1. Mensagem do nosso camarada Artur Conceição (ex-Soldado TRMS de Inf e Condutor Auto, da CART 730 / BART 733, Bissorã, Jumbembém e Farim, 1964/66), com data de 27 de Outubro de 2026:Boa tarde meu caro Carlos Vinhal,
Mais um pequeno texto recordando coisas que já vão longe.
Um forte abraço com votos de muita saúde.
Artur António da Conceição
A Guerra do Ultramar e as Doenças Tropicais
Eu não tenho formação nem conhecimentos suficientes para falar de um tema tão abrangente como este. Sei que tanto o paludismo como outras doenças tropicais têm os seus nomes científicos destinados a quem tem capacidade para os saber usar. Desejo muito boa sorte e muito bom proveito a todos. Eu nunca fui invejoso. Sei que já existem no blogue alguns postes sobre o mesmo assunto onde o tema é abordado de uma forma bastante científica. Permitam-me meus caros que vos deixe uma abordagem mais “baixinha” sobre o mesmo assunto.
Quase no fim da Recruta e antes da ida para fim de semana, resolveram dar-nos uma prenda de Natal. Estávamos em dezembro, quero tudo em frente ao refeitório do CICA 4 em fila indiana e em tronco nu. Vinha o primeiro com algodão e desinfetava a zona que fica entre o ombro e o pescoço, talvez no chamado lombo. Vinha um segundo espetava uma agulha com dimensões pouco habituais. Mais adiante estava um terceiro que injetava o veneno. Para finalizar ainda vinha mais um para retirar a agulha e desinfetar o buraco que ela tinha originado.
Não me senti totalmente confortável, mas não me impediu de trabalhar nesse fim de semana.
Depois de ter sido mobilizado fui mandado ao Instituto de Medicina Tropica sediado na Rua da Junqueira em Lisboa, onde me foi atribuído um certificado internacional de vacinação de cor amarela depois de ter levado umas boas picadelas.
Quando cheguei à Guiné comecei a ver alguns camaradas de armas a passar bastante mal com uma febre a que chamavam de paludismo. Não é meu hábito meter foice em seara onde nem sequer sei de que lado nasce o centeio, mas percebi atempadamente que o paludismo tinha nomes científicos de alto gabarito.
Para evitar o paludismo era dado aos militares um comprido uma vez por semana que era chamado de DARAPRIN. Em Brá, onde as praças tinham direito a comer em pratos, porque tinham direito a comer no mesmo refeitório onde comiam os três grupos de Comandos e as refeições eram confecionadas pela CCS do Batalhão 733. Na quinta-feira, na refeição do almoço ao virarmos o prato lá estava a tal mezinha contra o paludismo. Sem que alguém visse e com o dedo médio em forma de mola lá ia o jeitoso parar bem longe.
Nasci no ano de 1942 dois meses depois da minha mãe ter completado vinte anos. O meu avô pai da minha mãe, era manajeiro e vinha com ranchos de ratinhos para a monda dos arrozais na zona de Alcácer do Sal.
A minha mãe aos 18 anos apanhou uma febre a que os ratinhos, migrantes da zona do Caramulo, chamavam de Sezões. Não quero meter foice e seara alheia, mas penso que Sezões e paludismo são a mesma coisa. Haverá alguma relação entre este facto e a razão pela qual eu nunca apanhei o paludismo.
Assisti a um diálogo entre dois médicos, sendo que um deles era maçarico, a perguntar ao velhote se davam quinino aos militares, uma vez que o quinino matava. Se eu já era anti comprimidos ainda fiquei pior.
Aprendi a dar sangue durante o tempo em que estive na Guiné. A primeira vez foi uma transfusão direita para um camarada a quem estavam a amputar uma perna porque tinha rebentado uma mina. Fui apanhado pelo Médico Psiquiatra, Dr. Pimenta que me estava a tratar. Nos últimos 6 meses em que estive em Bissau ainda dei sangue mais duas vezes. Regressado da Guiné fui dador de sangue até a idade o permitir. Dar sangue e colocar a agulha não custava nada. Quando eu dizia que tinha estado na Guiné, lá vinha a pergunta, então teve paludismo.
Quando dizia que não, era certo e sabido que não acreditavam. Então lá vinha a pica na ponta do dedo que me irritava solenemente.
