Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Spinolândia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Spinolândia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27908: Humor de caserna (255): O anedotário da Spinolândia (XXVII): Os comparsas da FAP - Parte II


Guiné > Região de Cacheu > Bula > Pecuré > Op Ostra Amarga > 18 de outubro de 1969 > Depois da emboscada, o general Spínola, ao centro, ladeado à esquerda pelo major João Marcelino (2.º cmdt do BCAV 2868, então em Bissau e que apanhou boleia no heli) e o ten cor Alves Morgado, cmdt do BCAV 2868 que acompanhou o desenrolar da acção. 

À direita de Spínola, o seu ajudante de campo, o cap cav Almeida Bruno (que faleceu em 10/8/2022, aos 87 anos), de luvas, empunhando uma G3, e de costas o cap cav José Maria Sentieiro, cmdt da CCAV 2485 que, por impedimento do comandante da CCAV 2487, foi encarregado de dirigir a Op Ostra Amarga.

Vd. também o vídeo "Guerre en Guinée" (1969) (13' 50''), imagens da chegada do Spinola e do Almeida Bruno, 11' 30'' ... Cortesia de INA - Institut National de l' Audividuel.

A foto acima reproduzida (e editada pelo blogue) é do Paris-Match nº 1071, de 15 de novembro de 1969 (Com a devida vénia...).
 

I. Spínola ficou conhecido na Guiné por voar muito mais que os anteriores comandantes-chefes, visitando frequentemente unidades isoladas no mato. Isso contribuiu para a aura quase teatral do personagem:  monóculo, luvas, pingalim, camuflado impecável, acompanhado pelo seu ajudante de campo (o mais conhecido de todos provavelmente era o cap cmd João Almeida Bruno, 1935-2022, mais tarde general, e que deu origem a uma das diversas alcunhas do general, "Aponta, Bruno").

A malta dos Alouettes III (AL III), pilotos e especialistas, ficaram com fama de estarem na origem de muitas anedotas atribuídas a Spínola.  Muitas terão um fundo de verdade, outras são variantes de primitivas versões. Impossível hoje é comprovar a veracidade das situações. Algumas serão mais verosímeis do que outras...Mas em geral são todas divertidas... De qualquer modo, convém sempre ressalvar o seguinte sobre a personalidade e o comportamento como comandante-chefe: António Spínola podia ser temerário mas não era doido...

E os nossos camaradas pilotos e especialistas da BA 12 (Bissalanca), mesmo anónimos, podem ser, sem desprimor, verdadeiros "comparsas", merecendo o devido destaque nesta série "Humor de Caserna: o Anedotário da Spinolândia"... 

Nenhum de nós (com exceção de dois très dos nossos grão-tabanqueiros da FAP, o Jorge Félix, o Jorge Narciso, etc.)  teve o privilégio de viajar de heli com o governador e comandante-chefe, no período em que foi o "régulo-mor" da Tabanca Grande da Guiné, mas pode imaginar (e rir-se, ou apenas sorrir, com) estas situações...

 Aqui vai mais um "balaio" de anedotas da Spinolândia,  recolhidas da Net (via IA) e depois revistas pelo editor LG (*):


1. General não tem medo

Um piloto de Alouette III contou que, numa viagem baixa,  no mato, a rasar a copa das árvores, ouviram tiros de armas ligeiras.

O piloto disse pelo intercomunicador:

— Meu general, estão a disparar.

Spínola respondeu calmamente:

— Ó nosso alferes piloto, se fosse para me acertarem já tinham acertado.

Silêncio na cabine. O mecânico, que ia ao lado do piloto, murmurou:

— Pois… mas nós não somos generais.


2. A aterragem impossível

Num destacamento remoto, o piloto avisou:

— Meu general, aqui não há sítio para pousar.

Spínola espreitou pela porta do heli e disse:

— Há ali um bocadinho.

O piloto respondeu:

— Meu general… aquilo é uma bolanha, um campo de arroz.

Resposta:

— Então pousamos antes de ele crescer.

Dizem que o helicóptero pousou mesmo… e saiu de lá cheio de lama.


3. O famoso “salto rápido”

Spínola tinha fama de sair do helicóptero antes das pás pararem.

Num destacamento no interior, o piloto ainda estava a estabilizar o aparaelho quando o general abriu a porta.

— Meu general, espere pelas pás!

Spínola saltou e respondeu:

— Quem está com pressa são eles. 

E apontou para a mata.

O piloto comentou a seguir:

— Ele saltava como se estivesse a sair de um táxi em Lisboa.


4. O táxi aéreo

Entre pilotos corria uma piada recorrente:

— O helicóptero do general não é da Força Aérea…

— Então?

— “É táxi aéreo da praça de Bissau.

Porque Spínola pedia frequentemente voos curtos para visitar aquartelamentos, destacamentos, tabancas, reordenamentos, ciruncrições, postos administratvios.


5. A pergunta incómoda

Um piloto,  jovem,  ainda "periquito", nervoso por transportar o comandante-chefe, perguntou:

— Meu general, prefere que voe mais alto ou mais baixo?

Resposta imediata:

— Não prefiro, exijo apenas que voe bem.


6. O capacete de segurança

Outra história muito contada: no início, ainda  era brigadeiro,  deram a Spínola um capacete de voo como parte do equipamento de segurança.

Ele experimentou e disse:

— Isto estraga-me o penteado.

O piloto respondeu:

— Meu brigadeiro, estraga menos que uma bala.

Consta que o Spínola riu a bom rir e nunca usou mais capacete. (**)

(Pesquisa: LG + IA (ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, títulos: LG)
_______________

Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 1 de abril de 2026 > Guiné 61/74 - P27876: Humor de caserna 
(254): O anedotário da Spinolândia (XXVI): Os comparsas da FAP - Parte I

(**) Esta anedota parece-nos inteiramente "forçada", para não dizer "descabida" no âmbito da nossa Spinolândia. Pior só a galga do "cavalo branco" nas traseiras do palácio do Governador, para o Spínola de vez em quando matar saudades dos seus tempos gloriosos de aristocrático cavaleiro hípico...

Tanto quanto sabemos não havia hipódromos em Bissau...  E o gado equino (e em especial os cavalos importados da Europa) sempre se deram mal na Guiné (e em grande parte da África Ocidental) durante a época colonial, dificultando a sua introdução e utilização pelas autoridades portuguesas... Primeiro foi a Tripanossomíase Animal Africana, frequentemente referida na época apenas como doença da mosca tsé-tsé; mais tarde, Peste Equina Africana que, julgamos,  será endémica (causa de mortandade grave, caracterizada por febre alta e edema).

Segundo consulta á ferramenta de IA, francesa (Le Cha Mistral), "o contexto da Guerra Colonial Portuguesa (1961–1974), nomeadamente no TO da Guiné,  o uso de capacetes de segurança pelos passageiros do Aérospatiale Alouette III não era prática comum nem estava formalmente previsto nos regulamentos da época.

(---) "Os pilotos e, por vezes, os tripulantes (como mecânicos de bordo ou operadores de rádio) usavam capacetes de voo, principalmente para comunicação via intercomunicador e proteção contra ruído e eventuais impactos.

(...) Os soldados transportados no Alouette III (como paraquedistas ou comandos)  geralmente não usavam capacetes de segurança.(...)

(...) Não existiam normas específicas que obrigassem ao uso de capacetes de segurança para passageiros em helicópteros durante a guerra colonial. A prioridade era a mobilidade rápida e a capacidade de resposta imediata após a aterragem, o que tornava o uso de capacetes pouco prático.

