1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 11 de Março de 2026:
Queridos amigos,
Considero que nesta fase da narrativa do Capitão Brosselard surgem várias observações francamente atrativas para a investigação historiográfica. Já vimos como ele aprecia a importância estratégica do Ziguinchor, como, implicitamente, se tornava de toda a conveniência necessário afastar a presença portuguesa do rio Casamansa. Dá-nos uma descrição de Ziguinchor no exato momento em que partimos. Faz uma apreciação da presença portuguesa na região desde o século XVII, refere ou Grumetes e Manjacos e a riqueza das madeiras que se encontram tanto na colónia francesa como na colónia portuguesa. Eu desconhecia que desde 1830 as florestas situadas entre o Casamansa e o rio de São Domingos eram exploradas pelo Governo português, e Brosselard não se acanha de propor a exploração destas madeiras na região do rio Cogon. Goste-se ou não, até porque a História não pode ser posta em tribunal nem sujeita a ressentimentos, é implícito nas observações de Brosselard que havia uma coerência territorial que a ganância política desconsiderou. A memória da identidade não se perde e vejam-se as sublevações do Casamansa que não se sente integrado no Senegal.
Um abraço do
Mário
A Guiné vista por estrangeiros - 1:
A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard – 17
Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette
Mário Beja Santos
A narrativa do Capitão Henri Brosselard é relevante na medida em que exprime o ponto de vista do chefe da missão francesa à primeira demarcação das fronteiras da recém-criada Guiné portuguesa, uma narrativa que deve ser aferida com a do Tenente da Armada-Real Costa Oliveira, chefe da missão portuguesa, esta aqui já publicada no blogue e que irá reaparecer no meu livro "Guiné Bilhete de Identidade Tomo II".
Retomando a narrativa, estamos em pleno Casamansa, o Capitão Brosselard rememora dados históricos da presença portuguesa, refere que no século XVII os portugueses se tinham estabelecido no Cacheu, São Domingos, Farim, Ziguinchor e um conjunto de outros lugares. Quem vinha, casava ou coabitava, com as mulheres do país, daí a numerosa população mestiça existente na Guiné. Estas alianças luso-africanas facilitaram as aproximações e as boas relações com os indígenas porque o islamismo não impede ainda que o negro aceite os princípios dos europeus.
Também uma multidão de indígenas fixados perto dos portugueses e unidos por laços de sangue se adaptaram sem resistência aos costumes dos recém-chegados, sofrendo a sua influência religiosa. Assim se formou a população dos Grumetes e dos Manjacos. Os que nós vimos trazem muitas vezes um Cristo em cobre sobre o peito: é uma herança dos seus ancestrais. Apresentando-se como cristãos, os Manjacos são polígamos, bebedores e muito debochados. Porém, são bons agricultores e bons marinheiros. As suas mulheres vestem-se com uma certa elegância e muitas vezes com distinção. Todas as cerimónias, casamentos, enterros, etc. são para os Manjacos uma ocasião para beber aguardente e vinho de palma. Quando uma rapariga se casa, todas as mulheres da povoação se juntam, vestem-se a primor e acompanham-na com cantos e gritos, de casa em casa. É do uso oferecer um presente à noiva e vinho de palma ao cortejo.
Nos dias de festa religiosa ou de procissões passeia-se igualmente pela povoação e os manifestantes fazem novas libações por cada casa por onde passam. Pode avaliar-se da compostura dos fiéis após algumas horas de peregrinação nas ruas. Toda esta gente fala um português incorreto.
O pântano de Cajanolle é um canal de comunicação entre o Casamansa e o rio Cacheu, desagua neste rio, perto de Bolor, que era, há alguns anos, um estabelecimento de uma grande importância, e servia de sanatório a Cacheu. Esta povoação está hoje em decadência; fundada em 1588, foi outrora o centro mais importante dos portugueses nesta costa e o único estabelecimento que tinha a aparência de uma povoação. Tinha alguns funcionários, uma numerosa população branca e as relações com a Europa eram frequentes.
