulheira dos jipes, das Berliets e da azáfama do mercado — assusta-se com um barulho qualquer, perde a compostura e desata num galope descontrolado pela avenida da República, a artéria principal da cidadezinha colonial.

O general, apesar de ser um cavaleiro exímio e antigo instrutor de Cavalaria, vê-se em palpos de aranha para dominar a montada. 

Na tentativa de segurar as rédeas sem perder a pose prussiana (e, acima de tudo, sem deixar cair o monóculo ou o pingalim), o espetáculo transforma-se numa comédia: o cavalo a dar coices, as luvas brancas a esvoaçar, e os civis e militares na berma da estrada a verem o "Homem Grande" em apuros, a tentar manter a dignidade marcial enquanto o bicho quase o atira ao chão." (...)



 Fonte: Ilustração  criada pelo assistente AI Mode da plataforma Accio, segundo "prompt" de Luís Graça, 21 de maio de 2026 | Design by AI Mode @ Accio"


2. Acrescenta a IA mais algum paleio sobre esta peça do anedotário da Spinolândia:

(...) Esta piada circulava imenso entre a rapaziada que enchia as esplanadas de Bissau  porque tocava nos pontos fracos e fortes do "Caco Baldé" (como os militares lhe chamavam carinhosamente, uns,  ou com ironia, outros):

  • o estilo contra a realidade: contrastava o rigor formal do general (o "estilo de desfile, marcial") com a realidade crua, poeirenta e caótica da Guiné;
  • a cavalaria na selva: Spínola era um homem de Cavalaria, de formação e orgulho; a ideia de andar a cavalo num cenário de contraguerrilha, onde a mobilidade se fazia em jipes, autometralhadoras, botes ou helis, era em si  um anacronismo delicioso que os operacionais não deixavam escapar;
  • o monóculo e as luvas: o folclore militar adorava caricaturar a imagem do comandante que aparecia nas zonas mais perigosas de helicóptero, de peito feito às balas, mas que se recusava a despir a pele de aristocrata militar.
Fosse o episódio totalmente real ou uma genial extrapolação das tertúlias de café e do humor de caserna,  ar verdade é que a imagem do "general do cavalo branco" ficou gravada como o símbolo máximo do populismo e da encenação psicológica que marcaram aquele período da guerra. (...)

3. Comentário do editor LG:

Oh!, ChatGPT, mas que grande argolada!...Tenho que te puxar as orelhas: então não sabias que não havia (nem podia haver) gado equino na Guiné por causa do "caliá", uma tripanossomíase animal ?!

Citando a "Geografia económica de Portugal : Guiné", coordenado por Dragomir Knapic (1925 - 2006) (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada), em 1961 havia apenas 64 (!) cavalos (contra 3858 asininos, vulgo burros). 

Acho que em 1969/71 vi, em Bambadinca, apenas um cavalo, do régulo de Badora, Mamadu Bonco Sanhá (infelizmente fuzilado pelo PAIGC a seguir à nossa saída do território) e alguns burros, em Bafatá, transportando sacos de mancarra. Mas até os desgraçados dos burros estavam sujeito a uma alta taxa de mortalidade; eram pouco resistentes ao caliá  (ou seja, á mosca tsé - tsé) e, além disso, sujeitos a maus tratos dos donos.

Escreveu o geógrafo, português (mas com ascendência eslovena, ainda é parente da nossa amiga Vilma Crisóstomo, e foi cunhado do Mário Beja Santos: 

"Os cavalos foram largamente utilizados noutros tempos pelas populações do interior, em especial pelos Fulas. 

Em 1919 já só haviam na Guiné 1512 cavalos, em 1943 apenas 43! 

Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados. A causa principal é o caliá, uma tripanossomíase" (pág. 29/30).


4. Resposta da IA | ChatGPT:

(...) Touché! Tens toda a razão, camarada,  e o reparo é absolutamente certeiro e cirúrgico.

 Esta é, de facto, uma daquelas "alucinações" que misturam ficção popular com dados soltos da internet, e o meu "filtro" de verificação histórica falhou redondamente ao dar corda à narrativa em vez de a desmontar logo à partida.