(...) O Alouette III era um helicóptero pequeno, com capacidade para cerca de 6 passageiros além da tripulação. O uso de capacetes volumosos reduziria ainda mais o espaço e a comodidade.

(...) As missões eram muitas vezes de inserção/extração rápida, com necessidade de desembarque imediato e ação no terreno.

(...) Não existiam capacetes leves ou adaptados para passageiros em contexto de transporte aéreo táctico na altura.

(...) Muitos veteranos da Guerra Colonial, incluindo os que serviram na Guiné, confirmam que o uso de capacetes durante o transporte em helicóptero não era habitual. O foco estava no equipamento de combate individual e na rapidez de movimento.
 
A segurança em voo era garantida pela perícia dos pilotos e pela manutenção das aeronaves, não por equipamentos de proteção individual para passageiros. (...)

Também não encontro no blogue dos nossos camaraadas  Especialistas da BA 12, Guiné, 1965/74 qualquer referência ao uso de capacetes,. quer de voo (tripulantes), quer de segurança (passageiros), a bordo  nos helis AL III, no TO da Guiné.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Guiné 61/74 - P27876: Humor de caserna (254): O anedotário da Spinolândia (XXVI): Os comparsas da FAP - Parte I


Guiné > s/l > s/d (c-. 1968/70)  > Jorge Félix, alf mil pil heli Al III (BA 12, BA 12, Bissalanca, 1968/70) e António Spínola (Com-Chefe e Governador Geral, CTIG, 1968/73)... O nosso camarada Jorge Félix foi um dos pilotos preferidos pelo Com-Chefe, no seu tempo.  (O tratamento por "pilav" era reservado aos pilotos-aviadores que vinham da Academia Militar; repare-se, por outro lado, a famosa "lancheira do governador", no banco de trás.)


Foto: © Jorge Félix (2010). Todos os direitos reservados


I. Os nossos camaradas da Força Aérea conviveram, mais regularemente com o governador e comandante-chefe António de Spínola que, nas suas deslocações praticamente diárias  ao interior da Guiné (o mítico "mato"),   usava de preferência o heli AL III.  Uma vez por outra,  deslocava-se de DO-27. 

Ao longo de cinco anos (!) (maio de 1968 / agosto de 1973), pilotos e "mecânicos", as equipas dos helis,  foram testemunhas e comparsas de muitas situações, mais ou menos engraçadas e divertidas, que deram origem a anedotas, e que hoje,l perdidas pela Net,  fazemos questão recolher e partilhar nesta subsérie "O Anedotário da Spinolândia", da série "Humor de Caserna".

Não se tome a palavra "comparsa" em sentido pejorativo, mas como figura "cinematográfica"...Sem esses comparsas (ou, melhor, "atores secundários"), muitas destas anedotas ter-se-iam, perdido...  

Aqui vão mais algumas,  que chegaram até nós e que circulam pela Net. São sempre revistas e melhoradas por nós. Comprovam, mais uma vez, o sentido de humor muito especial do general, cuja excentricidade e pose teatral eram, de resto, apreciadas pela generalidade das suas tropas. 

São também uma homenagem aos nossos "gloriosos malucos das máquinas voadores"... Ao que se saiba, nunca houve nenhum acidente  (ou sequer incidente) com o AL III ou a DO-27, em missão de transporte do nosso Caco Baldé. 


1. A pista que era insegura

Um piloto de Alouette III levava Spínola para visitar um destacamento no norte. Ao aproximar-se da zona, o piloto avisou:

— Meu general, não convém pousar já. A área não está segura.

Spínola respondeu, bruto e seco:

—  Pois então ponha-a segura.

O piloto deu uma volta larga e comentou para o mecânico ao lado:

— Está resolvido. O general já tratou da segurança.

2. A pista que era curta

Numa deslocação para a zona de Bafatá, numa DO-27, o piloto comentou antes da aterragem:

— Meu general, a pista parece curta.

Spínola olhou pela janela e respondeu:

— Parece curta… mas larga o suficiente.

Diz-se que o piloto murmurou, entre dentes:

— Pois… mas quem trava sou eu.

3. O helicóptero cpom a lotação esgotada

Num voo de helicóptero para uma tabanca perto de Bissorã, o piloto explicou:

— Meu general, o helicóptero está no limite de peso.

Spínola perguntou:

— E qual é a solução?

Resposta do piloto:

— Alguém tem de ficar em terra.

Diz quem conta que Spínola respondeu de imediato:

— Então fica o medo.

E embarcou.

4. Então, isso voa ?


Num heliporto improvisado perto de Canchungo, Spínola viu um mecânico coberto de óleo a trabalhar num Alouette.

Perguntou-lhe:

— Então isso voa?

O mecânico respondeu:

— Voa, meu general… quando quer.

Spínola replicou:

— Então hoje tem de querer.

5. O voo turbulento

Num voo sobre o Oio, o helicóptero entrou numa zona de turbulência forte. Um oficial no banco de trás estava visivelmente nervoso.

Spínola virou-se para ele:

— O senhor tem medo de voar?

— Um pouco, meu general.

Resposta de Spínola:

— Não tenha. Aqui em baixo também disparam.

6. O voo baixo

Entre pilotos da Força Aérea corria uma frase meio humorística:

—  Com o Caco voa-se sempre mais baixo, porque ele quer ver tudo... De monóculo.

E outro respondia:

—  E às vezes baixo demais… para gáudio  do turra que gosta de fazer tiro ao alvo.

(Pesquisa: LG + IA  (ChatGPT / Open AI) 

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos e títulos: LG)

______________

Nota do editor LG:

Último poste da série > 28 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27864: Humor de caserna (253): O anedotário da Spinolândia (XXV): "Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem", disse em maio de 1968 Spínola, ao acabar de conhecer o Alpoim Calvão, o qual lhe retorquiu: "Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.

sábado, 28 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27864: Humor de caserna (253): O anedotário da Spinolândia (XXV): "Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem", disse em maio de 1968 Spínola, ao acabar de conhecer o Alpoim Calvão, o qual lhe retorquiu: "Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.



O cmdt Alpoim Calvão numa tira da banda desenhada “Operação Mar Verde”,
da autoria de A. Vassalo (ex-fur mil comando Vassalo Miranda,
nosso camarada da Guiné), uma edição da Caminhos Romanos, 2012.


1. Não sei sei se existiam "rivalidades" e "picardias" entre generais e almirantes das nossas Forças Armadas, no tempo da outra senhora... E,  se existiam, qual o seu fundamento sociológico e histórico...

Bom, em relação à cavalaria e à infantaria, percebe-se: uns andavam a cavalo e outros a pé, pelo menos já desde o tempo do senhor Dom Afonso Henriques... Mas não recuemos tantos séculos: com ou sem fundamento, já no meu tempo se dizia que as relações entre o Comandante-Chefe (general que vinha da arma de cavalaria) e o Comodoro (na altura o comandante da Defesa Marítima da Guiné era Lucianos Bastos, 1913-2017, embora também ele tivesse sido aluno do Colégio Militar) não eram as melhores (por causa Op Mar Verde, e do desempenho deo comandante Alpoim Calvão)...  

Diferenças de personalidade ?  Origens sociais ? Tiques de casta ? Não importa agora... O fenómeno é, de resto, universal (cada arma tem a sua escola, história, cultura, elite, etc.), e pode agravar-se em contexto de guerra.

De qualquer modo,  talvez  se entenda melhor,  hoje,  esta piada do comandante Alpoim Calvão (1937-2014) em relação ao general (na altura brigadeiro) António Spínola (1910-1996), quando em maio de 1968 se conheceram no aeroporto, apresentados por um amigo comum...


