Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Victor Costa (2022)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)
1. Há 13 anos atrás, fizemos aos nossos leitores um inquérito por questionário "on line" sobre as "praxes" militares. O período de respostas decorreu entre 14 a 20 de fevereiro de 2013. Pedia-se a opinião do leitor em relação à frase "As praxes aos piras, no meu tempo, não lhes fizeram mal"...
Responderam 81 leitores. Comentámos, na altura:
(i) os resultados evidenciam um certa fratura relativamente à questão em apreço;
(ii) e qualquer modo, as respostas negativas poderão estar enviesadas pelas denúncias, nestes últimos anos, de abusos cometidos com as praxes quer académicas quer militares, abusos de que a comunicação social se tem feito eco;
(iii) alguns de nós poderão também ter passado por experiências individuais negativas, nomeadamente cá na Metrópole, no período de instrução militar (recruta e especialidade);
(iv) apenas 1 em cada cada 4 dos respondentes à nossa "sondagem" discorda do enunciado, revelando por isso uma opinião negativa em relação às praxes a que eram submetidos, no TO da Guiné, os "piras" (abreviatura de "periquitos", os recém-chegados);
(v) um em cada cinco não tem opinião sobre o assunto, não se tendo prounciado a favor ou a contra;
(vi) pelo contrário, mais de metade (53%) dos respondentes manifestou uma opinião favorável às praxes e aos efeitos benéficos sobre os "piras"...
Todos, de uma maneira ou doutra, fomos submetidos à praxe da receção. A maior parte, resumia-se às estafadas "bocas" dos "velhinhos": "Piriquito, vai p'ró mato!"
(iv) apenas 1 em cada cada 4 dos respondentes à nossa "sondagem" discorda do enunciado, revelando por isso uma opinião negativa em relação às praxes a que eram submetidos, no TO da Guiné, os "piras" (abreviatura de "periquitos", os recém-chegados);
(v) um em cada cinco não tem opinião sobre o assunto, não se tendo prounciado a favor ou a contra;
(vi) pelo contrário, mais de metade (53%) dos respondentes manifestou uma opinião favorável às praxes e aos efeitos benéficos sobre os "piras"...
Todos, de uma maneira ou doutra, fomos submetidos à praxe da receção. A maior parte, resumia-se às estafadas "bocas" dos "velhinhos": "Piriquito, vai p'ró mato!"
2. O Victor Costa (1952-2026) que chegou ao CTIG a um mês do 25 de Abril, e que era de rendição inidvidual, já aqui tinha partilhado connosco as suas memórias da ida para a Guiné e da receção que teve no QG/CTIG...
De algum modo, foram "pequenos segredos" que ele-nos quis contar, mesmo sabendo nós que "há segredos que não se contam, vivem-se": por exemplo, terá sido graças às praxes do bar de sargentos do QG/CTIG, à sua chegada, que ele se terá tornado um bebedor (moderado) de uísque, ao longo da sua vida.
São impressões que, mais de 500 anos depois dos primeir0os navegadores do Infante Dom Henrique terem bebido a água do Geba, vão "enriquecer" a história com h pequeno da presença dos "tugas" naquele pedaço de terra da África Ocidental (na altura, a Senegâmbia):
Foi com as praxes ("Piriquito, vai p'ró mato!...), que comecei a beber o bom uísque velho
por Victor Costa (1952-2026)
(i) CICA 2: a "política" não fazia parte do programa da semana de campo...
(...) Cruzei-me várias vezes com o Jaime Gama no CICA 2 (Centro de Instrução de Condução Auto nº 2, na Figueira da GFoz) , mas apenas falei com ele 4 vezes durante um serviço comum, ele no papel de Oficial de Dia e eu no papel de Sargento de Dia.
Foi o único contacto directo que tive e por isso não dá para falar do ex-Presidente da Assembleia da República, enquanto pessoa ou militar. Desse dia recordo a imagem dum indivíduo pouco falador, não dava nas vistas, não era vaidoso, não era militarista mas cumpria as regras. Depois da minha mobilização foi um exemplo a seguir para evitar problemas na tropa.
