1. Em todas as nossas terras havia uma venda, ou pelo menos uma taberna. No seu romance, "3 x 44: Abel e Caim en Contrapé (Porto: Vida Económica, 2026, pp.33-36), o António Carvalho tem uma primorosa descrição da "venda da igreja", no lugar de "Emendadas" (leia-se: Medas, Gondomar), em plena II Guerra Munidal.
Para além da função comercial (estabelecimento onde os aldeões, os vilões e até os viajantes se abasteciam do que precisavam para a sua subsistência ou viagem), a venda (misto de taberna, merceria, casa de pasto e até hospedaria) era um local de socialização por excelência. E um dos raros espaço de liberdade ou de evasão, naquela época, no Portugal provinciano do Estado Novo.
A minha terra, uma vilória do Oeste, teria uma meia dúzia de tabernas, quando eu era puto: umas evoluiram, outras extinguiram-se. O cheiro a sarro e serradura no chão ainda está "entranhado" nas minhas memórias de infância... Uma das últimas, que eu frequentei, com o jornal diário ("Diário de Lisboa") ou um semanário ("Comércio do Funchal") e um livro debaixo do braço, já depois de vir da Guiné, em 1971, era a "Taberna do Macaco".
Era também conhecida, ironicamente, por "Sociedade de Geografia", onde se reunia a "nata" local dos "colarinhos brancos", a pequena burguesia do funcionalismo público (câmara municipal, tribunal, finanças, conservatórias, grémios, etc.). Funcionava como tertúlia, ao fim da tarde, depois de fecharem os serviços.
A expressão, "Sociedade de Geografia", é atribuída a um poeta local, o saudoso Mariano Vicente (1917-1977), homem de fino trato, autodidata, que era contabalista da firma José Maria Carvalho, e que foi escritor, jornalista, poeta de talento, e um dos raros lourinhanenses que se assumia publicamente como representante da oposição democrática.
O topónimo, "Taberna do Macaco", advinha-lhe da existência de um pobre babuíno (macaco-cão, no crioulo da Guiné), trazido por antigo combatente que veio da guerra de Angola, logo no início. Do alto do seu poiso, numa trave de eucalipto, o bicho assistia a acaloradas partidas de chinquilho, jogatanas de sueca e também a umas rodadas de tintol, acompanhando os pratinhos de salada de polvo. Morreu, por certo, de saudade dos cafezais do Norte de Angola. E sem nunca ter ouvida discussões, em voz alta, sobre a guerra do ultramar, tema que era tabu.
Sem preocupações de sermos exaustivos, nem muito menos originais, vamos continuar a procurar referências literárias à "Venda" que, no séc. XX, passa a ser sobretudo a "Taberna", e que sobreviveu até ao 25 de Abril de 1974. (*)
Neorrealismo português (meados do século XX): a representação da venda e da taberna
Há aqui uma profunda viragem ideológica e estética, ao relação ao romantismo e ao naturalismo do séc. XIX O espaço perde quase por completo a conotação pitoresca, folclórica, romântica ou até pícara do séc. XIX e as primeirs décadas do séc. XX, para se converter no foco da consciência de "classe", do desespero e da opressão social. (Para já fica de fora desta análise, a taberna dos bairros populares de Lisboa, intimamente ligada à história do fado.)
Se no séc. XIX a venda, no interior do país, era o poiso do viajante, o local das bisbilhotices da aldeia mas também o sítio onde chegavam, atrasadas, as notícias da capital, é no romance neorrealista ela assume mais nitidamente três funções fundamentais:
(i) espaço da servidão financeira: é onde o camponês ou operário gasta a sua féria, jorna ou salário, vende a sua força de trabalho a eito, empenha a pouca terra que tem ou amanha, acumula a dívida do "fiado" na caderneta da loja, ficando, enfim, acorrentado ao comerciante ou ao lavrador abastado;
(ii) "válvula de escape" do alcoolismo: o álcool (o vinho e o bagaço) surge como um anestésico amargo contra a miséria, o cansaço do trabalho esgotante e o desemprego sazonal (e nomeadamente no inverno);
(iii) fórum da solidariedade e da revolta de "classe": é na penumbra da venda ou da taberna, longe dos olhos da autoridade e da polícia, que nascem os sussurros de greve, a solidariedade entre o proletariado (urbano e rual) e a tomada de consciência política.
Três autores, entre outros, podem ser aqui citados, ligados à estética neorrealista. São hoje, injustamente, tratados como "escritores menores", sobretudo pela crítica académica. Ou, pelo menos, estão já esquecidos, apesra da existência, em Vila Franca de Xira, do Museu do Neorrealismo.
- Manuel da Fonseca: a taberna alentejana como palco do drama social
Manuel da Fonseca, alentejano de Santiago do Cacém, foi talvez quem melhor terá captado a atmosfera densa e dramática das tabernas das vilas e montes do Alentejo. Retrata o Alentejo com um tom lírico e social, onde a venda é um símbolo da comunidade e da identidade local. A taberna é um refúgio escuro de homens de chapéu enterrado até às orelhas.