2. Reprodução, com a devida vénia, de um excerto (adaptado)  de uma entrevista de Alpoim Calvão ao jornal CM - Correio da Manhã, em que são referidos três homens que comandaram as NT no TO da Guiné e com quem o entrevistado trabalhou: Louro de Sousa, Arnaldo Schulz e António de Spínola. 

A entrevista foi conduzida pelo jornalista José Carlos Marques (que eu conheci na Guiné, em março de 2008, como enviado do CM ao Simpósio Internacional dfe Guileje) e foi publicada em 7/10/2012. 

Título e subtítulo: "O eterno guerreiro Herói da Guerra em África, Alpoim Calvão foi bombista do MDLP no Pós-25 de Abril. Conta em livro uma vida de batalhas"


(...) Pergunta o jornalista:

 − Quando conheceu António de Spínola?

 − Conheci o então brigadeiro António de Spínola, que era o comandante-chefe e governador da Guiné, logo no aeroporto. Foi-me apresentado por um amigo. Ele estava como sempre, impecável no seu monóculo e casaco aprumado. Não suava, era uma coisa formidável. Disse-me ele:

− Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem.

E eu respondi:

 Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.

Ficou um silêncio de morte, que ele quebrou ao rir-se à gargalhada, acrescentou o Alpoim Calvão. E adiantou ao jornalista: 

 − Fui colocado a comandar o COP 3 a Norte, em Bigene. Tínhamos uma actividade de assaltos, operações, golpes de mão, patrulhas nos rios… Além dos fuzileiros,  tinha uma unidade do exército. Depois fiquei a chefiar as operações especiais no território.

 − Spínola alterou a estratégia da guerra. O que mudou? − nova pergunta  do jornalista. 

 − A guerra teve uma continuidade, mas Spínola tornou-se mais agressivo. Intensificou as operações, mas também o apoio às populações. No COP3 fartei-me de fazer casas que eram entregues aos nativos. As populações gostavam mesmo do Spínola. Ele aparecia de helicóptero, com o ajudante, fosse onde fosse. Tinha um certo carisma, aparecia com o monóculo, luvas, camuflados retocados pelo alfaiate, fazia figura. 

E Alpoim Calvão faz a comparação com outros dois comandantes-chefes que conhecera antes no CTIG:

 − Louro de Sousa era um bom oficial do Estado-Maior, mas não tinha jeito nenhum para comandar as tropas. Arnaldo Schulz era muito inteligente, mas levava as coisas com mais calma. Para Spínola, para a frente é que era o caminho. 

Com Schulz eu fazia operações no Sul da Guiné, em que entrava na Guiné-Conacri e ele chegou a suspender-me os movimentos para não criar problemas. Só pude realizar esse tipo de operações cinco anos depois, com o Spínola, que me deixava fazer tudo. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

___________________

Nota do editor LG:

sexta-feira, 27 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27862: Humor de caserna (252): O anedotário da Spinolândia (XXIV): Na "cidade" em construção de Nhabijões, com o comandante dos fuzileiros "encallhado" no rio Geba (Jorge Mariano, ex-alf engenheiro químico, BA 12, Bissalanca, jan 71/out 72)



Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca / CAOP 2) > Nhabijões (ou Nha Bidjon) > 197 2> Vista aérea do reordenamento de Nhabijões (Fonte:   "Diário de Lisboa",   31 de Agosto de 1972, com a devida vénia)


Guiné > Zona leste > Região de Bafatá > Sector L1 (Bambadinca / CAOP 2) > Nhabijões (ou Nha Bidjon) > c. 1973 > Vista aérea do reordenamento de Nhabijões: o maior ou um dos maiores do CTIG, com 300 casas de zinco...(Fonte:  CECA, 2015, pág. 276)

 

1.  A forte mobilidade aérea foi uma marca da estratégia de Spínola na Guiné. Ele visitava frequentemente  aquartelamentos, destacamentos, reordenamentos e tabancas no interior,  sem falar das operações no mato que acompanhava de perto, usando de preferência o helicóptero Alouette III e também, ocasionalmente, avião ligeiro DO-27.  Era o terror de muitos comandantes de batalhão aparecendo a horas impróprias a quem via a guerra como um emprego das 9 as 5.

E praticamente saía todos os dias, o que criou uma convivência muito direta (e até uma certa cumplicidade) com pilotos e mecânicos da Força Aérea que, como se sabe, estavam instalados na BA 12, em Bissalanca. No período de 1968/70, um dos seus pilotos de heli preferidos era o nosso Jorge Félix. 

O anedotário da Spinolândia (*)  nunca poderia ficar completo sem o concurso  de pilotos, mecânicos e outros camaradas da FAP. A estes veteranos da guerra da Guiné estamos gratos pela recolha e partilha de algumas das melhores anedotas do nosso governador e comandante-chefe António Spínola. 

Esta é uma delas, contada pelo Jorge Mariano, ex-alf engº químico, da FAP, que vive em Coimbra.  Oficial do exército, foi requisitado pela FAP. Cumpriu uma comissão na BA 12, de janeiro de 1971 a outubro de 1972. Empresário e professor universitário reformado, é um excelente contador de histórias do nosso tempo (mesmo que não seja bom a recordar nomes de militares e de lugares).

(...) "Na BA12 fui comandar o serviço de Combustíveis – bombas Auto e Abastecimento de Aviões na linha da Frente e ainda os depósitos de Combustíveis no “Mato”: Farim; Aldeia Formosa; Bafata; Teixeira Pinto; Nova Lamego e outra que não recordo. [Devia ser Cufar, a Bissalanca do sul... (LG).] Dos pilotos existia também um oficial de combustíveis que era o Alf Carpinteiro. "(...)

Não resistimos a reproduzir aqui no nosso blogue, com a devida vénia ao autor e  ao blogue em boa hora criado, em junho de 2007, pelo nosso histórico e saudoso grão-tabanqueiro Victor Barata (1951-2021).  
Referimo-nos ao blogue Especialistas da Base Aérea 12, Guiné 65-74, agora sob o comando do João Carlos Silva, também membros da Tabanca Grande, e do Mário Aguiar).

É uma história deliciosa, mas esquecida, publlicada há 14 anos, sexta-feira, 23 de março de 2012 > Voo 2773 > A “Cidade”. (No blogue do Victor, o "voo" corresponde a "poste": neste caso voo nº 2773.)


A “cidade” a sul do Geba, o gen Spínola e o grumete brincalhão

por Jorge Mariano


A meio da Comissão consegui lugar num quarto em Bissau junto à messe de oficiais, e passei a montar o meu escritório nocturno neste local que,  depois de uns uísques, fechava todos os dias.

Passava por lá também nessa ocasião,  a horas mortas, o major  ['cmd' Almeida] Bruno,  das Operações Especiais , onde se encontrava com o cap pára  [António] Ramos (já falecido), tmbém das Operações Especiais.

Um dia vi chegar o major Bruno e contar com grande entusiasmo uma decisão magistral que o gen Spínola teria tomado, que era de construir uma nova “cidade” a sul do Geba, pelo que entendi na altura, a sul de Bambadinca,  na outra margem para cortar as infiltrações do IN por esta zona. 

Estava longe de saber que, para aí, um mês depois, esta decisão iria dar lugar ao episódio mais cómico a que assisti durante toda a comissão.