No final da recruta do 1.º turno em fevereiro de 1974, no CICA 2, realizou-se a semana de campo numa mata chamada Foitos, localizada na freguesia de Louriçal. Apesar de ter decorrido sem incidentes, ficou gravada na minha memória para sempre.
No final da recruta do 1.º turno em fevereiro de 1974, no CICA 2, realizou-se a semana de campo numa mata chamada Foitos, localizada na freguesia de Louriçal. Apesar de ter decorrido sem incidentes, ficou gravada na minha memória para sempre.
No penúltimo dia da dita semana, uma 5.ª feira, houve melhoria de rancho, o Vitor Costa pouco bebia e não era todos os dias que se comiam febras na brasa (rancho melhorado) e eu aproveitei a oportunidade para regar as febras com tintol.
Com o aproximar da noite, a bebida a subir à cabeça e eu, eufórico, decidi fazer uma sessão de esclarecimento à tropa contra a guerra colonial, estava a dita tropa já acomodada dentro das viaturas Morris cobertas com toldo.
Com o aproximar da noite, a bebida a subir à cabeça e eu, eufórico, decidi fazer uma sessão de esclarecimento à tropa contra a guerra colonial, estava a dita tropa já acomodada dentro das viaturas Morris cobertas com toldo.
Que seca... deviam pensar os soldados, quem pensa este gajo que é. Quando terminei a sessão, lá fui para o acampamento do "IN" a que pertencia, salvo erro, com a arma e as munições simuladas.
No dia seguinte, sexta-feira, com a boca ainda seca, começaram os preparativos para a tropa regressar ao quartel e o Victor Costa ia recordando as peripécias da noite anterior e nem me queria lembrar daquilo que tinha feito.
No dia seguinte, sexta-feira, com a boca ainda seca, começaram os preparativos para a tropa regressar ao quartel e o Victor Costa ia recordando as peripécias da noite anterior e nem me queria lembrar daquilo que tinha feito.
Na segunda-feira seguinte e durante a semana tudo decorreu sem incidentes e eu, já mais calmo, comecei a pensar que afinal não tinha dado nas vistas.
Mas veio a outra segunda-feira e, às nove horas da manhã, chamaram-me pelo altifalante do quartel, ao gabinete do 2.º comandante, o major Pires. Ao chegar à porta faço anunciar-me, faço a continência e, "V.ª Ex.ª meu Major dá-me licença", segue-se um momento de silêncio e lá veio a resposta:
− Entre, nosso cabo miliciano, esteja à vontade.
− Entre, nosso cabo miliciano, esteja à vontade.
Seguiu-se um período de silêncio.
− Então a semana de campo correu bem ?! − pergunta-me de chofre.
Seguiu-se um período de silêncio e lá veio a resposta.
− Sim, meu major, correu bem...
− Hum − ouvi eu...
− Mas ouvi dizer que houve política, que não estava no programa da semana de campo...
Silêncio.
Seguiu-se uma lição de meia hora sobre dever, disciplina, exemplo a dar à tropa, a política não era para ali chamada etc. E a terminar:
− Olhe, quero dizer-lhe que foi mobilizado para a província portuguesa da Guiné para render um camarada seu. É tudo, pode sair.
Faço a continência, despeço-me, dou meia volta aos tacões e lá segui para casa, com a convicção que tinha mijado fora do penico e falado de mais.
Daquela reunião com o 2.º comandante, fiquei também a saber com quantos paus se faz uma canoa, ou seja, havia um pau que tinha uma ponta no bico e tinha havido uma mão que tinha aproveitado o pau para escrever.
(ii) Piriquito vai no mato... ólé-lé-lé
Aqui começou o início de uma nova vida, seguiram-se 10 dias de licença para tratar da farda e da papelada, no Depósito Geral de Adidos de Lisboa, e apanhar um Boeing 727 dos TAM (Transportes Aéreos Militares) em Lisboa e daí para Bissalanca.