A povoação de Cacheu tinha um aspeto muito especial bastante pitoresco. Existia aqui, ao que parece, uma sociedade de gente destemida que operava com a maior tranquilidade fazendo vigilância desde o anoitecer. Não era preciso contar com a guarnição porque as rondas que eles faziam eram quase tão temidas como os encontros com os bandidos. Atualmente a povoação de Cacheu compõe-se de 1800 habitantes, um terço são brancos. Um forte em más condições, armado de doze canhões, protege a povoação encravada nos limites estreitos de uma muralha feita de terra. O rio Cacheu é navegável até ao posto de Farim, cuja situação no interior corresponde à de Selho; mas esta escala está longe de ter a importância da sua vizinha do Casamansa.
A região compreendida entre Cacheu e o Casamansa a este do pântano de Cajanolle está coberta de magníficas florestas mais ou menos impenetráveis, alguns caminhos permitem passar do rio francês para o rio português. Paralelamente a estes dois rios, é praticamente impossível circular à volta, porque as florestas só têm claridade na vizinhança da fronteira mandinga, no Alto Casamansa.
Todas as madeiras que aqui se encontram são apropriadas para construção; podem convir tanto para marcenaria como para a construção de mobiliário de luxo e poderão ser objeto de um comércio próspero. Porém, será necessário escolher com discernimento os territórios de exploração, porque haverá dificuldades intransponíveis de penetrar em certos lugares destas florestas, e tentar uma exploração longe de zonas pantanosas que não permitem o escoamento de madeira pelos rios.
No Casamansa e Cacheu constroem-se numerosas embarcações com estas madeiras admiráveis, e desde 1830 as florestas situadas entre o Casamansa e o rio de São Domingos são exploradas regularmente pelo Governo português.
Trabalhadores vindos de Lisboa escolhem as madeiras e dirigem a operação; a exploração faz-se do lado do rio Cacheu. Todos os anos, um ou dois barcos vindos de Lisboa carregam estas madeiras destinadas às construções navais. Os barcos que fazem este transporte são construídos com as madeiras provenientes destas florestas.
Uma das árvores mais procuradas pelos portugueses pela sua duração e inalterabilidade é a missanda ou árvore de água vermelha, a sua casca avermelhada é um veneno violento, serve para compor a vida que os negros empregam na prova do julgamento de Deus.
Esta madeira não é atacada nem pela humidade nem pelas térmitas. Creio que poderia ser vantajosamente utilizada para fornecer as chulipas dos caminhos de ferro do Senegal.
Podemos constatar com satisfação que todas as essências do Casamansa se encontram igualmente nas margens do Cogon. Sobre um percurso de 400 a 500 quilómetros, este rio está bordejado por uma espessa floresta onde se amontoam árvores magníficas. Nas margens do Cogon mais ainda do que nas do Casamansa, será fiável explorar as madeiras. Poder-se-ão lançar as árvores no rio e levá-las pela corrente até ao baixo Compony, onde será fácil estabelecer uma serração.
Capitão Henri Brosselard, gravura de Thiriat, segundo uma fotografia
Neste bilhete postal faz-se referência aos 212 mil africanos de toda a África ocidental francesa que combateram pela França na I Guerra Mundial. O corpo dos atiradores senegaleses foi criado por Louis Faidherbe, familiar próximo do capitão Henri Brosselard-Faidherbe, Louis Faidherbe foi governador geral da África ocidental francesa. Só muito recentemente a França se ressarciu do tremendo silêncio da sua historiografia, estavam esquecidos os 30 mil mortos vindos da África ocidental.
Bilhete postal da Guiné francesa, um caçador Coniagui
Bilhete postal antigo mostrando o porto de Dakar
Comerciante de Cayor, Senegal, 1910
(continua)
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Nota do editor
Último post da série de 14 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28436: Historiografia da presença portuguesa em África (548): A Guiné vista por estrangeiros - I: A viagem na Senegâmbia e na Guiné Portuguesa pelo Capitão Henri Brosselard (16): Le Tour du Monde, nouveau journal des voyages, 1889, 1.º semestre, Livraria Hachette (Mário Beja Santos)







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