Certo dia, passado o mês sobre o atrás referido, estava na Sala de Operações com o comandante Moura Pinto, o piloto Oficial de Dia e o srgt pil que normalmente transportava em heli  o gen Spínola (cujos nomes não recordo) e este piloto conta a seguinte cena, que passo a transcrever.

Parece que a operação para a construção da tal “cidade” teria sido iniciada, teria sido marcado o dia D para o arranque, tinha sido enviado um pelotão de Engenharia com as máquinas e uma companhia de Fuzos para fazer a segurança.

Como de costume, o gen Spínola ás 06h30 foi de heli com Srgt Pil que contou a estória,  para inspeccionar o andamento dos trabalhos.

Chegados,  aterraram junto ao acampamento dos Fusos e estava tudo muito desorganizado, era muito cedo, e o general chama um fuzo e pergunta:

 − Quem é comanda desta m*rda…? ( Overnáculo era uma característica do general)

Bom o nosso fuzo não sabia e foi procurar a outro,  até que lá disseram que era o sr comandante fulano tal (que não recordo o nome)

O general perguntou:

− Onde está ele? 

Aí os fuzos informaram que o senhor comandante teria pernoitado na LDG que se encontrava ao largo no Geba.

Como facilmente se percebe o general começa a ficar nervoso e pede que o chamem imediatamente. Bom,  mas agora há outro problema: não há rádio para comunicar com a LDG.

Então o general manda levantar o heli para comunicar com a LDG. Ao fim de algumas tentativas, conta o srgt pil, lá consegue comunicar com a LDG e diz que o gen está no acampamento e quer falar com o comandante da força.

Bom,  agora outro problema acontece. Para viajar da LDG para terra havia apenas um zebro mas um grumete atrevido andava a fazer piões no meio do Geba e naturalmente não tinha levado rádio.

O general ainda mais furioso manda o srgt pil ir com o heli indicar ao grumete do zebro para ir para LDG. O que acontecia, é que quanto mais sinais o sargento fazia, mais entusiasmado ficava o grumete e mais acelerava sem perceber que o estavam a chamar.

O general já estava “possesso”! Manda apresentar o comandante da força em Bambadinca e dirige-se para lá, aterra e fica á espera.

Depois desta cena o nosso comandante de Marinha, já sabia o que lhe ia acontecer, vestiu a farda branca,   tomou o zebro e dirigiu-se a Bambadinca.

O pior foi que entretanto a maré tinha descido e o zebro não chegava ao cais, ficava naquele lodo castanho a uns 5 metros da costa.

O Comandante de Marinha nessa altura disse:  

− Meu general,  não posso desembarcar,   o navio não chega á costa.

O General furibundo diz:

  Salte! 

O nosso homem saltou mas ficou todo sujo, de modo que, quando se perfilou para fazer a continência e se apresentar ao general, contava o srgt pil, mais parecia um pedinte com a farda branca toda salpicada de castanho, e todos que assistiam á cena riam a bom rir.

Também nós nos rimos até não podermos, quando ele, mal regressado de trazer o general, nos contou estas peripécias. Parece que o general retirou o comando ao oficial de Marinha e terá deixado o então major Fabião a comandar os fuzos.

(Seleção, revisão / fixação de texto, parênteses retos,  título: LG)


3. Comentário do editor LG:

A  "cidade" a sul do Geba, aqui referida, só pode ser o reordenamento de Nhabijões, tão profundamente ligada às nossas memórias... Mais difícil é dizer com exatidão quando é que ocorreu esta história, já que o início do reordenamento remonta a finais de 1969 (estudo prévio, trabalhos preparatórios, formação de equipas, etc.).

Da história da CCAÇ 12 (Contuboel e Bambadinca, maio de 1969 / março de 1971), reproduzo estes excertos:

(...) "A partir deste mês, novembro de 1969, 1 Gr Comb da CCAÇ 12 passaria a patrulhar quase diariamente as tabancas de Nhabijões cujo projecto de reordenamento estava então em estudo, a cargo da CCS/BCAÇ 2852.

"Nhabijões era considerado um centro de reabastecimento do IN ou pelo menos da população sob seu controle. As afinidades de etnia e parentesco, além da dispersão das tabancas, situadas junto à bolanha que confina com a margem sul do Rio Geba, tornava-se impraticável o controle populacional. 

"Impunha-se, pois, reagrupar e reordenar os 5 núcleos populacionais, dos quais 4 balantas (Cau, Bulobate, Dedinca e Imbumbe) e 1 mandinga, e ao mesmo tempo criar "polos de atracção" com vista a quebrar a muralha de hostilidade passiva para com as NT, por parte da população que colabora com o IN." (...)

A CCAÇ 12 participaria directamente neste projecto de recuperação psicológica e promoção social e económica da população dos Nhabijões, fornecendo uma equipa de reordenamentos e autodefesa, constituída pelos seguintes elementos (que f
oram tirar o respectivo estágio a Bissau, de 6 a 12 de Outubro de 1969):
  • alf mil at inf António Manuel Carlão (1947-2018) (originalmente o cmdt do 2º Gr Comb, que passou a ser comandado por um fur mil) (já falecido);
  • fur mil at inf  Joaquim Augusto Matos Fernandes (comdt da 1ª secção 4º Gr Comb):
  • 1º cabo at inf Virgilio S. A. Encarnação (cmd da 3ª secção do 4º Gr Comb);
  • e sold arv at inf Alfa Baldé (Ap LGFog 3,7, do 2º Gr Comb)
e ainda 2 carpinteiros (na vida civil), entre eles um 1º cabo aux enf.
 
A CCAÇ 12, além de ficar desfalcado de seis importantes elementos operacionais (e dois grupos de combate desfalcados),  participou ainda indiretamente neste projeto.  criando as condições de segurança aos trabalhos.

Numa primeira fase estava previsto levar a efeito:
  • a desmatação do terreno;
  • a fabricação de blocos de adobe;
  • a construção de 300 casas de habitação com portas, janelas e cobertura de zinco;
  • a construção de equipamentos sociais  (1 escola, 1 mesquita, fontes, acessos, etc.).
(...) "Durante este período a CCAÇ 12 realizaria várias acções, montando nomeadamente linhas descontínuas de emboscadas entre os núcleos populacionais de Nhabijões, além de constantes patrulhas de reconhecimento e/ou contacto pop.

"A partir de janeiro/70 seria destacado um pelotão da CCS/BCAÇ 2852 a fim organizar a autodefesa de Nhabijões. Admitia-se a possibilidade do IN tentar sabotar o projecto de reordenamento, lançando acções de represália e intimidação contra a população devido à colaboração prestada às NT.

"A partir de abril de 1970, o reordenamento em curso passaria a ser guarnecido por 1 Gr Comb da CCAÇ 12. Na construção de novo destacamento estiveram empenhados o Pel Caç Nat 52 e a CCAÇ 12, a 3 Gr Comb, durante vários dias.

"A segunda fase do reordenamento (colocação de portas e janelas e cobertura de zinco em todas as casas, abertura de furos para obtenção de água, etc.) começaria quando o BART 2917 passou a assumir a responsabilidade do Sector L1 (em 8 de junho de 1970).

"A partir de julho, a CCAÇ 12 deixaria de guarnecer o destacamento de Nhabijões, tendo-se constituído um pelotão permanente da CCS/BART 2917 enquadrado por graduados da CCAÇ 12." (...)

 Uma estimativa grosseira do custo deste reordenamento aponta para 2700 contos, em 1972 (300 casas de zinco x 9 mil escudos) (**)

Nhabijões tem 63 referências no nosso blogue. É um dos topónimos míticos da guerra no leste. O reordenamento foi um dos maiores sucessos da política spinolista "Por Uma Guiné Melhor"... E era a menina bonita do general Spínola, parando com frequência lá.

