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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
A iniciativa antológica de João de Melo foi o ponto de partida para outros estudos e investigações e é de elementar justiça recordar Rui de Azevedo Teixeira e Margarida Calafate Ribeiro. Estávamos em 1988 e o autor de "Gente Feliz com Lágrimas" questionava se havia uma geração literária da guerra colonial, pelo que hoje se sabe este subgénero literário cresceu e multiplicou-se, tem ficção e História, já conheceu algum esplendor na literatura memorial e iniciativas se multiplicam para conhecer outros agentes que não propriamente os ex-combatentes, caso das mulheres, das enfermeiras paraquedistas, de quem recebia correio com a assumida responsabilidade de ser madrinha de guerra e, mais adiante, filhos de ex-combatentes interrogam o significado da guerra que os pais viveram e, inclusivamente, como aquela guerra veio a confluir no destino das famílias.Vamos agora ao segundo volume, que este foi só o primeiro.

Um abraço do
Mário



Revisitar uma obra de referência sobre a história da literatura da guerra colonial - 1

Mário Beja Santos

Os levantamentos de obras literárias relacionadas com a guerra colonial são poucos e estão perfeitamente identificados. A primeira iniciativa coube ao escritor e ex-combatente João de Melo, a primeira edição de Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História, data de 1988 e abarca obras que se prendem com a preparação militar, os teatros de operações da Guiné e Angola, obra em dois volumes com edição do Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote. Como é óbvio, a edição está completamente esgotada, mas ainda é possível através de vendedores online conseguir adquiri-la por cerca de 30€.

João de Melo abre a edição refletindo sobre a colonização portuguesa, a literatura de guerra, questiona se há ou não uma geração literária da guerra colonial, põe em cima da mesa um lote de nomes da escrita, não esquecendo os nomes daqueles que escreveram literatura colonial anteriormente à guerra. Cabe a Joaquim Vieira um ensaio sobre África na década de 1960. À data em que escreve este ensaio, 1984, reescrevendo-o em 1987, falando desse lote de obras já publicadas, dirá não acreditar que existisse uma reconhecida obra-prima. Juízo temerário, digo eu, a este tempo já tinham sido publicadas algumas obras de arromba, e cito: Nó Cego, por Carlos Vale Ferraz, Os Cus de Judas, por António Lobo Antunes, Lugar de Massacre, por José Martins Garcia e Autópsia de um Mar de Ruínas, por João de Melo (a primeira edição é irrefutavelmente uma obra de referência. Acresce que Os Anos da Guerra é de algum modo uma conversa em sala de espelhos, aparecem os escritores portugueses e os escritores africanos independentistas, tais como José Luandino Vieira ou Pepetela.

Limito-me agora a algumas lembranças de escritores intervenientes neste primeiro volume.

Primeiro, um extrato do romance de Álamo Oliveira intitulado Até Hoje (Memória de Cão, 1967), nitidamente autobiográfico, um suspiro de quem vem da Ilha Terceira:
“Viera da ilha com seus horizontes azuis, punhados de verde e réstias de cinza. A grandeza da terra diminuía perante a grandeza do mar que assumira como seu. Viera como cavalo manso atrelado à carroça da Pátria – esse fetiche desmantelado que há muito lhe devorava os intestinos para vomitar de seguida o asco, a pobreza, enchendo o saco da sua história de lixo triste e podre. Era pela ilha que João se deixava escorregar, a memória atada a todos os tempos, lugares, pessoas, sonhos intemporais. Ilha redonda ou pão de milho, hóstia desconsagrada de franja roída, suas gentes voltadas para o mar – o deus do pão e da aventura e também do medo e da saudade. João vinha do lado norte mais alto e ventoso, os campos rasos e verdes, casas a brilhar de cal, pequenas, baixas, conchas perdidas na ilha perdida. Passara a infância embrulhado no cheiro saboroso que o suor empresta às pessoas, ao tempo, às coisas. Eram perfumes silvestres – muita bonina, conteiras, faias do Norte, quase bedum de esperma, queijo (…) E João, perdido naquele barco enorme, no meio de mil duzentos e cinquenta e três homens, lá ia a caminho da guerra como se fosse voluntário dela. Destino: Guiné.”

