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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28376: Notas de leitura (1965): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Julho de 2026:

Queridos amigos,
Terá sido uma exposição esplêndida, uma oportunidade em conhecer o espólio deste fotógrafo que tinha estabelecimento em Bissau e que se revelou particularmente ativo na governação de Spínola. Este espólio tem a sua história que aqui se conta, uma técnica conceituada, Catarina Mateus, reflete sobre questões de acesso, legado e poder colonial, para nos lembrar a exiguidade de recursos, daí poder dizer-se que deste espólio monumental só se conhece um vislumbre. Foi convocado o historiador Pedro Aires Oliveira para contextualizar a governação de Spínola, nela mergulhou este fotógrafo, registando um sem número de eventos. Deixamos para o texto seguinte as considerações das curadoras da exposição do que foi organizar a partir do Arquivo esta exposição de que resulta este livro/catálogo que conheceu uma edição muito magra, trezentos exemplares.

Um abraço do
Mário



O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 1

Mário Beja Santos

A exposição e livro sobre trabalhos de Álvaro de Barros Geraldo constituiu um acontecimento, revelava-se a obra de alguém que parecia encoberto pelo nome de um estabelecimento fotográfico sediado em Bissau que legou um acervo monumental que está depositado no Arquivo Histórico Ultramarino.

A então colaboradora técnica deste arquivo, Catarina Mateus, depõe no livro/catálogo: que tomara conhecimento deste espólio em 2025, pois na altura integrava uma equipa que se ocupava da identificação e diagnóstico do vastíssimo acervo fotográfico do Instituto de Investigação Científica Tropical; no ano seguinte, em 2006, iniciaram-se os tratamentos às coleções.
“Foi neste contexto que o espólio de Álvaro de Barros Geraldo (ABG) foi integrado no Arquivo Histórico, analisado e diagnosticado. Estima-se um acervo de 82.300 fotografias, maioritariamente negativos em película de 120mm e de 35mm, e um conjunto de slides e provas de contacto, para além de uma pasta com documentação impressa e recortes de imprensa. Excetuando estes últimos, todos os negativos se encontram embalados em envelopes de papel, devidamente identificados, que por sua vez, se encontram em caixas de cartão distribuídas por ano. Documentam uma década de trabalho deste fotógrafo que, estabelecido com uma casa comercial de fotografia na Guiné-Bissau a partir da década de 1950, acompanhou de perto as movimentações políticas sociais e culturais, que registou entre os anos de 1966 e 1974.”

Porventura e atendendo a estas datas, convidou-se o historiador Pedro Aires Oliveira a depor sobre a governação de Spínola na Guiné, de algum modo ABG colaborou para a sua imagem, as suas fotografias aparecem na publicação Voz da Guiné e tratadas em meio local. O historiador procura dar sentido histórico à ação desenvolvida por este governador, apresentada em inúmeras fotografias. Instalado em Bissau, a partir de finais de maio de 1968, foi delineando o seu plano de contrassubversão, plano esse sistematizado através de um conjunto de Diretivas do Comando-Chefe.

Em Lisboa, recebe-se um diagnóstico por ele escrito que era devastador, relevava a desmoralização das forças portuguesas, a deficiência no campo das informações e à forma como o dispositivo militar se encontrava organizado – dispersão excessiva em aquartelamentos sujeitos à flagelação persistente do inimigo; para inverter este estado de coisas, o Comandante-Chefe recria uma mais completa unidade de comando (uma maior concentração de todas as competências operacionais) e pedia meios compatíveis para reequilibrar o estado da guerra, atendendo à notória falta de armamento e equipamento dissuasor. Vieram helicópteros Alouette III, equipamentos de transmissões, reforços para a Marinha, uma expansão da estrutura local da PIDE/DGS, ao mesmo tempo que se criava um novo serviço de informações.

Pedia inovações e obteve-as: a preparação dos efetivos a realizar no final da especialidade passariam a ser feitos na Guiné; e acentuou a africanização do recrutamento, deu-se ênfase a tropas de elite guineenses, envolvendo comandos, fuzileiros e tropas especiais. Na linha dos ensinamentos da guerra contra subversiva, foi criado o programa Por uma Guiné Melhor, criaram-se aldeamentos, diques, escolas, melhoraram-se as estruturas habitacionais, algumas destas com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian; a ação psicossocial e da propaganda ganhou novo fôlego, com o uso do panfleto, do cartaz, dos materiais audiovisuais, da fotografia, sobretudo, da rádio, esta passou a ter emissões em línguas nativas.

É evidente que tudo isto é matéria consabida, por muito carisma pretoriano que acompanhasse toda esta ação, como observa o historiador, acabou num beco sem saída, Marcello Caetano recusou-lhe a negociação com a força nacionalista, deu mesmo a entender que não era forçoso que os exércitos vencessem em todas as circunstâncias, o que veio agitar o fantasma da União Indiana, em que o regime encontrou os seus bodes expiatórios.

