
Mário Beja Santos, ex-Alf Mil Inf
CMDT Pel Caç Nat 52
1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 27 de Outubro de 2026:
Queridos amigos,
Estava indeciso se vos devia falar hoje de uma importante exposição patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea sobre as memórias do Tarrafal, com base numa obra de João Pina publicada na Tinta da China em 2024 ou dar-vos conta de uma amizade que ganhei a um pedaço de terra de barro duro e ácida, onde teimosamente se combate a dureza de um terreno infestado de pedregulhos e onde despontam árvores de fruto, imensos e inesperados catos, suculentos, bolbos, lírios bravos e agapantos. Ganhamos amor a um local, descobrimos nele o que há de belo num terreno cheio de acidentes que se veio encontrar cheio de mato bravio, dizia o anterior proprietário que não queria que ninguém por ali andasse para que não se dessem graves acidentes. Não é bem um jardim zen, é um jardim à medida dos sonhos que cada um de nós, por regra, acalenta, por amor à natureza.
Um abraço do
Mário
Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (277):
Um jardim zen à moda de um jardim de Quioto, no Planalto das Sezaredas
Mário Beja Santos
Vai para uns anos bons adquiri num local chamado Reguengo Grande, uma freguesia do concelho da Lourinhã, já a abicar no distrito de Leiria e concelho do Bombarral, uns casebres que o anterior proprietário tinha em alojamento local. Fartara-se de obras, de desistências em cima da hora, de dificuldades em arranjar pessoal para as limpezas e até reparações. Pronto me afeiçoei ao interior das casinhas (um quarto, uma entrada/sala com cozinha e casa de banho, cada uma) parece terem sido moldadas para o dito alojamento local, o proprietário foi-me mostrando as dependências, os terraços e apontou para o que me pareceu um matagal, fiz-lhe perguntas, sim, o terreno fazia parte das casas, era muito pedregoso, temendo acidentes para os sucessivos usuários das casas, deixara crescer todo aquele mato bravio que indispunha qualquer curioso a meter-se por ali a dentro. Enquanto apalavrávamos o negócio, o dito senhor perguntou-me, depois de me dizer categoricamente que o preço não era negociável, que obras eu pretendia que ele fizesse antes da venda. Não fui peco a pedir: pinturas dos casebres, limpeza dos ladrilhos dos terraços e remoção daquela vegetação anárquica, queria saber o que me esperava para ali, tanto quanto possível, ajardinar. Cumpriu à risca, e quanto ao jardim dei com um declive tendo à entrada duas laranjeiras, uma infinidade de infestantes, um loureiro monumental e uma figueira.
Devo dar uma explicação para o título que usei para este texto, é um tanto bombástico e não cumpridor da verdade. De facto, um jardim zen tem a singularidade de assentar em rochas e muita areia. Este, que me coube, era uma terra barrenta e ácida, via-se imediatamente que tinha de trazer umas boas sacas de terra, testar o que ali podia medrar. Havendo barro pesado e ácido, era natural que ali se pudessem dar bem bolbos, catos, suculentos, narcisos, beladonas. Foi por aqui que começou a aventura jardineira, com o empolgante desafio de tentar de pôr plantas nas fendas e resquícios das rochas. Chegou a hora de mostrar as imagens e contar o que se ensaiou, o que resultou e o que fracassou.
Encostado a uma parede do terraço, acredita-se piamente que esta glicínia, que já pareceu ter morrido duas vezes, desta vez vai singrar. A glicínia pode demorar 15 anos para florescer, aquelas lianas têm que ser fixadas, conduzidas em linhas horizontais ou numa pérgola, dá aqueles cachos pendurados, tantas vezes de cor roxa, com os anos os troncos robustecem, a glicínia dura uma vida. E há aquele combate constante de limpar à volta, as infestantes não dão descanso. Foi aqui que tudo começou à volta das duas laranjeiras, limpando todo aquele mato fora de controlo.
É um exercício feito de paciência, aproveitar estas trinchas e estar atento à evolução dos catos, eu maravilho-me com este fulgor da natureza, como arrebitam catos dentro destes pedregulhos de calcário que devem ser muito anteriores ao Quaternário.
Está na estação do plumbago, já por aqui perto andaram agapantos e lírios bravos
Perco-me, extasiado, com estes sinais da natureza, catos teimosos, resistentes, ornam estas massas calcárias de eras muito antigas, há catos que dão flor, percorre-se com cuidado à procura de frinchas para meter mais catos, isto quando também se anda à procura de como estão as árvores de fruto que se plantaram, houve uma pereira que deu sinais de raquitismo e depois espigou, houve uma ameixoeira no primeiro ano da compra da casa deu umas ameixas amarelas saborosíssimas e depois secou… a vigilância tem de ser permanente, felizmente que nas ausências a nossa amiga Susana, uma vizinha adorável e que mora lá em baixo junto ao vale, sobe até aqui e põe a mangueira a funcionar. Com o andar da experiência, as perdas são cada vez menores.Não dava nada por estes catos há um ano, bem me enganei, olho-os com a emoção de sentir a natureza vibrante, lutadora, a seu modo espetacular.
Uma imagem de baixo para cima, impõe-se ter um caminho bem definido por aqui amarinhar, descendo vou todo lampeiro ver a pereira tratada, a figueira limpa de infestantes, saber, como agora se sabe, que aqui podem crescer fisálias, jarros, malmequeres, açucenas; o loureiro está bom de saúde e recomenda-se, há um loendreiro branco, há sálvia mexicana, sálvia branca e púrpura, nerina que tem uma cabeça como se fosse um agapanto, não falta lantana nem alecrim, nos meses de verão delicio-me com tanta policromia.
O antigo e o novo, a árvore já cá estava, o cato veio com os novos proprietários
Detenho-me a olhar para o vale e a ver no topo da colina moinhos e miradouro, cá em baixo a Susana e o Henrique têm a terra em pousio, agora dedicam-se também à vinha, estou ansioso que plantem abóboras para eu fazer sopas.Andei à procura do ângulo para tirar esta imagem, não tive fé nenhuma neste cato, pensei que desaparecesse com a primeira invernia, agora estou de joelhos a fotografá-lo, viçoso e saudável.
Uma outra perspetiva, o casario no topo de uma outra colina, e moinhos não faltam
Chegou o outono, mas na aspereza deste solo de barro pesado e ácido, como gotas de sangue, estas flores voltam-se para a luz do sol.Daqui a umas semanas tenho à minha disposição umas laranjas sumarenta, mas um tanto ácidas, nada sei da limpeza das laranjeiras e a saúde do meu amigo Henrique fraqueja, paciência.
Despeço-me com duas imagens que só são idênticas na aparência, um pouco de vale no seu pousio, e dois níveis do casario, detenho-me às vezes a pensar nas alegrias que a vida nos dá, este permanente combate para que a terra seja vicejante, e sempre num estado de fé de que este Planalto das Sezaredas não venha a ser alvo de cobiças que lhe retirem a placidez de uma orografia que nos fala do esplendor da pedra, como se tivéssemos saído ontem da última etapa da Pré-História.
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Nota do editor
Último post da série de 24 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28460: Os nossos seres, saberes e lazeres (756): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (276): Os quadros de António Palolo, a sua alegria luminosa, as cores incandescentes, as transbordantes secções do mundo (Mário Beja Santos)

















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