1. Já não é do meu tempo a "vinha de enforcado", na Quinta de Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, onde comecei a ir a partir de 1975. E onde casei em 1976. Mas recordo-me, antes da modernização da nossa vinha (meados da década de 1980), já só existiam videiras nas bordaduras ("ramadas") e que o essencial da produção era o milho, algum centeio e erva para o gado, mais a policultura tradicional (produtos hortofrutícolas).
Além disso, a realidade das décadas de 1940 a 1950, em que nascemos, no Portugal rural era de extrema pobreza e subsistência. E a vida era muito marcada pela dureza do trabalho agrícola, nomeadamente da região do Vinho Verde.
A região de Entre-Douro-e-Minho, onde o concelho se insere, caracterizava-se tradicionalmente pelo minifúndio e por uma elevadíssima taxa de exploração da terra sob regimes de arrendamento e parceria (agrícola e pecuária, formas pré-capitalistas de produção).
Então era ver, manhã cedo, homens e rapazes com escadas de madeira (até 12 passos) às costas, com a cesta de vime com o cambito pendurado ao ombro, em romaria às várias propriedades onde a vindima se ia realizar.
Iniciado o corte das uvas, após um frugal mata-bicho – bagaço com açúcar e um naco de broa de milho e centeio –, as conversas, os ditos, as interjeições iam-se sucedendo entre os homens e as mulheres, procurando assim animar os espíritos e dar algum intervalo às dores de costas dos homens, que para além de constantemente terem de mudar as escadas pesadas entre as uveiras altas – as vides como que serpenteavam os choupos que serviam de armação: a tradicional vinha de "enforcado" – ainda tinham, quantas vezes, de se encarrapitar para fora da escada de forma a chegar a um cacho de uvas que teimava em ficar a amadurecer por mais algum tempo.
As mulheres, essas, no seu corrupio entre as leiras e a adega com os cestos de vime pesados à cabeça e com o sumo das uvas, de tão calcadas, a escorrer-lhes pela cara e costas abaixo, chegavam afogueadas e com o suor adocicado.
Até as crianças e moçoilas, ainda sem idade para acartar cestos, tinham o seu quinhão na azáfama da vindima. Como diz o ditado, “o trabalho do menino só não o quer quem não tiver tino “, e então era vê-las, cada qual com o seu açafate, empenhadas na sua válida tarefa de apanhar todo e qualquer bago que caísse ao chão, pois desperdiçar era proibido e muitos bagos (envolvidos em terra ou sem ela) sempre davam mais uns quantos litros de vinho.
Aqui e ali ouviam-se os "cantaréus", ao despique, efectuados por 3 ou 4 moças que se juntavam junto às bordas, no intervalo de mais um carreto de cestos e que, ecoando vale abaixo, indicavam aos vizinhos que ali se vindimava e qual o seu estado de alma. (...)
2. A "vinha de enforcado" (também conhecida tradicionalmente como "uveira") é um sistema ancestral de condução da vinha típico do Minho e da região do Vinho Verde.
A ideia básica é simples e "economicista": em vez de postes de madeira, pedra, metal ou betão, a videira (até quatro) é plantada junto de uma árvore e conduzida pelo tronco até à copa. utiliza-se um tutor vivo. Em geral, árvores como choupos, ulmeiros, plátanos, carvalhos, nogueiras, etc.
A própria planta ajuda. A Vitis vinifera é uma trepadeira: as suas gavinhas permitem-lhe prender-se a suportes enquanto os lançamentos procuram espaço e luz. O agricultor aproveitou essa capacidade natural e transformou-a num sistema de produção racional: ganhava superfície útil para outras culturas
A videira crescia até grande altura — muitas vezes entre os 3 e os 6 metros (ou mais) — e a folhagem e os cachos de uva ficavam pendurados nos ramos das árvores, daí a designação "enforcado".Origem, ao que parece romana, da "vinha de enforcado";
(i) numa região de minifúndio (propriedades agrícolas pequenas e muito divididas, e muitas em terrenos em socaldo, roubados à floresta de castanheiro e de caravalho) e de economia de subsistência, a "vinha de enforcado" permitia rentabilizar a terra ao máximo: o solo por baixo das árvores ficava livre para as culturas de regadio do ciclo de verão (milho, feijão, hortaliças, cebolas, pasto para o gado, etc.;
(ii) o elevar as uvas bem acima do solo, protegiam-se os cachos da humidade excessiva do chão e de doenças fúngicas (como o míldio), além de permitir uma melhor exposição solar no topo das copas;
(iii) trata-se de uma técnica milenar de origem romana (arbustum), muito difundida no Noroeste Peninsular ao longo dos séculos;
(iv) em cntrapartida, a colheita nestas vinhas era uma tarefa exigente e perigosa; os vindimadores subiam a altas escadas de madeira afuniladas no topo (as chamadas escadas de moinho ou "escadas de ponta") para colher os cachos pendurados na copa das árvores, transportando as uvas em pesados cestos de verga;
(v) a partir do anos 60/70, com a emigração, a modernização da viticultura, a lenta entrada de maquinaria, a reorganização da Região Demarcada do Vinho Verde, as exigênciasdo mercado, as preocupações com a segurança alimentar e o controlo de qualidade, etc., a "vinha de enforcado" foi sendo progressivamente substituída por sistemas de condução modernos, como o cordão simples, o cruzeta ou a ramada/pérgola.
Apesar de ser hoje rara e considerada um património etnográfico e de biodiversidade em risco de extinção, ainda é possível encontrar uveiras em algumas explorações tradicionais do Minho e de Entre-Douro-e-Minho, em concelhos como Lousada, Guimarães e Cabeceiras de Basto.
(Pesquisa: LG + Blogue A Nossa Quinta de Candoz + Guia Rural + IA)
(Condensação, revisão/ fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:




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