1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Setembro de 2026:Queridos amigos,
Tive a felicidade de estar presente, não conhecia pessoalmente este ilustre historiador, dele muito tenho falado no blogue e fiz uma súmula do seu magistral trabalho a "História das Missões Católicas na Guiné" no Tomo I de "Guiné Bilhete de Identidade". Miraculosamente, apareceram à venda alguns exemplares deste livro, de há muito esgotado, parecíamos sete cães a um osso, e havia também um conjunto de brochuras onde encontrei este trabalho de Pinto Rema datado de 1972, faço dele um curto comentário acerca dos cruzamentos entre o rigor histórico e as movimentações propagandísticas, naturalmente distorcedoras da verdade documental. A Academia Portuguesa de História, de que Pinto Rema foi seu Secretário-Geral, esteve presente em força, a historiografia deste Franciscano excede a Guiné e em muitos pontos é constituída por obras de referência.
Um abraço do
Mário
Nos 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema e onde fala dos Lusíadas e a Guiné
Mário Beja Santos
O Centro Cultural Franciscano situa-se no Largo da Luz, em Carnide, anexo de uma casa apalaçada que também pertence à Ordem Franciscana, atravessei a Feira da Luz em plena ebulição com olaria, padaria e haveres de muitas espécies, em 23 de setembro, pelas quinze horas, iria ocorrer a sessão de homenagem pelos seus 100 anos do historiador Padre Henrique Pinto Rema, a quem a história da Guiné muito deve, com destaque para uma obra de referência História das Missões Católicas na Guiné. Ali chegado, verifiquei que havia publicações à venda, esta História das Missões Católicas estava completamente esgotada e apareciam ali alguns exemplares, atirei-me como gato a bofe, em minutos desapareceu um stock que tinha ficado estranhamente em depósito, fui um dos felizardos a arrebanhar um exemplar espúrio. E descobri uma pequenina brochura intitulada Os Lusíadas e a Guiné, obra do Padre Rema, publicada nas comemorações do IV Centenário da publicação d’Os Lusíadas, Bissau 1972. Dele falaremos mais adiante, e até se encontrou um documentário da RTP alusivo, vamos ver o Padre Rema em Bissau a apresentar a exposição camoniana a pessoas como o Ministro da Defesa, Sá Viana Rebelo, o Ministro do Ultramar, Baltazar Rebelo de Sousa e o Governador António de Spínola. O leitor pode consultar o respetivo site aqui: https://arquivos.rtp.pt/conteudos/exposicao-camoniana-em-bissau/.
Os académicos cumpriram o seu serviço, seguiu-se uma tocante homenagem ao aniversariante, sempre sorridente deu conta das velas e choveram as palmas após o cântico da praxe. Vim para casa e comecei a ler a brochura, era a melhor homenagem que podia prestar a este homem devotadíssimo à sua missão apostólica e que deixou uma obra cultural assente numa investigação rigorosa e perdurável.
Comecei por ver os comentários da obra ímpar de Camões em cujas estâncias se alude às viagens de Gama pela costa ocidental africana. O navegador está a contar a sua viagem para a Índia. Diz que deixaram Massília, que é a África do Norte, uma costa estéril, porque não produz nada, o deserto do Sara, em baixo vivem os Azenegues na Barbaria, segue-se a “Etiópia” ocidental, este é o tema da Estância VI do Canto V. Fala-nos depois de o “limite aonde chega o sol” é o trópico de Câncer, abaixo vivem os povos de cor negra, a quem os navegadores irão chamar Terra dos Negros. Camões usa linguagem mitológica, fala do pai Apolo (ou Sol). O primeiro rio que se encontra é o Senegal. Na Estância VII fala-se no Cabo Arsinário, nome que foi dado por navegadores para Cabo Verde, perto de onde hoje se levanta a cidade de Dakar. O épico volta atrás para falar das Ilhas Canárias, noutra Estância falará de Santiago, e assim chegamos à Estância X onde ele refere a província Jalofo, a mui grande Mandinga e o rio Gâmbia. Na Estância seguinte falará das Dórcadas, há quem as identifique com o arquipélago dos Bijagós. Nas estâncias seguintes, Camões refere-se à viagem em direção ao sul (“Austro”), deixando para trás a Serra Leoa com o seu Cabo das Palmas, nome dado pelos portugueses.
