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domingo, 25 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28846: Humor de caserna (299): Só foi pena os lagostins, após o "incidente" com o Unimog, na estarda Enxudé-Tite, terem conseguido voltar, a nado... à bolanha

















Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Carlos Barros (2021)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI (2026)



1. Mais uma "pequena história" do Carlos Barros: 

(i) ex-fur mil, 2ª C/BART 6520/72 (Bolama, Bissau, Tite, Nova Sintra, Gampará, 1972/74), "Os Mais de Nova Sintra", os últimos a ocupar o aquartelamento de Nova Sintra antes da sua transferência para o PAIGC em 17/7/1974; 

(ii) membro da Tabanca Grande nº 815;

(iii) autor da série "Pequenas histórias de Nova Sintra"; 

(iv) tem c. de 4  dezenas de referências no nosso blogue; 

(v) vive em Esposende; 

(v) é professor reformado. 

Republicamos uma essas pequenas histórias, desta vez  passada na estrada Enxudé-Tite (*). Uma delícia. Afinal, na guerra, não havia só tragédias, mortes em combate,  acidentes mortais, doenças tropicais, tornados, naufrágios... 

Claro havia acidentes de viação, quase-acidentes, incidentes... As estradas eram más,   as bajudas bonitas e os lagostins...uma tentação!



Guiné > Região de Quínara > Carta de Tite (1955) > Escala 1/50 mil > Posição relativa da estrada Enxudé-Tite

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2026)

 

Só foi pena os lagostins,  após o "incidente" com o Unimog,  na estrada Enxudé-Tite, terem conseguido voltar, a nado... à bolanha

por Carlos Barros



O 3º grupo de combate do 2ª CART / BART 6520, com quartel em Nova Sintra, esteve de serviço de segurança à estrada de Tite -Enxudé. 

Como habitualmente, os soldados foram transportados em viaturas Berliet, ocupando cada grupo de dois soldados as suas posições ao longo da estrada, ladeada por extensas bolanhas onde abundavam muitos lagostins e camarões, por sinal saborosos.

Num desses dia, um condutor ia buscar o almoço à cozinha de Tite. Na viagem deu boleia, o que era proibido, a uma jovem africana que andava na apanha desse marisco e já tinha um enorme cesto cheio de lagostins.

Aconteceu então algo de inesperado, que poderia ter trágicas consequências. O condutor, com a jovem ao lado, despistou-se com o Unimog. E foi tombar na bolanha, tendo-se virado o cesto com os lagostins que rapidamente ficaram no seu “habitat”... aquático. 

O furrielda "ferrugem"  soube do sucedido e, depois de ouvir o condutor, refletiu sobre a situação e “branqueou” o acidente, não chegando este ao conhecimento do capitão. O que, a acontecer, teria consequências, com castigo grave para o soldado. 

Neste acidente, milagrosamente, não se registaram feridos. Foi apenas um grande susto!


Carlos Barros
Foi um momento infeliz do condutor que pediu imensa desculpa pelo sucedido, assumindo plenamente a culpa e livrando-se de um processo que lhe traria vários dissabores  (por sinal, já não me recordo do seu nome…). Prometeu futuramente não transportar mais civis na sua viatura.

O furriel Barros, que se encontrava de serviço com este seu grupo, deu uma “ajudazinha ao condutor”: afinal,  a guerra propiciava estas aventuras, por vezes pouco refletidas, e que eram fruto da irreverência da juventude.

Naturalmente, após estes longos anos,  afastado da guerra, o ex-furriel Barros, agora professor, pode  descrever, em liberdade, esta história, com um cunho muito real...

Só teve pena dos lagostins que se perderam nas águas da bolanha... 

Mas podem acreditar que, no fundo do cesto, ainda ficaram alguns que tiveram o destino que os leitores estão a pensar…


Tite, 1972 | Nova Sintra, 1974.

Esposende 1 de fevereiro de 2021

Carlos M. de Lima Barros
Ex.fur mil Barros, 2ª C/BART 6520/72 (Nova Sintra, 1972/74)

(Revisão/fixação de texto, negritos, título: LG)

2. Comentário do editor LG: 

Carlos, a tua história tem um final feliz...Se houvesse mortos ou feridos, a tua margem de manobra era nula ou muito mais reduzida... Felizmente soubeste resolver, tu (e o furriel da "ferrugem"), com inteligência, bom senso, responsabilidade... e camaradagem, este "incidente" ou "quase-acidente"... Seria acidente se houvesse "baixas"...

Alguns dirão: ah!, o nosso desenrascanço, o nosso nacional-porreirismo, o corporativismo "tuga".  que nos leva a proteger uns aos outros, etc. Acidentes com viaturas foram "mato", isto é, houve muitos e alguns graves... Acidentes com armas de fogo, "fogo amigo", etc., houve de tudo ao longo da guerra...É preciso "contextualizar" tudo isto...

"Proibido dar boleia às bajudas ?!"...

No meu tempo, não, fazia parte da "psico"...Era também a nossa boa ação de escuteiros...que tínhamos de fazer todos os dias...E então, Carlos, as 14 obras de misericórdfia que tínhamos de praticar ao longo da comissão ? Sete espirituais, sete materiais ? Dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, enterrar os mortos, ajudar as crianças, as mulheres e os velhos a  atravessar a picada e voltar para casa... 

Enfim, pagar amor com amor!... Não foi isso que aprendemos na cataquese ?...

Bem, mas gostei da história... E fiz questão de a reproduzir, com alguns retoques e direito a BD, na série "Humor de caserna" (**)... E concordas comigo: os lagostins do Geba eram de chorar por mais... Mas as bajudas que os apanhavam, também eram lindas de morrer... e os nossos jovens condutores julgavam que "fazer pisco" também passava por dar boleia às bajudas lindas de morrer...Bolas, do Enxudé a Tite ainda 12 km a penantes...E, ainda, por cima, com um balaio carregado de lagostins!...

E quanto às questões de saúde... pública: naquele tempo não havia poluição, nunca tive problemas com as ostras em Bissau, com os lagostins em Bambadinca...O único problema era a conservação em frio... Por isso é que os guineenses defumavam ou secavam o peixe... Como se fazia na minha terra há 70 anos, até chegar a electricidade e o frigorífico... Salgava-se e secava-se ao sol o peixe, que sobrava, a pensar no inverno quando o pescador não ia ao mar... Guardavva-se nas palhas de trigo ou centeio...Batatada raíz-de-cana, e peixe seco (arraia, safio, sapata, cação...), etc., não ficam atrás dos nossos "lagostins" do Geba, que em Bambadinca me custavam 50 pesos o quilo...na tasca do Zé Maria "turra"...
 
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(**) Último poste da série > 18 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28446: Humor de caserna (298): O inconfundível traço do nosso MigSilva, o grande cartunista e ilustrador Mário Miguéis da Silva, de Esposende, que foi a alma de "O Saltitão", o jornal de caserna da CCAÇ 2701 (Saltinho, 1970/72), comandada pelo então cap inf Carlos Trindade Clemente (I)

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