Segundo, um extrato de Autópsia de um Mar de Ruínas, de 1984, também nitidamente autobiográfico:
“O furriel enfermeiro sacou rapidamente da faca-de-mato e cortou-lhe as calças, o dólman e a camisa. Fazia-o com a determinação dos homens perdidos, dos homens que não iriam, nunca mais, perder a sua memória dos outros e de si mesmo. Cortava grandes pedaços de tecido à navalhada e estava já ensopado daquele suor de lágrimas que tem a espessura da chuva e o salitre de uma navegação mortal. Ao ver os intestinos espalhados por todo o baixo-ventre do ferido, abriu muito os olhos e disse três caralhos à vida, duas porras e três conas de madrinhas-de-guerra aos capitães do Norte e, pondo-se a coçar a cabeça, sem saber o que faria àquele balão fumegante, começou por tomar as mãos do Gonçalves e disse:
- Juro que não te vou deixar morrer, irmãozinho.

Aquelas mãos estavam, porém, tão rígidas, nos dedos entrelaçados que formavam uma concha para segurar as suas vísceras, que nenhuma promessa as obrigaria a deixar de praticar o último grande gesto da sua vida.

- Pelo amor de Deus, meu furriel: tenho mulher e três filhos!

Um por um, os dedos do furriel soltaram os dedos do soldado, e então as tripas rolaram-lhe um pouco para as virilhas e pareceram aumentar de volume. Eu vi duas solidões – de – homem enfrentarem-se num olhar; ouvi que um deles continuava a lembrar três filhos e uma mulher, enquanto o outro dizia porra, porra, porra; dizia Chamem-me um helicóptero, Chamem-me um helicóptero com médico e serviço de sangue e dizia-me a mim Onde está o alferes? E disse-me ainda, sempre no mesmo tom, como quem comanda uma tribo contra um incêndio ou chama os náufragos todos pelo nome:
- Corre-me aí à frente a ver se há outros feridos graves, Renato. Chama-me o alferes. É preciso um helicóptero com serviço de sangue.

Corri, corri, corri, e nunca mais deixarei de correr por ali fora; tropeçava em tudo, caía, levantava-me. Havia na minha boca um sabor a vísceras expetoradas e eu caía de novo. Fugir por ali adiante e nunca mais deixar de correr o resto da vida, assim mo pediam todos os órgãos conhecidos e desconhecidos do meu corpo, enquanto não sobrevinha um enorme vómito de mar ou um tiro que pusesse termo à minha solidão de animal acossado pelo fogo. Aquelas coisas não podiam estar a acontecer-me a mim: vira-as algumas vezes nos filmes, ouvira falar delas à distância e com ouvido distraído; faziam parte da morte dos outros e só deles, não podiam estar agora a acontecer-me a mim (…) – Ajuda-me, Renato. Ai, que eu morro!

Ajoelhei-me ao lado de Sérgio e pensei em poder acariciar devagarinho o seu pequeno rosto ainda imberbe. Tinha todo o mundo fechado nas minhas costas: limbo, cemitério novo, morte miúda e cada vez mais numerosa da minha aflição, não podia ver nem ouvir mais nada. Dei uma corrida para junto do furriel enfermeiro, disposto a trazê-lo de empurrão na minha frente, e fui dar com ele de joelhos no chão, lavado em suor. Não era certo que rezasse, por quanto vi que procurava desesperadamente a veia perdida do Gonçalves. Que tenho três filhos e uma mulher, meu furriel! E pensava ainda poder aplicar-lhe um soro e cumprir a promessa de que não o deixaria morrer. Acabara de ligar-lhe todo o ventre e administrara-lhe repetidas doses de hemostáticos, os sopros angélicos das suas ampolas de cardiotónicos, os sininhos mágicos das suas mãos de fada com avental de mãe de Deus. Era um homem desesperado porque lutava contra esse cordão azul que se perdia no fundo da carne, tentado pescar o seu último peixe com o anzol da agulha mal biselada.”


Ex-combatente e escritor João de Melo
Álamo de Oliveira (1945-2025)
Manuel Alegre, deve-se-lhe o mais belo poema feito por um português sobre a guerra colonial
Álvaro Guerra (1936-2002)

(continua)
_____________

Nota do editor

Último post da série de 25 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

9 comentários:

Anónimo disse...

Diz o Mário Beja Santos que ao Manuel Alegre, "deve-se-lhe o mais belo poema feito por um português sobre a guerra colonial." Devem ser aquelles versos elegíacos sobre Nambuangongo, Angola e depois a longa cantilena aos microfones da rádio de Argel, insultando as Nossas Tropas,, falsificando a nossa História. Há quem goste do Alegre. Eu entristeço.

Abraço,

António Graça de Abreu

Alberto Branquinho disse...

Mário
Gostei do texto.
Vamos ver as cenas dos próximos capítulos.

Fernando Ribeiro disse...