Até nisso eu tive sorte, porque foi a primeira vez que andei de avião. Ao chegar a Bissalanca já tinha uma carrinha Mercedes do Exército para me levar para os quartos do QG/CTIG, em Bissau, junto ao bar de Sargentos.
No outro dia depois de arrumar a mala com o fardamento e outros pertences, dirijo-me para o dito bar e, ao passar pelas mesas na esplanada, começo a ouvir umas bocas que me eram dirigidas, não liguei e dirigi-me para o balcão.
As bocas, "piu... piu... piu"..., eram de gozo, divertidas, nunca as tinha ouvido e com tendência para aumentar.
No outro dia depois de arrumar a mala com o fardamento e outros pertences, dirijo-me para o dito bar e, ao passar pelas mesas na esplanada, começo a ouvir umas bocas que me eram dirigidas, não liguei e dirigi-me para o balcão.
As bocas, "piu... piu... piu"..., eram de gozo, divertidas, nunca as tinha ouvido e com tendência para aumentar.
Que sorte, eu a pensar que ia ver gente triste e carrancuda e sai-me esta cena... A seguir, de uma das mesas, começa um coro, que só lhe faltava a música.
Hoje já não existem praxes pelo menos daquele tipo, para mim que sempre gostei de praxes, esta foi do melhor, ser praxado permite conhecer novas pessoas e uma boa integração melhora o nosso moral.
Entretanto o coro foi aumentando:
Piriquito vai no mato... ólé-lé-lé
que a velhice vai no Bissau... óla-ré-lé-lé
salta, salta piriquito... ólé-lé-lé
que a velhice já saltou...óla-ré-lé-lé
E a festa continuou.
Numa das mesas as picadelas tornaram-se mais fortes e foi para lá que eu me dirigi para os cumprimentar. Nem parecia que tinha chegado à Guerra;
Entretanto o coro foi aumentando:
Piriquito vai no mato... ólé-lé-lé
que a velhice vai no Bissau... óla-ré-lé-lé
salta, salta piriquito... ólé-lé-lé
que a velhice já saltou...óla-ré-lé-lé
E a festa continuou.
Numa das mesas as picadelas tornaram-se mais fortes e foi para lá que eu me dirigi para os cumprimentar. Nem parecia que tinha chegado à Guerra;
− De onde és ? − pergunta um.
− Não havia sol lá na terra ? −diz outro.
− Para onde vais?
− Vai trocar as divisas porque essas cheiram a leite! ...(Ainda hoje tenho as divisas de outro furriel.)
− O que queres beber ?
Foi aqui que comecei a beber o bom Whisky Old Parr, simples e seco, porque a água estraga o whisky e este, 5$00 a bolha e 127$50 a garrafa, era barato.
(...) Depois de começar a beber bom Whisky é difícil parar, só temos que manter o controle da situação. A primeira coisa que me lembro quando cheguei à CCaç 4541/72, foi da minha deslocação ao barraco, perdão queria dizer Bar, pedir um Old Parr e o soldado dizer que não havia, porque dava prejuízo... Foi a minha oportunidade para saber quantas bolhas tinha uma garrafa e ensinar o soldado a gerir o bar.
(...) Depois de começar a beber bom Whisky é difícil parar, só temos que manter o controle da situação. A primeira coisa que me lembro quando cheguei à CCaç 4541/72, foi da minha deslocação ao barraco, perdão queria dizer Bar, pedir um Old Parr e o soldado dizer que não havia, porque dava prejuízo... Foi a minha oportunidade para saber quantas bolhas tinha uma garrafa e ensinar o soldado a gerir o bar.
De facto 5$00 por cada dose e sendo elas 28, dava para ganhar dinheiro, mas a melhor opção seria vender do Dimple porque a garrafa custava 125$00, ainda hoje é raro o dia, não beber um uísque a seguir ao almoço.