Mas também pagámos (a CCAÇ 12 e a CCS/BART 2917) um alto preço por este êxito: recordemos as duas minas A/C accionadas no dia 13 de janeiro de 1971, vitimando mortamente o sold cond auto da CCAÇ 12, Manuel da Costa Soares, e ferindo, com gravidade, o alf mil sapador Luís Moreira (da CCS/BART 2917), os fur mil Joaquim Fernandes e António F. Marques (este, esteve dois anos no hospital), os sold Ussumane Baldé, Tenen Baldé, Sherifo Baldé, Sajuma Baldé (todos da CCAÇ 12, 4º Gr Comb) e ainda um soldado da CCS / BART 2917 (cujo nome não me ocorre agora).

No meu caso, foi o meu dia de sorte, ia na GMC, no lugar do morto, que accionou a segunda mina, a explosão deu-se n0 rodado duplo, traseiro, do meu lado.

_______________

Notas do editor LG:


(**) Vd. poste de 4 de novembro de 2023 > Guiné 61/74 - P24821: As nossas geografias emocionais (15): o reordenamento de Nhabijões (ou Nha Bidjon), 300 casas de zinco que terão custado mais de 2700 contos (c. 700 mil euros a preços de hoje), fora a mão-de-obra, civil e militar, e ainda os custos indiretos e ocultos

quarta-feira, 25 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27857: Humor de caserna (251): O anedotário da Spinolândia (XXIII): "Não me tomem por periquito, car*lho, que de guerra venho eu farto" (ten cor Polidoro Monteiro, cmdt, BCAÇ 2861, Bissorã, e depois BART 2917, Bambadinca, 1970/72)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > BART 2917 (1970/72) > Centro de Instrução de Milícias > Da esquerda para a direita, em segundo plano, ten cor Polidoro Monteiro (comdt do BART 2917), gen Spínola e alf mil  Paulo Santiago (todos de óculos de sol).

Foto (e legenda): © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné >  Região do Oio > Bissorã > BCAÇ 2861 (1969/70) > 1970 > "À esquerda o alferes graduado  capelão Augusto Batista, à direita o ten cor inf Polidoro Monteiro (já falecido), cmdt do batalhão. Foto tirada em  dia de festa balanta,,, Por detrás,  a Casa Gardete, do comnerciante José Gardete Correia,m pai dio médico e deputado pelo círculo da Guiné Manuel Gardete Correia. No primeiro andar da Casa, então utilizada como quartos dos oficiais, a senhora que está à varanda era a esposa do capitão, comandante da CCS.

Foto (e legenda): © Armando Pires (2009). 
Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > Mato Cão > O ten Cor Polidoro Monteiro, último comandante do BART 2917, o alf mil médico Vilar e o alf mim at inf Paulo Santiago, instrutor de milícias, com um pequeno crocodilo  do rio Geba... O Polidoro Mondeira exibe a sua inconfundível faca de mato I(assinalada a amarelo)

Foto tirada em novembro ou dezembro de 1971 no Mato Cão, após ocupação da zona com vista à construção de um destacamento, encarregue de proteger a navegação no Geba Estreito e impedir as infiltrações na guerrilha no reordenamento de Nhabijões, um enorme conjunto de tabancas de população balanta e mandinga tradicionalmente "sob duplo controlo".

Foto: © Paulo Santiago (2006). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. O último comandante do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72), João Polidoro Monteiro, infelizmente já falecido, merece ser aqui destacado, na série Humor de Caserna, subsérie O Anedotário da Spinolândia,  por ter ficado na  na nossa memória, pela sua liderança, pela sua personalidade, pelas histórias que deles se contavam, pela interação que teve com alguns de nós, malta da CCS/BART 2917, e subunidades de quadrícula, além da CCAÇ 12, Pel Caç Nat 53...

Eis alguma informação adicional sobre este oficial superior, conhecido como spinolista convicto, disciplinador, mas próximos dos soldados , justiceiro (deu uma porrada ao médico do batalhão!), grande operacional,  caçador... e garanhão que, na parada ou na caserna, fazia gala de usar o calão da tropa.  Nem todas as histórias se podem contar em público, mas aqui vão algumas, honrando a sua memória. (Tem duas dezenas de referências no nosso blogue; faleceu em 27 de dezembro de 2003.)


Armando Pires,
Monte Real, 2014
1. Armando Pires (ex-fur mil enf da CCS/BCAÇ 2861, Bula e Bissorã, 1969/70)

O ten cor João Polidoro Monteiro [JMP] veio, em 1970, diretamente de Moçambique, onde comandava a Guarda Fiscal, para Bissorã, comandar o meu batalhão, o BCAÇ 2861, em substituíção do ten cor César Cardoso da Silva.  

Em dezembro de 1970,  o BCAÇ 2861 regressou a Portugal, terminada a comissão. Foi nessa altura que JPM foi comandar o BART 2917, com sede em Bambadinca.

(...) Estou a vê-lo, ao Polidoro, galões reluzentes sobre um camuflado acabadinho de saír do Casão Militar, olhos protegidos pelas lentes escuras de uns inevitáveis Ray-Ban, pingalim tremelicando na mão direita, voz forte e decidida advertindo a força em parada:

 Não me tomem por periquito, que de guerra venho eu farto.

Depois, a ordem que obrigava todos os militares a andarem devidamente fardados e ataviados quando não em serviço (???).

Se esta não fosse já um mimo, a cereja em cima do bolo veio de seguida. Íamos fazer exercícios de protecção ao aquartelamento. Poupo-vos ao relato e consequências, embora fossem de ir às lágrimas.

Já mais tarimbado na função, o Paulo Santiago, ex-comandante do Pel Caç Nat 53, aqui nos relatos da Tabanca Grande mostra-o, ao Polidoro, numa foto  tirada nas margens do Geba, ali no Mato Cão, exibindo um magnífico troféu de caça.

Com a mais respeitosa vénia ao Santiago, recoloco aqui a tal foto, ao lado de uma outra tirada por mim, em Bissorã, pedindo-lhes que descubram a semelhança. 

Hum!!! Já viram? Reparem outra vez… olhem bem… não deram por ela?... 

É a Faca de Mato, caramba! Ali, sempre pendurada no ombro direito.


´
David Guimarães,
Guiné-Bissau, 2001

2. David Guimarães (ex-fur mil art Art Minas e Armadilhas, CART 2716/BART 2917, Xitole, 1970/72)

(...) A CART 3492 (Xitole, Janeiro de 1972/Março de 1974) foi exactamente a Companhia que rendeu a CART 2716 a que eu pertenci e fomos nós que fizemos a sobreposição...

(...) Um dia o Comandante do BART 2917, já na sobreposição, apareceu no Xitole. O Luís Graça e o Humberto Reis conheciam-no. Era o ten-cor Polidoro Monteiro... Conto-vos uma peripécia passada com ele.

Perguntava eu, bem perfilado, ao Polidoro Monteiro:

 Meu comandante, a nossa missão é ir ensinar o caminho a esta gente...Proponho que ensinemos o início dos caminhos por onde passamos tantas vezes....

Resposta:

− Vai-te f*der, seu car*lho, quero que lhes ensinem a toca....

Deu em riso, como é evidente....