Eu não sei qual é o mais belo poema que já se escreveu sobre a guerra colonial na opinião do Mário Beja Santos. Para mim, o mais belo poema sobre a guerra é a "Canção com Lágrimas e Sol", que Manuel Alegre escreveu em homenagem a um seu camarada, que ele mesmo viu morrer numa emboscada, na picada entre Quipedro e Nambuangongo.

Canção com Lágrimmas e Sol

Eu canto para ti um mês de giestas
um mês de morte e crescimento ó meu amigo
como um cristal partindo-se plangente
no fundo da memória perturbada.

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
e um coração poisado sobre a tua ausência
eu canto um mês com lágrimas e sol: o grave mês
em que os mortos amados batem à porta do poema.

Porque tu me disseste: quem me dera em Lisboa
quem me dera em Maio. Depois morreste
com Lisboa tão longe ó meu irmão de Maio
que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
teu nome escrito com ternura sobre as águas
e o teu retrato em cada rua onde não passas
trazendo no sorriso a flor do mês de Maio.

Porque tu me disseste: quem me dera em Maio
porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol. Lisboa viúva (com lágrimas com lágrimas)
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve.

Manuel Alegre

Alberto Branquinho disse...

Bem lembrado, Fernando Ribeiro!
Esse poema "Canção com lágrimas e sol" foi divulgado e cantado pelo Adriano Correia de Oliveira sob o título "Canção com lágrimas"; só quem não sofreu o "sol" de África nessas situações de guerra, sangue, feridos e mortos poderia não entender e cortar do título a palavra "sol"...
Não direi nada de novo se disser que há mais poemas sobre o mesmo tema que não ficam atrás desse, mas... não foram cantados e divulgados. E não só do Manuel Alegre (que esteve em Angola... no início da guerra que não se pode comparar à situação que se viveu, depois, na Guiné).

Santos Oliveira disse...

Quando o poeta é herói,
Eu nem sei o que lhe diga.
A mim, ainda me dói
A sua estranha cantiga,
Empregando a sua espiga
No que seu ego constrói.


Pois...
LIVRO para baixar em PDF : "A Guiné no meu tempo..." http://ultramar.terraweb.biz/Livros/SantosOliveira/A_Guine_no_meu_tempo_Da_Mobilizacao_ao_regresso_Santos%20Oliveira_Edicao_final.pdf

ManuelLluís Lomba disse...

O alferes milc.º de Infantaria Manuel Alegre, valoroso combatente em Quipedro e Nambuangongo, poeta meritório valorizado por António Portugal (música), Adriano Correia de Oliveira e Amália Rodrigues (canto) NÃO FOI DESERTOR graças ao então brigadeiro Betencourt Rodrigues, que será o último Governador e Comandante-Chefe da Guiné (uma ironia do Destino).
Porém, enquanto opositor ao regime, primeiro pelo PCP e depois pelo PS, traiu os camaradas da Guerra do Ultramar, os da Guiné em particular, - foi presencial na declaração unilateral da independência (poderá identificar o local?...)
Reinventou o patriotismo com o 25A74, foi muito instrumental à instauração da Democracia e como eficiente chefe da segurança do PS nos desvarios do PREC e do 25N75.
Nas eleições presidenciais de 2006, o voto dos Portugueses alçou-o ao 2.º lugar, superou Mário Soares, então "um pai da pátria"...
Há muito que lhe perdoei as mentirolas que vocalizou na Rádio Argel, sobre a destruição de Buruntuma, na noite de 23 de Setembro de 1965, efeméride da fundação do PAIGC. Estivemos cercados por todos os lados - eles não aguentaram 5 minutos.... Já fiz essa narrativa.
Um abraço aos camaradas Mário e comentaristas do seu texto.

José Botelho Colaço disse...

O Manuel Alegre também me matou a mim e toda a C.caç. 557 no Cachil na noite de 26/11/1964 terminava assim o comunicado lido na sua voz sonora na emissora "Voz da Liberdade" as tropas do povo tomaram de assalto as tropas colonialistas no Cachil Ilha do Como: Foram todos dizimados não há sobreviventes.

Morais Silva disse...

A propósito de Manuel Alegre diria que a vida não é uma autoestrada. Acontece, amiúde, as convicções fazerem uma rotunda...

Alberto Branquinho disse...

Gostei muito da imagem dada no comentário lacónico que antecede.

Se bem entendi, o passeante, ao deparar-se com uma rotunda, pode não seguir a direito na mesma direcção que trazia, podendo, também, curvar 90 graus à direita (ou à esquerda) e, além disso, até pode inverter o sentido da marcha... e regressar às origens. Bem visto!
(Até parece do Cristo, aquele chamado Jesus, que se exprimia por parábolas, sem hiperbolizar as situações).