E assim passamos do Arquivo à exposição e a olhar o espólio de ABG como uma indeclinável fonte documental relevante. O texto de Inês Vieira Gomes e Catarina Laranjeiro, intitulado do Arquivo à Exposição: Guerra Colonial, Revolução e o Espólio de ABG retoma as considerações de Catarina Mateus, a então conservadora de fotografia do Arquivo Histórico Ultramarino.

“Mostrar este espólio no contexto das comemorações dos 50 Anos do 25 de abril pareceu-nos extremamente pertinente. Esta retrospetiva revela não só a importância histórica na guerra da Guiné-Bissau para as independências das ex-colónias portuguesas, mas também o seu papel central na própria Revolução de Abril. A Guerra Colonial continua frequentemente ausente daas comemorações do 25 de abril, como se se tratasse de um capítulo incómodo que o regime democrático preferisse manter à margem da memória pública.”

As autoras põem enfâse no número dos efetivos militares, lembram as obras plásticas produzidas, algumas delas entraram em sinergia com o período da exposição que decorreu no Museu Nacional de História Natural e da Ciência.

Fala-se então do espólio:
“A parte da Guiné-Bissau no inventário do Arquivo Histórico pode ser subdividida em dois conjuntos temáticos. O primeiro é constituído por reportagens que documentam atividades sociais, políticas e desportivas. Incluem-se aqui receções protocolares, inaugurações de edifícios, visitas oficiais, procissões, atividades escolares, bem como atividades e operações militares. Nestes registos, destaca-se as exibições de armamento apreendido ao PAIGC, e a libertação de prisioneiros, entre outros eventos. Imagens de propaganda. O segundo conjunto insere-se no amplo desígnio de usos e costumes: retratos, danças ou outras expressões culturais, detalhes (penteados, tatuagens, roupas, acessórios). É evidente o modo como a fotografia foi apropriada no contexto colonial: homens e mulheres são fixados pela câmara como objetos etnográficos, captados num olhar que os classifica e os distancia, reiterando uma visão hierárquica e exotizante sobre as populações colonizadas. É notável a forma como ABG organizou o seu espólio.”

Veremos depois a biografia controversa e fragmentada de ABG, mostrando mais um acervo fotográfico das suas imagens.

“No contexto das comemorações dos 50 anos das independências das antigas colónias portuguesas em África, debruçamo-nos sobre um espólio fotográfico inédito que coincide com o período da guerra colonial e das lutas de libertação. Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo português a viver na Guiné-Bissau desde meados de 1950, registou de perto este período marcado por tensões e profundas transformações sociais e políticas (…) Este livro, tal como a exposição homónima, constitui um contributo para a problematização crítica dos legados do colonialismo português. Através da fotografia e de investigação histórica, propõe-se revisitar a memória do passado colonial e refletir sobre o forjar de identidades nacionais, assim como o contexto pós-revolucionário em Portugal.

Para além de imagens de Álvaro de Barros Geraldo – que oferecem um olhar singular sobre a construção de narrativas visuais –, este livro reúne contributos de investigadores que questionam a história, a memória e a continuidade de estruturas coloniais nas dinâmicas do presente”.

Texto de apresentação para a exposição Imaginários da Guiné-Bissau, reproduzido na contracapa do livro
Catarina Laranjeiro e Inês Vieira Gomes são as curadoras da exposição Imaginários da Guiné-Bissau. O espólio de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975), que será inaugurada no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no dia 8 de Maio às 18h.

Partindo de parte de um acervo do Arquivo Histórico Ultramarino de cerca de 82 mil negativos (bem como um conjunto de slides e provas de contacto) da Guiné-Bissau e Lisboa, as curadoras investigaram o papel da fotografia na construção do argumento de “manutenção de paz” num território em guerra. Este espólio inédito, nunca antes estudado, exposto ou devidamente catalogado pertenceu a Álvaro de Barros Geraldo (1922-1993), fotógrafo de trajetória enigmática, cuja biografia fragmentada exigiu uma leitura crítica do seu legado. Através de fotografias de emboscadas, cerimónias protocolares e iniciativas militares e sociais, Catarina e Inês procuraram analisar criticamente como esse discurso legitimou e perpetuou tensões pós-coloniais ao longo dos séculos XX e XXI.

Para os interessados fica o site do Inventário do Acervo Fotográfico do Arquivo Histórico Ultramarino: https://ahu.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/24/2016/09/PT-AHU-FOT.pdf
João Egreja e Álvaro de Barros Geraldo na fronteira do Senegal, Pirada, 14 de junho de 1972
Ramadão, 27 de fevereiro de 1969
Congresso de Etnia Balanta, 22 de abril de 1972
Chegada do Duo Ouro Negro, 4 de novembro de 1969

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 23 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28372: Notas de leitura (1964): "Coragem, Altruísmo e Fé", biografia da cap enf pqdt Eugénia do Espírito Santo Sousa (Ribeira Grande, Santo Antão, Cabo Verde, 1935 - Sesimbra, 2025): comentário da autora, Rosalina Coelho Vaqueiro

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