Indicam as estatísticas de que durante a guerra do ultramar teriam morrido por doença 475 militares em Angola, 320 em Moçambique e 266 na Guiné. Não é indicado o tipo de doença pela qual foram vitimados.
As doenças venéreas em Bissau existiam e cada um as escondia da maneira mais airosa que conseguia sem dar muito nas vistas, o que não acontecia em Jumbembem onde todos sabiam que em Jumbembem catota cá tem.
Fui fortemente mordido por mosquitos, abelhas e formigas, mas nunca causaram problemas de maior.
Na minha ida de Bissau para Jumbembem fui de “avião” até Farim e depois tive de ficar em Farim à espera de coluna para Jumbembem. A CCS do meu Batalhão, que já estava em Farim, quando pedi um local para dormir mandaram para um armazém sem portas onde se encontravam em monte uma catrefada de camas. Montei uma cama e deitei-me. Não tinha mosquiteiro e dormi vestido. Por meio da noite, quando acordei, tinha sido invadido por semelhante praga de percevejos que tive de andar a matá-los com uma tábua das caixas das batatas.
Convém aqui recordar de que as batatas para a Guiné não iam em sacos, mas sim em caixas de ripas de madeira fina.
Falava-se muito em sarna, mas nunca tive, nem me apercebi que existisse.
Havia o péssimo hábito do uso da alpercata de enfiar o dedo. Claro que esse péssimo hábito era um chamariz para apanhar matacanha. Pela minha parte dei sempre preferência às botas de lona. Em Jumbembem havia disso a dar com pau e também me calhou uma. Havia nativos que usavam uma ferramenta feita em madeira para tirar a matacanha. Não era permitido nessa tarefa fazer sangue. Os apanhadores de matacanhas eram apelidados de Calonjandas.
Resumindo: Durante todo o tempo que estive na Guiné fui escapando ao paludismo por entre os pingos da chuva que na Guiné até eram bem grossos.
No Quartel General em Bissau, eu ocupava para dormir uma casinha de rés do chão que ficava nas traseiras do lado da bolanha que ia desde a Administração Militar até às proximidades de Bissalanca. A “vivenda” tinha uma sala onde estava instalado um AN-GRC 9, dois quartos e uma casa de banho. Um dia por volta das 4 ou 5 da tarde lembrei-me de ir para o banho. Toalha pela cintura alpercata de enfiar o dedo e aí vai ele para debaixo do chuveiro. Não sei precisar quanto tempo lá estive debaixo do chuveiro, mas deve ter sido um bom bocado. Quando saí comecei a sentir uma forte comichão na sola dos pés. Esfreguei os pés no chão de tal maneira e com tal gana que quando dei por ela sangrava a bom sangrar. Fui direito à enfermaria e fui enviado para o Hospital. Uma vez tratado no Hospital mandaram-me lá estar à meia noite para fazer uma análise ao sangue para detectar um bicharoco que só atuava depois da meia noite. Vim para o QG e por volta da meia noite fui ter com o Senhor Oficial Dia pedindo-lhe que mandasse o Condutor Dia levar-me ao Hospital. O Senhor Alferes riu-se e disse-me. -Vai dormir e vais ver que amanhã pela manhã já estás bom. Eu fui, mas passados 10 minutos andava tudo à minha procura porque já tinham telefonado do Hospital a pedir a minha presença, porque os outros dois já lá estavam. Dei sangue para fazerem a análise, mas o resultado nunca me foi comunicado.
No início da década de 80 e durante uns anos quando era chegado o mês de outubro apareciam-me na sola dos pés umas bolhas com cerca de um centímetro de diâmetro que me impediam de calçar um calçado normal. Tinham de ser lancetadas de uma forma em que a anestesia era morder a aba do chapéu. Isto aconteceu durante uns quatro ou cinco anos e não mais voltou. Não tenho conhecimentos que me permitam relacionar este facto com aquilo que me aconteceu em Bissau.
Regressado a Lisboa, entrei de férias regulamentares durante um mês, tendo passado à disponibilidade a 15 de março do ano de 1967.
Quando fui fazer o resto espólio da roupa que tinha trazido vestida ainda tive de pagar sete escudos e cinquenta centavos para a lavagem dessa roupa, que o nosso primeiro atirou para um monte de trapos.