Importa agora refletir a que propósito foi dado como altamente conveniente publicar sobre os Lusíadas e a Guiné e fazer uma exposição evocativa do IV Centenário d’Os Lusíadas em Bissau. O Padre Rema deixa claro que a Guiné pertence À memória histórica e literária de Portugal, à presença portuguesa em África, à conexão lusíada com África. Recorde-se que o Padre Rema vinha publicando desde a década de 1960 estudos no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, caso de A primeira envangelização da Guiné (1434-1533). Camões é a ponte entre o passado e o presente. Este tipo de análise acabaria por se cruzar com interesses políticos tanto do governador Spínola como da lógica da política ultramarina, mas há uma distinção a fazer: Rema reflete no plano da memória, da história da cultura, o regime e o governador da Guiné tem objetivos políticos e propagandísticos, estamos em 1972, o marcelismo intenta pôr as comemorações ao lado da sua política. Numa intervenção de “conversa em família”, em 1971, Marcello Caetano apontava 1972 como um ano de grandes comemorações, associando a celebração de Camões com a presença de Portugal no mundo e até a defesa do Ultramar.
O trabalho de Pinto Rema era útil para o regime, mas o historiador era muito mais do que um agente necessário para aquela ocasião evocativa. Na sua obra maior, História das Missões Católicas na Guiné, publicada em 1982, a profunda investigação nada tem de propagandístico, espelha fielmente sucessos, fracassos, conflitos e contradições da presença missionária portuguesa.
O evento de Bissau procurava fazer acreditar que a história de Portugal, o poema épico, as referências ao Senegal e Cabo Verde, tal como as referências às Canárias e a presença portuguesa, a menção do Jalofo, da mui grande Mandinga era tudo e a mesma coisa, Os Lusíadas davam chancela à Guiné Portuguesa. Acontece que a História não teve o mesmo curso que o poema épico. A tal Guiné, Senegâmbia, Rios de Guiné de Cabo Verde, Etiópia menor, Terra dos Negros e menções afins, como aparece em textos dos séculos XV e XVI era uma extensão geográfica com outra amplitude que aquela Guiné, que teve uma superfície reconhecida pela Convenção Luso-Francesa de 12 de maio de 1886. Um aspeto muito curioso de um outro texto de Pinto Rema, dedicado às missões católicas na Guiné, é que ele utilizou a estância X do Canto V para definir historicamente a Guiné.
Não podemos iludir que a Guiné pertence à memória histórica portuguesa e à sua presença naquela região africana. A lógica do regime era aproveitar o poema épico para dar um aval à presença portuguesa contemporânea na Guiné. Só que os versos camonianos nada têm a ver com o Estado ou o território definido em 1886. Pinto Rema procedeu a uma leitura histórica retrospetiva, tem o ponto de partida numa geografia africana cabo-verdiana e coloca-a na história daquilo que, no século XX, era a Guiné Portuguesa.
É neste contexto que a brochura é muito interessante como objeto de análise. Se ir saudar este homem de grande envergadura missionária e historiador de alta qualificação da Guiné era o meu propósito, também beneficiei ficar com uma brochura que nos ajuda a pensar como existe uma diferença abissal entre o rigor da história e o manuseio propagandístico.
O Padre Henrique Pinto Rema vai soprar as velas do bolo do seu aniversário
Mesa da sessão de homenagem aos 100 anos do Padre Rema, ele foi Secretário-Geral da Academia Portuguesa de História, e a Academia esteve presente em cheio, incluindo os académicos franciscanos
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Notas do editor:
Vd. post de 18 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28358: Agenda cultural (931): Convite para a Sessão Comemorativa do Centésimo Aniversário do Pe. Frei Henrique Pinto Rema, a realizar no próximo dia 23 de Setembro, a partir das 15,00 horas, no Centro Cultural Franciscano, Largo da Luz, n.º 11, em Lisboa
Último post da série de 5 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28404: Notas de leitura (1968): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 2 (Mário Beja Santos)



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