As moedas que ainda mantenho na minha posse têm a ver com uísque. Na tropa aprendi que há limites para tudo e 10$00 correspondia a dois uísques e eram suficientes para andar direito, não falar demais, não dar nas vistas e não fazer coisas que nos tragam problemas. É o melhor remédio
(iv) Ordem para ir fazer o espólio de um morto
(...) Só no dia seguinte é que comecei a ouvir relatos sobre a guerra. O ambiente era bom, não fosse a saturação e a pancada no sotão, com alguns "velhinhos", com mais de 28 meses de comissão (!), fartos daquilo que era a fruta da época, a aguardar que os mandassem para casa.
Na minha primeira visita ao "Barracão" (perdão queria dizer Hospital Militar de Bissau), para visitar uns amigos do "velho" furriel Bilhau, da Leirosa, é que vi que tinha chegado à Guerra.
No dia 17 de março de 1973, ao som do altifalante e da voz de Raul Solnado, que falava das munições da Guerra de 1908, recebi a ordem para fazer o espólio dum furriel miliciano morto em combate na região de Bafatá e que era o objecto da minha mobilização.
No dia 17 de março de 1973, ao som do altifalante e da voz de Raul Solnado, que falava das munições da Guerra de 1908, recebi a ordem para fazer o espólio dum furriel miliciano morto em combate na região de Bafatá e que era o objecto da minha mobilização.
Foi um momento difícil:
- conhecer o historial desse camarada,
- fazer a seleção dos seus pertences para os enviar à família;
- e queimar a correspondência imprópria das cartas enviadas por cinco mulheres ou raparigas que com ele tinham tido uma relação muito íntima (não sei se seriam madrinhas de guerra ou outra ligação qualquer, a verdade é que aquele tipo de escrita até dava vida a um morto).
Fiquei então a saber que a fotografia dele de camuflado com chapéu à cowboy com a Walther de 9 mm a pender para o lado direito, pronta a sacar, não era nada, quando comparada com a dita escrita das cartas.
Apenas o vi em fotografias, não vi nem o caixão. E a dita escrita não permitiu saber que tipo de vida levava na Metrópole. Prefiro recordá-lo apenas como um guerreiro com tomates.
Entretanto, a dita rendição para Bafatá nunca se concretizou, nem cheguei a saber a razão. O facto é que fui direitinho para a CCaç 4541/72, em Safim, para aprender a arte da guerra.
Entretanto, a dita rendição para Bafatá nunca se concretizou, nem cheguei a saber a razão. O facto é que fui direitinho para a CCaç 4541/72, em Safim, para aprender a arte da guerra.
(v) Sem complexos de esquerda ou de direita
(...) Destas recordações sobre a minha mobilização para a Guiné, resta-me apenas um papel timbrado que a grande maioria não possui, que guardo como recordação e sem complexos de esquerda ou de direita.
O facto de ser contra a situação da guerra nas ditas colónias, refletia o pulsar da juventude do meu tempo e ela só trazia problemas.
Mas uma vez chegado à guerra da Guiné, o meu lado da barricada estava escolhido, a minha obrigação era cumprir e fazer cumprir as ordens, respeitar a hierarquia e fazer a guerra, ali comecei a respeitar aquele povo.
Mas também a aprender que, afinal, além de ter costelas de esquerda, tinha uma mão direita e um dedo que disparava a G3 apenas com o apoio do braço e da anca do mesmo lado e enquanto existissem ordens as ditas eram para funcionar.
A minha passagem pela Guiné mostrou-me que, se o Regime que nos conduziu à Guerra não era bom, o PAIGC não era melhor e as minhas costelas de esquerda começaram a perder força.
A minha passagem pela Guiné mostrou-me que, se o Regime que nos conduziu à Guerra não era bom, o PAIGC não era melhor e as minhas costelas de esquerda começaram a perder força.
Entre outras coisas eu consegui uma Declaração em papel timbrado de uma comissão por imposição, que nem o filho do Secretário do Gabinete do Ministro das Colónias, Baltazar Rebelo de Sousa, dessa altura, tem. (...)
(Seleção, revisão / fixação de textro, negritos, título: LG)
(Seleção, revisão / fixação de textro, negritos, título: LG)
Nota do editor LG:















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