Com a passagem à disponibilidade foi-me entregue um documento que me obrigava a uma vez em cada mês ir a um departamento militar localizado na Rua Dona Estefânia em Lisboa para levantar medicamentos para o paludismo. O destino dado a esses medicamentos já foi dito num comentário feito ao Post 7012 de 20 de setembro de 2010.[1] Esta obrigatoriedade tinha origem no facto de não ter tido o paludismo durante o tempo que estive na Guiné.
Diziam os entendidos que quem não teve paludismo na Guiné iria ter em Portugal, mas com gravidade muito mais elevada.
Eu não nasci num berço de ouro. O meu berço foi uma canastra velha de ir ao pinhal mais próximo apanhar os chamiços dos pinheiros para alimentar a lareira onde eram colocadas as panelas de ferro para fazer o caldito dos pobres.
Deixo alguns pedidos neste meu documento, que espero sejam respondidos nos comentários.
Desde já os meus agradecimentos com um forte abraço e com votos de muita saúde para todos.
Artur António da Conceição
STICA 2712/63
SPM 2578
26 de outubro de 2026
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2. Comentário do Coeditor CV
Como a partir da caixa dos comentários não se pode publicar imagens, aproveito este post do amigo Artur Conceição para publicar, complementando ao mesmo tempo o seu texto, três boletins de vacina a que fui sujeito durante a minha estadia no Exército Português.
O primeiro boletim diz respeito à célebre injecção em série que se levava ainda na recruta. Diz no registo que fomos vacinados em 9 de Maio de 1969 contra a varíola.
No Funchal, sensivelmente um mês antes do embarque para a Guiné, exactamente no dia 12 de Março de 1970, fomos todos em filinha ao Centro de Saúde do Funchal onde fomos vacinados contra a febre amarela. Finalmente e, provavelmente não menos importante, já na Guiné fomos revacinados, segundo o que está registado, contra a Febre Amarela. Curiosamente a data que consta é 12/3/70, que está errada, porque desembarcámos na Guiné só no dia 17 de Abril de 1970. Talvez quisessem escrever 12/3/71. O carimbo não deixa dúvida, "Serv. Saúde da Guiné Portuguesa Vacinação" _____________
Notas do editor:
[1] - Comentário de Artur Conceição no post Guiné 63/74 - P7012: Doenças e outros problemas de saúde que nos afectavam (1): Paludismo (Rui Silva)
Anónimo disse...
Eu não sei se posso dizer isto!...
Picadelas em Brá, em Bissorã e no Olossato e depois em Farim e Jumbembém apanhei umas boas centenas. Efeitos das picadelas não foram além das coçadelas habituais. Comprimidos nunca engoli nenhum, não pelo seu tamanho, porque até eram pequenitos, mas outra qualquer maluqueira de que não me recordo.
Matacanha apanhei uma que o Mamadu tirou com um canivete de madeira sem consequencias de maior. Das outras só vi no Hospital de Bissau.
Como durante os 24 meses de Guiné não apanhei paludismo, e como os Médicos entendiam que quem não apanhava na Guiné apanhava cá e com consequencias mais graves, acabei por ficar 6 meses de quarentena, pelo que uma vez em cada mês tinha de me deslocar a um Departamento na Rua D. Estefânia onde me era fornecido um saco de medicamentos. E agora não vou dizer o que lhes fazia porque já todos advinharam.
Na Guiné dei sangue por 3 vezes e nunca alguém me perguntou se já tinha tido paludismo.
Depois do regresso dei sangue várias vezes, e a cada vez o Médico perguntava, esteve no Ultramar? Estive na Guiné. Teve paludismo? Não tive. Nunca nenhum acreditou, e só depois da picadela no dedo para retirar sangue para análise, que custava bem mais do que dar sangue, é que acreditavam.
Não digo mais...
Os meus respeitos e a minha admiração para todos aqueles que não tiveram a mesma sorte. Vi muitos aflitos e em grande sofrimento.
Um grande abraço para todos os que apanharam paludismo e para os outros também...
Artur Conceição
segunda-feira, 20 de setembro de 2010 às 15:58:00 WEST
Último post da série de 20 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28451: Retalhos da vida militar (14): A (des) Vantagem de ter duas Especialidades (Artur Conceição, CART 730, Jumbembem, 1965/67)



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