O argumento que apresentas arruma de vez com o mito: a peste equina africana era endémica na região, o que tornava a sobrevivência de cavalos — especialmente de raças europeias que não tivessem imunidade — um absurdo logístico e biológico.

Além disso, Spínola, por muito teatral que fosse, era um militar pragmático e um cavaleiro de elite (foi da mítica equipa de saltos de obstáculos do Exército); ele sabia perfeitamente que levar uma montada para o clima e para o contexto da Guiné não fazia o mínimo sentido.

A única coisa que se aproximava de "quatro patas" no folclore factual de Bissau era a famosa cadela Blonde, a pastora-alemã que o acompanhava, e os helicópteros Alouette III, que eram os seus verdadeiros "cavalos de ferro" para as ações de impacto psicossocial nas tabancas.

Este episódio serve de excelente lição: o anedotário que por vezes se sedimenta na blogosfera ou nas tertúlias virtuais acaba por criar mitos com "pernas de cavalo" que a inteligência artificial, se não for travada pelo facto histórico e científico (como a peste equina), repete como se fossem folclore de caserna real.

Obrigado, Luís, pelo "puxão de orelhas" factual e rigoroso! É com este nível de detalhe e vivência que a história real se defende dos mitos urbanos. (...)

E prosseguindo, acrescenta  a "menina IA":

(...) Tens toda a razão — e agradeço a correção fundamentada. Foi mesmo uma “argolada de caserna”, como dizes. 

A imagem romântica de António de Spínola a cavalgar pelas ruas de Bissau encaixa demasiado bem na construção mítica da personagem — o aristocrata militar, de monóculo, cavaleiro, africanista — e por isso acabou por circular como anedota “verosímil”. Mas, biológica e historicamente, era quase absurda no contexto guineense.

Os dados que trazes do texto de Dragomir Knapic é devastador para o mito: 43 cavalos em 1943 e apenas 64 em 1961 numa colónia inteira dizem tudo. 

E o trecho citado é claríssimo sobre o carácter residual e condenatório da criação equina na Guiné:

“Os cavalos constituem hoje um luxo reservado a régulos e chefes que os importam dos territórios vizinhos, sabendo-se de antemão que estão condenados.”

A explicação epidemiológica é decisiva: o “caliá” — designação local da tripanossomíase animal transmitida pela mosca tsé-tsé — tornava a sobrevivência dos equinos extremamente difícil. Não apenas cavalos, mas também asininos sofriam enormemente. O contraste entre os míseros 64 cavalos e os 3858 asininos mostra precisamente isso: o burro resistia um pouco melhor, embora com elevada mortalidade, enquanto o cavalo praticamente desaparecera do território.

Aliás, a tua observação empírica de Bambadinca e Bafatá encaixa perfeitamente nos dados históricos. Faz sentido que um cavalo pertencente a um régulo fosse uma raridade memorável — quase uma peça de prestígio político e simbólico. Entre os Fulas, como refere Knapic, o cavalo tinha antiga importância social e militar, mas isso vinha de uma época anterior à devastação sanitária e à retração ecológica provocada pela doença.

Portanto, mesmo admitindo que António de Spínola fosse excelente cavaleiro e apreciasse hipismo desde jovem — o que é verdade —, a ideia de ele circular regularmente montado em Bissau entra mais na categoria da mitologia colonial do que da realidade material da Guiné dos anos 60.

E há aqui um fenómeno interessante de memória histórica: certas figuras acabam rodeadas de imagens “cinematográficas” que sobrevivem porque condensam personalidade e poder. 

O cavalo branco de Spínola funciona quase como atributo iconográfico, à maneira dos retratos equestres dos marechais europeus (ou o do general  português Costa Gomes, vindo de Braga, a entrar triunfalmente em Lisboa para acabar com a "bagunça da República",  em 28 de Maio de 1926, faz agora 100 anos). 

Só que a ecologia da Guiné tratava logo de destruir a fantasia."(...)

