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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28469: Historiografia da presença portuguesa em África (550): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (18): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Março de 2026:

Queridos amigos,
Ganha-se a perceção de que o capitão Brosselard está muito orgulhoso de ter visto hasteada a bandeira francesa em Ziguinchor, e em modo de relatório descreve as novas possessões francesas, deixa-nos um retrato minucioso até da presença portuguesa em Ziguinchor, deixando crítica velada às nossas autoridades por terem consentido que as populações mantivessem usos e costumes que ele classifica como ultrajantes e bárbaros.
Confesso que o aspeto mais luminoso de todo este relato de Brosselard é ele falar no norte da colónia da Guiné portuguesa e a sua grande coesão com o território do Casamansa, logo os negócios entre Cacheu e o rio Casamansa, as matérias primas que iam até Selho vindas do Gabu, o elogio que ele faz da exploração das madeiras, sugerindo que o mesmo deva ser feito no baixo Compony. Aproveita para visitar os arredores de Ziguinchor, e ficamos a saber que o mosaico étnico era praticamente similar, dirá mesmo que as populações estabelecidas no Casamansa e rio Cacheu eram Djolas, Felupes e Banhuns e que os Balantas e Mandingas habitavam no alto Casamansa e no distrito de Farim. Veja-se a ironia da História, o preço de separar povos, etnias vizinhas, com convivências multisseculares.

Um abraço do
Mário



A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 18
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette


Mário Beja Santos

A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".

Após uma apreciação sobre as interligações entre o Casamansa e a colónia portuguesa da Guiné, falando inclusivamente das riquezas em madeiras que se podem encontrar entre o Casamansa e o rio de São Domingos, bem como no rio Cogon, o Capitão Brosselard volta ao Casamansa, vamos registá-lo no seu discurso na primeira pessoa do singular.

As florestas do Casamansa são muito abundantes em casa e servem de antro às legiões de panteras. Durante a minha estadia em Ziguinchor tomei nota que um desses animais vinha todas as noites roubar os porcos de uma povoação vizinha, então fui ao dito lugar e ao cair da noite escondi-me a trezentos metros das casas. Estava acompanhado de um caçador da região que gozava de grande reputação, teve o cuidado de fazer amarrar a alguma distância uma cabra cujos balidos só podiam encorajar o senhor da floresta.

Uma hora, duas horas de espera passaram-se sem que nada acontecesse, tínhamos a luz da lua; enfim, a fera apareceu, avança lentamente, para, parece escutar; não está a mais de sessenta metros de nós e dispõe-se a atirar-se à sua presa. A infeliz cabra treme e lança gemidos que parecem uma oração. Dois tiros ecoam quase ao mesmo tempo; o animal dá um salto formidável, creio no instante que se vai atirar a nós, mas cai e não se mexe mais; a bala da minha carabina atingiu-o no dorso.

Os negros acorrem da povoação, esfolam, cortam a mandíbula porque a pele com as garras e os dentes têm um certo valor. Esta pele é uma das mais belas da minha coleção. Em 1837, a ocupação de Carabane tinha sido cedida da posse da ilha de Guimbéring. Nesse mesmo ano, uma comissão foi encarregue de procurar no rio um lugar favorável para a criação de um posto. A comissão escolheu um lugar de Selho, no Poudhié. Situado no centro de uma região rica, e habitado por uma população inteligente e trabalhadora, este novo estabelecimento só podia prosperar, estando seguro por uma boa proteção. Também se construíram grandes estabelecimentos e rapidamente a escala francesa tomou o aspeto de uma pequena povoação. Encontram-se agora aqui numerosas fontes de água a correr; belas avenidas onde estão plantadas árvores magníficas; há caminhos bem mantidos; uma igreja e uma escola francesa em que prestam serviço missionário. Numerosas e bonitas povoações agruparam-se à volta de Selho cuja defesa está bem organizada.

O forte foi construído ao pé de Selho, à beira-rio, as suas muralhas estão perfuradas por seteiras e os seus bastiões estão equipados com cinco peças de artilharia. A escola se Selho funciona em excelentes condições; é habitualmente frequentada por 79 alunos, alguns são bastante instruídos e fazem exames com sucesso, no fim do ano escolar fazem exames de admissão à escola secundária de S. Luís. Selho recebe algodão trazido do Gabu, exporta muitas toneladas, o resto é empregue na região e trocado com os Felupes e Banhuns. Os principais produtos comerciais são o arroz e o amendoim. Ziguinchor é o grande entreposto do arroz e Selho comercializa o amendoim.

Ensaiou-se a cultura da vinha, uma cepa deu duas colheitas no mesmo ano. Nada tem de extraordinário, pois no Casamansa todos os produtos que enriquecem os países quentes e tropicais dão-se aqui admiravelmente, e os legumes da Europa são cultivados com sucesso. As populações estabelecidas no Casamansa e rio Cacheu são Djolas; os Felupes e os Banhuns no baixo Casamansa e distrito de Cacheu; os Balantas e os Mandingas no alto Casamansa e no distrito de Farim. Os Djolas apresentam muito pouca genuinidade da raça indígena e estão muito misturados por elementos estrangeiros dos países vizinhos. Estes negros embriagam-se com vinho de palma e aguardente, e sofrem a influência nefasta da feitiçaria. Os Felupes habitam sobretudo as regiões pantanosas da margem direita do Casamansa, eles trabalham de uma maneira admirável a cultura do arroz.

As expedições de Hilor e de Thiong, em 1860, asseguraram a soberania da França sobre os territórios dos Felupes. Mas de 1877 a 1888 estes territórios foram devastados por Fodé-Kaba e os infelizes habitantes que puderam escapar à escravatura refugiaram-se sob a proteção dos postos coloniais. Foi assim que muitos povoados se criaram à volta de Ziguinchor. Os seus habitantes vieram em minha solicitação prestar juramento de fidelidade à França.

A sul, os Felupes têm por vizinhos os Banhuns que foram no passado um estado poderoso, eles ocuparam a maior parte dos territórios compreendidos entre a Gâmbia e o Cacheu; os seus reis eram sagrados sobre as pedras fetiches de Piedras e o seu cetro de ouro está conservado em Diagnou, na margem esquerda do Casamansa.

Os Banhuns são afáveis e bons cultivadores; infelizmente, têm por vizinhos bandidos de profissão, os Balantas, que estão espalhados pela margem direita do Geba e chegaram no século XIX ao rio Cacheu, estabeleceram-se nas magníficas florestas de S. Domingos e abriram caminho até ao Casamansa. Caçadores intrépidos, procuram as florestas impenetráveis e cheias de caça, e põem com sucesso uma barreira intransponível ao fluxo mandinga na região compreendida entre o Casamansa e o Cacheu.

Os Mandingas são originários dos países montanhosos do Alto Níger. Contidos pelos Fulas, disseminaram-se na baía superior do Casamansa e conquistaram a região à volta de 1830. Muçulmanos fanáticos e muito guerreiros, eles trazem com eles os germes de uma civilização civilizada.

Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Bilhete postal antigo de Ziguinchor, chegada dos pescadores
Postal antigo de Ziguinchor, chegada do correio
Bilhete postal antigo de Ziguinchor, dançarinos da região
Bilhete postal antigo, Mandingas de Farim
Bilhete postal antigo, Balantas

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 21 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28453: Historiografia da presença portuguesa em África (549): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (17): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)

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