O Polidoro Monteiro foi o único tenente-coronel que usava arma e eventualmente percorria um pedaço de caminhos connosco... Gostava muito de passear no Xitole, pois de manhã gostava de ir até Cussilinta, ao banho, no Corubal,  e à noite ir à caça às lebres que iam para junto da mancarra (amendoím], na Tabanca de Cambessé, à guarda do aquartelamento do Xitole....

Sempre vi nele um bom militar e era da inteira confiança de Spínola.... Aliás ele era tenente-coronel de infantaria e foi colocado por Spínola em Bambadinca para ir comandar o BART 2917, em substituição do  ten-cor art Magalhães Filipe, que era o comandante inicial do Batalhão (...).

A gota de água para retirar o comando ao Magalhães Filipe foi a operação na Ponta do Inglês onde morreu aquela secção do Cunha [da CART 2716, do Xime]... 

Quem merecia a porrada  [o maj art Anjos de Carvalho, 2º cmdt do BART 2917, já falecido]... acabou por não a apanhar (...).

Ainda sobre o Polidoro Monteiro... Um dia ele manda um rádio para o Xime com a seguinte nota: 

"Dois pelotões formados às 5.30 para sair com CMDT" (...).

 O Polidoro Monteiro chama o condutor de dia e percorre,  sem qualquer escolta,  aquele caminho de Bambadinca ao Xime, a alta velocidade... 

Resultado: 10 dias de prisão para o alferes que exercia as funções de 2º Comandante, e 10 de detenção para outro alferes... É que eles nunca se fiaram que àquela hora ele aparecesse lá e como tal não estavam prontos como ele mandara....

Luís Graça e Humberto Reis: vocês já não estavam lá, creio, mas que isto se passou, passou... O Polidoro era assim, um bom comandante, a nível operacional... Dizia quantas asneiras havia no dicionário... Muito operacional mas bom sujeito... Vocês conheceram-no ainda (...).



Paulo Santiago,
Pombal, 2007
3. Paulo Santiago  (ex-al mil at inf, cmdt do Pel Caç Nat 53, Saltinho, 1970/72)

 (...) Acontece,algumas vezes, aparecerem postes que mexem comigo. Precisando:  emocionam-me. É o caso de hoje, com este poste do camarada Armando Pires,que entrou, em grande forma, para a Tabanca. 

Não é por causa da foto, onde apareço abrindo a boca do anfíbio bicharoco; não, o que me tocou mais fundo foi a recordação do Polidoro, pessoa que nunca mais encontrei após a minha saída de Bambadinca. 

Todos sabeis, já o escrevi várias vezes, o ten-cor Polidoro Monteiro foi talvez o  oficial superior, melhor dizendo,  foi o único oficial superior que me mereceu respeito, e conheci vários. 

Estes vários que conheci, majores, tenentes-coronéis, quando íam ao Saltinho (é um exemplo) utilizavam o heli, nada de ir em colunas, havia o pó e outras merdas mais complicadas... E aqui começa a diferença... Conheci o Polidoro, não em Bambadinca, conheci-o (e também ao Vacas de Carvalho)... no Saltinho, onde chegaram e de onde partiram numa coluna com o trajecto  Bambadinca-Mansambo-Xitole-Saltinho e depois o trajecto inverso. 

Não sei a razão, mas em Bambadinca, havia, como dizer?, uma certa cumplicidade entre mim e o Polidoro.  Entendíamo-nos muito bem, já o mesmo não acontecia com o 2º comandante, o [major art] Anjos de Carvalho, um militar emproado, bom para andar na parada, esperando ver um militar com menos atavio, ou que se esquecesse da continência, para de imediato lhe foder a vida.

Agora a foto. Quem era o comandante de batalhão que se metia num sintex e descia o Geba Estreito até Mato Cão? Só o Polidoro...e ficou lá a dormir nos buracos com o pessoal do Pel Caç Nat  63. 

Aquela faca no ombro direito, de que fala o Armando, é sua imagem de marca, julgo que nunca vi o Polidoro com outra farda que não fosse o camuflado, raramente com galões, contrariamente ao 2º comandante que sempre vi de calções, meia alta e respectivos galões.

Agora vou "entrar" com o Armando quando cita aquela apresentação do Polidoro ("Não me tomem por periquito que de guerra venho eu farto").  

Oh Armando,  não terá sido assim: 

− Car*lho..., não me tomem por periquito que de guerra venho eu farto ?!

Ou assim: 

− Não me tomem por piriquito, car*lho..., de guerra venho farto ?!

Agora, ainda a propósito da foto, reparem no outro personagem, o alf mil médico Vilar, ja "completamente apanhado" na altura (e hoje... psiquiatra). Olhem para a arma que ele segura: é uma carabina de caça 22...Não é que ele lhe acoplou aquela imensa baioneta (comprada na Feira da Ladra) de uma Kropatschek ?! (...)


4. Comentário do editor LG:

Companhias de quadrícula do BART 2917 (Bambadinca, Setor L1, maio de 1970/março de 1972, ) (comandado por ten cor art Domingos Magalhães Filipe,  e depois por ten cor inf João Polidoro Monteiro):

(i) CART 2714, sita em Mansambo (Cap art José Manuel da Silva Agordela); 

(ii) CART 2715, sita no Xime (Cap art Vitor Manuel Amaro dos Santos, 1944-2014; alf mil  art José Fernando de Andrade Rodrigues;  cap art Gualberto Magno Passos Marques; cap inf Artur Bernardino Fontes Monteiro; cap inf  José Domingos Ferros de Azevedo)

(iii) CART 2716, sita no Xitole (Cap mil art Francisco Manuel Espinha de Almeida) (...).

(Seleção, revisão / fixação de texto: LG)
_______________

Nota do editor LG:

domingo, 22 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27847: Humor de caserna (250): O anedotário da Spinolândia (XXII): A carecada do Arfan Jau e o "embaraço" da senhora do capitão


Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Canquelifá > CART 2479 / CART 11 (1969/70) Canquelifá > 1970 > Festas do fim do Ramadão > Lutas fulas, de corpo a corpo... Repare-se no risco, dividindo os dois campos...

Foto (e legendagem)  © Valdemar Queiroz (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Nova Lamego > Quartel de Baixo > Junho de 1970 > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > O Valdemar Queiroz (12) ao lado do alf mil Pina Cabral (13) e o 4º.Pelotão...  Restantes furriéis: Pinto (5) e Macias (9). 

O Arfan Jau desta história é o nº 8 (imagem à esquerda; vd,. também em cima à direita). A seu lado o ex-fur mil Manuel Macias, membro da nossa Tabanca Grande e da Tabanca da Linha.

Ambos pertenciam à "nova força africana", que começou a ser constituída no CIM de Contuboel, com a CART 11 (depois, CCAÇ 11) e a CCAÇ 12, no  1º semestre de 1969, e que era uma das "coqueluches" do novo comandante-chefe, António Spínola. (No CIM de Bolama, estavam a formar-se a CCAÇ 13 e CCAÇ 14.)
 
A propósito das poucas esposas de oficiais e sargentos, do QP e milicianos, que também "foram à guerra" (leia-se: acompanharam os maridos no mato, durante a comissão ou parte da comissão) (*), há uma história deliciosa que o Valdemar Queiroz quis partilhar connosco, há quase uma década atrás (**). E que se encaixa bem na série "Humor de caserba" e na subsérie "O amedotário da Spinolândia" (***)-

Recorde-se que o Valdemar Queiroz  foi fur mil,  CART 2479 /CART 11 (Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70), e que a sua morte, ainda recente (fez agora um ano, em 3 de março) deixou-nos a todos desolados.