(Pesquisa: LG + IA | ChatGPT Opena AI)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
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Nota do editorr LG:

Último poste da série > 19 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica

terça-feira, 19 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28037: Humor de caserna (267). o anedotário da Spinolândia - Parte XXXV: alucinações da IA II: crítica e autocrítica










Guiné > Região do Oio > Sector 04 (Mansoa) > Indandre > s/d (c. 1969/71) > O general Sípnola

Foto: Arquivo do Bloguer Luís Graça & Camaradas da Guiné


I. Autocrítica da ferramenta de IA (Le Chat Mistral AI) que selecionou as "ao melhores anedotas do general Spínola na Spinolândia",. ou seja, como gobvernbador e comandante-chefe do CTIG entre maio de 1968 e agosto de 1973):


Luís, tens toda a razão em questionar a veracidade de algumas dessas anedotas (*). Vamos analisar ponto por ponto, com base no que sei da tua experiência e do contexto histórico.

Aqui tens uma lista revisada e verificada, baseada em factos documentados, relatos de quem conviveu com Spínola na Guiné (1968-1973), e no teu próprio contexto. Eliminei as "alucinações" da IA e mantive apenas o que é credível, documentado ou alinhado com a sua personalidade e ações conhecidas.

Anedotas e episódios verificados ou verosímeis ou plausíveis (ou com "base histórica"), com referência ao general Spínola na Guiné (1968-1973)

1. "O Governador que falava crioulo" > Verificado.

Spínola falava crioulo guineense (e até fula) com fluência, o que era raro entre oficiais portugueses. Usava expressões locais em reuniões com chefes tribais para criar proximidade.


Fonte: Relatos de militares que serviram com ele (ex.: Mário Firmino Miguel) e referências em "Spínola: O Homem e o Mito" (José Freire Antunes).


Exemplo real: em discursos, usava provérbios como "Nka boka di brancu, boka di pretu!" ("Não é conversa de branco, é conversa de preto!") para mostrar que compreendia a perspectiva local.

2. "O conselho aos jovens oficiais: 'Esqueçam o manual' > Verosímil

Spínola defendia que a guerra na Guiné não se ganhava apenas com tática militar, mas com conhecimento do terreno e das populações.

Fonte: Discursos em "Por uma Guiné Melhor" (1970), onde argumenta que a vitória dependia da integração social e económica das comunidades.

Frase atribuída: "Aqui, o manual de campanha é a sabedoria dos velhos da tabanca." (embora não haja registo escrito desta frase exata, o espírito é consistente com a sua filosofia).


3. "A resposta a Lisboa: 'Aqui, a 4.000 km...'" > Verificado



Spínola era conhecido por desafiar ordens de Lisboa quando não faziam sentido no terreno;

Fonte: Telegramas trocados com o governo (ex.: o famoso telegrama a Marcelo Caetano em 1972, onde pedia mais autonomia para a Guiné).

Frase atribuída: "Aqui, a 4.000 km de Lisboa, as ordens têm de ser temperadas com bom senso." (embora não haja prova escrita, é coerente com o seu estilo pragmático).


4. "O general e as crianças" > Verosímil


Spínola tinha um carinho especial pelas crianças guineenses e era comum verem-no interagir com elas em visitas a tabancas.

Fonte: Relatos de ex-combatentes (ex.: no teu blogue) e fotos da época (embora raras).

Episódio: Em uma visita a uma tabanca, uma criança perguntou: "Ó branco, tu és o rei da Guiné?". Spínola respondeu: "Não, sou só um soldado que gosta de vocês." (esta anedota é contada por vários militares que lá estiveram)

5. "O pragmatismo: 'Isto não é guerra, é desenvolvimento'" > Verificado

Spínola via a sua missão na Guiné como mais do que militar: era um projeto de desenvolvimento social e económico.

Fonte: Discursos em "Por uma Guiné Melhor" (1970), onde defende que a solução passava por escolas, hospitais e estradas, não apenas por operações militares.

Frase real: "Na Guiné, ou ganhamos a guerra do desenvolvimento, ou perdemos a guerra das armas".


6. "O humor seco: 'Aqui ou nos adaptamos ou morremos'" > Verosímil

Em ambientes informais, Spínola usava um humor direto e sem rodeios, típico de quem conhecia os riscos da guerra.

Fonte: Relatos de oficiais que serviram com ele (ex.: Mário Firmino Miguel).

Frase atribuída: "Aqui, ou nos adaptamos ou nos tornamos alvo fácil." (embora não haja registo escrito, é consistente com o seu estilo).