Em Seara de Vento, a mercearia é um espaço de resistência cultural, onde se preservam tradições orais.
A taberna é o centro gravitacional onde a fome e a opressão dos ceifeiros desempregados se condensam:
(...) "A taberna estava cheia de uma fumaça densa que fazia doer os olhos. Homens de braços cruzados, encostados ao balcão de madeira gasta, ouviam em silêncio. Não havia dinheiro para o vinho, nem sequer para o fiado. O taberneiro olhava de lado, com a caderneta das dívidas aberta sobre a gaveta do tinto. Ali, no escuro daquele compartimento que cheirava a aguardente e a suor antigo, a raiva dos homens não fazia barulho: crescia por dentro, devagar, como o fogo na ceifa." (...)
O Fogo e as Cinzas (1953) / Cerromaior (1943):
Nas suas narrativas curtas, as vendas de beira-estrada alentejanas são descritas com um lirismo duro: o jogo da bisca, o murmúrio dos homens sós e o olhar vigilante dos proprietários rurais (ou dos seus maiorais) que controlam quem bebe e quem fala.
- Alves Redol: o feitor, o fiado e o trabalho duro
Em Alves Redol, o pioneiro do movimento com Gaibéus (1939), a venda e a taberna no Ribatejo e na lizíria surgem intimamente ligadas à exploração do trabalho agrícola sazonal. São espaços fundamentais no Ribatejo rural, onde se retratam as condições de vida dos trabalhadores agrícolas (gaibéus, ceifeiros).
Além dos Gaibéus, outras obras de referência; Barranco de Cegos (1961), Avieiros (1942)
Em Avieiros, a taberna à beira do rio é um local de abrigos para os corpos cansados para os trabalhadores do Tejo.
Gaibéus (1939):
(...) "A loja do senhor Tomé era o coração faminto da aldeia. Vendia-se lá de tudo: desde o petrópio para os candeeiros ao bacalhau duro como tábua. Mas o que mais pesava na loja era o lápis do vendedor a apontar no caderno as somas do fiado dos camponeses. Cada côdea de pão levada para casa vinha carregada com os juros da miséria. Na taberna ao lado, os ceifeiros ribatejanos afogavam a mágoa do salário de fome em quartilhos de tinto carrascão." (...)
Em Fanga (1943), Redol explora a figura do pequeno comerciante da venda que, embora pertencendo ao povo, atua muitas vezes como intermediário e instrumento de pressão dos grandes latifundiários sobre os camponeses enfraquecidos pelas dívidas.
Fernmando Namora (Condeixa-A-Nova, 1919 - Lisboa, 1989)
- Fernando Namora: a taberna das Beiras vista pelo João Semana
Em Fernando Namora, particularmente nos romances de ambiente rural da Beira Baixa e Serra da Estrela, a venda e a taberna surgem vistas através do olhar do médico de aldeia, o "João Seamana", que testemunha a degradação física e moral causada pelas condições de vida.
Retalhos da Vida de um Médico (1949/1963):
(...) "A taberna do Ti Bento era um antro enfumaçado onde a gente da serra se ia encharcar em vinho roxo para esquecer a geada e a fome. O ar era irrespirável, impregnado do cheiro a sardinha assada, a sabão e a roupas encharcadas pela chuva. Naquela penumbra, entre um gole e uma praga, viam-se os rostos chupados pela maleita e pela tuberculose. Para aquela gente, a taberna não era um vício: era o único posto de socorro contra a dor de viver." (...)
Mina de S. Francisco, 1946):
Nas zonas de mineração, a venda torna-se a "loja da empresa" ou o estabelecimento explorador onde o mineiro deixa o magro salário do mês antes mesmo de o receber, trocando o seu suor por víveres de péssima qualidade.
Síntese das diferenças estéticas na literatura dos séc. XIX e XX
(i) Século XIX (Camilo / Eça)
- Ambiente: pitoresco, acolhedor, idílico, pícro ou tragicómico.
- Vinho: elemento de folguedo, apetite e convívio rústico.
- Função da venda: pousada de viagem, troca de notícias da capital.
- Protagonistas: almocreves, fidalgos, morgados e estalajadeiros/as
(ii) Século XX (Neorrealismo)
- Ambiente: Denso, enfumaçado, claustrofóbico e tenso.
- Vinho: Anestésico contra o desemprego, a fome, o frio e o desespero.
- Função da venda: mecanismo de endividamento e controlo social.
- Protagonistas: ceifeiros, operários, mineiros e o "fiador".
A "venda" (merceria, taberna, loja) na literatura portuguesa dos séculos XIX e XX assume múltiplas funções: espaço social (local de encontro, convívio e trocas) (Eça, Camilo, Alves Redol);
crítica social (retrato das desigualdades e conflitos de classe) (Neorrealismo: lves Redol, Manuel da Fonseca); cenárioetnográfico (descrição dos costumes e da vida rural (Camilo, Aquilino); símbolo de resistência espaço de solidariedade entre os mais pobres) (Manuel da Fonseca, Alves Redol).
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