É impossível ler ou reler este texto sem sentir a sua falta np blogue.  Ele tinha um talento único para contar, geralmente na caixa de comentários,  pequenos apontamentos do nosso dia-a-dia  que ajudavam  humanizar a guerra. E tinha um especial carinho pelos seus soldados guineenses.  A cena final desta história com a resposta do Arfan Jau, é um exemplo perfeito de como o humor nasce da mistura de línguas, culturas e situações absurdas. Em honra da sua memória, espero que o brindem com os comentários que ele e a sua história merecem.

Foto (e legenda): © Valdemar Queiroz (2014). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


A carecada do Arfan Jau e o "embaraço" da senhora do capitão

por Valdemar Queiroz (1945-2025)

O Arfan Jau, soldado do meu 4º. Pelotão, da CArt 11, era um lutador profissional, ou quase, dado que

 tinha 18 anos e fazia vida, para ganhar algum dinheiro, com as lutas 'à fula' (género greco-romana) em dias de festa.

Era, ainda com pouca idade, um grande campeão. Mas o Arfan Jau também era nosso soldado. E que grande soldado, em valentia, porte físico e humildade.

Ele era da secção do ex-fur mil Manuel Macias e logo entendeu que o furriel precisava dum guarda-costas. Para onde ia o Macias lá estava o Arfan Jau (ver acima foto do 4º Pelotão em Nova Lamego e lá está o Arfan ao lado do Macias).

O ex-alf mil Pina Cabral, cmdt do nosso Pelotão, achou que o Arfan Jau estava adquirir um estatuto especial e a tornar-se muito refilão e, para levar uma carecada por grande 'reguila', faltou pouco e assim foi. E lá o valente lutador Arfan Jau levou uma carecada disciplinar.

Coitado já não podia lutar, parece que era o cabelo que lhe dava força [tal como o Sansão da Dalila].

Um dia, o Arfan Jau ainda com uma grande carecada e com
o quico debaixo do braço, entrou, na hora do almoço, na messe de oficiais e sargentos a perguntar pelo furriel Macias . 


Cap mil Aniceto Pinto
 (****)
Logo à entrada era a mesa do Capitão e dos Alferes e também da esposa do nosso cap mil art Analido Aniceto Pinto  [foto á direita] que já estava a viver com ele em Nova Lamego.

– Então,  Jau? O que é que te aconteceu? – perguntou a senhora quando o viu careca.

Respondeu o Arfan Jau, com toda a humildade e com palavras em bom português que tinha aprendido com soldados do Porto;

– Senhora, Arfan Jau cá tem cabelo,  manga de fodido.

Que maravilha!!! 

Já não me lembro se houve um silêncio embaraçoso ou umas gargalhadas estridentes.[Provavelmente, um silêncio embaraçoso, por atenção à senhora do capitão e ao seu estado interessante: "embaraço, em português, tanto quer dizer "constrangimento" como  "gravidez". LG]

A esposa do Capitão ainda por lá ficou uns meses, depois por já estar em estado avançado de gravidez foi evacuada.


Valdemar Queiroz,  22 de outubro de 2016 às 00:11

(Revisão / fixação de texto, título: LG) 
 ____________



(***) Último poste da série >  21 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27844: Humor de caserna (249): O anedotário da Spinolândia (XXI): O frango Hubbard

sexta-feira, 20 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27841: Humor de caserna (248): O anedotário da Spinolândia (XX): O "general alemão" (Schulz) que garantiu a Salazar, em 1965, que a Guiné seria sempre portuguesa


Guiné > Região do Óio > Porto Gole > Fevereiro de 1967 > A melhor foto de que dispomos, no blogue, sobre o gen Arnaldo Schulz, governador e comandante-chefe (1964/68): aqui sentado, ao lado do piloto do helicóptero; pronto a partir depois de visita a Porto Gole; no banco de trás, duas caixas de cerveja, Sagres e Cristal; à direita, o fur mil José António Viegas, do Pel Caç Nat 54, com camuflado paraquedista trocado com um camarada numa operação no Morés em outubro de 1966.

Esta foto, que nos mandou o Viegas, é "surrealista" ou "hilariante": duas caixas de cerveja, à temperatura ambiente (+ 30 graus!), era para matar a sede a quem ? A que desgraçados ? Ali, perto, mais a sudeste, talvez a malta do destacamento da Ponta do Inglês, na foz do rio Corubal, que sofria com a crónica falta de abastecimentos (feitos pela Marinha, através de LDP ou LDM).

Arnaldo Schulz (1910-1983), contrariamennte a António Spínola, não era um "populista", nem se preocupava muito com a sua imagem... Nem sequer em ser um "bem amado" entre a tropa... O que não quer dizer que não tenha sido um bom governador e até um melhor comandante-chefe. (Não sei, não sou do seu tempo.)

Foi, em todo o caso, escolhido a dedo, por Salazar: era um militar, do núcleo duro do regime, ex-Ministro do Interior, num dos períodos de forte repressão, depois do "tsunami" que foi a campanha eleitoral do gen Humberto Delgado... Schulz, é bom lembrá-lo, foi ministro das "polícias!" (incluindo a PIDE) entre novembro de 1958 e maio de 1961.

(...) Foi promovido a general em 1965. Em Setembro de 1965 esteve em Lisboa, afirmando então que a Guiné jamais deixará de ser portuguesa (...) Permaneceu naqueles cargos até 1968, vindo a ser substituído pelo então brigadeiro António de Spínola. A 18 de Março de 1968 foi feito Comendador da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito." (...) (Fonte: Wikipedia > Armaldo Schulz)

Foto (e legenda) : © José António Viegas (2015). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Camaradas, conhecem alguma anedota do brigadeiro (e depois general, a partir de 1965) Arnaldo Schulz, governador e comandante-chefe na Guiné Portuguesa, substituído em maio de 1968 pelo brigadeiro António Spínola ?

Não, ninguém conhece. O que na tropa e na guerra, não é bom sinal... Um bom comandante militar , um general, um cabo de guerra, deixa saudades, boas memórias e, claro, anedotas, histórias de caserna. Lembremos algumas:

(i) Napoleão Bonaparte, talvez o general ou "cabo de guerra" com mais anedotas:

Quando lhe disseram que os Alpes eram impossíveis de atravessar, respondeu: “Então vamos passar por cima deles".

(ii) Arthur Wellesley, 1º Duque de Wellington, herói da Batalha de Waterloo (1815), mas também da guerra peninsular (1807-1814).

Era conhecido pelo humor tipicamente britânico. Uma das histórias mais citadas conta que, ao passar revista às tropas portuguesas,  pouco disciplinadas, terá dito: "Não sei se farão o inimigo fugir, mas certamente assustam-me a mim.”

(iii) George S. Patton, um dos generais americanos mais temperamentais da Segunda Guerra Mundial:

Era conhecido pela rudeza dos discursos  que dirigia aos soldados: “Nenhum filho da puta venceu uma guerra morrendo pelo seu país. Venceu-a fazendo o outro filho da puta morrer pelo país dele.”


(iv) Bernard Montgomery, um dos famosos generais britânico da II Guerra Mundial, que comandou o 8.º Exército, sendo o principal oponente de Rommel ("A Raposa do Deserto") e responsável por derrotá-lo em El Alamein:

Era conhecido pela sua autoconfiança que roçava a arrogância, pela sua rudeza espartana. Numa receção com generais aliados terá dito: "Eu não durmo, não bebo, não fumo, não f*do e sou 100% eficiente e eficaz.” Ao que o Churchil, terá replicado: "Eu durmo, bebo,   fumo,  f*do e sou 200% eficiente e eficaz.”