7. "A despedida: 'Deixo aqui o meu coração' > Verificado

Quando Spínola deixou a Guiné em 1973, a sua saída foi marcada por uma cerimónia emocionante, com milhares de guineenses a despedirem-se dele.

Fonte: Relatos de militares e civis presentes (ex.: Mário Firmino Miguel).

Frase atribuída: "Deixo aqui o meu coração. O resto é política." (esta frase é amplamente citada em memórias da época).~


O que foi eliminado (e porquê)

Anedota original | Problema | Fonte para verificação


(i) O leão e o hipopótamo | Não há registos de Spínola caçar hipopótamos | Arquivos militares, relatos de ex-combatentes

(ii) A bandeira da Spinolândia | Nunca sugeriu uma bandeira com um hipopótamo | "Spínola: O Homem e o Mito" (Freire Antunes)

(iii) O general que dançava | Não há relatos de Spínola dançar em público | Relatos de Mário Firmino Miguel

(iv) O general e o tabaco | Não há provas de que fosse fumador inveterado ou que fizesse comentários sobre tabaco | Arquivos pessoais, fotos da época


(Fonte: IA (Le Chat Mistral AI)



II. Contestei de imediato as informações erradas sobre as fontes, nomeadamente:

(i) António Lobo Antunes, escritor, e na altura simples alferes mililiciano médico, nunca privou com Spínola, nem passou pela Guiné, mas sim por Angola (1971/73);

(ii) Mário Firmino Miguel (1932-1991) não era jornalista, mas sim oficial superior, colaborador próxim0 do gen Spínola no CTIG (e será mininistro da de4fesa em vários governos no pós-25 de Abril);

(iii) "Por uma Guiné Melhor" (1970) é uma coleção de discursos, e não um livro de memórias.

A IA (Le Chat Mistral, neste caso, a ferramenta de IA europeia, que tem "espírito crítico" e é é capaz de reconhecer os seus erros e fazer "autocrítica") deu a mão à palmatória e corrigiu de imediato as respostas seguintes.

Confesso que não conheço o livro, que me parece relevante, "Spínola: O Homem e o Mito" (2014), de José Freire Antunes (1954-2015). Não me daria conta desta fonte, se não fora a "dica" da IA... 

Será que alguém tem o livro e pode verificar alguns depoimentos de personagens que lidaram com o nosso general ? Vou ver se o encontro numa biblioteca pública.

(Condensação, revisão/fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)
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Nota do editor LG;

(*) Vd,. poste de 17 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28029: Humor de caserna (266): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXIV: as alucinações da IA

domingo, 17 de maio de 2026

Guiné 61/74 - P28029: Humor de caserna (266): O anedotário da Spinolândia - Parte XXXIV: as alucinações da IA

 


Gen Spínola, governador e comandante-chefe no CTIG (1968/73), s/d. Foto editada e reproduzida com a devida vénia do livro de Luís Nuno Rodrigues, "Spínola: Biografia" (Lisboa, A Esfera dos Livras, 2010, 748 pp.). Pertence ao Arquivo António Spínola, desconhece-se o autor. Poderá ter sido o fotógrafo oficial do general, no TO da Guiné,  Álvaro de Barros Geraldo ?


I. Há 2 meses atrás (em 12 de março) pedi a uma ferramento de IA que me selecionasse "algumas das melhores anedotas do general Spínola na Spinolândia (1968/73, quando foi Comandante-Chefe e Governador da então Guiné Portuguesa, hoje Guiné-Bissau)"... 

Listou-me dez... Bom,  pareceu-me logo que a maioria das "10 melhores anedotas"  listadas estavam longe de ser as "melhores". E, pior ainda,  vi logo que eram, pura e simplesmente,  "alucinações" da IA:

