1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 4 de Março de 2026:
Queridos amigos,
Em primeiro lugar uma explicação. Sou um tradutor não qualificado, depara-se-me em cada uma destas páginas termos que os dicionários nem sempre ajudam. O Capitão Brosselard fala em sabre, seguramente que quer dizer catana ou machete; a palavra marigot traduz-se por pântano nesta narrativa não tem tal sentido, tem a ver com bolanha; falando de árvores, sãos empre árvores enormes, da família Bombax, podem ser poilões ou outra coisa, são sempre árvores gigantescas, à cautela ponho sempre poilões. Este trecho da narrativa que envolve a descrição de Buba, onde se volta a relevar o estado de destruição e completa ruína em que se encontra o Forreá, a passagem por Bolama e depois Bissau, onde voltamos a saber que a generalidade do comércio está na mão de franceses, e Brossselard não esconde que o Geba pode transformar-se num potentado agrícola. Caminhamos a passos largos para a viagem até ao Casamansa e aqui findará a viagem do Capitão Brosselard que está a escrever um relatório para as suas autoridades, como é evidente há no documento informações políticas pertinentes.
Um abraço do
Mário
A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 14
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette
Mário Beja Santos
A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".
O Capitão Brosselard conta com muita vivacidade o mal-entendido que ocorreu à sua chegada a Buba, vários atiradores tinham feito fogo para o ar para pedir ajuda, os Biafadas vieram de catana em riste temendo um ataque dos Fula-Cundas, desfeita a trapalhada, a comissão francesa foi recebida pelo comandante de Buba, e Brosselard mostra-se impressionado com a postura militar da força portuguesa. Passamos-lhe agora a palavra.
A guarnição de Buba é de 50 homens, comandada por um oficial às ordens do Comandante da Praça. O recinto é formado por uma proteção contruída com peças de madeira bem apertadas entre si e solidamente enredadas. O dispositivo defensivo possui quatro peças de artilharia e quatro metralhadoras, a instalação militar é representada pela habitação do comandante, uma construção com rés-de-chão e primeiro andar.
O rio Grande de Buba não é um rio; é uma espécie de fiorde (entradas de mar entre alturas declivosas), muito recortado por numerosas calhetas (pequenas enseadas) que se ramificam. Buba está situada na extremidade de um desses numerosos pontos formados pelo fiorde principal com os seus braços laterais. A bolanha de Guinala (Brosselard refere sempre a palavra marigot, entre nós pântano, obviamente que tem a ver com campos alagados) é um dos braços mais importante do rio Grande de Bolola; foi sobre as suas margens que se estabeleceram os primeiros colonos portugueses.
Buba é considerada o local mais salubre da Guiné. Aliás, de um modo geral, o rio Grande de Bolola é salubre. O estabelecimento de Bambaïa, propriedade de uma casa francesa situada sobre uma ponta, à entrada deste vasto fiorde, frente à ilha de Bolama é considerado como o sanatório desta região costa africana.
Não se vê nenhuma povoação nas margens do rio Grande, elas estão no interior das enseadas. Veem-se somente sobre os pequenos promontórios algumas feitorias e armazéns, outrora florescentes, hoje arruinados e abandonados.
O Tenente da Marinha Hallez, Comandante da Mésange, informado da presença da nossa missão em Buba, aparelhou e veio fundear a três milhas da povoação. A missão francesa e os oficiais portugueses embarcaram neste aviso e regressaram a Bolama em 27 de março. É a época mais ativa do tráfico dos trabalhadores. Na Praça da Feitoria Maurel e Prom, os negros cortam as bolas de borracha para lhes retirar as pedras fraudulentamente introduzidas; as mulheres e raparigas transportam cargas de amendoim e uma montanha desta leguminosa está no pátio interior. Podemos observar o tipo Fula muito puro destes carregadores. É uma família principesca do Forreá que teve de fugir depois da deposição do rei Bacar Guidali. Estes infelizes exilados estão reduzidos à miséria. No dia seguinte, a Mésange partiu para Bissau.
Vista do mar, Bissau lembra uma pequena cidade da França; as casas estão próximas umas das outras e contruídas à europeia, os tetos estão cobertos por telhas; o recinto e a cidadela, do que nos apercebemos das muralhas, dão a ilusão de uma praça-forte. Existe um desembarcadouro que, na maré-alta, permite às embarcações que possam operar o desembarque das mercadorias; mas quando se desce a terra durante a maré-baixa o desembarque é difícil e, como em Bolama, tem de ser feito às cavalitas.
As ruas estão nitidamente desenhadas pelo alinhamento das casas, e estas estão bastante bem mantidas. O mercado realiza-se perto da aguada, à sombra de grandes poilões; é muito animado pela presença da gente de Bissau, de Manjacos e Balantas que põem à venda laranjas, bananas, galinhas, porcos e alguns legumes.
Em Bissau só há estabelecimentos comerciais franceses. No nosso ponto de vista, a situação desta feitoria é bastante superior à de Bolama. As grandes embarcações que hesitarão sempre a difícil navegação no desembarcadouro do rio Grande de Bolola, devido aos bancos de areia. Poderão vir sem perigo a Bissau. Durante as marés-altas os navios de uma certa tonelagem podem subir até Geba, situada sobre o rio do mesmo nome, cujas margens têm terras muito ricas. Aqui se cultiva um excelente amendoim, e também arroz, cera, coconote e borracha. Esta região possui também imensas manadas. O amendoim de Geba pode rivalizar com o de Cayor, e serve para a preparação de óleos de primeira qualidade.
As casas comerciais têm, vai para alguns anos, plantações de cana-de-açúcar no rio Geba, para a preparação de aguardente e assim evitar os pesados direitos alfandegários sobre álcoois à entrada na Guiné.
A população de Bissau compõe-se de dois elementos bem diferentes. O primeiro compreende os naturais; o segundo gentes de diversas etnias, todos cristãos e fiéis a Portugal. Estes têm o nome de Grumetes; é com eles que se armam as embarcações que sobem o Geba.
Recorde-se que o Sr. Galibert tinha deixado Kandiafara em 29 de fevereiro, com uma lancha desmontado e uma escolta composta de nove carregadores, três estivadores e um intérprete. No dia seguinte chegou a Chan-E-Biro povoação situada a uma hora de Koliba; e, no dia seguinte, atravessou uma sucessão de colinas e ficou surpreendido por se encontrar diante de um rio com uma largura de 500 metros.
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Gravura representando trajes típicos da Senegâmbia, à venda na Galerie Napoleon, Paris, com a devida vénia
O cais do porto de Bolama em 1912
Ruínas de Bolama, imagem retirada do site Saiyu Travel Co. Ltd
Ruínas de Bolama, fotografia de Francisco Nogueira, publicada no livro Bijagós Património Arquitetónico, Tinta-da-China, 2016Fotografia de Sorry Dara, chefe da Província de Telko, Guiné Francesa
(continua)
_____________
Nota do editor
Último post da série de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28371: Historiografia da presença portuguesa em África (545): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (13): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)








Sem comentários:
Enviar um comentário