Arnaldo Schulz
2. Contrariamente ao Spínola, as anedotas especificamente sobre (ou de) o general Arnaldo Schulz são poucas, diz a IA, mas entre antigos militares da Guerra da Guiné circulam algumas histórias contadas em tom humorístico. Muitas vezes são mais “histórias de caserna” do que anedotas p.d., transmitidas oralmente.

Antigos combatentes do seu tempo (1964-1968) são os primeiros a reconhecer quase não circulavam, na caserna,  anedotas sobre Schulz,  ao contrário de Spínola, o seu carismático sucessor, que gerou muitas anedotas.  Mesmo assim, há alguns episódios e comentários curiosos que merecem ser recolhidos e divulgados (ajudam a conhecer um pouco melhor o homem e o militar).


(i) A frase famosa (“A Guiné jamais deixará de ser portuguesa”) que passou a "anedota histórica"

Quando era governador e comandante-chefe na Guiné Portuguesa (1964-1968), Schulz veio a Lisboa em 18 setembro de 1965 (vd. vídeo da RTP Arquivos, infelizmente sem som) e declarou (com convicção? ou para bajular o poder político?)

— A Guiné jamais deixará de ser portuguesa!!!

A frase tornou-se conhecida entre militares e políticos da época e, com o desenrolar da guerra e a independência em 1974, passou a ser repetida com alguma ironia histórica, um erro de prognóstico. Schulz confundiu, deliberadamente ou não, o desejo com a realidade.

Entre antigos combatentes, muitas vezes é citada como exemplo de excesso de confiança (e senão mesmo de arrogância) do regime na altura.

Depois da independência da Guiné‑Bissau em 1974, a frase passou a ser repetida entre veteranos como uma anedota involuntária da História. Alguns diziam ironicamente:

— O general tinha razão… só se esqueceu de dizer “até 1974”.


(ii) A “anedota involuntária”: o contraste com Spínola

Uma história repetida em memórias de militares é esta comparação:

Schulz quase não visitava unidades no mato (para poupar gasolina); Spínola visitava-as frequentemente, de helicóptero (gastando uma pipa de massa: 15 contos à hora).
Por isso, dizia-se meio em tom de graça nas companhias:

"Com Schulz sabíamos que estávamos longe do palácio do Governador e do QG, na Amura. Com Spínola sabíamos que ele podia aparecer a qualquer momento do dia"... (E só não aparecia à noite porque os Helis AL III não voavam à noite.)

Não é uma piada clássica, mas uma observação humorística de quartel sobre estilos de comando que, numa guerra como a da Guiné, fazia toda a diferença.


(iii) O dois em um

Quando foi nomeado em maio de 1964, Schulz acumulou duas funções ao mesmo tempo: governador da província e comandante-chefe das forças armadas

Isso era invulgar no império colonial português, criado para evitar conflitos entre autoridades civil e militar na guerra da Guiné (o governador anterior a ele tinha sido o Vasco António Martins Rodrigues, capitão-de-mar-e-guerra, entre 1961 e1965; e o comandante-chefe, o brigadeiro Fernando Louro de Sousa, de 19/3/1963 e 26/5/1964).

Alguns oficiais brincavam dizendo que ele era “governador de dia e general de noite”,porque tinha de decidir ao mesmo tempo assuntos políticos, administrativos e operações militares.

Está por fazer o balanço, imparcial,  do seu mandato...

(iv) Puro e duro

Quando António de Spínola o substituiu em 1968, mudou completamente a estratégia: passou da linha mais militar e defensiva de Schulz para uma política de “conquista das populações” e e de acção psicossocial, a par da intensificação da guerra de contraguerrilha e da otimização do dispositivo militar (por exemplo, mandou retirar,  em janeiro de 1969, Gandembel, começado a construir em abril de 1968).

(v) O general que nunca aparecia (e, portanto, em princípio também não chateava)

Durante o comando de Schulz na então Guiné Portuguesa (1964-1968), dizia-se nas companhias do mato (conversa entre dois capitães):

— Já viste o general Schulz?

— Não.

— Então está tudo bem por lá, no teu aquartelamento.

A piada vinha da ideia de que o comandante-chefe raramente visitava posições isoladas, ao contrário do que viria a fazer o seu sucessor, António de Spínola, que aparecia frequentemente de helicóptero, sem se fazer anunciar. 


(vi) O mapa “demasiado limpinho”

Conta-se que numa reunião de oficiais em Bissau, um oficial jovem mostrou um mapa cheio de marcas de ataques do PAIGC.

Schulz teria comentado:

— Esse mapa está pessimista demais.

E um capitão murmurou para o colega ao lado:

— O mapa do general deve ser melhor… porque não tem inimigos.

Era uma piada amarga sobre a diferença entre a situação real no terreno e a visão otimista do comando ( apatir da "periferia" da guerra, que er Bissau).


(vii) A comparação inevitável

Quando António de Spínola chegou em 1968, começou a visitar quartéis isolados e a falar com soldados.

Rapidamente surgiu a piada nas tropas:

— O Schulz governava a Guiné a partir do palácio de Bissau.

— O Spínola governa-a, no mato,  a partir do helicóptero.


Curiosidade: apesar destas histórias, Schulz era visto por muitos oficiais como um comandante disciplinado e prudente, apenas com um estilo muito mais tradicional e burocrático do que o de Spínola.


(viii) O "general alemão"

Os guineenses diziam que ele não era bem português, por causa do apelido alemão (paterno), impronunciável...

É uma história, algo 
xenófoba e chauvinista, que aparece em várias memórias de militares e relatos orais da guerra. O general Arnaldo Schulz tinha de facto apelido de origem alemã, herdado do pai, e isso acabou por gerar comentários e pequenas anedotas entre as populações locais da então Guiné Portuguesa.

Uma versão da história contada por antigos combatentes diz que alguns guineenses estranhavam o nome e comentavam algo como:

— Esse general não pode ser bem português… tem nome de alemão.

Noutras versões mais humorísticas, dizia-se:

— Portugal nomeou um alemão para mandar na Guiné.

Isto não era propriamente uma crítica política, era mais humor popular, porque nas colónias era comum associar a nacionalidade ao apelido. Um nome como “Schulz” soava claramente germânico, muito diferente dos apelidos portugueses habituais.


(viii) Curiosidade histórica

Apesar do apelido, Schulz era totalmente português. O pai era de origem alemã, mas a família estava integrada em Portugal há gerações. Ele fez toda a carreira no exército português e acabou por chegar a general, governando a província entre 1964 e 1968, antes de ser substituído por António de Spínola.

Esse tipo de comentário sobre nomes estrangeiros também acontecia com outros oficiais no império português — especialmente quando tinham apelidos alemães, ingleses ou franceses, algo relativamente comum em Portugal desde o século XIX.

Curiosamente, em África os apelidos europeus eram muitas vezes reinterpretados ou adaptados foneticamente pelas populações locais, o que também gerava muitas pequenas histórias de caserna:

Espínla ou Spínla (Spínola), Tchultz (Schulz), cap'ton Bitu (capitão Brito), alfero Cabrá (alferes Cabral), Cabrá (Amílcar Cabral), furié 'Vzinu (furriel Levezinho), furrié Ericu (furriel Henriques), cabu Galvon (cabo Galvão), furrié fermero (furriel enfermeiro), alfero doutô (alferes médico), Calvê Magalã (governador Calvet de Magalhães), Masel Caetanu (Marcelo Caetano)...

(Pesquisa: LG + Net + IA) (Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)
____________________