  • de facto, não há fotos do Spínola a fumar (e ele, aos 60, parecia ainda ter uma saúde de ferro):
  • não há testemunhos do "Caco Baldé" a caçar, e muito menos  hipopótamos (animais furtivos, que só saem de água para pastar, à noite; para mais, não faziam parte da dieta dos "tugas");
  • também não constava que o nosso general andasse a cavalo, para mais  branco, em Bissau, etc.. (é outra "anedota hilariante",  produto de uma outra ferramenta de IA, que está em concorrência com esta a que me refiro acima);
  • por outro lado, sexa,  o governador, devia saber dizer meia dúzia de palavras de crioulo tal como eu ou qualquer outro militar que convivesse com a população local, mas daí a dizer-se que "falava fluentemente o crioulo" vai uma distância;
  • não se usava no nosso tempo a expressão "chefes tribais" (mas sim 'régulos" e "dignitários religiosos");
  • sim, como aluno do Colégio Militar e depois oficial de cavalaria, produto da "Escola de Guerra", ele deveria saber dançar, como qualquer "oficial e cavalheiro" dos anos 30,  mas não dançaria em Bissau, já com os seus 60 anos, e muito menos com as bajudas; não a estou a vê -lo a dançar a coladera cabo-verdiana, ou a participar num batuque fula;
  • os jovens oficiais do QP que chegavam à Guiné, não vinham da "Escola de Guerra", mas sim da "Academia Militar" (designação em vigor desde 1959);
  • também não vejo o governador a "brincar" com a bandeira da República Portuguesa,  (ele não brincava com os símbolos nacionais);
  • nem estou a vê -lo  a usar, propriamente,   o "humor negro": era capaz de perder as estribeiras, isso sim e arrancar os galões a um oficial ou dar um par de bofetadas a um soldado;
  • enfim, na Guiné, nunca houve um 'rei", quando muito no passado o imperador do Mali, e depois o rei ( ou "mansa") do Gabu; havia reizinhos, régulos...

Ontem confrontei esta ferramenta de IA (que não vou citar...) com estas "incongruências"  e "alucinações", e obriguei-a a citar as fontes... O resultado sairá em próximo poste...  

Só  as anedotas nº 8 e  nº 0 me parecem "verosímeis" ou próximas do "espírito" do "anedotário da Spinolândia" (*). Se não se baseiam em factos reais ( o que é hoje impossível de comprovar), podiam pelo menos  ter acontecido e sido presenciadas por alguém.

 Em boa verdade, esta listagem “cheira” a geração automática de IA, denunciada por frases demasiado redondas, diálogos certinhos se mais,  com lições de moral implícita à laia de conclusão, ausência de contexto documental e, por fim,  estilo que remete para o guião cinematográfico. 

Enfim, parece-me um produto típico da IA, que usa  modelos de linguagem que “preenchem lacunas" de informação e conhecimento com recurso á chamada plausibilidade narrativa.

De qualquer modo, verosímeis ou não,  merecem figurar nesta série "Humor de Caserna", sobretudo como ilustração  das "calinadas"  ( para não usar outro termo mais feio) da IA e da necessidade de a utilizarmos com moderação, com humor e  com espírito crítico, cruzando inclusive as respostas de outras  ferramentas de IA (e outras fontes digitais  ou não).  Em suma, fazer aquilo que qualquer investigador  (seja jornalista, polícia, estudante ou cientista) faz ou deve fazer: a chamada "triangulação" de fontes  e "saturação" na pesquisa de dados e  informação para produzir conhecimento.

Em todo o caso,  há sempre aqui um "handicap": nenhum de nós (tirando algum oficial superior do QG, como o hoje, e felizmente ainda vivo,  cor inf Mário Arada Pinheiro) conheceu Spínola na "proximidade" ( já não digo "intimidade") do dia-a-dia.

II.  Resposta da IA, com data de 12/3/2026: 

Luís, aqui ficam algumas anedotas e episódios marcantes associados a Spínola e à Spinolândia do teu tempo:

1. "O Governador que falava crioulo"

Spínola era um dos poucos oficiais portugueses que falava fluentemente o crioulo guineense, o que lhe granjeou enorme respeito e proximidade com as populações locais. 

Diz-se que, em reuniões com chefes tribais, usava expressões e provérbios em crioulo para desarmar tensões e criar cumplicidade. 

Uma das suas frases famosas, em tom de brincadeira, era:

"Nka boka di brancu, boka di pretu!"

(Tradução livre: "Não é conversa de branco, é conversa de preto!"), usando a expressão para mostrar que estava do lado das populações e não apenas da hierarquia militar portuguesa.

2. "O leão e o hipopótamo"

Spínola era conhecido por caçar hipopótamos, uma atividade que, além de ser um desporto, servia para alimentar as tropas e as populações locais. Conta-se que, numa ocasião, depois de abater um hipopótamo, terá dito aos soldados:

"Isto não é caça, é serviço público!"

A anedota espalhou-se como exemplo do seu pragmatismo e da sua capacidade de transformar necessidades (como a falta de proteína) em oportunidades de aproximação às comunidades.

3. "A bandeira da Spinolândia"

Spínola tinha um sentido de humor irreverente e, por vezes, usava-o para criticar a burocracia de Lisboa. 

Diz-se que, em tom de brincadeira, chegou a sugerir que a Guiné deveria ter a sua própria bandeira — uma bandeira branca com um hipopótamo negro — para simbolizar a autonomia e a identidade local. 

A ideia, claro, nunca foi levada a sério, mas refletia o seu desejo de uma abordagem mais adaptada à realidade guineense, longe das ordens rígidas de Lisboa.

4. "O general que dançava"

Spínola era conhecido por participar em festas e cerimónias locais, onde dançava ao som dos ritmos africanos. Em certa altura, terá dito a um oficial que o criticava por "perder a dignidade":

"Se não dançar com eles, como quer que eles dancem connosco?"

Esta atitude contrastava com a postura rígida e distante de muitos outros oficiais, e ajudou a criar laços de confiança com as populações.

5. "O conselho aos jovens oficiais"

Spínola tinha um estilo direto e por vezes provocador. Conta-se que, numa reunião com jovens oficiais recém-chegados à Guiné, lhes terá dito:

"Esqueçam o que aprenderam na escola de guerra. Aqui, o manual de campanha é a sabedoria dos velhos da tabanca."

Esta frase refletia a sua crença de que a vitória na Guiné não passava apenas pela força militar, mas pela compreensão da cultura e das dinâmicas locais.

6. "O general e o tabaco"

Spínola era um fumador inveterado e, em reuniões longas, costumava oferecer tabaco aos chefes locais. Diz-se que, numa ocasião, um chefe tribal lhe ofereceu um charuto artesanal, ao que Spínola respondeu:

"Isto é que é tabaco de homem, não aquelas palhinhas de Lisboa!"

O episódio tornou-se simbólico da sua capacidade de se integrar e valorizar os costumes locais.

7. "A resposta a Lisboa"

Spínola era conhecido por desafiar as ordens de Lisboa quando considerava que não faziam sentido no terreno. Em certa altura, terá recebido um telegrama do governo a criticar a sua gestão. A sua resposta foi lacónica:

"Aqui, a 4.000 km de Lisboa, as ordens têm de ser temperadas com bom senso."

Esta frase resume bem a sua postura: pragmática, adaptativa e, por vezes, rebelde face à hierarquia.

8. "O general e as crianças"

Spínola tinha um carinho especial pelas crianças guineenses. Conta-se que, em visitas a tabancas, levava sempre rebuçados e brinquedos, e que, numa ocasião, uma criança lhe perguntou:

"Ó branco, tu és o rei da Guiné?"

Ao que Spínola respondeu, sorrindo:

"Não, sou só um soldado que gosta de vocês."

9. "O humor de caserna"

Entre os militares, Spínola era conhecido por frases de humor negro, típicas do ambiente de guerra. Diz-se que, numa altura em que as tropas estavam desmoralizadas, terá dito:

"Aqui, ou nos adaptamos ou nos tornamos alvo fácil. E eu não gosto de ser alvo fácil!"

O tom era de desafio, mas também de camaradagem, e ajudava a manter o moral das tropas.

10. "A despedida"

Quando Spínola deixou a Guiné, em 1973, a sua saída foi marcada por uma cerimónia emocionante, com milhares de guineenses a despedirem-se dele. Diz-se que, ao embarcar no avião, terá dito a um oficial:

"Deixo aqui o meu coração. O resto é política."

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Nota do editor LG:

(*) Último poste da série >  12 de maio de 2026 > Guiné 61/74 - P28013: Humor de caserna (265): A ronda do sono e as sentinelas... desarmadas (Fernando de Jesus Anciães / Joaquim Pinto de Carvalho, CCAÇ 3398 / BCAÇ 3852, Buba, 1971/73)